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Ivan Bochiard de Pinho Tavares

TATUAGEM E SIMBOLOGIA: UM ESTUDO SOBRE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA E SEU VALOR NA INDÚSTRIA CULTURAL.

Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH Belo Horizonte 2006


ii Ivan Bochiard de Pinho Tavares

TATUAGEM E SIMBOLOGIA: UM ESTUDO SOBRE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA E SEU VALOR NA INDÚSTRIA CULTURAL.

Projeto de pesquisa apresentado ao Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH como requisito parcial ao título de Bacharel e Licenciado em História Orientadora: Núbia Braga Ribeiro

Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH Belo Horizonte 2006


iii SUMÁRIO I - Introdução ...........................................................................................................pág. 4 II - Objetivos ...........................................................................................................pág. 6 III - Metodologia .....................................................................................................pág. 7 IV – Justificativa .....................................................................................................pág. 8 V - Bibliografia .......................................................................................................pág. 13 VI - Anexos .............................................................................................................pág. 15


iv IV – JUSTIFICATIVA Pesquisar a história da tatuagem e sua relação com a simbologia, e suas representações e significados, a memória e a indústria cultural é importante a partir do momento em que se pode promover uma análise dialética não apenas entre os que possuem essa arte corporal, mas também aqueles que estão inseridos no mesmo espaço e não a possuem. A escolha prévia passou por uma identificação e uma seleção dos símbolos e imagens uma vez que existe uma gama imensa deles na cultura chinesa (flores, dragões, animais, etc.) difundidas na sociedade ocidental, não sendo possível abraçar todos em um único trabalho. Essa dialética perpassa toda a sociedade e, uma discussão mais apurada permite debater o preconceito e a exclusão social latente aos que possuem no corpo essa marca e aqueles que a condenam. As trocas culturais advindas de todo o processo que envolve a tatuagem também é passível de estudo. Existem hipóteses de que marcas involuntárias adquiridas em guerras, lutas corporais e caça geravam orgulho e reconhecimento ao indivíduo que as possuísse, pois, eram marcas naturais de força e vitória. Percebendo nessas marcas involuntárias uma forma de distinção no grupo e também de status o homem passou a marcar o corpo voluntariamente. Através dos tempos, puderam ser constatados vestígios da existência de povos (Maias, Celtas, etc.) que cobriam o corpo com desenhos. Em vários exemplares de arte rupestre (Anexo fig. 1) era possível encontrar formas humanas com pinturas em seus corpos, indicando a utilização da tatuagem. No entanto, ainda não é possível datar com precisão a origem do uso da tatuagem. Nesse ponto existe uma divergência de opiniões. Muitos acreditam na multi-origem da tatuagem (a origem da tatuagem pode ter se dado em vários lugares do mundo, em diferentes espaços temporais) e outros acreditam que ela possa ter nascido em algum ponto e se espalhado, devido à constante migração préhistórica. Esse legado das “sociedades primitivas” pode ser confirmado no último achado arqueológico referente a múmias; Ötzi, atualmente a múmia mais antiga do mundo, com cerca de 5.300 anos, possuía toda a espinha dorsal tatuada, além de uma séria de outras tatuagens em diversas partes do corpo, num total de 57 (Anexo figs. 2-5). Essas tatuagens estão localizadas em pontos referentes à acupuntura o que leva os pesquisadores presumir que, foram feitas segundo os padrões da acupuntura antiga ou alguma variável (http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%96tzi). Partindo desses achados


