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Univali|Junho|2010

Cultura catarinense Tradição e novos håbitos formam o mosaico cultural no litoral norte de Santa Catarina


Sumário bater 05 No dos bilros Entre memórias e desafios, rendeiras da Lagoa da Conceição esperam não ver a tradição morrer

nos 11 Tradição recantos do litoral O peditório é uma das fases mais importantes da preparação da festa do Divino Espírito Santo em Penha

17 Poemas deste lugar Em Balneário Camboirú, poetas e escritores se reúnem na Academia de Letras para trocar arte e cultura

bagagem do teatro 21 Na de Itajaí O segredo para 25 anos de espetáculos é uma bagagem cheia de comédia e crítica social

dar asas à 27 Para imaginação A contação de histórias cria um novo mundo e estimula a criatividade

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Itajaí por outros olhos Conhecer uma Itajaí que já se foi é garantia de que é possível o antigo conviver com o novo

2010|1 O patrimônio mais gostoso da cidade

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Lugar cercado de histórias é um ótimo ambiente para saborear culturas de ver, ouvir e provar

O alumínio ganha formas

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Originalidade e design diferenciado nas obras do artista plástico Reiner Wolff

A arte que dá vida aos troncos

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Observadores e detalhistas dedicam a vida a esculpir madeira

Fotografia para todos

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Oficinas gratuitas oferecem oportunidade de um contato mais próximo com a arte de fotografar

Marcado na parede

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Amados ou combatidos, grafiteiros nunca passam despercebidos

Rock’n’ roll de brechó Banda joinvillense aposta no rock com cheiro de velho dos anos 60

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O que é cultural Povo sem virtude acaba por ser escravo, já disse a letra de um hino. Pois não há virtude maior em um povo do que manter viva sua cultura. Nesta edição da revista Palavra de Jornalista, a turma do sexto período de Jornalismo da Univali fez um apanhado da movimentação cultural da cidade de Itajaí e arredores. Práticas do passado que ainda vivem nas mãos e na cantoria de quem preserva o que é nosso; novos hábitos e atitudes que formam um mosaico cultural – o litoral norte de Santa Catarina. Tratar o tema cultura em reportagens de revista é um desafio considerável para estudantes de Jornalismo. Em primeiro lugar porque no senso comum consideram-se culturais somente práticas elitizadas, que não vêm do popular. Também porque nos temas tratados, os alunos muitas vezes se reconhecem e ainda a seus pais e avós – um retrato de nossa formação e de quem somos hoje. Leia, sinta o cheiro, as cores e o sabor do litoral norte de Santa Catarina nas palavras e nas imagens da Palavra de Jornalista. Laura Seligman Editora

Expediente: Palavra de Jornalista é uma publicação do Curso de Jornalismo da Universidade do Vale do Itajaí – Univali. Trabalho realizado na disciplina Jornalismo de Revista do 6º período. Editora responsável: Professora Laura Seligman Projeto Gráfico e Direção de Arte: Professor Sandro Galarça Diagramação: Agência Integrada de Comunicação acadêmica Ariana Russi Deschamps Arte da Capa: Sandro Galarça


No bater dos bilros Entre memórias e desafios, rendeiras da Lagoa da Conceição esperam não ver a tradição morrer Carros importados trafegam nos dois sentidos da Avenida das Rendeiras. Os motoristas olham para o mar, onde turistas e moradores passeiam em lanchas e jet-skis. Muitos deles nem imaginam que do outro lado existe uma tradição de três séculos em Santa Catarina: a renda de bilro. A Lagoa da Conceição, em Florianópolis, é a terra dos contrastes. Entre uma mansão e outra, pequenas lojas de renda se misturam à paisagem paradisíaca, cinematográfica. No centro, há uma praça com feiras hippies e o

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Sarah de Souza

famoso Casarão da Lagoa, lugar onde Dona Elias se encontra com as amigas às quartasfeiras para bater os bilros. O nome dela é de homem, mas a profissão é exclusivamente feminina. Não há notícia de um homem rendeiro em toda a ilha. Dona Elias Joaquina Duarte tem 80 anos e já ensinou 12 mulheres da família a rendar. Concentrada nos bilros, Elias dá forma à delicada toalhinha de mesa, pregada com alfinetes em um molde de papelão sobre a almofada.


