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Continuação de ideias diversas


César Aira

Continuação de ideias diversas

Tradução de Joca Wolff


© César Aira, 2017 © Papéis Selvagens, 2017

Coordenação Coleção Archimboldi Rafael Gutiérrez, Antonio Marcos Pereira, Rodrigo Rosa Tradução Joca Wolff

Revisão Marina dos Santos Ferreira, Maryllu de Oliveira Caixeta, Joaquín Correa, Byron Vélez Escallón, Kelvin Falcão Klein Capa e projeto gráfico Ana Vizeu

Ilustração do autor na orelha Melissa Mendes Vogelgsang Diagramação Papéis Selvagens

Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA)

A298c

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)

Aira, César, 1949Continuação de ideias diversas / César Aira; tradução de Joca Wolff - Rio de Janeiro (RJ): Papéis Selvagens, 2017. 92 p. : 16 x 23 cm - (Archimboldi; v. 1) Título original: Continuación de ideas diversas ISBN 978-85-92989-10-1

1. Ficção argentina. I. Literatura argentina- Romance. I. Wolff, Joca, 1965-. II. Título. III. Série. CDD-Ar863

[2017] papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com


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À meia-noite do dia 14 de outubro de 1806, Napoleão passeava no seu cavalo branco pelas ruas de Jena em chamas. Após a vitória suas tropas tinham entrado com tudo na cidade, com licença de pilhagem, destruição e morte. Foi a ocasião que Hegel teve de ver passar a sua frente o Imperador em pessoa, e ainda que sua casa também tivesse sido saqueada e seus livros e papéis queimados, a data ficou marcada pelo privilégio irrepetível de ter visto o Espírito do Mundo em pessoa, etc., etc., etc. A cena, em seu dramatismo cinematográfico de reunião de cúpula, vem sendo há duzentos anos uma das favoritas de historiadores e exegetas. O mundo se põe em cena com ela. Mas é o mundo realmente? Porque um polinésio, ou um esquimó ou um gaucho dos pampas argentinos bem poderia dizer “Napoleão? Quem é?”. E para tachá-los de ignorantes seria preciso pôr em jogo a mesma soberba umbiguista desses verdadeiros anões sanguinários que se acharam donos do mundo só por ter efetuado matanças e destruições em meia dúzia de pequenos países da Europa. Sente-se até uma certa satisfação diante desse desconhecimento: eles merecem. E não é necessário ir a rincões muito distantes do mundo para encontrar ignorância. Aqui mesmo há muitos, muitíssimos jovens e não jovens que não sabem quem é Napoleão, ainda que o nome soe familiar. E não falemos de Hegel. É um dos casos, poucos, devo reconhecer, em que felicito e agradeço à ignorância. Ϟ

À minha idade... Comecei a esquecer nomes, de um modo alarmante. Alguns eu preciso anotar, quando sei que posso precisar deles. Deveria fazer isso com todos. Mas se anoto em papeis soltos, numa folha qualquer dos meus cadernos, não me serve. Deveria ter uma caderneta específica, para levar sempre comigo e assim saber onde tenho que acudir em busca de um nome que desapareceu da minha mente. Mas que nomes anotar ali? Como posso saber de antemão que nome vou esquecer? Os que esqueci uma vez, o mais provável é que volte a esquecê-los. Ou os nomes de coisas, lugares


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ou pessoas de que sei que precisarei em algum momento. Quanto ao método de arquivo: não deveria usar a ordem alfabética, que não tem nenhuma pertinência aqui. Antes uma ordem temática, bem pensado. E esta ordem me revelaria, no fim, como um benefício marginal mas de suma importância, a estrutura de meus interesses e de meu pensamento. Ϟ

