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Editorial

(por Claudia Schulz)

Há dias em que a gente acorda e pensa que era melhor ter ficado dormindo. O vento norte parece deixar a cabeça “acorçoada” e o corpo meio preguiçoso. Mas atualmente tenho me sentido extremamente estimulada pela efervescência da cena teatral de Santa Maria, aliás, esses meses de março e abril foram uma festa só. Entre celebrações e festividades o arauto anunciava aos santa-marienses o nascimento e longevidade do teatro local. Entre doces, salgados e bebidas, sentamos para compartilhar e registrar tudo isso nessa segunda edição do Palco de Papel. Aproveite!

Em busca da liberdade. Por que não? (por Luise Scherer)

cenicamente, e as atitudes da personagem em relação ao universo em que ela está inserida. Ao meu ver, ela é uma representação alegórica da liberdade. Ela até tenta se encaixar em uma natureza feminina pré-determinada naquela época, mas ela não faz parte daquela natureza, e ela realmente não consegue. Outro fator é que o texto é brasileiro, o que me permitiu trabalhar com algo que me agrada muito: as manifestações populares brasileiras. Ele me permitia não só pesquisar essas manifestações, mas também mostrá-las no espetáculo. E na sua opinião, esse texto, que fala sobre uma mulher que tem um comportamento diferente das outras de sua época, ainda é atual? Ou a visão sobre o comportamento feminino hoje em dia mudou? Eu não acho que o texto é só atual, mas universal. O Jorge Amado coloca a personagem em situações muito comuns, que nós vemos o tempo todo, em todo lugar. Ela tenta ser educada, domada, enquadrada por aquela sociedade, tendo que fazer coisas detestáveis (do ponto de vista dela), pra parecer algo que ela não é. Ela só quer amar e ser amada, e ter liberdade pra fazer o que gosta, e por isso é reprimida pela sociedade e pelos "bons costumes" da época. O romance se passa no ano de 1925. Estamos em 2010 e a gente ainda vê muitas mulheres sofrendo às custas de preconceitos desnecessários.humanos.

Nesse mês de abril entrevistamos a atriz Juliet Castaldello que estará apresentando seu monólogo, uma livre adaptação da obra “Gabriela, Cravo e Canela” de Jorge Amado. Então, Juliet, gostaria que você falasse um pouco do espetáculo que vai mostrar dia 23 no Palco Fora do Eixo, e o que lhe motivou a montar um monólogo com esse texto do Jorge Amado. O espetáculo se chama Gabriela, Cravo e Canela e é uma livre adaptação pra monólogo (minha e da professora Aline Castaman) do romance do Jorge Amado. A peça conta a trajetória da personagem de Gabriela e a história que ela vive com o árabe Nacib, dono de um bar na cidade, que, ao contratá-la como cozinheira, se apaixona por ela. De uma forma natural e genuína, a personagem vai encantando e hipnotizando muitos dos homens da cidade, contestando a repressão e o machismo impostos por aquela sociedade, e colocando em cheque a lei local que exigia que o adultério feminino fosse lavado com sangue. O que me motivou a montar um monólogo com esse texto foi principalmente a trajetória da personagem, a possibilidade que eu via de concretizar essa trajetória

Você está no último ano do curso de Artes Cênicas. O que você acha que mudou no panorama teatral da cidade desde a época em que você entrou no curso? Sim, estou no último ano. Mas isso não quer dizer muita coisa, faz só três anos que eu tô aqui, desde abril de 2007. O que eu acho que mudou nesse pouco tempo, é que parece que a cidade está começando a "acordar" pro teatro (ou a gente quer que ela acorde). Eu ando observando isso desde o ano passado, em função dos projetos que estão sendo propostos e realizados. E tem o FETISM que, na minha opinião, conta muito. Claro que ainda é pouco, comparado ao que poderia ser, mas eu acho que só tende a crescer. Pra finalizar, quais são seus planos pra depois da formatura? Pretende ir embora ou ficar em Santa Maria? Primeiramente, eu pretendo pedir reingresso pra cursar Direção Teatral, que é uma área que me interessa muito. E o grupo (o Teatro, Por Que Não?) me motiva muito a ficar aqui pra que a gente siga com as nossas produções, porque além de gostar muito de trabalhar com eles, eu também quero continuar movimentando o teatro dessa cidade. Então eu não pretendo ir embora daqui. Não tão cedo pelo menos.


