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A SENHA DOS SOLITรRIOS Diรกrios de escritores


ALBERTO GIORDANO

A SENHA DOS SOLITÁRIOS Diários de escritores

Organização e notas Rafael Gutiérrez Antonio Marcos Pereira

Tradução Rafael Gutiérrez


© Alberto Giordano, 2017 © Papéis Selvagens, 2017

Coordenação Coleção Marginalia Rafael Gutiérrez, Antonio Marcos Pereira Ilustração da capa: Juliana Rangel

Ilustração do autor na orelha: Karina Kuschnir Diagramação: Papéis Selvagens

Revisão Malu Resende, Thaís Lamoglia, Kelvin Falcão Klein

Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

G497s

(eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)

Giordano Alberto, 1959A senha dos solitários: diários de escritores / Alberto Giordano; organização e notas Rafael Gutiérrez e Antonio Marcos Pereira; tradução Rafael Gutiérrez - 2. ed. - Rio de Janeiro (RJ): Papéis Selvagens, 2017. 192 p. : 16 x 23 cm - (Marginalia; v. 1)

Inclui bibliografia. ISBN 978-85-92989-11-8

1. Ensaios argentinos. I. Gutiérrez, Rafael, 1975-. II. Pereira, Antonio Marcos, 1970-. III. Título. IV. Série. CDD-854 [2017] Papéis Selvagens papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com


Sumário

Prefácio à segunda edição

Aquém da literatura. Espiritualidade e moral cristã no diário de Rodolfo Walsh Virginia Woolf e a arte da notação superficial

9 11 29

Alguns dias na vida de Ángel Rama 43 A senha dos solitários 69 A doença do diário. Em torno dos Diários de John Cheever Digressões sobre os diários de escritores (Charles Du Bos entre Alejandra Pizarnik e Julio Ramón Ribeyro)

81

93

Julio Ramón Ribeyro. A tentação do diário

107

Vida e obra. Roland Barthes e a escrita do Diário Uma profissão de fé

147

Um rapport da interrupção. Os diários de Rosa Chacel

Sobre os diários de escritores

129

163 181


Ao menos até o momento os diários são um gênero, como a poesia, minoritário e secreto, que se alimenta de outros escritores de diários ou sensíveis ao gênero, aqueles que viriam reconhecer neles mais do que vidas parecidas, a senha dos solitários. Andrés Trapiello, O escritor de diários


Prefácio à segunda edição Em maio de 2016, quando decidimos encarar o projeto de criar uma editora, tínhamos ainda muitas questões sobre como proceder, mas estávamos certos de nosso desejo de lançar uma coletânea de ensaios de Alberto Giordano. Esses ensaios nos tocavam, e foram significativos para nosso aprendizado como críticos de literatura: nos encantava o estilo peculiar de Giordano, seu jeito ao mesmo tempo leve e incisivo de interrogar os autores e temas que abordava, sempre no tom de quem estivesse apenas continuando uma conversa, sem nenhum arroubo pedante ou professoral. Trazer alguns desses ensaios para o português nos parecia uma maneira de propiciar-lhes nova vida, e de disseminar algo que, para nós foi, e tem sido, um bem. Assim fizemos e, ao mesmo tempo que procurávamos nos inteirar das tramitações legais para a criação da Papéis Selvagens, cuidávamos de selecionar, ordenar, traduzir, revisar – enfim, preparar a edição de nosso primeiro livro, A senha dos solitários. O processo era aflitivo: somos poucos, estávamos com a agenda apertada, premidos por outras obrigações e correndo contra o tempo e nossa inconsciência nas complexidades do processo editorial. O lançamento do livro, todavia, contrariou qualquer aflição prévia. Foi uma noite feliz, muita gente compareceu para celebrar conosco o início da editora e assistir à palestra de Giordano, que tinha vindo ao Rio para participar de uma mesa redonda na ABRALIC. A caminho do auditório, na galeria do Instituto Cervantes, encontramos um poster de Rosa Chacel, uma das escritoras aqui comentadas. Finda a palestra, findo o lançamento do livro e da editora, tudo parecia ter funcionado à perfeição: nossa alegria era partilhada pelo autor dos ensaios e, acreditamos, também pelos que lá estiveram presentes, conosco, encontrando um momento em seu cotidiano para celebrar a literatura e a crítica literária. Aos poucos, todavia, percebemos problemas de revisão, que se somavam aos aspectos que, acreditávamos, com mais tempo e condições, poderiam ser aprimorados na edição: uma capa melhor e um design aprimorado. Vários amigos contribuíram com comentários a respeito da primeira edição, e singularizamos aqui a ajuda inestimável de Kelvin Falcão Klein, para que pudéssemos


apresentar, agora, nesta segunda edição, um objeto mais próximo daquele que desejamos e que recomendamos que seja tomado como referência. Enviamos também nossa gratidão a todas as pessoas que adquiriram a primeira edição do livro, pois essa contribuição nos ajudou a estruturar melhor nosso trabalho na editora. E confiamos que todos encontrarão aqui um livro melhor, incrementado pela adição de mais um ensaio: o texto da palestra que Giordano leu naquela noite de lançamento, que funciona como uma espécie de Coda ao livro, e ao seu trabalho já longevo com o tema dos diários de escritores. Está aqui para a memória dos que lá estiveram, que recordarão também o que não pode aparecer no texto: a qualidade das interlocuções ao final, a atenção intensa e a propensão à leveza das interações. E está aqui também para os que lá não estiveram, que encontrarão no novo ensaio muito mais que um arremate da coleção, mas um efetivo endereçamento para um novo conjunto de questões. Dezembro de 2017 Os organizadores