A um fantasma perguntam o seu nome: responde dizendo um que não é o seu, não porque tenha querido enganar mas por equívoco: acontece-lhe sempre. Sabe qual é o seu nome, mas no momento de dizer se confunde e diz outro. Por exemplo, se chama Alice, mas diz Elena. E depois se pergunta “Elena? De onde pude tirar isso?”. Não conhece (não conheceu em vida) nenhuma Elena, nome de que nem sequer gosta especialmente. Muitas vezes o humano vivo que lhe faz a pergunta tem que corrigi-lo, quando sabe de quem se trata. Outras vezes se corrige ele mesmo. Ou bem o erro não é corrigido. Com os vivos isso não acontece. Poderia acontecer. Poderia se dar o caso, e certamente se deu mais de uma vez, que a gente queira dizer o nome, ao apresentar-se ou respondendo a uma pergunta, e se equivoque e diga outro. Mas isso sempre tem uma explicação, por exemplo que imediatamente antes tenha estado falando de outro, repetindo seu nome: “Evaristo me contava que ele, Evaristo, é um alcoólatra reprimido. Esse Evaristo! Já me disse coisas assim antes. Evaristo é um piadista. Que louco, o Evaristo!”. Nesse momento se une ao grupo um conhecido dos demais, mas não dele, que ao cumprimentá-lo e se apresentar, ainda com a cabeça cheia de outras anedotas de Evaristo, lhe dá a mão e diz “Um prazer, Evaris...”, e solta a risada, diz seu nome e explica o motivo do equívoco. No caso dos fantasmas não há nenhuma explicação. Essa impregnação de um nome que se dá nos vivos é um fenômeno relacionado com o esquecimento dos nomes, que se dá com a idade, antecipação da morte.


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A um tradutor estão se colocando todo o tempo os pequenos grandes problemas da microscopia da escrita. Eu deixei de traduzir faz dez anos, e o fiz com alívio, mas passado o tempo comecei a sentir que tinha perdido algo. E sigo sentindo. O que mais estranho não são as facilidades do ofício mas suas dificuldades, essas perplexidades pontuais que despertavam meu pensamento em geral adormecido. Agora que já não traduzo tenho que inventá-las. Invento uma, já que estamos nisso. Suponhamos que num romance que sucede num país distante os personagens, na mais extrema pobreza, se vejam obrigados a sobreviver do que lhes dá uma natureza avara, alimentos que o autor menciona por seus nomes, certo de que seus leitores compatriotas captarão na hora do que se trata: esses pobres infelizes estão no fundo da miséria e do desamparo, vítimas do atraso, da injustiça social, quase no nível dos animais... Mas sucede que os alimentos que menciona para transmitir essa mensagem são a rúcula, os cogumelos e o salmão defumado, que para seus compatriotas serão imediatamente sinais de pobreza, de comer o que cresce silvestre nos prados e se pega com a mão nos riachos, enquanto que na língua e no país do tradutor conotam caros restaurantes gourmet, sofisticação e riqueza. Que fazer? Descartado o recurso fácil da nota de rodapé, a “N.d.T.” que todo bom tradutor recusa por justo motivo, uma solução seria evitar o específico e colocar algo assim como “ervas e fungos silvestres, e peixe defumado”. Isso poderia funcionar, sempre e quando umas páginas mais além não ocorra ao autor que a rúcula ou os cogumelos ou o salmão façam um papel enquanto tais no argumento do romance, por exemplo que os salmões que nadam contra a corrente pelo rio que passa perto da primitiva aldeia dos personagens tragam aderidas umas partículas fosforescentes que indicam que no mar diante da desembocadura do rio estão ocorrendo operações de mutação de algas por parte de um grupo de cientistas renegados da NASA... Aí eu, tradutor (mas tudo isto é um problema imaginário), adotaria uma solução radical: faria com que se alimentassem de bagres filetados, o que para um leitor argentino transmitiria muito bem a ideia de pobreza extrema. E as partículas fosforescentes, as poria na ponta dos bigodes. E como os bagres nadam a favor e não contra a corrente, os cientistas clandestinos estariam trabalhando rio acima, terra adentro, talvez


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no alto das montanhas, fazendo suas alquimias com as pedras das nascentes. Pouco a pouco iria se transformando num romance meu, e não sei se poderia continuar se tratando de uma tradução. Ϟ

A arte mais extremamente experimental (por exemplo, um balé que consista em nada mais que arrancar uma por uma as folhas de uma planta), a que exibe sua originalidade com o descaramento provocador do absurdo e do gratuito, é vista, não sem razão, como produto do capricho individual, do jogo das formas praticado na intimidade da vontade artística, desinteressada da realidade histórica em que vive o seu autor. E no entanto essa exacerbação da originalidade atua exatamente do mesmo modo que a válvula que torna histórica a História. Uma vez que foi feito já não se pode voltar a fazer. Torna-se irrepetível porque sua essência e sua existência é a irrepetibilidade, e não há outra coisa. Igual aos fatos que sucedem no tempo. Ϟ

