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Conversas Etnogrรกficas Haitianas


Federico Neiburg (Org.)

Conversas Etnogrรกficas Haitianas


© Federico Neiburg, 2019 © Papéis Selvagens, 2019 Coordenação Coleção Kalela María Elvira Díaz-Benítez Coordenação Coleção Kalela-Quipu Federico Neiburg e Fernando Rabossi Projeto gráfico, capa e diagramação Martín Rodríguez Imagem de Capa Préfète Duffaut, Ville imaginaire (1987). Agradecemos a Patrick Cauvin pelos direitos da imagem Revisão Roberta Ceva Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG) C766 Conversas etnográficas haitianas / Organizador Federico Neiburg. Rio de Janeiro, RJ: Papéis Selvagens, 2019. 344 p. : 16 x 23 cm - (Kalela-Quipu; v. 1) Bibliografia: p. 309-337 ISBN 978-85-85349-09-7 1. Antropologia. 2. Etnologia - Haiti. I. Neiburg, Federico. II. Série CDD 301.1

[2019] Papéis Selvagens papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com


Para Lygia Sigaud


Krik? Krak! Em algum lugar da costa sinto um suave sopro de brisa e ouço risadas infantis. Uma avó, bem velhinha, fuma seu cachimbo rodeada das crianças do vilarejo... “Contamos histórias para que os jovens saibam o que aconteceu antes deles. Perguntam Krik? Respondemos Krak! Guardamos nossas histórias No coração”. Sal Scalora, Apertura


Agradecimentos Este livro, e as pesquisas nas quais ele se apoia, foram possíveis graças a uma série de auxílios e bolsas concedidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), na forma de Editais (Universais e de Ciências Humanas), de Bolsas de Produtividade em Pesquisa (CNPq) e de Bolsas Cientistas do Nosso Estado (FAPERJ) obtidas pelo organizador. Nota sobre o emprego do kreyòl Os termos em kreyòl presentes no livro seguem a grafia sugerida no Diksyoné Kreyòl Vilsen. Alguns desses termos podem ser escritos de maneiras distintas (tal como proposto pelo próprio dicionário), o que explica eventuais diferenças entre um capítulo e outro, juntamente com as variações regionais da língua falada e, ainda, daquela ensinada nas escolas do país.


Sumário Entrando na Conversa Federico Neiburg Sangue Louis Herns Marcelin

13

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Família Flavia Dalmaso

53

Dinheiro Federico Neiburg

81

Comércio Felipe Evangelista

101

Frustração Pedro Braum

131

Misturas Jose Renato Carvalho Baptista

159

Feitiço Ana Fiod

193

Diáspora Handerson Joseph

229

Ancestrais Rodrigo C. Bulamah

259

Posfácio – A conversa como vocação Omar Ribeiro Thomaz

287


Apêndice – Comparatismo e reflexividade Lygia Sigaud, Federico Neiburg e Omar Ribeiro Thomaz

291

Índice Remissivo

301

Referências bibliográficas

309

Sobre os autores

339


Entrando na conversa Federico Neiburg A raiz latina do verbo conversar (conversari) refere-se a vidas compartilhadas, a engajar-se e viver junto, reciprocamente, em relação. Nós, antropólogos, conversamos quando fazemos pesquisa de campo, quando discutimos projetos e descobertas em seminários, quando lemos e quando escrevemos. Conversamos com pessoas, com a força dos conceitos e com muitas outras forças, e conversamos também com objetos, incluindo livros como este. Conversamos quando “vivemos com”. E, como todos os humanos, só podemos “viver com”, conversando. Sabemos que as boas conversas não têm hora para acabar e, também, que é impossível identificar quando elas se iniciam. No entanto, gosto de pensar que as que envolvem este livro começaram em maio de 2007, quando desembarquei em Porto Príncipe pela primeira vez, na maravilhosa companhia de Lygia Sigaud, Omar Ribeiro Thomaz, José Renato Carvalho Baptista e Natacha Nicaise. Fomos, a convite de Louis Herns Marcelin, participar da fundação do Instituto Interuniversitário de Pesquisas e Desenvolvimento (INURED) e explorar as possibilidades de desenvolver um projeto de longo prazo no país caribenho, que servisse também como uma oficina para a formação de jovens pesquisadores. Este livro é resultado dessa empreitada. Na origem, o que entre nós chamamos Projeto Haiti começava com uma confissão de ignorância. Eu, apesar de apaixonado pela literatura e pela história haitianas e caribenhas, conhecia pouco – e quase nada sistematicamente – sobre a região. Nosso universo acadêmico (brasileiro e também latino-americano) era, na época, bastante nacio-centrado, pouca antropologia sendo feita fora das fronteiras. Apesar de afortunadamente não termos sido nem os únicos, nem os primeiros antropólogos oriundos de instituições brasileiras a nos aventurarmos por aqueles territórios, não tínhamos por aqui uma tradição de estudos haitianos nem caribenhos. Assim, desde o início, éramos obrigados a dar um sentido heuristicamente positivo ao nosso desconhecimento, a pensar sobre e a partir do Haiti da nossa própria posição duplamente descentrada: do âmbito da


