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uma rev ista digital de literatura e outras artes

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nesta edição: a literatura de Gloria Kirinus e o Rio de Roberto Machado Alves palavrafiandeira.blogspot.com


número 3 bimestral - set./out.2011 São Paulo/Brasil e s ta p u b l i c a ç ã o é distribuída pela internet e n ã o p o d e s er v en d i d a

foto da capa: Igreja da Penha, RJ, Brasil por Roberto Machado Alves


Síntese O leitor irá perceber que para a terceira edição reduzimos o tamanho da revista, com o objetivo de proporcionar uma leitura dinâmica e direta. Apresentamos o total de 28 páginas e sublinhamos a expressão "menos é mais". Por sua vez, Palavra Fiandeira mantém seu compromisso com as letras e artes visuais. Seguindo a tendência da última edição, ampliamos o corpo da fonte da entrevista e de algumas legendas: a intenção é facilitar a leitura na tela. Por falar em entrevista, destacamos uma longa conversa com a escritora Gloria Kirinus. No campo da fotografia, o Rio de Janeiro é recortado em um belo ensaio colorido. A gênese da revista começou em outubro de 2009, quando seu idealizador, Marciano Vasques, publicou a primeira entrevista na internet. Logo o projeto tornou-se um blog e em maio deste ano disponibilizamos a primeira edição paginada para leitura via web e download. Um espaço multicultural a serviço do pensamento contemporâneo.


EXPEDIENTE idealização Marciano Vasques coordenação editorial Marciano Vasques edição e redação Danilo Vasques Marciano Vasques assessoria de comunicação Jéssica Lima correspondentes Rocío L' Amar (Chile) Silvia Luvizio (Uruguai) Carmen Ezequiel (Portugal) Rafael Lascano (Guatemala) no Brasil:

Maria José Amaral (PR) Marília Chartune (RS) Efigênia Coutinho (SC) projeto gráfico e diagramação Danilo Vasques editoria de arte Daniela Vasques

direção-geral Marciano Vasques

pautas e entrevistas envie sugestões para: palavrafiandeira@gmail.com recebimento de material remessa de livros (releases, resenhas, etc.) para: Marciano Vasques caixa postal 53125 CEP: 08201-970 - S. Paulo/ SP/Brasil e-books para: marcianovasques@gmail.com conteúdo promocional (fotos, releases, press kit...) para: palavrafiandeira@gmail.com comercial para anunciar, fazer uma doação, patrocinar a revista ou parte dela: palavrafiandeira@gmail.com Palavra Fiandeira não aceita publicidade redacional reprodução de conteúdo O material presente nesta revista não pode ser reproduzido sem autorização expressa dos editores. São permitidas citações textuais e apresentações em outros meios, desde que observados os contextos e a autoria dos textos e de quaisquer outros materiais

publicados em Palavra Fiandeira. Deve-se atribuir a fonte (a revista) e nomear diretamente o autor do material citado. Caso possível, recomenda-se estabelecer link ou indicação para o conteúdo original, mencionando preferencialmente a data da publicação e os números de página (s) e edição. Pode-se compartilhar em redes sociais. O conteúdo desta revista está sob a Lei nº 9.610 que versa sobre os direitos autorais. Não é permitido o uso comercial do conteúdo da revista e qualquer tipo de criação de obra derivada, não podendo o solicitante alterar, transformar ou criar sobre o conteúdo requisitado ou citado, sem prévia autorização dos responsáveis pela revista. Para reprodução de material em mídias ou veículos comerciais, o pedido deverá ser feito à direção da revista e só poderá ser utilizado após autorização expressa (preferencialmente em papel). Solicitações para: palavrafiandeira@gmail.com recebimento de releases, demais informações e contato geral palavrafiandeira@gmail.com

Palavra Fiandeira é uma criação de Marciano Vasques Palavra Fiandeira é essencialmente um espaço democrático. Primamos pela liberdade de expressão e observamos dentro de suas margens transitarem diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares: um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Buscamos a difusão da literatura e de outras artes. Propomos a exposição do pensamento contemporâneo em variadas manifestações, seja ele ficcional ou científico. Embora não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas páginas, a revista afirma-se como um meio em que a palavra é privilegiada. A troca de ideias aqui é bem-vinda. Marciano Vasques


