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MENSAGEM DO

Presidente Itamar Rocha | Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão

S

e 2008, mesmo com as enchentes que afetaram duramente o Vale do Assú, o coração da carcinicultura do Rio Grande do Norte, maior produtor brasileiro, foi o ano do início da recuperação da carcinicultura brasileira, pode-se afi rmar que 2010 será o marco referencial, que restabelecerá a confiança e a capacidade de realização dos investimentos, necessários e indispensáveis para que o setor volte a crescer e atender satisfatoriamente a crescente demanda interna pelo camarão cultivado. O motivo dessa comemoração está associado, principalmente, com o fato de que o caminho dessa recuperação foi o mercado interno, que superando as expectativas mais otimistas, vem mostrando um desempenho impressionante. No entanto, mesmo consciente da importância e do papel desse mercado para a referida recuperação, notadamente porque dissociou a receita setorial do problema cambial, é preciso ter presente que a sua preservação e consolidação, passa necessariamente pela recuperação da competitividade das exportações. Afinal de contas, a carcinicultura brasileira, sempre teve uma cultura exportadora e ocupou papel de destaque nos dois principais mercados importadores de camarão, a União Européia e Estados Unidos. Em 2003, antes da ação antidumping imposta pelos EEUU, o camarão brasileiro ocupava o primeiro lugar (25,05%) das suas importações de camarão pequeno médio, seqüenciado pela China (20,18%), Equador (18,0%), Tailândia (11,23%), etc. Da mesma forma, como prova da competitividade e da qualidade do camarão brasileiro cultivado, em 2004, a liderança das importações de camarão tropical da Europa coube ao Brasil (25,57%), seqüenciado pela Índia (22,65%), Indonésia (18,43%), Equador (18,49%), Bangladesh (12,75%), etc. Sendo que em 2009, pela falta de apoios e medidas compensatórias específicas, as exportações brasileiras para os EUA foram reduzidas de 21.783t para 17t e de 43.019t para 5.700t para a Europa. A confirmação dessa assertiva pode ser mais bem avaliada quando se compara a situação brasileira com a da Tailândia, cuja taxa média de dumping (5,95%) foi apenas 1,1% menor do que a do Brasil (7,05%), mas que aumentou suas exportações para o referido país, de 133.220t (2003) para 192.766t (2009). De forma muito semelhante, o Equador, que também foi incluído na ação antidumping aumentou suas exportações de camarão para os EUA de 33.029t (2003) para 61.595t (2009).

Portanto, o retorno do camarão brasileiro ao mercado internacional, passa necessariamente, pelo apoio governamental, no sentido de disponibilizar ao setor exportador, as mesmas ferramentas de competitividade que os demais países exportadores de camarão já contemplaram aos seus produtores/exportadores. Nesse sentido, em audiência com o Secretário Executivo do Ministério da Fazenda, Dr. Nelson Machado e com o Secretário Executivo do MDIC, Dr. Welber Barral, defendemos a imediata devolução dos créditos da Lei Kandir e a isenção do PIS/COFINS, nas operações de vendas internas e nas aquisições de insumos, argumentando exatamente, as dificuldades enfrentadas pelos exportadores brasileiros de produtos primários, que além da elevada carga tributária e de um cambio sobre valorizado, não contam com os incentivos e as medidas compensatórias disponibilizadas pelos países concorrentes. Além disso, a desvalorização artificial das moedas da China, Equador e Vietnã por exemplos, são problemas ainda maiores para os exportadores e produtores de camarão do Brasil. Adicionalmente, além das dificuldades, pela falta de competitividade, para continuar exportando, os produtores de camarão cultivado do Brasil, que graças a uma fi rme ação da ABCC, desde 1999 contam com restrições às importações de camarão de países detentores de doenças virais, estão sendo permanentemente confrontados com ameaças de liberação dessas importações. Inclusive, recentemente chegou a ser veiculado no site do MAPA a relação de várias empresas exportadoras de camarão do Equador, com autorização para exportar diversas formas de camarão para o Brasil. No entanto, graças a pronta e fi rme intervenção da ABCC, conseguise através de Audiências com o Ministro da Agricultura, Wagner Rossi e o da Pesca e Aquicultura, Altemir Gregolim, contando com o decisivo apoio do Senador Garibaldi Alves (PMDB/RN) e do Deputado e Líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN), mais uma vez foi abortado essa persistente tentativa de desestabilizar a carcinicultura brasileira. Evidentemente que ganhamos apenas mais uma batalha, mas a luta certamente continuará, por isso reiteramos o apelo e alerta para a necessidade de fortalecimento da ABCC e das Associações Estaduais para que possam continuar lutando pelos interesses do setor.

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Expediente Rua dos Caicós 1865, 1º andar

Sumário 05

Ações ABCC

ABCC novamente em ação para barrar mais uma ameaça real de importação de camarão.

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Notícia Especial

De acordo com a FAO, serão necessárias 40 milhões de toneladas adicionais de fruto do mar para manter em 2030 o consumo per cápta atual.

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Artigos

Análise da produção e do mercado interno e externo do camarão cultivado.

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Produção

A tendência é favorável à expansão da área de cultivo.

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Entrevista

Entrevista com Francisco Zuza. Presidente da ADECE – Agência de Desenvolvimento do Ceará.

ARTIGOS “ PSF / Camarão – Porgrama de Saúde nas Fazendas de Camarão”; “Aqüicultura no estado de Santa Catarina: Situação atual e perpesctiva” “Desafios impostos pelas enfermidades aceleram a modernização de uma carcinicultura globalmente mais sustentável e madura.” “Variações hidrobiológicas em cultivo de camarão L. vannmei, sob uso de Probiótico.” A SPEED LINE SPF da AQUATEC: Construindo o futuro para a carcinicultura brasileira.” “Rações sob medida para as condições da fazenda: Efeito da temperatura da água, salinidade e tempo de exposição na estabilidade de rações para camarão.” “Panorama da produção mundial de pescado, com ênfase para o segmento da aqüicultura.” “Avaliação da qualidade da água de açudes cearenses.” “O primeiro laboratório para estudos de digestibilidade de camarões marinhos no Brasil,”

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Dix Sept Rosado, Natal, RN 59052-700 Tel / Fax: 84-32319786 / 32316291 www.abccam.com.br abccam@abccam.com.br Redação Conselho Editorial Itamar Rocha Eduardo Rodriguets Colaboradores Itamar Rocha Eduardo Rodrigues Rodrigo Carvalho Alberto J.P. Nunes, Ph.D. Marcelo V.C. Sá, Dr. Diego Maia Rocha Pedro Carlos Cunha Martins Marcelo Lima Santos Jeanete Koch David Araújo Borges Lorena Soares Monteiro Marlon Melo Aguiar Guilherme Marques de Souza João Luís Rocha Ana Carolina Guerrelhas Ana Karina Teixeira Flávio Augusto Farias Ana Paula Teixeira Ana Cristina Pinheiro Sérgio Winckler da Costa Everton Dantas Thales Passos de Andrade, Dr. Glauber Carvalho Silvio J. Macedo Sônia V. pereira Emiko S. Mendes Claude E. Boyd, Ph.D. Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores Diretoria Presidente: Itamar de Paiva Rocha Vice – Presidente: Enox Maia Diretor Financeiro: Newton Bacurau Diretor Comercial: Livino J. Sales Diretor Técnica: Carlos Bezerra Diretor Secretário: Emerson Barbosa Diretor de Insumos: Geraldo Borba

Conselho Fiscal Titulares: Álvaro Acácio Filho, Luiz Sólon Beltrão Suplentes: Flávio dos Santos Oliveira, Orígenes Neto PERFIL Sociedade de classe, a ABCC tem entre outros, os objetivos de promover o desenvolvimento da carcinicultura em todo o território nacional; amparar e defender os legítimos interesses de seus associados; promover o camarão de cultivo brasileiro nos mercados internacional e nacional; proporcionar treinamento setorial em gestão de qualidade e outros temas de interesse ao setor; promover estudos e pesquisas em áreas estratégicas para o setor; organizar e patrocinar encontros empresariais e conferências técnico-científicas; e editar publicações especializadas. Neste sentido, a ABCC é a entidade que mantém a união dos atores envolvidos na cadeia produtiva do setor, o intercâmbio de informações entre produtores e a comunicação destes via parceria formais. O desenvolvimento ordenado e sustentado do camarão cultivado no Brasil se deve, em grande parte, à sólida união dos produtores em torno da ABCC.

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Ações ABCC

Eleições ABCC No dia 16 de março de 2010, em Assembléia Geral Extraordinária realizada na cidade de Natal, foi eleita a nova Diretoria e Conselho Fiscal da ABCC para comandar as ações da entidade durante os próximos dois anos. Numa clara demonstração de união do setor, o Presidente da ABCC abriu espaço para todos os presentes se pronunciarem sobre esta eleição, ressaltando que a exemplo das eleições anteriores, não existia chapas prontas, ficando aberto o debate, tanto para apresentação de candidaturas para os cargos de Presidente e demais Diretores, como para o Conselho Fiscal. Após um amplo debate, houve um consenso, em face da harmonia e do excelente trabalho desenvolvido pela atual Diretoria, pela sua re-eleição, tendo sido aprovada por unanimidade de votos, para o período de março de 2010 a Março de 2012, envolvendo: Presidente: Itamar de Paiva Rocha Vice-Presidente: Enox Maia Diretor Comercial: Livino J. Sales Diretor Financeiro: Newton Bacurau Diretor Técnico: Carlos Bezerra Diretor Secretário: Emerson Barbosa Diretor de Insumos: Geraldo Borba Para o Conselho Fiscal houve apenas uma mudança de suplência, onde Julio Henrique Pinto foi substituído por Orígenes Neto, eleitos também, por unanimidade: Titulares: Solon Beltrão e Alvaro Filho Suplentes: Flávio dos Santos Oliveira e Orígenes Neto

Isenção de ICMS na Importação de Reprodutores Atendendo solicitação da GENEARCH Aquicultura Ltda, a ABCC, através do seu Presidente Itamar Rocha, pleiteou e recebeu o apoio da então Governadora Wilma de Faria referendado pelo atual Governador Iberé Ferreira de Souza, no tocante a Isenção de ICMS nas importações de reprodutores SPF e suas respectivas vendas no mercado interno, incluindo as suas pós-larvas. A justificativa foi exatamente incentivar e contribuir para a melhoria dos plantéis de reprodutores do L. vannamei do Brasil. Os argumentos apresentados pelo Presidente da ABCC que sensibilizaram os referidos governantes foram, entre outros, (i) à enorme contribuição e o relevante papel da carcinicultura no

contexto da sócia-economia rural da Região Nordeste, em especial, do Rio Grande do Norte, quer seja, através do estabelecimento de uma nova ordem econômica social no seio da pequena e média propriedade rural litorânea (95% dos empreendimentos do setor), ou pela geração de oportunidades de negócios, empregos (3,75/ ha) e renda para os pescadores artesanais e trabalhadores rurais de baixa ou nenhuma escolaridade (88% dos empregos); (ii) o relevante fato de que a mão-deobra feminina ocupou, no ápice do setor (2003), cerca de 14% da sua mão-de-obra, numa clara demonstração de que essa atividade contribui efetivamente para a verdadeira inclusão social de um segmento marginalizado da nos-

sa sociedade rural, que padece da falta de oportunidades, reduzindo os efeitos adversos do êxodo rural e, em última instância, dos problemas sociais dos grandes centros urbanos, destino natural de todos os processos migratórios e (iii) o fato do Governo do Rio Grande do Norte ter desempenhado um papel importantíssimo para a ampliação e consolidação do mercado interno, pois foi com a isenção da cobrança do ICMS nas operações de vendas de camarão no referido mercado, que o mesmo se ampliou e consolidou-se como principal destino da produção de camarão cultivado do Estado, contribuindo efetivamente para a superação do problema cambial e para a recuperação econômica da atividade, Revista da ABCC | 5

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Ações ABCC que já está mostrando sinais claros de aumento de produção e da geração de novos empregos. Em termos específicos, o Presidente da ABCC colocou para a Governadora que ainda era necessário superar alguns gargalos de ordem técnica para dotar o setor das ferramentas de competitividade disponibilizadas aos competidores internacionais, com destaque para as linhagens de reprodutores livres (SPF) e resistentes (SPR) as principais doenças virais, todos originados dos ESTADOS UNIDOS, cujas importações representam custos elevados. Neste sentido foi solicitado que as mesmas fossem incluídas nos benefícios constantes no Art.6º do Decreto Nº 13.640, de 13/11/1997, com as alterações impostas pelo Art.1º do Decreto Nº 21.516 de 31/12/2009, envolvendo a isenção de ICMS nas operações de importações e vendas internas de CAPRINOS E OVINOS, que passariam a incluir pós-larvas e reprodutores de camarão, conforme se detalha a seguir. 1. Isenção de ICMS nas importações de pós-larvas e reprodutores SPF (Livres de Patógenos Específicos), para fi ns de melhoramento genético. 2. Isenção de ICMS nas vendas estaduais e interestaduais dos reprodutores de camarão marinho produzidos no Brasil. 3. Isenção de ICMS nas vendas estaduais e interestaduais de pós-larvas de camarão marinho produzidas no Brasil. A concessão desta isenção de ICMS certamente contribuirá para a melhoria da competitividade da carcinicultura brasileira. Este benefício vale para todas as empresas que estão capacitadas para realizarem importações de reprodutores oriundos de laboratórios dos Estados Unidos, aprovados pela ABCC, e que possuem instalações de quarentena devidamente aprovadas pelo MPA como é o caso da Genearch Aquicultura que assumiu o compromisso com a ABCC que irá revender as pós-larvas/reprodutores, para os demais laboratórios, racionalizando seus investimentos e evitando a duplicidade de investimentos, bem como, assegurando um maior controle sobre essas importações. As quais, por sua vez, irão contribuir para a melhoria da qualidade e da sanidade dos planteis de reprodutores do L. vannamei do Brasil, beneficiando a produção e melhorando a competitividade setorial.

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Ações ABCC

A ABCC mais uma vez capta o evento anual da WAS para o Brasil. No que pode ser considerado como uma grande conquista não só para o setor de carcinicultura, mas sim para o setor aquícola brasileiro como um todo, a ABCC conseguiu, mais uma vez, trazer o evento WAS’11 para o Brasil, sendo que a edição 2011 será realizada na cidade de Natal conjuntamente com a FENACAM’11. Com a desistência de última hora por parte da China, que já tinha sido confi rmada como anfitriã do evento, a ABCC, com um calculado senso de oportunidade, conseguiu com base no seu desempenho na organização dos eventos FENACAM e, especialmente da WAS’03 na Bahia, considerado até hoje o maior evento da WAS, notadamente fora dos Estados Unidos, atrair a WAS’11 para Natal. A importância desse evento, afora o fato de se tra-

tar do maior acontecimento da AQUICULTURA MUNDIAL, está relacionada principalmente com a feliz coincidência de que o mesmo ocorrerá no início dos próximos Governos, tanto no contexto Federal como Estaduais, se constituindo, portanto, numa vitrine e numa oportunidade para aprendizagem e intercâmbios de conhecimentos, favorecendo sobremaneira as correções de rumo e o incentivo ao desenvolvimento da aqüicultura brasileira. Neste sentido, em Janeiro último foi realizada em Natal uma reunião com o COMITÊ INTERNACIONAL DA WAS’11, incluindo o Presidente Michael Schwarz e o Diretor de Eventos John Cooksey da WAS ( Sociedade Mundial de Aquicultura) , com a participação do Michael New, Craig Bro-

wdy (USA), Wagner Valenti (UNESP/BRASIL), Ricardo Martino (FIPERJ/BRASIL), Rodrigo Roubach (MPA/BRASIL), Paulo Nunes e Rogério Nunes da FENACAM e Itamar Rocha e Newton Bacurau da ABCC. Nesta reunião foram discutidos os detalhes da WAS’11 e a participação da ABCC/FENACAM’11 na programação deste evento, incluindo a logomarca conjunta e demais temas e peculiaridades inerentes a um evento dessa magnitude. Um fato de interesse para todos é que nesta ocasião ficou definido que durante a FENACAM’10 as empresas brasileiras terão a preferência de reservarem / manterem suas posições na FEIRA DE AQUICULTURA, assinando um pré-contrato com as respectivas reservas.

ABCC Conseguiu Manter a Proibição das Importações de Camarão O setor de carcinicultura for surpreendido no início deste ano por uma informação oficializada pelo MAPA encaminhada ao Presidente da ACCC, Cristiano Maia, de que o controle das autorizações de importações de pescados, incluindo camarão, após a promulgação da Lei que criou o MPA, passava a ser de responsabilidade deste. Esta comunicação mencionava equivocadamente que a INSTRUÇÃO NORMATIVA que proíbe a importação de camarão, datada

de Novembro de 1999, havia sido revogada, citando uma outra INSTRUÇÃO NORMATIVA que embora tenha sido elaborada pelo MAPA e posta em discussão, nunca foi oficializada, tanto pela falta de acordo com o setor produtivo e acadêmico, como pelo fato de que a aprovação do MPA em Junho de 2009 transferiu para o mesmo a competência sobre o controle sanitário dos cultivos. Adicionalmente, o signatário da correspondência do MAPA fazia referencia a acor-

dos e compromissos do Brasil como país membro da OMC, para justificar a liberação das importações. Estranhamente essa informação vinha de encontro á resposta do Dr.Inácio Kroetz, Secretário de Defesa Agropecuária do MAPA, a uma indagação da ABCC confirmando que nenhum país havia questionado ou feito qualquer pedido para liberação das importações de camarão por parte do Brasil, não havendo assim motivo ou interesse do Governo Revista da ABCC | 7

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Ações ABCC Brasileiro de revogar/liberar estas importações. Esta nova realidade colocou por terra os entend i mentos/c omprom i ssos assegurados à ABCC pelo MAPA, desde 1999, quando surgiu o WSSV no Equador. Diante desse novo cenário, o Presidente da ABCC, Itamar Rocha agendou de imediato uma audiência com o Ministro Altemir Gregolim (MPA). Em data anterior a reunião, a ABCC solicitou e recebeu o apoio do Dep. Federal Henrique Alves, líder do PMDB, que hipotecou total apoio e imediatamente externou sua posição e preocupação ao Min. Gregolim, ressaltando que esse era um assunto de total interesse do Rio Grande do Norte e do Bra-

sil. O Senador Garibaldi Alves (PMDB/RN) e a então Governadora Wilma de Faria do RN também apoiaram a iniciativa da ABCC em defesa do setor de carcinicultura. A audiência do Presidente da ABCC com o Ministro Gregolim no dia 9 de fevereiro do presente ano contou com a participação de vários Secretários e técnicos do MPA. Na oportunidade, tanto o Ministro como todos os seus Secretários e au x iliares diretos hipotecaram apoio ao pleito da ABCC em particular e a carcinicultura como um todo. Inclusive, foi ressaltado pelo Presidente da ABCC que nesses 11 anos de proibição da importação de camarão, o Brasil não hav ia

sido questionado ou sofrido qualquer ação por parte de membros da OMC, numa clara demonstração de que a demanda mundial por camarões era superior a oferta. Foi colocado também que o setor de carcinicultura não iria aceitar, que passado o controle das importações de pescados do MAPA para o MPA, o mesmo v iesse liberar as importações de camarão, exatamente quando a carcinicultura brasileira, que teve sua produção e exportações duramente afetadas pela ação anti-dumping, pela incidência de v iroses e pela desvalorização cambial, começa a se recuperar, exatamente com base no mercado interno.

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Ações ABCC

ABCC à Frente da Defesa Anti-Dumping Pode não parecer, mas em Fevereiro último completaram-se 5 anos da decisão antidumping por parte dos Estados Unidos contra o camarão brasileiro. Não obstante todos os esforços da ABCC em defesa do nosso camarão na investigação antidumping na época, a decisão altamente protecionista e subjetiva do Governo Americano de punir o Brasil e mais cinco países com tarifas antidumping prejudicou sensivelmente nossas exportações de camarão para este país que passaram de 21.700 toneladas em 2003 para praticamente zero toneladas nos últimos anos. A legislação antidumping Americana permite que após um período de 5 anos, as partes envolvidas num processo desta natureza solicitem a chamada Revisão Por do Sol (Sunset Review). Lembrando que para a imposição de tarifas antidumping tem que obrigatoriamente ser comprovado, segundo os critérios das autoridades Americanas, a existência de dumping de ordem técnica (preços) e que este dumping está prejudicando a indústria Americana do setor em questão. Portanto, nesta revisão, tanto os aspectos técnicos da investigação inicial como à questão de danos à indústria local podem ser revisados de forma independente. Historicamente, as revisões técnicas, onde critérios subjetivos permitem a identificação de dumping mesmo quando não existente, continuam sendo altamente favoráveis aos interesses Americanos que solicitaram a investigação de dumping, motivo pelo qual os

próprios advogados Americanos não recomendam nenhum tipo de ação neste sentido. Por outro lado, a investigação em separado de danos a indústria local historicamente tem tido um índice bastante razoável de sucesso para as partes acusadas do dumping. Em fevereiro deste ano, a ABCC, que nunca deixou de acompanhar este processo durante todos estes anos, contratou o Escritório de Advocacia Americano Bryan Cave LLP para atuar em defesa dos interesses do nosso setor e inicialmente cumprir os requisitos necessários para solicitar formalmente uma revisão de danos a indústria local referente a importação de camarão do Brasil. Esta etapa inicial foi cumprida de forma satisfatória, tanto que a Comissão de Comércio Internacional (ITC) dos Estados Unidos, responsável por esta investigação informou, por edital publicado no equivalente ao Diário Oficial (Federal Register) em 28 de abril, que iniciará a primeira revisão quinqüenal, em formato completo (com a participação das partes interessadas), para determinar se a revogação dos direitos antidumping relativos ao camarão de águas temperadas congelado proveniente de Brasil levará à continuação ou recorrência de dano material a indústria local, em prazo razoavelmente previsível. Esta revisão pode demorar aproximadamente um ano e deve ser considerada como a primeira real oportunidade para o nosso setor derrubar as tarifas antidumping e abrir novamente as portas do mercado Americano visando perspectivas futuras de exportação.

ABCC Apresenta Proposta de Isenção de PIS/COFINS A ABCC conseguiu aprovar no CONEPE (Conselho Nacional das Empresas de Pesca e Aquicultura) a proposta por ela elaborada de vetar a inclusão do benefício de isenção do PIS/COFINS nas importações de pescados, como havia sido proposto inicialmente, mantendo o pleito de isenção dos referidos tributos para as vendas internas de pescados, incluindo o camarão. Adicionalmente, foi incluído na proposta da ABCC um artigo contendo a isenção do PIS/COFINS na compra de insumos (pós-larvas, alevinos e ração) para aquicultura. Em fevereiro último o Presidente da ABCC, Itamar Rocha, junto com o Presidente do CONEPE, Fernando Ferreira, participou de uma reunião com o Secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Machado, para discutir o aperfeiçoamento da emenda que trata da desoneração do PIS/ COFINS do setor pesqueiro e aquícola nacional. A ABCC juntamente com o CONEPE estão propondo a inclusão da emenda na MP nº 475, que tramita no Congresso Nacional e que pode ser votada a qualquer momento. O Senador Garibaldi Alves Filho (PMDBRN), que vem apoiando o setor pesqueiro e aquicola nacional de longa data e contribuindo com articulações políticas com o governo e o Congresso Nacional, para que as reivindicações pesqueiras sejam aprovadas, Revista da ABCC | 9

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Ações ABCC também esteve presente na reunião. Garibaldi Filho alertou ao secretário-executivo Nelson Machado da importância do fortalecimento econômico e social desse setor, que emprega milhares de pessoas tanto na cadeia industrial quanto artesanal. O secretário Nelson Machado reconheceu, após a apresentação dos dados de exportação e importação feitos por Itamar Rocha e por Fernando Ferreira, que “o setor de pesca ainda tem muito que caminhar”. Com a tão desejada aprovação desta emenda, tanto as indústrias quanto às colônias de pescadores e cooperativas de peixe, crustáceos, moluscos e anfíbios estarão isentos da taxa cobrada pelo Governo Federal. Além disso, também estarão isentos da cobrança as rações, pós-larvas e alevinos destinados a produção aquícola. A proposta apresentada pela ABCC junto ao CONEPE está em negociação com o ministério da Pesca, Ministério da Fazenda e o Senado Federal, engloba os seguintes artigos.

