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2 O PROGRAMA, QUEM O FAZ E A REDE GLOBO DE TELEVISÃO

2.1 A Rede Globo de Televisão

O presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, em 1957 já havia aprovado a concessão de televisão para a Rede Globo. A concessão do canal 4 do Rio de Janeiro foi decretada pelo Conselho Nacional de Telecomunicações em dezembro daquele ano. Dessa maneira, a TV Globo teve sua primeira transmissão no dia 26 de abril de 1965, apresentando o programa infantil Uni Duni Tê1. Desde seu princípio, tudo muito bem planejado: um prédio moderno, construído no bairro carioca do Jardim Botânico, com modelo similar ao de uma emissora estadunidense (SOUTO MAIOR, 2006). Durante a fase de testes da emissora, aconteceram as comemorações do primeiro ano do golpe que instaurou o regime militar no Brasil 2. No dia 31 de março de 1965, o presidente da República, marechal Humberto Castelo Branco, teve o seu discurso veiculado nas emissoras já existentes. Diferentemente das demais emissoras brasileiras, naquele ano a TV Globo não transmitiu ao vivo a fala do presidente, em função de ainda estar em fase de testes. Porém é sabido que a empresa apoiou a ditadura militar do Brasil. A própria Rede assumiu publicamente o apoio dado àquele regime em um editorial do site oglobo.com postado em 31 de agosto de 2013, cujo título é: “Apoio editorial do Golpe de 64 foi um erro” 3. Assim, ao analisarmos esta emissora, devemos levar em conta a ideologia impressa nas ações da Rede Globo, tanto do ponto de vista editorial de suas empresas jornalísticas quanto por parte dos programas de entretenimento televisivo, como nos programas de auditório, por exemplo. Em 26 de abril daquele ano, a TV Globo vai ao ar ao som do Hino Nacional. Quem inaugurou a emissora foi o diretor Rubens Amaral, que reproduziu o discurso elaborado por Roberto Marinho: “É com orgulho que entregamos à Cidade do Rio de Janeiro a TV Globo (...) eis o Canal 4. Vamos todos participar de seu começo” (SOUTO MAIOR, 2006). Com uma programação, inicialmente, bastante voltada para o público infantil, o canal

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Uni Duni Tê foi um programa didático infantil exibido na TV Globo até 1968. Foi a primeira atração transmitida pela emissora , às 11h de 26 de abri de 1965, dia de sua inauguração. 2 Regime autoritário que governou o Brasil de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985. 3 Disponível em <http://oglobo.globo.com/pais/apoio-editorial-ao-golpe-de-64-foi-um-erro-9771604>. Acesso em 20 nov 2013.


2 Globo contava com o programa Uni Duni Tê, o primeiro a estreiar; Capitão Furacão, um aovivo que ia ao ar às 17 horas. Mas não demorou muito para que o principal destaque da emissora surgisse: a novela. A primeira foi Ilusões Perdidas que, no mesmo ano, fez sucesso com Leila Diniz4 e Reginaldo Faria5. Depois desta estreia, a emissora emplacou um sucesso atrás do outro: as telenovelas Eu compro esta mulher6 e Sheik de Agadir7, um programa apresentado por Dercy Gonçalves e o Ibrahim Sued Repórter. Entre tantas outras atrações, estas fizeram sucesso nos primeiros anos de TV Globo. Quanto ao jornalismo, o Jornal de Vanguarda, originalmente exibido pela TV Excelsior, foi um dos principais destaques nos primeiros dois anos de existência da emissora, em função de seu tom irônico e crítico, diferentemente do que podia ser observado com o Repórter Esso8, por exemplo. Em 1967, o Jornal de Vanguarda e parte de sua equipe deixam a TV Globo e voltam para a TV Excelsior. A saída da Globo deveu-se à forte represália sofrida por jornalistas do telejornal que posicionavam-se contra a ditadura militar instaurada no país àquela época, já que, entre os escritores, estavam o jornalista Millôr Fernandes e Sérgio Porto 9. Dessa forma, houve um conflito ideológico entre o que os redatores gostariam de publicar e o que os editores, apoiadores do golpe, gostariam de que fosse publicado. Sendo assim, fazendo um compilado de informações acerca da história da TV Globo, podemos notar que a emissora vem tentando, historicamente, demarcar sua ideologia nos lares brasileiros, seja através de uma novela, de um programa de auditório ou de uma notícia. A ideologia capitalista e tudo que a abarca, como a exaltação da meritocracia, a estereotipação do indivíduo ou de grupos, como negros, mulheres, homossexuais, favelados continua a fazer parte do quotidiano de quem assiste à Rede Globo. Um estilo de programas que marcou época na TV Globo, e na TV aberta como um todo: os programas de auditório. Entre os apresentadores que são ícone desse tipo de formato televisivo podem ser citador Silvio Santos e Chacrinha, ambos na Globo e Hebe Camargo,

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Atriz fluminense nascida em 1945, que fez grande sucesso na televisão e no cinema brasileiros nos anos 1960 e começo dos anos 1970. Conhecida por quebrar tabus, chocou a sociedade conservadora ao posar de biquíni durante a gravidez. A TV Globo não renovou seu contrato, alegando razões morais. 5 Ator fluminense, nascido em 1937. 6 Foi uma telenovela brasileira exibida pela Rede Globo em 1966, com roteiro baseado no romance O Conde de Monte Cristo (1844). 7 Foi uma telenovela exibida pela Rede Globo da metade de 1966 a começo de 1967. Foi baseada no romance Taras Bulba (1835). 8 Primeiro noticiário de radiojornalismo do Brasil. Esteve no ar de 1941 a 1969 no rádio e de 1952 a 1970 na televisão. 9 Posteriormente, estes jornalistas fundariam O Pasquim, importante marco da imprensa alternativa naquele período.


3 que perpassou pela TV Tupi, Rede Record, Rede Bandeirantes, SBT e RedeTV!. Como o Esquenta! configura-se em um programa de auditório, é importante que destaquemos algumas de suas semelhanças com alguns desses apresentadores. Regina Casé é conhecida como “madrinha da periferia”, apelido que remete a uma das maneiras pela qual Hebe Camargo era conhecida, madrinha da televisão. Sobre Chacrinha, a apresentadora do Esquenta!, em alguns episódios, joga para a plateia produtos oferecidos pelos patrocinadores, assim como o comunicador costumava fazer em seu programa. Um dos estudos mais reverenciados sobre programas de auditório é a obra “A noite da madrinha”, de Sergio Miceli (1972), o qual aborda os suportes ideológicos da classe média brasileira e explora as condições em que a indústria cultural se consolida no país, através da análise do programa de Hebe Camargo. O autor demonstra que os meios de comunicação de massa são instrumentos estratégicos de dominação de classe. Dessa maneira, podemos perceber a íntima conexão entre programas de auditório e relações de classe. Desde os anos 2000, a TV Globo tem inserido o tema da favela e do que é produzido nela em sua programação. Regina Casé protagonizou iniciativas que foram ao encontro desta tendência. Prova disso é o quadro Minha Periferia, do Fantástico que, seguindo inclinação da emissora em testar programas-piloto em quadros no programa dominical que, posteriormente, ganham espaço na grade da programação devido a seu sucesso (GOMES, 2011, p.272). Dessa maneira, para Luana Gomes (2011), o Minha Periferia seria diretamenta uma prévia do Central da Periferia. “Famosa por sua atuação do TV Pirata e pela apresentação dos programas Brasil Legal e Muvuca, onde entrevistava pessoas comuns num clima de descontração e familiaridade, Regina Casé transporta, ao quadro, esse mesmo traço de apresentação (GOMES, L in GOMES, I, 2011, p.272).