À noite, rolando na cama sem poder dormir, me veio esta pergunta: e se a insônia fosse um sonho? Não a levei a sério como pergunta, mas gostei dela como frase, como poesia. Pensei por um instante em acender a luz do lustre e anotá-la. Não o fiz; sempre que me dei ao trabalho de anotar uma dessas frases ou ideias noturnas, na manhã seguinte ao lê-la achei-a desprovida de qualquer interesse, como produtos fantasmagóricos que são de uma mente que deveria estar dormindo e não está. Mas continuava me parecendo uma sugestiva construção verbal. Talvez a recordasse de manhã. Talvez não: se apagaria, como os sonhos. Como se vê, lembrei dela. E de certo modo, acho, lembrei dela para respondê-la. Ou respondeu a si mesma lembrando-se. Não, a insônia não é um sonho.


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Anteontem soube que o terceiro nome de E. T. A. Hoffmann era Christian. Mudou-o para Amadeus em homenagem ao seu ídolo, Mozart. Mas se não tivesse mudado, suas iniciais teriam sido E. T. C. ou seja, “etcétera”, o que não é um bom prognóstico para um escritor. A função do “etc.” (que pode ter outras formas, como o “and so forth” em inglês) é um tanto falaz. Em geral sugere que o argumento tem mais força do que realmente tem. O argumento enquanto sustentado por exemplos, por uma série de exemplos que o “etc.” sugere que poderia se estender indefinidamente. Ou a série de determinações de um objeto, ou a série de fatos que contribuíram para a queda de um império. Ou a série de séries... “Etcétera” é um mau augúrio para um escritor porque significa uma renúncia ao discurso; se deixa que o leitor complete a frase ou a enumeração, sabendo que poderá fazê-lo. E poderá fazê-lo efetivamente porque isso que não se diz e que o “etc.” cobre é óbvio. Significa o exato oposto do que é o trabalho do escritor: o cansaço, a inutilidade de continuar. Ϟ

Como gostaria de escrever um romance policial que se chamasse A freira assassina. Haveria um homicídio, a investigação correria a cargo de um perspicaz detetive, o grupo de possíveis culpados incluiria a esposa do morto, sua amante, o filho que não sabia que era seu filho, o sócio, o cunhado policial e, a menos suspeita, uma freirinha que recebia doações de caridade do defunto. No final se descobre que, contra qualquer aparência, a assassina era a freira. Fim. O leitor não poderia acreditar. Ficaria olhando para a última página depois de ler a última linha, com a boca aberta, atônito, perplexo, sem entender nada. Trataria de encontrar alguma resposta nas orelhas, na contracapa, até no número de ISBN do livro, algum dado sobre o autor que explique isso, e depois voltaria a olhar para a ilustração da capa, na qual um hábil desenhista, seguindo minhas precisas instruções, teria representado a freirinha vertendo o arsênico na taça de chá, com um sorriso malévolo no rosto já despojado da máscara de doçura e submissão com que transitou pelas duzentas páginas do romance até o desenlace e


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revelação. O leitor exclamaria “Não pode ser! Será uma piada?”. Não se explicaria como a editora pôde consentir com algo semelhante. Evidentemente o autor fez valer o seu prestígio, porque isso jamais seria permitido a um desconhecido... Terminaria pondo na conta de meus vanguardismos. Ϟ

Creio que a jornalista que me entrevistava se sobressaltou quando, depois de lhe dizer que para mim importavam mais os autores que os livros, exemplifiquei dizendo “mais Kafka que A metamorfose, porque no fim das contas qualquer um poderia muito bem ter escrito A metamorfose”. E ela, assustada com minha provocação: “Como qualquer um?! Se é uma obra-prima de Kafka...”. E no entanto penso que é assim. Lembro que quando estava numa residência de estudantes a gente festejou a primavera com um concurso de poesia. Havia vários estudantes de Letras, aspirantes a poetas, e mais de um que anos depois chegamos a ser escritores reconhecidos. Ainda assim quem ganhou o concurso, com justiça, foi um rapaz que estudava bioquímica ou algo assim, não tinha nenhum contato nem interesse pela literatura, mas fez um acabado pastiche de ardente poesia surrealista. Apresentou dois poemas e ganhou o primeiro e o segundo prêmios. Não é preciso nenhum talento especificamente literário para fazer um bom pastiche. E um pastiche é indistinguível do artigo genuíno, que a seu modo, por ricochete, sempre será um pastiche. Ϟ