Aquém da literatura. Espiritualidade e moral cristã no diário de Rodolfo Walsh

Quando as repercussões do caso Padilla1 começaram a inquietar os acordos que os intelectuais argentinos identificados com a revolução cubana haviam mantido até então, Rodolfo Walsh publicou uma nota no diário La Opinión para colocar as coisas no seu lugar. Como tinha feito antes nas discussões com os amigos, bastaram-lhe dois ou três golpes certeiros de argumentação para desarmar as falácias contrarrevolucionárias. Alguém o felicitou pela inteligência e a coragem de sua intervenção e lhe falou de vários outros que compartilhavam esse sentimento de admiração. Um pouco aflito e um pouco comprazido pela profusão de elogios que sua integridade julgava exagerados (no fim das contas não tinha feito mais que organizar o que muitos queriam dizer), em 29 de maio de 1971 abriu a caderneta na qual escrevia seu diário íntimo para registrar, e talvez também para refrear, a ambiguidade afetiva de sua resposta a um mal-entendido que supunha perigoso: “Uma das coisas que sem dúvida me divertem, me adulam e me intimidam é até que ponto a gente pode se tornar um monumento de si mesmo, na consciência moral dos demais” (Walsh, 2007, p. 207).2 Acostumado a surpreender a impostura dos escritores de diários nos momentos em que se prescrevem humildade, às vezes penso que Walsh se confessava intimidado pela monumentalização de sua figura pública para se permitir desfrutar dos prazeres narcisistas que lhe proporcionava o reconhecimento, prazeres que talvez identificasse com a sobrevivência de uma concepção individualista e burguesa das relações sociais. Outras vezes, a articulação desse momento confessional no interior das buscas Giordano aqui se refere ao poeta cubano Heberto Padilla (1932-2000) e às repercussões, em particular na intelectualidade esquerdista da época, de seu encarceramento pelo governo cubano, motivado pela compreensão de que um de seus livros, o premiado Fuera de Juego (1968), constituiria atividade subversiva. (N. T.) 1

Todas as passagens citadas pelo autor, ao longo do livro, foram aqui traduzidas diretamente da versão do texto em espanhol. As referências das traduções ao português, quando elas existem, encontram-se, ao lado das suas versões castelhanas, nas Referências Bibliográficas de cada ensaio. (N. T.) 2


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espirituais que percorrem boa parte do diário me persuade de sua autenticidade. Como em toda questão de crença, há algo indeterminado que se subtrai ao jogo das interpretações contrapostas e que o faz possível. Do que não tenho dúvidas é da força com que a canonização literária e moral à qual a figura de Walsh foi submetida desde o retorno à democracia, num processo que começou sob o signo da reparação necessária, inibiu a possibilidade de ler sua obra, a articulação entre obra e vida que propõem seus escritos pessoais, além da exigência de render uma homenagem. “Se o Che é um bottom – escreveu Guillermo Saccomano – Walsh para muitos pode ser um santinho”. E os santinhos, sabemos, não pedem leitura e sim veneração. Até pouco tempo atrás não era fácil interromper a atitude de culto e percorrer as páginas do diário que sobreviveram ao roubo e à destruição3 sem responder ao compromisso cívico de encontrar nessas anotações fragmentárias um testemunho a mais de que o autor de Operação Massacre foi tanto um “grande escritor” quanto um “grande militante”. Deixo para quem quiser a análise da segunda fórmula. A propósito da primeira se poderia dizer, parafraseando Maurice Blanchot, que existe um imenso desprezo pela literatura como experiência radical nessa vontade de “engrandecer” sua prática submetendo-a a critérios de valoração próprios dos “senhores da cultura” – da “armadilha cultural”, para pô-lo nos termos que Walsh costuma usar em seu diário. Em uma entrevista recente, David Viñas, alguém com a autoridade e o prestígio suficientes para nos fazer supor que o que diz não seria tomado como uma ocorrência simples, declarou: “Se me pressionam, digo que Walsh é melhor escritor que Borges”. Tem importância? Quem o pressiona? Os especialistas nas narrativas da memória pós-ditatorial poderiam nos oferecer a precisão necessária mas, inclusive sem dispor de um conjunto de referências incontestáveis, entendo que está em curso uma nova etapa do complexo e conflitivo processo de revisão e apropriação do sentido ideológico das lutas políticas que violentaram os anos 70, na qual o questionamento das crenças e as práticas dos militantes revolucionários cobraram uma intensidade polêmica inédita. O esperado recomeço dos julgamentos dos Como se sabe, grande parte dos papéis pessoais de Walsh foi roubada pelo “grupo tarefa” que invadiu seu domicílio, em San Vicente, na noite depois de sua morte. 3