2.2 A apresentadora

Regina Maria Barreto Casé, nasceu em 25 de fevereiro de 1954, no Rio de Janeiro, filha do radialista Ademar Casé. Portanto, desde cedo circundou o ambiente midiático, vivendo em meio à televisão e à arte. Regina logo na adolescência interessou-se por teatro e fundou, juntamente com alguns amigos, o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Depois da experiência teatral, Regina atuou como atriz na Rede Globo, tendo vivido uma das personagens mais caricatas e populares da teledramaturgia dos anos 1980, Tina


4 Pepper, na novela Cambalacho. Outra experiência da atriz na emissora naquela época foi a participação no programa humorístico TV Pirata, cujo roteiro costumava satirizar a própria produção televisiva. A gente ria muito, muito, muito. Eu me lembro quando o Ney começou a fazer o Barbosa e fazia umas experiências, umas trocas de barriga e de perucas o tempo todo, até compor o personagem. E o teste já era no camarim. A gente tinha uma disposição para se esculhambar, para ficar feio e um ficar sacaneando o outro. Era quase como uma sala de aula de adolescentes, sabe? Um vai detonando o outro com humor, para o bem geral. Divertidíssimo. (CASÉ apud SOUTO MAIOR, 2006).

Em 1991, Regina, juntamente com o ator Luiz Fernando Guimarães, leva ao ar o Programa Legal. O programa era uma mistura de “documentário, ficção e humor” (ALMANAQUE, 2006), que foi ao ar nas noites de terça-feira e ficou no ar por, aproximadamente, dois anos. Os apresentadores viajavam para lugares que, àquela época, eram incomuns na televisão aberta brasileira, como os bailes funk. Cada edição do Programa Legal envolvia muita pesquisa e pré-produção. Uma equipe de roteiristas de primeira linha – com Luis Fernando Verissimo e Marcelo Tas, por exemplo – ficava encarregada de costurar as gravações na rua com esquetes cômicos, muitas vezes gravados em estúdio. Personagens reais se misturavam aos tipos vividos por Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães (SOUTO MAIOR, 2006).

Com este programa, dava-se início, em televisão aberta, à parceria entre Regina Casé e o antropólogo Hermano Vianna, também idealizador do Esquenta!, e que continuaria nos projetos seguintes da apresentadora. A partir daquela experiência, a apresentadora começa a investir na televisualização de manifestações culturais que, até então, eram pouco exploradas pelo meio, como o brega, o funk, e a cultura cigana, para citar alguns exemplos das temáticas abordadas pelos apresentadores ao longo dos programas. Com humor, Regina Casé ia se inserindo no contexto da apresentação de programas, afastando-se da dramaturgia. Em 1994, a apresentadora volta à televisão aberta com um novo programa chamado Brasil Legal. “Microfone na mão, nenhuma dramatização ou esquete no papel, a atriz saiu por aí para garimpar personagens e descobrir belas histórias pelo Brasil afora” (SOUTO MAIOR, 2006). Em 1998 o Brasil Legal sai do ar, e Regina assume outro projeto. Assim, naquele mesmo ano, a apresentadora estreia um programa chamado Muvuca. O semanal tinha como cenário uma casa no bairro Humaitá, no Rio de Janeiro, onde a apresentadora recebia convidados de maneira descontraída, como se realmente estivesse em sua casa recebendo os amigos, aspecto também verificado no Esquenta!. Em 2000, Regina


5 Casé encerra a exibição do Muvuca. Durante esse recesso na TV aberta, Regina Casé apresentou alguns programas em TV a cabo, como Um Pé de Quê? no Canal Futura, no qual mostrava uma árvore diferente a cada episódio, e o Cena Aberta, no qual se falava de literatura. Foi apenas em 2006 que a apresentadora retorna à TV Globo e centra na favela a temática principal de seus programas. Passa a apresentar um programa de auditório ao ar livre, chamado Central da Periferia, o qual destacava as produções culturais das periferias brasileiras, que ia ao ar mensalmente nas tardes de sábado. Neste programa, Regina Casé recebia no palco convidados famosos, em geral, de origem humilde, para que fossem mostradas as realidades de pessoas que viviam nas mesmas localidades (GOMES, 2005). De acordo com Luana Gomes (2005), no Central da Periferia havia relação entre jornalismo e entretenimento, ao passo que a entrevista era explorada com frequência pela apresentadora. Em 2009, Regina Casé, em parceria com seu marido, o diretor Estevão Ciavatta, estreia um quadro no programa Fantástico, chamado de “Vem com tudo”, em que eram apresentadas novas tendências do que se produzia na favela, desde novos ritmos musicais até novidades em roupas e acessórios. Em entrevista à revista Istoé, a apresentadora comentou sobre o momento que estava vivendo, pois seu marido havia sofrido um grave acidente, o qual quase deixou-o tetraplégico, um ano antes de estrear o novo quadro. É muito contraditório estar vivendo um momento de tanta reclusão, tão quietinha e, de repente, sair para fazer um programa na rua, com tanta gente, de humor, de ficção, coisa que eu não fazia há muito tempo. Foi muito bom porque me requisitou tanto que eu conseguia me renovar e buscar novas energias para continuar. Vi que a gente pode transmutar e aproveitar estas coisas. Quem me olhava na rua, não imaginava 10 como estavam sendo minhas noites e meus dias .

A partir de então, Regina Casé ficou conhecida como madrinha da favela e hoje comanda o Esquenta!, cujo lema é “tudo junto e misturado”. Não é nosso objetivo discutir de que maneira a apresentadora tornou-se, tão rapidamente, símbolo de algo tão heterogêneo quanto a favela. Mas, como todas as relações no Esquenta! dão-se sob o comando dela, é importante pensar no que leva uma ex-aluna de um dos colégios mais tradicionais da cidade do Rio de Janeiro, Colégio Sacré-Coeur de Marie e que frequenta o bairro do Leblon11 a se tornar – segundo o que é dito na mídia, pelos outros e por ela mesma12 – madrinha da favela 10

Disponível em: <http://www.terra.com.br/istoegente/edicoes/508/artigo140460-1.htm>. Acesso em 20 nov 2013. 11 Um dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro, conhecido por ter o “metro quadrado mais caro do país”. 12 Em um dos episódios de Esquenta! analisados, do dia 16/12/12, Regina Casé diz: “Vou contar uma coisa pra vocês. Eu sou neta de professora. Minha avó era professora da rede municipal, superidealista. Eu acho que, às


6 ou de seus moradores.