v podemos afirmar que a tatuagem possui significado muito maior que não apenas ligados à estética e à vaidade, conceitos esses que foram adquiridos, talvez em menos de um século. A segunda múmia mais antiga, Ginger, uma múmia egípcia, apresenta uma grande espiral desenhado na barriga, região do baixo ventre, fato esse que alguns arqueólogos acreditam estar relacionado com rituais de fertilidade. Muitos pesquisadores e intelectuais, como Darwin (1981), citam em seus trabalhos povos que possuíam tatuagem no corpo como os Maoris na Nova Zelândia. Cada grupo, porém, adaptou a tatuagem a sua cultura, usufruindo de diversas formas e da maneira que mais lhe convinha. Em alguns povos, como os egípcios, eram usadas para rituais; entre os Samoanos, as tatuagens significavam a mudança da adolescência para a fase adulta e, enquanto não fosse marcado, o membro da tribo não teria voz ativa numa roda de adultos e também não poderia tomar uma esposa; em outros, como na tribo dos Carajás, para determinar onde o indivíduo se encontrava na hierarquia do grupo. No Japão feudal as tatuagens foram usadas como forma de punição isso porque o japonês possui uma grande preocupação com sua posição social e a tatuagem era sinônimo de criminalidade. Contudo, na Era do Xogunato dos Tokugawa (1603-1867), um período de grande paz, o serviço que os samurais prestavam ao Xogun não eram mais necessários então estes caíram para a “marginalidade”. Seu foco de atuação mudou de carrascos dos Xogun para defensores de suas vilas, criando uma resistência ao regime. Esse grupo popularizou a tatuagem, pois, seus membros, possuíam os corpos todo tatuados como forma de lealdade à organização e como oposição ao regime. Esse grupo ficou conhecido como Yakuza (http://pt.wikipedia.org/wiki/Yakuza); na China Antiga a tatuagem era revestida de importância e reverência. O seu simbolismo é indicado pelo sentido original do caráter wen que significa uma permanente identificação com as forças celestes e também um modo de se comunicar com elas. É um símbolo da tribo, de iniciação, de integração social, portanto inalterável; para os cristãos, a marca do peixe (Ichthys em grego – Anexo fig. 6) era usada para se identificarem no período em que encontravam sob o jugo do poder politeísta (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianismo), etc. Quando tratamos a tatuagem como mecanismo de interconexão entre o plano espiritual e o terreno, os símbolos e as imagens possuem um papel de maior destaque; eram elas que serviriam para essa conexão e seriam elas que manteriam os poderes dos ritos ativos na pessoa iniciada. Dessa forma sinais e símbolos sempre andaram de mãos


vi dadas com a tatuagem. Segundo Mircea Eliade, “as imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser” (1991:8). Partindo desse prisma, a cultura chinesa conseguiu de forma satisfatória, preencher e revelar as “modalidades do ser”; existe uma gama infindável de imagens, símbolos e mitos na cultura chinesa: dragões, peixes, flores, animais selvagens (leões, tigres, boi, etc.), “utensílios auspiciosos”, hannas (máscaras), etc. Na tatuagem não poderia ser diferente. Essa responsabilidade que cabe aos símbolos na contemporâneidade, de preencher um vazio do ser, fica um pouco mais aparente, já que as tatuagens são, juntamente com as imagens, parte de um ritual. Nesse caso, especificamente, a Carpa, a Flor de Lótus e o Crisântemo possuem um papel fundamental já que de uma forma variável, tendem a remeter ao mesmo foco, ou seja, preencher as lacunas existentes em cada pessoa. De acordo com Chevalier (1998) a Carpa (Anexo fig. 7) no oriente é considerada um animal de bom augúrio; além de sua longevidade, os orientais acreditam que ela seja uma mensageira dos Imortais. Na China simboliza a coragem e a perseverança, uma vez que é preciso vencer as fortes correntezas, nadando rio acima, para a procriação. Quando ela desce, após a desova, ela torna-se um dragão alado, simbolizando a vitória, e a recompensa por completar a tarefa que lhe foi determinada pela natureza; simboliza também a virilidade nos rapazes e a supremacia intelectual. A Flor de Lótus (Anexo fig. 8) representa a vulva e, era um galanteio dar o titulo a uma cortesã de Flor de Lótus (séc. XII). Contudo, sua espiritualidade, segundo as crenças budistas e indianas, simboliza a pureza, a sobriedade. Algumas partes da flor possuem significado próprio como, por exemplo, a haste que vai simbolizar a rigidez, a firmeza; a opulência da planta vai representar a prosperidade; a abundância de grãos a posteridade numerosa; a harmonia conjugal, pois duas flores podem crescer numa mesma haste; a reunião dos três tempos (passado, presente e futuro) nas três etapas de crescimento da planta (botão, flor desabrochada, grãos). No Antigo Egito poderia ser considerada um símbolo de unificação (entre Baixo-Egito e Alto-Egito) ou ainda como símbolo do renascimento (segundo a lenda da morte e ressurreição de Osíris). Na Índia, é considerada o símbolo do crescimento espiritual e da harmonia cósmica (porque o Lótus tradicional possui oito pétalas, assim como o espaço tem oito direções). Enfim, de qualquer maneira, na cultura oriental, a espiritualidade, a pureza e a resistência podem