O TE@TRO CAIU NA REDE (por Cláudia Schulz)

EXPEDIENTE Redação: Cláudia Schulz e Lucia Dalmaso Entrevistas: Luise Scherer, Atílio Alencar e Maurício Schneider Colunista: Maurício Schneider Revisão: Desirée Tibola e Talita Tibola Programação Visual: Elias Maroso E-mail: palcoforadoeixo@gmail.com

ATENÇÃO para os Editais Abertos: Editais abertos da FUNARTE: http://mercadocenico.blogspot.com/2010/04/editais-2010-dafunarte.html RUMOS Itaú Cultural, até dia 30/06: www.itaucultural.org.br/rumos/regulamento_teatro.pdf Programa IBERESCENA, até 03/09: http://www.iberescena.org/bases/bases.asp FESTLIP 2010 – III Festival de Teatro da Língua Portuguesa (RJ)*, até 20/04; VIII Festival Internacional de Acciones Escénicas (Lima Norte – Peru)*, até 31/05. *editais e fichas de inscrição no site: www.ciasonhar.org.br/index_arquivos/festivais.htm

AGENDA - PROGRAME-SE A agenda do Palco Fora do Eixo! Fique de olho na programação do circuito, mês a mês. 14/04 – Ditirambo – Festa do Palco Fora do Eixo, com cortejo saindo da frente do Macondo Lugar às 21 horas. Onde: Zepellin. Entrada: R$ 4,00. 23/04 – “Gabriela Cravo e Canela” – às 20hs, no Ateliê da Gare. O Grupo “Teatro, Por que não?” conta a história de amor entre o árabe Nacib, dono do bar mais famoso da cidade, e a cozinheira Gabriela, retirante que chega a Ilhéus fugindo da enorme seca que assolava o sertão nordestino. O valor do ingresso é R$ 5,00, ou R$ 3,00 + 1Kg de alimento nãoperecível. 05/05 – “Fim de Partida” – às 21h, no Macondo Lugar. Num universo profundamente hostil, degradado e submerso na enfermidade, encontram-se quatro seres corroídos pela escassez de recursos e pela espera da morte. O espetáculo também é do Grupo “Teatro, Por que Não?”, e o valor do ingresso é R$ 5,00, ou R$ 3,00 + 1Kg de alimento nãoperecível. 12/05 – Festa “Galo Preto” no Macondo Lugar. Ingressos R$ 5 e estudante não paga até as meia noite. Para maiores informações sobre as atividades do Palco Fora do Eixo em todo o país, visite o nosso blog:

palcoforadoeixo.blogspot.com

“Teatro de rua no Brasil, sozinho, nunca mais”, grita Richard Righetti, integrante da Rede Brasileira de Teatro de Rua, ao fundo das discussões da setorial de teatro na PréConferência Nacional em Brasília, ocorrida de 07 a 09 de março deste ano. Tendo a oportunidade de participar da PréConferência como delegada pela regional sul entrei em contato com diversos movimentos e organizações teatrais virtuais que fazem uso da internet dos quais até então não tinha conhecimento. A Rede Teatro d@ Floresta é um exemplo disso, definindo-se como “uma história do teatro da Amazônia do tempo presente inscrita na Web” tem o intuito de cartografar as práticas narrativas hiper-mediáticas de agentes teatrais especificamente da Amazônia Paraense, disponibilizadas na internet em diferentes ambientes e gêneros digitais. Outra rede extremamente organizada na cena te@tral brasileira por meio da web nasceu em março de 2007, em Salvador/Bahia: a Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR). Constituída por artistas-trabalhadores, grupos de rua e afins de todos os cantos do Brasil que se articulam para ampliar não somente suas ações como também a própria rede. É considerada por eles como “um espaço físico e virtual de organização horizontal, sem hierarquia, democrático e inclusivo”. De 01 a 07 de maio será realizado o 7º Encontro Nacional de Articuladores da RBTR, no RS. Entre apresentações, oficinas, risos e gargalhadas o encontro possuí “a missão de lutar por políticas públicas culturais com investimento direto do Estado em todas as instâncias: Municípios, Estados e União, para garantir o direito à produção e o acesso aos bens culturais a todos os cidadãos brasileiros; reafirmando ainda nossa luta por uma nova ordem e por um mundo socialmente justo e igualitário”. A cada encontro presencial da RBTR é elaborada uma carta manifesto que consequentemente é lançada na rede. Mesmo que cada região integrante da rede possua suas particularidades e realidades, a RBTR luta por pontos comuns como: ocupação de propriedades públicas ociosas, para sede dos grupos de pesquisa e trabalho continuado; o respeito à tradição “de passar o chapéu” nas apresentações do teatro de rua; extinção da Lei Rouanet e da LIC/RS e de quaisquer mecanismos de financiamento que utilizem a renúncia fiscal; criação de programas específicos a nível municipal, estadual e federal que contemplem produção, circulação, formação, registro, documentação, manutenção e pesquisa, mostras e encontros para o teatro de rua e mérito artístico na capital e interior dos estados; que os espaços públicos (ruas, praças, parques, entre outros) sejam considerados equipamentos culturais e assim contemplados na elaboração de editais públicos e no Plano Nacional de Cultura entre outros. O fazer e pensar teatro se expande e se horizontaliza por meio de organizações e articulações como estas que usufruem da rede como instrumento potencializador de ações e encontros que se materializam e inauguram o campo das trocas. No mesmo caminho, encontra-se o Palco Fora do Eixo, que abre à picareta espaços para construir uma zona de compartilhamento de modos de criação corporais contemporâneas agregando em si diferentes linguagens e segmentos das Artes Cênicas, possuindo como parceiro fundamental o Circuito Fora do Eixo, consolidada rede de música independente, que legitima a frase artista=pedreiro. Para saber mais acesse: http://teatroderuanobrasil.blogspot.com/ http://teatrodafloresta.blogspot.com/ http://www.foradoeixo.org.br/