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antropologia brasileira e, também, em relação aos principais focos de produção de conhecimento sobre o Haiti e o Caribe, notadamente os Estados Unidos e a França.1 Sabemos que os entrecruzamentos entre as histórias do Brasil e do Haiti têm longa duração. Paisagens coloniais, geografias do nascente sistema mundial, povoadas por africanos escravizados e seus descendentes, cenários daquela primeira forma de capitalismo que foi a plantação de cana de açúcar. Nessas geografias, muitos contrastes. De escala certamente, e também, nas formas de lidar com as desigualdades: o Haiti tendo sido o primeiro país a abolir a escravidão, em 1804 e o Brasil, o último, em 1888. Em 2007, quando chegamos a Porto Príncipe pela primeira vez, a relação entre ambos os países possuía uma intensidade inusitada. Três anos antes, em 2004, desembarcara a Missão das Nações Unidas para a Estabilização de Haiti (MINUSTAH), composta por 4.493 capacetes azuis oriundos de duas dezenas de países.2 Até o seu fim, em 2017, o maior dos contingentes foi sempre o brasileiro. No seu auge, em 2010, a Missão chegou a ter 8.940 militares, 4.391 policiais e mais de 1.500 civis, sendo 2000 brasileiros. Pela primeira vez, um general do nosso país teve o comando militar de uma Missão das Nações Unidas. No total, foram 13, todos brasileiros. Pouco mais Omar Ribeiro Thomaz iniciara suas explorações haitianas uma década antes (cf. p.e. Ribeiro Thomaz, 2005). Juntamente com ele e com Lygia Sigaud, organizamos em 2008 e 2009 o primeiro GT “Caribe – África” na ANPOCS. O encontro havia sido pensado também para juntar os nossos alunos, da UNICAMP e do Museu Nacional, e trocar ideias sobre os projetos no país caribenho. Lá estavam, entre outros, Rodrigo Bulamah, Pedro Braum, Felipe Evangelista, José Renato Carvalho Baptista e Flavia Dalmaso. Tampouco demoramos em nos enredar em conversas com Olivia Cunha e seus alunos. O Laboratório de Antropologia e História (LAH) e o Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (NuCEC), por nós coordenados, organizaram duas edições dos “Diálogos pré e pós-campo, Caribe – África”, em 2012 e 2019. Essa intenção de explorar de forma positiva a nossa ignorância inicial informou o primeiro curso sobre Caribe e Haiti, que ministramos em 2008, juntamente com Fernando Rabossi e José Renato Carvalho Baptista no PPGAS, Museu Nacional. 1

Após uma prolongada crise política, no dia 29 de fevereiro de 2004, o presidente Jean-Bertrand Aristide foi destituído com a colaboração de uma força militar encabeçada pelos Estados Unidos, a França e o Canadá. Em junho, após um acordo entre o Congresso Nacional haitiano e o Conselho de Segurança da ONU, essa força militar foi substituída pela MINUSTAH. Era o mais recente capítulo de uma longuíssima história de intervenções militares de países estrangeiros e de forças multinacionais no país caribenho. 2