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responsáveis pela repressão estatal, a certeza de que os assassinos, pelo menos alguns, receberiam finalmente punição têm contribuído, certamente, para a ampliação das possibilidades de exame crítico: hoje se pode discutir de uma maneira aberta e enérgica a atuação das organizações armadas setentistas sem temer reanimar o fantasma da teoria dos “dois demônios”4 nem ser rotulado de imediato como um traidor das demandas por verdade e justiça. No campo específico das narrativas literárias, o texto que com mais clareza representa a trama polêmica desta nova conjuntura é o recente A quien corresponda de Martín Caparrós, romance de uma potência literária inversamente proporcional a seu valor como documento.5 Além do discurso dos repressores, que se expressa na voz repulsiva dos que torturaram e assassinaram com uma dedicação que ainda julgam inatacável, e pela voz do padre que os assistia espiritualmente, A quien corresponda amplifica a enunciação tortuosa de outro discurso menos óbvio, o da crítica inclemente às ilusões e às pretensões da militância guerrilheira, que se faz presente na voz do protagonista, um ex-membro dos Montoneros a quem enfurecem as idealizações irresponsáveis e os usos oportunistas desse passado que sua memória cristaliza como um tempo de erros políticos “tremendos”, “espantosos”. O romance de Caparrós procura a confrontação, solicita-a ruidosamente e, como testemunham algumas resenhas, já está colhendo seus frutos. Se posso de algum modo tomá-lo como referência de um estado de coisas no qual reconheço as condições de legitimidade de minha leitura do diário de Walsh, não é porque me identifique com as paixões tristes que agitam o protagonista ou o autor (humilhação, dor, fastio, desprezo), senão porque compartilho com eles um interesse crítico, a discussão do “modelo-messiânicoguevarista” com que se delineava nos anos 60 e 70 a figura do verdadeiro revolucionário, essa idealização do “homem novo que se sacrifica pelo futuro de seu povo, que entrega tudo, que vai para a morte satisfeito por ter podido realizar o mais excelso...” (Caparrós, 2008, p. 85). Interessa-me mostrar como este poderoso artefato Aqui, Giordano se refere à “teoria” que sugere que são equiparáveis a violência praticada pelo Estado militar na época da ditadura argentina (um “demônio”) e a violência dos atos de terrorismo característicos dos grupos que, naquele país, resistiam na forma de luta armada (outro “demônio”). (N. T.) 4

Para um estudo detalhado das etapas anteriores do romance argentino sobre a ditadura e a pós-ditadura, ver Dalmaroni (2004, pp. 155-174). 5


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moral coloca em funcionamento uma série de estereótipos que atuam sobre as autofigurações públicas do escritor de diários, mas também sobre a escritura de sua intimidade, para reduzir e homogeneizar qualquer manifestação de particularidades subjetivas anômalas, para bloquear – sempre me parece oportuno insistir nesta fórmula – a passagem da vida através da linguagem. Antes da leitura de A quien corresponda, dito em um sentido estritamente cronológico, houve outras leituras que me animaram a organizar na forma deste ensaio as notas sobre o diário de Walsh, a expor a perplexidade que me provocam os gestos do escritor de diários quando sente que sua integridade vacila. Entre os textos reunidos no dossiê “30 años sin Walsh”, publicado no suplemento Radar de Página/12, em 25 de março de 2007, há quatro ou cinco que resistem a tratar como monumento o que entendem ser ainda uma obra, a coexistência de movimentos heterogêneos em estado de tensão contínua. Para Martín Kohan, “Rodolfo Walsh provou, como ninguém, quais são os alcances e quais as limitações das palavras escritas: sua potência e sua impotência”, porque sua obra é ao mesmo tempo uma procura constante e uma experiência da impossibilidade da eficácia política, no sentido funcional da expressão, através da escritura. Depois de reconhecer que nunca será “simples se meter com Walsh” (de que outra coisa falam estas reflexões preliminares?), Rodrigo Fresán se permite algo que convida a repensar o sentido da conversão política e militar do autor de Operação Massacre: “era nosso Lawrence de Arábia”. Quem aceita o convite é Saccomano, na única intervenção declaradamente polêmica (começa clamando por uma leitura “contra as exaltações da retórica folclórica de um sessentismo melancólico”), para poder discutir o “compromisso quixotesco” de Walsh, sua tragédia, que é – disse – a de ter querido fazer literatura na vida, a de ter realizado até na morte os desejos de “ter uma vida literária”. As alusões à fascinação pela épica que subjazem a este compromisso romanesco terão, mais adiante, ressonância no comentário a algumas anotações do diário. Mais evidentes resultarão, com certeza, as ressonâncias do texto de María Moreno, “El deseo de escribir”, porque ele próprio é uma aproximação, temo que insuperável, ao diário de Walsh como registro, testemunho e experiência das tensões afetivas que ligam o escritor aos aspectos menos instrumentais, às vezes secretos, de seu ofício. Sempre, não importa o quanto a gente tenha se afeiçoado


