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Cultura... A Consciência segundo Damásio António Damásio nasceu em Lisboa, 25 de Fevereiro de 1944, é um médico neurologista, trabalha no estudo do cérebro e das emoções humanas. Actualmente é professor de Neurociência na University of Southern California. Licenciou-se em medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde veio também a doutorar-se. “O Erro de Descartes - Emoção, Razão e Cérebro Humano” foi a sua primeira publicação. O segundo livro publicado, “O Sentimento de Si” (2001), foi eleito um dos dez livros do ano pelo New York Times. Também escreveu “Ao encontro de Espinosa”. Recebeu, entre muitos outros prémios, o Prémio Pessoa e o Prémio Príncipe das Astúrias de Investigação Científica e Técnica em Junho de 2005. Estudioso de neurobiologia do comportamento humano é investigador das áreas cerebrais responsáveis pela tomada de decisões e conduta. Observou o comportamento em centenas de doentes com lesões no córtex pré-frontal, permitindo concluir que, embora a capacidade intelectual se mantivesse intacta, esses doentes apresentavam mudanças constantes do comportamento social e incapacidade de estabelecer e respeitar regras sociais. Desidério Murcho refere que, segundo Damásio, a consciência é um fenómeno biológico e natural, que emerge nos seres vivos com um certo grau de complexidade. Esta ideia não é nova. O que é novo é o facto de Damásio apresentar um desenvolvimento pormenorizado desta ideia. Do ponto de vista apresentado por Damásio, a consciência é o resultado da necessidade de regulação biológica que qualquer organismo tem. O que há de espantoso em qualquer organismo é o facto de os seus estados internos não apresentarem grandes variações: se os estados internos de um organismo ultrapassarem certos valores muito limitados, o organismo morre. Em contraste com esta constância interna está a inconstância e imensa variabilidade do meio ambiente. Em consequência, os organismos têm de manter formas de regulação interna muito precisas, em conexão com a informação recebida do exterior. Simplificando um pouco podemos dizer que a consciência (quer a alargada quer a nuclear) nasce da necessidade de optimizar o processo de regulação interna. Um organismo não pode ter apenas uma imagem do que acontece no exterior e do que acontece no interior; de algum modo, tem de saber que o interior é o seu interior, é o interior de si mesmo, do organismo que está a representar o mundo exterior e interior. O eu autobiográfico, aquilo que nos permite reconhecermo-nos como nós próprios quando olhamos para o nosso passado, é uma consequência da imagem constantemente actualizada que

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o organismo tem de si mesmo. Em última análise, a identidade do eu resulta da identidade do corpo, do mesmo modo que a própria consciência resulta da necessidade de regulação biológica do corpo. A hipótese religiosa de uma alma imortal fica assim praticamente refutada: seja o que for que tal coisa seja, não será certamente o tipo de consciência que nós temos, nem terá o tipo de identidade que nós temos. Se fosse possível “tirar a alma” de um corpo humano, perder-se-ia a consciência e a identidade dessa alma: a ideia de uma alma sem um suporte biológico é tão absurda como a ideia de um fogo sem carburante e só o erro categorial denunciado por Ryle nos pode fazer conceber a alma humana como uma coisa que contingentemente habita um corpo, quando na verdade é um processo. A obra de Damásio é profunda, inteligente e estimulante. Faznos compreender como o caminho a seguir é o da integração da consciência e do eu no mundo natural, de onde Platão o retirou há mais de 2500 anos. E faz-nos perceber, maravilhados, como a ciência pode ser mais espiritual do que qualquer religião. Saudações Filosóficas O Grupo de Professores de Filosofia

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