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Ônibus


Elvio E. Gandolfo

Ônibus

Tradução de

Davis Diniz


© Elvio E. Gandolfo, 2018 © Papéis Selvagens, 2018

Coordenação Coleção Archimboldi Rafael Gutiérrez, Antonio Marcos Pereira, Rodrigo Rosa Tradução Davis Diniz

Revisão Mariana di Salvio Capa Ana Vizeu

Ilustração do autor na orelha e desenhos internos Melissa Mendes Vogelgsang Diagramação Papéis Selvagens

Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)

G196o

Gandolfo, Elvio E., 1947Ônibus / Elvio E. Gandolfo; tradutor Davidson Diniz. - Rio de Janeiro (RJ): Papéis Selvagens, 2018. 108 p. : 16 x 23 cm - (Archimboldi; v. 3) Título original: Ómnibus ISBN 978-85-85349-02-8

1. Literatura argentina - Romance. I. Diniz, Davidson. II. Título. III. Série. CDD Ar863 [2018] papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com


Sumário

I. As linhas de piche

11

III. O tempo passa

25

II. Conversas IV. O homem do granizo

17 31

V. Torturada, fascinante, desprotegida, mesquinha

37

VII. A vida vegetal

47

VI. Plenitude panorâmica VIII. Tragédias

IX. Reencontro X. Parentes XI. Um amor absorvente

XII. Aves migratórias XIII. Paredes simbólicas XIV. De Perón a Perón

43 51 57 61 69 77

83

89

XV. As plantas verdes do 72

95

Abordagens de quê? por Georges Perec

103

Apêndice


Para Lydia Battaini, Luis Pérez Mussio e Marcelo Romeu


I. As linhas de piche Da última vez voltei de ônibus. Como na maioria das vezes, era o da empresa Argentina das dez da manhã, de dois andares. A essa hora, uma vez que entra pela estrada, o sol bate com toda sua intensidade, e, durante a maior parte da viagem, sobre o flanco esquerdo. Uma espécie de sexto sentido me fez ir mudando duas ou três vezes de assento, porque tinha me esquecido pedir o lado mais cômodo ao cara do guichê quando comprei a passagem, e certamente entrariam bastantes passageiros em San Nicolás. Acertei: quando entraram, ninguém tinha o número do assento que eu ocupava nesse momento, sobre o flanco direito. Além do mais, era domingo. Havia feito a ida, presente de luxo, de carro. É totalmente outra forma de viajar. Era Charles, meu irmão, que havia vindo a Buenos Aires, e voltava, de modo que decidi aproveitar. Saímos muito mais tarde do que pensávamos, já noite. Havia pensado em voltar no sábado mesmo, também de noite, mas por sorte fiquei até o domingo de manhã. Não tinha sentido o cansaço, arrebentar-se por nada, e justamente nessa noite extra, gratuita, caminhamos meia cidade, embora em realidade só pelo bairro sul, com o querido Prin. Mas volto ao ônibus. Também como quase sempre alternou um pouquinho de ar-condicionado fresco com longos quilômetros suportando o calor do sol que batia de cheio sobre as cortinas puxadas do lado esquerdo, calor que, logicamente, inundava todo o interior do ônibus, como ar que era. Essa tenaz pão-duragem de ar-condicionado é, também, um traço essencial das dezenas de viagens que andei fazendo a Rosário ao longo dos dois últimos anos, em diferentes empresas, com distintos tipos de ônibus. Com um agravante curioso: antes, detestava as viagens de ônibus, e agora, sem admirá-las, nem sequer as suporto: desfruto. Me custa explicar isso. Inclusive, creio que comecei a escrever isto sobre essas viagens para tentar compreender. Trata-se, na realidade, de um tema mais geral. Que no entanto se concentra, se solidifica, aparece mais claro, limpidamente nítido, posto aí para que eu me dê conta, nas viagens de ônibus. E mais ainda nas viagens de carro. Embora não seja de todo certo. As viagens de carro tiveram


