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uma rev ista digital de literatura e outras artes

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edição natalina

pa l a v r a f i a n de i r a . bl o g s po t . co m


número 4 bimestral - nov./dez.2011 São Paulo/Brasil

Edições anteriores

e s ta p u b l i c a ç ã o é distribuída pela internet e n ã o p o d e s er v en d i d a

número 3 set./out.2011 28 páginas Em http://issuu.com/palavrafiandeira/docs/palavra_fiandeira_terceira_edicao

número 2 jul./ago.2011 40 páginas Em http://issuu.com/palavrafiandeira/docs/palavra_fiandeira_segunda_edicao

número 1 mai./jun.2011 48 páginas Em http://issuu.com/palavrafiandeira/docs/palavra_fiandeira_primeira_edicao


À espera dos guizos O ano finda. Nesta edição especial, reproduzimos crônicas de cinco distintos autores que, em comum, compactuaram um único tema: o Natal. São visões ímpares e estilos marcantes que temos a honra de partilhar aqui. Do Brasil, recebemos a autora Angela Leite Souza, o escritor Edson Gabriel Garcia e a publicitária Jéssica Lima. De Portugal, apresentamos a escritora Carmen Ezequiel e, da Espanha, a cronista e blogueira Montserrat Llagostera Vilaró, que fotografou ainda um pedacinho da sua Valencia publicado nas páginas 9 e 10. Aos melhores votos festivos, apresentamos a quarta edição de Palavra Fiandeira. Que as comemorações natalinas observadas em tantas e diversas nações sejam acalantadas pelas páginas a seguir. Os textos foram originalmente publicados no blog na manhã de 24 de dezembro de 2010


EXPEDIENTE idealização Marciano Vasques coordenação editorial Marciano Vasques edição e redação Danilo Vasques Marciano Vasques assessoria de comunicação Jéssica Lima correspondentes Rocío L' Amar (Chile) Silvia Luvizio (Uruguai) Carmen Ezequiel (Portugal) Rafael Lascano (Guatemala) no Brasil:

Maria José Amaral (PR) Marília Chartune (RS) Efigênia Coutinho (SC) projeto gráfico e diagramação Danilo Vasques editoria de arte Daniela Vasques jornalista responsável Danilo Vasques

direção-geral Marciano Vasques

pautas e entrevistas envie sugestões para: palavrafiandeira@gmail.com recebimento de material remessa de livros (releases, resenhas, etc.) para: Marciano Vasques caixa postal 53125 CEP: 08201-970 - S. Paulo/ SP/Brasil e-books para: marcianovasques@gmail.com conteúdo promocional (fotos, releases, press kit...) para: palavrafiandeira@gmail.com comercial para anunciar, fazer uma doação, patrocinar a revista ou parte dela: palavrafiandeira@gmail.com Palavra Fiandeira não aceita publicidade redacional reprodução de conteúdo O material presente nesta revista não pode ser reproduzido sem autorização expressa dos editores. São permitidas citações textuais e apresentações em outros meios, desde que observados os contextos e a autoria dos textos e de quaisquer outros materiais

publicados em Palavra Fiandeira. Deve-se atribuir a fonte (a revista) e nomear diretamente o autor do material citado. Caso possível, recomenda-se estabelecer link ou indicação para o conteúdo original, mencionando preferencialmente a data da publicação e os números de página (s) e edição. Pode-se compartilhar em redes sociais. O conteúdo desta revista está sob a Lei nº 9.610 que versa sobre os direitos autorais. Não é permitido o uso comercial do conteúdo da revista e qualquer tipo de criação de obra derivada, não podendo o solicitante alterar, transformar ou criar sobre o conteúdo requisitado ou citado, sem prévia autorização dos responsáveis pela revista. Para reprodução de material em mídias ou veículos comerciais, o pedido deverá ser feito à direção da revista e só poderá ser utilizado após autorização expressa (preferencialmente em papel). Solicitações para: palavrafiandeira@gmail.com recebimento de releases, demais informações e contato geral palavrafiandeira@gmail.com