Lançamento do Palco Fora do Eixo no Festival de São Paulo (por Lúcia Dalmaso) “Marias de Deus”(GUTE). Festival Fora do Eixo SP. Foto por Cláudia Schulz

Uma das maiores ações de circulação de artistas independentes do país, o Festival Fora do Eixo, que ocorreu de 06 a 11 de abril, apresentou algumas das suas melhores bandas nos principais palcos da noite de São Paulo. Mas a novidade não se limitava ao fato de que o circuito independente da música invade também os espaços de evidência do grande "eixão". Esse Festival Fora do Eixo foi sem dúvida marcado pela manifestação de outras linguagens artísticas, para além da já profícua produção musical. Compondo ativamente a programação do festival, com oficinas, apresentações cênicas, malabares, intervenções, o teatro foi uma das expressões que marcou presença forte nas novas manifestações artísticas que compõem essa grande rede de coletivos de produção cultural independente, o Circuito Fora do Eixo. E de fato, naqueles dias, tratava-se da primeira ação a nível nacional, do Palco Fora do Eixo, a frente que pretende, a exemplo da música, articular as iniciativas das atividades teatrais, inventariar as práticas existentes, fomentar e estimular a capacidade de criação dos fazedores de teatro dentro e fora do Circuito. A programação do Palco Fora do Eixo, integrada ao Festival, foi de três dias consecutivos de atividades que ocorreram, principalmente, no espaço Oficina Oswald de Andrade, mas também no Centro Cultural Rio Verde, Parque Trianon Masp e casas de shows. Nesses dias, além de possibilitar à comunidade local o acesso gratuito às oficinas e às atividades teatrais, os coletivos Macondo (RS), Enxame (SP) e Colmeia (SP), juntamente com os grupos parceiros, GUTE, Santa Víscera, Trio e Uhuu, puderam mostrar, desde a pré-produção do evento quanto no desenrolar do festival, boa capacidade de articulação e mobilização, desde o mapeando de espaços para as atividades, até a conquista de parceiros e companheiros nessa tarefa de fortalecimento do fazer teatral. O Palco Fora do Eixo, como mobilização das iniciativas teatrais, é expressão direta da riqueza do próprio Circuito Fora do Eixo. O lançamento do Palco foi, sem dúvida, momento marcante para que o próprio circuito pudesse se reconhecer também nas práticas teatrais. Ao acolher as diferentes linguagens artísticas, o CFE abre mais uma interface de diálogo com a sociedade e enriquece seu repertório de troca, expandindo ainda mais a rede de produtores. O Palco Fora do Eixo, ao final das atividades do festival, sai fortalecido, em pelo menos dois aspectos. O primeiro aspecto consiste no fato de que consegue organizar-se enquanto frente de trabalho a nível nacional, que pensa e invetaria suas práticas, beneficiando-se da ampla gama de tecnologias e conhecimentos desenvolvidos pelos coletivos dos mais diferentes pontos desse país. E, como segundo aspecto, conquista efetivamente o reconhecimento da importância das artes integradas dentro do Circuito (CFE), fazendo com que essa rede cresça e enriqueça cada vez mais sua capacidade de ação e mobilização cultural. Dá licença, que o Palco Fora do Eixo pede passagem e tá apenas no seus inicios! É nóis!