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sempre (muito antes de desfrutar das viagens de ônibus, quando ainda havia trens), por mais escassas que tenham sido, uma concentração equivalente. Um espaço mais ou menos reduzido, uma maneira de olhar a estrada e a paisagem quase ao rés do chão, quase sempre um parente próximo (da última vez, Charles) ou um amigo papeando, deixando que passassem os acidentes, a paisagem, os quilômetros. Isso do ônibus é diferente. Porque antes fazia a viagem de trem: um que saía às sete da manhã na ida, e outro, na volta, que saía de Buenos Aires às sete da tarde. Era a felicidade de poder voltar, só ou acompanhado, a Rosário, no dia, desobrigado da necessidade de procurar um lugar onde passar a noite em Buenos Aires, algo que nessa época soa tão terrível, tão pesado, tanto que me sentia desprezado não por alguém em particular, antes pelo clima inteiro que despencava sobre uma cidade enorme. Não se trata de que os ônibus tenham melhorado. Mas naquele então havia uma série de circunstâncias que me tornava detestável a viagem de ônibus. Pensava, por exemplo, em quatro horas (ou mais, naquela época) de prisão, sobretudo de noite, em que não podia acender alguma das duas luzes pequenas para ler, porque sentia o ódio dos assentos ao redor: me parecia que me detestavam por não deixá-los dormir. Por minha parte, dormir resultava totalmente impossível. Tudo isso fazia com que o tempo se tornasse quieto, angustiante, infinito. Não se trata de que agora a viagem se faça para mim necessariamente mais curta. Só que é outro o tempo. Vai se fragmentando sozinho, em diferentes blocos. Está pontuado, por exemplo, pelas idas ao banheiro, nunca menos que duas. Agora que penso isso também tem de ter incidido no aborrecimento do passado: me enfastiava ir ao banheiro. Se tivesse de ir uma só vez, postergava, aguentava até chegar a Rosário, ou ao terminal rodoviário de Retiro, e isso dava uma tensão adicional às costas, à bexiga. Tal como se então, que supostamente era jovem, fosse em realidade velho, não tanto pelas vezes que vou agora ao banheiro, coisa muito adequada ao tempo que passou, antes por essa necessidade de me pôr tenso, transpirando, concentrado, que alguém associaria geralmente à maturidade ou à velhice, neste tipo de sociedades. Esquecendo que essas três coisas – a tensão, o suor, a concentração – são paradigmas em troca da adolescência, do temor a crescer, ao mundo que está aí,


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pronto para nos devorar até que descobrimos que é tão velho e tão ocupado com seus próprios assuntos que nos deixa em paz, livres, por exemplo, de ter de viajar de ônibus quando queiramos, e olhar algum de seus vastos detalhes – o céu, a paisagem – pela janela. Agora, sobretudo no andar superior dos ônibus de dois andares da empresa Argentina, o corpo se tensiona e se distende tantas vezes quantas são necessárias para que a viagem seja não apenas essa quantidade de tempo e espaço que há que se percorrer, senão também, a cada vez, uma espécie de serena experiência. Mas às vezes maleável, densa, carregada de algo. Nas viagens a Rosário, a princípio atribuía isso à paisagem. Ao pensar em escrever sobre as viagens de ônibus, justamente um dos temas que mais me preocupavam por antecipação era esse: como diabos poder pôr em palavras escritas o que sinto com a paisagem que passa além da janela, com essa amplitude impossível, porque enquanto a enfoco, a mirada inclui a consciência não exatamente racional ou cerebral como perspectiva, corporal, inclusive secamente lírica, de como a paisagem segue e segue, sem nem sequer envolver o ônibus como uma esfera infinita: estando, ali, do outro lado da lataria do ônibus, superaquecida pelo sol sobre o flanco esquerdo, e apenas um pouco mais fria do lado direito. Salvo que o miserável do motorista se dignifique em pôr um pouco mais de ar-condicionado. De repente, sorrio enquanto escrevo, obviamente não no ônibus (nunca escrevi à mão, salvo em bares ou lugares de espera), ainda que o sorriso leve, sem chegar à risada, tem algo desse sabor ou atmosfera de viajar de ônibus. Sorrio porque penso que não consigo começar a assentar o tema. Como acontece sempre com o humor, que é concreto, o sorriso vem associado a uma pessoa em particular, um jornalista que uma vez se esquentou um pouco comigo em uma entrevista e em nota de rodapé perguntava o que queria eu dizer com certos termos, que lhe pareciam pouco claros. Sorri porque imaginei que o jornalista, uma vez lido o anterior, colocava os óculos (que usava) e dizia: “O que o autor quer dizer com ‘cerebral’, com ‘preceptiva’, com ‘secamente lírica’?”. Acontece que o tema das viagens de ônibus é um tema que vai, a uma velocidade equiparável, controlada, retilíneo na verdade, mas difícil de apreender, de apresar, aparentemente liso como o caminho ou a estrada que o ônibus percorre, embora infinitamente carregado de detalhes. Detalhes que a gente vai aprendendo viagem