Palavra Fiandeira é uma criação de Marciano Vasques Palavra Fiandeira é essencialmente um espaço democrático. Primamos pela liberdade de expressão e observamos dentro de suas margens transitarem diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares: um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Buscamos a difusão da literatura e de outras artes. Propomos a exposição do pensamento contemporâneo em variadas manifestações, seja ele ficcional ou científico. Embora não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas páginas, a revista afirma-se como um meio em que a palavra é privilegiada. A troca de ideias aqui é bem-vinda. Marciano Vasques


ÍNDICE foto: Danilo Vasques/2008

Painel 6 -7 Ja n e l a 8 -9 C r ôn i c a s N a t a l i n a s : E d s on G a b r i e l G a r c i a 1 2 -1 4 A n g e l a L e i t e S ou z a 1 5 -1 6 C a r m e n E ze q u i e l 1 7 -2 0 Montserrat Llagostera Vilaró 21 Jé s s i c a L i m a 2 2 -2 3 L e n te 2 4 -2 5

palavrafiandeira.blogspot.com

Q u a d r i n h os 2 6 -2 7


Painel

Gigliola Cinqueti em cena de Dio, como ti amo! (dir.: Miguel Iglesias, Espanha-Itália, 1966) reprodução/divulgação

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Janela

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Valencia, Espanha 10/11/2011 por Montserrat Llagostera Vilaró autora da crônica Una niña detrás de una ventanita leia na página 21

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Memórias de um Papai Noel

tas que eu havia preparado serviu muito pouco. Eu até já sapor Edson Gabriel Garcia bia disso. Uma vez tinha lido escritor (Brasil) num desses manuais de redação, que uma boa entrevista acontece mesmo sem roteiro. Se a conversa é boa, se o assunQue fique bem claro: eu não sou to é interessante, a própria enjornalista. Gosto muito, é verda- trevista dita o rumo e o roteiro. de, de escrever, mas daí a me Gravei toda a conversa e anotei considerar um jornalista vai muita coisa. O relato a seguir é uma distância imensa. Apesar apenas uma parte muito pequedisso, todas as vezes que o Fer- na do que conversamos e anonando do jornal "A Voz da tei. É apenas o que cabe no Comarca" me chama para rabis- jornal. O resto, guardei comigo, car algumas ideias e publicá-las, nas fitas, nas anotações, na lembrança. Mantive o relato em prieu atendo imediatamente. meira pessoa, como se o Não foi diferente dessa vez, quan- próprio Papai Noel estivesse condo ele me pediu que fizesse uma versando com o leitor. Talvez asentrevista com o Zé do Bucho, o sim pudesse passar um pouco sujeito que mais vezes se vestiu mais de emoção. de Papai Noel na cidade. O Zé preparava sua aposentadoria e “Eu não nasci Papai Noel. Eu me este seria seu último natal noeli- tornei Papai Noel, por acaso, e no. Além da homenagem, a depois por vontade própria e entrevista poderia registrar as prazer. A primeira vez que me chamaram para ser Papai Noel memórias de muitos de nós. eu achei estranho, mas topei. Encantado com o convite, aceitei Embora fossebarrigaem volta na hora. Acertamos a data de en- da cintura já ia grande e a bartrega do material, marquei o dia ba, que sempre usei para esconda entrevista com o Zé do Bucho, der uma cicatriz no rosto, preparei o roteiro das perguntas... ameaçava a presença de fios brancos. O convite veio do proe lá fui eu conversar com ele. vedor da Santa Casa, o único Conversamos durante umas du- hospital da região, recém inauas horas e o roteiro de pergun- gurado, parecendo um jeito no-

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vo de tornar menos penoso o dia de natal das crianças hospitalizadas. Um tanto desengonçado na roupa larga feita de cetim vermelho e com a barba de algodão branco, vivi minha primeira experiência como Papai Noel. Os olhos enfraquecidos das crianças adoentadas encheram-se de brilho e vivacidade com a minha presença. Elas deram pouca atenção aos brinquedos recebidos. Não porque fossem coisinhas mixurucas, que eram mesmo, mas talvez porque o presente que quisessem ganhar, verdadeiramente, era a sua saúde de volta. E me pediam isso com os olhos, com a mão estendida, com o sorriso. Naquele dia aprendi, para sempre, que o maior presente de natal que uma pessoa pode receber é a sua saúde. .................................................... Também me lembro de uma vez, uns dois ou três anos depois, de uma véspera de natal, eu vestido com a mesma roupagem, na Casa da Criança. Moravam nessa creche umas dez ou doze crianças sem família, acolhidas pelo Padre Miguel, o religioso mais dinâmico e empreendedor que passou por nós. Uma semana antes do natal eu passei por lá, devidamente paramentado de Papai Noel, e recebi