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de 30 mil efetivos militares do Brasil passaram pelo Haiti.3 Mas não eram só os capacetes azuis. Era todo o dispositivo humanitário (Fassin e Pandolfi 2010) funcionando a pleno vapor, atravessando a geografia nacional de ponta a ponta, com epicentro em Porto Príncipe. Logo após o devastador terremoto de 10 de janeiro de 2010, pudemos observar essa maquinaria em escala ainda muito maior: instituições do sistema ONU (como PNUD, UNICEF e tantas outras); agências de cooperação nacionais e internacionais; ONGs de todas as modalidades e escalas; “missões” de igrejas, de colaboração, de cooperação, de treinamento; “forças tarefa” e clusters, civis e militares; médicos, advogados, arquitetos “sem fronteiras”; expatriados, cooperantes, técnicos, consultores, voluntários... Todos, invariavelmente, atrelados a “projetos” de estabilização, desarmamento, saneamento, desenvolvimento, formação de técnicos, de lideranças...; sempre “em parceria” com agências do governo e com organizações da sociedade civil haitianas.4 Toda essa parafernália, que atualizava hierarquias pós ou neocoloniais, era habitada principalmente por não haitianos, por blan; os haitianos situavam-se em posições quase sempre inferiores, com salários infinitamente menores. E agora esse universo também era povoado por brasileiros. Além dos soldados, havia médicos e agentes sanitários,5 consultores, funcionários de ONGs, membros da Agência Brasileira de Cooperação, do Ministério da Educação, funcionários de empresas privadas e públicas (como, por exemplo, a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária, EMBRAPA), e até mesmo militantes de sindicatos e de movimentos sociais brasileiros que denunciavam e faziam oposição à intervenção da ONU e do Brasil no país caribenho. A nossa presença no Haiti era, evidentemente, parte desse cenário. Era produto de várias confluências (no sentido weberiano O Brasil participou, desde 1948, de 50 missões militares da ONU, envolvendo no total pouco mais de 40 mil efetivos, 75% deles na Missão no Haiti (Hamann, 2015). 3

cf. Marcelin 2011. Ainda antes do terremoto, ensaiamos as primeiras descrições da geopolítica do humanitarismo (Neiburg e Nicaise, 2009 e 2010), uma etnografia da vida social da água e do lixo na região de Bel Air, em Porto Príncipe – água e lixo interessavam por serem justamente focos privilegiados de projetos de “ajuda” e “cooperação”. 4

Esteves (2016) focalizou a cooperação brasileira na área da saúde, no quadro do projeto tripartite Haiti-Brasil-Cuba. 5


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do conceito) que, diante de inúmeros constrangimentos, precisamos cultivar metodicamente. O lançamento do projeto ocorria em um momento de singular expansão da ciência e do ensino superior do nosso país. No caso da antropologia, firmavam-se novos rumos de internacionalização, com equipes desenvolvendo projetos fora e longe do Brasil, em outros universos nacionais. Podíamos ser realistas sonhando com uma empreitada como essa que, para render frutos, deveria se estender por pelo menos uma década. Passaram-se 12 anos até a publicação deste livro.6 Apesar das dificuldades e das incertezas vivenciadas com modulações diferentes entre todos os segmentos sociais, no Haiti de 2007 também era possível reconhecer sinais de otimismo. O clima de conflagração parecia diminuir, o país sendo presidido por um antigo primeiro ministro do presidente deposto em 2004. Como apontamos no texto escrito em 2009, junto com Lygia Sigaud e Omar Ribeiro Tomaz, e incluído como Apêndice deste volume, isso permitiu que na criação do INURED participasse também uma constelação maravilhosa de intelectuais haitianos. Conhecíamos alguns deles por meio de suas publicações; vários haviam circulado pela América Latina, exilados do regime autoritário de François e Jean-Claude Duvalier (1957-1986), tendo passado pelos meus próprios países (tenho três, além do Haiti: Argentina, México e Brasil). Nosso projeto nascia assim com o privilégio da interlocução com figuras imensas, como Michel Hector, Jean Casimir ou Laënnec Hurbon. Através deles e de outros professores e colegas, desde cedo nos embrenhamos na Université d’État d’Haïti, com professores e alunos das faculdades de Etnologia e de Ciências Sociais, em projetos e na formação de jovens pesquisadores – entre eles, dois membros permanentes da nossa equipe, Louis Jean Sergo e Jonhy Fontaine. Estimulados por Laënnec Hurbon, estabelecemos nossa primeira base em Jacmel, em março de 2008. José Renato Carvalho Baptista chegou um par de meses antes para iniciar a sua pesquisa de doutorado e foi o primeiro a se estabelecer naquela linda cidade do sudeste do país. Pouco tempo depois, chegaríamos Natacha Além dos artigos e relatórios citados ao longo dos diferentes capítulos, produzimos, no âmbito do PPGAS/Museu Nacional, sete teses de doutorado, cinco dissertações de mestrado e co-orientamos duas monografias de finalização de cursos de graduação (na Université d’État d’Haiti) – isso não conta os trabalhos produzidos no âmbito da UNICAMP e orientados por Omar Ribeiro Thomaz. 6