ÍNDICE p a i n el 6 -7 a a r te d a i l u s tr a ç ã o n a l i te r a tu r a d e Marciano Vasques 8 -9 e n t r e v i s t a c om G l or i a K i r i n u s 1 0 -2 1

foto: Roberto Machado Alves

a f ot og r a f i a d e R ob e r t o M a c h a d o A l v e s 2 2 -2 5 q u a d r i n h os 26

palavrafiandeira.blogspot.com


Painel

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Omar Sharif em cena de Doutor Jivago (Doctor Zhivago, dir.: David Lean, E.U.A. 1968) reprodução/divulgação

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a arte da ilustração na literatura de Marciano Vasques Márcia Széliga (acima à esq.) em Griselma (Noovha América) Ana Terra (acima à dir.) em Espantalhos (Noovha América) Walter Lara (à dir.) em As Duas Borboletas (Franco)

Glair Arruda (na página ao lado) em Mistérios para Nicole (Noovha América)

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Curitiba, Brasil, via e-mail

É preciso que a força da poesia invada os corações aflitos. Ela é mesmo uma força, que está além do simples trançar das letras, das rimas, dos rumos e dos muros. Talvez seja apenas a mais delicada forma de se dizer. Aquilo que está nela é ela. PALAVRA FIANDEIRA é também poesia, e vela pelos que embelezam a alma. Nesta edição uma poetisa, uma escritora, uma autora de livros infantis. Ouçamos a sua palavra, vamos nos enredar em sua leveza. Quem sabe ela nos poderá dizer que o mundo pode ser como o menino e a menina querem. Com vocês, PALAVRA FIANDEIRA! Seguindo a sua audaciosa trilha da felicidade. por Marciano Vasques, editor casaazuldaliteratura.blogspot.com

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fotos: acervo pessoal/reprodução


1. Quem é Gloria Kirinus? No espaço: um pouco peruana, um pouco brasileira. No tempo: uma sexagenária distraída que perdeu de vista a folhinha que marca os anos. Na vida: escritora, leitora, mulher, mãe, avó, filha, irmã, amiga. No trabalho: formiga e cigarra inventando ofícios todo dia... com alguns títulos acadêmicos para avalizar as ousadias. No planeta Terra: uma habitante a mais. No céu astrológico: canceriana, com lua dupla e ascendente em Aquário. 2. Em um de seus cursos, disse que "Ler, Escrever e Compreender um poema ajuda a respirar melhor". Fale-nos sobre isso. No momento em que estou finalizando um livro teórico, “Sintomas de Poesia na Infância”, onde aproveito a terminologia médica para equilibrá-la com a conduta poética da criança, essa pergunta é bem pertinente. Não vou sozinha nessa percepção da poesia como canal de autoconhecimento e cura do corpo e da alma. Bachelard me acom-

No blog Entrevista publicada em 15.dez.2009

panha. É ele quem diz: “toda criação deve superar uma ansiedade. Criar é desatar uma angústia. Deixamos de respirar quando somos convidados a um esforço novo. Há assim uma espécie de asma do trabalho no limiar de toda aprendizagem” (em “A Terra e os Devaneios da Vontade”, p. 114). Não duvido que ler, escrever e compreender um poema ajude não apenas a respirar melhor, como também a viver melhor. Algo do córtex frontal deve ser tocado com a leitura e a escrita. Algo de contaminação feliz deve provocar uma inédita dança celular no corpo e na alma. Algo... Mas quem sou eu para entrar em áreas que apenas adivinho? 3. No curso “Lavra-Palavra”, revela a sua paixão pelo poético na oralidade infantil. Em que momento da sua vida tal paixão começou a se manifestar? O curso “Lavra-Palavra” foi meu melhor invento. É por causa dele que conheci muita parte do Brasil. E a cada curso ministrado amplio e ganho aval precioso dos participantes. Não são poucos os que se descobriram poetas com o curso. Eles estão por aí, com suas publicações. E, às

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vezes, alguns brincam de aprendizes e visitam o curso quando o encontram nas suas cidades. Digo, então, não tenho mais nada para ensinar a você. E ficamos cúmplices de um aprendizado que nunca termina. A oralidade infantil me cativa e surpreende. Numa época da minha vida fui professora do atelier de literatura, das primeiras séries, no colégio Integral de Curitiba. Foi ali que nasceu o “Lavra-Palavra”, movido pela fertilidade poética da oralidade infantil. Além disso, sou mãe de três filhos que já foram crianças e sou avó. Sempre me chamou muito a atenção essa percepção poética do mundo que as crianças demonstram a cada conversa.