Completamente distante me sinto... quando ouço alguém apreciar as diferenças e qualidades dos uísques, defumados, madeirados, frutados. Para mim a única coisa que importa do uísque é o seu efeito: despreocupação, desinibição, sonho. Não sei se influenciado pelo que me acontece com o uísque, ou por uma disposição natural em mim, na literatura também vou ao efeito, e me são indiferentes as apreciações sobre a qualidade da escrita. (Mesmo sendo um resultado mecânico, o efeito uma


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vez produzido é um fenômeno complexo, que depende de mil qualidades sutilmente interconectadas). Ϟ

Colocar por escrito uma ideia que nos tenha ocorrido: quando a gente quer, existe algo como um desalento prévio, uma convicção fatalista de que não será possível, ou que não sairá bem não só pelo trabalho que dá mas por uma espécie de forçamento, de antinatural, que implica esse trabalho. Não deveria ser assim. A ideia já é feita de palavras, e de que outra coisa vai ser feita? Mas são palavras em estado nascente, ainda sem assomar como palavras mas como o que vai ter com as palavras. Um mínimo de experiência ensina que a ideia não será realmente ideia até que esteja redigida, mas a gente se aferra a acreditar do mesmo jeito que já é uma ideia, e por sê-lo é uma boa ideia, nesse formato sem sintaxe, sem as palavras justas e em ordem. Essa qualidade de informe lhe dá um brilho, um encanto, uma elegância de fábula. (O desalento é parte desse sentimento). E se é a ideia de um relato, a história desse relato sucede fora do tempo, num resplendor de acontecimentos simultâneos carregados de tempo. Ϟ

Com que dificuldade se evita a suspeita de que estão mentindo quando a gente vê essas tabuletas babilônicas de argila com os signos cuneiformes, ou algo equivalente hitita ou hindu... e lê as transcrições: hinos cerimoniais, relatos de batalhas, epopeias de semideuses... Como é possível que esses risquinhos retorcidos signifiquem esses discursos articulados, detalhados, poéticos? Não estarão inventando, os supostos tradutores, amparados na impunidade que lhes dá uma matéria tão esotérica? Uma vez que se desperta a suspeita, sobre gente tão séria e insuspeita como estes eruditos que dedicaram o melhor de suas vidas aos estudos das línguas mais árduas, nada impede que se estenda a outros com menos antecedentes de honestidade, sinólogos por exemplo. Afinal não há tanta diferença entre as tabuletas de argila com seus risquinhos e os ideogramas em tinta preta. Poupemos toda a série e vamos ao extremo. Qualquer


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escrita, esta mesma que estou praticando, será de verdade ou uma farsa? Teremos nos posto de acordo para manter essa simulação? Um pacto de cavalheiros, para sustentar a comédia de que a escrita realmente está representando a fala. Ϟ

Careço imperiosamente de me defender da angústia quando vejo um filme em que alguém carrega uma mala, e tem que levála consigo durante várias tomadas (porque não tem onde deixar, está numa cidade ou país estrangeiro, na mala estão todas suas posses, etc.), pensando, me obrigando a pensar, que um ator está representando esse personagem, que a mala não contém nada que importe a esse ator, que nem bem se apaga a câmera pode deixar em qualquer lugar e se esquecer dela. Pergunto-me se o mecanismo do pesadelo invadirá a vida de todo mundo como invade a minha. Ϟ

Cidadão por um tempo de Escobar, Laiseca tinha vários animais. Vivia em Escobar justamente porque ali podia ter uma casa com pátio para seus animais. (Apesar do sacrifício de viajar duas ou três ou quatro horas todos os dias; ele dizia que tinha dois trabalhos mas ganhava só por um). Um dia ao voltar para casa viu que os cachorros tinham matado o gatinho filhote que havia recolhido poucos dias atrás, e ao qual tinha se apegado. Ficou triste e indignado com os cães, na realidade ficou furioso, queria castigar esses assassinos, bater, prender... Mas o que fez (saiu espontaneamente, sem explicação) foi começar a latir e uivar como um cão. Sem ter se proposto, tinha dado com o castigo mais eficaz; os cães se aterrorizaram. Com os pelos eriçados como se estivessem recebendo uma descarga de cem mil volts, recuavam com as patas encolhidas, a barriga tocando o chão, se jogavam pelos cantos, gemiam, os olhos dilatados pelo espanto. Demoraram vários dias para se recuperar. Evidentemente, para um cão a ameaça de que seu dono se torne cão é o pior que pode acontecer, pior ainda que a morte. Se explica, acho, por que esse homem transformado em cão continuará sendo o dono (ele não pode conceber outra coisa: já o interiorizou como