EMENDA 1 Inclua-se no Projeto de Lei de Convenção n°...., de 2009, onde couber, o seguinte artigo: Art. XX. A Lei n° 12.058, de 13 de outubro de 2009, passa a vigorar acrescida dos seguintes dispositivos: “Art. 32-A Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/ PASEP e da COFINS incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, realizada por empresa pesqueira, de que trata o art. 2° da Lei n° 11.959, de 29 de junho de 2009, inclusive colônia de pescadores e cooperativa, de peixes, crustáceos, moluscos, anfíbios, respectivas partes, produtos e subprodutos, destinados a alimentação humana, classificados nas posições 03.01, 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 03.06, 03.07, 16.03, 16.04 e 16.05, 0208.50.00 e 0210.93.00 da Nomenclatura Comum do Mercosul – NCM, observando o seguinte: I – A suspensão não se aplica quando a venda for realizada por empresa cujo objeto principal seja o comercio atacadista, o comercio varejista ou importação e exportação;

II – A suspensão não se aplica quando a mercadoria for destinada a consumidor final; III – A venda com suspensão veda a utilização dos créditos previstos no art. 3° das Leis n°s 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e do crédito presumido de que trata o art.8° da Lei n° 10.925, de 23 de julho de 2004. Art. 32-B. Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, de ração, pós-larvas e alevinos, destinados a produção aqüícola. Parágrafo único – A venda com suspensão prevista no caput deste Artigo veda a utilização dos créditos previstos no art. 3° das Leis n°s 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e do credito presumido de que trata o art. 8° da Lei n° 10.925, de 23 de julho de 2004. Fonte: ABCC, Conepe

Itamar Rocha, Presidente da ABCC, Senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), Fernando Ferreira, Presidente do Conepe e Nelson Machado (MF). Revista da ABCC | 10

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Ações ABCC

Licenciamento Ambiental nos Estados do Piauí e Ceará Em dezembro de 2009, o setor da carcinicultura foi brindado com duas notícias que merecem comemoração. Primeiro, a confi rmação pela Justiça Federal do Estado do PIAUÍ de que o Licenciamento Ambiental da Carcinicultura seria competência da SEMAPI e não do IBAMA como queria o MPF/PI e o próprio IBAMA/PI. Segundo, a decisão do TRF/5ª REGIÃO (RECIFEPE), que devolveu à SEMACE, o direito do Licenciamento da carcinicultura, contrapondo-se a uma decisão da Justiça Federal do Ceará, corroborada pelo próprio TRF 5ª REGIÃO, que equivocadamente haviam outorgado essa competência para o IBAMA-CE. No caso do Piauí, essa vitória foi fruto das ações desenvolvidas por várias pessoas, dentre estas, os abnegados de plantão: Hiran, Claudio, Robertinho, Hipólito, Jorge, Juan, Ítalo, etc, que nos últimos meses lideraram a resistência e a mobilização política em prol dessa causa. No Ceará, esse mérito deveuse as ações desenvolvidas pelos órgãos representativos de classe (ABCC/ACCC/ACCN), ao longo de todo o processo iniciado pelo MPF/CE contra a carcinicultura cearense, de forma especial, após a liminar que transferiu para o IBAMA-CE o direito do licenciamento da carcinicultura. O IBAMA inicialmente decretou uma moratória de 180 dias para licenciar novos empreendimentos, mas no fi nal de 420 dias não havia emitido nenhuma licença, mesmo para os empreendimentos em operação há mais de 25 anos, inclusive aqueles que já contaram com licença de implantação/operação do próprio IBAMA (SUDEPE)/CE. Evidente-

mente, que essa é uma vitória de todos os que fazem a carcinicultura no Estado do Ceará. A Revista da ABCC gostaria de aqui reconhecer a importante e decisiva participação do saudoso Jucimar Carvalho, do Cristiano Maia e membros da Diretoria da ACCC, de José Maria Veras (SINDPESCA), de Francisco Zuza (ADECE), do Glauber (ex-ADECE) e, de forma especial, de Livino Sales (ACCN), esse baluarte da carcinicultura cearense e do amigo Feitosinha, amigo de fé do setor Em uma audiência do Presidente da ABCC, Itamar Rocha, com o Desembargador Francisco Barros (TRF, 5ª REGIÃO/RECIFE), relator do processo do Ceará, o mesmo que havia dado liminar favorável ao MPF/CE foi possível apresentar uma abalizada defesa do setor, com base em uma farta e consistente documentação técnico-científica e social, atestando os benefícios e o importante papel da carcinicultura, tanto em termos da sua capacidade para se adequar às mais rígidas exigências para um desenvolvimento sustentável, como pela sua valiosa contribuição para a melhoria da socio-economia das suas regiões de intervenção. Adicionalmente, foram refutadas todas as infundadas e equivocadas acusações apresentadas pelo MPF/ CE contra a atividade no Ceará e no Brasil. Diante de tantas informações favoráveis a carcinicultura, o Desembargador Barros se mostrou surpreso, pois ressaltou que nas mais de 2.000 páginas do processo não havia por parte da SEMACE ou do Governo do Estado qualquer alusão a esses benefícios e muito menos uma defesa setorial, com o devido contraponto às acusações

elencadas no Processo, pelo MPF/ CE. O Desembargador Barros solicitou todas as contra-argumentações a decisão do TRF/5ªREGIÃO por escrito. Neste sentido, foram elaborados pela ABCC os seguintes documentos: (1) Resumo Executivo da Carcinicultura Cearense (2) As Contra Razões às Infundadas Acusações do MPF/CE (3) Um arrazoado jurídico sobre a competência para Legislar e Licenciar os Empreendimentos de Carcinicultura. Alé disso foi contratado um bom escritório de advocacia para representar a ABCC no encaminhamento da referida defesa/justificativa. Adicionalmente, com o apoio de Cristiano Maia, Presidente da ACCC e da CAMARA SETORIAL DE CARCINICULTURA, bem como de José Maria Veras, do Sindipesca, de Livino Sales, presidente da ACCN, juntamente com Francisco Zuza, à época Diretor Executivo e hoje Presidente da ADECE, conseguiuse mobilizar e viabilizar a participação do GOVERNO DO ESTADO, através de sua Procuradoria Geral, o que sem dúvida foi crucial para a reversão desse processo. Portanto, como se pode deduzir do acima exposto, mais uma vez, o papel das representações setorial (ABCC, ACCC e ACCN) em defesa do setor e motivação do GOVERNO DO ESTADO, foi de fundamental importância para o êxito desse processo. Assim, fica clara a lição sobre a importância do fortalecimento das representações de classe, como forma de sobrepor-se às constantes agressões feitas à aqüicultura brasileira e, de forma especial, à carcinicultura. Revista da ABCC | 11

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EXPANSÃO COMEMORANDO 10 ANOS DE ATIVIDADES NO SETOR, A BIOMAR,QUE É DESTAQUE NA PRODUÇÃO NA PRODUÇÃO DE LITOPENAEUS VANNAMEI NO BRASIL.

Conquistando novos mercados

C

om o mercado interno aquecido e vislumbrando novas possibilidades de negócio em outros países, a carcinicultura renova suas energias em 2010. Diante dessa forte perspectiva, a Biomar Aquicultura comemora 10 anos de atividades de olho na expansão do mercado. Situada no município de Touros, no Rio Grande do Norte, a empresa é uma das maiores produtoras de pós-larva de camarão do Brasil e, atualmente, está engajada em alguns dos principais projetos de carcinicultura do país. Trabalho que só é possível devido a uma

cional e internacional. Toda a produção é acompanhada de perto, tendo, inclusive, um tência técnica em parceria com o cliente é um diferencial que atrai novas parcerias e garante a qualidade do camarão produzido. Assim, a Biomar comemora uma década de existência trabalhando com responsabilidade e resultados para seus clientes e parceiros. A empresa foi uma das primeiras a comercializar póslarvas de camarão marinho no país, oferecendo sempre novos caminhos para o desenvolvimento da carcinicultura. Atualmente é uma das líderes nacionais do mercado e garante excelentes resultados em produtividade nos viveiros de engorda. RESPONSABILIDADE Diante dos resultados positivos, o diretor da Biomar, Carlos Bezerra, ressalta que o processo não estaria completo sem o trabalho permanente de segurança ambiental. “A biosseguranca é uma constante preocupação na empresa. A nossa rigorosa política proíbe o uso de antibióticos na linha de produção”, observa. Para equilibrar a produção em larga escala com o respeito ao meio ambiente, a empresa possui um Programa de Monitoramento Ambiental cujo objetivo é minimizar qualquer impacto à comunidade e ao meio ambiente. Aliado a esse trabalho, são adotados padrões internacionais de manejo que garantem o gerenciamento racional da área e de seus recursos naturais. Assim, o aproveitamento das riquezas acontece de forma continuada. Fotos: Fábio Cortez

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Ações ABCC

ABCC e a Capacitação de Gestores. Depoimento do Dr. Thales Passos de Andrade A Associação Brasileira de Criadores de Camarões – ABCC, sabendo dos desafios que seriam impostos pela tentativa de controle e exclusão do IMNV, e da fundamental importância da utilização de reprodutores SPF, para renovação dos plantéis de reprodutores do L. vannamei do Brasil, e da necessidade em capacitar gestores para incorporação crescente de patobiotecnologia no processo produtivo do camarão na indústria brasileira, desprendeu um esforço fi nanceiro em conjunto com a Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade do Arizona (UAZ) e Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) no apoio dos meus estudos de pós-graduação no Departamento de Ciências Veterinárias e de Microbiologia, da Universidade do Arizona, Tucson, E.U.A., considerado um centro de excelência mundial em patologia do camarão marinho pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). O laboratório é liderado pelo Prof. Dr. Donald Lightner principal autoridade mundial para patologias de crustáceos e participante honorifico da OIE Aquatic Animal Commission (Comissão para Animais Aquáticos da OIE) nos últimos 10 anos. Dessa maneira, antes e durante os seis anos do meu mestrado e doutorado no referido laboratório, atuei prestando serviços de consultoria e assessoria técnica especializada em enfermidades de camarões á ABCC, bem como facilitei a boa relação de colaboração entre a Diretoria da ABCC, associados da ABCC e o Aquaculture Pathology Laboratory, além dos estudos aplicados à biopatologia do IMNV. Por exemplo, em

2003, escrevi o primeiro relatório sobre IMNV: CARACTERIZAÇÃO DA NECROSE MUSCULAR EM CAMARÕES NO NORDESTE PREVENÇÃO E CONTROLE DAS ENFERMIDADES DOS CAMARÕE (41p.). Além disso fui autor do projeto QUARENTENA E PRODUÇÃO DE CAMARÕES SPECIFIC PATHOGEN FREE (SPF) E HIGH HEALTH SHRIMP (HHS) VISANDO UM PROGRAMA/ESTRATÉGIA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAMARÃO ABCC PARA A IMPORTACAO DE NOVAS LINHAGENS DE L. vannamei (33p). Adicionalmente, colaborei diretamente durante as fases de importação e quarentena das linhagens importadas e principalmente durante as perdas massivas ocasionadas pelo IMNV no NE e do WSSV nos Estados de Santa Catarina (2005-2007), e Bahia (2009). Todos os casos de diagnósticos do Brasil que foram enviados para o APL estiveram diretamente ou indiretamente sob minha co-supervisão ou responsabilidade técnica. Escrevi e colaborei com o primeiro Workshop Internacional sobre doenças do camarão e métodos de diagnóstico (Natal-RN, 2005) e com o primeiro senso de laboratórios de diagnóstico de enfermidades de camarões marinhos no Brasil. Além disso escrevi artigos que foram publicados em revistas e periódicos de abrangência nacional e internacional. Vale ressaltar que colaborei também com a escrita de cartas técnicas (i.e IHHNV, IMNV, WSSV e SMV) para representações competentes do Governo Brasileiro. Em 2007 colaborei com o nosso setor produtivo quando fui convidado a explicar sobre os efeitos

adversos do impacto do IMNV no Brasil durante a ação de dumping movida contra o Brasil pelo US Department of Commerce (USDC) Washington D.C. (E.U.A Departamento de Comércio Americano, Distrito de Washington). - “Hearing Section of Antidumping Duty Administrative Review of Certain Frozen Warmwater shrimp from Brazil”. A minha participação, na ocasião, foi importante para a redução das taxas impostas a carcinicultura brasileira pelo Governo do Estados Unidos da América. Até porque eu fui o único permitido a falar oficialmente durante a fase de réplica dos produtores brasileiros durante a seção. Em 2008 colaborei diretamente com o treinamento de dois veterinários fiscais agropecuários do Ministério da Agricultura do Governo Brasileiro na UAZ. Todos esses trabalhos não foram os únicos ou os mais importantes intervenções da ABCC com a minha direta participação no APL, mas certamente, foram trabalhos vitais para a base da sanidade da carcinicultura brasileira atual (para melhores informações ler Revista Panorama da Aquicultura. Vol 16, n93. Janeiro/Fevereiro-2006 e Revista da ABCC. Ano 8 N°1, Marco de 2006, 26-34p.). É notável que as coisas não saíram exatamente como escrito em alguns projetos originais. Isso se deve ao fato de que o Ministério da Agricultura possui normas e regulamentos próprios os quais forçaram ajustamentos por parte dos produtores interessados em renovar as linhagens genéticas dos plantéis. Apesar disso, é evidente os benefícios dos primeiros resultados desse conjunto de esforços na indústria atual. Revista da ABCC | 13

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Ações ABCC

ABCC Participa da Rede Temática em Carcinicultura - RECARCINA Atendendo uma solicitação do MPA, a ABCC coordenou e realizou uma reunião no dia 10 de maio de 2010 na sede da ADECE em Fortaleza para discutir e analisar as linhas de pesquisa a serem priorizadas no Programa da RECARCINA. A reunião contou com representantes da Diretoria da ABCC, a presença dos secretários José Claudenor e Felipe Matias do MPA, além de, ANCC, ACCC, ADECE, LABOMAR. UFRN, UFRPE, ITEP, UFC, ADAGRI IPA, SINDIPESCA e vários técnicos de empresas privadas participantes da cadeia produtiva da carcinicultura. O Presidente da ABCC, Itamar Rocha, iniciou a reunião com uma apresentação destacando que o objetivo da reunião era atender uma solicitação do MPA no sentido de emitir posicionamento da ABCC sobre a proposta contida nos encaminhamentos de ações dentro do Edital MCT/FINEP/Ação Transversal – CARCINICULTURA: CONVITE PARA FORMAÇÃO DE REDES TEMÁTICAS EM CARCINICULTURA. Esta apresen-

tação foi seguida por algumas explanações dos Secretários do MPA acima mencionados sobre a importância do encontro entre as diversas instituições presentes para a análise das linhas de pesquisa e redes temáticas especificadas no referido edital e da importância da identificação e resolução dos “gargalos” do setor da carcinicultura no Brasil. A ABCC através do seu Presidente, Itamar Rocha, lembrou do apoio que o setor de carcinicultura tem recebido da FINEP nos últimos cinco anos. Informou também que a atividade está em franca recuperação, e que os recursos previstos no referido edital, visam exatamente o fomento das ações necessárias ao desenvolvimento sustentável e a recuperação da sua competitividade. Estes recursos são extremamente importantes para dar continuidade ao fortalecimento setorial. A posição da ABCC é que as exportações brasileiras de camarão precisam recuperar sua competitividade, o que irá contribuir para o aumento da pro-

dução nacional e para o retorno do Brasil ao patamar de excelência alcançado no início dos anos 2000. Adicionalmente, Itamar Rocha defendeu a reestruturação da RECARCINA com a participação de entidades e instituições que realmente atuam diretamente, ou de forma positiva, no segmento da carcinicultura brasileira, chamando a atenção para a necessidade de priorizar pesquisas que atendam as demandas imediatas e de médio prazo do setor. Para a ABCC, a principal ação para o setor está relacionada às Boas Práticas de Manejo, pois existem empreendimentos com mais de 30 anos de operação e que continuam produzindo com sustentabilidade, numa clara demonstração, de que as mesmas são efetivas e adequadas e que portanto, devem ser difundidas para os demais produtores. A reunião foi bastante proveitosa para todos os envolvidos e foi uma oportunidade única para a ABCC se posicionar sobre as linhas de pesquisas a serem seguidas pela RECARCINA.

Reunião da RECACINA na ADECE, Fortaleza/CE. Revista da ABCC | 14

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Ações ABCC

ABCC novamente em ação para barrar mais uma ameaça real de importações de camarão

N

o fechamento desta edição, a Diretoria da ABCC tomou conhecimento da publicação por parte do Ministério da Agricultura em seu Site, de uma relação de empresas do Equador com habilitação para exportação de camarão para o Brasil, incluindo várias preparações, abrangendo desde camarão inteiro, congelado, até em conserva enlatada. O absurdo dessa situação, é que se consolidada, certamente traria enormes danos à carcinicultura nacional, especialmente pela real possibilidade do risco de introdução de doenças virais, notadamente a mancha branca (WSSV). Adicionalmente, tal medida contraria parecer jurídico do próprio MAPA uma vez que a CONJUR/MAPA (Consultoria Jurídica) havia concluído parecer dizendo que de acordo com a Lei 11.958/2009, que criou o Ministério da Pesca e Aqüicultura e a Lei 10.683/2003, que dispõe sobre a organização dos Ministérios, a competência para a autorização de importações de pescado passou a ser do MPA. A ABCC, liderada por seu Presidente Itamar Rocha, imediatamente tomou as medidas que estavam ao seu alcance para tentar reverter essa anunciada tragédia, enviando correspondência ao Dr. Felipe Matias, Secretário de Aqüicultura do MPA, solicitando providencias e o agendamento de uma Audiência com o Ministro Altemir Gregolim (MPA), bem como se reunindo com o líder do PMDB, Deputado Federal Henrique Alves no aeroporto de Natal quando foi possível agendar audiências com o Ministro da Pesca e Aqüicultura, Altemir Gregolim

Itamar Rocha, Ministro Gregolim e Senador Garibaldi Alves.

e com o Ministro da Agricultura, Wagner Rossi. Em face da gravidade do assunto, algumas lideranças do setor foram convidadas para acompanhar o Presidente da ABCC nas mencionadas audiências, de forma que além do Senador Garibaldi Alves Filho e o Líder do PMDB, Dep. Federal Henrique Eduardo Alves, participaram das mencionadas audiências, os Empresários Livino Sales e Fabrício Ribeiro, pela ACCN, Hélio Filho pela ACCC, Newton Bacurau e Orígenes Monte pela ANCC/ABCC, José Aécio (Atlantis), Emerson Barbosa (ABCC/Costa Dourada) e Hugo Campos (Netuno), além de Sergio Pinho, Silvana e Guilherme Araújo (CONEPE). Nestas audiências, os Ministros hipotecaram apoio ao setor de carcinicultura, e as autorizações do MAPA, não só foram revogadas, como o Ministro Wagner Rossi assegurou que não iria autorizar nenhuma operação para importação de camarão do Equador ou de qualquer outro país. Adicionalmente, o Ministro Gregolim se prontificou a promover uma reunião para discussão e entendimento entre as partes envolvidas na produção e comercialização do camarão no Brasil buscando evitar futuros sobressaltos desta natureza. Fica bastante claro mais uma vez que o setor, através de suas representações de classe, a nível Estadual e Federal, precisa se fortalecer e exercer uma forte e ativa vigilância junto ao MPA e MAPA para assegurar a proteção dos seus interesses e a continuidade da recuperação da carcinicultura brasileira.

Min. Wagner Rossi, Dep. Henrique Alves, Sen. Garibaldi Alves, Itamar Rocha e Empresários do Setor. Revista da ABCC | 15

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Notícia Especial

De acordo com a FAO, serão necessárias 40 milhões de toneladas adicionais de frutos do mar para manter em 2030 o consumo per cápita atual

O

oficial da pesca da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Audun Lem, declarou que a aqüicultura é o setor alimentício de maior crescimento a nível mundial, já responsável por aproximadamente 50% do total de frutos do mar comercializado atualmente. Disse também que em vista das previsões de aumento da população, serão necessárias 40 milhões de toneladas adicionais de frutos do mar até 2030 para manter o atual nível de consumo per cápita de pescado. Estas declarações foram feitas durante um seminário sobre o abastecimento de produtos aquícolas e da pesca para a União Européia (UE), organizado pela Comissão Européia em Madrid, Espanha. O Sr. Lem acrescentou que vários países têm incrementado suas exportações aquícolas devido aos benefícios econômicos que esta atividade tem gerado através dos anos. No entanto, condicionou o desenvolvimento de uma aqüicultura sustentável no longo prazo a necessidade que a mesma seja implementada incluindo critérios econômicos, sociais e meio-ambientais responsáveis.

No que diz respeito à comercialização de frutos do mar, Audum Lem projetou uma tendência positiva em 2010, após a queda de 8,8% registrada em 2009 em relação ao ano anterior quando o valor registrado passou de US$ 108 bilhões (2008) para US$ 98 bilhões (2009). O Sr. Lem acredita que os três grandes importadores de frutos do mar (Japão, Estados Unidos e UE) registrarão uma leve queda este ano. No entanto, declarou que a UE aumentará no longo prazo sua dependência nas importações, especialmente de catfish do Vietnã, mexilhões do Chile, e salmonídeos da Noruega e Chile. Com isso, países como China, Vietnã e Rússia aumentarão suas participações como produtores e processadores de frutos do mar. O Sr. Lem deu uma ênfase especial para a Índia, país que na sua opinião poderá tornar-se um ator relevante no cenário aquícola mundial. Por último, o oficial da FAO projetou que os preços de frutos do Mar irão aumentar, especialmente o preço de peixes, devido a maior demanda (pelo aumento da população e leve crescimento registrado no consumo per cápita); uma menor oferta, fatores climáticos e doenças, entre outros. Fonte: FAO

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Artigo

Análise da produção e do mercado interno e externo do camarão cultivado Itamar de Paiva Rocha 1* Diego Maia Rocha 2*

A

o se analisar os números reportados pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) referentes às estatísticas mundiais de pescado do ano de 2008, verifica-se que a produção extrativa de camarão já atingiu o seu limite de exploração sustentável, de forma que a crescente demanda mundial por esse nobre produto só poderá ser atendida através da produção advinda da atividade de cultivo. Nesse contexto, a importância da carcinicultura para o atendimento da crescente demanda mundial por camarões, pode ser mais bem avaliada

quando se verifica que enquanto esse setor apresentou um incremento médio anual de 13,18% ao ano entre 1998 e 2008, a produção extrativa cresceu apenas 1,57% ao ano no mesmo período. Além disso, a analise dos números mais recentes da produção extrativa, mostra que entre 2003 (3.332.205 t) e 2008 (3.120.566 t), o setor extrativista apresentou um crescimento negativo (- 6,35%), comparado com um incremento de 65,89%, da produção de cultivo, o que naturalmente leva a constatação de que a produção de cultivo passou a liderar a produção mundial de camarão a partir de 2007 (Figura 1).



Figura 01 – Evolução da Produção Mundial de Camarão Cultivado x Capturado (1998-2008)

De forma semelhante ao que ocorre com a aqüicultura, a produção de camarão cultivado se concentra basicamente no Continente Asiático, que contribuiu com 85,53% (2.907.253 t) da produção mundial desse setor (3.399.105 t) em 2008. Além

disso, quando se analisa a produção extrativa de camarão, verifica-se que o Continente Asiático também se destaca na produção mundial desse segmento, com uma participação de 64,3% do total produzido mundialmente (Tabela 01).

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Análise da produção e do mercado interno e externo do camarão cultivado

Artigo

Tabela 01 - Principais Produtores Mundiais de Camarão Capturado e Cultivado (2003/2008)



Por outro lado, ao se vislumbrar o perfil e a evolução da participação das principais espécies no contexto da produção mundial de camarão cultivado, dois fatos importantes se destacam: (1) o declínio da contribuição da espécie Penaeus monodom, que até bem pouco tempo se destacava como principal espécie da carcinicultura mundial, cuja participação relativa foi reduzida de 51,02% (503.005 t) em 1998, para 21,24% (721.867 t) em 2008 e, (2) a impressionante cons-

tatação de que a espécie Litopenaeus vannamei, que até o final da década de 90 era cultivada exclusivamente nas Américas, cuja participação na produção mundial de camarão foi de apenas 19,63% (193.512 t) em 1998, mas que após sua introdução na Ásia no ano 2000, se transformou na principal espécie cultivada na China, Tailândia, Indonésia e já participou com 66,46% (2.259.183 t) da produção mundial desse setor em 2008 (Figuras 2, 3, 4 e 5).

Figura 02 – Principais Grupos de Espécies e suas Participações Relativas na Produção Mundial de Camarão Capturado e Cultivado (2003 – 2008) Revista da ABCC | 19

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Artigo

Análise da produção e do mercado interno e externo do camarão cultivado

Figura 03 – Evolução da Produção de Camarão Cultivado da China (1998 -2008)

Figura 04 – Evolução da Produção de Camarão Cultivado da Tailândia (1998 -2008)

Figura 05 – Evolução da Produção de Camarão Cultivado da Indonésia (1998 -2008) Revista da ABCC | 20

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Análise da produção e do mercado interno e externo do camarão cultivado

Artigo

Mercado mundial de camarão O comércio internacional de camarão, cuja origem, majoritariamente (70%) é da carcinicultura, apresenta dois cenários bem defi nidos: (1) os países desenvolvidos, representados basicamente pela União Européia (U.E.), Estados Unidos e Japão, responderam por 85,1% (US$ 12,10 bilhões) das importações setoriais (US$ 14,22 bilhões) em 2008 (Figura 6) e, (2) os países em desenvolvimento, representados pela Tailân-

dia, China, Índia, Vietnâ, Indonésia, Equador, México, Brasil e dezenas de outros com menor expressão, participaram com 85% (US$ 12,14 bilhões) das exportações setoriais no referido ano. Os outros 15% (US$ 2,09 bilhões), corresponderam às exportações de camarões de água fria, oriundo da pesca extrativa, desenvolvida por países como Canadá, Estados Unidos, Noruega, Dinamarca, Rússia, etc. (Tabela 2).

Figura 06 – Evolução da participação dos Principais Mercados nas Importações de Camarão (2000 – 2008)



Tabela 02 – Origem das Exportações de Camarão (2003 –2008).

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Artigo

Análise da produção e do mercado interno e externo do camarão cultivado

Produção brasileira de camarão cultivado A carcinicultura, embora utilize apenas 3,3% do seu potencial, já é uma atividade consolidada no Brasil, com viabilidade técnica, econômica, social e ambiental demonstradas, participando ativamente na mitigação dos problemas de pobreza, através da geração de negócios, renda, divisas e empregos para trabalhadores com baixo nível de escolaridade e sem qualificação profissional. O potencial do Brasil para a exploração dessa atividade é de 600.000 ha (Tabela 03), cuja utilização de apenas um terço (1/3) dessa área (200.000

ha), o que corresponderia a um número pouco superior ao explorado pelo Equador (180.000 ha) e apenas 25% da área utilizada atualmente pelo Vietnã (850.000 ha). Permitiria, com base no nível tecnológico atual, a obtenção de uma produção de 1.000.000 t de camarão/ano, o que contribuiria na geração de 750.000 empregos diretos e uma receita de R$ 10 bilhões de reais, com captação de US$ 2,0 bilhões de divisas. Números suficientemente significativos, para transformar a sócio-economia rural litorânea da Região Nordeste, por exemplo.

Tabela 03 - Áreas Potenciais do Brasil para Exploração da Carcinicultura/ Áreas Utilizadas / Percentual de Utilização em 2008 REGIÕES /

ÁREAS

ÁREAS

PERCENTUAL DE

ESTADOS

POTENCIAIS (ha)

UTILIZADAS (1)

UTILIZAÇÃO (%)

REGIÃO NORTE

80.000

50

0,06%

REGIÃO NORDESTE

420.000

18.115

4,30%

Maranhão

150.000

150

0,13%

Piauí

10.000

800

8,00%

Ceará

50.000

5.645

11,29%

Rio G. do Norte

60.000

7.000

11,66%

Paraíba

10.000

700

7,0%

Pernambuco

10.000

1.100

11,0%

Alagoas

10.000

70

0,7%

Sergipe

20.000

600

3,0%

Bahia

100.000

2.000

2,0%

REGIÃO SUDESTE/ SUL

100.000

1.550

1,50%

TOTAL

600.000

19.715

3,28%

A importância econômica da carcinicultura brasileira A melhor constatação da importância e da contribuição da carcinicultura brasileira para a sua sócioeconomia rural litorânea e para a melhoria do desempenho da balança comercial do setor pesqueiro brasileiro, está representado pelos números da evolução do seu desempenho, no contexto da produção e exportações entre os anos de 1998 (7.200t e 400t) e 2003 (90.260t e 58.455t), respectivamente. Inclusive, o referido desempenho colocou o camarão cultivado em segundo lugar na pauta das exportações do setor primário da Região Nordeste e em primeiro lugar nas

exportações do setor pesqueiro brasileiro, em 2003. Evidentemente, que o cenário atual é bem diferente, pois desde a ação anti-dumping imposta pelos Estados Unidos, sem a necessária compensação fi nanceira aos produtores de camarão cultivado, aliado aos efeitos adversos das enchentes de 2004, 2008 e 2009, o que contribuiu para o surgimento de doenças virais, o setor enfrentou muitas dificuldades e como resultado teve sua produção e exportações reduzidas para 65.000t e 5.700t, respectivamente, em 2009.