Esther, Aracne, Ariadne, essas mulheres que adoram fiar e desfiar os desafios da vida e do texto. Juntar fios e organizar os mesmos, num acabamento estético é nossa arte. Mas somente nós sabemos dos avessos do pano. Quanto tecido desfeito pela fiandeira exigente. Quanto nó solto ou com arremate firme. O lado direito é o texto final, acabado. É o resultado de muita trama, muito tear que o leitor terá o prazer de ler. 5. Sintomas da poesia, da filosofia, da felicidade. Eis aí coisas extraordinárias. A sua literatura é uma busca da felicidade?

4. Uma criatura fiandeira sempre merece o nosso respeito. Quem é a Aranha Castanha, de seu livro "Aranha Castanha e outras tramas"?

“Sintomas de Poesia” é o título de um livro teórico que está no prelo e deve ser publicado em 2010. A Literatura, entre outras artes é uma contraindicação contra a morte. O autor se multi-

A primeira crônica explica. O fato foi real. Constatei uma aranha no meu travesseiro. O espelho me devolveu um terceiro olho na minha testa. Motivo suficiente para desenvolver o texto. Mas como eu sou um pouco castanha e sou fiandeira de palavras, nada impede que divida esta identificação com a aranha castanha, que graças a Deus, não é marrom, do contrário seria mortal. E esta aqui é apenas estranha. Em suma a “aranha castanha” é uma rendeira que aprendeu as manhas com a Sherazade, com Penélope, com

Bio Gloria Kirinus nasceu no Peru e reside no Brasil. Em sua página oficial aborda a nacionalidade que a divide: Sou peruana do Brasil, ou brasileira do Peru? É autora de Literatura infanto-juvenil bilíngue e de livros teóricos na área de Letras e Educação. Fundou o curso de criação literária e pedagogia poética: "LavraPalavra". É pós-doutoranda (C.E.A.Q /Sorbonne – Paris), doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada (USP) e mestre em Literatura Brasileira (PUCRJ).

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plica em outros e de tanto não caber em si é capaz de sentir como Mário de Andrade: eu sou trezentos, sou trezentos e cincoenta, mas quem sabe, um dia, toparei comigo. Só que nenhum criador quer topar com ele mesmo. Daí para de procurar-se entre os trezentos, entre os trezentos e cincoenta... Como não ser feliz com a companhia e possibilidade do viver com diversos personagens da literatura? Como não descobrir-se neles? E se o desamor te pega de assalto, como não encontrar outro amor que não maltrate ninguém, na leitura de Tomás Antonio Gonzaga, por exemplo? Quem não foi a Marília de Dirceu, ouvindo as palavras bonitas, na leitura do poeta árcade? Minha literatura permite que as montanhas ou os sapatos conversem. E junto formiga com cigarra (formigarra/cigamiga) e tartaruga com lira (Tartalira). Será esta uma maneira de promover a conciliação de aparentes apostos? De unir as disjunções? Então, talvez escrever seja uma maneira de ser feliz. 6. Seu enredo passa pela Pedagogia Freinet, pode sintetizar ao leitor tal pedagogia, destacando um de seus princípios? Meu enredo? Olha que você está acreditando mesmo que eu tenho alguma cumplicidade com a “aranha castanha”(risos). O meu encontro com Célestin Freinet foi um acontecimento na minha vida. Quando aconteceu o encontro internacional de educa-