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Nicaise e eu, juntamente com Flavia Dalmaso, Pedro Braum e Felipe Evangelista – que se preparavam para iniciar suas pesquisas de mestrado. A nós, uniu-se William Jean, aluno da faculdade de Etnologia da Université d’État. Nossa casa transformou-se em um laboratório de pesquisa coletiva. Muito aprendizado e muita conversa. De manhã cedo, aulas de kreyòl com William, em seguida, planejávamos o dia de campo, andávamos pela cidade, conversávamos com pessoas ou simplesmente ficávamos num canto aprendendo a observar. De tarde, cada um escrevia o seu diário e formulava questões. De noite, discutíamos. Ao mesmo tempo em que nos envolvíamos com o Haiti, ele se tornava assunto público no Brasil. Alguns denunciavam as ações brasileiras no país caribenho como imperialistas ou como cúmplices do imperialismo norte-americano. Outros desmereciam uma “aventura” que supostamente só teria por objetivo reforçar apostas geopolíticas, ligadas à pretensão de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e à intenção de disputar novos mercados em benefício de empresas brasileiras. No plano político militar, a presença no Haiti (e, em termos mais gerais, a participação de militares brasileiros em Missões das Nações Unidas) teria efeitos enormes a longo prazo. A experiência no país caribenho serviria para legitimar ações das Forças Armadas no âmbito da segurança pública no Brasil, notadamente nas intervenções do Exército no Complexo do Alemão, em 2010, no Complexo da Maré, em 2014, e no estado do Rio de Janeiro, em 2018. Poucos anos mais tarde, veríamos como o comando das forças da ONU no Haiti seria transformado por vários generais em capital político para ocupar os mais altos cargos públicos no bojo da onda autoritária, radical e restauradora que varre o Brasil desde 2018.7 Após o terremoto de janeiro de 2010, a relação entre os dois países ganharia ainda nova dimensão: milhares de haitianos começaram a chegar ao Brasil, a América do Sul passou a fazer parte da geografia da diáspora. Os principais pontos de chegada eram Tabatinga, no Amazonas, Corumbá, no Mato Grosso do Sul e Brasileia, no Acre, mas também os aeroportos internacionais do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Brasília. Filas se formavam na Embaixada brasileira em Porto Príncipe. O governo criou um visto 7

Cinco generais, ex-comandantes da MINUSTAH, tornariam-se Ministros de Estado.