vii ser representadas pelo Lótus, pois ela nasce nos rios, como no Nilo, no Egito (Chevalier, 1998). O Crisântemo (Anexo fig. 9) por possuir uma disposição regular e irradiante de suas pétalas é considerado um símbolo essencialmente solar, associado, portanto, à longevidade e até mesmo à imortalidade. Na China possui também o papel de mediador entre o céu e a terra, significando plenitude, totalidade. Pode representar também, por ser uma flor outonal, tranqüilidade e simplicidade (Chevalier, 1998). Esses significados tendem a influenciar, ou não, a escolha das pessoas na hora de fazer uma tatuagem. Entretanto nesse processo, a Indústria Cultural tem um papel determinante. Sua dinamização no processo cultural permitiu a divulgação em massa desses símbolos para o ocidente. Não que essa disseminação cultural não existisse, mesmo porque essas trocas culturais sempre existiram, contudo, em menor escala. A Indústria Cultural permitiu uma massificação desses símbolos entre as sociedades modernas, esquecendo-se da bagagem simbólica e mística que eles carregavam. Da mesma maneira que ela se apropriou da tatuagem, transformando um ritual antigo em um simples produto da sociedade de consumo, ela banalizou as imagens e os símbolos, agregando a eles apenas valores comerciais. Isso pode ser compreendido e percebido no cotidiano, já que muitas pessoas que se tatuam ou já se tatuaram não sabem o significado dos símbolos que escolheram. Teixeira Coelho (1944) descreve a Indústria Cultural como uma produtora mercadorias para um público médio que não tem tempo de questionar o que consome. Isso além de contribuir com a banalização da tatuagem e re-afirmar o conceito “marginal” que ela carrega, torna a leitura da prática simplista, e desprovida de qualquer caráter místico ou simbólico. Devido a essa simplicidade de abordagens, a tatuagem continua sendo um elemento de exclusão social, pois, ainda se encontra vinculada a conceitos de marginalidade e criminalidade. Esse tipo de abordagem ainda ser facilmente percebida, quando se procura um emprego, principalmente nas empresas de capital privado; elas não permitem que seus funcionários possuam tal adereço corporal e já faz essa triagem, na hora da seleção. Pessoas que também fizeram tatuagens em outras épocas (entre as décadas de 60 – 80) e se arrependeram, também compartilham dessa visão marginal da tatuagem. Muitas delas (como uma das entrevistadas) garante que a tatuagem possui um “prazo máximo” de 7 anos (Anexo figs. 10-11): “A tatuagem tem um prazo de 7 anos. Os primeiros anos é só festa e curtição, mas, depois, quando se tem que arranjar um


viii emprego é que você começa a ver os verdadeiros males da tatuagem. E depois disso é questão de tempo para você se arrepender. Comigo foi assim; demorei mais ou menos 7 anos para me arrepender. Hoje, se pudesse, não teria feito”. Outro ponto que deve ser abordado é o modismo em que essas pessoas estavam inseridas. Ainda hoje o modismo é responsável por boa parte das tatuagens criadas. Ideogramas japoneses, dragões, tribais foram durante bons anos, sinônimo de dessa moda. Mas essa preferência tem mudado abrindo espaço para peixes e flores. Esse modismo, seguindo astrólogos, pode ser explicado devido com o transito lento de Plutão e Urano, desencadeando em diferentes épocas um culto diferente ao corpo e ao mundo, marcando cada geração com características comuns (Planeta, ago-2004). Esse impulso, esse modismo contribuiu para esses futuros arrependimentos e desilusões com relação à tatuagem. Entretanto, esse panorama parece estar mudando. Hoje a tatuagem está presente nos mais variados níveis sócio-econômicos da sociedade, contribuindo para uma nova abordagem crítica e também para uma quebra de paradigmas. A tatuagem se reverteu de outros significados deixando um pouco a mística e a simbólica de lado, agarrando-se no ultimo século, num caráter contestatório, de inconformismo perante a sociedade. Diversos tatuadores e tatuados enxergam um futuro promissor para o cenário. Eles acreditam que dentro de mais alguns anos, esse panorama de exclusão e repudio já vai ser mínimo, permitindo as pessoas se expressar mais completamente, sem ter que se privar de suas escolhas por causa de trabalho ou qualquer outro motivo. Sinais duradouros na pele denotam um desejo de sair do anonimato, de buscar auto-afirmação e de exteriorização do que está oculto no interior de uma pessoa: sua personalidade e caráter. Contudo, ainda um caminho árduo a ser trilhado até que se possa gozar de uma felicidade plena. Para isso, será necessário compreendemos a importância de um resgate cultural acerca da tatuagem para que a discussão passe a integra outro plano, diferente daquele já arraigado no subconsciente coletivo. Essa discussão serviria para romper com determinados conceitos pré-estabelecidos, de forma a permitir esclarecimentos e aceitação da sociedade moderna. Também a pluralidade cultural ganha relevância a partir da dialética entre culturas orientais no tocante a indústria cultural contribuindo ou não para alienação, consumismo cultural transformando símbolos tão significativos para certas sociedades em meros produtos mercadológicos.