das mãos das crianças uma cartinha com o seu pedido. O presente mais pedido foi “uma família”. Eu li carta por carta, mesmo sabendo que não poderia atender o seu pedido. Quando voltei, acho que sofri mais do que as crianças. Sabia do seu segredo, do seu pedido e sabia que não podia atendê-las. Inventava uma alegria para distribuir os presentes doados e tentava dar a minha cota para a felicidade delas. Hoje, muitas dessas crianças são adultos e tentam construir uma família que nunca tiveram. Quando nos encontramos, trocamos um sorriso ligeiro, cúmplices desses segredos dos tempos da infância triste. .................................................... Eu me acostumei tanto à personagem do bom velhinho que passei a aceitar qualquer convite, qualquer proposta e oferta. Não podia mais viver sem a fantasia do Papai Noel. Queria porque queria viver a alegria da felicidade passageira do natal com crianças. Durante um bom tempo da minha vida, tive a sensação de que o único tempo que importava era os dias de dezembro, quando eu saía da personagem Zé do Bucho e vivia a verdade do Papai Noel. Os outros trezentos e tantos dias

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do ano eram apenas figurantes, preparação para viver o Papai Noel. Eu contava dia por dia a espera do natal, o reinado breve de Papai Noel e a alegria das crianças. .................................................... Aos poucos, no entanto, esse Papai Noel senhor dos olhares carinhosos, dono da alegria pura e conhecedor de todos os segredos e desejos íntimos das crianças foi desaparecendo. Foi sendo substituído por um Papai Noel profissional, de sorriso falso, de paciência curta. Gente que entrava na roupa vermelha sem brilho por poucas horas, em troca de pagamento minguado. Pior ainda: seu comportamento era movido pelo interesse de quem o contratava, do dono da loja, do patrão, do político. E em vez de lidar com a alegria das crianças, sua tarefa principal passou a ser outra, chamar a atenção dos pais, potenciais consumidores das mercadorias anunciadas. Aceitei alguns desses trabalhos. Tentava sobreviver, buscava resgatar o prazer de viver o Papai Noel e encontrar, mesmo que disfarçado de vendedor, crianças alegres, olhares curiosos, emoções soltas.

que só nós sabíamos da importância do Papai Noel em sua vida. .................................................... Os tempos mudaram muito. Uns dizem que para melhor; outros dizem que tudo piorou. O Papai Noel invadiu a televisão e o computador, trocou o silêncio da noite pelo barulho da porta da loja. As cartas das crianças foram substituídas por recados mais práticos e diretos. O sonho com o presente desejado foi trocado pelo brinquedo antecipado e anunciado na tevê. Não há mais espaço para um velho e autêntico Papai Noel como eu.” Entreguei a matéria para o Fernando. Foi publicada como eu escrevi. Logo chegou o tempo do natal e fiquei sabendo que o Zé do Bucho vestiu-se de Papai Noel, por conta própria, pela última vez. Gastou toda sua economia da caderneta de poupança comprando presentes para crianças. Visitou as duas creches e o bairro mais pobre da cidade distribuindo os presentes. Gastou toda sua poupança, mas deve ter acumulado energia para tocar adiante sua vida, pensei comigo.