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Análise da produção e do mercado interno e externo do camarão cultivado

A alternativa que se apresentou para a recuperação setorial, inclusive com grande viabilidade, foi à exploração do mercado interno, o qual já consome mais de 90% da produção nacional de camarão cultivado, mas mesmo assim, apresenta claros sinais de que a demanda continua insatisfeita. Naturalmente, um aumento significativo nas vendas internas, passa efetivamente pela realização de um trabalho de planejamento, envolvendo prioritariamente a retomada dos licenciamentos ambientais e dos financiamentos. Tudo isto obviamente, aliado a um esforço promocional, onde seja incluído o desenvolvimento de produtos diferenciados, com certificação, agregação de valor e fidelização nas vendas. Evidentemente, ao se analisar o desempenho da carcinicultura nos principais países produtores, em relação ao Brasil, que sem sombra de dúvida, detém o maior potencial de exploração dessa atividade, fica evidente que a falta de apoio e de incentivo governamental para o desenvolvimento da carcinicultura brasileira, foi o grande responsável pelo seu prolongado declínio.

Artigo

Nesse contexto, se ressalta que em se tratando de um mundo globalizado, não se justifica um diferencial de produção e exportações, que em última instancia, significa maior oportunidade e competitividade dos produtores da China, Tailândia, Vietnã, Equador e México, dentre tantos outros. Enquanto isso, os produtores brasileiros, a despeito de todas as suas vantagens comparativas, em termos de condições naturais, infra-estrutura básica e de privilegiada posição geográfica em relação aos principais mercados consumidores, não conseguem superar as adversidades fabricadas pelos agentes públicos do seu próprio país. Notadamente, no tocante ao licenciamento ambiental, onde sem nenhum embasamento técnico-científico, mais de 80% dos carcinicultores brasileiros estão sendo privados desse direito constitucional, sendo automaticamente, privados de acesso a qualquer linha de financiamento. 1* 2*

Eng de Pesca, CREA 7226 D, Presidente da ABCC Biólogo /Aquatec

Figura 07- Evolução da Participação do Mercado Interno no Destino da Produção do Camarão Cultivado. Revista da ABCC | 23

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Artigo

Na busca por um máximo crescimento e eficiência em rações para o Cultivo do camarão Litopenaeus Vannamei Alberto J.P. Nunes, Ph.D. alberto.nunes@ufc.br Marcelo V. C. Sá, Dr. marcelo.sa@ufc.br

A

aqüicultura continua a crescer no mundo mais rapidamente do que qualquer outro segmento de produção de alimentos. Enquanto as produções da pesca e da pecuária aumentam a um ritmo 1,2% e 2,8% ao ano, respectivamente, o cultivo de organismos aquáticos cresce anualmente a taxa média de 8,8% desde 1970 (FAO, 2007). Em 2008, a produção aquícola alcançou 68,3 milhões de toneladas, com valor monetário estimado em mais de US$ 105 bilhões (FAO, 2010). Mais da metade desta produção foi composta por peixes e crustáceos, tanto em termos de volume (57%) como em valor monetário (78%). O restante foi constituído por organismos fotossintéticos e fi ltradores, como plantas aquáticas e moluscos bivalvos. A produção mundial de peixes ainda é dominada principalmente por carpas, tilápias e bagres. Porém, na aqüicultura marinha e estuarina predominam os peixes e crustáceos de alto valor agregado, como os salmões, as trutas, os camarões marinhos, e em menor quantidade, espécies como a solha, o linguado, o bacalhau, a garoupa, os robalos, os pargos, etc. Na atualidade, são nesses segmentos onde se observam as maiores taxas de crescimento da aqüicultura. Mais de 60% do cultivo de peixes e crustáceos no mundo é feito mediante o uso de rações balanceadas. Estima-se que em 2020, este valor chegará a 75% (Tacon e Metian, 2008). As rações para peixes e camarões marinhos são produzidas a partir de in-

gredientes essencialmente protéicos (Fig. 1), derivados do abate de animais terrestres (farinha de penas, farinha de carne e ossos, farinha de sangue, farinha de vísceras de aves), subprodutos da agricultura (farelo de soja, farelo de canola), bem como ingredientes advindos da pesca (farinha de peixe, farinha de lula, farinha de crustáceos, farinha de algas).

Figura 1. Ingredientes empregados na composição de rações de camarões. Centro, ração para engorda de camarões marinhos. Ingredientes, iniciando no sentido horário (a partir das 0600 h), farinha de trigo, farelo de soja, farinha de lula, farinha de sangue, farinha de carne e ossos, farinha de peixe de resíduos da pesca e processamento, farinha de peixe de Anchoveta, solúvel de pescado, farinha de algas.

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DESCAMADORA DE PESCADO JATO D’ÁGUA A dependência por ingredientes protéicos nas rações para organismos aquáticos se deve a essencialidade da proteína na formação de novos tecidos (crescimento), assim como a sua importância na sobrevivência e reprodução destes organismos. Os animais aquáticos, diferentemente dos animais terrestres (aves e mamíferos), possuem uma menor exigência energética na dieta, pois não precisam manter a temperatura corporal constante e gastam menos energia na sua locomoção. Por outro lado, a dieta natural de muitas espécies aquáticas é constituída principalmente de alimentos ricos em proteína. Assim, muitas espécies de peixes e camarões se adaptaram fisiologicamente para oxidação das proteínas da dieta com a fi nalidade de obtenção de energia. A exigência protéica na dieta é defi nida como o nível mínimo de proteína necessário para crescimento máximo. A exigência protéica depende da característica do animal, espécie, estado fisiológico, tamanho, qualidade da proteína, nível energético, sistema de cultivo, temperatura, salinidade da água, entre outros aspectos. As espécies que exibem hábito ou tendência alimentar predominantemente carnívora necessitam de mais proteína

na ração. Além disso, a qualidade da proteína na ração deverá ser elevada, ou seja, de fácil assimilação e com balanço de aminoácidos próximo às suas exigências nutricionais. Os aminoácidos são os constituintes básicos da proteína, sendo que 10 deles (arginina, histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina, treonina, triptofano e valina) são considerados essenciais na alimentação de organismos aquáticos (NRC, 1993). Nas rações balanceadas, todos os aminoácidos essenciais precisam estar presentes em quantidades adequadas para obtenção de crescimento máximo. Se estiverem em quantidades insuficientes ou em formas não acessíveis biologicamente a espécie cultivada, o crescimento máximo não ocorrerá. Alguns ingredientes protéicos, apesar de apresentarem uma grande quantidade de proteína bruta, podem possuir fatores antinutricionais que inibem a ação de enzimas digestivas responsáveis pela hidrólise química da proteína, minando o aproveitamento protéico. Em outros casos, o ingrediente pode apresentar deficiência em um ou mais aminoácidos essenciais ou ainda ter baixa palatabilidade, prejudicando o consumo alimentar.

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Artigo

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O Problema da Farinha de Peixe Atualmente os ingredientes de melhor perfi l aminoacídico e com maior digestibilidade e palatabilidade para peixes e camarões cultivados são os de origem marinha. A farinha de peixe é o ingrediente mais abundante entre todos os disponíveis de origem marinha e onde se encontram praticamente todos os nutrientes necessários para crescimento máximo. A farinha de peixe produzida a partir de captura de peixes pelágicos (anchoveta, savelha, arenque, pescada branca) é a mais disponível no mercado, apesar de que em alguns países, como no Brasil, há disponibilidade da farinha de peixes pro-

duzida a partir de resíduos do processamento e bycatch da pesca. Esta última, por ser obtida a partir de resíduos da fi letagem, apresenta um menor teor protéico, menor disponibilidade de aminoácidos essenciais e maior quantidade de cinzas, material que quando em excesso, prejudica a digestibilidade de outros nutrientes (Tabela 1). Como o valor comercial da farinha de peixe não é determinado simplesmente pela quantidade de proteína, mas também pelo seu frescor, digestibilidade e perfil de aminoácidos, a farinha de peixe fabricada a partir de peixes inteiros alcança maior preço no mercado.

Tabela 1. Diferenças básicas entre a farinha de peixes feita a partir de resíduos da pesca ou do processamento e a produzida a partir de peixes pelágicos inteiros.

Características

Resíduos da pesca

Peixes pelágicos inteiros

Origem

Sul e Sudeste do Brasil

Chile e Peru

Aminoácidos essenciais

± 10% menor

Todos presentes em níveis elevados

Cinzas

> 20%

10 – 20%

Umidade

< 10%

< 10%

Proteína bruta

< 48 – 60%

60 – 80%

Gordura

> 10%

< 10%

Digestibilidade protéica*

< 60%

> 80%

*Em solução reagente de pepsina.

O Peru e o Chile são os maiores produtores mundiais de farinha de peixe, enquanto os maiores consumidores são países asiáticos, como China, Vietnã e Japão, e países europeus, como a Alemanha e a Grã-Bretanha. Nos últimos 20 anos, a produção mundial de farinha de peixe girou em torno de 6 a 7 milhões de toneladas ao ano, podendo cair para

menos de 6 milhões de toneladas em anos de El Niño. O preço flutua ao longo do ano em função da oferta, demanda e preço de outras commodities, como do farelo de soja (Fig. 2). Em março de 2010, devido aos terremotos ocorridos no Chile, o preço da farinha de peixe alcançou o valor recorde de US$ 1.900/ton.

Figura 2. Flutuações no preço (US$/ ton.) da farinha de Anchoveta produzida no Peru e do farelo de soja. Fonte: Josupeit (2010). Revista da ABCC | 26

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Na busca por um máximo crescimento e eficiência em rações para o Cultivo do camarão Litopenaeus Vannamei

Tacon e Metian (2008) estimaram que em 2006 as rações destinadas à alimentação de organismos aquáticos consumiram 68,2% de toda produção mundial de farinha de peixe. Ainda segundo esses autores, os cinco maiores consumidores deste ingrediente no segmento aquícola foram os camarões marinhos, seguidos dos peixes marinhos, salmões, trutas e enguias.

Artigo

As rações para engorda de camarões marinhos podem conter entre 5% e 25% de farinha de peixe, correspondendo por 11% até mais de 57% do custo de formulação das rações (Tabela 2). Estes valores são muito elevados ao se comparar o uso de outros ingredientes protéicos, tais como o farelo de soja e subprodutos derivados do abate de animais terrestres.

Tabela 2. Inclusões mínimas e máximas de alguns ingredientes protéicos em rações para camarões marinhos e o impacto no custo da ração.

Ingredientes Protéicos

% de Inclusão na Formula

% do Custo da Ração

Mínimo

Máxima

Mínimo

Máximo

Farinha de peixe de Anchoveta

5%

25%

11%

57%

Farelo de soja

20%

45%

7%

17%

Subprodutos de animais terrestres

5%

20%

3%

11%

Com o aumento no ritmo de crescimento de outros segmentos da aqüicultura, como a piscicultura marinha, que tem capacidade de absorver custos mais elevados nas rações balanceadas, antecipa-se que o uso de farinha de peixe em rações para camarões se tornará ainda mais restrito nos próximos anos. Previsões antecipam que de uma inclusão média de 18% em 2007, nos anos de 2010, 2015 e 2020, o nível de inclusão de farinha de peixe nas rações para camarões marinhos será reduzido para 12, 8 e 5%, respectivamente (Tacon e Metian, 2008).

Verifica-se que ao longo dos últimos 10 anos, a Ásia, que responde por 86% da produção mundial de camarões, migrou para o cultivo do camarão Litopenaeus vannamei. Em 2008, o L. vannamei participou com 66% da produção mundial de camarões marinhos (Fig. 3; FAO, 2010). Isto mostra claramente a expansão de uma espécie menos carnívora de camarão quando comparada ao P. monodon, abrindo oportunidades para o uso de fontes protéicas alternativas à farinha de peixe em rações para camarões.

Figura 3. Histórico da produção mundial de camarões marinhos (em milhões de ton.), com as produções em separado das duas principais espécies de peneídeos. Fonte: FAO (2010).

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Na busca por um máximo crescimento e eficiência em rações para o Cultivo do camarão Litopenaeus Vannamei

Substituindo a Farinha de Peixe Não se pode pensar na substituição da farinha de peixes em rações para camarões, sem antes considerar as exigências nutricionais destes animais em relação aos aminoácidos essenciais (AAE). Praticamente toda informação disponível na literatura a cerca das exigências de AAE para os camarões peneídeos foi gerada para o camarão tigre P. monodon (Akiyama, 1991; Millamena et al., 1996, 1999). Contudo, é de se esperar que o L. vannamei possua menores exigências de AAE quando comparado ao P. monodon. Estas informações são consideradas

cruciais, pois o que leva primordialmente à dependência da farinha de peixes são seus níveis e balanço de AAE e não seu conteúdo protéico. Estudos já demonstraram que o perfi l de AAE (aminoácidos essenciais) entre rações comerciais pode apresentar diferenças significativas (Lemos e Nunes, 2007), impactando fortemente o desempenho zootécnico do L. vannamei. Em condições controladas de cultivo, em águas claras, as diferenças no crescimento do L. vannamei alimentado com estas rações tornaram-se evidentes já após 49 dias de cultivo (Tabela 3).

Tabela 3. Peso corporal em gramas (média ± desvio padrão) do camarão L. vannamei cultivado em águas claras a 29,5ºC e salinidade de 33,4‰. Os animais foram estocados sob densidade de 114 camarões/m2 e cultivados durante 91 dias com diferentes rações comerciais. Valores na mesma linha com letras iguais indicam diferença estatística não significativa (P < 0.05). Fonte: Lemos e Nunes (2007).

Na despesca, os maiores pesos corporais e produtividades foram alcançados com os animais alimentados com as rações R_06, R_05, R_03 e R_04, em ordem decrescente (Tabelas 3 e 4). Analises revelaram uma correlação positiva significativa entre as taxas de crescimento dos camarões e os níveis de metionina nas rações testadas (R2 = 0,73). As taxas

de crescimento mais elevadas foram observadas para as rações que continham: (1) o menor número de AAE com níveis abaixo dos valores recomendados na literatura; (2) os níveis de metionina entre 1,70 e 1,75% da proteína bruta (PB); (3) os níveis de lisina acima de 6,0% de PB, e; (4) metionina + cistina acima de 2,68% de PB (Lemos e Nunes, 2007).

Tabela 4. Desempenho do camarão L. vannamei na despesca (média ± desvio padrão) após 91 dias de cultivo em águas claras com diferentes rações comerciais. Valores na mesma coluna com letras iguais denotam diferença estatística não significativa (P < 0.05). Fonte: Lemos e Nunes (2007).

Ração

Sobrevivência (%)

Produtividade (kg/m2)

FCA1

R_01

92,7 ± 1,94a

0,50 ± 0,12a

2,75 ± 0,63

R_02

91,5 ± 5,10a

0,44 ± 0,09a

2,80 ± 0,41

R_03

81,9 ± 9,26a

0,61 ± 0,10ab

2,56 ± 0,37

R_04

93,8 ± 2,18a

0,60 ± 0,13ab

2,75 ± 0,49

R_05

91,2 ± 2,31b

0,77 ± 0,11b

2,05 ± 0,27

90,8 ± 3,32a

0,78 ± 0,14b

2,26 ± 0,44

R_06 Fator de conversão alimentar

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Na busca por um máximo crescimento e eficiência em rações para o Cultivo do camarão Litopenaeus Vannamei

Quando o nível de inclusão de farinha de peixe é desafiada na ração ou substituída por um ingrediente de origem vegetal ou subproduto do abate de animais terrestres, o AAE mais impactado é a metionina (Tabela 5). A metionina é um aminoácido sulfurado (possui na sua estrutura química o enxofre) e tem um papel crítico na síntese de proteína muscular (crescimento). Mesmo em fontes protéicas consideradas mais nobres, tais como o concentrado protéico de soja, os níveis de metionina podem chegar a metade dos valores apresentados

Artigo

pela farinha de peixe ou por outras fontes marinhas como a farinha de krill. Na prática, para evitar a deficiência de metionina em rações com pouca farinha de peixe o formulador faz a suplementação deste aminoácido na ração com formas sintéticas, como a DL-metionina. Em rações de camarões com 35% de proteína bruta deve-se buscar níveis mínimos de 8,4 g/kg de metionina na ração ou 2,4% da proteína dietética (Millamena et al., 1996) vindo de proteínas intactas ou de fontes sintéticas.Por outro lado, já foi comprovado que a farinha de peixe pode

Tabela 5. Teor protéico e composição de aminoácidos essenciais (AAE, % na matéria natural) de ingredientes protéicos de origem marinha, terrestre animal e terrestre vegetal utilizados em rações para aqüicultura. Valores segundo NRC (1993), exceto quando indicado por * (analisado em laboratório).

Tabela 5. Teor protéico e composição de aminoácidos essenciais (AAE, % na matéria natural) de ingredientes protéicos de origem marinha, terrestre animal e terrestre vegetal utilizados em rações para aqüicultura. Valores segundo NRC (1993), exceto quando indicado por * (analisado em laboratório).

ser completamente substituída, por outras fontes protéicas marinhas, como a farinha de krill, sem que haja suplementação com aminoácidos sintéticos. Resultados alcançados em condição controlada de cultivo demonstraram que a farinha de krill pode promover redução no custo da fórmula da ração em até 17% sem comprometer o ganho em peso e o crescimento do L. vannamei (Fig. 4; Nunes et al., no prelo) Entretanto, quando se busca utilizar fontes vegetais, mesmo aqueles de alta qualidade, tais como o concentrado protéico de soja, há a necessidade de suplementar a dieta com metionina sintética e de se balancear os níveis de ácidos graxos da

série n-3 (HUFAs). Os HUFAs são encontrados em ingredientes marinhos e também sofrem redução quando a inclusão de farinha de peixe na ração é diminuída.A busca por dietas 100% vegetais para uso na aqüicultura tem sido um dos desafios atuais para os pesquisadores envolvidos com a nutrição de salmão e camarão. Seguindo-se as previsões de Tacon e Metian (2008) quanto ao uso de farinha e óleo de peixe em rações para camarões para os próximos 10 anos é possível prever que no ano de 2025 as rações para camarão deverão estar isentas de farinha de peixe. Estudo recente realizado no LABOMAR observou o desempenho do L. vannamei Revista da ABCC | 29

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quando submetido a diferentes combinações de farinha e óleo de peixe, empregando-se as baixas inclusões dos mesmos previstos por Tacon e Metian (2008). O concentrado protéico de soja (CPS) e o óleo de soja foram eleitos como os ingredientes capazes de substituir a farinha de peixe e fornecer a energia digestível e necessária para o crescimento do L. vannamei quando da diminuição do nível de inclusão do óleo de peixe na dieta (Tabela 6).Os

resultados indicaram que não houve diferença no peso corporal do L. vannamei quando se comparou, nas dietas com o mesmo nível de substituição de farinha de peixe pelo CPS, o uso do óleo de peixe nas inclusões de 1 ou 2% (Fig. 5). Da mesma forma, não houve diferença significativa no peso corporal da espécie quando a farinha de peixe foi diminuída de 12 para 8,5%, independentemente do nível de inclusão do óleo de peixe na dieta. Contudo, a previ-

Tabela 6. Composição básica de duas dietas experimentais, sendo uma com nível regular de óleo de peixe (2%) e outra com nível reduzido (1%), avaliadas seguindo-se as linhas gerais das previsões estabelecidas por Tacon e Metian (2008) quanto ao uso de farinha e óleo de peixe em dietas para camarões

*Previsão aleatória segundo os autores **Concentrado protéico de soja

Figura 4. Peso corporal do camarão L. vannamei e crescimento semanal (g, no topo das colunas) em sistemas experimentais com águas claras (tanques de 500 L) e com águas verdes (tanques de 1.000 L) durante cultivo de 10 semanas. As dietas referem-se às seguintes inclusões de farinha de peixe (FP) e farinha de Krill (Krill): N1, 0% FP e 11% Krill; N2, 6,25% FP e 5,00% Krill; N3, 12,50% FP e 11% Krill; N4, 18,75% FP e 0% Krill. Fonte: Nunes et al. (no prelo).As diferenças observadas entre as médias em cada sistema experimental não são significativas estatisticamente (P >0,05). Revista da ABCC | 30

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 Figura 5. Peso corporal final do camarão L. vannamei criado em sistema experimental com águas claras (tanques de 500 L) durante 10 semanas. Os camarões foram alimentados com dietas isoprotéicas e isoenergéticas contendo reduções progressivas nas inclusões de farinha e substituição por concentrado protéico de soja, em dois níves de inclusão deóleo de peixe: 2% (regular) e 1% (baixo). Letras minúsculas (2% de óleo de peixe) e maiúsculas (1% de óleo de peixe) iguais indicam diferenças não significativas ao nível de 5% pelo teste de Tukey HSD.

Conclusões são de Tacon e Metian (2008) para o uso de apenas 5% de farinha de peixe em 2020 somente se mostrou viável quando se manteve a inclusão de 2% de óleo de peixe. Da mesma forma, o atual estágio do conhecimento ainda não permite a substituição completa da farinha de peixe por fontes vegetais, visto que os resultados experimentais que simularam as previsões para 2025 foram negativos. Houve perda significativa no peso corporal do L. vannamei quando se retirou por completo a farinha de peixe da dieta, independentemente do nível de inclusão de óleo de peixe testado.

No momento em que se fomenta o crescimento de novos segmentos aquícolas no país, como a piscicultura marinha, pouca importância se da a estudos técnicos e econômicos sobre a viabilidade de prover estes novos segmentos e os já consolidados no país, como a carcinicultura marinha, com ingredientes renováveis, locais, que não sejam os de origem marinha, fi nitos e com uma tendência crescente nos preços. Há de se antecipar as restrições no uso da farinha e do óleo de peixe nas rações para organismos aquáticos cultivados comercialmente, buscando-se novas alternativas e inovações locais que permitam melhorar a competitividade do Brasil frente a outros países. Bibliografia disponível na ABCC

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Produção

Carcinicultura brasileira

1 - Após a tempestade, veio a bonança Um ano após serem prejudicados pelas cheias do rio Jaguaribe, carcinicultores cearenses comemoram retomada do crescimento da produção graças às vendas para o mercado interno Por Everton Dantas – Especial para a revista ABCC

O

s carcinicultores inseridos no polo produtor de camarão do Baixo Jaguaribe, no Ceará, estão entendendo bem este ano o significado do ditado que diz “depois da tempestade vem a bonança”. E que bonança. Há cerca de um ano, a situação não estava nada boa. Para a maior parte dos produtores, o cultivo de camarão estava inviabilizado por que o rio Jaguaribe havia transbordado e inundado os viveiros. Na região, mais especificamente no município de Aracati, que fica a 149 quilômetros de Fortaleza, um caso em especial destacava-se como exemplo maior do drama vivido pelo setor na região. Tratava-se da Compescal. A fazenda pertencente ao empresário Expedito Ferreira da Costa — que já foi considerada uma das maiores produtoras de camarão do Brasil — não havia sido inundada, mas o nível da água nas gamboas (pequenos braços de rio que entrecortam a área) havia subido de tal forma que a despesca dos viveiros não podia ser feita. Na época, a solução

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1 | Após a tempestade, veio a bonança

encontrada foi retirar o camarão usando tarrafas, o que tornava a operação um trabalho ainda mais penoso e demorado. Além disso, como as cheias do Jaguaribe inundaram os viveiros dos outros produtores da região, a Compescal não tinha para quem vender as pós-larvas oriundas de seu laboratório. Este ano as chuvas que assombraram a região 2008 e 2009 não vieram. E além de ter ‘céu de brigadeiro’ para produzir, os produtores do Baixo Jaguaribe estão contando com a retomada do crescimento do setor, graças às boas vendas direcionadas ao mercado brasileiro. Quem atesta a situação favorável é o gerente de produção da Compescal, Alysson Alencar da Silva. Ano passado, com todas as dificuldades, após as águas baixarem, a empresa ainda conseguiu fechar o ano com uma produção de 2,5 mil toneladas. Este ano, a expectativa é que a produção seja fechada em 3,5 mil toneladas. “O aumento se deve principalmente ao mercado que a gente encontrou: o mercado interno. Hoje processamos camarão na nossa própria indústria, inclusive o camarão de 7 gramas, que está tendo muita saída”, diz. Esse nicho, segundo ele foi descoberto em dezembro de 2009. E esse novo foco redirecionou a produção. Antes, a exemplo de todas as outras empresas, a produção era 90% exportada. Agora, essa porcentagem é destinada ao mercado nacional. Alysson da Silva, que é Engenheiro de Pesca, explica que esse mercado sempre existiu, mas devido aos preços oferecidos antes pelo mercado

externo, as empresas sempre deram maior atenção á exportação. De alguns anos para agora, com a desvalorização do dólar, associado à queda do preço do camarão no mercado internacional além de outras dificuldades que o setor enfrentou, a solução foi apostar no consumo interno. A estratégia da Compescal foi apostar num cultivo de camarão menor, com densidades mais altas, em torno de 40 camarões por metro quadrado nos viveiros. “Antes era 30 ou 35 no máximo. Pode ser que até o fi nal do ano a Empresa passe a adotar 50 ou 60 camarões por metro”, informa. Além disso, outro fator favorável ao crescimento da produção é o aumento do controle sobre as doenças que atingem a criação. “Por si só a doença deu uma diminuída e estamos trabalhando com o probiótico para fazer com que o meio se estabilize, o que evitará o estresse do camarão”, explica. Antes, a média de sobrevivência do camarão na Compescal variava entre 30 e 40%. Agora, esse indicador está com média estabilizada entre 60 a 70%. “Acredito que a produção deste ano vai superar muito a do ano passado”, afi rma. A Compescal cultiva camarão numa área de 620 hectares, sendo que parte dessa total (258 hectares) é uma área mais nova, onde há menos matéria orgânica; e que por isso está habilitada a receber mais camarões por metro. Graças à melhora na produção, a empresa já está hoje com 180 funcionários, 30 a mais que no ano passado. “E para 2011 as perspectivas são ainda melhores”, afi rma o gerente de produção.

Produção

Recuperação A Compescal entrou em operação em 1997, inicialmente com o cultivo de 80 hectares. Em 2000, a empresa ingressou com as vendas para o mercado externo. Naquela época o cultivo abrangia 620 hectares; gerava uma produção de 300 toneladas por mês; e a empresa contava com 630 funcionários. Em 2004, os problemas vieram: primeiro, a doença (antes chamada de NIM, Síndrome da Necrose Idiopática Muscular; hoje INMV, Vírus da Mionecrose Infecciosa); depois, a queda do dólar; e em seguida a queda dos preços do camarão no mercado externo. No fi nal de 2006 as dificuldades chegaram ao ponto de forçar a Compescal a demitir em massa; o que gerou um acordo trabalhista calculado em R$ 6 milhões. Houve ainda os problemas das dívidas com os fornecedores. Este ano, graças às boas vendas que o mercado interno está propiciando, a Compescal deve encerrar a maior dívida com fornecedores que havia (relativa à ração); e também se prepara para saldar o que falta com relação às dívidas trabalhistas. “Depois da crise, a gente está numa crescente agora”, assegura.