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“de permanência por razões humanitárias” para cidadãos do país caribenho (Vieira, 2017). O kreyòl começou a ser ouvido em ruas, locais de trabalho (na construção civil, nos serviços), em igrejas, mercados e universidades. Tivemos a alegria e a responsabilidade de acolher, em fevereiro de 2010, no Rio de Janeiro, o primeiro contingente formado por dez estudantes no contexto de um acordo negociado entre o INURED, a nossa equipe, a Embaixada Brasileira no Haiti e o Ministério da Educação (MEC). Os jovens foram selecionados no âmbito dos projetos desenvolvidos pelo INURED, sendo oriundos de Cité Soleil, um dos maiores bairros populares (katye popilè) da grande Porto Príncipe.8 Meses antes de viajar, receberam aulas de português ministradas por José Renato Carvalho Baptista no Centro Cultural Brasil-Haiti, localizado em Pétion Ville, em frente à Place Boyer, transformada em um dos tantos campos para desabrigados após a tragédia. Viajaram de graça em um avião da Força Aérea Brasileira que fazia voos regulares entre ambas as cidades. Foram recebidos por nós na base militar do Galeão, no Rio de Janeiro. Alguns ficaram na cidade (na UFRJ e na UERJ), outros foram acolhidos por universidades federais em Belo Horizonte, Recife e João Pessoa. Todos contavam com um auxílio do INURED e recebiam bolsas “PEC-G” do governo brasileiro para alunos de graduação.9 Múltiplos envolvimentos entre a produção de conhecimento, a formação de jovens pesquisadores e a própria configuração das paisagens nacionais haitiana e brasileira nos conduziam, principalmente no início dessa aventura e muito especialmente depois do terremoto, para o âmbito da intervenção. Nesses espaços tênues, densos e arriscados, construímos, também em Porto Eu participei pessoalmente da primeira e única missão do MEC no Haiti, em 2009. Louis Herns Marcelin conduziu várias reuniões em Brasília. A ideia era permitir acesso ao ensino superior a jovens oriundos de um mundo social extremamente excludente. Cem candidatos inscreveram-se no programa, 35 foram préselecionados, todos os 10 que finalmente vieram ao Brasil concluíram os estudos, alguns fizeram pós-graduações. 8

Pouco tempo depois chegariam à UNICAMP mais 40 estudantes haitianos. A iniciativa desdobrava-se junto a trabalhos de fôlego sobre as consequências do terremoto na educação superior (Thomaz e Nascimento, 2013 e INURED, 2010a). Algo do impacto do terremoto em nossas pesquisas pode ser encontrado em Thomaz, 2010; INURED, 2010b e Braum, 2014: cap. 1. 9


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Príncipe, uma parceria produtiva com a ONG carioca Viva Rio, que fazia parte do dispositivo humanitário e da presença brasileira no Haiti. Sabendo do nosso plano de lançar um projeto de pesquisa naquele país, o diretor do Viva Rio, Rubem César Fernandes (antropólogo, ex-professor do Museu Nacional) nos convidou para conversar inicialmente sobre um censo que acabara de ser realizado em colaboração com a Université Quisqueya na região da grande Bel Air, em Porto Príncipe. Em situações como a haitiana (na qual a existência e a densidade do Estado são questionadas), a produção e a gestão dos números (como de outros dispositivos de governo) estão distribuídas entre uma infinidade de agentes e de agências, instituições internacionais e ONGs – produzindo o efeito perverso da proliferação e da dispersão das estatísticas (Jerven, 2013; Neiburg, 2014). Como insistia em dizer Lygia Sigaud, discutir esse censo, seus motivos, sua planificação, implementação e resultados, era para nós uma experiência etnográfica de enorme riqueza. Para mim, pessoalmente, essa conversa tinha ainda um atrativo adicional, dado o meu interesse pela região de Bel Air. Além da sua centralidade política e cultural, ela se entrelaça com o principal nó do sistema de mercados haitiano, a área de Croix de Bossales, o que me levava a imaginar que essa imbricação entre bairros e mercados ofereceria um universo particularmente produtivo para o estudo das dinâmicas da economia popular e da articulação entre estas últimas e o dispositivo do humanitarismo.10 Por outro lado, as ações da MINUSTAH haviam começado em Bel Air e tinham nesta área um dos seus focos privilegiados. Situava-se ali (no Fort National) a sede do batalhão brasileiro. A zona era tida pela ONU como “vermelha”, o que significava que não se recomendava o trânsito de estrangeiros e que se impunha escolta militar aos funcionários civis da organização. Nós, desde o início, andamos sozinhos. E andamos muito na companhia de Bob Montinard, então funcionário do Viva Rio, com quem conviveríamos no Rio de Janeiro, a partir de 2012, e do saudoso Herold Saint Joie, que trabalhava na região como mediador de conflitos para a Comissão Nacional de Desarmamento, Era também uma oportunidade para iniciar as atividades do Laboratório “Economia, Dinheiro e Mercados”, criado no INURED (www.inured.org), em colaboração com o NuCEC (www.nucec.net). 10