dores Freinet (RIDEF)em Florianópolis, a diretora da escola onde eu lecionava me pediu que representasse a escola, com minha oficina “Lavra-Palavra”. É claro, que não aceitei. Eu nem sabia quem era Freinet. Quando levei este argumento, ela me falou muito categórica e serena, ao mesmo tempo: Freinet é você. Levei tamanho susto, porque eu estava viva e nem me imaginava homem. Voltei para casa com uma pilha de livros de Freinet. Me reconheci em muitos momentos. E até agora, muito do que falo em relação a educação, mais tarde confirmo em Freinet. 7. Há um grupo de curitibanos apoiado pela senhora, com estudos e produções baseadas em Heráclito e Bachelard. Está certa a minha afirmação? Conte-nos sobre esse grupo. Ah, eles são meus poetas da Biblioteca Pública do Paraná. Devo a eles a qualidade de ser palestrita com plateia garantida. Nunca me abandonam e nem me deixam falando sozinha. Então, são eles que me apoiam e não o contrário. E são meus interlocutores também. Logo, logo, o link desta entrevista estará fazendo parte de inúmeros blogs e redes de contato que eles muito bem administram. Acompanharam minha pesquisa de pós-doutorado: Tempo de Maradigmas. Esta pesquisa tem muito de Heráclito e

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"Acho importantíssimo de Bachelard. E por aí vamos, e estar entre por aí vão, me fazendo acredinossos pares" tar que a poesia reconstrói nosso olhar e nossa relação com o mundo. No momento estou escrevendo a apresentação do noimportância atribui à particivo livro do grupo: Pó&teias II. pação em entidades repre8. Riqueza de imaginário e sentativas dos escritores? de esperanças, o texto comovente de seu livro O Sapato Acho importantíssimo estar enFalador: Como surgiu a inspi- tre nossos pares. Acho tão importante que até aceitei a ração ou a ideia desse livro? representação da mesma, no PaNa época que eu tinha TV, assis- raná. Estamos acompanhando tia por volta de 1984 cenas de os avanços a nível nacional em uma trágica enchente no sul do relação aos nossos interesses, país. “O Sapato Falador” foi como classe leitora e escritora. meu primeiro livro editado em Acompanho na nossa lista de dis1985. Agora, reeditado pela Cor- cussão pelo Yahoo! as opiniões, tez, coincidiu com nova enchen- descobertas, modalidades de te no sul do país. Acho que o conduta diante do mercado edisapato novo, o sapato que se torial, indagações, respostas, deganha é um objeto mágico e bates, com muito interesse. cheio de encantamentos. É lá on- Muitas vezes recorro à lista de está o pé. Lá onde estamos si- quando preciso esclarecer algutuados. Lá onde pisamos e ma dúvida. Há sempre alguém andamos. Um sapato é esquerdo que tem mais experiência em e outro é direito. Aqui tempos determinado aspecto. E como é outra conversa entre diferentes. bom socializar estas experiênciMas a caminhada sugere um as. Sinto que a AEILIJ (Associacompasso, um acordo. O livro ção de Escritores e Ilustradores me trouxe muitas alegrias. Recen- de Literatura Infantil e Juvenil) temente ele foi lançado na Feira está passando por um processo do Livro de Porto Alegre e recebi muito rico de fortalecimento, de retornos muito significativos de visibilidade e isto não foi nada leitores de todas as idades. Por improvisado. São dez anos de mim, que “O Sapato Falador” trabalho pelas diferentes diretorias pelas quais passou. fale muito ainda.

9. A senhora demonstra sen- 10. Literatura Infantil é só tir satisfação em participar para crianças? de uma associação de luta dos autores. Como vê e qual É para todo leitor. Gosto de cha-

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má-la de adulto-infanto-juvenil. Bartolomeu Campos de Queirós faz uma pergunta bem oportuna nesse sentido: existe uma árvore para adulto e outra para criança? Respondendo esta pergunta digo que não existe nem árvore, nem lua, nem mar sujeito a compartimentos estanques. E nem existe livro para o dia do índio, dia do médico, dia do papel, dia da vacina, nada disso. Escrevemos para crianças e sabemos que os adultos selecionam os livros e temos esses leitores encantados com nossa literatura infanto-juvenil. E a literatura infanto-juvenil brasileira tem grande prestigio no exterior. Já conferi isso em feiras de livros e encontros de literatura Internacional. O público não completa a visita se antes não passar no stand do Brasil. Só fico um pouco sem graça quando me chamam de autora infantil. É engraçado, vai ver que é por isso que nem notei que completei sessenta anos e completarei em breve vinte e cinco anos de autora.