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a viagem, embora nunca para chegar a um saber definitivo dessas quatro horas que vão de Buenos Aires a Rosário (ou vice-versa), antes para, por assim dizer, “manter-se em dia”. Porque esse saber muda uma e outra vez, segundo as circunstâncias de cada viagem. É muito distinto viajar de ônibus com chuva, com sol, com o céu nublado, com vento (que provoca inumeráveis inconvenientes se o ônibus é velho, e o ar se infiltra por gretas várias), sozinho ou acompanhado. Para dar um exemplo: certa vez ia acompanhado de uma bela mulher, que conhecia desde muito tempo atrás. Não sei bem se se devia ao fato de que lhe tinha contagiado o meu modo atual, fruitivo, de viajar de ônibus, ou se o bem-estar mútuo viajava conosco: o certo é que a viagem transcorria com uma naturalidade invejável. O tempo era, por assim dizer, mais longo que de costume, pela insólita riqueza dos gestos trocados: os olhares, os leves toques, a forma de encolher-se ou espichar-se de cada um em seu assento. Destaco isso porque justamente da meia dúzia de viagens que fizemos juntos (que ela foi reduzindo quando começamos a deixar de nos ver, com a capacidade da memória para acomodar-se às necessidades pragmáticas do sentimento) houve ao menos duas (ou até três) em que a mulher destacou, com um assombro para mim assombroso, o quão cômodos nos sentíamos, ou antes, o quão cômoda que se sentia viajando comigo. Coisa que para mim parecia natural, mas que deixava ela atônita, porque considerava que se sentia bem só quando viajava sozinha, ou, em todo caso, quando viajava com um companheiro desconhecido e interessante, que lhe permitisse criar filmes mentais (por exemplo: seguir viajando com ele além de Rosário, por assim dizer, até Córdoba, a iniciar, diretamente, uma nova vida) (coisa que, desde logo, nunca fez) (porque era mais natural). Até esse momento não tinha nunca se sentido bem com a mudança quando fazia a viagem acompanhada por alguém que conhecia até certo ponto, como no meu caso. E mais: mencionou para mim viagens com outras pessoas com as quais havia discutido, havia se sentido incômoda, o tempo se havia feito infinito para ela, havia transpirado, havia ficado tensa e havia se concentrado na viagem em vez de expandir-se em direção ao exterior, a curta distância (eu) ou a longa distância (a paisagem). De minha parte, não lhe disse nada: deixei que descrevesse


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o que havia sentido em outras ocasiões em particular, enquanto eu olhava de soslaio a paisagem lá fora, na qual havia e segue havendo algo que escapa de mim, que me deixa. Se por uma parte pensei “alguma vez tenho de escrever algo sobre estas viagens de ônibus, para tentar entender isso, isso que se vai, que não se dá só nos ônibus”, por outra parte olhei de repente e me perdi uns segundos no color marrom de seus olhos (isso era o que me encantava nela: o tremendo poder que podia irradiar uns olhos simplesmente marrons, não celestes, nem cinzas, nem muito menos verdes), capacidade de nos perder um no outro que tínhamos com extrema facilidade nesse momento. De imediato, intuí o que ela podia estar desejando e lhe disse: “Trouxe café pra você”, e ela sorriu encantada, assombrada por ter percebido seu desejo de tomar esse café depreciável do ônibus quase antes que ela, e sorriu e assentiu, com o sorriso de uma menina a que se oferece uma guloseima. Vejo que isto vem com digressões. Porque chego agora, depois de um desvio considerável, ao que queria: dar um exemplo desses detalhes que vim aprendendo nas viagens de ônibus (concretamente as que vão de Buenos Aires a Rosário, e vice-versa), que forma um saber sempre crescente, mas sempre mutável, que tem de manter-se em dia uma e outra vez. Para explicar isso, devo dizer que se trata, como tantas outras vezes, da viagem das dez da manhã da empresa Argentina. E que a mulher e eu viajávamos no primeiro andar. Esse primeiro andar tem uma frente constituída por algo equivalente a uma ampla janela de vidro que permite ir vendo o caminho irrompendo no telão panorâmico, de um lado a outro, quase melhor que pelos para-brisas do motorista e seu auxiliar. Ia com a mulher, digamos que na terceira fila. Eu vinha balançando-me um pouco com a xícara de café na mão desde a máquina lá do fundo, que também serve, por outro tubinho, um líquido imundo suposto suco, na realidade uma mistura de água e corante, para quem deseja algo frio em vez de quente. Nesse caminhar vacilante para evitar o respingo de café em algum passageiro, tive uma visão ampla do caminho em movimento. Havia notado um momento antes que a cada breve instante, o ônibus dava uma pequena sacudida, que se transmitia ao líquido marrom e fumegante (havia tido a precaução de meter um copinho plástico