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ao gênero, a existência de um diário íntimo que teve que esperar a morte do autor para se tornar público surpreende e interroga. Por quê, para quê, para quem? Em casos como o de Walsh, que se trate de um diário de escritor parece responder, ao menos uma resposta parcial, às incertezas. Essas cadernetas que foi preenchendo com o correr dos anos, que se ocupou de guardar e resguardar nas mudanças, que talvez tenha imaginado publicar num futuro não tão distante,6 serviam-lhe como arquivo de temas, argumentos e registros estilísticos; como caderno de exercícios narrativos; como agenda dos projetos em curso; e como memorial de alguns episódios significativos da vida literária e da rivalidade com os pares (por se tratar de um diário inusualmente discreto, a menção em três oportunidades às diferenças e aos desencontros com David Viñas tem uma relevância agonística que talvez não corresponda aos sentimentos reais de Walsh em relação a um colega tão próximo). Além disso, e se trata da mais literária das funções que pode cumprir um diário de escritor, aquela que expõe sua ligação essencial com os mistérios do ato de escrever, as cadernetas serviam para registrar e tentar conjurar o demônio da impossibilidade. “As ideias belas que me ocorrem justamente quando não posso escrever não vêm nunca quando me sento como agora à máquina” (Walsh, 2007, p. 106). Escreve-se que não se pode escrever, escreve-se para dizer que não se tem o que dizer ou que não se sabe como dizê-lo. A Rosa Chacel, este simulacro de escritura, este “fantasma de atividade intelectual”, como o chamou Amiel, provocava vertigem e repugnância porque lhe aparecia como uma armadilha, na qual sempre voltava a cair: a do sem sentido.7 O certo é que, como tudo o que persevera, a contínua reflexão Segundo Daniel Link, que teve a seu encargo as duas edições que existem deste diário, a primeira de 1995 e a segunda de 2007, os muitos riscos e emendas do próprio Walsh nos originais demonstram sua “vontade de publicar estas páginas, mais cedo ou mais tarde” (Link, 2007, p. 11). 6

“O natural é, se não há nada que ressoe, nem bola ou projétil de qualquer gênero projetável, o natural é não fazer nada, ficar caladinho sem dizer um pio, mas as coisas estão sobre a mesa, coisas que não servem para outra coisa e, automaticamente, a gente se põe a fazer a coisa mais injustificável, dizer que não tem nada a dizer (…) Se se trata de fazer, o assunto é outro, se faz ou não se faz... e já está, seu silêncio é verdadeiro silêncio, não é este papo furado, este cascalho de palavras que têm a faculdade de soar” (Chacel, 2004, p. 405). 7


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dos escritores (justamente eles, que dominam o ofício) sobre a dificuldade, a inibição ou o fracasso ao quererem escrever termina impondo a suspeita de que a impossibilidade de fazer o que se sabe fazer, o que a pessoa está dotada para fazer, envolve algum sentido. Na intimidade do diário, Walsh se retorce sob a pressão de um desejo tão forte como o temor ou a certeza de não poder realizálo: escrever um romance. A dificuldade de integrar toda a experiência no romance. O sentimento de impotência que isso produz. A possibilidade, quase desesperada, de começar com tudo, se jogar com tudo e criar um monstro (Walsh, 2007, p. 107).

Às vezes o desejo se aliena na obrigação de responder à demanda dos outros (a crítica, os editores, os pares) e então não é raro que se bloqueie sua realização. Mas, inclusive, quando a vontade vem de mais perto do teatro montado pelas expectativas e pela promessa de satisfazê-las, um problema técnico, a dificuldade de articular uma série de episódios autônomos no decorrer de uma trama romanesca podem tornar-se um drama (fala de impotência, de desespero), porque o fantasma da impossibilidade espreita. Para apreciar em sua complexa intensidade os movimentos, muitas vezes contraditórios, que a obsessão pela escritura do romance desata no profundo da consciência de Walsh, podese ler seu diário, no qual esta obsessão ocupa bastante espaço,8 como o produto de um exercício espiritual concebido não só para o conhecimento, mas também para o cuidado e o aperfeiçoamento de si mesmo, que em certas ocasiões resulta bem sucedido e, em outras, malogra. A perspectiva em que começo a me situar é aquela que Michel Foucault, em textos muito frequentados, chama de “espiritualidade”: o conjunto das buscas e das práticas em função das quais o sujeito realiza em si mesmo “as transformações necessárias no próprio ser do sujeito que permitirão o acesso à verdade” (Foucault, 2006, p. 21). O interessante desta perspectiva é que pressupõe que só podemos ter acesso à verdade de nossos afetos, ao mistério do que nos move a aceitar ou a rechaçar, a fazer ou a permanecer inativos, se antes tivermos realizado um Segundo Daniel Link (2003, p. 288), o diário todo “é basicamente a tensão em torno desse romance impossível, mas necessário ao mesmo tempo”. 8


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trabalho de depuração e melhoramento de nós mesmos. Que a escrita do diário possa ser uma das formas que assume este trabalho de ascese, fazendo supor que, sob a pressão do desejo de ter acesso à verdade, um fragmento de diário se torne outra coisa senão um espelho oferecido à autocomplacência: um campo para a experimentação performativa no qual o escritor de diários coloca à prova a consistência ética do que lhe acontece enquanto ensaia transformações. O diagnóstico do que empobrece e debilita as possibilidades de vida e a prescrição do caminho de aperfeiçoamento costumam ser as manobras de reconhecimento que precedem o exercício ou assinalam seu recomeço. Estou cansado e derrotado, devo recuperar uma certa alegria, chegar a sentir que meu livro também serve, romper a dissociação que em todos nós estão produzindo as ideias revolucionárias, o desgarramento, a perplexidade entre a ação e o pensamento etc. (Walsh, 2007, p. 117).