nome, por força de uma bela ambiguidade corresponde também a amado. Quer mais felicidade que essa? Já que é um pouco tarde para mudar meu sobrenome, outra solução seria morar numa cidade chamada Felicidade. E já vi que ela existe. Daí as pessoas perguntariam: onde você mora? Em Felicidade. Quando fico triste, em Curitiba, e a felicidade foge de mim, vou para Santa Felicidade, um bairro italiano e gastronômico aqui perto. Parece que volto com a felicidade a tiracolo para casa. Em resumo, para mim a felicidade vem carregada de palavras. E eu as procuro em todo lugar, nas feiras livres, nos livros, nas ruas, no ônibus... Daí o sucesso do mexicano Agustín Lara: acuerdate de Acapulco, Maria bonita, Maria del alma... Nunca estive em Acapulco e nem me chamo Maria, mas sei que de alguma maneira ele canta pra mim.

12. Diga-nos sobre um autor ou um livro que possa real11. Tema recorrente nas entre- mente ter influenciado a sua vistas de PALAVRA FIANDEIRA, vida, de alguma forma. que já foi motivo de estudos entre filósofos e escritores atra- Esta é a pergunta mais difícil: Herávés dos tempos, o que é para clito? Guimarães Rosa? Monteiro Lobato? César Vallejo, na poesia? a senhora a felicidade? As mil e uma noites? Estou lendo Ser amada. Quando pergunta- com meus alunos, de um curso ram uma vez para Jorge Amado para formação de mediadores por que escrever, ele respondeu de leitura, este livro infinito. No “para ser Amado”. Vejo aí a con- momento, para mim, este curso firmação de uma identidade exis- e esta leitura é o melhor presentencial e social. Ele foi Jorge te recebido este ano. Uma históAmado. Mas esse Amado sobre- ria chama outra e outra e outra...

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13. Enxurrada de poetas na Internet, essa biblioteca infinita. A estética e a qualidade reduzida, o brilho a qualquer custo. Milhões de internautas são poetas. Nunca o mundo teve tanto poetas. Como interpreta isso? Os poetas com essência poética prevalecerão. A Ruth Rocha falou numa entrevista que talento aparece. Um dia, aparece. Bons poetas serão descobertos e aparecerão. Outros, talvez descubram, lendo os bons poetas, que estão em dívida com a poesia e aprenderão. O princípio democrático que permite que todo mundo se atribua o nome de poeta somente se sustenta com poesia, com vasta e profunda poesia, aquela que seja capaz de acordar o Lázaro mais profundo e sonolento que nos habita. 14. A internet aprofundou a proliferação de poetas encomiásticos, que, em grupos, associações, entidades, listas, etc, ficam elogiando-se entre si. Como vê esse fenômeno? É uma recuperação tribal viva. Que continuem proliferando. Que continuem se elogiando, numa espécie de conspiração vital pela arte. Entendo sua pergunta. Talvez esperasse uma crítica a esta atitude, mas vou pelo contrário, na companhia dionisíaca do prazer de estar em rede, de estar-junto de saber-se em estado de pertencimento grupal. Isto é de uma atualidade bárbara.

O cotidiano que se enraíza antropologicamente em tempos milenares. Grupos, associações, entidades, listas, são marcas reais de um imaginário que desde sempre nos espia, com seu olho congregador. 15. Embora todos, obviamente, sejam importantes, se tivesse que falar de um de seus livros, qual deles escolheria? Dentre os teóricos é fácil escolher: Criança e Poesia na pedagogia Freinet (Paulinas). Dentre os literários... Formigarra/Cigamiga (tentando reeditar). E dentre os bilíngues “Quando as montanhas conversam/Cuando los cerros conversan” (Paulinas). Dentre os juvenis: “Aranha Castanha e outras tramas”... Esta pergunta também é difícil. Como escolher? Essa história de pedir pra mãe: qual o filho mais amado? Bom é descobrir qual o livro preferido do leitor. 16. Muitos permanecem na crença do "Eu não cito o outro, o outro não existe". Não é um comportamento literário apenas, ocorre de um modo geral nas artes. Como conviver com esse tipo de consciência? Qual a contribuição que um escritor pode dar para modificar tal coisa? E ocorre também nas ciências e na política. É pertinente ao humano. Será que nos cabe querer mudar isso? Vejo com serenidade o