2.3 O programa

O Esquenta! é um programa dominical de auditório, com duração de cerca de uma hora e meia – durante nossa observação, verificamos que seu tempo pode variar entre uma hora, uma hora e quinze minutos e uma hora e meia – e que está em sua terceira temporada, foi ao ar pela primeira vez no dia 2 de janeiro de 2011. A apresentadora, Regina Casé, cumpre um papel similar ao de um mestre de cerimônias, utilizando o clima inflamado de festa para comandar a grande escola de samba em que o Esquenta! se torna no clímax de cada episódio. Em outro momento, o programa se assemelha a uma roda de samba, reunindo artistas consagrados desse estilo musical, que compõem o grupo de participantes efetivos do programa: Arlindo Cruz, Leandro Sapucahy, Xandy de Pilares e Péricles. Já a plateia interage com os convidados e com a apresentadora através dos comandos da própria Regina Casé, que interage com os participantes fazendo perguntas e promovendo jogos patrocinados pelos anunciantes. Em torno do cenário, em formato de círculo, aproximadamente 400 pessoas assistem ao programa. A disposição da plateia, distribuida em todos os ângulos, remete a das arquibancadas de um jogo de futebol. Em média, o programa conta, a cada domingo, com 10 novos convidados, além de seus participantes fixos, como o músico e humorista Mumuzinho, o ator Douglas Silva, o redator e humorista Victor Sarro, a cantora Preta Gil, o sucesso da internet Luane Dias, além de José Marcelo Zacchi e Alê Youssef, ambos comentaristas de direitos humanos e políticas públicas. A presença de alguns convidados é tão corriqueira que Regina Casé até dispensa apresentações. No programa exibido no dia 29 de junho de 2013, por exemplo, a participação do ator Fábio Porchat nem é comentada; a apresentadora apenas introduz o comediante, que também é um dos roteiristas do programa, no assunto da semana. Atualmente, o Esquenta! está em sua terceira temporada. Desde sua estreia, passou por algumas mudanças, como as alterações do horário de sua exibição – cujo início varia do meiovezes, eu fico aqui e dou uns papo-reto comprido, umas resenha (sic) que não acaba nunca, e isso tudo é porque eu queria ser professora. Muita gente acha que educação é uma coisa amarga, igual remédio: você mistura com mel pra enfiar goela abaixo, porque educação é chato. Eu não acho. Eu acho que a educação não é o fel, é o mel, a educação é que é a delícia. Você vê, esse programa aqui é um programa de domingo, na hora do almoço, com roda de samba. Quantas coisas a gente não aprendeu hoje? Um monte! E eu acho que é assim, não tem que ter...uma hora a gente tá ‘vem cá’, sorrindo e outra hora séria. É tudo junto e misturado”.


7 dia ou até às 15 horas - como a temática dos programas, que se torna recorrente na terceira temporada e como a diversificação de seu conteúdo, porque o Esquenta! vai para além do samba, abrindo espaço para o rap, o hip-hop, o funk, o tecnobrega, o sertanejo. Um mudança evidente entre as temporadas é o cenário. Nas duas primeiras, a plateia não era disposta em 360 graus, como está nesta terceira, mas sim era organizada à frente do palco e às laterais. Os convidados ficavam sentados a mesas que construíam um imaginário de cenário de bar (Figura 1). Garçons servem petiscos – inclusive na atual temporada – aos artistas que participam do programa. Até cerveja já foi especialmente servida ao cantor Zeca Pagodinho em sua participação na segunda temporada.

Figura 1 – Cenário da segunda temporada. Fonte: Globo.com

2.3.1 Primeira temporada

Na primeira temporada de Esquenta!, que foi ar no ano de 2011, Regina entrevistou desde moradores da Favela do Cantagalo até os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, com quem brincou sobre aposentadoria, e Fernando Henrique Cardoso, com quem debateu a descriminalização das drogas. Dentre os ambientes que compunham o cenário da primeira temporada, havia uma


8 cozinha, utilizada no quadro sobre culinária, em que a apresentadora convidava alguém para cozinhar uma tradicional receita de almoço de domingo. O convidado poderia ser um famoso chef ou um familiar de algum famoso, como a mãe de Leandro Sapucahy que foi ao programa para preparar um estrogonofe, a pedido do filho. Nesta temporada, um quadro de humor era fixo no roteiro do programa, garantindo que a apresentadora recebesse comediantes, como Fábio Porchat, Leandro Hassum, Marcius Melhem, Samantha Schmutz, Nelson Freitas, entre outros. Como domingo é um dia da semana em que, tradicionalmente, há jogos de futebol, um jogador famoso costumava ir até o palco para falar sobre sua carreira e trajetória. Os programas eram encerrados por um texto recitado por Regina Casé. Em tom doutrinário, a apresentadora fazia, e continuou fazendo ao longo das outras temporadas, um resumo das questões debatidas ao longo do programa e assumindo uma posição sobre elas 13 . Depois disso, o fim do programa costumava ser oficializado com a participação alegórica de uma escola de samba. A ideia inicial era de que o programa fosse ao ar apenas no verão e, com o fim da estação, veio o fim da primeira temporada do Esquenta! Em função do sucesso obtido, em junho de 2011, o programa voltou ao ar, com o nome de Esquentão em um episódio único, que comemorou a Festa Junina.

2.3.2 Segunda temporada

No dia 11 de dezembro de 2011, o Esquenta! voltou à grade da Globo, estreando sua segunda temporada. A roda musical expandiu-se, dando mais espaço a outros ritmos populares14 além do samba, como o funk, o forró, o sertanejo, o tecnobrega e o pagode. Uma das novidades foi o quadro Calourão, cujo nome é uma mistura das palavras “calorão” e “calouro”, em que os candidatos – previamente selecionados – mostram o seu talento em alguma brincadeira e são julgados por alguns convidados e/ou participantes fixos, como a cantora Preta Gil. 13

Por exemplo, no episódio do dia 29 de junho, um dos quais analisaremos, Regina afirma que um de seus convidados “não tinha pai, não tinha mãe e hoje em dia ele está nos lugares mais incríveis do mundo todo, porque ele estudou e meteu a cara”. Afirmações, como esta, são proferidas pela apresentadora ao longo de todo programa, demarcando suas opniões e convicções. 14 Chama a atenção o episódio do dia 29 de junho, que, excepcionalmente, abordou a música clássica, com a participação da Orquestra Sinfônica Brasileira, que analisaremos adiante.


9 Outra novidade do programa nesta temporada é a “Biblioteca do Esquenta!”, que consiste em um convidado, na primeira vez que participa do programa, doar um livro de sua preferência. Dessa forma, o Esquenta! teria sua própria “biblioteca” e qualquer um, tanto plateia quanto convidados, podem ter acesso a essas obras para desfrutá-las. O cenário também sofreu modificações nesta temporada, o que aproximou mais – espacialmente – os convidados, a plateia e a apresentadora.