Precisava trocar essa energia com as crianças, pois pensava

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Presente de Natal por Angela Leite de Souza escritora (Brasil )

Era dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Perto de cinco horas da tarde. Papai lia uma revista, sentado na poltrona de sempre. Mamãe, no cabeleireiro, com minhas irmãs. Da cozinha chegava o perfume delicioso de peru assando e eu, sem nada para fazer, comecei a saborear aquela ceia em pensamento. Ficava sempre assim, ansioso para que a noite viesse depressa, com as gostosuras e as surpresas de todos os anos. A campainha tocou. Fui atender. - Pai, tem uma mulher aí na porta, com um barrigão de todo tamanho. Está pedindo um auxílio, diz que qualquer coisa serve. Vamos dar ou não? Papai fez uma cara de aborrecimento, tirou os óculos devagar, levantou-se com mais preguiça ainda. Mas falou: - Acho que devemos, né, Henrique? Afinal, hoje é um dia próprio pra essas coisas...

Foi até a sala, já com a carteira na mão. Eu ia rente a ele. Acho que quando viu a moça tão magrinha, no final da gravidez, mal vestida, olhar triste - tudo isso mexeu com o coração dele. O meu também tinha ficado pequenininho ao pensar na situação dela comparada com a nossa. A dona falou sem jeito: - O doutor me desculpa, eu num queria aperrear o senhor não. É que eu tô com tanta fome...e assim desse jeito (apontou para a grande saliência no vestido) a gente num arruma serviço. Papai olhou pra mim, como se não soubesse o quê fazer. Henrique, disse ele afinal, vê o quê que temos de comida pra dar a ela. Nós dois sabíamos que havia o suficiente para alimentar umas trinta pessoas ã vontade. O cheiro que vinha lá de dentro confirmava isso. Entra, falei, vamos preparar um prato pra você. Maria comeu por dois, ou até mais. Quando estava acabando,

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chegaram minhas irmãs e mamãe, tiveram pena dela, arranjaram uma roupa larga, tomou banho, ficou com outra cara. Dorme aqui hoje, disseram. Ela ficou. E também ganhou um presente que inventaram na última hora - um vidro de perfume, ou um talco, não me lembro direito. Deitamos tarde e só fui acordar ao meio-dia. Estranhei o som que vinha do fundo da casa. Corri até lá e dei com mamãe e Fernanda curvadas sobre a cama, no quarto de despejo, que já foi de empregada. Maria estava lá, com um menino deitado ao seu lado, começando a mamar. Então era o choro dele que tinha escutado! Hoje faz um ano que Jesus Henrique nasceu. Maria continua morando com a gente. Ela ajuda mamãe em tudo e nós costumamos dizer que foi um presente que caiu do céu no último Natal. Mas ela acha que não, que foi o contrário: - Se ocês num fosse tão bons, onde é que estaria agora com o meu menino?

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Sombras Comuns e o Nãtãlis por Carmen Ezequiel escritora (Portugal)

uma reflexão Muitos são os símbolos (o presépio, a árvore, o pai natal, os presentes no sapatinho, as luzes, a missa do galo, a ceia e o bacalhau, …), que fazem do Natal aquilo que é, e a simbologia; quer seja vista por uns como fazendo parte desse espírito, quer seja desacreditada por outros; existe, entendendo-a, cada um, à sua maneira. O NATAL? A própria palavra é carregada de significado (como todas as outras), designa nascimento, sendo isso que se celebra: o nascimento do menino (Jesus ou não, porque quem não acredita em Jesus Cristo ou é agnóstico (não religioso ou não católico), certamente não celebrará esta data. Mas, é certo que quem celebra acredita? Ou, não? Nesta nota, evito recorrer à crença o que inevitavelmente lhe está subjacente e que é motivo pelo qual se enaltece o mesmo.)

Ainda assim, tenta-se fazer uma abordagem meramente conscienciosa em que SER é motivo bastante para a data em si. Evidenciando o nascimento de uma qualquer criança, o que é natural e comum em quase todo o lugar, é a celebração desse dia. Os pais, as famílias e os amigos comemoram, ficam felizes e são ofertados presentes pela nova vida. Desse ajuntamento vive-se na alegria, no entusiasmo, em união e na paz. Esta é uma analogia eficaz, mesmo se o dia celebrado seja ou não esse, mesmo se os ícones sejam cultos excessivamente valorizados, mesmo que somente nessa data se lembre que o dar ou doar é um milagre do amor entre os homens. Toda a pessoa tem, dentro de si, a capacidade de amar e de dar, quer seja com um carinho, um abraço, um gesto ou um sorriso, um agasalho ou um alimento. Cada um deles pode fazer a diferença, mesmo que ínfima, em alguém… alimentando o corpo, aquecendo a mente e dando alegria. É isto que representa o Natal. Ainda se lembra do conto de Charles Dickens, “A Christmas