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Desmantelamento e Reinserção (CNDDR, órgão do governo haitiano). Bel Air continuou sendo o meu próprio campo; a partir de janeiro de 2010 seria também o campo privilegiado de Pedro Braum. Uma triangulação entre a nossa equipe, o INURED e o Viva Rio, produziu ali as primeiras etnografias, mantivemos algo assim como um laboratório de treinamento etnográfico e de pesquisas coletivas.11 Por dois anos, juntamente com Herold, Bob e Pedro, mantivemos também uma “base” em Porto Príncipe, um apartamentinho que servia de moradia permanente para os que trabalhavam na cidade e como local de passagem para os membros da equipe que pesquisavam em outras regiões do país. Em paralelo, José Renato Carvalho Baptista realizava seu campo em outras áreas de Porto Príncipe, Flávia Dalmaso permanecia em Jacmel, Felipe Evangelista seguiria mais tarde para a fronteira com a República Dominicana, e Ana Fiod para Nippes, no oeste do país. Handerson Joseph, por sua vez, abriria uma janela inesperada, acompanhando os haitianos no Brasil, na Guiana Francesa e no Suriname (explorada posteriormente também por Melanie Montinard, 2019). Os nossos parceiros e amigos da UNICAMP, Omar Ribeiro Thomaz e Rodrigo Bulamah, sempre preferiram o Norte, em particular a Cidade do Cabo Haitiano e a região de Milot. Além de Louis Herns Marcelin, que nos fizera o convite, no começo, éramos uma pequena turma de blan. Os membros haitianos da equipe foram se integrando aos poucos, ao longo dos anos. Nosso conhecimento do kreyòl era quase nulo. Antes de viajar, tivemos a sorte de ter algumas aulas, no Rio de Janeiro, com a socióloga Daniela Bercovich, que já havia morado vários anos no país caribenho. Em seguida, nosso domínio da língua passou a ser rudimentar e só mais tarde ficaria fluente, capaz de captar as nuances, os jogos de palavras, as metáforas, os ditados e as parábolas que tanto sentido fazem nas conversas e nas relações do dia a dia. Com o passar dos anos, nossas vidas entrelaçaram-se com as dos nossos amigos haitianos. Convívio, intimidade, afeto, confiança cimentaram relações intensas e duradouras. Os autores não haitianos do livro passaram (eu inclusive) longos tempos no Haiti, períodos que se contam em anos. Pedro Braum estabeleceria Neiburg e Nicaise, 2009 e 2010; Braum, Neiburg e Nicaise, 2011; Neiburg, Braum, Coutinho, Fontaine, Montinard e Sergo, 2012; e Braum, Dalmaso e Neiburg, 2014. 11


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sua residência em Porto Príncipe. No Brasil, receberíamos e conviveríamos com as nossas famílias haitianas. *

*

*

Sabemos que antropóloga e antropólogos fazem parte dos mundos que estudam e que a antropologia nasce e carrega projetos coloniais e neocoloniais que se reatualizam nas ambiguidades e ambivalências das situações etnográficas.12 Nossa presença no campo, sobretudo no começo, evidenciava enormes distâncias sociais e raciais. Gerávamos expectativas que estávamos longe de poder satisfazer: econômicas e laborais e, também, em relação à possibilidade de sair do país, cair na estrada. Os nossos primeiros encontros estavam prenhes da história do Haiti no sistema mundial, da presença dos missionários, dos militares, dos agentes do sistema humanitário e de todas as ambiguidades e expectativas que envolvem a lógica da “ajuda” (cf. Braum neste volume e Neiburg, 2017). Por outro lado, entre os nossos interlocutores, nos deparávamos com registros onipresentes na literatura, relativos notadamente à narrativa sobre a singularidade haitiana e a afirmação da ontologia do sofrimento.13 Em ambos articulavamse dois relatos. O primeiro era o relato da gesta heroica da independência da primeira nação negra (ou, melhor, da primeira nação não branca) do planeta, da vitória militar contra o império francês, do internacionalismo haitiano na América do Sul, nos exércitos de Simón Bolívar, do orgulho – vivido no cotidiano – de ser a primeira nação a abolir a escravidão e a realizar o ideal da igualdade para todos. O outro, era o relato da extrema miséria, da fome, da instabilidade, do desastre ambiental, das catástrofes naturais, da crise permanente e da violência, da necessidade de sair Em L’Estoile, Sigaud e Neiburg (2002) desenvolvemos uma visão comparativa da relação entre essas ambiguidades e ambivalências e a produção do conhecimento antropológico que muito nos serviu para refletir sobre a nossa aventura haitiana. 12