Figura 2 - Biblioteca do Esquenta! Episódio da segunda temporada exibido em 1º/04/2011. Fonte: Globo.com

2.3.3 Terceira temporada

A terceira temporada, a mais longa até este momento, iniciou-se no dia 9 de dezembro de 2012. O horário do programa também foi modificado; antes, ia ao ar ao meio-dia e trinta minutos, e no decorrer de 2013, começa às 14 horas, aproximadamente. Essa flexibilidade do horário é uma característica da grade da programação da emissora aos domingos, devido à exibição de atrações esportivas, como jogos de futebol e corridas de Fórmula 1. No dia 24 de novembro de 2013, por exemplo, o Esquenta! iniciou-se ao meio-dia. Já na semana anterior,


10 no dia 17 do mesmo mês e ano, o telespectador pôde acompanhar o show às 15 horas, que passou ser seu horário aproximado de exibição. O estúdio de gravação está ainda maior assim como a frequência da exibição de programas temáticos. Dependentemente do tema, os bailarinos e assistentes de palco têm sua roupa caracterizada. O programa conta com vários bailarinos e assistentes de palco, segundo a fala da própria Regina Casé em vários episódios, todos moradores de favelas do grande Rio de Janeiro e grande São Paulo. Muitos deles chamam a apresentadora de “madrinha”, referenciando o apoio e a oportunidade oferecida por ela a vários jovens moradores daquelas regiões. Existem também alguns grupos que compõem todos os programas, como o das crianças, que dançam e falam ao microfone quando solicitados pela mestre de cerimônias e o chamado “bonde”, composto por um grupo de meninos que dançam funk. O grupo composto por alguns trabalhadores da Conlurb (Companhia de Limpeza Urbana da cidade do Rio de Janeiro), como o famoso Renato Sorriso15 continuam a participar do Esquenta!.

Figura 3 - Episódio exibido no dia 9/06/2013, cujo tema era dia dos namorados e casamento. Assistentes de palco estão caracterizados de noivos de diversas civilizações. Fonte: www.globo.com

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Gari e passista brasileiro. Ficou famoso por sambar com uma vassoura em 1997, durante os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Hoje é participante assíduo do Esquenta!.


11 A terceira temporada ainda mantém-se no ar16. A característica inicial do programa, de ser um especial de verão da Rede Globo, foi superada pela grande audiência. O programa foi fixado, definitivamente, à grade de programação da emissora, assumindo-se como um produto séssil e durável da TV Globo. A partir de agora, passamos a analisar as relações de classe no programa Esquenta!, tema deste trabalho.

2.4 Os convidados e suas relações

Regina Casé dirige-se a todos os convidados, inclusive aos assistentes de palco e bailarinos, com muita intimidade. Declarações, como “esse é meu amigo do coração, eu te amo” são proferidas com frequência pela apresentadora. É difícil mensurar o número exato de pessoas que frequentam o palco do Esquenta!, entre participantes fixos, convidados, assistentes de palco, bailarinos e músicos, já que, por vezes, celebridades passavam pelos arredores do estúdio em que o programa é gravado e entravam durante a gravação para participar sem convite prévio, como fez o ator Caio Castro17. Para facilitar a compreensão, através da observação empírica e posterior levantamento de dados, elaboramos um quadro (Quadro 1) que esquematiza quais são e como se dão as relações entre os convidados da apresentadora Regina Casé, baseado em quatro episódios da terceira temporada, escolhidos empiricamente por serem considerados exemplos que representam o programa e se repetem nas suas outras exibições. Na sequência, faremos uma sintetização dos episódios eleitos, para, então, compreendermos como se dá as relações entre os convidados no palco.

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Até o momento da entrega deste trabalho (dezembro de 2013). Ator da TV Globo que apareceu de surpresa durante gravação do espisódio do dia 1º de setembro de 2013. Vestindo camiseta, bermuda e chinelo, Caio Castro diz que estava passando pelos arredores do estúdio e que resolveu participar. Disponível em: <http://tvg.globo.com/programas/esquenta/>. Acesso em 3 set 2013. 17


12 Episódio

Tema

16/12/2012

Educação e pool (festas na piscina)

9/06/2013

30/06/2013

1º/09/2013

Principais convidados

parties Sorriso Maroto (banda); Sandra de Sá (cantora); Mc Sapão; Roberta Rodrigues (atriz); Preta Gil (cantora); Fábio Porchat (ator e roteirista); Talytha Pugliesi Ana Bela (modelos); José Camarano (stylist); Lenny Niemeyer (estilista). Dia dos namorados 18 e Fernando e Sorocaba aspectos que tangem o amor e (cantores); Flávia Alessandra as relações e Otaviano Costa (atores); Pedra Letícia (banda); Mirian Goldenberg (antropóloga); Lethicia Bronstein (estilista) Festa de gala/O que é Bruno e Marrone (cantores); clássico? Patrícia Bonaldi (estilista); Mc Marcinho; Mc Bob Run; Buchecha (cantor); Bruno Astuto (colunista); Orquestra Sinfônica Brasileira e Roberto Minczuk (maestro) Carnaval/Cultura cigana Saulo Fernandes (cantor); Sidney Magal (cantor); Eliana Lima (puxadora de sambaenredo); representantes ciganos; José Marcelo Zacchi (comentarista); Walério Araújo (estilista)

Quadro 1 – Sinopse dos programas que compõem o corpus da pesquisa. Fonte: elaboração própria da autora.

Pudemos perceber que todas as relações entre os convidados, sejam eles assíduos ou esporádicos, dão-se sob o comando da apresentadora Regina Casé. Nos episódios discriminados anteriormente, os músicos convidados sentam-se com a banda da roda de samba do Esquenta!, como o cantor Péricles e Xandy de Pilares. Já os atores da TV Globo sentam-se próximos a personalidades, como Preta Gil e Fábio Porchat. Em nenhum momento há intensa interação entre os convidados. Por exemplo, a moradora de favela, Mc Beyoncé, ainda que famosa, não se senta ao lado dos atores ou de 18

Como o tema era “dia dos namorados”, alguns participantes fixos, como os cantores Leandro Sapucahy e Arlindo Cruz levaram suas respectivas esposas ao palco, onde elas puderam danças, cantar e falar sobre seus relacionamentos. O esposo de Regina Casé, o diretor Estevão Ciavatta, foi ao palco declarar seu amor à apresentadora e lhe entregar um buquê de flores.


13 outras estrelas da emissora, mas sim permanece na parte do cenário destinada aos músicos. Dessa forma, podemos notar a separação entre os músicos e os demais. Nesse episódio em que a funkeira apresenta-se, no dia 27 de outubro de 2013, todos os músicos presentes no palco têm origem conhecidamente humilde, exceto a cantora Cláudia Leitte. No episódio do dia 16 de dezembro de 2012, por exemplo, é Regina Casé quem costura a participação de cada convidado: pergunta para a plateia se alguém sabe o que significa pool party (festa na piscina), depois, conversa com José Camarano e Lenny Niemayer sobre tendências de moda praia. Já em 9 de junho de 2013, fica evidente o agrupamento de músicos e de outros convidados. Por exemplo, Fernando e Sorocaba cantam, depois Regina conversa com Flávia Alessandra e Otaviano Costa, então, pede para que a socióloga Mirian Goldenberg comente sobre relacionamentos. Dessa forma, percebemos que os convidados não costumam interagir, a não ser que a apresentadora sugira. Por exemplo, no episódio de 1º de setembro de 2013, Regina Casé solicita que o cantor Péricles fale sobre a importância de Eliana Lima, puxadora de samba-enredo, para o carnaval e para o samba. Nos quatro episódios citados, há, pelo menos, uma atração musical – além da banda permanente – como as duplas Fernando e Sorocaba, Bruno e Marrone, as bandas Pedra Letícia, Sorriso Maroto, o cantor Saulo Fernandes, alguns MCs, como Marcinho e Sapão. Notamos que existe uma diversidade de gênero musical apresentada no Esquenta!. Além do samba, funk, sertanejo, pop-rock, pagode e rap, o programa ainda contou com a participação da Orquestra Sinfônica Brasileira. No episódio, a música clássica perpassou por grandes nomes, como Ludwig van Beethoven e Heitor Villa-Lobos, mas também misturou-se ao ritmo sertanejo. Dessa maneira, percebemos que é apenas na música que os convidados interagem entre si. Samba com sertanejo, pagode com funk e axé com samba são algumas das misturas promovidas pelo Esquenta!. Os convidados inter-relacionam-se minimamente e seu ápice dáse nos momentos musicais, pois todos levantam-se e dançam juntos. Essa interação insuficiente está ratificada no primeiro capítulo, ao falarmos sobre o lema do programa: “tudo junto e misturado”. Os participantes estão “juntos” no palco, mas não se “misturam” de fato.