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ego que atua cortando fios dos outros aqui e lá. Eles não sabem o que fazem. E não sabem que o mundo é uma rede infinita de conexões. Uma teia onde um se encontra com o outro quando menos espera. E a magia da internet colabora e muito para aproximar as pessoas. Hoje em dia não há problema nenhum se alguém se queixa de não ser citado aqui ou lá. Enquanto acontece essa queixa, pode estar sendo citado, num canto do mundo que nem imagina. Nada melhor do que admirar genuinamente a arte e o talento do colega. Isto é um exercício estético e humanizador. Estas entrevistas da PALAVRA FIANDEIRA estão na contracorrente de atitudes menores. Há um exercício de olhar a arte do outro. Nesse sentido me sinto profundamente agradecida e bem “existida”.

"A crônica permite dialogar com o cotidiano, ser interlocutor dos detalhes"

do sobre eles, sobre seus interesses, suas rebeldias, suas expressões tão definitivas, traduzidas pelas palavras sempre, nunca, jamais, juro, impossível. Um universo que eu não conhecia e fico também fascinada pela força expressiva deles e pelo jeito que tomam a vida com tanta determinação e preocupação com a questão profissional. Na oficina procuro levá-los ao encontro com o imaginário que eles chamam de “viajar na maionese” e morrem de medo de “pagar mico”. Daí, aos poucos, soltam-se e fazem as pazes com a maionese e até com o mico. Depois de muito riso, come17. A senhora realiza tam- çam a escrever. Com a rigidez bém oficinas e cursos de crôni- de qualquer tipo de tensão, a cas e contos. Fale-nos da escrita não se solta e não aconcrônica na formação do leitor tece. A crônica permite dialogar com o cotidiano, ser interlocujuvenil. tor dos detalhes mínimos que Desde 2004 estou inventando são ampliados pela percepção e meu trabalho. E desde 2006 habilidade do cronista. E exige que trabalho diretamente com a escrita rápida. A inspiração é oficinas de criação literária e de o tempo tirano que quer hora e leitura pela Fundação Cultural dia para receber a crônica nova. de Curitiba e pelo Paço da Liberdade. Curitiba está ficando uma 18. É lenda ou realidade o cidade bem literária e esta mu- que afirma o sistema editoridança é recente, ou talvez eu al, de que poesia não vennão a descobri antes? No mo- de? Caso seja real, a que mento estou ministrando ofici- atribui tal situação? nas de crônicas para adultos e para jovens bem jovens. Em rela- Será que essa afirmação não foi ção aos jovens, estou aprenden- fabricada? Já cheguei a pensar

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"Em reuniões burocráticas devo ter deixado escapar alguma poesia"

nisso, porque eu constato que as pessoas gostam de poesia e comprariam mais livros de poesia se os atendentes de livraria não estivessem sempre com respostas como: “ o livro está no sistema, mas não na livraria”; “esgotado”; “se encomendar o livro, mandam trazer”... Essas respostas desanimam qualquer leitor. Já me aconteceu de pedir livros de Sidónio Muralha nas livrarias da cidade. Ele é um poeta português que casou com Curitiba e morou bom tempo aqui. Os livreiros não sabiam quem ele era. Eu precisava repetir várias vezes o nome. E quando falaram que os livros dele não tinham e que iriam fazer pedido, etc. e tal... Eu mesma fui achar os mesmos na estante. Acho que a poesia não está disponível. Isso é diferente do que afirmar que poesia não vende. Tenho dois livros de poesia “Se Tivesse Tempo” e “Lâmpada de Lua”. E eles foram bem vendidos, enquanto estavam disponíveis. Tomara que eles sejam reeditados em breve. 19. A senhora destoa, pude reparar certa vez ao sentir a força expressiva de sua poética numa lista de relacionamentos literários de luta pela regulamentação dos direitos trabalhistas do escri-