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Produção

2 - A tendência é favorável à expansão das áreas de cultivo A boa resposta do mercado interno tem dado segurança aos produtores de camarão para investirem na ampliação de suas áreas de cultivo e consequentemente em seus volumes de produção. Licenciamento ambiental ainda é a maior barreira enfrentada pelos produtores de camarão do Ceará.

N

o pólo do Baixo Jaguaribe não é apenas a Compescal que está colhendo bons dividendos com a resposta que o mercado interno está oferecendo. Todos os produtores da região — sejam eles grandes, pequenos ou médios — estão empolgados com o novo cenário no qual o cultivo de camarão está inserido. E só pensam na mesma medida: ampliar suas produções. O presidente do Sindicato dos Produtores de Camarão do Ceará (Sindicamarão), Francisco Hélio de Castro Holanda, que cultiva 150 hectares na região do polo do Baixo Jaguaribe, é um dos que aposta no crescimento do setor graças a esse bom desempenho do mercado interno. Ele relata que em 2009 foi atingido pelas cheias.

“Tive problema sanitário. O volume de água que descia era muito grande. O rio mandava no mar e deixava tudo doce”, explica. Segundo Hélio de Castro, se as cheias não tivessem ocorrido, ao invés de fechar a produção anual em 450 toneladas ele poderia ter alcançado as 600 toneladas. “Para este ano a expectativa é produzir 800 toneladas”, afi rma. A ideia de expansão não está só na questão da produção. Dos 150 hectares que cultiva, 80 são próprios. Em curto prazo, ele explica que pretende expandir a área para 180 hectares; e que tem potencial para cultivar 200 hectares próprios. “Em longo prazo podemos chegar a 300”, garante. A certeza do crescimento do setor, segundo o presidente do Sindicamarão, se baseia num fato

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Produção

2 | A tendência é favorável à expansão das áreas de cultivo

simples: o mercado brasileiro comporta muito bem do que a atual produção. De acordo com dados da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), a produção nacional fechou 2009 em 65 mil toneladas. E expectativa para 2010 é de 75 mil toneladas de camarão. “O mercado interno é muito bom. Ele é fantástico. A produção nacional está aquém do que podemos chegar. É a ponta de um iceberg porque a capacidade de consumo que temos no Brasil é enorme”, argumenta. E acrescenta, reforçando não ter dúvidas quanto ao crescimento do setor: “A gente percebe que existem determinadas regiões do Brasil que não estão sendo nem visitadas pelos vendedores do setor. E são regiões ricas. Posso citar a região Centro-Oeste, que está só começando. A região Norte não tem produto que chegue àquela região”. O presidente do Sindicamarão aproveita ainda para destacar dois fatos que considera importantes. O primeiro é que a boa reposta do mercado interno se deve em parte pela melhoria na qualidade do produto que está sendo oferecido. Antes, os melhores produtos eram exportados. Hoje, não há diferença entre o que é exportado e o que chega á mesa dos brasileiros. O outro fato refere-se à exportação: Hélio de Castro chama a atenção para a necessidade dos produtores não esquecerem o mercado externo. “Não podemos esquecer a exportação. Precisamos baixar nossos custos para poder competir”, afi rma. EXEMPLOS Outros produtores da região

do polo Baixo Jaguaribe também estão sentindo a tendência de crescimento do setor e querem expandir seus negócios. Um deles é o engenheiro de pesca Ronaldo dos Santos Amaral, da Amaral & Amaral Carcinicultura, que cultiva camarão na água doce em parceria com o sócio, Aristeu Bezerra do Amaral. Na opinião dos dois, este ano está melhor que 2009 porque as enchentes não afetaram a área onde trabalham e por conta da resposta que o mercado interno está dando quanto à absorção da produção. Ronaldo Amaral cita ainda um benefício obtido pela Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC) que contribuiu para o bom momento. “Está valendo a pena investir em camarão por alguns avanços que ocorreram. Por exemplo: conseguimos por meio da ABCC entrar no plano de horário irrigante, que já existia para agricultura. Estamos pagando hoje 15% menos energia do que pagávamos antes desse plano”, explica. A Amaral & Amaral produz 10 toneladas por hectare/ano; e cultiva uma área de 29 hectares. Segundo Ronaldo Amaral, que tem

28 anos de experiência na área (já tendo trabalhado em diversas grandes fazendas) uma das vantagens de cultivar na água doce é “que o camarão cresce um pouco mais rápido e temos água 24 horas”. O cultivo do crustáceo na área, inclusive, foi iniciado por Amaral, há cerca de 10 anos. Seu sócio, Aristeu Amaral, era produtor de melão e melancia. Largou o cultivo das frutas para investir em camarão de água doce depois que testemunhou o resultado (preços e produtividade) de uma criação na área de um conhecido. Hoje a perspectiva dos dois é ampliar cada vez mais a sociedade. Outro carcinicultor que acredita na expansão da atividade é João Ricardo Alves Tavares. Ele atua numa área de 80 hectares e tem a perspectiva de ampliar isso para 160 hectares. Ano passado, a fazenda de João Ricardo foi atingida pela enchente, mas este ano ele já comemora os resultados que deve obter: 400 toneladas. “Está valendo a pena investir porque o mercado interno está absorvendo a produção de camarão das fazendas em produção. E por isso queremos investir para produzir mais”.

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Produção

3 - “Se estivéssemos hoje sem o mercado interno, o setor teria quebrado”

N

o Ceará, o clima de otimismo por conta da melhora no mercado não é exclusividade do pólo Baixo Jaguaribe. No pólo do Baixo Acaraú que abrange a região da Costa Negra, mais especificamente no município de Acaraú (que centraliza a produção de camarão na área e fica a 250 quilômetros de Fortaleza), a expectativa de crescimento da produção também é sentida por todos os produtores. Na Aquacrusta Marinha, que pertence ao empresário Livino José Soares Sales (considerado ‘o criador da Costa Negra’), a produção deve crescer este ano em torno de 20%. Quem atesta é o gerente de produção da fazenda, o engenheiro de

pesca Clélio Fonseca. “Produzimos 680 toneladas em 2009. Este ano a intenção é chegar às 830 toneladas. Já vamos em 350 toneladas”, diz. Ele recorda que ano passado a empresa teve alguns pequenos problemas causados pelas enchentes, mas que agora tudo está bem e as perspectivas é que “a produção retome o crescimento porque os carcinicultores estão vislumbrando resultados concretos com relação à lucratividade, isso graças ao mercado interno”. E acrescenta: “O preço hoje está cobrindo o custo de produção e fazendo com que os produtores retomem o crescimento”, acrescenta. Ele ilustra a boa fase informando que a fazenda onde está sendo concedida a en-

trevista, a Libras, estava parada e este ano está retomando a atividade graças à possibilidade de crescimento que o mercado interno está oferecendo. Clélio Fonseca, que também é conselheiro técnico da Associação dos Criadores de Camarão da Costa negra (ACCN), explica que se por um lado o mercado está respondendo bem, os produtores de camarão também tem condições de suprir a demanda. Ele exemplifica citando as perspectivas da Costa Negra: “Aqui na região teríamos como triplicar, com relação à área – a médio prazo. Hoje produzimos 7 mil toneladas por ano. Poderíamos chegar às 21 mil toneladas por ano”. Revista da ABCC | 37

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3 | “Se estivéssemos hoje sem o mercado interno, o setor teria quebrado”

Essa expansão que poderia ser alcançada também refletiria na elevação do número de empregos gerados pela empresa. Hoje a Aquacrusta gera 220 empregos diretos. Se pudesse expandir como tem condições, essa quantidade poderia crescer de 50 a 60%. Segundo o gerente da Aquacrusta, o que falta para que esse crescimento seja iniciado é uma solução mais ágil para a questão dos licenciamentos. No caso específico da Aquacrusta, caso os licenciamentos fossem obtidos com maior rapidez, a produção este ano poderia chegar às 1.200 toneladas. “Esperamos que o Governo do Estado dê agilidade a essa questão”, cobra. Ele também cita, a exemplo dos produtores do pólo Baixo Jaguaribe, que por falta de licenciamento toda a cadeia produtiva fica travada porque não há como conseguir fi nanciamento. Na opinião dele, se houvesse agilidade na questão do licenciamento, o mercado do camarão estaria muito melhor do que atualmente está. “Se tivesse agilidade na questão do licenciamento, no mínimo, a gente já teria dobrado a produção brasileira, que foi em torno de 65 mil toneladas em 2009”, assegura. Além do mercado interno, Clélio Fonseca também cita outro fator como responsável pelo bom momento que a criação de camarão está vivendo na região da Costa Negra. “É preciso destacar que a questão de enfermidades, na região, está controlada. A enfermidade, esse item, aqui na região da costa negra é quase página virada”, informa. E acrescenta: “Hoje nós vivemos com problemas de enfermidade sem causar impacto na produção. Temos índice de sobrevivência entre 70 e 85%”.

MERCADO EXTERNO Apesar de estar com suas atenções voltadas ao mercado interno, a Aquacrusta não descuida do mercado externo. E está preparando para retomar as exportações. O segredo para isso, Clélio Fonseca não revela. Informa apenas que à aposta da empre-

sa são os mercados específicos e produtos de valor agregado. “Estamos conseguindo isso por meio da agregação de valor e pela busca de novos mercados, saindo do eixo França-Espanha”. Além disso, a empresa tem outras apostas, sempre visando seu crescimento e, consequentemente, o da região da Costa Negra como um todo. Ano passado, a Aquacrusta criou seu próprio festival gastronômico, o ‘Grand Shrimp Festival’, que trouxe ao município de Acaraú diversos representantes da cadeia produtiva e resultou em novas oportunidades de negócios. Também de 2009 para 2010, a empresa obteve os selos de qualidade “Naturland” e “Biosuisse”. E ainda está trabalhando para obter este ano a Indicação Geográfica para o camarão produzido na Costa Negra. Isso significa que a partir da obtenção deste ‘certificado de qualidade’, todo o camarão produzido na região terá um diferencial único. “Até o festival de 2010, em novembro, já esperamos estar com o selo de denominação de origem. Esse selo de qualidade representará um mercado bastante competitivo com relação a preço”, observa Clélio Fonseca. E argumenta: “Hoje a gente já tem na Europa o conceito de que o nosso camarão é o mais caro do mundo porque é um produto melhor. É um produto todo rastreado onde são disponibilizadas todas informações sobre os procedimentos de cultivo”. Quem confirma a valorização do produto é outro gerente de produção que trabalha na Costa Negra, Estênio Saraiva Gomes, da fazenda North East. Segundo ele, hoje o camarão da região do Acaraú é oferecido por um preço maior e mesmo assim, sem dificuldade, encontra compradores. “O nosso camarão aqui da região da Costa Negra é mais valorizado que o das outras regiões. Isso se deve, eu acredito, ao trabalho da Associação (ACCN), e do Empresário Livino Sales que tem valorizado muito o produto da região”, testemunha. Segundo ele, graças a esse diferencial, a região toda tem trabalhado com reservas.

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4 - Boa fase do mercado não está restrita ao Ceará

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boa fase do mercado de camarão não está restrita aos produtores de camarão e nem tão pouco ao Ceará. O empresário Maurício Dorigatti é produtor de bombas de água (possivelmente o que mais vende para a região Nordeste) e carcinicultor. A primeira atividade faz com que ele viaje toda a região para negociar as bombas da Acquasystem. E é dessas viagens recentes que ele traz o testemunho de que o bom momento do mercado de camarão está sendo vivido por todo o Nordeste. “Eu ando em todas as fazendas, em todas as regiões. E o que eu vejo é que em todas as regiões está bom. Em Pernambuco está aquecido. No Rio Grande do Norte o pessoal está querendo investir. Muita gente procurando terra para arrendar. A gente não acha mais fazenda parada, nem as pequenas”, conta.

Ele informa que ano passado conseguiu negociar a venda de 24 bombas, cujo custo unitário é de aproximadamente R$ 50 mil. Este ano, devido ao aquecimento do mercado, a perspectiva é vender “pelo menos 40”. “Já vendemos neste primeiro trimestre metade do que vendemos no ano passado todo”, comenta. Como carcinicultor, Maurício Dorigatti também está animado com a atual condição do mercado. E ainda não ampliou a sua produção pelo mesmo problema que tem afetado todos os outros carcinicultores do Ceará: a falta de licenciamento. Atualmente o empresário cultiva 11 hectares. Se conseguisse o licenciamento, a intenção dele era ampliar para 40 hectares, o que lhe tornaria um produtor de médio porte. A comunidade também seria beneficiada porque ao invés de gerar 8 empregos diretos ele teria condições de gerar 30.

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PSF / CAMARÃO - PROGRAMA DE SAÚDE NAS FAZENDAS DE CAMARÃO. Pedro Carlos Cunha Martins*1; Marcelo Lima Santos*2 *1 Centro de Saúde de Animais Aquáticos, Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte/Brasil. *2 Pesquisados colaborador - Bolsista DTI do CNPq.

A

indústria da criação de camarão no Estado do Rio Grande do Norte está constituída por 551 empreendimentos distribuídos em aproximadamente 6.281 hectares de área produtiva. Segundo censo realizado entre os anos de 2004 a 2009 pela ABCC, IDEMA, Cluster do camarão e ABDA, dentre o total de empreendimentos consultados, 237 entrevistados são microprodutores, 138 são pequenos produtores, 132 são médios produtores e 23 são grandes produtores (Tabela 1). O parque camaroneiro está distribuído em aproximadamente 410 km da extensão de toda a região litorânea do Estado do Rio Grande do Norte, o qual se divide em dois ambientes bastante distintos: o Litoral Norte, também chamado de Setentrional; e o Litoral Leste, também conhecido como Oriental. Nestes dois ambientes geográficos estão localizados os sete principais Sistemas Flúvio-Estuarinos do Estado. A maioria dos produtores da indústria de cultivo de camarão potiguar encontra-se distribuídos nestas mencionadas bacias hidrográficas e em mais de 40 municípios distribuídos por toda a extensão do litoral (ABDA – 2009).

Apesar da importância da atividade, a história da carcinicultura no Estado do Rio Grande do Norte, bem como no Brasil, é marcada por momentos de franco crescimento intercalado por lapsos de profunda estagnação em decorrência do surgimento de desastres ambientais e/ou de surtos de enfermidades. Interessante observar é que o intervalo entre os referidos lapsos é verificado a “cada 10 anos”. No primeiro período, compreendido entre os anos de 1984 e 1987, as fortes chuvas que desabaram no estado inviabilizaram o cultivo do camarão Marsupenaeus japonicus obrigando o setor a abandonar esta espécie substituindo-a pelo cultivo de camarões nativos, dentre eles o camarão branco do atlântico, o Litopenaeus schmitti e o camarão rosa Feneropenaeus subtilis. Em pesquisas posteriores a esta etapa a espécie exótica Litopenaeus vannamei (camarão branco do pacífico) foi defi nitivamente adotada pelo nosso sistema operacional em face de seu desempenho zootécnico e rusticidade dentro dos viveiros de cultivo. Transcorridos “dez anos” após 1984, no espaço compreendido entre os anos de 1994 e 1997, ocor-

Tabela 1 – Distribuição Espacial e de Porte da Indústria do Cultivo do Camarão Marinho no Estado do Rio Grande do Norte.

Distribuição por Porte das Fazendas de Camarão

Sistemas Flúvio-Estuarinos. Total

Micro

Pequeno

Médio

Grande

Não Identificado *

Apodi/ Mossoró

47

4

18

17

3

5

Piranhas/Açu

71

8

6

40

10

7

Guamaré/Galinhos

36

10

9

12

5

0

Ceará - Mirim

30

9

11

10

0

0

Potengi

61

27

18

12

0

4

Nisia Floresta/Papeba/ Guaraíras

250

164

56

26

1

3

Curimataú

56

15

20

15

4

2

TOTAL

551

237

138

132

23

21

Fonte: IDEMA (2004); Cluster do Camarão (2005); ABDA (2009). * - Produtores não localizados durante a visita. Revista da ABCC | 40

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reu o surgimento da virose conhecida como TSV (Síndrome de Taura) e da bacteriose NHP (Hepatopancreatite Necrosante) que causaram pânico nas fazendas de cultivo do Litopenaeus vannamei, onde os prejuízos acumulados naquele período foram bastante significativos. Após a superação daquele momento difícil, a indústria do camarão cultivado do Brasil experimentou seu melhor desempenho econômico de todos os tempos com a adoção do pacote tecnológico desenvolvido para o cultivo do Litopenaeus vannamei, fato vivenciado até o ano de 2003. No período compreendido entre os anos de 2004 a 2007, e exatamente “dez anos” após os problemas com a TSV e NHP, novos problemas acometeram a indústria do camarão. Desta vez com o surgimento do IMNV (Mionecrose Infecciosa Viral) no nordeste brasileiro e do WSSV (Síndrome da Mancha Branca) no Estado de Santa Catarina. Aliado a essas enfermidades, os problemas de mercado fora da porteira das fazendas (ação antidumping e a queda do dólar) levaram a indústria do camarão a enfrentar o mais grave problema de todos os tempos. Quando esta nova crise teve início o setor havia atingido seu melhor desempenho histórico com a produção anual superando 90.000 toneladas métricas de camarão no ano de 2003, cuja safra foi colhida em uma área estimada em 16.200 hectares. Interessante observar é que depois de todas as passagens acima discorrida, onde os prejuízos acumulados são inestimáveis, a indústria do camarão do Estado Rio Grande do Norte continua ca-

recendo de informações básicas sobre as questões epidemiológicas relacionadas à ocorrência das enfermidades supracitadas, seus surtos e prejuízos acumulados. Inclusive, em algumas ocasiões, a falta dessas informações vem alimentando controvérsias geradas pelo sistema de mídia e nos órgãos ambientais. Faltam argumentos embasados em bancos de dados informativos para a defesa do setor contra as referidas controvérsias. O PSF / CAMARÃO surge em um momento oportuno para fechar esta lacuna da história do setor aqui no Estado do Rio Grande do Norte. Além do processo inicial de monitoramento das enfermidades, onde poderão ser utilizadas todas as ferramentas de diagnóstico disponíveis, o trabalho focado nas bacias hidrográficas com seus respectivos grupos de produtores servirá para a construção de um processo administrativo direcionado que tem como base as Boas Práticas de Manejo e os Protocolos

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de Biosseguridade desenvolvidos com base nas necessidades regionais. Esses procedimentos poderão minimizar o impacto das enfermidades dentro da porteira das fazendas e subsidiar futuros estudos direcionados em razão das particularidades comuns a cada região pesquisada. Com a implantação dessa primeira etapa pretende-se aperfeiçoar o Processo de Gerenciamento da Saúde do Camarão Marinho nas fazendas da indústria local. Para cumprir com o objetivo proposto inicialmente por este projeto, foi necessária a execução de uma etapa de reestruturação do Centro de Saúde de Animais Aquáticos (CSAq). Esta estrutura foi montada nas dependências do Departamento de Oceanografia e Limnologia (DOL) da Universidade Federal do Estado do Rio Grande do Norte (UFRN), localizada na Via Costeira da cidade de Natal/RN. Além dos investimentos realizados no Laboratório de Histologia, apresentadas nas fotos 02

Foto 01: Equipe técnica CSAq. Revista da ABCC | 41

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e 03, o CSAq está recebendo investimentos paralelos na construção de estrutura para a realização de bioensaios na área de patologia do camarão, os quais serão desenvolvidos de acordo com os primeiros resultados obtidos nas unidades produtivas da fase anterior. As fotos 4, 5 e 6, mostram a estrutura local destinada a este trabalho. O passo seguinte aos investimentos supracitados foi a seleção dos Sistemas Flúvio-Estuarinos para iniciar o trabalho proposto, quais sejam: Assú, Ceará Mirim e Potengi. Em um segundo momento planeja-se atingir as demais bacias hidrográficas no Estado, a saber: Apodi/Mossoró, Guamaré/Galinhos, Nísia Floresta/Papeba/Guaraíras e o Curimataú. Após o primeiro momento da escolha das bacias hidrográficas, foram visitadas as fazendas previamente selecionadas em cada sistema hidrográfico. Nas ocasiões das visitas foram realizadas as coletas

Foto 02: Micrótomo para cortes histológicos.

de informações sobre a estrutura física e o processo tecnológico de produção, a fim de compreender o estado geral da saúde do camarão nas unidades produtivas cadastradas inicialmente pelo projeto. Aliado a esta fase foi dado início às realizações das Clínicas Tecnológicas em cada sistema FlúvioEstuarinos. Essas clínicas estão sendo realizadas mensalmente e consistem basicamente da coleta de material para análise, discussão dos resultados apresentados pelo animal coletado na clínica anterior, e construção do processo de gerenciamento da saúde com a participação de todos os elos da cadeia produtiva, ou seja: produtores, fornecedores de insumos e equipamentos, órgãos públicos e pesquisadores. Complementando as análises em campo das condições de saúde do camarão, se deu início a ampliação o Sistema de Bioensaios que permitirá o estudo mais detalhado das patologias nas condições controladas de laboratório.

Com a divisão do parque aquícola da indústria do camarão cultivado por Sistemas FlúvioEstuarinos do Estado, foi possível a formação de grupos locais de produtores de acordo com as respectivas características regionais. Essa divisão está permitindo uma melhor compreensão do estado de saúde dos camarões e possibilitando ao projeto, em sintonia com os produtores locais, a capacidade de buscar soluções em conjunto para minimizar e/ ou controlar as enfermidades de acordo com as características peculiares de cada região. Outro fato importante é a possibilidade de identificar, monitorar e construir um Banco de Dados Epidemiológico das principais enfermidades presentes na cadeia produtiva do Estado do Rio Grande do Norte, levando-se em consideração as peculariedades de cada bacia hidrográfica em particular. A ferramenta principal utilizada no projeto é as análises

Foto 03: Parte do Laboratório de Histologia.

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histológicas. É com essa ferramenta que está sendo possível obter uma avaliação completa do estado de saúde dos camarões, uma vez que todos os sistemas vitais do animal são analisados na busca de alterações teciduais de natureza infecciosa ou não infecciosa. Vale salientar que somente dez camarões fazem parte de cada amostra. Esse número não fornece informações completas sobre a prevalência de cada patologia nas populações de cada viveiro estudado. Todavia, o processo de amostragem é direcionado para coleta dos indivíduos que apresente sinais ou sintomas de enfermidades. Com essa metodologia é possível gerenciar melhor a população, uma vez que existem informações mais detalhadas de uma amostra da população que teoricamente se encontra nas piores condições de saúde. Outras ferramentas de diagnóstico serão utilizadas quando se fizer necessário. A etapa das análises histopatológicas teve inicio em dezembro de 2009, onde até o momento foram coletados trinta lotes de amostras. Os primeiros resultados sugerem uma maior ocorrência, em todas as bacias, da presença de necrose do músculo do

camarão e lesões, provavelmente associadas a esse quadro, observadas principalmente no tecido conjuntivo. Todavia, é importante salientar que sob a ótica das análises microscópicas realizadas em tecidos corados com hematoxilina e eosina (Método H&E), estas lesões tem se apresentado como sendo de natureza leve. Esta talvez seja a principal explicação do baixo impacto provocado pela referida enfermidade no tempo presente. A bacteriose é a patologia que se apresenta em segundo lugar no grau de ocorrência. Entretanto, como no caso da necrose muscular, o nível de lesão no animal é considerado leve e parece estar sendo possível sua administração. Além das patologias acima citadas, outras pequenas alterações sugerem a presença de IHHNV (Infecção Hipodermal e Necrose Hematopoiética) e NHP (Hepatopancreatite Necrosante), ambas também consideradas leves sob a ótica das análises histopatológicas. Apesar de poucas informações sobre o histórico de enfermidades nos camarões criados no Estado do Rio Grande do Norte é possível adiantar que no momento os produtores, das regiões analisadas, estão conseguindo manter o estado de saúde de

Foto 4, 5 e 6: Estrutura p/ realização de biosaios.

continua na pág. 44 Revista da ABCC | 43

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Foto 07: Coleta de informações nas fazendas. BACIA DO ASSÚ.

Foto 08: Clínica tecnológica com produtores locais. BACIA DO POENGÍ.

Foto 09: Reunião temática com produtores locais. BACIA DO POTENGÍ.

seus camarões com a utilização de manejos embasados nas Boas Práticas de Cultivo. O próximo passo do PSF será o treinamento para a padronização da metodologia de diagnósticos presuntivos sobre o estado de saúde dos camarões pelos produtores locais. Essa padronização será executada principalmente na avaliação dos sinais clínicos macroscópicos, durante as biometrias, e nas análises microscópicas “a fresco” em tecidos de animais coletados de forma dirigida, cujas avaliações serão realizadas em pequenos laboratórios instalados nas fazendas. A finalidade da padronização é a uniformidade dos diagnósticos realizados em todas as bacias hidrográficas com os resultados obtidos obedecendo a uma mesma linha de raciocínio tecnológico. Com os procedimentos de padronização dos diagnósticos em todas as fazendas locais, e a transferência de informações das condições de saúde dos animais analisados, a incorporação das informações dos procedimentos de produção em cada grupo permitirá desenvolver sugestões de Boas Práticas de Manejo baseado em um sistema de tomada de decisões. Em algu-

mas situações serão necessárias a convocação dos grupos locais para estudar e desenvolver soluções para cada caso específico de incidência de enfermidades. Espera-se com isso minimizar os impactos negativos com a melhora do desempenho zootécnico do camarão cultivado e o aumento da rentabilidade do setor. O avanço do Programa de Saúde nas Fazendas de Camarão (PSF/CAMARÃO) poderá embasar a criação de um Comitê de Sanidade Aquícola no Estado do Rio Grande do Norte, entidade importantíssima para o setor, a exemplo do que acontece na indústria de cultivo de camarão do México. É de fundamental importância que o setor produtivo tenha participação na criação dos regulamentos de um comitê para viabilizar suas atividades dentro de um padrão de entendimento democrático. Esperamos que esse modelo seja copiado, não somente para a indústria do camarão, mais também para o suporte das principais cadeias produtivas da aqüicultura brasileira. Os autores agradecem o SEBRAE e a FINEP pelo apoio a este projeto.