Ver os textos seminais de Hurbon, 1987; Trouillot, 2018 [1990]; Farmer, 1994 e 2006. Mais recentemente, entre outros, Beckett, 2013; Nessbit, 2013, Polyné, 2013 e Schuller, 2016. Sobre o suffering turn na antropologia contemporânea, ver Robbins, 2013. 13


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do país para construir uma vida melhor.14 Criticar e compreender etnograficamente essas convergências era também uma condição para construir proximidade com os nossos interlocutores. A reflexão metódica e cumulativa sobre a nossa própria experiência via-se favorecida por nosso descentramento com relação aos focos de produção de conhecimento sobre o Haiti, a que me referi no início destas páginas. Em 2009, tivemos o privilégio de discutir o projeto coletivo e os embriões de projetos individuais com Sidney Mintz, no Rio de Janeiro. Grande foi a surpresa do mestre ao descobrir uma turma de jovens antropólogos sediados no Brasil e interessados pelo Haiti. Maior ainda a constatação de que nossa agenda de questões e objetos se afastava (des-conhecia, num duplo sentido talvez...) o cardápio clássico que rondava o vodu, a pobreza, o subdesenvolvimento e a crise. Além disso, a elaboração das nossas questões esteve desde o início marcada pelo caráter coletivo de nossa empreitada.15 Assim, buscamos nos afastar radicalmente de qualquer narrativa colonial, estigmatizante ou miserabilista sobre “o Haiti” ou sobre “os haitianos”, reconhecendo ao mesmo tempo também, a penúria das vidas sobre as quais falamos e a alegria de viver dos nossos interlocutores e amigos. O adjetivo “haitianas” no título deste livro não se refere a uma origem nacional (a maioria de nós não é haitiana), nem ao local onde

A respeito do esquecimento e dos impactos da revolução haitiana fora do Haiti, ver os clássicos de Trouillot, 2016 [1995] e Buck-Morss, 2017 [2010]. Para uma visão geral, Garraway, 2018, e para uma visão centrada no Brasil, Morel, 2017. Em Plummer (1992) pode se ler a importância da produção cultural norte-americana sobre o Haiti no período da ocupação (1917-1934) na construção dessas narrativas. David Graeber (2011) aponta para a singularidade da dívida externa haitiana (a primeira dívida externa moderna), contraída a partir da imposição, única nas independências das Américas, de indenizar os colonos expropriados das suas terras após a independência. 14

Incitados em boa medida pela experiência dos nossos mestres no Brasil, cf. especialmente, Sigaud, 2008. 15