Correspondência sobre a hora (por Maurício Schneider) Parece haver no correr das horas uma qualidade perdida, uma necessidade constante de criação, reinvenção e contato. Entretanto, esse questionamento não alveja o trabalho artístico em cheio, mas estilhaça a realidade em diversos possíveis. Frente à burocracia do dia a dia o tão clamado "trabalho do ator sobre si mesmo" toma um sentido ruminante, e as grandes tetas do imaginário vertem em cada esquina a majestosa e líquida necessidade de dança. Os olhos ruminam imagens e no corpo explodem sensações e milhões de impressões em busca de paginamento. Enquanto isso a possibilidade de atualização presente no entruncamento corrente do cotidiano se mostra passível de ser vivenciada. Desta vez, pós-parido de um processo de finalização de minha primeira temporada na Capital Paulista onde, juntamente com a Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, apresentei o espetáculo "A hora em que não sabíamos nada uns dos outros" do dramaturgo austríaco Peter Handke, levei aquele baque que todo final de apresentação nos assalta. O processo do "A Hora" - graciosidade interna - tem inúmeras particularidades pertinentes quando se propõe pensar a relação entre ator e público, palco e platéia, e fundamentalmente arte e vida. Esse espetáculo, dirigido por Marcelo Lazaratto, vem de encontro ao público e leva ao ápice a cena enquanto "pintura em movimento" representada no cotidiano das grandes cidades; nela o espectador é conduzido através de referências sugestivas, e principalmente através de seu próprio imaginário a configurar um evento teatral particular. Didaticamente estou falando de dezesseis atores atuando em aproximadamente vinte e três "personaspersonagens" cada, o que resulta em uma soma de aproximadamente trezentos personagem percorrendo o espaço público do jardim do Parque da Luz. Entre bombeiros, beldades, Moisés, beatos, freiras, lixeiros, corredores, desconhecidos, casais e atores o público é levado a criar relações tanto usuais quanto simbólicas de uma realidade que se apresenta demasiadamente humana a seus olhos. A cada figura que irrompe a cena sem aparentemente relacionar-se com as outras - trunfo dramatúrgico - enquanto o imaginário coletivo é instantaneamente levado a se questionar sobre o que o prende nessa postura contemplativa. É sabido que o espectador há muito tempo perdeu a capacidade de ação, e que os atores em contrapartida acomodaram-se em suas estruturas de ações físico-vocais, entretanto a experiência de atuar em um espetáculo composto por "meras" passagens de personagens por um palco-espaço público, criando uma estrutura de cena aparentemente fugaz, foi capaz de redirecionar profundamente meu treinamento cotidiano. Existe nesse grande parque de convívio obrigatório que é São Paulo a possibilidade constante de trabalhar sobre as próprias ações, reformulando rotas, distendendo reações, provocando relações inusitadas e infringindo de maneira consciente no fluxo da vida a fim de criar pequenas cenas; aproveitando toda e qualquer possibilidade de conexão entre os objetos e seres em movimento. Trata-se de reproduzir manifestações capturadas, converter a energia e dispendê-la de maneira consciente a estabelecer conflitos ocasionais, aprofundar-se em reações triviais, e proporcionar a todo e qualquer movimento a qualidade poética, trágica ou cômica que lhe é merecida. O trabalho acontece a todo o momento e a absorção de vivências até então alheias é capaz de incrementar um léxico pessoal, tornando-o constante e presente a cada passo, a cada inspiração. Se há matéria pulsante capaz de promover interação entre arte e vida, ela está intrínseca no aparente "não saber uns dos outros" deste mundo veloz, nele tudo se contata, tudo se relaciona de maneira muitas vezes oculta, e é a essa opacidade aparente que é preciso se manter atento; pois é necessário ao ator apreender o máximo de si e também dos outros.