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dono) mas além disso será cão, quer dizer, saberá o que ele sabe, conhecerá de dentro os mecanismos de ação e reação do cão, e poderá exercer um domínio ao lado do qual o do homem-homem sobre o cão é apenas um simulacro lúdico de poder ou dominação. Um poder assim aterroriza. Ϟ

De criança eu tinha paixão por Pelopincho e Cachirula, uma tirinha cujo autor assinava com o pseudônimo de Fola (um anglouruguaio de nome Geoffrey Foladori). Era a primeira coisa que eu lia na Billiken, os dois personagens (quase nunca havia outros, era um mundo habitado por eles dois) me caíam imensamente simpáticos. Pelopincho era um menino de cabeça grande, penteado com brilhantina apesar do nome*, quase sempre vestido com um terninho formal, de gravatinha. Cachirula, a quem Pelopincho entre eles chamava de Rulita, ou Cachita, era uma menina com um enorme laço no cabelo. A relação entre ambos não era explícita, ou melhor dito, era diferente em cada tira: podiam ser amigos, vizinhos, viver juntos, não se conhecer, ele podia ser o chofer dela, ela a vendedora de uma loja e ele um cliente... Porque não necessariamente eram crianças, na realidade quase nunca eram. Como não havia mais ninguém no mundo em que viviam, deviam desempenhar todos os papeis. E estes eram loucamente mutáveis. Lembro que numa ocasião Cachirula (ou antes Fola) ironizava sobre estas mudanças: aparecia esfarrapada, com seu laço amassado, e dizia: “As voltas da vida! Agora Pelopincho é um magnata, e eu me vejo obrigada a mendigar para poder comer”. Na semana seguinte ela podia ser uma senhora burguesa e Pelopincho o seu jardineiro. Isso era o que eu mais gostava. Era uma liberdade, um espectro de possíveis de ser qualquer coisa, por exemplo, ser adultos sem deixar de ser crianças, ser bombeiro, taxista, vendedor de sapatos, artista, comerciante, escolar, e ao mesmo tempo seguir sendo Pelopincho e Cachirula. Do lado do autor, se explicava sem dificuldade: tinha um chiste para dois personagens, quase sempre um chiste velho, algum desses clássicos serviçais, e o punha em cena com seus dois únicos personagens, “Pelopincho” significaria literalmente “cabeloespetado”, embora remeta a um tipo de piscina para crianças. *


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reencarnando-os na situação que conviesse ao chiste. Mas esse mecanismo tão sumário o fazia coincidir com os mais felizes sonhos de destino da infância. Ϟ

De repente, numa cidade distante, não desprovida, para mim, de exotismos e estranhezas, pensei no proveito que tiraria de sua estada aqui um artista plástico, um desenhista; pensei em alguns, compatriotas meus ou não. À inspiração, ao estímulo, sucederia de imediato o trabalho, mesmo que em esboço. O mesmo que o fotógrafo, em que o processo seria mais óbvio; o fotógrafo é a forma moderna do pintor viajante, ou o pintor de vistas pitorescas. Não pensei nesse tipo de pintor, mas no atual artista comum, ou no desenhista (um dos que pensei: Crumb) (outro: Ellsworth Kelly). Enfim. Quero dizer que pensei nisso com nostalgia e inveja. Porque para mim não acontece nem poderia acontecer; se obtenho alguma inspiração ou algum estímulo de uma viagem, vai se materializar de forma indireta, irreconhecível, e depois de muito tempo e muito trabalho. Será preciso que os precedam a imaginação e a invenção, que esmagarão essa vivência inspiradora como uma montanha esmaga uma pedrinha. Ϟ

Do que a gente se esquece? De lembrar de alguma coisa. Quer dizer: não se esquece da coisa senão da sua lembrança. A lembrança, o rastro na memória, é a única coisa que existe. E está no positivo ou no negativo, com signo mais ou signo menos, porém de resto sem mudança alguma. Às coisas, à realidade, o esquecimento não afeta. É sempre matéria de lembrança. É só a lembrança o que pode ser afetado pelo esquecimento. Ϟ

De um dos enigmáticos quadros de Giorgione se suspeita que o chamado Concerto Campestre tenha sido completado por Tiziano, que teria pintado a figura da esquerda, uma mulher nua que pega

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