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Carol” (O fantasma do Natal passado)? Se no século XIX a sociedade de consumo já era criticada, parece-me que continua a existir esta ganância do ter com uma intensidade e fervor cada vez maiores. Será que neste Natal recordaremos deste conto? que agradeceremos pelo temos e mais importante, que somos?

nos Será que pelo

uma entrevista Qual é o sentido de se celebrar o Natal? Natal – Quando era criança o Natal representava muito para mim. Era o momento em que a família se reunia para celebrar o nascimento do Menino Jesus. Nos tempos que correm… cada vez mais se constata que essa razão deixou de ser importante na nossa sociedade e a festa da família perdeu o sentido festivo que tinha, dando lugar a inúmeras preocupações e acções pouco ou nada festivas: o consumismo desenfreado, a preocupação e o sentimento de obrigação em comprar presentes porque “parece mal” não dar… Faz todo o sentido em celebrar o Natal se o

adequássemos aos tempos e às necessidades de hoje, sentindo a vontade de ajudar quem precisa, de modo a que todos os indivíduos possam ter um Natal digno: comida, roupa, carinho… é tão importante que todos contribuam… (há sempre uma estrela que brilha mais forte e que te ilumina o caminho… é necessário acreditar sempre)

Por que se oferecem presentes? N – Na sociedade actual, os presentes representam algo de palpável e são o reflexo da mesma. Algo representativo seria uma mão cheia de beijinhos e abraços, o primeiro passo para um mundo melhor. (um beijinho e um abraço para ti também)

O que é cantar ao Menino? E, que Menino é esse? N – Referimo-nos ao Menino Jesus e “Cantar ao Menino” é dar graças do seu nascimento, trazendo desse modo muita alegria a todos os crentes. (Curiosidade do Natal de Elvas [Alto Alentejo, Portugal]: Ainda hoje em noites de Natal, é frequente escutar no silêncio das ruas, o som das

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roncas, como memória dos tempos, ressoando cavas e roucas, a acompanhar o compasso lento, dos cantares dos homens, que embuçados nos seus capotes, arrostam o frio da invernia para reverenciar o Menino Deus. Solenes, vão cuspindo na mão, para lubrificar a pele, como também fazem para empunhar a enxada e cantam coisas belas e ingénuas que o coração lhes dita.)

Quem é o Pai Natal? E porque não há uma Mãe Natal? N – Sem rodeios nem teorias, respondo a esta pergunta da forma mais sincera possível. A meu ver, o pai natal é retratado como um senhor com ar envelhecido, com grandes barbas brancas e que usa umas vestimentas vermelhas e brancas e um barrete das mesmas cores. Pelos visto, este senhor é tão imortal ou intemporal como Deus. Nasceu para passar um ano inteiro a trabalhar, para no dia 25 de Dezembro de todos os anos entregar prendas a todas as pessoas do mundo especialmente às criancinhas. Partilha ainda com Deus o poder da omnipresença, pois agora consegue estar em todos os centros comerciais do nosso país (e do mundo inteiro), a tirar

fotos com as criancinhas e, como estamos em tempos de crise ainda se faz pagar bem por isso! Não querendo ser demasiado reducionista nesta resposta, a minha forma de ver a imagem do pai natal é meramente consumista e comercial. O fato de não existir mãe natal, não sei se existe ou não, mas duvido que um senhor com esta idade e com tanto trabalho, consiga organizar a sua vida sem uma mulher, eu penso que ela existe, encontrase é nos bastidores a fazer com que o pai natal consiga continuar a existir. (é esta a ironia do Natal: personificar a sua magia e dar-lhe um nome)

Um símbolo natalício para cada uma das palavras seguintes. Nascimento = alegria Amor = nascimento União = paz Paz = bondade Alegria = amor Bondade = amor N – Porque tudo está em si mesmo, e só depois, o menino Jesus, a sagrada família, a vaca, a ovelha, a pinha, os reis magos, as oferendas, a mirra, a estrela, a empada, as fatias