3. ANÁLISE DO ESQUENTA!

Neste capítulo, analisaremos novamente os quatro episódios observados anteriormente,


14 mas agora sob uma nova perspectiva. Para facilitar a identificação dos episódios na análise, seguiremos o quadro abaixo (QUADRO 2), onde definimos uma numeração sequencial, a partir da cronologia de exibição, embora os números assinalados não correspondam à ordem em que os episódios foram ao ar.

Data de exibição

Tema

Identificação na análise

16/12/2012

Educação

e

pool

parties Episódio 1

(festas na piscina) Episódio 1 9/06/2013

Dia dos namorados e aspectos Episódio 2 que tangem o amor e as

Episódio 26

relações

30/06/2013

Festa

de

gala/O

que

é Episódio 3

clássico? Episódio 29 1º/09/2013

Carnaval/Cultura cigana

Episódio 4

Episódio 38 Quadro 2 - Listagem dos episódios e numeração. Fonte: Elaboração própria da autora.

A partir deste capítulo, verificaremos de que maneira o Esquenta! relaciona-se com a sua audiência, na observação das falas da apresentadora Regina Casé, quanto aos elementos verbais de linguagem televisiva. Para isso, utilizaremos o conceito metodológico dos modos de endereçamento, conforme a apropriação de Itania Gomes (2011). A autora faz uma leitura do conceito originalmente proposto por Elizabeth Ellsworth (2001), quem desenvolve essa metodologia para analisar o cinema, de maneira que pudesse compreender “quem esse filme pensa que você é”. Sendo assim, os modos de endereçamento estruturam a maneira como o espectador interpretará o filme. Enquanto na teoria cinematográfica o conceito é compreendido a partir da análise das posições de sujeito, nos modos de endereçamento televisivo, é entendido como o “estilo de um programa”, que o identifica ou diferencia dos demais (GOMES, 2011, p.34). O Esquenta!, por exemplo, tem em seu estilo uma característica distintiva dos demais


15 programas da grade da Rede Globo. Escolas de samba, garçons que servem bebida e comida aos convidados e assistentes de palco caracterizados de acordo com o tema do episódio exibido são marcas de como o programa predefine sua audiência. Sendo assim, compreender os modos de endereçamento é uma forma de nos aprofundarmos nos elementos da cultura popular que caracterizam o Esquenta!. Apoiando-nos em Itania Gomes (2011), cabe dizer que adotamos o conceito de modo de endereçamento naquilo que ele nos diz, duplamente, da orientação de um programa para o seu receptor e de um modo de dizer específico; da relação de interdependência entre emissores e receptores na construção do sentido de um produto televisivo e do seu estilo. Nessa perspectiva, o conceito de modo de endereçamento se refere ao modo como um determinado programa se relaciona com sua audiência a partir da construção de um estilo, que o identifica e que o diferencia dos demais. Ele permite verificar como instituição social e forma cultural se atualizam num programa específico (GOMES, 2011, p.36).

Gomes (2011) desenvolveu quatro operadores de análise do modo de endereçamento que, segundo a autora, não se tratam de categorias, mas sim angulações que direcionam para onde o investigador deve focalizar seu esforço analítico. Eis os operadores: o mediador; o contexto comunicativo; o pacto sobre o papel do jornalismo; a organização temática (Gomes, 2011). Entretanto, neste capítulo, nos centraremos no primeiro deles, o mediador, por já termos analisado no capítulo anterior o contexto comunicativo, que envolve as circunstâncias espaciais e temporais no qual o programa se estrutura e a organização temática, a qual articula os temas abordados. Em relação ao pacto sobre o papel do jornalismo, não é necessário, pois não se aplica ao gênero televisivo do Esquenta!, que se trata de um programa de auditório. O foco analítico no mediador traduz-se pelo fato de que, em qualquer formato televisual, o apresentador é a figura central, “aquele que representa a cara do programa” (GOMES, 2011, p.38) e que constrói a ligação entre o telespectador e os demais personagens que o compõem. O modo de endereçamento diz respeito aos vínculos que o mediador estabelece com o telespectador no interior do programa e ao longo da sua história dentro do campo, à familiaridade que constrói através da veiculação diária/semanal do programa, à credibilidade que constrói no interior do campo midiático e que “carrega” para o programa, ao modo como os programas constroem a credibilidade dos seus profissionais e legitimam os papéis por eles desempenhados. A noção de performance, tal como utilizada no teatro, pode se mostrar um importante recurso descritivo para este operador analítico. A noção põe em relevo o caráter interpretativo do desempenho dos atores, dos mediadores televisivos: o ator representa a partir de seu próprio corpo, de suas próprias características, mas ele desempenha um papel (GOMES, 2011, p.38).

Sendo assim, no capítulo anterior, julgamos importante resgatar a trajetória pessoal e profissional de Regina Casé, que sempre envolveu a comédia e a atuação dramática, desde o


16 teatro independente até a novela Cambalacho e a TV Pirata. O Esquenta! é um somatório dessas experiências, acrescido de outros programas apresentados por Regina Casé, que culminou na performance da mediadora. O estilo do programa e a competência performática da apresentadora são aspectos interdependentes que contribuem para que o Esquenta! obtenha alto grau de identificação com a audiência. Embora existam diversos elementos que compõem a performance da apresentadora, como suas vestimentas, gestos, seu deslocamento pelo palco, enquadramento da câmera, nosso foco recai sobre sua expressão verbal. Baseados em Gomes (2011, p.39), consideramos que o mediador seja “o responsável pela predominância do verbal na televisão”, por isso, analisaremos a partir de agora o texto verbal pela observação das estratégias narrativas e argumentativas desenvolvidas pela apresentadora do Esquenta!.