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as conversas ocorreram (muitas no Brasil e em outros vários locais).16 Nos afastamos criticamente de qualquer tentativa de oferecer um guia para compreender o Haiti, ou de dar um “panorama” do país e dos seus dilemas. Sangue, família, dinheiro, comércio, frustração, misturas, feitiço, diáspora, ancestrais, os capítulos deste livro surgem da confluência entre as vivências e os assuntos que interessavam aos nossos interlocutores e as conversas sobre temas que apaixonam os antropólogos. Eles desdobram uma experiência etnográfica, coletiva, multinacional e descentrada em um universo de escalas simultaneamente reduzido ao extremo e extenso, no tempo e no espaço. Um pequeno país, um universo de pessoas intensamente interconectadas que se estende além fronteira, colapsando presente, passado e futuro.17 Pessoas e interações enraizadas nas experiências do colonialismo, da escravidão e da outra face da revolução: na persistente miséria, no caráter inacabado da nação que faz da questão nacional uma obsessão, não só entre os intelectuais que falam sobre o país, mas também entre os nossos interlocutores que vivem “o Haiti” e que estão obrigados a lidar com “o Haiti” para pensar no futuro das suas vidas. Evocando a expressão utilizada por Michel-Rolph Trouillot (2018 [1992]) em relação ao Caribe, o Haiti aparecia como uma “fronteira aberta” para uma antropologia interessada em apreciar a multiplicação das conexões, como nas cidades imaginarias, intensamente interconectadas do grande pintor haitiano Préfèt Duffaut (Hurbon, 1987), que dão cores à capa deste livro. Isso pode ser Nesse sentido, p. ex., nos diferenciamos da etnografia inspiradora de Gudeman e Rivera, 1990. Sobre a “localização” da produção do conhecimento antropológico, ver entre outros os textos hoje clássicos de Appadurai, 1988; Fardon, 1990; Gupta e Ferguson, 1997. Sobre o lugar do Haiti na imaginação antropológica (nas primeiras décadas do século XX), Magloire e Yelvington, 2005. Ver também Mintz ,1974 e 2012. Entre os muitos outros espaços de conversa que contribuíram para este projeto vale mencionar também os seminários regulares do NuCEC, no Rio de Janeiro, e o ambiente que construímos a partir de 2012 entre Paris e Rio, juntamente com Benoît de L’Estoile, no quadro dos convênios de cooperação (CAPES-COFECUB) que coordenamos. 16

Devo essa ideia a um diálogo inspirador com Sidney Mintz, em Baltimore, em maio de 2010, e a várias conversas, mantidas com Louis Herns Marcelin, desde 1994, quando nos tornamos amigos, ainda estudantes no PPGAS, Museu Nacional. Nessas conversas sobre densidades e escalas com Mintz e com Marcelin, as ideias de George Simmel (2013 [1903]) sempre pairaram sobre nós. 17


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comprovado em cada um dos capítulos, exaustivamente discutidos entre nós desde 2016, quando concebemos este volume. Louis Herns Marcelin observa conexões entre sangue, nação e violência; Flávia Dalmaso entre família, casa e pessoa; Federico Neiburg entre moedas, unidades de medida e valores; Felipe Evangelista entre comércio, gênero e fronteira; Pedro Braum entre frustração, política e ajuda; José Renato Carvalho Baptista entre fé, rotas e misturas; Ana Fiod entre feitiço, cuidado e pessoa; Handerson Joseph entre mobilidade, fronteiras e pertencimento; Rodrigo C. Bulamah entre ancestrais, tempos e espaços. Os temas tratados em cada um dos capítulos conversam por sua vez com todos os outros: o sangue está incrustado na família, a mobilidade na frustração, os ancestrais no feitiço e assim por diante, de forma circular, como numa roda de conversa, ou como em uma conversa espiralada que, como toda etnografia, é sempre também cumulativa. Dessa maneira, entregamos um livro escrito a muitas mãos que, conservando as formas de escrever e de analisar de cada um dxs autorxs, se afasta radicalmente de uma coleção de artigos soltos. Trata-se, ao contrário, de uma obra coletiva cujo sentido pleno surge na acumulação das conversas apresentadas em cada capítulo. O conjunto se encerra com um Posfácio, no qual Omar Ribeiro Thomaz adensa os sentidos da nossa empreitada e a coloca em perspectiva. Descolonizar a produção do conhecimento tem sido ambição de muita antropologia. Gostamos de pensar neste livro como uma pequena contribuição para esse propósito que certamente nos ultrapassa. A história do nosso projeto, das nossas vidas entrelaçadas cada vez mais intensamente com os nossos interlocutores e amigos ao longo dos anos, nossos constrangimentos e as condições sociais que o fizeram possível, intimamente ligadas aos resultados que produzimos, revelam a magnitude de uma empreitada que, no início, só podíamos intuir. Em suma, etnografias coletivas, vidas humanas em relação, convivência, conversas.

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Conversas etnográficas haitianas (preview)  

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