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Foto 10 e 11: Fixação de amostras para análises de histologia. BACIA DO CEARÁ-MIRIM

Foto 12 e 13: Realização de análises a fresco para monitoramento de enfermidade

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PROMOÇÃO

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ORGANIZAÇÃO

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Entrevista

ENTREVISTA REVISTA ABCC FENACAM 2010 1.Revista ABCC | Como a ADECE avalia a carcinicultura no Ceará? ZUZA. A carcinicultura no Estado do Ceará, devido ao seu histórico de conquistas e sucessos, se mostra como uma dos setores do agronegócio mais fortes de nosso estado. As novas técnicas de produção que priorizam cada vez mais a sustentabilidade dos cultivos e do ambiente de entorno das fazendas de produção e a organização de toda a cadeia produtiva demonstram que em médio prazo a produção de nosso estado poderá crescer em torno de 20%/ano até 2012. 2.R. ABCC | Quais os principais entraves que a atividade encontra? ZUZA. Um dos principais entraves diz respeito ao licenciamento ambiental. No entanto houve uma vitória sem precedentes para esse segmento que foi o retorno da competência para a concessão de licenciamentos por parte da Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará – SEMACE. Esse novo cenário abrirá cada vez mais as portas dos principais mercados consumidores, haja vista muitos países priorizam produtos gerados por empresas com responsabilidade e comprometimento ambiental. Outro ponto importante e que é considerado um entrave é a falta de produtos com valor agregado de alta qualidade. O camarão cearense ainda é vendido na condição de commodities, fato esse que impede uma maior competitividade de nossos produtos nos mais exigentes mercados mundiais. 3. R. ABCC | O que a ADECE vem fazendo para fomentar a carcinicultura do Ceará? ZUZA. A ADECE procura apoiar todas as demandas do setor que possibilite o desenvolvimento e fortalecimento de toda a cadeia produtiva. Podemos citar o apoio na formação da Câmara Setorial

perguntas para Francisco Zuza, Presidente da ADECE – Agência de Desenvolvimento do Ceará

do Camarão, que é um fórum de discussões e ações muito importante e que é formada pelos representantes dos diversos elos da cadeia produtiva, além de instituições estaduais e federais de pesquisa e fomento, que de alguma forma participam de forma direta dentro do setor da carcinicultura. Outra forma de participação é no apoio e fomento a projetos diversos, gerados pela necessidade dos produtores cuja representação está ligada diretamente a entidades de classe como a Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), Associação Cearense dos Criadores de Camarão (ACCC) e Associação dos Carcinicultores da Costa Negra (ACCN). 4. R. ABCC | Como será a participação da ADECE na FENACAM 2010? ZUZA. Esse ano planejamos ocupar uma área de 260 m@ em estandes onde todos os Pólos de Produção de Camarão do Estado do Ceará serão representados. Esse estande será denominado “CAMARÕES DO CEARÁ”. Esse espaço será palco de reuniões, mesas redondas e rodadas de negócios, onde os produtores de nosso estado terão a oportunidade de repassar suas experiências e fi rmar parcerias de negócios com outros estados e países. Para isso teremos em nossa estrutura um mini auditório que servirá como palco para essas discussões. 5. R. ABCC | Quais as perspectivas que o senhor vislumbra para esse setor? ZUZA. Temos a certeza que o setor da carcinicultura do Estado do Ceará terá em médio prazo um produto de qualidade reconhecido internacionalmente por ser produzido de forma economicamente eficiente, ambientalmente sustentável e socialmente justo.

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Aquicultura no Estado de Santa Catarina: situação atual e perspectivas Sérgio Winckler da Costa - Oceanógrafo, M.Sc. Aqüicultura

Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina - Epagri

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aqüicultura no Estado de Santa Catarina representa uma atividade socioeconômica relevante para vários municípios catarinenses. Essa situação projeta o Estado como um dos principais produtores de pescado cultivado do país, com uma produção de cerca de 39,5 mil toneladas de peixes, moluscos e camarões no ano de 2008, beneficiando diretamente mais de 26 mil famílias de agricultores e pescadores, gerando uma receita para os produtores na ordem de R$ 110 milhões. Algumas características do Estado favorecem a obtenção destes resultados, como a estrutura fundiária predominante de pequenas propriedades rurais, um litoral formado por inúmeras baías, estuários e enseadas e a alta produtividade natural do mar. Outro aspecto relevante para os avanços obtidos nos últimos anos é a forte parceria institucional entre Epagri e Ufsc e o apoio financeiro recebido do Ministério da Pesca e Aquicultura, Finep, Fapesc, Sebrae, entre outros.

Piscicultura de água doce: Em Santa Catarina, a piscicultura é praticada em pequenas propriedades de âmbito familiar e exercida como fonte complementar de renda pela maioria delas. Pode-se diferenciar dois tipos de produtores: 20.585 são produtores da chamada “piscicultura colonial” (sem regularidade de produção) e 2.345 são produtores da “piscicultura profissional ou comercial”, totalizando 22.930 produtores. Estes produziram 26.018 toneladas de peixes em 2008. As principais espécies produzidas são a tilápia, as carpas (quatro espécies) e o catfish, considerados “peixes de águas mornas” e a truta produzida nas chamadas “águas frias”.

Principais ações em andamento • Desenvolvimento de tecnologias para o cultivo de espécies nativas como jundiás, curimatãs, dourados, piracanjubas e bocudos. Execução: UFSC;EPAGRI; UNIARP. Recursos: Sec. Ag. Des. Rural; Fapesc. • Utilização da tilápia GIFT (Genetic Improvement of Farmed Tilápia) para melhoria da produtividade e redução de custos da piscicultura. Execução: EPAGRI; UEM. Recursos: MPA.

Cultivo de moluscos: Mexilhões, Ostras e Vieiras Em 2008, a produção total de moluscos comercializados em Santa Catarina foi de 13.107,92 toneladas, com 10.891 toneladas de mexilhões, 2.213 toneladas de ostras e 3,12 toneladas de vieiras. Atuam diretamente na produção um contingente de 643 maricultores, distribuídos em 12 municípios, gerando cerca de 5.000 empregos diretos e 10.000 indiretos.

Figura 1 – Produtos da maricultura Catarinense.

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Aquicultura no Estado de Santa Catarina: situação atual e perspectivas

Principais ações em andamento • Regularização e ampliação das áreas de maricultura através dos Planos Locais de Desenvolvimento da Maricultura PLDM. Execução: MPA; Epagri; • Indicação Geográfica da ostra cultivada em Florianópolis. Execução: EPAGRI; SEBRAE SC. Recursos: SEBRAE.; • Controle Higiênico-sanitário de Moluscos Bivalves no Litoral de Santa Catarina. Execução: EPAGRI; UFSC; UNIVALI. Recursos: Sec. Ag. Des. Rural; MPA; • Avaliação da viabilidade do cultivo da macroalga Kappaphycus alvarezii em diferentes municípios. Execução: EPAGRI/UFSC. Recursos: Fapesc. • Desenvolvimento de tecnologias para o cultivo de outras espécies de moluscos, como polvo, berbigão e ostra plana. Execução: UFSC; • Desenvolvimento de tecnologias para o cultivo do robalo em tanques redes no mar. Execução EPAGRI; UFSC; UNIVALI; Pref. Mun. Penha; Nicoluzzi Rações Ltda. Recursos: Fapesc.

produção inferior a 5% no ano de 2009 (Fig. 2). As tentativas frustradas de produção provocaram o fechamento de várias fazendas e a inviabilidade econômica dos produtores. Principais ações em andamento: • Desenvolvimento de tecnologias para produção de camarões em sistema heterotrófico. Execução: UFSC. Apoio: Guabi; Aquate;. • Desenvolvimento de probióticos para carcinicultura. Execução: UFSC. Recursos: MPA; Finep; • Adaptação das fazendas para utilização de tecnologias biosseguras de produção com uso de pós-larvas SPF. Execução: EPAGRI/UFSC. Em fase de projeto; • Desenvolvimento de tecnologias para o cultivo de peixes marinhos em viveiros de camarões. Execução: EPAGRI; UFSC; UFPR, UNIVALI, UNI-

SUL, Instituto de Pesca de São Paulo, Danúbio Aquacultura Ltda. e ACCC. Recursos: CNPq; • Monitoramento do Estado Sanitário dos Camarões de Cultivo do Estado de Santa Catarina. Execução: Epagri;Ufsc. Recursos: Fapesc.

Comentários finais A consolidação e ampliação da Aqüicultura em Santa Catarina dependem da continuidade das ações governamentais na busca da regulamentação e organização do setor, além do investimento em desenvolvimento tecnológico. A recuperação da carcinicultura necessitará de um aporte fi nanceiro aos produtores para readequação do sistema de produção. Fonte de dados: http://cedap.epagri.sc.gov.br/

Cultivo de camarões marinhos O cultivo de camarões em Santa Catarina experimentou um acelerado crescimento a partir do ano de 2001 atingindo a produção de 4.189 toneladas em 106 fazendas e 1.563 hectares de viveiros no ano de 2004. A partir deste ano, com o surgimento da enfermidade da mancha branca, ocorreu uma acentuada queda nestes valores, chegando a uma

Figura 2. Produção de camarões em SC - 2001/2009

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Desafios impostos pelas enfermidades aceleram a modernização de uma carcinicultura globalmente mais sustentável e madura Dr. Thales Passos de Andrade Engenheiro de Pesca - CREA 0608153729 M.Sc. e Ph.D. em Biopatologia Pós-doutorando - PNPD (CAPES/FINEP) Centro de Diagnostico de Enfermidades de Organismos Aquaticos - CEDECAM Instituto de Ciencias do Mar - Labomar Universidade Federal do Ceara – UFC Av. da Abolição, 3207-Fortaleza – CE, Brazil CEP: 60165 -081 TEL: 55 85 3366-7009 thalespda@hotmail.com http://lattes.cnpq.br/1633519567603245

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expansão e a sustentabilidade da carcinicultura marinha estão diretamente dependentes do constante movimento de pós-larvas e reprodutores para as unidades de cultivo. É fato que, como em qualquer agronegócio, essa constante movimentação cria novas oportunidades para a rápida transferência de agentes etiológicos, exposição à etiologias emergentes ou à variações de outras já estabelecidas, antes que sejam viabilizadas técnicas de diagnóstico para detecção desses agentes, e assim resultar no aumento de perdas sócio-econômicas adversas em uma indústria que é responsável por uma movimentação multibilionária de oportunidades de negócios. O objetivo aqui é sumarizar as principais mudanças e tendências nas áreas que, gerenciadas em conjunto, formam a mais importante transformação de uma indústria que amadure-

ceu e se tornou mais eficiente e sustentável nos últimos 30 anos. É bem verdade que as enfermidades infecciosas, principalmente as viroses, de camarões, devem sempre ser encaradas com muita seriedade e prioridade, sendo que, como as mesmas não afetam a saúde dos consumidores e sim, o bolso dos produtores, é possível, com a adoção de uma variedade de melhoramentos na biossegurança, nas boas práticas de manejo, na sanitização/desinfecção para o controle de patógenos, na correta aplicação das técnicas de diagnóstico, exclusão e monitoramento epidemiológico e certificação, se conviver e produzir com a incidência das mesmas. O maior refi namento das estratégias adotadas, visando a prevenção da ocorrência de doenças economicamente importantes pelos países transformadores da carcinicultura estão para: a) o uso combinado de técni-

cas de detecção, mais sensitivas e acuradas, para os patógenos específicos; b) no estabelecimento de laboratórios de referências e colaboradores para o diagnóstico de doenças; c) no estabelecimento de auditorias periódicas para revisão de certificação dos laboratórios de diagnósticos com intercalibração de laboratórios de diagnóstico; d) o uso da espécie L. vannamei como espécie principal e certificadamente livre de patógenos específicos; e) a adequada infraestrutura para formação/manutenção de estoques domesticados livres de patógenos específicos (SPF) e de linhagens geneticamente melhoradas (Ex: maior tolerância a doenças, maior taxa de crescimento, melhor eficiência na conversão alimentar, maior tolerância à alta ou baixa temperatura e salinidade);

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f) aquisição de estoques com um histórico consistente e bem documentado que certifique que o estoque/linhagem em particular está livre de patógenos específicos notificáveis a OIE, por um período mínimo de 2 anos; g) o monitoramento e planos de contingência apropriados; h) a redução da oportunidade da introdução de patógenos por meio do reduzido descarte dos efluentes; i) uma maior infraestrutura para educação e treinamento; j) a utilização de ração/alimento altamente balanceado (curioso é notar que a formulação artificial completa para P. Monodom continua sendo utilizada mesmo nos cultivos de L.vannamei, o que deve colaborar ainda mais com o sucesso do cultivo, etc.); k) uma governância mais presente e efetiva durante negociações bilaterais com os países importadores e no gerenciamento sustentável dos recursos naturais e dos laboratórios de diagnostico envolvidos na supervisão; l) a fortificação de parcerias entre as cooperativas e o governo federal visando garantir melhores incentivos para o retorno ou aumento da produção e assim para sustentabilidade do setor como um todo. Se aceitarmos que não existem vacinas convencionais para crustáceos e sim componentes com propriedades estimuladoras do sistema imunológico, e que os inibidores virais baseados na interferência do dsRNA ainda não estão estabelecidos industrialmente, restará para a indústria uma única opção: a estratégia de desenvolver/selecionar linha-

gens de camarões SPF e mais Tolerantes ao Patógeno Especifico – SPT exclusivamente por meio da exclusão e destruição de famílias infectadas e/ou de menor sobrevivência/desempenho. E o que é que possibilita uma eficiência e segurança durante os programas de seleção? A resposta está para a obtenção de um resultado consistente da aplicação de pelo menos duas ferramentas de diagnósticos de referência para o patógeno específico em complementação às informações do histórico do cultivo e a simatologia dos camarões (se a doença estiver expressa), juntamente com a decisão de inclusão ou exclusão da família no sistema de cultivo. Dessa maneira, é possível agora entender que o emprego das técnicas de diagnóstico não só é a ferramenta patobiotecnológica de linha de frente, mas também a de maior importância para exclusão de patógenos e viabilização de camarões domesticados SPF melhorados e assim promover uma oportunidade real para reverter a situação de uma região afetada para uma região mais produtiva e moderna [1]. Foi com essa visão que o United States Marine Shrimp farming Program (USMSFP) [Programa dos Estados Unidos da América para o cultivo de camarão marinho] resolveu apostar no estabelecimento, calibração e validação de laboratórios de diagnóstico e no desenvolvimento de novas plataformas para a detecção de enfermidades que poderiam ameaçar a produção da indústria americana ou que poderiam viabilizar o aumento das exportações de linhagens domesticadas SPF para as zonas afetadas. Hoje os ame-

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ricanos dominam a tecnologia e o mercado internacional de SPF/ SPT e é o maior fornecedor de reprodutores SPF para o Sudeste e Leste Asiático. Vale lembrar que 80% da produção mundial do camarão marinho cultivado vem dos produtores asiáticos. A eficiência da tecnologia desenvolvida pelo USMSFP foi e continua sendo comprovada não só pela superação dos produtores asiáticos frente às dificuldades e ao alto custo em se tentar domesticar linhagens selvagens de Penaeus monodom livres de patógenos específicos, aliada a alta incidência da síndrome do crescimento retardado no monodon (MSGS) e a alta consangüinidade observada nas populações, mas também na superação dos cultivos mexicanos e equatorianos frente a emergência do TSV e WSSV e na própria superação dos impactos causados pela emergência do IHHNV, NHP, TSV e WSSV nas fazendas americanas. É interessante observar que mesmo existindo pouquíssimos empreendimentos que são eficientemente especializados na comercialização de SPF melhorados, certificados e que estão internacionalmente em operação, os benefícios do uso de linhagens SPF domesticadas pelos estabelecimentos em operação existentes em diferentes países e/ou regiões (Ex: SE e L Asiático) tem viabilizado a diminuição na incidência das enfermidades e no aumento da sobrevivência em todas as zonas que estiveram previamente dominadas pelo cultivo de espécies selvagens estocadas e/ou sem melhoramento. Diversos outros esforços vem sendo observados no Brasil, meRevista da ABCC | 53

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recendo destaque a atuação da Associação Brasileira de Criadores de Camarões – ABCC [2] e uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT e da Empresa Financiadora de Estudos e Projetos – Finep que possibilitaram a criação da Rede de Carcinicultura do Nordeste – Recarcine. Em 2010, a MCT/Finep resolveu incluir dois outros Estados Santa Catarina e Rio Grande do Sul e assim criar a Rede Nacional de Carcinicultura – RECARCINA. A exemplo do consórcio americano, é notado que no Brasil existe a necessidade de uma melhor concentração de esforços prioritários e aplicados a indústria. Por exemplo, é necessário focar principalmente na área da genética e biopatologia. É certo que a genética dita e governa tolerância de organismos frente à enfermidades/adversidades no cultivo. Por outro lado, para que o geneticista possa notar diferenças no melhoramento das linhagens estudadas frente as atuais viroses e bacterioses, é necessário uma estreita relação com as ações desenvolvidas pelos profissionais altamente qualificados da biopatologia (isolamento, purificação e preparação de inóculos de desafios, diagnóstico, desenvolvimento de novas técnicas de diagnósticos convencionais (histopatologia, bacteriologia, micologia) e moleculares de doenças e/ou marcadores de resistência, assim como da perfeita padronização de desafios específicos a enfermidade etc). É fato considerar que a cada ano de uma a três enfermidades emergem na indústria mundial. É importante aceitar que o risco para o aparecimento de novas ou

emergentes enfermidades sempre estará presente, porém, a dimensão do seu impacto dependerá da capacidade da indústria em controlar a saúde dos camarões estocados. Por outro lado, se fizermos uma análise em retrospectiva aos últimos 20 anos, será admirável notar que a maioria dessas estratégias patobiotecnológicas não haviam ainda sido criadas ou adotadas no momento em que um agente etiológico emergiu (Ex: Baculoviridae penaei – BP, NHP, MBV, HPV). Dessa maneira é fácil notar que os desafios impostos pelas enfermidades aceleraram a modernização da carcinicultura (Foto 1). Por outro lado, é incerto prever quais serão as tecnologias necessárias para diagnosticar e excluir as novas patologias que naturalmente irão emergir no futuro. Sabemos que existem doenças mais recentes na indústria e que podem ou não potencialmente causar maiores perdas no cultivo. Por exemplo, a doença granulomatosa hialina Idiopática - IHFG (Madagascar, Tailândia e Índia), infecção sistêmica por micrococus/streptoccocus, Doença da hemolinfa leitosa em lagosta espinhosa, caranguejos e P. monodon – MHSL (Vietnã, SE da Ásia, Madagascar, Europa), Vírus do Laem-Singh – LSNV (Tailândia), Vírus da glândula tegumental - TMGV. É certo sim, que existe uma inclinação global de que novos avanços irão continuar a acontecer. Esses avanços estarão focados: 1. no aumento do número de núcleos de formação de linhagens SPF/SPT que estarão acreditados internacionalmente; 2. no estabelecimento de laboratórios de referências e cola-

boradores para o diagnóstico de doenças; 3. no estabelecimento de um censo baseado em sistema de gerenciamento de informação virtual a nível regional e nacional; 4. no estabelecimento de auditorias periódicas para revisão de certificação dos laboratórios de diagnósticos; 5. na restrição à importação e no requerimento de certificados dos produtos importados (Ex: certificado de sanidade do estoque); 6. no desenvolvimento de plataformas de diagnósticos com aplicação mono ou multi detecção de patógeno, rápida, acurada, pronta-para-uso e de fácil manuseio; 7. no número de métodos de diagnósticos avaliados e validados por programas de credenciamento a nível internacional, nacional ou de associações profissionais; 8. na identificação de marcadores altamente correlacionados com traços de resistência a doenças e baixo custo de produção; 9. no número de profissionais com reconhecida habilidade no manuseio de métodos de diagnósticos tradicionais e emergentes; assim como validada experiência no reconhecimento dos sinais de doenças correntemente listadas e de outras que podem emergir e significantemente causar perdas na indústria. 10. E no aumento de infraestrutura educacional e de treinamento a nível de produtor.

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1. Em 2009 seis enfermidades que podem potencialmente causar perdas na carcinicultura marinha devem ser reportadas a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). É significativamente importante entender as vantagens e desvantagens dos principais métodos de diagnósticos, qual o tipo de teste é o mais apropriado para uma determinada enfermidade e que tipo de conclusões podem ser aceitas nos resultados obtidos. Quem estiver interessado poderá conhecer esses protocolos de diagnóstico no seguinte endereço eletrônico: http://www.oie.int/eng/ normes/en_amanual.htm. No Manual of Diagnostic Tests for Aquatic Animals [Manual dos Testes de Diagnósticos para Animais Aquáticos] é possível verificar que a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) se tornou importante como um método tradicional de diagnóstico e que é a técnica mais comumente empregada para se confi rmar os resultados observados no histórico do caso, sinais clínicos da doença e histopatologia. Todas essas aplicações possuem potencial para significativamente melhorarem a sanidade dos camarões estocados nos empreendimentos de cultivo e podem também ser comercializados a curto e médio prazo, porém e relevante notar que até o momento somente um kit do método semi-nested para WSSV foi recentemente avaliado pela OIE objetivando uso na aquicultura. Assim, é recomendável que esses métodos de diagnósticos sejam certificados por programas de Foto 1: Fluxograma de quarentena e diagnóstico visando o desenvolvimento de linhagens de camarões SPF domesticadas e geneticamente melhoradas. Adaptado de Andrade T.P.D. 2005; Andrade et al 2006.

credenciamento governamentais ou profissionais para verificar se o método ou kit é adequado ao diagnóstico da doença. Referências Bibliográficas disponíveis na ABCC

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Variações hidrobiológicas em cultivos de camarão Litopenaeus vannamei, sob uso de probiótico. Glauber Carvalho1*; Silvio J. Macedo; Sônia V. Pereira; Emiko S. Mendes. 1* : Instituto de Tecnologia de Pernambuco; glauber@itep.br

Introdução O desenvolvimento da carcinicultura marinha estará sempre dependente da aplicação de um rígido programa de gerenciamento da qualidade da água utilizada para o cultivo, tendo presente que as áreas estuarinas há décadas vêm sofrendo intensa ação antrópica, o que exige a adoção de práticas eficazes de manejo e controle adequado dos parâmetros de qualidade de água e do sedimento. Estas ações tornam-se essenciais para a manutenção das condições favoráveis do ambiente de cultivo, uma vez que as variações podem desencadear efeitos negativos a saúde dos camarões, refletindo em prejuízos ao produtor. Dentre os efeitos negativos ao camarão cultivado, destacamse as vibrioses ocasionadas por bactérias Gram negativas predominantes em ambiente marinho e freqüentemente reportadas como causadoras de mortes de animais cultivados, ocasionadas principalmente pelas espécies Vibrio harveyi, V. vulnificus, V. parahaemolyticus e V. alginolyticus. A biotecnologia tem sido uma ferramenta de importância crescente na aquicultura, em especial o uso de microrganismos vivos selecionados (Probióticos) com vistas à sustentabilidade do meio, a redução da utilização de produtos químicos e a sanidade dos animais cultivados. Os microrganismos benéficos comumente utilizados em aqüicultura são bactérias Gram-positivas (Bacillus spp., Lactobacillus spp.), Gram-negativas (Vìbrio alginolyticus, V. fluvialis), fungos, microalgas, dentre outros (IRIANTO; AUSTIN, 2002; SAHU et al., 2007). No entanto, há limitações para o entendimento do real mecanismo e ação desses microorganismos, demandando ampliação de estudos mais aprofundados sobre o tema. Objetivou-se neste trabalho avaliar as condições hidrobiológicas nos ecossistemas de cultivo sob

influência de composto comercial probiótico, através de análises físicas, químicas e biológicas, bem como da sanidade dos animais cultivados.

Material e método A área estudada está localizada no litoral sul de Pernambuco (08º 39’ 26” S e 35º07’02” W), em uma fazenda com área de 16,04 ha destinados à produção de camarão L. vannamei. Três viveiros de engorda (VE) foram avaliados, denominados originalmente de (VE2), (VE3) e (VE4) com tamanhos de aproximadamente 2,0 ha e históricos de 20 cultivos realizados, utilizando-se densidade de 30 camarões/m2 povoados com PL 20. Composto comercial probiótico a base de bactérias e fungos foi inserido diariamente na água (PA) em uma proporção de 10 L/ha durante todo o ciclo no VE3 e VE4, em concentração aproximada a 107 Unidades Formadoras de Colônia (UFC)/mL. O viveiro VE2 foi determinado como controle e não recebeu probiótico (SP). Coletas semanais (93) foram realizadas durante um ciclo de produção, totalizando 18 amostragens no VE3 (out/07 a jan/08), 20 no VE4 (out/07 a março/08), 20 no VE2-SP (jan a maio/08) e 35 no canal de abastecimento (out/07 a maio/08). As amostragens foram efetuadas às 8:00 h da manhã através de uma garrafa oceanográfica de Nansen, no canal de abastecimento e em três pontos distintos do viveiro (comporta de abastecimento, meio e comporta de drenagem), cujas análises físicas, químicas e biológicas foram realizadas no Laboratório de Tecnologia Ambiental do Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP) e de Sanidade de Organismos Aquáticos da UFRPE. Os seguintes parâmetros foram avaliados: salinidade (método de Mohr-Knudsen, descrito por Strickland e Parsons (1972)); oxigênio dissolvido

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(método de Winckler, modificado por Strickland e Parsons (1972)); demanda bioquímica de oxigênio DBO (APHA, 2005); clorofi la a (Parsons e Strickland, (1963) e UNESCO (1966)). In situ foram efetuadas medições de pH e temperatura com o auxílio de um potenciômetro da marca WTW e a transparência (m) com o auxílio de um disco de Secchi. Para análise de Vibrio, as amostras de água foram diluídas (10-1 a 10-7) e alíquotas de 0,1 mL semeadas em placas de Petri contendo o meio Ágar Tiossulfato Citrato Sais de Bile (TCBS). Após o isolamento de colônias características, foi realizado o estudo do perfil bioquímico, seguido a orientação de Holt et al. (1994) e do FDA (1998). Visando a identificação de diferenças significativas entre os diferentes tratamentos foi realizado o Teste Tukey no programa STATISTICA versão 6.0.