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dentro de outro copinho plástico, para não me queimar os dedos com o plástico ardente). Era uma situação trivial a princípio. Mas que tinha também sua latência. Em um dos assentos, adiante, uma mulher que conhecia e considerava (era) bela estava esperando o que eu levara para ela. E embora o corredor fosse reto, e a estrada também, havia uma série de coisas com que se preocupar. Por exemplo, a leve sacudida. Para que ela tivesse a satisfação do desejo cumprido, o café tinha de chegar intacto. Especialmente não podia derramar-se sobre sua roupa quando eu me sentar e entregá-lo. Isso podia ser muito bem o que viesse a ocorrer, se eu afrouxasse um pouco os dedos para passar o copinho de plástico até a mão dela. Sobretudo se coincidisse com uma das pequenas, regulares sacudidas. As duas mãos em movimento (a minha, entregando; a dela, recebendo), ante o pequeno sobressalto violento, reagiriam com uma espécie de respingo, que as descoordenaria, e o líquido quente e pegajoso se derramaria. Por sorte (foi o detalhe que aprendi nessa viagem, e que nunca mais me serviu para nada) pude ver, pela janelona frontal, que o que ocorria era que todo esse trecho, ao longo de quilômetros, estava frisado por ranhuras de piche, seguramente recentes, que cruzavam a rota de lado a lado. O ritmo era preciso: ranhura/sacudida – longo trecho sereno – ranhura/sacudida, etc. Então me sentei, envolvido pelo sorriso e pela atitude receptiva da mulher, que se inclinou até mim, mas dizendo: “espera um minuto”. Houve uma ranhura/sacudida e de imediato entreguei o copinho. Ela o levou aos lábios e quando ainda estava bebendo o café, segurei muito suavemente o seu pulso com minha mão e disse “cuidado”, e houve outra ranhura/sacudida. Aí foi acometida de novo pelo assombro infantil, como se estivesse diante de um sábio inca ou precisamente oriental. E perguntou, com sorriso de criança, enquanto lhe advertia de outra sacudida, porque o tempo seguia passando: “Cooomo você se dá conta de uma coisa dessas?”. Sem me demorar na criação de uma aura de falsa sabedoria, ainda que não fosse por transitória diversão, expliquei de imediato a ranhura, o ritmo, as trepidações. Esse tipo de coisas que a gente vai aprendendo nas viagens de ônibus.


II. Conversas

Quase todos os ônibus têm fileiras de assentos duplos, o que dá um total próximo a 45 lugares, alguns com a mais incômoda localização, sozinho (pelo lugar que ocupa a máquina de café e o suposto suco), em frente ao banheiro, cuja porta os passageiros abrem uma e outra vez, fator irritante, pelo som e pela luz, se alguém teve o azar de ocupar esse assento abandonado pela mão de Deus em uma viagem noturna. Salvo no ônibus da empresa Argentina que sai às dez de Rosário (e um par de horários diários que saem de Retiro). Porque esse ônibus de dois andares, chamado leito, tem uma fileira dupla de um lado e, muitas vezes, uma fileira de apenas um assento do outro. E o banheirinho fica na parte debaixo, sem assentos próximos. Com frequência, ou sempre (não recordo isso com exatidão), a fileira única está situada do lado em que o sol bate com todo seu calor na viagem de Rosário a Retiro. Não posso controlar a súbita frase, ou antes o sentimento que me veio à mente e ao corpo como uma rajada: que prazer quando se viaja na fila de um só assento, com todo o espaço para os cotovelos, e o dia nublado, fresco, revigorante, misterioso, com nuvens escuras, tempestuosas, ou com um só plano cinza e leve, feito propositalmente para pensar, sem se ocupar do tremendo calor do sol batendo contra a lataria e as cortinas! De todo modo, a recordação acumulativa é de assentos duplos, não individuais. Geralmente, são bastante cômodos, pelo menos nos modelos de dois andares, que citei com frequência. Têm além do mais (daí o nome de leito) um suplemento afixado no encosto do assento da frente, que pode ser abaixado e sobre o qual se apoiam as pernas, para que, no caso de se lançar o assento para trás (coisa que alguém sempre termina por fazer ao longo das quatro horas), o corpo esteja mais cômodo. Propósito que é cumprido pela metade, como costuma acontecer com toda fabricação industrial, massificadora do conforto, que portanto não se ajusta à extrema variação dos corpos em um país como a Argentina. De tal modo que uma porcentagem notória de passageiros, entre os quais me incluo, tem sempre um corpo apenas um pouco curto ou apenas um pouco longo para aproveitar à medida exata esse arremedo claudicante de uma elegante tábua de passar,