ix I – INTRODUÇÃO A pesquisa proposta tem como objetivo traçar um paralelo entre a prática da tatuagem. Os símbolos de antigas sociedades que, neste estudo escolhi, como objeto de análise: a Carpa, a Flor de Lótus e o Crisântemo, levando em consideração a perspectiva da cultura chinesa; o resgate e/ou a preservação da memória dessa cultura e sua apropriação pela difusão da tatuagem não só com os significados que teve, mas os interesses propagados da indústria cultural. Desde tempos remotos o homem simboliza por meio das marcas corporais e desenhos, uma forma de distinção no grupo. Através delas, poderiam ser definidos sua posição hierárquica; seus deveres e privilégios; seu status e o clã a que pertenceria. Podemos entender que o uso da tatuagem está intimamente ligado à história social e cultural do homem, e também, ao surgimento da consciência do seu “eu” na coletividade. Essa prática sofreu modificações com o passar dos tempos, transitando entre marcas de status até forma de punição e exclusão social. Contudo, hoje, no século XXI, ela já pode ser encontrada em pessoas dos mais variados níveis sócio-econômicos, ocupando uma outra esfera simbólica, contribuindo para uma quebra de paradigma e de preconceitos que também faz parte do uso da tatuagem. Os símbolos também tiveram um papel fundamental nesse processo. A própria transformação do homem forçava a criação de novas representações que pudessem suprir o vazio que existia em cada indivíduo e também o vazio do todo, do grupo, buscando dar sentido às diversas manifestações da vida. A partir do momento que esses símbolos foram adaptados nas tatuagens, muitas concepções foram agregadas; alguns povos, como os Sioux (EUA), acreditavam que certas imagens poderiam fazer uma interconexão entre o espiritual e o plano terreno. Destacaram-se nesse processo, dos símbolos e da tatuagem, as sociedades que mais proporcionaram ao homem, unir seus anseios espirituais ao cotidiano, aliviando, de diferentes maneiras, sua existência; dentre esses estavam os chineses. A cultura chinesa é rica em símbolos, imagens, ritos, concepções de mundo e vida. Por esse motivo, ela teve um papel importante no desenvolvimento da tatuagem. Sua contribuição é percebida a partir do momento em que, suas imagens e símbolos passam a ser usados pelos que praticavam a tatuagem, influenciando de diferentes maneiras outras sociedades.


x Percebendo essa aceitação e difusão, a indústria cultural passou a divulgar em larga escala alguns aspectos da cultura chinesa, não se preocupando com a bagagem mística e cultural, que cada aspecto da cultura possuía. Sua principal intenção era produzir, segundo Teixeira Coelho: “produto padronizado, como uma espécie de kit para montar, um tipo de pré-confecção feito para atender necessidades e gostos médios de um público que não tem tempo de questionar o que consome”. (1998: 11)

Esta pesquisa busca analisar a preservação da memória oriental, em especial seus símbolos e imagens, com base em uma arte que se desenvolve há milhares de anos, para buscar entender o tipo de relação estabelecido entre eles, como o mundo capitalista se apropria desses elementos. Parte-se do interesse de se entender os anseios da sociedade moderna que busca, na tatuagem, uma fuga da realidade, uma forma de distinção, uma forma de expressão individual e de compreender como esses fatores contribuíram ativa ou passivamente para consolidar elementos da cultura oriental no imaginário do homem ocidental.


xi II – OBJETIVOS OBJETIVOS GERAIS: Recuperar o significado das imagens chinesas (Carpa, Flor de Lótus e Crisântemo) a partir de seus usos para tatuagens e as formas de apropriação da indústria cultural ocidental que modifica e até descaracteriza seus significados. OBJETIVOS ESPECÍFICOS; 1.

Caracterizar o papel da tatuagem na sociedade moderna ocidental (século XXI);

2.