Recuperar a alegria significa recuperar-se a si mesmo através da escrita do romance, porque este é para ele o ato de criação mais intenso. Há que seguir escrevendo e desprender-se da tristeza e do esgotamento que provocam a alternativa literatura burguesa (o romance)/literatura revolucionária (o testemunho e o jornalismo), um discurso que o atravessa e o define mas que, no espaço reflexivo desta anotação, cansa por sua obviedade (o “etc.” final o apresenta como papo furado). Walsh estava muito atento às ameaças de despersonalização que sofrem os que, por falarem sempre em nome dos demais, deixam de falar de si mesmos, por si mesmos. Justamente por isso escrevia um diário ao qual confiava “a renovada crônica de como as coisas passaram pela gente” (Walsh, 2007, p. 207). A escrita do diário como resistência ao poder, sedutor e imperceptível, dos estereótipos que desenham, com traços grossos, a figura do revolucionário exemplar. Todo o extraordinário fragmento de 28 de janeiro de 69, no qual delibera sobre a conveniência ou não de ingressar na revista Panorama9 para resolver sua paupérrima situação econômica, pode ser lida conforme este princípio de dissidência. Semanário argentino de sucesso, que circulou entre 1963 e 1975: à semelhança da Life norte-americana, apresentava fotos coloridas e reportagens que se pretendiam profundas sobre atualidades. (N. T.) 9


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O que está em discussão é toda a minha personalidade. Até que ponto tendo a tornar-me um carola, a assumir os valores mais respeitáveis da esquerda? É possível que isto não se quebre sequer com minha entrada na Panorama, embora não faltarão algumas críticas. O inquietante é o nível superficial em que manejo estas questões (Walsh, 2007, p. 126).

A escrita do diário serve a Walsh para interrogar a superficialidade de certos valores que sabe serem irresistíveis, mas também indiferentes à densidade da existência autêntica, aqueles que tornam possível a canonização revolucionária, e para tomar uma decisão à altura de seus interesses terrenos, vai entrar “firme” na Panorama, ainda que com o risco de confundir-se com os que estão “complicados com o regime, gozando de seus benefícios e padecendo sua pacífica vergonha”, porque assim poderá mitigar por um tempo os apertos econômicos. Para não renunciar à sua tranquilidade, renuncia à sua santidade, pelo menos a uma santidade homogênea e indiscutível. Mas imediatamente o exame de si mesmo muda de direção, orienta-se outra vez para a elevação do compromisso e da entrega totais, e o exercício de dissidência se interrompe.

Resolvi – mas quase o resolveram os demais por mim, os demais que veem em mim um tipo de herói, que não pode se macular – não entrar firme na Panorama, aconteça o que acontecer. Não vou morrer de fome, suponho, e no entanto estive tão perto de me entregar, tão assustado (Walsh, 2007, p. 178).

O mais significativo deste reencaminhamento não é a identificação, um pouco velada pela referência irônica à vontade dos companheiros, com o estereótipo do “herói”, mais atraente que o de “monumento” ou de “carola” e que os contém, mas sim o ato de constrição final, a confissão de debilidades. A orientação que domina o trabalho de vigilância que Walsh realiza no diário sobre o que pensa e ocorre em seu pensamento é aquela da moralidade cristã, com suas exigências de sacrifício e renúncia de si mesmo, seus anseios de salvação e seu respeito à lei externa como fundamento da espiritualidade. A escrita da intimidade como cenário no qual se representam as lutas da alma consigo mesma, contra as tentações mundanas (“burguesas”) que a separam do caminho reto. (Nestes dramas morais, uma verdade


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política e existencial que vem de fora define a retidão do caminho assinalado: não se trata de adquirir o direito ao acesso, trata-se de aderir). Walsh acreditou que sua conversão à militância revolucionária, para ser verdadeira, tinha que ser total. Como tantos, era guiado pelo exemplo do Che: os melhores são os mais fiéis e os que mais se sacrificam.10 Segundo estas coordenadas, há que situar as repetidas tentativas – nunca definitivamente bem sucedidas, por sorte – de renúncia à literatura de ficção e à condição de escritor para se dedicar por completo às tarefas retóricas que lhe demandava a política. Muitas vezes imaginou no diário rotinas de trabalho que pudessem garantir a coexistência dessas duas práticas que os excessos de moralidade pretendiam, mais que contraditórias, antinômicas, mas no final essas coisas se tornaram insustentáveis. Não é que lhe faltasse disciplina, sobrava-lhe crença no valor superior do ato sacrificial. A renúncia de ser escritor tinha um alcance moderadamente custoso, era renunciar ao status e à vaidade, à presunção do mundinho literário, às facilidades que confere o pertencimento a um campo prestigioso, e outro de uma gravidade extrema porque comprometia o desejo de experimentar com margens de indeterminação e incerteza, que o trabalho jornalístico ou testemunhal desconhece, a literatura como “zona de liberdade” que se percorre com alegria, mas também com temor. Há épocas nas quais a contínua inatividade literária persuade aqueles que idealizam seu heroísmo de que já deixou de ser um escritor. Embora aceite o elogio, Walsh duvida, não fica claro se da firmeza de sua vontade, ou da conveniência do abandono.11 Mais do que alguém que deixou de escrever, as páginas do diário o mostram como um escritor que não escreve, que não está escrevendo o romance que os outros reclamam e, o que é pior, com o qual ele fantasia (se o primeiro lhe resulta tolerável, o segundo é uma fonte contínua de ansiedades e desassossego). Para se convencer de que a renúncia é necessária, e talvez com a ilusão de liberar o espírito da inquietude que provoca o desejo insatisfeito, dedica vários fragmentos do Num ensaio sobre as cenas de leitura nos diários do Che, Ricardo Piglia destaca a importância da “metáfora cristã do sacrifício” na construção política da figura do guerrilheiro como “asceta” (Piglia, 2005, p. 135). 10