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embora mais curta e forrada do mesmo tecido que os assentos. Esse detalhe entretanto não chegou nunca a me arruinar uma viagem, no período a que me refiro. Aqui devo precisões de datas. Justamente na época em que as viagens de ônibus eram para mim, se não uma verdadeira tortura, seguramente um dissabor considerável, nenhum incluía essas tábuas destinadas a arremedar muito precisamente uma cama, ao unir-se com o assento. E quando comecei a fazer regularmente a viagem, pelo contrário, já me encontrava na época contemporânea à que escrevo, na qual em parte comecei a viajar muito mais frequentemente a e a partir de Rosário e, em outra, coincidiu com o estado geral, de época, que constitui o tema maior que abarca, rodeia ou aglutina o tema dos ônibus. Já que menciono isso: não é que falar das viagens de ônibus constitua uma metáfora, nem muito menos um símbolo, nem um naco sem importância dessa coisa mais geral. Tampouco é o núcleo. Precisamente, a sensação geral tem algo de dispersão, de coisa que se abre, se desenrola ao exterior, em direção à paisagem, de uma maneira múltipla que explicarei mais adiante, depois de outros esclarecimentos e sobretudo digressões. Mas essa dispersão, em vez de condenar-se em uma sensação de perda, de angústia, de ansiedade, está regulada, constitui um equilíbrio instável que parece ser o único possível de abarcar estes tempos que em termos abstratos (profissionais, afetivos, corporais, familiares) compartilham essa sensação de dispersão silenciosa, nada espetacular, implosiva. Dito de outra maneira: não é que eu esteja me referindo, ao falar das viagens, a outra coisa, que use isso como desculpa, mas que fazê-lo é a melhor maneira direta, concreta de falar disso. Quanto aos assentos, dizia que a incomodidade da tábua encarpetada, que poderia ter aperfeiçoado a irritação das viagens do passado, agora, pelo contrário, entra na notória comodidade com que meu corpo enfrenta a viagem. Esse corpo (que inclui coisas tão essenciais como a cabeça, o fígado e o coração, e suas funções respectivas: a percepção, o impacto emocional primitivo – hepático – e a paixão – cardíaca) sabe o que tem de ir fazendo intuitiva, automaticamente, ao longo das quatro horas. Por uma parte, contemplar muito, mas não com extrema atenção, antes deixando entrar o que lhe chega. Por outra, reagir com prontidão aos estímulos internos: ir ao banheiro, para dar um exemplo. Mencionei antes que os ônibus não melhoraram muito, e que


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na realidade pioraram em alguns aspectos. Isso é especialmente notório nos banheiros. Para comparar: o estado de bem-estar variado que senti nos últimos anos tem seu antecedente nas viagens de ônibus mais escassas que fiz durante vários anos a partir de Colônia a Montevidéu. Havia contudo uma diferença: que ali as lâminas de paisagem, palmeiras junto da estrada e colinas suaves de uma vegetação que despontava por meio de uma câmera lenta de matizes de amarelo, ocre, marrom e vermelhos apagados de outono, convertiam-se diretamente na explicação do bem-estar. Sobretudo ao somar-se ao bom estado e manutenção que sempre tinham esses ônibus, com um lugar onde se notava mais: o banheiro. Se por uma parte o motorista não costumava racionar o ar condicionado, por outra o banheiro sempre estava provido de papel higiênico em perfeitas condições. Na maioria dos ônibus argentinos dos últimos anos, pelo contrário, a simples entrada no banheiro se converte em passagem a outra coisa, muito distinta do resto do ônibus. Uma primeira mudança tem ocorrência em um nível perceptivo imediato porque há um salto cru entre o ambiente atmosférico do ônibus e o do banheiro. Isto se deve ao fato de que, pelo geral, inclui uma janelinha, acima, quase sempre aberta. Mas a principal mudança é o caos. Costuma não ter papel higiênico. O assento costuma estar localizado de tal maneira que resulta impossível levantá-lo e deixá-lo apoiado contra a precária parede do banheirinho. Inclinado, insiste em voltar a cair. É extremamente difícil mantê-lo como uma mão e segurar o membro (no meu caso) com a outra e poder urinar com serenidade. A possibilidade de urinar sentando também é complexa porque o ângulo em que afunila o interior do pequeno inodoro, geralmente metálico, é tão pouco prático que, ao sentar-se, o membro toca quase inevitavelmente sua superfície, com o conseguinte temor a todo tipo de sujidades ou contágio, já promovido pela ausência de papel higiênico do pequeno recinto. Essa desvantagem se deve, antes de tudo, a que não é infrequente a entrada de algum passageiro de idade que erra o escasso buraco (sobretudo pelo efeito caótico da tampa que se nega a ficar levantada) e molha parte do chão. Outra possibilidade é que a máquina de suposto suco e café, unida a um elemento parecido aos redutores de velocidade que mencionei antes, faz com que se derrame um pouco de líquido. Como justamente costuma estar