Traçar um paralelo entre a tatuagem, a memória, simbologia e a indústria

cultural de forma a proporcionar uma discussão mais ampla; 3.

Conhecer os fatores que levaram determinados indivíduos a escolher tais

símbolos; 4.

Contribuir com a historiografia referente à história cultural e social e estudos

sobre a prática da tatuagem na perspectiva dialética entre os conceitos modernos acerca da tatuagem e conceitos de seu uso na cultura chinesa. 5.

Considerar outro viés na reflexão sobre o estigma negativo que a tatuagem

carrega e compreendê-la como arte, autoconhecimento e como registro de uma vida.


xii III – METODOLOGIA A pesquisa será desenvolvida considerando levantamento bibliográfico sobre história cultural, conceito de culturas e sobre estudos realizados que tratam dos símbolos, da linguagem simbólica das marcas corporais, desenhos e pinturas, principalmente do uso e significados das tatuagens. Em específico é necessário buscar a cultura chinesa, seus símbolos e a relação com o sobrenatural, à religiosidade para então compreender a simbologia que assumem nessa cultura o Lótus, o Crisântemo, a Carpa. Outro aspecto que colabora e será estudado é a indústria cultural e as formas de difusão dos símbolos, especificamente, das tatuagens tornando-as parte da moda e produtos no mercado, inclusive criando revistas especializadas e consumidas. Esses levantamentos, estudos e fichamentos serão necessários para a continuação da pesquisa, proporcionando uma abordagem crítica e acadêmica. Contará, também, com entrevistas que serão utilizadas no todo ou em partes, mantendo em sigilo o nome dos entrevistados, com o propósito de conhecer “in loco” os motivos e as noções da sociedade moderna com relação aos jovens que buscam, nesse tipo de arte, uma forma de expressão, de individualização, de protesto e até simplesmente, no caso dos símbolos chineses, por modismo.


xiii IV – JUSTIFICATIVA Pesquisar a história da tatuagem e sua relação com a simbologia, e suas representações e significados, a memória e a indústria cultural é importante a partir do momento em que se pode promover uma análise dialética não apenas entre os que possuem essa arte corporal, mas também aqueles que estão inseridos no mesmo espaço e não a possuem. A escolha prévia passou por uma identificação e uma seleção dos símbolos e imagens uma vez que existe uma gama imensa deles na cultura chinesa (flores, dragões, animais, etc.) difundidas na sociedade ocidental, não sendo possível abraçar todos em um único trabalho. Essa dialética perpassa toda a sociedade e, uma discussão mais apurada permite debater o preconceito e a exclusão social latente aos que possuem no corpo essa marca e aqueles que a condenam. As trocas culturais advindas de todo o processo que envolve a tatuagem também é passível de estudo. Existem hipóteses de que marcas involuntárias adquiridas em guerras, lutas corporais e caça geravam orgulho e reconhecimento ao indivíduo que as possuísse, pois, eram marcas naturais de força e vitória. Percebendo nessas marcas involuntárias uma forma de distinção no grupo e também de status o homem passou a marcar o corpo voluntariamente. Através dos tempos, puderam ser constatados vestígios da existência de povos (Maias, Celtas, etc.) que cobriam o corpo com desenhos. Em vários exemplares de arte rupestre (Anexo fig. 1) era possível encontrar formas humanas com pinturas em seus corpos, indicando a utilização da tatuagem. No entanto, ainda não é possível datar com precisão a origem do uso da tatuagem. Nesse ponto existe uma divergência de opiniões. Muitos acreditam na multi-origem da tatuagem (a origem da tatuagem pode ter se dado em vários lugares do mundo, em diferentes espaços temporais) e outros acreditam que ela possa ter nascido em algum ponto e se espalhado, devido à constante migração préhistórica. Esse legado das “sociedades primitivas” pode ser confirmado no último achado arqueológico referente a múmias; Ötzi, atualmente a múmia mais antiga do mundo, com cerca de 5.300 anos, possuía toda a espinha dorsal tatuada, além de uma séria de outras tatuagens em diversas partes do corpo, num total de 57 (Anexo figs. 2-5). Essas tatuagens estão localizadas em pontos referentes à acupuntura o que leva os pesquisadores presumir que, foram feitas segundo os padrões da acupuntura antiga ou alguma variável (http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%96tzi). Partindo desses achados