3.1 Regina Casé e os modos de endereçamento

A apresentadora do Esquenta! tenta promover uma identificação com sua audiência, através de várias estratégias, como citado anteriormente. A linguagem utilizada por Regina Casé constrói vínculos com seu público, representado pela plateia, como o uso da primeira pessoa, tanto do singular quanto do plural, e a coloquialidade de suas expressões. Frequentemente, a apresentadora equipara-se ao público ao utilizar expressões, como “a gente”, fazendo uma autoinclusão, como se fosse parte da realidade de quem assiste o Esquenta!. Ao transcrevermos textualmente as falas da mediadora, destacaremos esses elementos de linguagem em negrito para evidenciarmos sua recorrência. Esses são indícios que situam a atitude performática de Regina Casé em relação à plateia e aos convidados. Baseados em nossos estudos, elaboramos quatro categorias para analisarmos as falas da apresentadora. São elas: 1. O cotidiano da audiência; 2. O gosto da audiência; 3. Estereótipos de raça e padrão de beleza; 4. Conciliação de classe , visão meritocrática e imposição de valores da classe dominante. Após a observação dos quatro episódios já citados, pudemos perceber que algumas marcas repetiam-se nas falas de Regina Casé, criando, assim, uma homogeneidade no que é tratado nos programas e em como a mediadora coordena sua apresentação, embora a maioria dos episódios tenha um ou mais temas a serem abordados e diferentes participantes. Algumas das falas analisadas podem ser interpretadas como pertencentes a mais de uma única categoria,


17 assim como nem todos os episódios possuem todos os exemplos das categorias.

3.1.1 O cotidiano da audiência

Nessa categoria, Regina Casé dirige-se diretamente ao telespectador, comentando aspectos do que ela e o programa consideram fazer parte da rotina de quem os assiste. Por exemplo, no Episódio 1, a apresentadora profere o seguinte texto, olhando diretamente para a câmera: “vai ter o que na sua casa? É feijoada? É churrasco? É coisa fina, tipo strogonoff? O que é hoje de comida? Bom, eu não quero a comida de ninguém queimando, então, vai lá e desliga, porque eu não quero ser culpada de queimar o feijão de ninguém”. Dessa maneira, pudemos perceber que Regina Casé acredita que compõe sua audiência quem cozinha. Não é a classe alta que cozinha o feijão. Ainda nesse mesmo episódio, a apresentadora aborda as pool parties, que são festas realizadas na piscina. Sendo assim, são comemorações que podem ser celebradas por quem possui piscina em sua casa: classe dominante. Entretanto a mediadora refere-se ao programa como uma festa um pouco diferente da mencionada anteriormente, ao chamar José Camarano e Lenny Niemayer ao palco: “obrigada por vocês terem vindo nessa festa na laje. Estão gostando?”. As festas na laje são celebrações midiaticamente conhecidas por acontecerem com frequência nas favelas cariocas, e, ao perguntar para dois convidados – os quais circulam pelo ambiente das Fashion Weeks – se eles estavam gostando do que o Esquenta! havia se tornado no episódio, podemos interpretar que Regina Casé os considerava fora daquela realidade. “Eu acho que a nossa pool party tá mais pra festa na laje”, diz Regina Casé. Então, a apresentadora pergunta para um dos figurantes que compõem a parte do cenário dedicada à festa na laje, que acontece durante toda a exibição do episódio 1, o que não pode faltar numa festa da laje. Então, podemos entender que a apresentadora não sabe a resposta, já que também não faz parte daquela realidade, ou porque o considera com mais propriedade para comentar a respeito. Ainda nessa parte do cenário, a apresentadora elogia a churrasqueira feita de tijolos e carrinho de supermercado: “prêmio de design! Vou adotar pra minha vida!” e comenta com os figurantes sobre a peça importante nas festas na laje. Após, a mediadora fala sobre um dos quitutes daquele tipo de celebração: “ah, maionese na bacia, um clássico da gastronomia! A macarronese!”, mostrando a salada de maionese e macarrão que está conservada em uma


18 bacia de lavar roupa. Com essa fala, podemos notar que a apresentadora conhecia uma das comidas preparadas para festas na laje. Regina Casé, ainda afima que “tem uns chatos na internet que falam mal do Esquenta!, ‘ai, aquilo é uma bagunça, parece um churrasco na laje’, essa é a ideia!”. Ainda no episódio 1, a mediadora apresenta os meninos que compõem o Bonde da Madrugada, um grupo de dançarinos de funk que participam permanentemente do programa e demonstra ter intimidade com eles: “Charles, sua mãe melhorou? Tá em casa ou ainda tá no hospital? Manda um beijo pra ela!”. O Bonde entra dançando no palco a cada nova moda comentada pela apresentadora, seja um ritmo musical novo, seja um jeito novo de arrumar o cabelo que estejam fazendo sucesso nas favelas. Regina Casé dá uma deixa, ao dizer que aquela novidade “vem, que vem, que vem com tudo” e, então, os meninos fazem sua coreografia ao som de um funk (FIGURA 3), cuja letra repete a fala da apresentadora: “vem, que vem, que vem com tudo”. A letra da música remete ao quadro do Fantástico que a mediadora comandou em 2009, já mencionado no segundo capítulo deste trabalho.

FIGURA 3: Regina dançando com o Bonde da Madrugada em episódio da 1ª temporada (janeiro/2011). Fonte: Globo.com

O tema do episódio 2, como citado anteriormente, foi o dia dos namorados e outros temas que perpassam pelo assunto, como amor, casamento e traição. Em um dos quadros do programa, chamado de Calourão – em que pessoas previamente selecionadas vão ao palco para fazer alguma apresentação temática – porteiros de motel participam do game. Regina Casé, que dedicou o programa ao seu marido, tratando-o por um apelido carinhoso em sua


19 fala inicial – “dedico ao meu iôiô” – e estava vestida de noiva, fez desse quadro a única marca que notamos dessa categoria. Uma das características mais marcantes das falas da apresentadora é a coloquialidade, qua a aproxima da audiência e da plateia, que funciona como uma representação de seus espectadores. No episódio 3, por exemplo, podemos perceber essa marca. Ao pedir para o maestro Roberto Minczuk falar sobre a importância e trajetória de Heitor Villa-Lobos – que começou sua carreira musical em rodas de choro – Regina Casé comenta, referindo-se ao fato de que o choro era uma música popular, que “Villa-Lobos ia curtir o Esquenta!”. Essa informalidade aproxima tanto a apresentadora e a audiência quanto o tema (música clássica) e os espectadores. Em outro momento do mesmo episódio, a mediadora fala sobre regras de etiqueta e bom comportamento à mesa, com a ajuda de uma professora especializada na área, a qual frequenta rodas de grupos tradicionais e de alta classe. “Em vez de coxinha é chá inglês”, comenta a apresentadora, referindo-se à degustação de quitutes de boteco que são servidos durantes as gravações de todos os programas e que, naquele, em função de sua temática, era chá e comidas requintadas que estavam sendo oferecidas aos convidados. No episódio 4, também pudemos perceber algumas marcas que se enquadram nessa categoria. Em um espaço no cenário, existem pessoas preparando comidas típicas de diversos lugares do país, que são lanches consumidos comumente nas ruas brasileiras. Um dos exemplos é o xis caboclinho, refeição característica do estado do Amazonas, que é um tipo de sanduíche de frutas. Esse momento do episódio classifica-se nessa categoria por tentar exibir no programa o cotidiano da audiência. No merchandising desse episódio, da marca Ariel – de detergentes para roupas – Regina Casé introduz a propaganda através da interação com a plateia: gente, a gente sabe a ralação que é pra deixar tudo em ordem em casa, fala sério! Quem aqui da plateia é aquela mulher guerreira? Aquela que dá duro em casa, que trabalha fora e ainda tem que arrumar tempo pra deixar a comida da semana pronta, pra lavar a roupa toda da família toda.