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localizada diante da entrada do banheiro, esse líquido emporcalha o chão mediante as pisadas dos sucessivos visitantes. Com isso quero chegar ao fato de que, em caso de querer se sentar, se agrega o detalhe de cuidar da borda das calças, dado que, se toca o piso, ficará um pouco manchada pela mistura de suposto suco ou café e terra dos sapatos. Como dado curioso, pode-se mencionar que, em muitos casos, esse banheiro não tem papel higiênico, que tem uma janelinha pequena, às vezes aberta, que se suja, que às vezes inclui um botão para soltar água em um lugar absurdo (o teto, por exemplo), tem às vezes contudo um aparato sobre o qual se lê: “Para trocar fraldas”. Trata-se de uma simples, achatada, muitas vezes precária até a penúria, tábua ou superfície de metal que pode ser puxada até ocupar a metade do banheirinho. Na promessa de sua função existe a possibilidade de entrar em um pequeno cubículo com um bebê de colo, descer a simples trava que a mantém contra a parede (outra vez a tábua de passar, menor ainda que a dos assentos), acomodar o bebê (objeto via de regra extremamente móvel, e até rebelde) sobre ela e dedicar-se, enquanto se mantém o equilíbrio no chão contra não apenas as sacudidas mas também para equilibrar os óculos e às vezes prolongadas inclinações da massa inteira do veículo, sobretudo nos de dois andares, a uma série de movimentos nada simples: a) tirar as fraldas limpas de uma bolsa ou de algum outro recipiente, b) retirar a roupa do bebê (ocasionalmente com o desequilíbrio de temperatura provocado pela janelinha), c) fazer uma bola relativamente paciente com as fraldas sujas, que toda mãe reconhece como às vezes autenticamente repugnante, d) limpar o delicado bumbum do bebê, e) vestir-lhe a fralda limpa. Para dizer com brevidade: suspeito que nunca se utiliza esse aparato que promete comodidade, uma espécie de avanço civilizatório, que não é mais do que um incômodo adicional, por conta da extrema precariedade com que está construído. O que queria sublinhar é como todos esses inconvenientes, em vez de recobrir esse elemento geral de desfrute, ainda que não de gozo (obscuramente intuo que as viagens de ônibus nada têm a ver com o desejo, antes com a suspensão transitória do desejo), hoje a constituem. Dito de outra maneira: se me ocorre o pior, e tenho inclusive vontade de defecar nesse pequeno banheirinho desprovido das comodidades elementares, a ocasião não aparece


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como um desastre, antes como um desafio. Nesse caso, eu me desapego da paisagem, de deixar entrar o que os olhos trazem, e me concentro por um instante no problema. A primeira pergunta é se estou em condições de aguentar até a chegada. De modo geral, com a pergunta adicional de se aguentar me fará ter uma viagem agradável, pergunta que não me fazia em outros tempos. Geralmente a resposta é negativa. De modo que de imediato começo a buscar uma solução, conhecendo antecipadamente a muito provável falta de papel higiênico. A solução vem na maioria das vezes sob a forma de outro tipo de papel: um pedaço de jornal, uma revista, que quase sempre levo, ainda que não por ter pensado nesses usos, mas para ler. As folhas ideias são as de publicidade, por sua escassa utilidade. Uma possibilidade não desdenhável é que não exista esse desvio. Costuma traduzir-se na aceitação de aguentar até chegar. É a negativa. Outra, que maravilhosamente esse único banheiro tenha papel higiênico. É a positiva. No caso da negativa, a decisão contudo está tomada depois de esgotar as possibilidades de solução, que assim converte o ato de permanecer imóvel no assento em uma prova de temperança. Então a mistura de meditação divagante e contemplação fragmentada do que ocorre fora ou dentro da janelinha, inclui, pelas delicadíssimas mudanças químicas corporais que a decisão implica, uma sutil mudança também na qualidade do olhar, que pode alcançar, a meio caminho entre a filosofia e o humorismo, um rasquear de fundo sobre a complexidade da vida. Quando o assento é duplo, com frequência, sobretudo às sextas (se a direção é Retiro-Rosário) ou aos domingos à noite ou às segundas pela manhã muito cedo (na direção oposta) inclui um acompanhante. Quase sempre peço o assento da janela, ou seja, que o acompanhante ou a acompanhante seja a pessoa a quem tenho de pedir licença para me movimentar, para passar. Para ir ao banheiro, por exemplo. Com muita frequência, foram homens, mulheres em algumas ocasiões. Salvo que termine travando uma conversa, é o único ponto onde pode chegar a se concentrar um pouco do tédio que sentia antigamente, se a pessoa respira com profundidade, asperamente ou com ritmo desigual, por exemplo. Não tive a má sorte máxima: que exatamente a pessoa ao lado tivera tosse. Mas sim que tossisse alguém atrás ou na frente.