Fala Tu (por Maurício Schneider)

O Núcleo de pesquisas teatrais Santa Víscera é um coletivo de atores e diretores formado por Graciane Borges Pires, Marco Antônio Barreto e Lara Rodrigues de Bittencourt. Esse grupo oriundo da cidade de Santa Maria encontra-se hoje em São Paulo, onde pesquisa e produz. PFE - Como e sob que bases se formou o NPT Santa Víscera? Marco Antônio - A idéia do NPT começou em Santa Maria, nós nos encontrávamos em vários grupos, íamos para festivais então, da afinidade surgiu a idéia de fazer o grupo. Viemos para São Paulo com três espetáculos na bagagem, O Urso (de Anton Tchekov), Macabea (Clarice Lispector) e Sempre aquela velha história (Dario Fo); e como havia mais integrantes havia também mais espetáculos. Quando a gente chegou aqui, nos deparamos com a realidade de que não tínhamos estrutura para bancar um teatro, então cada um dos integrantes acabou rumando para outras áreas; um foi ser barista, outra garçonete, outro começou a fazer "freela" em uma produtora. Então chegou o momento em que percebemos que não conseguíamos treinar, ensaiar, nem fazer nada com relação ao teatro, foi quando decidimos largar tudo. Surgiu então a idéia de fazer doces para vender na rua, nós fomos vender de um jeito diferente, fomos caracterizados, fazíamos intervenções e vendíamos os doces. Um belo dia um cliente nos questionou quanto ao motivo de todo figurino e maquiagem, nós falamos que éramos um grupo de teatro que havia chegado em São Paulo e que queria trabalhar, pesquisar, ensaiar e apresentar; foi quando ele disse que se a gente era um grupo de teatro ele queria ver uma cena, que compraria uma cena. Eu e um ex-integrante do grupo apresentamos uma cena no meio da rua, viemos para casa e acordamos todo mundo para contar o que tinha acontecido, que possivelmente era uma idéia que poderia rolar. Foi quando a gente incrementou a idéia, fez um cardápio de cenas, escolheu alguns figurinos que tínhamos, inventou uma maneira de demarcar o espaço para que as pessoas não invadissem. Foi assim que se configurou o Vendem-se Cenas, que é o primeiro projeto do Santa Víscera em São Paulo. O vendem-se é feito com trechos de espetáculos que já fazíamos em Santa Maria que incluímos na carta de espetáculos. Lara - E algumas cenas novas que a gente criou aqui. PFE - Pode-se dizer então que o Vendem-se Cenas foi o trabalho que configurou o NPT na capital paulista. Como se encontra hoje esse projeto e o que mais foi produzido desde então? Lara - O Vendem-se acabou se tornando a nossa porta de entrada pra levar a outros lugares. Quando ele surgiu e pelo fato de apresentarmos na rua, acaba que a gente tem muito contato com as pessoas, a gente começou a conhecê-las e através disso a gente conseguiu a entrevista no Programa do Jô Soares, e com o Gilberto Dimenstain da folha de São Paulo… Marco - … Um fotografo parceiro que é o Leandro Neves… Lara - ...conhecemos também o Caio Cesma que fez alguns registros de audiovisual, e que hoje está fazendo cinema em Boston. Ele filmou todo nosso trabalho… e a gente foi fazendo parcerias assim, criando laços de um coletivo. Começamos também a levar esse projeto para a rede do Sesc, o que firmou uma parceria até hoje. Graciane - O legal é que com esse trabalho do vendem-se cenas entrando no Sesc a gente consegui mostrar outros trabalhos também, como os espetáculos que a gente trouxe. Foi pelo trabalho do Vendem-se que a gente conseguiu acesso. Marco - Acabou que agente fez quatro Sesc's do interior e quase todos da capital, a maioria com o vendem-se e posteriormente com os outros espetáculos. Lara - A gente também fez o Vendem-se para alguns eventos como o Salão Duas Rodas. PFE - Aqui em São Paulo vocês acabaram tendo que aprender a produzir o grupo; como hoje se configura a realidade do NPT entre produção, ensaios e treinamento?