xiv podemos afirmar que a tatuagem possui significado muito maior que não apenas ligados à estética e à vaidade, conceitos esses que foram adquiridos, talvez em menos de um século. A segunda múmia mais antiga, Ginger, uma múmia egípcia, apresenta uma grande espiral desenhado na barriga, região do baixo ventre, fato esse que alguns arqueólogos acreditam estar relacionado com rituais de fertilidade. Muitos pesquisadores e intelectuais, como Darwin (1981), citam em seus trabalhos povos que possuíam tatuagem no corpo como os Maoris na Nova Zelândia. Cada grupo, porém, adaptou a tatuagem a sua cultura, usufruindo de diversas formas e da maneira que mais lhe convinha. Em alguns povos, como os egípcios, eram usadas para rituais; entre os Samoanos, as tatuagens significavam a mudança da adolescência para a fase adulta e, enquanto não fosse marcado, o membro da tribo não teria voz ativa numa roda de adultos e também não poderia tomar uma esposa; em outros, como na tribo dos Carajás, para determinar onde o indivíduo se encontrava na hierarquia do grupo. No Japão feudal as tatuagens foram usadas como forma de punição isso porque o japonês possui uma grande preocupação com sua posição social e a tatuagem era sinônimo de criminalidade. Contudo, na Era do Xogunato dos Tokugawa (1603-1867), um período de grande paz, o serviço que os samurais prestavam ao Xogun não eram mais necessários então estes caíram para a “marginalidade”. Seu foco de atuação mudou de carrascos dos Xogun para defensores de suas vilas, criando uma resistência ao regime. Esse grupo popularizou a tatuagem, pois, seus membros, possuíam os corpos todo tatuados como forma de lealdade à organização e como oposição ao regime. Esse grupo ficou conhecido como Yakuza (http://pt.wikipedia.org/wiki/Yakuza); na China Antiga a tatuagem era revestida de importância e reverência. O seu simbolismo é indicado pelo sentido original do caráter wen que significa uma permanente identificação com as forças celestes e também um modo de se comunicar com elas. É um símbolo da tribo, de iniciação, de integração social, portanto inalterável; para os cristãos, a marca do peixe (Ichthys em grego – Anexo fig. 6) era usada para se identificarem no período em que encontravam sob o jugo do poder politeísta (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianismo), etc. Quando tratamos a tatuagem como mecanismo de interconexão entre o plano espiritual e o terreno, os símbolos e as imagens possuem um papel de maior destaque; eram elas que serviriam para essa conexão e seriam elas que manteriam os poderes dos ritos ativos na pessoa iniciada. Dessa forma sinais e símbolos sempre andaram de mãos


xv dadas com a tatuagem. Segundo Mircea Eliade, “as imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser” (1991:8). Partindo desse prisma, a cultura chinesa conseguiu de forma satisfatória, preencher e revelar as “modalidades do ser”; existe uma gama infindável de imagens, símbolos e mitos na cultura chinesa: dragões, peixes, flores, animais selvagens (leões, tigres, boi, etc.), “utensílios auspiciosos”, hannas (máscaras), etc. Na tatuagem não poderia ser diferente. Essa responsabilidade que cabe aos símbolos na contemporâneidade, de preencher um vazio do ser, fica um pouco mais aparente, já que as tatuagens são, juntamente com as imagens, parte de um ritual. Nesse caso, especificamente, a Carpa, a Flor de Lótus e o Crisântemo possuem um papel fundamental já que de uma forma variável, tendem a remeter ao mesmo foco, ou seja, preencher as lacunas existentes em cada pessoa. De acordo com Chevalier (1998) a Carpa (Anexo fig. 7) no oriente é considerada um animal de bom augúrio; além de sua longevidade, os orientais acreditam que ela seja uma mensageira dos Imortais. Na China simboliza a coragem e a perseverança, uma vez que é preciso vencer as fortes correntezas, nadando rio acima, para a procriação. Quando ela desce, após a desova, ela torna-se um dragão alado, simbolizando a vitória, e a recompensa por completar a tarefa que lhe foi determinada pela natureza; simboliza também a virilidade nos rapazes e a supremacia intelectual. A Flor de Lótus (Anexo fig. 8) representa a vulva e, era um galanteio dar o titulo a uma cortesã de Flor de Lótus (séc. XII). Contudo, sua espiritualidade, segundo as crenças budistas e indianas, simboliza a pureza, a sobriedade. Algumas partes da flor possuem significado próprio como, por exemplo, a haste que vai simbolizar a rigidez, a firmeza; a opulência da planta vai representar a prosperidade; a abundância de grãos a posteridade numerosa; a harmonia conjugal, pois duas flores podem crescer numa mesma haste; a reunião dos três tempos (passado, presente e futuro) nas três etapas de crescimento da planta (botão, flor desabrochada, grãos). No Antigo Egito poderia ser considerada um símbolo de unificação (entre Baixo-Egito e Alto-Egito) ou ainda como símbolo do renascimento (segundo a lenda da morte e ressurreição de Osíris). Na Índia, é considerada o símbolo do crescimento espiritual e da harmonia cósmica (porque o Lótus tradicional possui oito pétalas, assim como o espaço tem oito direções). Enfim, de qualquer maneira, na cultura oriental, a espiritualidade, a pureza e a resistência podem


