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É a essa euforia, de tonalidades demagógicas e plena de contradições, que se refere, por sua vez, o escritor Silviano Santiago, ao reler seus primeiros ensaios, dedicados então ao “conhecimento e desenvolvimento das artes e das culturas nacionais do Terceiro Mundo” e marcados pela teoria da dependência econômica. Sua releitura desses prototextos, feita em abril de 2002, sugere que “os novos tempos se alimentam de ideias discutidas nestes já velhos textos”,* o que serviu como estímulo a prosseguir discutindo-os através de um trabalho que, de fato, começou em 1998 por meio do testemunho de duas pessoas particularmente comprometidas com o tema: Nicolás Rosa e Héctor Schmucler, precoces leitores e tradutores de Roland Barthes na Argentina, a quem tive a sorte de reunir em agosto daquele ano, em Florianópolis. A partir de então, passo a realizar entrevistas com os quatro críticos-escritores mencionados anteriormente e também com o psicanalista Germán García e o cientista político Ernesto Laclau. O diálogo entre Rosa e Schmucler é paradigmático: a princípio não aceitam a relação com os teóricos franceses, mas pouco a pouco e com bom humor vão considerando-a mais e mais. Sendo assim, para além dos rigores nacionalistas dos anos 60 e 70, a marca dos pensadores europeus é inegável e a mescla resultante de sua leitura em diferentes países da América Latina é um capítulo ainda pouco explorado da história intelectual do continente e dos “debates e dilemas”** de seus personagens, entre a “revolução” e a “rebelião”.

*

Cf. Santiago, S. “Nota à segunda edição” de Nas malhas da letra. Ensaios. Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p. 9-10. ** Segundo a expressão da ensaísta Claudia Gilman, cujo livro Entre la pluma y el fusil. Debates y dilemas del escritor revolucionario en América Latina (Buenos Aires: Siglo XXI, 2003) faz ouvir um grande coro de vozes protagonistas de órgãos como Marcha ou Casa de las Américas, tendo os rumos da revolução cubana e a cisão entre intelectualismo e anti-intelectualismo como centro de sua reflexão. Também é Gilman quem fala explicitamente de “telquelismos” (à p. 300 de seu livro), em referência aos “intelectualistas”, favoráveis à autonomização do campo artístico, opostos aos “anti-intelectualistas”, que aceitaram submeter a arte à política revolucionária.

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Telquelismos latino-americanos. A teoria crítica francesa no entre-lugar dos trópicos  

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