Marco - Isso também foi na base da troca, tivemos um diálogo com a produtora Daniele Sampaio que é a produtora do ator Eduardo Okamoto. Agora, nesse ano a gente se divide da seguinte maneira… ano passado ficamos boa parte do tempo aprendendo sobre produção… Lara - … e fazíamos o Vendem-se para conseguir um dinheiro para o caixa do grupo, mas éramos mais produtores. Marco - .. agora a semana se divide em basicamente ensaios, treinamento e produção. Tentativas de criar novas idéias… Lara - Acaba que o NPT é uma dedicação de tempo integral, pois muitas vezes surgem idéias que levam a gente em produção noite adentro. Marco - … mas o que agente não quer é virar somente produtores. Graciane - …mas como aqui a realidade de produção é muito forte e também necessária, acaba que a gente dedica muito tempo para isso. Lara - isso é uma coisa difícil, pois a gente chegou com uma cabeça muito acadêmica, ainda hoje é uma dificuldade, mas estamos aprendendo a se expressar de maneira simples e atrativa. Acaba que cada um de nós é "uns seis", ao mesmo tempo; tenho que pensar objetivamente na produção e tenho que dar espaço para o lado que fomenta que cria, que pesquisa e que produz. Graciane - …mas como aqui a realidade de produção é muito forte e também necessária, acaba que a gente dedica muito tempo para isso. Lara - isso é uma coisa difícil, pois a gente chegou com uma cabeça muito acadêmica, ainda hoje é uma dificuldade, mas estamos aprendendo a se expressar de maneira simples e atrativa. Acaba que cada um de nós é "uns seis", ao mesmo tempo; tenho que pensar objetivamente na produção e tenho que dar espaço para o lado que fomenta que cria, que pesquisa e que produz. PFE - Recentemente vocês participaram de uma das ações do Palco Fora do Eixo com um espetáculo apresentado no festival que aconteceu aqui em São Paulo. Com foi para vocês como um coletivo vindo de Santa Maria para o eixo participar de uma ação como essa? Lara - Foi interessante, pois tem tudo a ver com a gente, a gente também é um coletivo fora do eixo. Marco - fiquei muito impressionado com a idéia da economia solidária, trocar um trabalho pelo outro, pois é como a gente trabalha também, com a troca de trabalhos. Lara - Para mim juntar as coisas que estão rolando fora do eixo gera uma troca muito boa. O Festival Fora do Eixo proporciona a interação entre diversos coletivos, entre pessoas que pesquisam, e isso vai tomando um espaço muito bom, vai descentralizando a produção. Eu acho que São Paulo tem muita arte fora do eixo, muita coisa sendo produzida à margem que é muito interessante, e uma iniciativa como essa ajuda colocar em foco esse tipo de produção. PFE - O Santa Víscera está com um novo projeto que será o primeiro espetáculo produzido em São Paulo. Como está a produção, quais os pontos parceiros nessa nova empreitada? Graciane - Esse projeto é o primeiro trabalho que não veio de Santa Maria, ele está sendo criado aqui em São Paulo. A gente estabeleceu uma parceria com a Oficina Cultural Oswald de Andrade no Bom Retiro, onde estamos pesquisando durante cinco meses para montar um espetáculo inspirado no conto A casa Tomada de Julio Cortázar que tem estréia marcada para final de Julho no teatro da Oswald. Lara - A gente tem também três ensaios abertos durando o processo…. Graciane - Fizemos também uma parceria com o Centro Vidya, com a Adriana Patias, onde fazemos aula de Yoga. Esse trabalho é uma pesquisa pessoal sobre a imaginação no processo criativo do ator, e como isso influência na ação e na manutenção de uma organicidade do trabalho tanto em sala de trabalho quanto no decorrer das apresentações. É uma inquietação que eu tenho desde os tempos da Universidade, é um risco que toda pesquisa traz. Lara - A Yoga chegou em um ótimo momento, nós fazemos um treinamento semanal que se estende para além das aulas no centro Vídya. A yoga Ashtanga acabou se tornando parte do treinamento do NPT e faz parte do processo de criação da "Casa Tomada". Além, é claro, de trazer uma homogeneidade de trabalho; como se um ideal de trabalho estivesse tomando corpo. Marco - Estamos também com um projeto chamado "Mostra Vísceral" que é a união de todos os trabalhos que a gente desenvolve, estamos ainda fechando alguns pontos, mas em breve teremos a programação fechada. Também estamos nos organizando e estudando para fechar uma temporada assim que o espetáculo for estreado. Obrigado NPT Santa Viscera e muita Merda.

Palco de Papel #2  

Segunda edição

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