Resultados Resultados de Qualidade da água Os resultados das análises de qualidade de água para produção de camarão L. vannamei, bem como do canal de abastecimento estão descritos na Tabela 1. Procurou-se evidenciar diferenças significativas (p<0,05) entre os ambientes de cultivos sem aplicação de probiótico (VE2 SP) e sob uso de probiótico na água (VE3 e VE4), com a água do estuário (canal de abastecimento). Não foram registradas diferenças significativas entre os pontos de amostragens internos no viveiro, para os três ambientes estudados. Os resultados médios para transparência da água do canal estiveram dentro das condições ide-

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ais para cultivos de camarão (>0,60m), conforme reportado por Barbieri Jr. e Ostrensky Neto (2002). Nos viveiros não foi observado diferenças (P>0,05) nas leituras do disco de Secchi, apresentando médias próximas ao nível ideal para viveiros (entre 0,3 e 0,5 m) segundo Boyd (2002) e Kubitza (2003). Os valores de pH mantiveram-se alcalinos e dentro da escala satisfatória (entre 6 a 9) ao crescimento dos camarões (BOYD, 2002) com média mais elevada para o viveiro controle. Não foram registradas diferenças significativas para a temperatura da água, havendo tendência de conservação dos gradientes térmicos e valores em conformidade ao crescimento da espécie (26 a 33ºC), preconizado por Nunes (2002). A salinidade no canal apresentou média de 28.6, representando em parte os valores do estuário durante o período estudado, uma vez que a captação da água ocorreu diariamente nas preamares. Nos viveiros, o teores médio variaram de 26 para o VE2(SP) a 32 para o VE4(PA), considerado abaixo do grau de risco (50) segundo Marques et al. (1999) e acima dos níveis ideais para a espécie entre 15 e 25 (KUBITZA, 2003). Os níveis médios de oxigênio dissolvido estiveram dentro do indicado para o desenvolvimento da espécie (>4 mL.L-1), observando-se nos viveiros sob uso do probiótico menores oscilações ao longo do ciclo (Figuras 1 e 2). A saturação de OD apresentou médias mais elevadas nos viveiros, com níveis acima do indicado a melhores sobrevivências e menor fator de conversão alimentar (>40%), de acordo com MacGraw et al. (2001). A DBO em ambientes de cultivo indica a intensi-

Tabela 1. Valores médios e desvio padrão das variáveis físicas, químicas e biológicas. MÉDIAS VARIÁVEIS

Canal de abastecimento

VE2 SP

VE3 PA

VE4 PA

Transparência (m)

1,19b ± 0,62

0,59a ± 0,04

0,58a ± 0,02

0,52a ± 0,02

pH

7,74c ± 0,17

8,4a ± 0,08

8,1b ± 0,06

8,1b ± 0,04

Temperatura º C

28,5a ± 2,00

30,6a ± 0,31

29,2a ± 0,25

29,7a ± 0,23

Salinidade (‰)

28,6b ± 5,19

26b ± 6,38

31a ± 1,79

32a ± 0,88

O D mL.L-1

4,12 a*± 1,23

4,59a ± 1,07

4,17a ± 0,81

4,59a ± 1,25

Saturação (%)

88,7b ± 26,94

102a ± 23,08

92,6ab ± 18,0

102,9a ± 27,0

DBO mg.L-1

4,67c ± 1,69

14,82a ± 2,82

6,0c ± 2,45

9,5b ± 1,96

Clorofila (mg.m3)

14,2d ± 8,94

81a ± 9,48

46c ± 5,94

64b ± 7,57

*Letras distintas na mesma linha indicam diferença ao nível de probabilidade (p<0,05). Revista da ABCC | 57

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dade do processo de mineralização e metabolismo das comunidades vivas, principalmente a biomassa fitoplanctônica, maior produtora de matéria orgânica nos viveiros. Diferenças significativas foram registradas entre ambientes de cultivo, com média mais elevada para o viveiro controle (14,23 mg.L1). Yusoff et al. (2003) em cultivos de Penaeus monodom com probiótico, registraram médias mais elevadas para os viveiros controles (22,3 mg.L-1), porém não verificaram diferença significativa. Os resultados de clorofi la a no canal de abastecimento revelaram condição eutrófica e de alta produção fitoplanctônica no estuário, dentro da classificação de Passavante (2003). Nos viveiros foram registradas diferenças significativas e média mais elevada para o ambiente sem uso de probiótico (81 mg.m-3).

Resultado das análises bacteriológicas As bactérias heterotróficas desempenham papel importante nos viveiros, pois decompõem a matéria orgânica existente e ainda podem ser manipuladas como fonte potencial de alimento para os detritívoros, devido ao seu rápido crescimento e valor nutricional (MacGRAW, 2002). As concentrações médias de bactérias heterotróficas foram mais elevadas na água do estuário, registrando-se nos ambientes de cultivo médias mais elevadas no viveiro sem probiótico VE2-SP (3,3 x 107), seguidos do VE4-PA (4,5 x 106) e VE3-PA (3,3 x 106). Sugere-se, pelos resultados obtidos, que a adição diária do composto probiótico nos viveiros favoreceu a manutenção das cargas microbianas, apesar de uma possível competição entre a microbiota do meio e as inseridas através do produto.

Figura 1. Variação do oxigênio dissolvido nos tratamentos VE2-SP, VE3-PA e VE4-PA.

As contagens de Vibrio spp. variaram de 3,0 x 102 a 7,3 x 106 UFC/mL, tendo sido identificadas 12 espécies, prevalecendo o Vibrio alginolyticus, V. harveyi e V. fischeri. Na água de captação, o Vibrio harveyi foi a espécie dominante, aparecendo em 28% das amostras, enquanto no VE4(PA), o Vibrio alginolyticus predominou entre as demais espécies. No VE2(SP) e VE3(PA) as espécies identificadas se encontravam no mesmo percentual, representando cada uma 25% do total das espécies presentes nas amostras analisadas (Tabela 2). v Dentre as espécies identificadas nos viveiros, o Vibrio alginolyticus, V. harveyi, V. cholerae e V. vulnificus, são considerados patogênicos para camarões marinhos. Tais espécies foram reportadas por Mendes et al. (2005) como potenciais causadoras de infecções

entéricas, sistêmicas ou externas nos camarões cultivados. Em relação às espécies associadas à doenças em humanos, a exemplo da gastrenterite e septicemia, foram identificados o Vibrio cholerae e V. vulnificus, ambos considerados por Gopal et al. (2005) como os mais importantes, dentre os quais, o V. vulnificus prevaleceu em 50% das amostras do viveiro controle. Apesar dos viveiros sob tratamento com probiótico apresentarem médias mais elevadas para as contagens de Vibrio spp., não foi demonstrada diferença significativa entre os mesmos (p>0,05), o que também não ocorreu entre estes e o canal de abastecimento, o que vem comprovar que estas bactérias são autóctones de ambiente marinho e por isso se encontravam em números semelhantes nos dois ambientes. A redução da salinidade a partir da me-

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Variações hidrobiológicas em cultivos de camarão litopenaeus vannamei, sob uso de probiótico.

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Tabela 2. Contagens e identificação de espécies de Vibrio spp. na água.

* Letras distintas indicam diferenças significativas entre os tratamentos (p<0,05).

tade do ciclo no VE2 e VE4 pode estar diretamente associada à inibição dos víbrios no fi nal do cultivo para estes ambientes, uma vez que apenas no VE3 onde a salinidade variou pouco, foi registrada a presença de víbrio nas últimas semanas. Segundo Jiang e Fu (2001), a salinidade é um parâmetro que influencia nas populações de víbrios em ambientes costeiros. Em relação à diversidade de espécies, maior abundância foi registrada nos viveiros tratados com probiótico, indicando que a adição constante no viveiro de microbiota selecionada pode acarretar processos ecológicos que venham a favorecer algumas espécies. Avaliação do estado de saúde dos camarões Os resultados das avaliações presuntivas através de exame a fresco indicaram um menor índice de lesões nas estruturas dos camarões amostrados nos viveiros sob uso de probiótico, enquanto para o viveiro controle foi detectada elevada presença de necrose e/ou sujeira nas brânquias, protozoários no epipodíto, gametócitos e gregarinas no ceco e/ou intestino, estrangulamento dos túbulos do hepatopâncreas e ausência de lipídios (Figura 2). Os resultados das análises presuntivas indicaram efeito benéfico da microbiota adicionada nestes ambientes, não somente pela melhoria nas con-

dições ambientais, como também, numa possível competição com os microrganismos patogênicos, refletindo positivamente na saúde dos animais cultivados, conforme reportou Balcazar (2006) em estudos com probiótico.

Conclusão As análises dos resultados obtidos permitiram as seguintes conclusões: (i) o uso de composto microbiano nos viveiros proporcionou uma maior estabilidade nos níveis de Oxigênio Dissolvido (OD) e influenciou na Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), demonstrando ação biorreguladora do composto; (ii) a variável salinidade influenciou na redução das cargas de víbrios nos períodos de menor salinidade; (iii) o probiótico demonstrou efeito positivo como reparador ambiental, atuando principalmente na manutenção dos parâmetros de qualidade de água e indiretamente no estado de sanidade dos animais, que apresentou um menor número de lesões nos ambientes testes.

Agradecimentos O apoio fi nanceiro da FINEP no âmbito da Rede de Carcinicultura do Nordeste (RECARCINE). Referências Bibliográficas disponíveis na ABCC

Figura 2 - Alterações observadas nos camarões: presença de gametócitos no ceco pilórico (a), gregarinas no intestino (b), deformidade e ausência de lipídeos nos túbulos do hepatopâncreas (c) e estrangulamento dos túbulos do hepatopâncreas (d). Revista da ABCC | 59

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A SPEED LINE SPF da AQUATEC: Construindo o futuro para a carcinicultura brasileira. João Luís Rocha, Ana Carolina Guerrelhas, Ana Karina Teixeira, Flávio Augusto Farias, Ana Paula Teixeira, e Ana Cristina Pinheiro | Programa de Melhoramento Genético | Genearch Aquacultura e Aquatec | Praia de Pititinga e Barra do Cunhaú,Rio Grande do Norte johnrocha@genearch.com.br e aquatec@aquatec.com.br

C

omo documentado em anteriores publicações (Guerrelhas et al., 2007; Rocha et al., 2007; 2008a; 2008b; 2008c; 2009; 2010), em 2006 se inaugurou uma nova era na carcinicultura Brasileira: a era SPF. SPF, o acrônimo para Specific Pathogen Free, ou camarões Livres de Patógenos Específicos, isto é, livres das mais graves doenças que mais prejuízos causam à carcinicultura. Em Dezembro de 2006, a Genearch Aquacultura, empresa então recém-constituída e associada à Aquatec, importou dos Estados Unidos seis linhagens de camarões SPF e iniciou em 2007 um Programa Genético SPF para o melhoramento e adaptação local dessas populações às condições comerciais Brasileiras. Essa resposta encontrada pelas empresas Aquatec e Genearch para contribuir para a problemática da doença na carcinicultura Brasileira, problemática acentuada pela emergência da NIM em 2003, fator que contribuiu de forma significativa para a crise grave que se instalou no setor entre 2004 e 2008. Era a primeira vez que camarões com status

sanitário SPF e livres das principais doenças, especialmente da NIM, IHHNV, NHP e TSV, se encontravam disponíveis no Brasil; a Speed Line SPF da Aquatec foi lançada como produto comercial entre Junho e Agosto de 2009, e até hoje permanece como o único produto comercial de PLs com status sanitário SPF no país. Outras empresas seguiram fi losofias diferentes, mas a Aquatec e a Genearch seguiram a fi losofia dos princípios de uma carcinicultura sustentável e próspera no longo prazo: oferecer à indústria uma larva asseguradamente livre dos vírus e patógenos mais importantes e danosos para a atividade, produzida sob condições de boas práticas de manejo e rigor nutricional, e acompanhamento dos resultados em campo por pessoal técnico qualificado. Em 2007 o primeiro Batch (grupo contemporâneo de famílias para testes, avaliações e seleções genéticas) SPF iniciou-se com uma taxa de crescimento média de 1,26 g/semana, enquanto hoje, dois anos e meio depois, o último Batch SPF produzido já apresentou uma taxa de crescimento mé-

dia de 1,58 g/semana, dois dos tanques de teste já apresentaram taxas médias próximas de 1,7 g/semana, e as melhores famílias já se aproximam de 1,8 g/semana (Figs. 1-5). Estes números dizem bem do progresso já conseguido. A transferência deste progresso para os viveiros comerciais é porém um processo bem mais lento, por múltiplas razões, algumas completamente fora do nosso controle enquanto empresas produtoras de larvas. Estamos conscientes disso, mas continuamos nosso rumo de forma determinada pois pensamos que este é o caminho do futuro. Com o apoio da FINEP já iniciamos um programa de testes e seleção para resistência genética à NIM, e é nosso plano que dentro de dois anos esta seja mais uma característica favorável agregada à qualidade das larvas Speed Line SPF. Isto permitirá aos produtores que assim o desejarem aumentar suas densidades de cultivo, se outras medidas de manejo forem também adotadas. Para acelerar essa evolução nos sistemas de manejo, e no seguimento de viagem de estudo cuidadosamente plaRevista da ABCC | 61

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nejada e realizada em 2009, estamos conduzindo um Teste Intensivo a altas densidades seguindo os protocolos de cultivo adotados com tanto sucesso nos países Asiáticos, tentando estender o pioneirismo de nossas atitudes agora também ao âmbito do setor produtivo. Desde seu lançamento comercial em 2009, há menos de um ano, e com um volume médio de vendas de cerca de 8 milhões de PLs/mês, a Speed Line SPF já está sendo testada e iniciando seu histórico comercial em todo o Brasil, desde Santa Catarina ao Ceará (Fig. 6), com um percurso ainda lento e difícil, com muito trabalho ainda por fazer. Mudanças estruturais importantes foram implementadas na Maturação Comercial e em muitas das instalações da Aquatec, para melhor se adequarem ao novo status sanitário com que agora trabalhamos com a Speed Line SPF. Desde 2006, com o estabelecimento da nova empresa associada, Genearch Aquacultura, a construção do Centro de Melhoramento Genético SPF em Pititinga, as importações das linhagens SPF, e os vultosos investimentos que todas estas iniciativas representaram, o percurso de já quase quatro anos fica marcado por muitas batalhas difíceis em muitas frentes, um progresso rápido no Núcleo Genético mas um progresso ainda lento nas condições dos viveiros comerciais, um percurso ainda

nas suas etapas iniciais e com muito caminho difícil a percorrer pela frente. Estamos conscientes destas dificuldades, mas seguimos nosso rumo de forma determinada pois estamos convencidos que este é o caminho certo para contribuirmos de forma significativa e duradoura para a carcinicultura Brasileira. Dentro de alguns anos, como já acontece hoje em muitos outros países, pensamos que também no Brasil se atingirá um patamar quando a grande maioria de todos os viveiros povoados o serão apenas com larvas SPF melhoradas geneticamente, pelas múltiplas vantagens que elas conferem. Esse é o futuro para que trabalhamos e para que continuaremos a trabalhar, pois pensamos que é o único futuro que no longo prazo oferecerá garantias de sustentabilidade e prosperidade para a carcinicultura Brasileira.

Justificativa para uma larva SPF As doenças têm causado perdas incalculáveis aos sistemas de produção de camarão em muitos países (Guerrelhas et al., 2007), e o seu controle uma das principais preocupações no caminho de uma carcinicultura sustentável, estável, próspera. Pelas suas características específicas, a dependência de um abastecimento de água proveniente do meio ambiente, estuários com intercomunicação entre diferentes fazendas, presença de vetores

biológicos, e também sistemas de manejo com pouco controle e estandardização de parâmetros ambientais essenciais para a produção aquícola, a carcinicultura é uma atividade altamente exposta a estresses ambientais, à rápida propagação de doenças, e à cíclica emergência de doenças novas. Sem estratégias de biosegurança e manejo que procurem ativamente minimizar estas questões, os sistemas de produção de camarão são ecosistemas sempre muito próximo de desequilíbrios que invariavelmente levarão à eclosão de patologias variadas. Um caminho pode ser a drástica redução das densidades de estocagem no contexto de um sistema de produção extensivo. É questionável que esta estratégia tenha viabilidade econômica no longo prazo, excetuando algumas situações e contextos mais específicos. Mas qualquer intensificação dos sistemas de produção em carcinicultura requer, para ser bem sucedida, uma estratégia agressiva de controle de patógenos e de estandardização de parâmetros ambientais, via biosegurança e manejo. Estas estratégias passam pela identificação de todas as possíveis portas de entrada de um patógeno num viveiro de cultivo, e depois pela implementação de medidas que visam anular ou minimizar todas estas portas de entrada. E entre estas portas de entrada de patógenos, a larva contaminada é uma que não pode ser descuidada. Em outras palavras, para um sistema de produção mais intensivo, começar-se com uma larva SPF, livre das principais e mais graves doenças, é uma condição absolutamente necessária

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para o sucesso da atividade no longo prazo. Não chega, não é uma condição suficiente, é um ponto de partida que necessita ser complementado por esquemas de manejo bem específicos, mas é uma condição absolutamente necessária, um ponto de partida que não pode ser evitado. O sucesso dos sistemas de produção Asiáticos constitui a melhor demonstração desta realidade. Então parece não restar dúvida sobre esta cadeia de conexões: a viabilidade econômica é parte da equação de sustentabilidade – na maior parte dos casos esta viabilidade econômica acaba requerendo uma intensificação dos sistemas de produção – sem larvas SPF não há sistemas intensivos que possam ter uma sustentabilidade biológica no longo prazo. Seja na Ásia ou nas Américas nos parece que a evolução sustentável da carcinicultura percorre um trajeto que mais cedo ou mais tarde acaba exigindo de forma natural uma larva SPF como o único ponto de partida possível e aceitável.

A Speed Line SPF é uma Larva SPF Melhorada Geneticamente

Programa Genético SPF nestes dois anos e meio de atividade. É verdade que estes ganhos genéticos e progressos fenotípicos ilustrados nas Figs. 1-5 são verificados no ambiente de cultivo do nosso Núcleo Genético, e não são ainda realidades de viveiros comerciais. Mas lá chegaremos, para isso estamos trabalhando, a evolução para viveiro comercial, sob condições de cultivo e de manejo sub-ótimas, é mais lenta, e não depende só do potencial genético das larvas, depende também da vontade dos criadores em adotarem sistemas de manejo mais intensivos, mais previsíveis e com maior controle de parâmetros ambientais, com densidades de estocagem mais elevadas.

Agregar ao status sanitário SPF o valor de um programa de melhoramento genético para crescimento, sobrevivência e conseqüentemente baixas taxas de conversão alimentar, é o objetivo das empresas Genearch e Aquatec no contexto de uma estratégia ao serviço da carcinicultura nacional. Em dois anos e meio de melhoramento genético passamos de uma taxa de crescimento média de 1,26 g/semana (a 98 camarões/m2) para uma taxa de 1,58 g/semana (a 131 camarões/m2), e estamos apenas no início de nosso Programa Ge- Incorporando nético, pois dois anos e meio Resistência à NIM são quase nada em tempo genético. As Figuras 1-5 ilustram na Speed Line SPF Uma larva SPF se apresenos progressos genéticos e tendências fenotípicas de nosso ta asseguradamente livre dos principais patógenos e das

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e este critério permitirá avaliar o grau de resistência à NIM de cada uma das famílias. Neste momento estamos realizando experimentos que vão permitir definir qual o protocolo experimental de bioensaio que melhor servirá os nossos interesses e objetivos de seleções genéticas.

Teste de Sistema Intensivo de Produção

mais importantes doenças de camarão, mas isso nada implica sobre se essa larva é mais ou menos resistente ou tolerante a uma particular doença que outra qualquer larva não SPF. No caso da Speed Line SPF é nossa estratégia conferir-lhe um grau de resistência à NIM via seleção genética. Para além de melhorada para rápidas taxas de crescimento e altos índices de sobrevivência, objetivos para os quais já realizamos progressos significativos (Figs. 1-5), e conseqüentemente também para baixas taxas de conversão alimentar, estamos também trabalhando para num período de dois a três anos podermos comercializar um produto que disponha de um elevado grau de resistência á NIM. Para isso iniciamos com o apoio da FINEP um programa que passa pela

realização rotineira de bioensaios que avaliarão o grau de resistência à NIM de todas as nossas famílias do Programa Genético. Esta informação será então utilizada para selecionarmos aquelas famílias que mais favoravelmente combinem todos os atributos de interesse: crescimento rápido, altas sobrevivências, elevado grau de resistência à NIM. Estes bioensaios são desafios de laboratório que replicam a doença sob condições controladas. Eles são realizados fora do Núcleo Genético, num laboratório isolado que previne qualquer tipo de contaminação, e onde amostras de todas as nossas famílias são, num mesmo tanque, sujeitas à evolução da doença por um determinado período de tempo. Diferentes famílias apresentarão diferentes taxas de sobrevivência,

Como foi várias vezes aludido acima, as vantagens conferidas por uma larva SPF, e os progressos genéticos que estamos já obtendo (Figs. 1-5), ganham o seu maior significado e pleno potencial apenas no contexto de um sistema intensivo de produção a altas densidades de estocagem e sob condições específicas de manejo que visam uma maior estandardização e controle dos parâmetros ambientais do cultivo, e também uma estratégia de biosegurança que previne outras fontes de infecção e entrada de patógenos além da larva, nomeadamente o fundo do viveiro e a água de abastecimento. Estendendo nosso pioneirismo também ao âmbito do sistema de produção, numa tentativa de demonstrar de forma bem clara as superiores vantagens de um produto SPF melhorado geneticamente, estamos realizando com a Speed Line SPF um teste de um sistema Revista da ABCC | 65

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intensivo de cultivo a altas densidades de estocagem que tem as seguintes características moldadas nos sistemas de produção Asiáticos: • Consiste de 2 viveiros experimentais de 0,8 ha cada, 100% revestidos com liner, e incluindo um reservatório também revestido que abastece os dois viveiros para a preservação do nível que é mantido acima de 1,5 m durante todo o ciclo; • O manejo baseia-se nas premissas de: • Concentração e remoção dos sedimentos acumulados nos viveiros ao longo do ciclo; • Renovação só se for necessário, e neste caso utilizando apenas água tratada em reservatório; • Alimentação controlada, com rações de alto nível protéico; • Circulação constante da água;

Foram estocados 100 animais/m2 visando um resultado de 80% de sobrevivência para um peso médio final de 16 a 17g, o que deve produzir uma biomassa final de cerca de 10,5 toneladas por viveiro. Os resultados deste teste, ainda em curso, serão oportunamente divulgados.

Adequações Estruturais para a Produção Comercial de uma Larva SPF Em Junho de 2009 a Speed Line SPF iniciou-se como produto comercial alternativo oferecido pela Aquatec aos carcinicultores nacionais. Esta nova realidade, a produção comercial de uma larva com status sanitário SPF, determinou a necessidade de mudanças estruturais e operacionais importantes em nossos sistemas comerciais de

Maturação e Larvicultura. Estas mudanças caracterizaram-se pelos seguintes componentes: •Controle do fluxo de funcionários e visitantes nas instalações, pela construção de muros e portões, e pela imposição de limites de entrada e permanência; •Adoção do uso de caixas de papelão na venda de PLs, sendo proibido o uso de embalagens que venham de fora das instalações; •Adoção de transporte próprio na expedição de PLs, e criação e adoção de regras de biosseguridade escritas nos transportes próprios e também nos dos terceirizados que se dispõem a trabalhar no mesmo esquema; após uma entrega numa fazenda nossos transportes são sempre higienizados, não podendo o novo lote de PLs da entrega seguinte entrar nos transportes prévio a esta higienização; •Criação do “corredor SPF” nas instalações da Aquatec, que se resume no uso de instalações, fluxos, pessoal e sinalizações específicas e exclusivas para a linha de produção SPF, a saber:

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tanques de maturação, tanques de desova e eclosão de náuplios, tanques de larvicultura, área na expedição de PLs; •Os reprodutores SPF são produzidos na empresa Genearch, em instalações biosseguras, e só são transferidos para as instalações da Aquatec quando vão entrar em reprodução e produção de PLs.

Presença da Speed Line SPF no Mercado Desde Julho de 2009 a Speed Line SPF iniciou sua trajetória comercial com uma média de vendas de cerca de 8 milhões de PLs/mês desde então. É um volume de produção comercial e de vendas ainda baixo, mas nosso Programa Genético está ainda numa fase inicial, com uma capacidade limitada de multiplicação que impede que sejamos capazes de atender a toda a demanda já existente para o produto. Essa capacidade de multiplicação aumentará gradualmente e de forma natural com o evoluir do

Programa Genético e com tudo o mais que está em curso. Desde Julho de 2009 a presença no mercado da Speed Line SPF, discriminada por Estado e por número de fazendas servidas, é caracterizada na Figura 6. Como referido na Secção seguinte, os resultados de todos estes cultivos SPF estão sendo monitorados e seguidos atentamente pelos nossos serviços técnicos de acompanhamento pós-vendas, compondo um histórico que complementa as informações de nosso Programa Genético, ajudando a direcioná-lo para melhor servir os interesses de nossos clientes.

Acompanhamento dos Resultados e Assistência Pós-Vendas Complementando a qualidade da larva, o seu status sanitário SPF, e os seus atributos melhorados de crescimento, sobrevivência e taxa de conversão alimentar, conferidos pelo Programa de Melhoramento

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Genético, a Aquatec oferece ainda aos carcinicultores seus clientes um serviço de acompanhamento técnico qualificado no período Pós-Vendas, que acompanha os cultivos e monitora todos os resultados finais obtidos na compilação de um histórico de resultados comerciais em campo que complementa as informações do Programa Genético e contribuindo para direcioná-lo para melhor servir os interesses de nossos clientes. Este acompanhamento pós-vendas caracteriza-se pelos seguintes componentes e serviços prestados aos clientes: • Equipe de vendedores com experiência em engorda de camarão, para auxiliar os produtores a entender a evolução dos cultivos; levam consigo equipamentos como: termômetro, Phâmetro, refratômetro e microscópio; também, levam kits de análise de água para alcalinidade e dureza. Nossa

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preocupação é saber que a PL será estocada da forma correta e nas melhores condições ambientais possíveis, e os cultivos serão acompanhados para se ter credibilidade nos resultados finais; • O esquema adotado permite visitas quinzenais ou mesmo semanais em alguns locais, levantando a situação de cada cultivo, bem como as necessidades e problemas que o produtor enfrenta; • Em muitos povoamentos os vendedores estão presentes participando da recepção das PLs • Mensalmente são feitas reuniões técnicas entre vendedores e técnicos da Aquatec para nivelar as informações sobre processos de produção, novos projetos, principais problemas encontrados no campo, tudo com o intuito de se melhorar cada vez mais a participação de nossos vendedores nas fazendas clientes levando até eles novas informações e soluções para seus problemas;

• As informações coletadas em campo são armazenadas em programas específicos e são depois enviadas para a matriz onde são compiladas, analisadas e depois retornam a todos para nivelamento e chamando a atenção para pontos que devem ser ressaltados nas visitas; as informações de uma fazenda não são divulgadas para outras.