“Pirí se deu conta antes de mim: ‘Você deixou de ser um escritor’ disse na última vez. Era um elogio, isso a emocionava. Deixei?” (Walsh, 2007, p. 192). 11


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diário ao esboço de uma teoria do romance como forma da arte burguesa que carece de eficácia direta (não serve para ferir, acusar ou desmascarar), porque, diferentemente do testemunho, este sim uma forma de escrita revolucionária, representa os fatos em lugar de apresentá-los. O esquematismo poderia ser um indício da falta de convencimento, além de ser um recurso apropriado para que se realize a vontade de depreciação. Em momentos de generosa lucidez, já não se trata da generosidade na entrega, mas na aceitação e na afirmação do que se subtrai ao juízo moral, o escritor de diários conjectura que a inatividade prolongada nem sempre teria a ver com o imperativo de abandonar aquilo que o distrai das lutas revolucionárias. A perda dos hábitos de escrita é algo que começou a se impor, que o foi ganhando, desde que decidiu em 1967 encarar o romance, antes de ter encontrado as razões políticas para justificar o abandono do projeto. A construção do herói literário que escolhe renunciar ao romance para “viver o romance junto ao povo”12 viria a deslocar e a encobrir as alternativas de outro drama, menos épico mas igualmente comprometedor, o da consciência se esforçando inutilmente para rechaçar o que se deseja, o que, porque se deseja, para além de qualquer necessidade, a inquieta e inibe? É a hipótese de María Moreno, a militância como resistência à escrita, o projeto político como a verdadeira evasão de um desejo que insiste. É como eu dizia. Liberado internamente do compromisso de seguir trabalhando no romance (embora seja um par de meses) volto a adquirir um ritmo de atividade razoável, inclusive excelente. Isto quer dizer que o romance é o difícil de dizer, o que se resiste a ser dito? O que me compromete no fundo? Outra variante na qual tenho pensado estes dias: o romance é a última forma da arte burguesa e por isso já não me satisfaz (Walsh, 2007, p. 178).

O segundo parágrafo queria suprimir a abertura ao desconhecido que colocou as perguntas no sentido das forças que obstruem a escrita do romance, e garantir à interrogação a estabilidade necessária para que retorne ao caminho reto. Ao menos A recaída no kitsch populista, com sua quixotesca confusão de vida e literatura, ocorre durante uma entrevista muito citada de Walsh e Miguel Briante, que publicou La Opinión Cultural em junho de 1972. As tensões que potencializam o interesse dos registros íntimos quase não aparecem nesta intervenção pública. 12


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para o leitor – não parece ser o caso deste escritor de diários – chega tarde; o impulso reativo que anima a reprodução do estereótipo “arte burguesa” se fez evidente demais. A enunciação dessas duas perguntas que reclamam a invenção de respostas singulares, respostas que em princípio somente conviriam à singularidade afetiva e profissional de quem as enuncia, é o mais longe que chegou e pode ter chegado Walsh na tentativa de se conhecer através da escrita do diário. Além desse limite que não cessa de franquear, abre-se um campo de transformações indeterminadas. O que teria ocorrido se, em vez de deixar o problema nas mãos do senso comum ideológico (o que lhe ditava que “algo tinha valor se servisse para a revolução; senão era supérfluo, quando não era nocivo” (Caparrós, 2008, p. 202)), houvesse tentado reformulá-lo tornando-se outro, um tipo de escritor que, em princípio, não teria identidade nem valor definidos? O intelectual engajado que estava obrigado a depreciá-lo por suas convicções políticas ou pelo temor de perder-se não teria podido escrever o romance com o qual Walsh fantasiava, nem tampouco o autor das narrativas inteligentes e elegantes, o da saga dos irlandeses, “Fotos” e “Esa mujer”. A invenção de uma forma romanesca supõe a experimentação com modos ainda não convencionais de articular vida e escrita. Em um breve texto autobiográfico de 1966, Walsh fixou sua concepção da literatura em uma fórmula que poderia servir como epígrafe desta tentativa de ler seu diário em chave de exercício espiritual: “A literatura é, entre outras coisas, um avanço laborioso através da própria estupidez” (Walsh, 2007, p. 15). Uma possibilidade interessante de pensar o processo pelo qual o escritor atravessa e decompõe sua estupidez para finalmente se desprender dela é imaginá-lo como uma série de manobras que impugnam o trabalho de redução ao qual os estereótipos submetem o que se manifesta como contraditório ou ambíguo. Por que faltaram forças ao Walsh dos escritos íntimos para perseverar no exame de suas contradições, por que se apressava em “resolvê-las” precipitando-se pelo atalho da sanção moral? A matriz cristã que reproduz as estupidezes políticas modeladas pelo estereótipo revolucionário/burguês explica, em parte, porque alguém com uma inteligência e uns reflexos críticos tão agudos não quis abandonar, nem a propósito dos assuntos mais pessoais, a crença de que tudo possa ser ordenado e valorado, remetendo-o a uma só, e muito elementar, oposição paradigmática. O espírito de sacrifício