A apresentadora entrevista as participantes do game, perguntando seus nomes e profissões, mas sempre enfatizando se as integrantes também fazem o serviço doméstico. Regina Casé: você trabalha fora? Participante: sim, sou professora. Regina Casé: mas também cuida da casa, né?

A vencedora do game levava um kit da marca, que incluía o lançamento de seu detergente em cápsulas. Podemos perceber que existem outras marcas nesse merchandising,


20 além de tratar do cotidiano da audiência – que lava sua própria roupa – as quais trataremos nas outras categorias.

3.1.2 O gosto da audiência

Primeiramente, faremos um compilado das ideias de Bourdieu (2008) acerca do gosto. O autor põe em xeque um consenso extremamente difundido na cultura ocidental, que gosto não se discute. Para Bourdieu (2008), o gosto e as práticas de cultura são resultados das condições de socialização, ou seja, é através das experiências dos grupos e dos indivíduos que podemos captar como o gosto se constitui. De acordo com o autor, o gosto cultural é um produto do processo educativo, o qual aprendemos em convivência com a família, ambiente escolar, etc, e não uma decorrência da sensibilidade inata dos agentes sociais. Isto é, o gosto é adquirido através do resultado das diferenças de origem e oportunidades sociais. Aplicando esse estudo de Bourdieu (2008) à realidade brasileira deste começo do século XXI e, consequentemente, ao que é representado na mídia, percebemos que este atua como espaço legitimador de gosto cultural. O Esquenta! seria um exemplo de afirmação do gosto das classes sociais brasileiras. No episódio 1, Regina Casé aproveita a participação de Sandra de Sá para comentar a escassez de cantoras femininas no samba e no pagode nos anos 1990. “Pra lembrar que eu sou louca num pagode, toca aí, Sandra de Sá!”. Nessa fala, a apresentadora inclui-se como alguém que possui o mesmo gosto musical – um gênero popular – que sua audiência. Ao chamar algumas meninas da plateia para dançar no palco sob o prêmio de ganhar dois ingressos para o show da banda de pagode Sorriso Maroto, existe uma materialização da audiência, que tem na plateia a sua representante. “Quero ver quem vai arrebentar no parapapá”, diz a apresentadora ao anunciar a disputa pelos ingressos. No episódio 3, a apresentadora faz o questionamento do que é clássico e afirma que há clássicos no samba, no funk, no sertanejo. Segundo a mediadora, “clássico é aquilo que marca” e cita o exemplo da música “Dormi na praça”, da dupla sertaneja Bruno e Marrone. Se o clássico não se limita à música clássica, de acordo com Regina Casé, seu público – que é popular – também gosta de clássicos. Tratar da cultura musical de diferentes classes dessa maneira busca aproximar o gosto da classe dominante ao da classe dominada. A apresentadora convida um violinista e um clarinetista da Orquestra Sinfônica Brasileira, que disseram ser fãs


21 de música sertaneja, a cantarem com Bruno e Marrone, o que aparenta diminuir as fronteiras entre os gostos. O Calourão desse episódio também abordou a mesma temática, apresentando tenores e sopranos cantando clássicos do funk, convergindo a interpretação lírica dos cantores com as letras populares, muitas com referências às favelas, do funk.

Figura 4 - Luiza Lima, soprano vencedora do “Calourão”, cantando Rap do Silva. Fonte: Globo.com

Regina Casé inicia o episódio 4 em cima de um trio elétrico, juntamente com o cantor de axé Saulo Fernandes. “A gente tava com saudade do carnaval. Sai do chão, Esquenta! E olha quem tá com a gente hoje nessa micareta”, e anuncia os convidados. Dessa maneira, ao utilizar “a gente”, a apresentadora inclui a si mesma e a plateia no mesmo gosto pelo carnaval.


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Figura 5 - Regina Casé e Saulo Fernandes em cima do “trio elétrico do Esquenta!”. Fonte: Globo.com

3.1.3 Estereótipos e padrão de beleza

No episódio 1, as modelos Talytha Pugliesi e Ana Bela são convidadas do Esquenta!. Ao apresentá-las, Regina Casé refere-se a Talytha como “a nossa cota de branco”. Sobre Ana bela, a mediadora diz: “e você trouxe a sua amiga. Tá bem que ela não contribui pra cota de branco, mas ela contribui pra cota de magros”. A partir desse trecho, podemos perceber que os brancos, nesse contexto, são minoria e, por isso, entrariam em uma cota, da mesma maneira que os magros, que também poderia compor um limite máximo “permitido”. Sendo assim, brancos e magros não representariam quem compõe o Esquenta!. No mesmo episódio, Regina Casé apresenta as novas assistentes de palco do programa, enquanto Leandro Sapucahy canta seu sucesso “Favela Fashion Week” (ANEXO A). A mediadora chama uma das novas assistentes e comenta: “A Jenifer é que é negra de verdade. Seu pai e sua mãe são bem negros?”, “sim”, responde a auxiliar, “e esses olhos verdes de onde vêm?”, pergunta a apresentadora, “da ótica”, responde Jenifer. Através de expressões, como “negra de verdade”, notamos novamente uma estereotipação da negritude. E, embora Jenifer


23 seja uma verdadeira negra, na concepção de Regina Casé, a assistente usa lentes de contato verdes, que não compõem os traços físicos “verdadeiros” nos negros. Como comentado no capítulo anterior, são servidos aperitivos durante as gravações do programa. No momento em que os convidados começam a comer, Regina Casé diz: “momento histórico, duas modelos comendo!”, o que denota outra marca de imposição de padrão de beleza e estereotipação das modelos. No episódio 2, as marcas de estereotipação encontradas foram sob o aspecto de gênero, de raça e de pertencimento regional. Em relação à questão de gênero, Regina Casé, ao questionar a plateia se alguém sabia o que era a profissão de um antropólogo, pede para uma moça na plateia responder e usa como vocativo: “você, lourinha”, pois a maioria dos componentes da plateia é negra. Outro exemplo desse mesmo estereótipo pôde ser encontrado na seguinte fala: “menina sonha desde criança”, ao referir-se sobre a vontade de casar e usar um vestido de noiva. Sob o aspecto regional, Regina Casé chama a banda Pedra Letícia ao placo e diz: “um grupo de Goiás que, acreditem se quider, não vem cantar sertanejo”, como se pessoas nascidas nesse estado só pudessem gostar daquele gênero musical. Já no episódio 3, a apresentadora começa-o anunciando que “hoje o programa tá high level”, referindo-se à temática do programa, a qual abordou a cultura clássica. No momento em que chama a professora de etiqueta ao palco, diz: “não quero madame com preconceito” e afirma que “hoje o programa tá très chic, ‘tá chique pra caramba’ é a tradução”. Dessa maneira, a mediadora demarca que especialmente neste episódio o Esquenta! está elegante, o que favorece uma interpretação de que, nos demais, o programa é exclusivamente popular. No episódio 4, Regina utiliza-se de estereótipos ao comparar os convidados Saulo Fernandes e Sidney Magal: “o Saulo não faz esse estilo safado, tipo o Magal. [...] Magal, há quanto tempo você mora em Salvador? O que aumenta muito o coeficiente de safadeza de uma pessoa”. Assim, a apresentadora ratifica perspectivas do senso comum, fazendo juízos de valor, como do homem cachorro e da estigmatização dos baianos. E, resposta, Sidney Magal diz que foi morar em “uma terra que cheira a sexo”, confirmando a demarcação de Regina Casé. Pudemos perceber, no mesmo episódio, que a fala da apresentadora – citada na análise da categoria “o gosto da audiência” – faz referência a papeis historicamentes predeterminados pela sociedade machista e patriarcal ao afirmar que existe uma “mulher guerreira”. Se esse tipo existe, podemos compreender que existe um outro que não é guerreiro. Segundo a apresentadora, mulher guerreira é “aquela que dá duro em casa, que trabalha fora e ainda tem que arrumar tempo pra deixar a comida da semana pronta, pra lavar a roupa toda, da família


24 toda”. Isto é, Regina Casé traça um perfil, a de mulher guerreira, determina o que ela seria e faz uso de um verbo que remete à obrigação, como no trecho: “tem que arrumar tempo”.