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No caso da respiração, o barulho pode converter-se em algo bastante terrível, por ser repetitivo ou regular, mas uma vez mais pelo geral, o que envolve a viagem de ônibus faz com que termine tendo, sem fazer esforço ou me propor a isso, uma visão clara de que é um problema das vias respiratórias do outro passageiro, assim como poderia ser meu. Que a pessoa, em todo caso, não está fazendo isso de propósito, para me aperrear ao longo das quatro horas. Viajei mais de uma vez com alguém com quem terminava por travar uma conversa. Penso isso agora, e me custa recordar alguma, embora fossem em seus momentos de ocorrência substanciosas, extensas, chegando a durar quase as quatro horas inteiras. Faz muito tempo, um ano e meio ou dois, digamos, bati papo a viagem toda com uma mulher jovem e simpática, cheia de entusiasmo. Mas o que recordo não são tanto detalhes senão dados gerais. Era de Santa Fé, mas tinha um apartamento em Rosário, e estava vivendo em Buenos Aires para terminar os estudos de ciências sociais. Houve, sim, um detalhe: o modo em que lhe rendia calma ao visitar a casa dos pais em Santa Fé, por uma razão precisa: as folhas de outono acumuladas na rua e nas veredas. A calmaria que lhe comunicavam era tão intensa que se transmitia a ela e a mim nesse momento, no assento do ônibus. Além do mais, recordo vagamente histórias sobre um irmão, que, segundo creio, tinha ido viver nos Estados Unidos, ou algum lugar parecido. Que era pintor, ou louco, acho. E a segurança com que me disse, quando me contou aquilo das folhas: “Mas não poderia voltar jamais a viver em Santa Fé. Nunca”. Sem raiva, com o peso do definitivo. Outra acompanhante, uma senhora. Me falava com a calma das aulas que dava na cidadezinha de onde vinha, e de como vivia com o filho. Fazia uma distinção essencial entre a docência e a educação. Tinha muito claro que na Argentina havia muita docência, porém muito pouca educação, e dizia isso com um tom recriminatório. Como conversamos muitos quilômetros, comecei a ter uma visão um pouco delirante de sua família, porque me dizia que havia ido (e além do mais ia sempre) a Buenos Aires “para visitar o meu marido”. Cheguei a pensar que o cara estivesse preso. Mas não, ao fim se revelou o mistério: depois de resistir-se de maneira opaca, inconsciente, terminou por me contar que o homem era da Guarda Nacional, e se podia entender que estavam como que separados, ainda que não de todo, coisa muito mais frequente do que geralmente se crê.