Speed Line SPF: Um Pacote Tecnológico SPF A disponibilidade comercial da Speed Line SPF conforma um pacote tecnológico global que oferece muito mais para além do status sanitário SPF, e que comporta muitos valores agregados: o valor do melhoramento genético para crescimento, sobrevivência e taxa de conversão alimentar; o valor de uma larvicultura de excelência realizada sob condições de boas práticas de manejo e extremo rigor nutricional; o

valor de uma empresa que realizou modificações estruturais e operacionais importantes para se adequar á produção comercial de uma larva com status sanitário SPF, e que busca estender seu pioneirismo ao âmbito dos sistemas de cultivo, com a realização de testes de um sistema intensivo de produção que procura abrir novos caminhos e horizontes para a carcinicultura Brasileira; o valor de um acompanhamento pós-vendas dos resultados em campo por pessoal técnico qualificado. A Aquatec e a Genearch mantêm-se determinadas na convicção de que todos e cada um destes elementos de seu pacote tecnológico SPF acima descritos são ingredientes que a cada dia se tornarão mais impactantes e indispensáveis na construção do futuro que todos queremos para a carcinicultura nacional. Referências Bibliográficas Disponíveis na ABCC

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Rações sob medida para as condições da fazenda:

Foto: Ai Ziarek

Efeitos da temperatura da água, salinidade e tempo de exposição na estabilidade de rações para camarão

Raul Dias Rodrigo Carvalho Daniel Lemos Laboratório de Aqüicultura Marinha Instituto Oceanográfico, Universidade de São Paulo, Praça do Oceanográfico 191, São Paulo (SP) 05508-900, Brasil dellemos@usp.br Albert G. J. Tacon Professor Visitante, Universidade de Las Palmas, Las Palmas, Gran Canária, Ilhas Canárias, Espanha agjtacon@aol.com

U

ma vez imersas na água, a expectativa é que as rações aquáticas sejam totalmente consumidas e convertidas em proteína de alta qualidade para consumo humano, mas este simples processo é na verdade um complexo conjunto de fatores e condições que precisam ser bem entendidas caso contrário podem resultar em fertilização desnecessária e desperdício de dinheiro para o produtor. Diferentes estudos têm demonstrado que níveis de temperatura e salinidade

desempenham um papel chave no metabolismo dos nutrientes em animais aquáticos, como, por exemplo, requerimentos e digestibilidade de proteínas e aminoácidos, balanço energético e requerimentos de minerais. Além dos aspectos químicos, têm sido demonstrados efeitos sobre a integridade do pelete de ração através da redução da estabilidade física e aumento da lixiviação dos nutrientes resultando na diminuição do valor nutricional da ração. Os camarões marinhos são cultivados em difeRevista da ABCC | 69

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Rações Sob Medida para as Condições da Fazenda Tabela 1- Pros e contras da alta estabilidade química e física em rações para camarão

Prós

Contras

Reduz a lixiviação dos nutrientes

Baixo efeito estimulante

Reduz os sólidos dissolvidos

Maior tempo de ingestão

Aumenta a disponibilidade de nutrientes no pelete

Custo de processamento mais alto

Facilita a remoção dos sólidos

Restrições de certos ingredientes

rentes condições ambientais e de qualidade de água de acordo com a região e época do ano, podendo variar de água doce para água hipersalina. Considerando o impacto dos efeitos ambientais e a diversidade das condições de cultivo, estudos que levem em conta estas interações e a estabilidade da ração podem trazer informações práticas importantes para o produtor de camarão. A estabilidade física é um fator crítico no processamento de ração para camarão e cuidados especiais começam com a seleção de ingredientes, passam pelo processamento da ração e vão até o manejo.

Como os camarões se alimentam de forma seletiva e razoavelmente lenta, um maior grau de estabilidade física é desejável em rações para camarão em comparação às rações para peixes, como a tilápia e o salmão. Por outro lado, a absorção de água e a lixiviação dos componentes solúveis de forma específica têm sido positivamente associados com os mecanismos de sinalização, estimulação e palatabilidade, e, conseqüentemente, aumenta o consumo de ração.

Medindo os efeitos ambientais sobre a estabilidade física Os autores recentemente realizaram um estudo no Laboratório de Aqüicultura Marinha da Universidade de São Paulo para avaliar a estabilidade de seis rações comerciais sob condições de temperatura e salinidade existentes em fazendas de camarão no Nordeste do Brasil onde a maior parte da indústria de camarão de cultivo esta localizada. Os dados abióticos foram coletados entre 2002 e 2003 numa extensão de mais de 1,600 km durante o projeto de monitoramento da qualidade da água da Associação Brasileira de Criadores de Camarão - ABCC. A salinidade da água nos viveiros das fazendas de camarão na região Nordeste do Brasil apresentou diferentes padrões conforme demonstrado na Figura 1. Por exemplo, a fazenda D demonstrou uma ampla variação de salinidade ao longo do ano em contraste com a fazenda B (Figura 1). Temperaturas e salinidades mensais das fazendas foram selecionadas como patamares dos parâmetros deste estudo, que foram definidos como: 4, 27 e 30oC e 5, 19, 33 e 47 ppt. Um agitador com banho maria em temperatura controlada e movimento horizontal contínuo (vai e vem) foi utilizado para reFigura 1- Temperaturas e salinidades mensais de fazendas de camarão selecionadas.

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Figura 2- Rações testadas, agitador com banho maria em temperatura controlada e movimento horizontal e sistema de filtração a vácuo.

produzir a lixiviação em condições de campo. Esta técnica pode proporcionar condições precisas e consistentes para a avaliação da perda de matéria seca como ocorre durante a imersão da ração e o manejo do camarão. A água do mar foi diluída com água destilada para os testes em salinidades inferiores e água hipersalina foi preparada após a recuperação de alíquotas de estoques congelados de água marinha. Três repetições de 2g para cada ração testada foram imersas em erlenmeyers de 250 ml nas temperaturas e salinidades estabelecidas. Após 30, 60, 120 ou 240 minutos em condições estáticas ou de agitação, a matéria seca recuperada foi fi ltrada a vácuo, cuidadosamente lavada com água destilada para a remoção do sal, e secada para o cálculo de massa.

Figura 3. Perda de matéria seca das seis rações comerciais na água em condições estáticas e de agitação.



Resultados e aplicações

Efeitos de tempo de imersão e método de agitação A perda de matéria seca aumentou com o tempo de imersão até alcançar 9,7% em condições de agitação depois de 240 minutos (Figura 3). A perda foi 11.5% maior do que em condições estáticas no mesmo período. Outros efeitos a serem considerados na perda de matéria seca Revista da ABCC | 71

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Figure 4. Média da perda relativa de matéria seca das seis rações comerciais (RC) após imersão de 30 a 240 minutos em diferentes salinidades e temperaturas.

seriam a aeração, os métodos de alimentação e a dinâmica da água em conjunto com o controle da conversão alimentar, uma vez que a ração não consumida está sujeita a perda de nutrientes e a deteriorar a qualidade da água. Uma vez na água, quanto mais rápido a ração é ingerida pelo camarão, melhor. A primeira meia hora mostrou ser crítica porque, para a maior parte das rações testadas, quase 50% da perda de matéria seca ocorreu durante este período. Mas isto pode não se aplicar para todas as

rações como, por exemplo, a ração comercial 5 (RC 5) que apresentou uma maior perda de matéria seca depois de 120 minutos em contraste com a RC 8 onde quase 65% da lixiviação ocorreu nos primeiros 30 minutos de imersão (Figura 4). Estas diferenças ilustram as características intrínsecas em cada ração.

Efeitos da temperatura e salinidade O uso de uma mesma ração

sob diferentes salinidades pode resultar em padrões diferentes de lixiviação e a perda de matéria seca foi mais pronunciada em águas oligohalinas do que hipersalinas conforme demonstrado nas salinidades de 5 e 47 ppt, respectivamente, que refletem os extremos deste parâmetro nas fazendas de camarão pesquisadas. Em comparação à salinidade, o efeito da temperatura sobre a perda de matéria seca foi insignificante nas variações de temperatura observadas nas fazendas.

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Rações Sob Medida para as Condições da Fazenda

Fazendas de camarão abastecidas por águas de baixa salinidade durante parte ou todo o ciclo de produção devem tomar medidas especiais para combater a maior lixiviação de nutrientes através da seleção de rações mais estáveis e/ou um melhor manejo da alimentação. A escolha da ração certa pode ser decisiva uma vez que os peletes podem apresentar padrões de interação de lixiviação distintos, principalmente relacionados a salinidade e ao tempo de imersão. Enquanto que algumas rações apresentaram perdas similares de matéria seca quando imersas em 5 ppt após 30 minutos ou 47 ppt após 240 minutos, outras apresentaram perdas de matéria seca duas vezes maiores em 47 ppt após 240 min do que em 5 ppt após 30 minutos. Quanto mais estável a ração, mais intensa parece ser a perda de matéria seca com a queda da salinidade. Esta tendência foi observada em CF 5 e CF 8 e, enquanto a primeira ração, mais estável, perdeu 140% mais matéria seca quando a salinidade caiu de 47 para 5 ppt, a segunda ração, menos estável, perdeu apenas 58% mais matéria seca com a mesma mudança de salinidade(Fig. 4). As rações comerciais aqui avaliadas mostraram padrões

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de lixiviação diferentes que podem refletir as tecnologias e ingredientes utilizados no seu processamento. Estes processos precisam ser investigados em profundidade a fi m de incorporar conhecimentos para que as rações possam suportar diversas condições de cultivo em diferentes estações do ano bem como sistemas de alimentação. Por outro lado, os produtores devem estar atentos a adequação da sua ração às condições da sua fazenda antes de alimentar os seus camarões.

Estudos adicionais Estudos sobre a estabilidade de rações aplicados a condições práticas de cultivo podem be-

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Figure 5. Média percentual de perda de matéria seca para seis rações comerciais de camarão em diferentes salinidades e temperaturas após quatro horas de imersão.

neficiar os fabricantes de ração através do monitoramento e antecipação das características físicas da ração. Entretanto, pouco é conhecido sobre as interações entre os ingredientes, processos, características físicas e os seus efeitos na eficiência de ingestão do camarão. Nesse sentido, a combinação dos estudos de comportamento alimentar com o processamento de ração pode contribuir com os esforços para aumentar o aporte de nutrientes para o animal e minimizar as perdas para o ambiente.

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Panorama da produção mundial e brasileira de pescado, com ênfase para o segmento da aqüicultura Itamar de Paiva Rocha 1* Diego Maia Rocha 2* 1*

Eng° de Pesca, CREA 7226-D – Presidente da ABCC Biólogo – Aquatec.

2*

1. Introdução As estatísticas mais recentes da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), mostraram que a produção mundial de pescado em 2008, envolvendo a pesca extrativa (90.800.160 t) e a aqüicultura (68.348.943 t), foi de 159.149.103 t (Figura 1). O crescimento médio anual da aqüicultura observado entre 1998 a 2008 (6,50%) foi bem superior ao incremento registrado para a produção extrativa no mesmo período (0,45%), o que permite deduzir que a produção oriunda da aqüicultura, ultrapassará a produção advinda da pesca extrativa até 2013.

2. Produção mundial de aqüicultura A produção oriunda da aqüicultura em 2008 mostra claramente a destacada hegemonia do Continente Asiático, cuja participação correspondeu a 91,36% da produção mundial desse setor. Em seguida, com bem menos representatividade, aparecem Europa, com 3,43%, América do Sul, com 2,15%, América do Norte e Central, com 1,41%, África, com 1,40% e Oceania, com 0,25%. Na composição da produção mundial da aqüicultura se destacam 04 (quatro) grandes grupos

Figura 1 – Evolução da Produção Mundial de Pescados (1998 – 2008)

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de espécies: (1) peixes (49,49%), (2) plantas aquáticas (23,09%), (3) moluscos (19,16%), (4) crustáceos (7,33%), ficando os (5) outros organismos aquáticos com (0,94%). Com relação a receita, os produtos oriundos da aqüicultura renderam aos produtores US$ 105,8 bilhões em 2008, cuja participação do segmento de piscicultura foi de 56,85%, seqüenciada pelos crustáceos, com 21,40%, moluscos com 13,52%, plantas aquáticas com 7,97% e por outros organismos aquáticos com 1,69%, conforme se detalha na Figura 2. Ao se falar da produção mundial de aqüicultura, o principal destaque fica para o desempenho da China, que respondeu por 62,4% (42,67 milhões de toneladas) do seu volume total. Além disso, a China se destacou tanto na área de piscicultura, com uma produção de 19,12 milhões de toneladas, representando 56,5% do total produzido mundialmente, como na produção de moluscos, cujo volume de 10,3 milhões de toneladas, correspondeu a 78,8% da produção mundial desse segmento. Afora isso, se destacou também no segmento de plantas aquáticas, com um volume de 9,9 milhões de toneladas, equivalente a 62,9% do total produzido mundialmente e, no cultivo de crustáceos, cuja produção

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de 2,7 milhões de toneladas, contribuiu com 54,2% da produção desse grupo de espécies, no contexto mundial em 2008. (Tabela 1) Em realidade, quando se analisa o desempenho da aqüicultura mundial, não se pode deixar de ressaltar, que dentre os 10 (dez) maiores produtores mundiais de aqüicultura, se destacam de forma bastante preponderante, 09 (nove) países Asiáticos (China, Índia, Indonésia, Filipinas, Vietnã, Coréia do Sul, Tailândia, Japão e Bangladesh), os quais produziram 59,8 milhões de toneladas, o equivalente a 87,60% da produção mundial desse setor e, apenas 1 (hum) país da América do Sul (Chile). O Brasil, a despeito de todo o seu potencial e tradição secular nessa área, teve uma participação sofrível, notadamente quando se leva em conta que a sua produção em 2008, representou apenas 0,42% da produção mundial da aqüicultura no referido ano. (Tabela 2) Para concluir o quadro geral sobre a aqüicultura mundial, é de fundamental importância se ressaltar a participação das principais espécies, onde o grande destaque fica por conta do grupo representado pelas carpas, cuja produção (15.678.059 t) representou 22,94% do total produzido por esse setor no referido

Figura 2 – Produção Mundial da Aqüicultura por Região e por Grupo de Espécies em 2008

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Tabela 1 – Produção Mundial da Aqüicultura por Região e por Grupo de Espécies em 2008

Tabela 2: Principais Produtores Mundial de Aqüicultura em 1998 e 2008.

ano. Na seqüência, por ordem decrescente, em termos de participação, se posicionaram: ostras (6,09%); mariscos (5,74%); camarões (4,97%) tilápias (4,09%); salmonídeos (3,36%) e mexilhões (2,38%). Por outro lado, ao se analisar o segmento da produção mundial de camarão, fica bastante claro a correlação do desempenho desse setor com o da aqüicultura precedentemente analisado. Inclusi-

ve, se ressalta que a evolução da referida produção entre os anos de 1998 (3.629.976 t) e 2008 (6.519.671 t), tem como destaque, o incremento da participação da produção oriunda da carcinicultura (244%), que passou de uma representação de 27% (985.898 t) para 52% (3.399.105 t), da produção mundial de camarão em 1998 e 2008, respectivamente.

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3. Panorama da produção brasileira de pescado No computo geral, a produção de pescado do Brasil encontra-se praticamente estagnada, especialmente quando se considera que o crescimento apresentado por esse setor entre 2003 (985.412 t) e 2008 (1.065.186 t), correspondeu a um incremento médio anual de apenas 15.955 toneladas (Tabela 3). Em realidade esse crescimento não é condizente com o imensurável potencial brasileiro para exploração e produção de pescado, tanto no contexto dos domínios marítimos, como dos múltiplos recursos dulci-aqüícolas e estuarinos, amplamente disponíveis em todas suas macro-regiões. Em realidade, o Brasil poderia ampliar consideravelmente sua produção de pescado de origem extrativa, tanto no segmento da pesca industrial na

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Zona Econômica Exclusiva, como em Águas Marítimas Internacionais, se fosse colocado em prática, uma política de incentivo e apoio a estruturação, modernização e operação da sua frota pesqueira. Da mesma forma, o setor da pesca artesanal, poderia explorar melhor os vastos recursos da sua zona costeira, das áreas estuarinas e dos reservatórios de água doce, caso fossem realizados programas ordenados de repovoamentos sistemáticos, com espécies selecionadas. Isso, sem falar no excepcional potencial de exploração da aqüicultura em geral, como demonstram os exemplos exitosos do Chile e Vietnã adiante comentados. O desempenho da aqüicultura brasileira, vista por quem está de fora do setor, especialmente quando se analisa um viés de longo prazo, mostra uma falsa percepção de que a mesma vem se desenvolvendo a passos largos, especialmente quan-

Tabela 3: Dados Gerais da Produção de Pescado do Brasil em 2003 e 2008





Figura 3 – Evoluções da Produção Aqüícola e Pesqueira do Brasil (1998 - 2008) Revista da ABCC | 77

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do se compara, percentualmente, o incremento da produção aqüícola (1.140%) em relação à produção extrativa (19,58%), no período de 1991 a 2008, por exemplo, (Figura 3). No entanto, quando se analisa os números desse setor, tomando como referencia uma analise temporal recente, fica evidenciado que o mesmo encontra-se em franco processo de desaceleração, como alias mostram as estatísticas pesqueiras brasileiras divulgadas pela FAO(2010), entre os anos de 2003 (273.268 t) e 2008 (290.195 t). Nas quais, o Brasil apresenta um crescimento de apenas 6,19%, contrastando com o desempenho mundial desse setor (36,08%), no referido período, conforme demonstrado nas Tabelas 3 e 4, respectivamente. No contexto precedente, se ressalta que a composição da produção da aqüicultura brasileira em 2008, a exemplo da aqüicultura mundial, foi majoritariamente formada por: (1) peixes (72,68%), exclusivamente representados pela piscicultura de água doce (210.812 t); (2) crustáceos (22,49%), cuja carcinicultura marinha, predominantemente representada pelo camarão Litopenaeus vannamei, participou com 65.000 t, enquanto que o camarão de água doce (M. rosenbergii) contribuiu com apenas 250 t; (3) moluscos (4,62%) representados por mexilhões e ostras e, (4) anfíbios (0,21%), basicamente, jacarés e rãs. (Tabela 4). O perfil da aqüicultura brasileira em termos da representatividade das espécies cultivadas, de acordo com as referidas estatísticas (FAO, 2010) para o ano de 2008, está discriminado na Tabela 5. Na qual, a liderança da produção ficou por conta de tilápias (33,08%), do camarão marinho (22,40%), o qual apresentou uma redução de (-31,94%) em relação a 2003, da carpa (12,61%) que também teve sua produção

de 2003 (50.400 t) reduzida para 36.631,5 t (-27,38%) no mesmo período, do tambaqui (10,54%), do pacu (4,27%), dos mexilhões (4,14%), do tambacu (3,10%) e de outros (9,85%). Em termos de crescimento, considerando os referidos grupos de espécies, os destaques ficaram por conta do tambaqui (46,88%), da tilápia (48,02%), dos mexilhões (39,41%), do tambacu (39,41%) e outros (71,11%). No entanto, a produção do setor aquícola, no seu conjunto, apresentou apenas um tímido desempenho (6,19%) no mencionado período. O lamentável e ao mesmo tempo inaceitável desse cenário, é o fato de que os Governos Federal e Estaduais, ignorando a realidade das suas próprias estatísticas, continuam apregoando feitos fantasiosos sobre o desempenho da aqüicultura brasileira, mascarando as ações que precisam urgentemente ser tomadas para demolir os entraves que estão impedindo o seu crescimento. Notadamente, porque em realidade, essa atividade além de representar a alternativa de maior viabilidade para o real aumento da produção de pescado no Brasil, se constitui num importante vetor de inclusão social e desenvolvimento econômico, cuja viabilização trará reflexos altamente positivos para toda a sócio-economia rural, adjacente a sua exploração. Notadamente, pelo seu reconhecido papel na viabilização de oportunidades de negócios, empregos e renda para a grande massa de pescadores artesanais e trabalhadores rurais litorâneos e ribeirinhos, hoje totalmente marginalizados, pela limitação tecnológica, desafios ambientais e fi nanceiros, confrontados pelos desafios da exploração dos limitados estoques pesqueiros brasileiros. Nesse sentido, para se avaliar melhor as perdas de oportunidades, econômicas e sociais, do Brasil

Tabela 4: Perfil da Produção da Aqüicultura Brasileira em 2003 e 2008

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Tabela 5 – Principais Espécies Cultivadas no Brasil em 2003 e 2008



nesse setor, especialmente, quando se tem presente à dimensão da sua Zona Econômica Exclusiva (4,5 milhões de km2), das suas áreas estuarinas (2,5 milhões de hectares) e das águas doces represadas (10 milhões de hectares) totalmente inexploradas, basta comparar com o desempenho da maricultura do Chile e da piscicultura no Vietnã. No caso do Chile, a produção de aqüicultura cresceu de 351.430t (1998) para 870.845t (2008), ou seja, um incremento de 147,8 %, cujo destaque fica por conta das exportações de salmonídeos cultivados em tanques redes, que contribuíram para a captação de US$ 2,17 bilhões de dólares de divisas em 2009 (Figura 4). Já o Vietnã, um país que confrontou-se com duas sangrentas guerras (França e Estados Unidos) nos últimos 50 anos e que dispõe de apenas 80.000km2 de áreas agriculturáveis, a produção de aqüicultura passou de 350.920t(1998) para 2.497.400t (2008), representando um incremento de 611,67%, ou seja, quase 100 vezes maior do que o crescimento apresentado por esse setor no Brasil (6,19%), no mesmo período. Por outro lado, outro exemplo do Vietnã que certamente merece destaque é a desempenho do Pangasius sp, um “bagre” que de repente se transformou no mais temido fantasma que está assombrando os piscicultores brasileiros, com justo motivo, pois sua produção cresceu de 22.500t(1997) para 1.600.000t(2008), com destaque para as exportações que cresceram de 7.000t e US$19,7milhões de dólares(1997) para 642.204t e US$1,6 bilhões de dólares em 2008(Figura 5). Em contraponto aos seus reconhecidos predicados naturais, o Brasil tem sido colocado à margem

de todo esse progresso vivenciado pela aqüicultura mundial, aliás, de forma bastante negligenciada, exatamente pela aquiescência e subserviência da política pesqueira brasileira, aos “interesses escusos”, da política ambiental. Notadamente, em conseqüência do alto grau de alienação e de pulverização das competências do setor pesqueiro, que somente agora, com a criação do MPA, passam a ser centralizadas e espera-se, que seja imune ás pressões das ONG’s pseudo-ambientalistas, até então, encasteladas nas diversas esferas do poder público. O lamentável, é que tudo isso vem ocorrendo com a passiva concordância da comunidade acadêmica, das representações de classe, da outrora aguerrida classe estudantil e, naturalmente, dos gestores públicos e dos Ministérios Públicos(MPE e MPF), “comodamente alienados”, tendo sempre como falso argumento, a priorização da defesa do “principio da precaução”, a vaca sagrada da esquerda ambientalista brasileira e sem dúvida, a justificativa preferida dos alienados e dos acomodados de plantão, enfi m, de quem não tem conhecimento da realidade ou compromissos com o desenvolvimento econômico-social do Brasil. Enquanto isso, o país do eterno futuro, permanece deitado em berço não mais tão esplêndido, mas mesmo assim, vergonhosamente adormecido, negando à sua população, oportunidades de negócios, empregos e o acesso a um alimento de vital importância, no contexto do suprimento de ácidos graxos poli-insaturados, do tipo Omega-3, de elevado valor nutricional, imprescindível para as crianças, adolescentes e idosos, com inegáveis benefícios Revista da ABCC | 79

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neurológicos e para a saúde dos seus consumidores de uma maneira geral. No Brasil, pela falta de priorização de uma política pública para a promoção e viabilização da exploração da sua grande vocação natural para a produção de pescados, a aqüicultura, tem-se como resultado, a triste constatação de que a produção própria mais às importações disponibilizaram aos brasileiros, apenas 6,0 kg de pescado per capita em 2007, bem abaixo da média mundial (17,0 kg/ano) e, pouco mais de 10% do que consumiu, por exemplo, cada habitante de Portugal, (57 kg) no referido ano. Nesse mesmo contexto, se ressalta que em 2008, o consumo per capita/ano de camarão no Brasil (440 g), foi bem abaixo da média mundial (790 g) e muito aquém do consumo registrado pelo México (1,58 kg), China (1,80 kg), Estados Unidos (2,14 kg), Espanha (3,47kg) e Bélgica (4,02 kg). Por outro lado, de acordo com as Associações Nacionais das respectivas carnes, o consumo de carne bovina e de outras carnes no Brasil, foi respectivamente de 36,9 e 52,7 kg/per capita em 2008, o que demonstra por um lado, a força e pujança do mercado de proteínas de origem animal no país e, por outro lado, as amplas oportunidades para o aumento da participação de pescado, cujo déficit nominal foi da ordem de 2.052.452 t/ano em 2008(Figura 6).

4. Desafios A realidade da produção de pescado no Brasil tem sido adversa para toda cadeia produtiva, pois as perdas de oportunidades são evidentes. Enquanto isso, a ação governamental, prioriza a promoção do consumo sem o correspondente incentivo à produção nacional, o que inclusive tem contribuído, de um lado, para a drástica redução das exportações (Figura 7) e de outro, para o crescente aumento das importações (Figura 8). No ano de 2009, o volume de pescado importado pelo Brasil atingiu o patamar de 239,5 mil toneladas, correspondente a uma sangria de divisas de US$ 715 milhões (Figura 9), cifras suficientes para gerar 150.000 empregos nos paises exportadores. Além disso, o setor pesqueiro brasileiro enfrenta um grande desafio, cuja solução passa por uma mudança radical na concepção e administração da atual política pesqueira, que deve levar em consideração na defi nição das prioridades, o histórico setorial, os exemplos exitosos e a expertise nacional, que precisam ser aproveitados, valorizados e incentivados. Limitando a ação governamental ao planejamento, a regulamentação, ao ordenamento, a assistência técnica e ao fomento de pesquisas e ações de promoção dos seus produtos.



Figura 4 – Evolução das Exportações (volume e valor) de Salmonideos do Chile (2000 -2009)

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Figura 5 – Evolução da Produção e Exportações de Pangasius sp. do Vietnã – (1997 -2008)

Figura 6 - Consumo de Carnes e Pescados no Brasil em 2008



Figura 7 – Linha de Tendência em Volume das Exportações de Pescado (2003 – 2012) 

Figura 8 – Linha de Tendência em Volume das Importações Brasileira de Pescado (2003 – 2013)



Figura 9 – Linha de Tendência em Valor, das Importações Brasileira de Pescado (2003 – 2012)

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Ao setor privado, caberá a responsabilidade pela produção, industrialização e comercialização, observando os preceitos fundamentais que regem o desenvolvimento sustentado com respeito social e a viabilidade econômica de uma atividade primaria. De qualquer forma, persiste a esperança de que um dia o Governo Federal e Estadual, superem essa letargia e promovam as mudanças necessárias e indispensáveis a transformação dos múltiplos recursos que o Brasil dispõe em todas suas macro-regiões, em oportunidades de negócios, proporcionando vida com dignidade para os trabalhadores da pesca e da aqüicultura, gerando emprego, renda, divisas e produzindo um alimento nutricionalmente imprescindível para as populações presentes e futuras.