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douradas, o peru, a árvore, etc. Que mensagem deveria ser sinónimo de Natal? N – “Há mais felicidade em dar do que há em receber” (Actos dos Apóstolos, 20:35). Cliché ou não, esta é a mais significativa mensagem de Natal, dar sem esperar receber em troca. Todos nós já experimentamos a sensação, mas se fosse assim tão fácil, o mundo seria muito diferente. (é fácil dar, o difícil é não receber)

No fundo o que permanece é a família, o amor, o carinho e a amizade… o bem que provocamos no outro. Porque o que é sorrir sem que ninguém olhe; o que é rir sem que ninguém oiça; o que é olhar sem nada para ver; o que é sentir sem vida para abraçar? O que importa é sermos o outro com os nossos olhos e dizermos o que se sente no momento. É aqui que agradeço aos meus colegas e amigos, pela reflexão e partilha sobre o tema, quer tenha sido fácil ou difícil para uns, estranho ou irónico para outros, mas que pela importância que cada um deles representa para mim relevo. À Isabel, ao Rúben, à Mónica; ao Luís, à Sónia e ao Duarte e a todos os outros que nos acompanham. Um FELIZ NATAL com carinho.

um pedido Pedido… a um Natal verdadeiro… Este ano pelo Natal não quero receber nenhuma prenda especial. Não quero ser dona de um materialismo ao acaso e forçado, para se trocar pela consoada. Não quero ser mais uma a reencaminhar postais e ou imagens de Natal, acumuladas nas caixas de correio, frias e perdidas num mundo virtual. Quero antes tolerância! Para poder chegar ao fim de cada dia e agradecer vivamente a minha vida! Para ter a capacidade de saber perdoar aqueles que, diariamente, me julgam pela diferença. Para não mais ser dona de um pessimismo louco, tresloucado e contagiante que irradia das pessoas que tudo têm. Para poder desfrutar dos outros e do amor deles, enquanto coexistirmos e não depois… Para poder ser melhor e dormir feliz. Aqui, fala-se de tudo e de nada. De tudo o que somos. De nada que ninguém é. Bem-haja e um SANTO e FELIZ NATAL!

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Una niña detrás de una ventanita

Luego va buscar a una señora, a un señor y a un niño de unos 14 años.

ella- Ahora te voy a enseñar el Pesebre que con cuanto amor a construido papá. yo- ¡Oh que bonito! ella- Sabes he visto como lo construia en el taller, moldeando las montañas con sacos y yeso y luego las ha pintado. yo- Y no le falta detalle, ¡que manos que tiene.! ella- Mira, mira, si hasta se puede pasa del día a la noche con este interruptor. yo- ¡Oh y tiene luna y estrellas! ella- Y los pastorcitos alrededor de una olla y el angel anuncándoles la buenanueva; los tres reyes magos, la mujer que lava en el rio. yo- ¿Pero sabes lo que más me gusta amiguita?. ella- No. yo- Pues lo que más me gusta es el Nacimiento.La cueva. San José y la Virgen, al lado del Niño mirándolo con amor. y detrás el buey y la mula dándoles calor. yo (mirando al padre)- Gracias papá por estas ilusiones y amor con que construias el Pesebre. ella (abrazándome y dandome un beso)- Gracias por venir en mi busca, ya ves¡que manos tenía papá!.

ella- Amiga te presento a mis padres y a mi hermano yo- ¡Carmaba, pero si también son los míos!. Déjame que los abrace.

Poco a poco vuelvo al presente, sentada en mi ordenador he ido escribiendo este encuentro con mi niña interior.

por Montserrat Llagostera Vilaró cronista (Espanha)

Tranquilita respiro y aspiro y voy paseando por mi pensamiento retrocediendo en el tiempo, hasta que llego a una calle del Barrio de Gracia, situada en Barcelona. Detrás de una ventanita de cristal trasparente está una niña de unos siete años. Yo la saludo, ¿Como te llamas? ella- Montserrat yo- Te llamas como yo, que casualidad. ella- ¿Quieres entrar en mi casa? yo- l Claro que si!. A medida que voy entrando a través de la planta baja, voy reconociendo todos los muebles y todas las estancias de la casa que vivi hasta los 21 años, cuando me casé.