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e obediência precisa de certezas sobre o que está bem (fazer, sentir, escrever) e o que não está bem para poder se sustentar. Há um momento perturbador do diário no qual se aprecia detalhadamente, quase em câmera lenta, quais são as operações que Walsh tem que realizar sobre si mesmo para que a reprodução dos estereótipos não o bloqueie ao atravessar um núcleo contraditório de sua existência, como vai se fazendo quanto à ideia de que a alternativa virtuosa é a da renúncia. Trata-se dos dois fragmentos sucessivos nos quais processa o mal-estar que sentiu ao saber que Raimundo Ongaro13 teria dito, depois de ler um escrito seu e não entender nada, “Escreve para os burgueses?”. Embora igualmente entristeça (porque o autor de Operação Massacre era um companheiro muito valioso na CGT dos argentinos que dirigiu Ongaro, e não lhe custaria tanto perguntar a Walsh, sem ânimo de desqualificação, por que escrevia “difícil”), a intolerância do chefe sindical resulta previsível em uma época na qual o anti-intelectualismo era a praxe no discurso de muitos intelectuais de esquerda. O excepcional é que, em lugar de discutir os pressupostos falaciosos da acusação – sobravam-lhe recursos para fazê-lo – ou de usar o diário, como é seu costume, para devolver ao agressor golpes imaginários, o acusado assente, mortifica-se.14 Está incomodado, diz, porque sabe que Raimundo tem razão ou pode ter. Mea culpa. Um pouco mais tarde, nesse mesmo dia, o espírito de análise se sobrepõe momentaneamente à vontade de mortificação (que é, finalmente, vontade de se identificar com o chefe sindical apesar de si mesmo) e o exercício parece encaminhar-se pelos meandros da discussão crítica: Mas o que é o mais especificamente burguês do que eu escrevo que mais incomoda Raimundo? Acredito que pode ser a condensação e o símbolo, a reserva, a anfibologia, a piscadela permanente ao leitor culto e entendido. Outra pergunta: se não é precisamente R quem usa categorias burguesas, que fala – v.g.r. – de uma literatura fácil, compreensível e burguesa como pode

Raimundo Ongaro (1924-2016), importante dirigente sindical argentino, fundador da central sindical CGT, militou em várias frentes de esquerda junto a Walsh. (N. T.) 13

“A mortificação não é a morte, claro está, mas é uma renúncia ao mundo e a si mesmo: uma espécie de morte diária. Uma morte que, em teoria, proporciona a vida em outro mundo” (Foucault, 1991, p. 116). 14


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ser a de Bullrich ou Sábato, que ao fim e ao cabo são best-sellers? (Walsh, 2007, p. 159).

Na grosseria do chefe sindical deu atenção a uma exigência: tem que deixar de escrever como aprendeu a fazê-lo, tem que esquecer a literatura como arte do indireto na qual mais que o dito conta o elidido. A tática que Walsh escolhe para resistir consiste em devolver ao epíteto “burguês” parte do alcance conceitual que perdeu desde que passou a funcionar como ferramenta de depreciação generalizada. Em sintonia com o saber crítico da época, insinua que a valoração política dos textos literários deveria atender à relação que estes estabelecem com os códigos de legibilidade instituídos. A inteligência do argumento engrandece a surpresa que se sente ao comprovar o efêmero de sua validade. Não se passa mais de um dia e as forças que o empurram à obediência e ao sacrifício se reagrupam por trás de um espetacular ato de denegação. Acho que estou compreendendo por que me resulta tão fácil “abandonar a literatura”. No fundo não é nenhum sacrifício. O que lamento é não poder continuar a farsa. Raimundo tem razão: escrever para burgueses (Walsh, 2007, p. 161).