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O avance que a mulher havia feito até essa informação foi tão progressivo e sagaz, esquivado, que a informação não me assombrou quando chegou. Como se o dado de que alguém era da Guarda Nacional ali, sobre as rodas do ônibus que giravam e giravam, tivesse que chegar como uma fatalidade. Me assombrou, de outro modo, o que havia imaginado para o filho. Enquanto percorríamos os quilômetros, ela sorria repentinamente, se interrompia e dizia: “Agora deve estar tomando leite”. Deixava correr outros quilômetros enquanto falávamos de outra coisa (a educação, por exemplo), e depois emendava, olhando o ar como se estivesse vendo o filho: “Agora deve estar jogando futebol”. De repente se concentrou, sorrindo de orelha a orelha, no que o filho seria quando crescesse. Primeiro, contou para mim várias coisas que o pirralho lhe havia apresentado como possibilidade de futura profissão. Depois, com um sorriso ainda maior, feliz, acrescentou: “Mas eu e seu pai lhe dissemos: Não, Carlos, o seu claríssimo destino, o que você sempre quis é fazer parte do Exército Argentino”. Ali me assombrei um pouco. Mas a mãe prosseguia: “Ele sempre está sentadinho frente ao televisor, quando há algum desfile. Ou ontem, quando falou Balza (que era um comandante da época), deixou de fazer tudo e passou a escutar, inclusive chiava para nós para que nos calássemos”. Eu não entendia bem a que “nós” se referia, porque um pouco antes havia insistido em que o fulano da Guarda Nacional levava meses sem ir à cidadezinha. Mas não lhe perguntei: provavelmente uma mulher que limpava a casa. Não sei por que, e esclareço que não foi por recusa, a partir daí o papo com a mulher me entediou um pouco. De maneira que depois de suportar um pouquinho o sol que batia sobre a lateral (direita, porque estávamos indo para Rosário), contra as cortinas, fui ao banheiro e vi que estava livre o assento solitário. Como trazia uma boa revista, retirei-a da maleta e comecei a ler. Num ínterim, veio ao vão com uma portinha, que esse ônibus tinha em frente ao banheiro (não era da empresa Argentina, mas da Chevallier), uma morena magra, alta, seguramente uma ginasta, de olhar insolente, forte, que em poucos minutos, falando com outra mulher que também havia chegado para fumar (coisa proibida nos ônibus), informou com claridade que estava divorciada, e depois de salpicar cuidadosamente o lugar com as cinzas, com um gesto entre o elegante e o cabareteiro, foi atrás dos alaridos que o filho dava no assento, ainda que tranquila.


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Devo esclarecer algo: salvo quando me interessa muitíssimo uma conversa, sempre a escuto e até respondo sem deixar de olhar os enormes volumes de caminhões carregados de pranchas de ferro, ou cereais, que parecem ir lentos enquanto os ônibus os ultrapassam. Me comunicam uma sensação curiosa, que se mistura de maneiras muito distintas à conversa, e são um detalhe da estrada que corre entre Rosário e Retiro, que, pelo contrário, não existe no trajeto Colônia-Montevidéu, e que é muito menor em quantidade em relação à única vez que viajei cerca de 40 horas até São Paulo nas extensíssimas estradas brasileiras, onde caminhões muito maiores costumam estar desbarrancados pelo caminho, como grandes animais pré-históricos mortos.


III. O tempo passa

Andei duvidando acerca de incluir certas precisões nesta terceira parte, mas ao fim decidi fazer assim. É isso: passou mais de um ano desde que escrevi a segunda. Minha forma de ver as viagens de ônibus a Rosário, e sobretudo o projeto de escrever sobre o tema, não mudou substancialmente. Mas desde logo o próprio feito de ter começado a fazer isso modificou apenas as viagens em si: muitas vezes me descubro fazendo notas mentais (nunca escritas) para o texto em progresso, enquanto viajo. Ou me pergunto se estar escrevendo sobre elas faz com que sejam diferentes. Preguiçosamente, apenas me pergunto, não me respondo. Como o leitor recordará (e se não recorda, basta voltar uma página atrás), ao fim da segunda parte (ou segundo capítulo) havia uma breve referência a caminhões. Havia começado uma terceira parte onde se falava diretamente desses caminhões, mas carente de precisão ou de interesse, ao menos para mim. Então decidi deixá-la de lado (era menos de uma lauda) e escrever isto, para voltar aos caminhões mais adiante. Outro dado que antes não existia nem sequer como perspectiva era que muito provavelmente dentro de um par de meses comece a ir com regularidade a Rosário, com um propósito definido. Como o trabalho (que tanto divide, em sua essencial estupidez de horários e desgastes laterais, do verdadeiro trabalho) é quase a única coisa que tem um funcionamento regular e definido na vida humana, temi por um momento que essa mudança de propósito das viagens de ônibus se traduzisse em uma mudança de papel neste texto, ou, para ser dramático, na minha vida. Mas não me parece, como não me parece que isso modifique o tom do meu querido texto sobre as viagens de ônibus a Rosário e esse tema geral, por rodear ou, assim espero, bordejar, perseguir ou pelo menos sugerir, antes de terminar isso, que, desde o começo exato da existência do projeto, não é propriamente um romance, nem um calhamaço autobiográfico, nem filosofia, antes o discorrer sobre a linha reta da rota, da história ou das ideias que graças a mim, ou apesar de mim, vão ir se desenvolvendo. Quer dizer, prossigamos. Na boa quantidade de viagens

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"Ônibus" de Elvio Gandolfo  

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