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Luzes por Jéssica Lima publicitária (Brasil)

Manoel, menino do interior. Seus oito anos o desenhavam com uma estatura menor àquela que deveria ter. Canelas finas, Manoel adora mascar chiclete. Seu pai é sapateiro, e sua mãe lava e passa roupas para fora. A época que o menino mais gosta acabara de chegar: O Natal. Todo ano, Manoel escrevia, com ajuda de sua mãe, uma carta ao Papai Noel. Manoel é menino esforçado, gosta de ir à escola. * O ano decorreu com dificuldades para família de Manoel. O dinheiro suado garantia a comida e as contas. Com muito esforço, fizeram uma festinha de aniversário para celebrar o oitavo ano do filho único, em março. * Dezembro nascia com as luzes da cidadela a piscar. O garoto

ficava encantado com a beleza do Natal. Sem dúvidas, era a época que mais gostava. Como era de costume, após terminar a carta com o pedido natalino, a mãe a levaria aos correios. O Pólo Norte encontravase perto dali. O menino Manoel queria pedalar uma bicicleta. A ceia na casa de Manoel costumava reunir toda a família - tios, primos, avós... Jantavam após a missa do galo, celebrada na igreja da pracinha. Família religiosa a de Manoel. “Talvez o Papai Noel não traga sua bicicleta, querido”, disse a mãe em meio aos protestos do filho de que foi um bom menino e não haveria motivos para isso acontecer. A verdade é que os pais de Manoel não podiam comprar a bicicleta naquele momento. “Final de ano é sempre mais apertado”, lamentava o pai que já havia comprado um carrinho de brinquedo. A mãe explicou que nem sempre o Papai Noel pode presentear com aquilo que as crianças pedem. Com os olhos cheios d’água, o menino disse que seus amigos já haviam recebido aquilo que pediram. E que o Papai Noel deu mais de um presente a cada um deles.

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Era sabido que os amigos do menino Manoel não passavam as dificuldades do garoto. Manoel era de família simples do interior do Nordeste. Manoel era amigo do filho do prefeito e do filho do dono do hotel. Manoel não podia ter os mesmos brinquedos que eles, não podia tomar sorvete todos os dias, nem comprar uma roupa nova a cada aniversário da cidade. * Na noite da véspera, Manoel não foi à missa. Seus pais estavam preocupados. Manoel não podia estar com seus amigos. O filho do prefeito foi passar as festas com a mãe na capital, e o filho do hoteleiro ajudava os pais com a festa do hotel.

Abaixo do pinheiro iluminado estava o carrinho que o Papai Noel, assim compreendido por Manoel, deixara para ele. E o pai prometeu presenteá-lo com uma bicicleta em seu aniversário logo breve. O menino chorou e disse que não precisava se preocupar com isso. E que Papai Noel lembrouse dele, e isso era o que mais importava. Todos confraternizaram numa celebração de alegria e amor. Ali, naquele momento, o menino Manoel entendeu o verdadeiro significado do Natal.

“Ele deve estar chateado por causa da bicicleta”, deduziu o pai. “Deixeo sozinho. Logo ele aparece”. Manoel andava sem rumo pelas ruas, pensando que não ganharia a bicicleta do bom velhinho. “Mas eu fui um bom menino!”. A mãe, no caminho de volta da missa, encontrou seu garoto sentado na guia duma calçada, perto de casa. Preferiu deixá-lo com seus pensamentos. O relógio apontou 00h00. Todos se abraçavam na casa de Manoel. Cinco minutos depois, o menino adentrou a sala, observando em sua família a união e o companheirismo.

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Lente

adolescente visita decoração de Natal em centro de compras em São Paulo fotos: Danilo Vasques/2008

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Quadrinhos

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Lady Garça e Joana D'Arte são criações do quadrinista Veloso. As tiras desta edição pertecem ao acervo do blog "Baú do Veloso". baudoveloso.blogspot.com

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fotografia de Danilo Vasques


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