3.1.4 Conciliação de classe , visão meritocrática e imposição de valores da classe dominante

Pudemos perceber, no episódio 1, algumas marcas que denotam a proposta de conciliação entre classes do programa. A atriz Roberta Rodrigues, atriz da Globo e moradora do Vidigal, favela do Rio de Janeiro, fala sobre as gírias utilizadas no local onde vive e, após, Sandra de Sá canta um samba para que os garis – participantes permanentes do programa – dancem. Dessa maneira, entendemos que o enaltecimento do fato de uma atriz ter contato com a TV Globo e morar em uma favela é uma marca dessa proposta de conciliação classista, assim como uma artista consagrada cantar para funcionários da Comlurb. No mesmo episódio, Regina Casé fala sobre educação e a importância da figura do professor. Uma das professoras convidadas, fala sobre sua aprovação no vestibular: “eu fiz vestibular depois dos 40 anos só com o que eu tinha aprendido numa escola pública anos atrás. Então, dizer que não vai fazer vestibular, porque não tem dinheiro pra pagar cursinho não é motivo. Pegue os livros e vá estudar!”. Estamos centrando a análise nas falas da apresentadora, entretanto julgamos importante destacar essa fala de uma convidada, já que demarca uma concepção do próprio Esquenta!, percebido através das palmas de Regina Casé, concordando com as palavras da professora. A mediadora faz uma pergunta, direcionando-se à plateia: “será que a pool party veio da laje ou a laje veio da pool party?”, novamente propondo uma consonância entre as celebrações da classe dominante e da classe dominada. Ainda falando sobre tendências e também sobre moda da favela, Regina Casé conta que conheceu uma cabeleireira que havia desenvolvido uma “teoria” sobre o que é moda e como ela se constititui: eu perguntei pra ela o que era moda e ela disse: ‘eles lançam um bagulho lá em Paris, aí passa lá no desfile lá no São Paulo Fashion Rio’ (sic), [...] ‘aí o pessoal já olha, copia e bota no camelô, do camelô põe no Complexo do Alemão, tô eu usando’. Mas a mais gênia foi quando ela disse assim: ‘mas, vem cá, moda não é só isso, não, tem uns bagulho que eu uso, por exemplo, o cabelo assim, ou esse brincão, fiz lá no Complexo, foi pro camelô, do camelô eles já olham, botam no São Paulo Fashion Rio (sic) e daqui a pouco tá em Paris, todo mundo usando, mas quem inventou fui eu aqui no Complexo do Alemão!

Este é mais um exemplo de como o programa propõe uma dissolução entre as diferenças simbólicas da burguesia e da classe trabalhadora. O outro marco dessa


25 detemarcação classista do programa é a fala proferida pela mediadora ao final do episódio 1, ao pedir para que Sandra de Sá cantasse a música Olhos Coloridos: todo brasileiro tem sangue crioulo. Crioulo, hoje, virou quase um palavrão, mas não devia ser. Ao contrário, devia ser motico de orgulho. Ser crioulo é ser o que a gente é, misturado, uma mistura de várias raças. Escutando essa letra, eu me lembrei do que esse cara disse, Barack Obama, ele, que todo mundo diz ‘o primeiro presidente negro dos Estados Unidos’, se orgulha muito de ser negro, mas ele se orgulha muito de ser várias outras coisas, não só negro. A mãe do Obama foi uma mulher incrível, uma mulher jovem, americana, branca que resolve casar com um negão africano, depois ela se separa do pai do Obama e casa com um cara da Indonésia. Na família do Obama tem gente com pele e olho de todas as cores. Aliás, ele já falou várias vezes que ele adora essa mistureba. O Obama disse ‘eu não me interesso muito em como nós nos rotulamos, eu tô mais interessado em como nós tratamos uns aos outros”. É essa a lição do Obama: não liga pros rótulos, o que interessa é como você trata quem é diferente de você. Que bom, né, ter um cara como o Obama como presidente dos Estados Unidos, dando essas lições pro planeta inteiro. Grande professor, o Obama! Palmas pra ele!

Com essa fala, pudemos perceber a imposição dos valores da classe dominante. Ao citar o presidente do país-símbolo do capitalismo mundial, Os Estados Unidos da América, e ao enaltecer o demérito do debate acerca do racismo – ao dizer que não é necessário “rotular” – compreendemos a inserção dos princípios burgueses. Propor a não-existência do racismo é simular que este não existe. No episódio 3, Regina Casé conversa com Bruno Astuto e, ao perguntar sobre sua história de vida, a apresentadora o questiona se ele “nasceu rico”, o colunista responde que não e, assim, a mediadora afirma: “olha aí, não tunha grana, não tinha pai, não tinha mãe e hoje em dia ele tá nos lugares mais incríveis do mundo todo, porque ele estudou e meteu a cara”. Percebemos, com esse trecho, a demarcação da visão meritocrática, ou seja, podemos interpretar que qualquer um pode ficar rico se trabalhar duro e estudar bastante. Além disso, podemos notar o incentivo à conquista de ficar rico, incentivando a classe trabalhadora a querer ser, um dia, burguesia. Nesse mesmo episódio, a apresentadora também faz referência a valores burgueses, meritocráticos e conciliadores durante a apresentação do merchandising. Ao falar do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) disponibilizado na Caixa Econômica Federal, Regina Casé diz: muita gente sonha em fazer uma faculdade, mas aí tem que deixar esse sonho de lado, porque não tem grana. Foi assim com você, Adriele? [pergunta para participante, que responde que sim e que, naquele momento, estava estudando em uma universidade privada]. Essas pessoas não iam conseguir pagar [uma faculdade] apesar de ralar e de trabalhar. O que a gente não quer é que ninguém se endivide. Agora não tem desculpa pra não se formar.


26 Podemos notar, então, que o incentivo ao financiamento oferecido pela Caixa – destinado à audiência – abarca algumas questões importantes, mas que não são o objetivo deste trabalho, como a grande maioria dos estudantes da classe dominada estudarem em instituições privadas, em função de uma formação em escola pública insuficiente para ser aprovada em uma universidade pública. As expressões “apesar de ralar e trabalhar” e “agora não tem desculpa pra não se formar” vão ao encontro da lógica de visão meritocrática e conciliação de classe proposta no Esquenta!.

Letícia fontoura programa esquenta  

Texto Resumo