tor e do ilustrador, quando apareceu com uma intervenção puramente poética. De fato, "a poesia não pede licença e às vezes escapa em momentos pouco convenientes, causando estranhamento", como a senhora mesma disse. Falando nisso, quando a poesia entrou em sua vida? A poesia não pede licença para acontecer. Eu somente percebo isso quando os outros (interlocutores) observam isto de alguma maneira. Em reuniões burocráticas devo ter deixado escapar alguma poesia. Ou nas perguntas que faço quando vou ao mercado, ao banco, ou nas orientações que dou para eventuais empregados. Uma vez estava ensinando uma diarista a acomodar melhor a roupa que ela devia passar para ganhar tempo e ser mais prática. Não lembro exatamente o que eu falei. Sei que falei das golas e dos punhos e das mangas. Reparei no olhar extasiado dela (como se estivesse vendo um fantasma ou algo extraordinário). Daí ela completou: a senhora fala tão bonito!... Parece que coloca as palavras dentro de uma música. É claro que perdi a lição de passar roupa e passei para a didática da percepção de poesia. Essa foi uma definição de poesia muito espontânea semelhante àquela respondida por Ricardo Reis/Fernando Pessoa: “música que se faz com ideias”. Respondendo sua pergunta: Será que a poesia entrou desde

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que nasci? Se ela me acompanha desde as primeiras palavras, talvez ela tenha se afirmado quando vim morar no Brasil. Como estrangeira prestei mais atenção nas palavras. Era uma questão de sobrevivência. E foi a poesia que definiu minha estadia definitiva aqui. Gostei demais da expressão “fazer arte”. É claro que ficaria morando num país onde todo mundo faz arte! Ah, outra expressão brasileira que gosto muito e me custou algum esforço de compreensão: cor de burro quando foge. Há outras extremamente singulares: dor de cotovelo, por exemplo. E ainda, criado-mudo... São intermináveis as palavras que aprendi com minha escuta de estrangeira. O português é uma língua estrangeira ri-

ca em analogias e metáforas... Além da preciosa sonoridade, claro. Por isso sempre digo que o português do Brasil é minha língua literária. 20. Deixe uma mensagem para o leitor de PALAVRA FIANDEIRA. Deixo uma pergunta: qual a aranha fiandeira que lhe contou sobre esses tantos fios meus? Faz tempo que não respondia uma entrevista tão provocante como esta aqui. Obrigadíssima pela oportunidade desta prosa com os leitores de PALAVRA FIANDEIRA. E para os leitores, meu carinho enorme e minha vontade de continuar esta conversa até o ano que vem e mais o seguinte.

Como tecer Gloria Kirinus? por Marciano Vasques Como compreender a sua força poética, mansamente refugiada nas frestas dos afazeres cotidianos? Talvez seja de fato apenas uma observadora, ou esteja a extrair dos cantos e recantos das cidades por onde vagueia, a poesia, aquela que a si catalisa o que é puro e sincero. Ela batiza o mundo com as suas sílabas, escreve para crianças, e tateia ousadas reflexões. Gloria Kirinus é poeta, e tem consciência da sua imensa responsabilidade, por isso transita longe das flores banais. Consegue estar no olhar da criança, e, dona do aprendizado do cerzir as cicatrizes, também encanta-se com a oralidade infantil, por isso segue com verso e conversa com os pequenos. É teórica e é prática, e a sua prática reside no poetizar. É assim que responde ao mundo e é assim que demonstra o seu estar. Com a sua palavra fiandeira nos leva ao acalanto dos olhos e nos enriquece.

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a arte de Roberto Machado Alves psicólogo, começou a fotografar como uma forma de "distração". Hoje a fotografia ocupa um papel fundamental em sua vida, como anota em um de seus blogs. O Rio de Janeiro, cidade onde nasceu e vive atualmente, é figura recorrente em sua obra; veja alguns exemplos a seguir.

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fotos: Roberto Machado Alves


mais em robertomachadoalves.com.br


Quadrinhos

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o espaço do leitor Que tal mandar uma mensagem e contar o que achou da revista? Caso autorize, sua carta poderá ser publicada na íntegra ou em forma resumida em papel: caixa postal 53125 CEP: 08201-970 São Paulo/Brasil

carteiro

pela internet: palavrafiandeira@gmail.com

"Pecezinho (o pequeno corrupto)" apareceu pela primeira vez no jornal "O Progresso", propriedade de Pedro Lucente, Brotas (SP). Argumento de Regina Sormani e arte de Marchi.

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Rio de Janeiro, Brasil fotografia de Roberto Machado Alves

Palavra Fiandeira - Número 3  

Terceira edição da revista Palavra Fiandeira, uma iniciativa dedicada ao intercâmbio cultural. Apresentamos 28 páginas que percorrem verbos...

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