xvi ser representadas pelo Lótus, pois ela nasce nos rios, como no Nilo, no Egito (Chevalier, 1998). O Crisântemo (Anexo fig. 9) por possuir uma disposição regular e irradiante de suas pétalas é considerado um símbolo essencialmente solar, associado, portanto, à longevidade e até mesmo à imortalidade. Na China possui também o papel de mediador entre o céu e a terra, significando plenitude, totalidade. Pode representar também, por ser uma flor outonal, tranqüilidade e simplicidade (Chevalier, 1998). Esses significados tendem a influenciar, ou não, a escolha das pessoas na hora de fazer uma tatuagem. Entretanto nesse processo, a Indústria Cultural tem um papel determinante. Sua dinamização no processo cultural permitiu a divulgação em massa desses símbolos para o ocidente. Não que essa disseminação cultural não existisse, mesmo porque essas trocas culturais sempre existiram, contudo, em menor escala. A Indústria Cultural permitiu uma massificação desses símbolos entre as sociedades modernas, esquecendo-se da bagagem simbólica e mística que eles carregavam. Da mesma maneira que ela se apropriou da tatuagem, transformando um ritual antigo em um simples produto da sociedade de consumo, ela banalizou as imagens e os símbolos, agregando a eles apenas valores comerciais. Isso pode ser compreendido e percebido no cotidiano, já que muitas pessoas que se tatuam ou já se tatuaram não sabem o significado dos símbolos que escolheram. Teixeira Coelho (1944) descreve a Indústria Cultural como uma produtora mercadorias para um público médio que não tem tempo de questionar o que consome. Isso além de contribuir com a banalização da tatuagem e re-afirmar o conceito “marginal” que ela carrega, torna a leitura da prática simplista, e desprovida de qualquer caráter místico ou simbólico. Devido a essa simplicidade de abordagens, a tatuagem continua sendo um elemento de exclusão social, pois, ainda se encontra vinculada a conceitos de marginalidade e criminalidade. Esse tipo de abordagem ainda ser facilmente percebida, quando se procura um emprego, principalmente nas empresas de capital privado; elas não permitem que seus funcionários possuam tal adereço corporal e já faz essa triagem, na hora da seleção. Pessoas que também fizeram tatuagens em outras épocas (entre as décadas de 60 – 80) e se arrependeram, também compartilham dessa visão marginal da tatuagem. Muitas delas (como uma das entrevistadas) garante que a tatuagem possui um “prazo máximo” de 7 anos (Anexo fig. 10): “A tatuagem tem um prazo de 7 anos. Os primeiros anos é só festa e curtição, mas, depois, quando se tem que arranjar um emprego é que