Portanto, a responsabilidade do Brasil no tocante a produção de pescado é muito grande, primeiro porque precisa produzir um volume adicional de 2,0 milhões de toneladas/ano, apenas para elevar o consumo dos brasileiros ao mesmo nível do consumo médio mundial. Segundo, como já foi amplamente retratado, porque o atendimento da crescente demanda mundial por esse nobre produto, dependerá da capacidade do país de viabilizar a exploração das suas excepcionais riquezas naturais, através da aqüicultura. Nesse sentido, se destaca que recentemente a FAO divulgou uma Nota Técnica, ressaltando que até 2030, o volume adicional de pescado, que a aquicultura precisa produzir, apenas para manter o atual nível de consumo, será da ordem de 40 milhões de toneladas/ano.

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Avaliação da qualidade da água de açudes cearesnses 1*

Jeanete Koch (Jeanetekoch@yahoo.com.br) David Araújo Borges (davidaborges@gmail.com) 3* Lorena Soares Monteiro (Lorenasmonteiro@gmail.com) 4* Marlon Melo Aguiar (aguiarmarlon@hotmail.com) 5* Guilherme Marques de Souza (guilhermesouzabr@gmail.com) 2*

1* Instituto Centro de Ensino Tecnológico – CENTEC 2* Doutorando em Ciências Marinhas Tropicais 3* Mestranda em Engenharia de Pesca 4* Mestre em Engenharia de Pesca 5* Especialista em Geoprocessamento

O

Estado do Ceará reúne condições ambientais favoráveis para o cultivo de peixes em tanquesredes. A alta aceitação de pescado de águas interiores pela população torna o Ceará o maior produtor e consumidor de tilápia do Brasil. Porém, os estudos existentes não seguem uma mesma metodologia, o que dificulta a avaliação previa da qualidade da água de açudes cearenses objetivando o cultivo de tilápia. Buscando atender a necessidade de informações direcionadas a Agencia de Desenvolvimento do Estado do Ceará – ADECE – em convênio fi rmado junto ao Instituto Centro de Ensino Tecnológico – CENTEC, desenvolve um trabalho de pesquisa para avaliação da qualidade da qualidade da água dos açudes Banabuiú, Padre Cícero (Castanhão), Orós e Riacho do Sangue, no Ceará (Figura 1), com o objetivo de aperfeiçoar o gerenciamento destes recursos hídricos para piscicultura, gerando bases técnicas para suprir a crescente demanda para cultivo

de organismos aquáticos, através do monitoramento dos padrões de qualidade de água e estabelecimento de metodologia padrão apropriada ao clima semi árido. Metodologia O trabalho esta sendo desenvolvido através de uma abordagem sistêmica seguindo duas vertentes metodológicas principais: o geoprocessamento e a avaliação da qualidade da água. A metodologia do geoprocessamento consiste em uma série ordenada de fases e procedimentos necessários para a coleta, geração e integração dos dados: •Entrada de dados: fornecimento de dados (Modelo digital do terreno, imagens de satélite e as cartas digitalizadas da SUDENE); •Processamento dos dados: série de atividades ordenadamente realizadas, aplicando-se ferramentas específicas resultando na extração, edição e tratamento das informações; •Produtos gerados: correspondem as camadas mapeadas ou planos de informações que compõem a base cartográfica e o sistema de informação geográfica; •Verificação e correção das inconsistências: etapa de revisão que verifica os possíveis erros gerados na fase de processamento dos dados;

Figura 2: Imagem de satélite do açude Banabuiú com os respectivos pontos de coleta.

 Figura 1: Localização dos municípios de influência direta dos açudes Castanhão, Orós, Banabuiú e Riacho do Sangue

Figura 4: Imagem de satélite do açude Orós com os respectivos pontos de coletat

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Figura 5: Imagem de satélite do açude Riacho do Sangue com os respectivos pontos de coleta

•Aplicações e geração do banco de dados: consulta às informações geradas como ferramenta na tomada de decisões ou aplicações técnicas mais eficazes. Compreendem também as visitas de campo, interpretação dos elementos encontrados na imagem de satélite e o processamento dessas informações até o resultado fi nal dos produtos. Para o estudo da qualidade da água, foram feitas incursões realizadas em pontos previamente selecionados e distribuídos de forma a representar significativamente a amostragem de cada açude, a partir de imagens geoprocessadas pelo software GPS TrackMaker 13.6, considerando a área de abrangência, formato e afluentes do reservatório (Figuras 2,3,4 e5). A avaliação preliminar da qualidade da água dos reservatórios foi realizada em duas campanhas para coleta de amostras: a primeira em dezembro de 2009, e a segunda em fevereiro e março de 2010. Foram verificados e registrados in loco pela sonda multiparamética YSI 6600, nas profundidades de 0,3 m, 5,0 m e 10,0 m, Temperatura (°C), Condutividade elétrica (μS/cm), Salinidade, Saturação de OD (%), OD (mg/L), pH, Cloreto (Cl-) , Amônia (NH3-) , Nitrato (NO3-) , Nitrito (NO2-) , Turbidez (UNT), Clorofi la (μg/L), para a análise dos demais parâmetros as amostras de água foram coletadas com garrafa de VanDorn de 2 L. As amostras foram preservadas em frascos de vidro âmbar, armazenadas em caixas térmicas, mantidas em temperatura abaixo de 4°C, e levadas para laboratório especializado localizado na Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará – NUTEC, para análise Nitrogênio Total e Fósforo Total seguindo a metodologia descrita no “Standard Methods for the Examination of Water and Wasterwater” e análise microbiológica. Para facilitar a confecção e compreensão dos Gráficos, foi estabelecida uma terminologia simplificada para os reservatórios, sendo: BAN para o açude Banabuiú, CTN para o açude Castanhão, ORO para o açude Orós e RIS para o açude Riacho do Sangue.

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Figura 3: Imagem de satélite do açude Castanhão com os respectivos pontos de coleta.

Resultado e discurssão A composição das imagens se deu através do download de 11 cenas CBERS-2B, sendo cada cena composta por 3 bandas, um total de 33 bandas e 5 cenas LANDSAT, compostas por 7 bandas cada cena, somando um total de 35 bandas. As imagens são referentes aos anos de 2005 a 2008, sendo selecionadas por datas recentes e percentual de nebulosidade. Para se trabalhar com recursos naturais foi necessário utilizar a composição das bandas 3, 4 e 2, com o intuito de realçar os alvos de drenagem, espelhos d’águas, mata ciliar, mata nativa, zona urbana e agricultura. Foram compostas cerca de 5 imagens LANDSAT e 11 imagens CBERS. A melhor resposta espectral foi obtida associando-se o infravermelho da banda 2 ao canhão de cores vermelho, após associou-se a banda 4 ao canhão de cores verde e a banda 2 ao canhão de cores azul. Após o tratamento das imagens adquiridas tem-se a imagem processada conforme ilustra a figura 6. As águas do Território Nacional são classificadas de acordo com a resolução CONAMA 357 de 17 de março de 2005, segundo a qualidade demandada para seu uso preponderante. Para atividades pesqueiras e aqüicultura, utilizam-se os padrões de águas doces classe II. Vale ressaltar que os valores preconizados nesta resolução são para água superficiais. Para os açudes estudados a média para o Oxigênio Dissolvido - OD (mg/L) nas três profundidades estão na figura 7. De acordo com a Resolução CONAMA 357/05, para águas doces de classe II, o OD não deve ser inferior a 5mg/L em qualquer amostra. Observa-se que a concentração de OD atende a esta resolução nos açudes Castanhão, Orós e Banabuiú, enquanto que para o açude Riacho do Sangue este parâmetro permanece abaixo do preconizado nesta resolução. Segundo Gurgel (2003), o aceleramento dos processos metabólicos eleva o consumo de oxigênio, numa intensidade de 10% a mais para cada grau de elevação. Revista da ABCC | 85

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Avaliação da qualidade da água de açudes cearesnses

Segundo o mesmo princípio, uma água tropical de 25°C em o ritmo dos processos biológicos acelerados 2 ou 3 vezes a mais do que numa água temperada de 15°C. O aumento da atividade fisiológica e metabólica implica um maior consumo de oxigênio e incremento das necessidades nutritivas. Assim, o parâmetro temperatura torna-se um fator crítico, pois seu aumento no ambiente produz uma diminuição na solubilidade dos gases na água e no oxigênio dissolvido, e um aumento de sua demanda por parte dos organismos, como observado em reservatórios de clima tropical, o que explica a baixa concentração de oxigênio dissolvido nos açudes cearenses. Entretanto, Buttner et al (1993) reporta uma faixa de conforto para espécies de peixes tropicais de água doce acima de 3mg/L. As águas mais profundas apresentaram valores satisfatórios de OD, nunca inferiores a 2,0 mg/L sendo esta concentração suficiente para a ciclagem de compostos nitrogenados no sistema aquático. Segundo a resolução CONAMA 357/05 para águas doces de classe II o valor máximo permitido para clorofila a é de 30 μg/L. Portanto, todos os pontos de amostragem dos açudes atenderam a esta resolução quanto ao parâmetro analisado. A figura 8 mostra os valores médios de clorofi la na coluna d’água dos reservatórios estudados. A resolução CONAMA 357/05 não estabelece um padrão ideal para a concentração de Nitrogênio Total das águas doces classe II. Os valores médios obtidos para Nitrogênio Total (mg-N /L) podem ser observados na figura 9. Figura 9: Valores médios de nitrogênio total na coluna d’água nos quatro açudes em estudo. Segundo Piveli & Kato (2006) os compostos de nitrogênio são nutrientes para os processos biológicos. São tidos como macronutrientes pois, depois do carbono, o nitrogênio é o elemento exigido em maior quantidade pelas células vivas. Quando descarregado nas águas naturais conjuntamente com o fósforo e outros nutrientes, provocam o enriquecimento do meio tornando-o mais fértil e possibilitando o crescimento em maior extensão dos seres vivos que o utilizam, especialmente as algas, caracterizando a eutrofização. A concentração máxima de Fósforo Total permitida pela resolução vigente para águas doces classe II é 0,03mg-P/L. Portanto, todos os açudes atendem a resolução CONAMA 357/05 quanto ao parâmetro analisado. Foram observados em pontos isolados do açude Castanhão, a profundidades maiores que 5,0 m, níveis mais elevados de Fósforo Total. Segundo Araujo (1990), tal fato tem origem na matéria orgânica resultante do recente processo de açudagem do local. Os valores médios obtidos para Fósforo Total (mg/L) podem ser visualizados na figura 10. Segundo Overbeck (2000) nitrogênio e fósforo são consumidos pelo fitoplancton em um relação de massa com média de 7,2:1. Se a disponibilidade total diferir muito dessa relação, ocorrerá uma limitação na produção primária. A relação crítica N:P é cerca de 10:1. Dos estudos

Figura 6: Cartografia Temática da Bacia hidráulica do Açude Riacho do Sangue após o tratamento das imagens.

comparativos das razões de N:P nas células de algas em cultura de reservatórios determinou-se o papel desses elementos como nutrientes limitantes do crescimento. Muitas vezes a limitação desses nutrientes é desejada em corpos lênticos de forma a se evitar a eutrofi zação. Para os açudes em estudo verificou-se que as médias da proporção N:P para as profundidades de 0,3, 5,0 e 10,0 metros foram respectivamente 25,1 , 19,1 e 8,7. Dessa forma para as profundidades de 0,3 e 5,0m o fósforo pode ser considerado o nutriente limitante. Esse fato pode ser contatado ao se analisar a concentração de clorofi la a, pois os valores em nenhuma das amostras foram superiores a 16μg/L, demonstrando uma baixa biomassa de microalgas. Para a profundidade de 10,0 m, quanto aos macronutrientes N e P, ambos não são considerados como nutrientes limitantes. Provavelmente o fator limitante para essa profundidade seja a luz, uma vez que para os açudes estudados a transparência de Secchi foram para o açude Banabuiú mínima de 0,73+ 0,07m e a máxima de 1,20+0,25m, Castanhão com mínima de 0,95+0,11m e máximo de 1,78+0,00m, Orós com mínima de 0,43+0,07m e máxima de 1,18+0,14m e Riacho do Sangue com mínima de 0,78+0,07m e máxima de 1,33+0,21m. Para os açudes abordados, após análise visual da existência ou não de macrófitas, as mesmas foram identificadas. Pode-se observar no quadro 1 as principais espécies de macrófitas comuns aos quatro reservatórios, bem como o nível de abundância de cada uma delas.

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Figura 7: Valores médios de Oxigênio Dissolvido (mg/L) na coluna d’água nos quatro açudes em estudo.

Figura 8: Valores médios de clorofila a na coluna d’água nos quatro açudes em estudo.

 Figura 9: Valores médios de nitrogênio total na coluna d’água nos quatro açudes em estudo.

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 Figura 10: Valores médios de fósforo total na coluna d’água nos quatro açudes em estudo.

Quadro 1: Espécies de macrófitas e sua respectiva abundancia nos quatro açudes analisados

Referências Bibliográficas disponíveis na ABCC

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O primeiro laboratório para estudos de digestibilidade de camarões marinhos no Brasil Rodrigo Carvalho1*, Daniel Lemos1*, Albert Tacon2* 1* Instituto Oceanográfico Universidade de São Paulo rodrigoplfc@usp.br 2*

Aquatic Farms Ltd,Hawaii, USA

O

Brasil é um dos principais produtores de camarão marinho do mundo e referência em tecnologia, no entanto a base da tecnologia em geral vem de outros países. É o que acontece com a nutrição, por exemplo, que, apesar de ser o componente principal do custo de produção, tem sido tratada superficialmente uma vez que poucas pesquisas são realizadas com a fi nalidade de conhecer as exigências nutricionais do nosso camarão nas nossas condições, o que os nossos ingredientes podem aportar em termos de nutrientes, vitaminas e minerais e destes o que os animais podem digerir ou absorver. É da combinação destes e outros fatores que se dá o crescimento. A digestibilidade de um ingrediente é um parâmetro importante para a nutrição de animais em produção porque mensura a disponibilidade de nutrientes, especialmente a proteína e os aminoácidos, vitaminas e minerais em dietas balanceadas. O coeficiente de digestibilidade permite que o formulador elabore uma dieta com base no que está

realmente disponível no ingrediente. Os estudos da digestibilidade de ingredientes são comuns na ciência animal e se aplicam a todos os animais produzidos pelo homem, incluindo o camarão, cujas primeiras pesquisas surgiram na década de 70, mas no Brasil até então estes estudos não têm sido realizados. O sistema experimental para estudos de nutrição faz parte do Laboratório de Aquicultura do Instituto Oceanográfico da USP e foi inaugurado em Janeiro deste ano, sendo o primeiro no Brasil planejado especificamente para estudos de digestibilidade em camarões e peixes marinhos. A estrutura do laboratório é composta por dois sistemas de recirculação total, cada um com 18 tanques de 500 L equipados com colunas de decantação para a remoção ou coleta dos sólidos (fezes e ração) e aeração. Os tanques foram construídos sob medida em Natal e possuem fundo com inclinação suave que facilita a remoção dos sólidos sem prejudicar a distribuição dos camarões. O projeto de engenharia dos tanques durou quatro meses e

Figura 1- Vista geral dos tanques experimentais, tanque com coletor de sólidos e sistema de bombeamento e filtração da água.

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O primeiro laboratório para estudos de digestibilidade de camarões marinhos no Brasil

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 Figura 2- Layout do laboratório de digestibilidade para camarões e peixes marinhos do I.O. USP.

Tabela 1- Desempenho do camarão L. vannamei em cultivos de validação nos tanques experimentais intensivos entre Outubro de 2009 e Fevereiro de 2010

segue a tendência de proporcionar um ambiente com condições mais próximas àquelas encontradas nos cultivos, permitindo estocar mais animais e reduzir o estresse do confinamento. O laboratório é equipado com alimentadores automáticos, fi ltros de areia e de leito fluidizado, Bubble Bead Filter, aquecedores de fluxo e de imersão, esterilizador de água por ultravioleta, sopradores com gerador de emergência e tanques para tratamento de efluentes (Figura 2). Os primeiros testes para a validação do sistema mostraram que o crescimento dos animais em condições intensivas é compatível com o crescimento obtido nas fazendas. Isto demonstra que o sistema atende os requisitos necessários para a realização de estudos de nutrição em condições de crescimento (Tabela 1). Neste momento está sendo concluída a primeira pesquisa sobre digestibilidade de ingredientes protéicos disponíveis no Brasil com o L. vannamei, como parte do doutorado do primeiro autor. São seis ingredientes testados em 3 níveis de inclusão com crescimento em paralelo. A partir destes resultados será possível formular rações considerando os nutrientes disponíveis para o animal, evitando desperdício e aumentando o crescimento dos camarões.

O laboratório da USP fica localizado no litoral norte de São Paulo, em Ubatuba e foi construído graças ao apoio do Instituto Oceanográfico, da FAPESP, do CNPq e da Guabi. Colaboraram com a pesquisa: Laboratório de Nutrição de Camarões da UFC, Laboratório de Nutrição de Organismos Aquáticos do CAUNESP, ABCC, Polinutri, DSM, IMCOPA, Aquatec, Vannamei, Forglass, Nutron, Aquaculture Systems Technologies, Virginia Freshwater Institute, USDA – ARS.

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Produção de camarões em sistema de Bioflocos: Os números não param de crescer Wilson Wasielesky Junior, Dariano Krummenauer, Geraldo Foes e Luis Henrique Poersch. Universidade Federal do Rio Grande, Instituto de Oceanografia, Programa de Pós-graduação em Aquicultura.Rua do Hotel, 02, Cassino, Rio Grande, RS, CEP 96210-030.

Introdução Nos últimos anos, várias pesquisas indicam existir uma relação inversa entre a densidade e desempenho dos camarões na aquicultura (Williams et al. 1996, Moss & Moss 2004, Otoshi et al. 2007). A densidade de estocagem apresenta grande influência sobre a produção dos camarões em cativeiro. Camarões estocados em altas densidades geralmente crescem menos e apresentam menor sobrevivência do que camarões estocados em baixas densidades. Esta redução do crescimento dos camarões em altas densidades é resultado do aumento da competição por alimento e espaço e também por canibalismo (Krummenauer et al. 2006). A principal causa desta relação inversa entre densidade de estocagem e desempenho ainda é indefinida, devido à dificuldade em separar os efeitos do comportamento dos camarões e da qualidade da água nas diferentes densidades de estocagem (Moss & Moss 2004). O aumento

da carga orgânica e de nutrientes, decorrentes da degradação das rações, pode comprometer a qualidade da água e resultar em desempenho menor do camarão, especialmente em sistemas de recirculação. Além disso, o comportamento competitivo ou antagônico (pressão de predação) dos camarões pode proporcionar em menor crescimento e sobrevivência (Otoshi et al. 2007). Pesquisas recentes têm desenvolvido novos métodos de produção (Biofloc Technology Systems - BFT) de camarões em sistemas super-intensivos e sem renovação de água, em raceways e viveiros. Por exemplo, nos Estados Unidos da América, camarões têm sido cultivados utilizando densidades de estocagem elevada, superando produtividades de até 10 kg/m3, o que equivale a uma produção 10 vezes maior que em sistemas tradicionais. O objetivo deste artigo é apresentar resultados de cultivos em elevadas densidades de estocagem na sobrevivência e no crescimento do camarão

Tabela 1: Vantagens e desvantagens dos cultivos de camarões em sistemas de bioflocos.

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Tabela 2: Resultados zootécnicos obtidos em viveiros de engorda utilizando sistema de flocos microbianos em alguns países do mundo, onde esta tecnologia é desenvolvida.

Litopenaeus vannamei em diferentes estágios de vida, em sistemas de cultivo BFT. O sistema BFT apresenta vantagens e desvantagens quando comparados com os sistemas tradicionais de cultivo em viveiros (Tabela 1). Inicialmente, observam-se custos maiores, mas que se estima que estes sejam compensados por produtividades muito maiores que as obtidas atualmente nos sistemas convencionais. Na tabela abaixo, estão sintetizadas as principais vantagens e desvantagens do sistema BFT de cultivo para camarões marinhos. Os experimentos apresentaram resultados satisfatórios, demonstrando que a técnica é uma realidade e está pronta para ser aplicada em viveiros comerciais no país. A síntese dos resultados zootéc-

nicos obtidos em viveiros de cultivo utilizando o sistema de flocos microbianos (BFT) no Rio Grande do Sul, onde as condições climáticas muitas vezes são limitantes, atestam que a utilização da técnica (BFT) pode gerar resultados ainda melhores no restante do Brasil (Tabela 3). Estima-se que os cultivos em viveiros no sistema BFT sejam uma alternativa viável a ser aplicada em diferentes locais da costa brasileira em função de ocupar melhores áreas, diminuindo possíveis confl itos ambientais. Além disso, os resultados aqui apresentados demonstram que é possível trabalhar com produtividades acima de 14 ton/ciclo ou acima de 40 ton/ano, principalmente na região nordeste.

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Figura 2: Estufa (585m2) para testes piloto com tanques revestidos com geomembrana (PEAD) da Estação Marinha de Aquacultura da FURG, Rio Grande, RS

Cultivo em raceways O cultivo de camarões em raceways cobertos (estufas) tem despertado interesse de pesquisadores e produtores em alguns países do mundo, oportunizando o cultivo de camarões peneídeos em regiões com clima sub-tropical e/ou temperado. Nos Estados Unidos da América (Carolina do Sul, Virgínia, Maryland, Texas, Havaí, entre outros, muitas pesquisas tem sido realizadas para a produção em estruturas fechadas (raceways em estufas). As principais vantagens estão associadas à proximidade do mercado, além daquelas citadas na tabela 1. Na Coréia do Sul, Indonésia, Bélgica e Holanda, sistemas BFT também já estão sendo utilizados para a engorda de camarões. utilizando água quente de indústria. No ano de 2005, Browdy et al. atingiram produtividades de 6,8 kg/m2/ciclo em raceways com densidades iniciais acima de 400/m2 (68 ton /ha). No ano de 2008 no Oceanic Institute (Havaí, EUA), Otoshi et al. reportaram produção de 10,3 kg/m2 (103 ton/ ha) com densidade inicial de 828 camarões/m2 e densidade fi nal de 562 camarões/m2. Recentemente pesquisas realizadas no Centro de Maricultura de Waddell (Carolina do Sul, EUA) atestam que a produtividade atingiu a marca de 13 kg/m3 (130 ton/ha/ciclo) de camarões com peso médio de 19,5 g, em 153 dias de cultivo (Arana, Com. Pess., 2009),

Recentemente, Correia (UFRPEBrasil) e Samocha (Texas A&MEUA) (2010) reportaram a produção em raceways de 9,75 kg/m3 em raceways em Corpus Christi (Texas, EUA) com densidade inicial de 530 camarões/m3. É importante ressaltar que os resultados acima obtidos foram realizados com uso de altos recursos tecnológicos como oxigênio injetável, filtros biológicos, filtros mecânicos, fracionadores, sedimentadores, sistemas automatizados, e em alguns casos, com monitoramento eletrônico de qualidade da água. Além disso, a utilização de rações específicas para camarões  em sistema superintensivos (BFT) provavelmente contribuiu para estes resultados. No Brasil (Rio Grande do Sul), estudos com cultivo de camarões no sistema BFT têm sido realizados com objetivo de desenvolver pacotes tecnológicos de cultivo em raceways (em estufas) para as condições brasileiras. Nos últimos seis anos foram realizados estudos sobre os cultivos em sistema BFT em estufas de engorda (Figura 2). Foram realizados testes como: 1) Determinação de densidades de estocagem ideais; (2) Povoamento direto e sistema utilizando berçário, com objetivo paralelo de detectar crescimento compensatório; (3) Uso de probióticos; (4) Fertilização orgânica; (5) Diferentes sistemas de aeração; entre outros trabalhos (Emerenciano et al. 2006; Vita et al. 2007; Silva et al. 2008; Krummenauer et al. 2008;Fróes et al. 2009). Em termos de desempenho de crescimento e sobrevivência dos camarões em sistemas de microcosmos, os resultados alcançados foram muito expressivos e demonstram a capacidade biológica das pós-larvas de L. vannamei produzidas no Brasil. Quatro experimentos foram realizados para avaliar o efeito da densidade de estocagem em L. vannamei cultivado a partir de: (1) 0,003 g a 0,5 g; (2) 1 a 6 g (3); 6 a 12 g; e (4) 12 a 18 g. As densidades de estocagem variaram de (1) 4.400 a 17.600/m3, (2) 880 a 2.650/m3, (3) 590 a 1.760/m3, e (4) 440 a 1.760/ m3, respectivamente. Os camarões foram estocados em microcosmos (tanques de 0,17 m3), conectados a um raceway de cultivo BFT de 100 m3

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Em um dos experimentos (de 12 a 18g) o crescimento foi afetado pelas diferentes densidades de estocagem (p<0,05), e a sobrevivência não foi afetada até 880 camarões/m3. A maior biomassa conseguida foi 14,94 kg/m3 na densidade de estocagem de 1320/m3, entretanto a sobrevivência foi significativamente menor (75%) (P<0,05). Os resultados aqui apresentados evidenciam que L. vannamei teve desempenho ainda superior em termos de produção de biomassa por volume, quando comparado com os dados de Otoshi et al. (2008) no Oceanic Institute (Hawaii, EUA), onde foi obtida a produtividade de 10,3 kg/m2 (103 ton/ha), com uma densidade de estocagem inicial de 828 camarões/m2 e densidade final de 562 camarões/m2. Baseando-se nos resultados de biomassa por volume, na tabela abaixo são apresentados os dados que expressam os melhores resultados em termos de crescimento, sobrevivência e biomassa produzida (Tabela 4). Os experimentos com raceways têm apresentado resultados animadores, demonstrando que a técnica é uma realidade e está pronta para ser aplicada em cultivos comerciais no país. A síntese dos resultados zootécnicos obtidos em viveiros de cultivo utilizando o sistema de flocos microbianos (BFT) no Rio Grande do Sul é apresentada na tabela 5. Estima-se que os cultivos em raceways (com estufas, no sul do Brasil) no sistema BFT seja uma al-

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ternativa viável a ser aplicada em diferentes locais em função de ocupar áreas muito pequenas. Os resultados aqui apresentados mostram que é possível se trabalhar com produtividades acima de 46 ton/ ciclo ou acima de 130 ton/ano.

Conclusões Os resultados obtidos sugerem que L. vannamei, submetido ao sistema BFT, pode ser cultivado em elevadas densidades de estocagem, desde que sejam mantidas as boas condições de qualidade da água para a espécie, através de manejo adequado. As taxas de conversão alimentar são semelhantes aos cultivos tradicionais, as sobrevivências são significativamente superiores e a produtividade é no mínimo 10 vezes maior que em viveiros que não usam o sistema BFT.

Agradecimentos Os autores agradecem ao apoio da AQUATEC, Trevisan, CNPq, FAPERGS, Secretaria da Ciência e Tecnologia (RS) e Ministério da Pesca e Aquacultura (MPA). Referências Bibliográficas disponíveis na ABCC

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