No fundo o sacrifício era excessivo, além de estúpido, e Walsh, como se sabe, jamais abandonou a literatura; se na verdade quis fazê-lo, resultou-lhe, mais que difícil, impossível. Da mesma maneira, continuou achando que Ongaro tinha razão, pelo menos durante o tempo em que escreve o diário. Essa contradição surpreende e perturba. Contra o que a experiência e o saber lhe ensinaram, não renunciou jamais ao ideal de uma literatura revolucionária escrita “para todos” e não só para burgueses. O projeto o exaltava, certamente, mas também lhe servia para que continuasse se mortificando, como quando atribuía às “fanfarronices” de seu estilo, literário demais, a culpa de não poder realizá-lo. Há um par de semanas, num documentário biográfico sobre Paco Urondo, escutei Horacio Verbitsky comentar que muitas vezes lhe perguntaram, e ele mesmo se perguntou, como foi possível que militantes de uma inteligência e uma qualidade humana tão extraordinárias como Urondo e Walsh tivessem obedecido até o final a uma condução errada e miserável como a dos Montoneros,


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mesmo que tivessem manifestado seus desacordos. Embora algumas ressonâncias não lhe sejam alheias, Verbitsky limitou-se a repetir a pergunta e, curiosamente, não esboçou respostas. Apostou mais no efeito dramático do que na análise política. A pergunta muito menos importante que faço neste ensaio é por que, nessa forma de vida secreta e solitária que é a escrita do diário, ao amparo da opinião pública, Walsh não pôde se desprender das exigências e das reprimendas de um chefe político, e sequer questioná-las, embora humilhem sua existência de escritor. O que “mais incomodaria Raimundo”, segundo suas conjecturas, não é outra coisa senão o que lhe permitiu escrever, por exemplo, “Un oscuro día de justicia”, essa eficaz alegoria sobre a necessidade dos povos em luta de se valerem de si mesmos e prescindirem de heróis salvadores: a elipse, a condensação, o símbolo. Segundo Gonzalo Aguilar (2000, p. 13), em outro dos ensaios que facilitaram a escrita deste aqui, a lealdade é “a autêntica chave política” dos anos 60 e 70, e a obediência, a forma que assumia para subsistir quando apareciam discrepâncias. Haveríamos de atribuir então à coerência política de Walsh a força que conserva os princípios de lealdade e obediência no tratamento íntimo de seus assuntos pessoais? A continuidade entre a esfera dos compromissos públicos e a dos conflitos privados explica-se, além disso, pela intervenção de outro lugar comum ideológico para o qual convergem as inclinações pessoais e o espírito da época: a idealização da figura do chefe, militar ou político como herói moral. Um ano antes que as palavras de Ongaro fizessem explodir em sua consciência as suspeitas sobre a condição burguesa do escritor, Walsh anotou no diário: Não há dúvida de que a figura de Ongaro me atraiu intensamente. Vi nele um revolucionário – como tinha visto em Masetti – um chefe, alguém capaz de chegar ao sacrifício por suas ideias (Walsh, 2007, p. 115).

Em Ongaro, como antes em Jorge Masetti e Che Guevara, e antes ainda no capitão Eduardo Estivariz, um aviador naval que morreu em combate durante a derrocada de Perón em setembro de 1955, Walsh reconhece a estampa fascinante do homem possuído por uma causa que está disposto a sacrificar, ou já sacrificou, tudo


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por ela.15 Que tudo seja, às vezes, além da própria vida e a dos subordinados, a razão política, não parece tão grave se a fidelidade e a coerência consigo mesmo do herói resplandecem até o final, sobretudo no final. Como se as lutas fossem pela redenção e não pelo poder, os chefes são comemorados pela grandeza de seu sacrifício, embora, como no caso de Masetti e do último, Guevara, tivessem concebido e encabeçado ações que só poderiam fracassar. Entende-se, então, por que Walsh não quis, mais que não pôde, ignorar a exigência de escrever “para todos”, embora soubesse que os termos em que estava colocada fossem equivocados e que para obedecê-la tinha que renunciar inclusive ao irrenunciável, seu estilo. Eram palavras do chefe. Mais que a desqualificação (“Escreve para os burgueses?”), era difícil para ele aceitar o desencontro, público e íntimo, com a palavra de Ongaro. Tomava uma voz de ordem como se fosse a voz da verdade. Como se o chefe político, por levar uma existência heroica, fosse também um pastor de almas. Semelhante confusão há que atribuí-la à época, às suas mitologias políticas, e ao que nessas mitologias servia para confirmar uma visão cristã dos conflitos humanos enraizada, seguramente, na infância de Walsh. (Publicado em: La contraseña de los solitarios. Diarios de escritores. Rosario: Beatriz Viterbo, 2011, pp. 29-47)

Referências Bibliográficas Aguilar, Gonzalo (2000). “Rodolfo Walsh, más allá de la literatura”. Punto de Vista 67, pp. 10-14. Caparrós, Martín (2008). A quien corresponda. Buenos Aires: Editorial

O elogio do militar golpista encontra-se em uma nota que Walsh publicou em Leoplán em finais de 1955, “2-0-0 no vuelve”. Eduardo Jozami (2006, pp. 4648) comenta o texto e as circunstâncias em que foi escrito e, embora sublinhe a preeminência do moral sobre o político na atração que exercem a figura do herói (importa menos a identidade de sua causa do que a decisão de apostar a vida por ela) e a do subordinado que o acompanha até o fim, sem compartilhar suas ideias, por lealdade e convicção, não tira conclusões sobre quão perigoso pode ser o resultado, em termos políticos, desta sublimação de impulsos guerreiros. 15


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