xvii você começa a ver os verdadeiros males da tatuagem. E depois disso é questão de tempo para você se arrepender. Comigo foi assim; demorei mais ou menos 7 anos para me arrepender. Hoje, se pudesse, não teria feito”. Outro ponto que deve ser abordado é o modismo em que essas pessoas estavam inseridas. Ainda hoje o modismo é responsável por boa parte das tatuagens criadas. Ideogramas japoneses, dragões, tribais foram durante bons anos, sinônimo de dessa moda. Mas essa preferência tem mudado abrindo espaço para peixes e flores. Esse modismo, seguindo astrólogos, pode ser explicado devido com o transito lento de Plutão e Urano, desencadeando em diferentes épocas um culto diferente ao corpo e ao mundo, marcando cada geração com características comuns (Planeta, ago-2004). Esse impulso, esse modismo contribuiu para esses futuros arrependimentos e desilusões com relação à tatuagem. Entretanto, esse panorama parece estar mudando. Hoje a tatuagem está presente nos mais variados níveis sócio-econômicos da sociedade, contribuindo para uma nova abordagem crítica e também para uma quebra de paradigmas. A tatuagem se reverteu de outros significados deixando um pouco a mística e a simbólica de lado, agarrando-se no ultimo século, num caráter contestatório, de inconformismo perante a sociedade. Diversos tatuadores e tatuados enxergam um futuro promissor para o cenário. Eles acreditam que dentro de mais alguns anos, esse panorama de exclusão e repudio já vai ser mínimo, permitindo as pessoas se expressar mais completamente, sem ter que se privar de suas escolhas por causa de trabalho ou qualquer outro motivo. Sinais duradouros na pele denotam um desejo de sair do anonimato, de buscar auto-afirmação e de exteriorização do que está oculto no interior de uma pessoa: sua personalidade e caráter. Contudo, ainda um caminho árduo a ser trilhado até que se possa gozar de uma felicidade plena. Para isso, será necessário compreendemos a importância de um resgate cultural acerca da tatuagem para que a discussão passe a integra outro plano, diferente daquele já arraigado no subconsciente coletivo. Essa discussão serviria para romper com determinados conceitos pré-estabelecidos, de forma a permitir esclarecimentos e aceitação da sociedade moderna. Também a pluralidade cultural ganha relevância a partir da dialética entre culturas orientais no tocante a indústria cultural contribuindo ou não para alienação, consumismo cultural transformando símbolos tão significativos para certas sociedades em meros produtos mercadológicos.


xviii V – BIBLIOGRAFIA GINZBURG, Carlo, 1939-. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. Tradução: Federico Carotti. – São Paulo: Companhia das Letras, 1989. COELHO, Teixeira, 1944-. O que é Indústria Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1998. ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução: Sonia Cristina Tamer. – São Paulo: Martins Fontes, 1991. CHEVALIER, Jean e CHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução: Vera da Costa e Silva... [et al.]. – Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. SWANN, Peter C. El arte de China; Tradução: Mª Dolores Raich Ullán. – Barcelona: Editorial Juventud, 1967. SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. - São Paulo: Brasiliense, 1983. DARTON, Robert. O grande massacre de gatos, e outros episódios da história cultural francesa. Tradução: Sonia Coutinho. – Rio de Janeiro: Graal, 1986. HUNT, Lynn. A nova história cultural. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. – São Paulo: Martins Fontes, 1992. CHRISTIE, Anthony. Biblioteca dos grandes mitos e lendas universais. Tradução: Maria Fernanda Tomé da Silva. – Rio de Janeiro, 1987 PHILIP, Neil. O livro ilustrado dos mitos: contos e lendas do mundo. Tradução: Felipe Lindoso. – São Paulo: Marco Zero, 1996. DARWIN, Charles. The descent of man: and selection in relation to sex. - Princeton Univ Pr, 1981.


xix RIBEIRO, Núbia Braga e VARGAS, Sandro E. Vieira de. Simbologia e Memória: espaço/tempo na cultura indígena Sul Americana. Projeto de Pesquisa. Revista Planeta. Agosto de 2004 (págs. 22 – 27) DOCUMENTOS ELETRÔNICOS (IMAGENS E REFERÊNCIAS)

http://www.ceticismoaberto.com/fortianismo/estatuetas_dogu.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%96tzi

http://en.wikipedia.org/wiki/Yakuza

http://www.chinaonline.com.br/artes_gerais/jade/default.asp

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianismo


xx VI – ANEXOS Figura 1 (http://www.ceticismoaberto.com/fortianismo/estatuetas_dogu.htm)

Face de Barro

Figura 2 (fotos 2 – 5: http://www.ogka.at/aerzte/artikel/oetziLancet.htm)

Ötzi


xxi Figura 3

Ötzi

Figura 4

Ötzi


xxii Figura 5

Ötzi

Figura 6 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Ichthus.svg)

Peixe - Símbolo Cristão Primitivo, 2.º Século d.C


xxiii Figura 7 (http://www.angelostattoo.it/images/carpa2.gif)

Carpa estilizada com adornos de L贸tus

Figura 8 (http://www.tattoosymbol.com/articles/lotus-om.jpg)

Flor de L贸tus com s铆mbolo do mantra Om.


xxiv Figura 9 (http://www.colpos.mx/entomologia/images/DSCN4355.JPG)

Cris창ntemo

Figura 10 (Tatuagem da entrevistada)

Tulipa

tatuagem  

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