FOTOS: SARAH DE SOUZA

Trevo, quatro patas, coração, corrupio, caracol, estrela, tesoura e bochecha. Esses são nomes dados a alguns dos desenhos da Tramóia, especialidade de Dona Elias. Esse tipo de renda é tecido com sete pares de bilros que trançam dois tipos de linha, uma fina e outra grossa. Maria Morena (que não é título de samba-canção), Bico de Pato e Céu Estrelado são outros tipos de ponto. Bico de Pato é o mais difícil: exige 44 bilros. Numa loja humilde feita de madeira, Varlete Silveira da Cunha de 50 anos, vende as rendas das tias Nina, Benta, Jandira, Sílvia, Francisca e Dilma. Atrás do balcão, ela exibe com orgulho a foto da filha usando um lenço de renda na cabeça. A menina, que já foi modelo, hoje faz curso pré-vestibular e pretende ir para a universidade. – As mais novas não se interessam por trabalhos manuais, reclama Varlete das no-

vas gerações, filhas e netas de rendeiras, que não vêem futuro na profissão. Para ela, as pessoas não dão mais valor à renda, pois não imaginam como são feitos os trabalhos. “Precisa de caixote, almofada, molde de papelão, alfinetes e bilros. Os bilros são feitos geralmente por alguém da família, às vezes um tio, ou um primo”. Além dos instrumentos, é preciso paciência, pois o resultado desse trabalho pode demorar de semanas a meses para aparecer. Os materiais especiais que Varlete tanto valoriza são realmente incomuns. A almofada é um cilindro grande, de um meio metro de raio, forrado com palha ou algodão, todo coberto para que os alfinetes que são fixados sobre um molde, prendam as linhas trançadas pelos bilros. Esses são pequenas peças torneadas em madeira que ficam penduradas nas pontas das linhas, orientando o trançado. Palavra de Jornalista Junho 2010

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Quando a tradição é esquecida O nativo Saulo Idalino Teixeira, de 50 anos, passa o dia vendendo rendas em uma loja na Avenida das Rendeiras. Marido e filho de rendeiras, Saulo conta que as filhas quiseram aprender o ofício quando crianças, mas depois que cresceram, foram estudar e trabalhar na cidade. Essa falta de interesse por parte das novas gerações está relacionada com a falta de incentivo e divulgação desta arte. Maria Bernardete Hermenegildo, de 48 anos, é rendeira e tem dificuldade para vender seus trabalhos. “Apenas a renda não garante o sustento – as rendeiras da Lagoa da Conceição vendem outros materiais para terem lucro no fim do mês” e se queixa sobre a falta de incentivo.

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– Não há divulgação além do que aparece nos jornais. No Casarão da Lagoa, as rendeiras são escolhidas para expor seus trabalhos, não expõe quem quiser. Muitas vezes, eles trazem rendeiras do nordeste, dão aulas de renda de bilro, mas é preciso pagar pelas aulas. Aqui, as rendeiras são esquecidas. Zulma Matias, de 61 anos, e Norma Barcelos, de 75, conheceram a renda de bilro aos seis anos. Dona Zulma conta que desde que aprendeu a renda com a mãe, nunca foi chamada para participar de feiras ou exposições. Dona Norma também se queixa da falta de incentivo, mas se orgulha ao confirmar que na década de 1970, a cantora Clara Nunes era freguesa de suas rendas.


Moda rendada em tempos modernos A renda de bilro é uma arte que mantém suas características originais, mas que pode ser incorporada à moda contemporânea. Em 2001, o estilista Walter Rodrigues apresentou à São Paulo Fashion Week uma coleção de verão trabalhada em renda de bilro. Ele foi escolhido pela equipe do projeto Moda e Artesanato, desenvolvido pela A Casa, museu do objeto brasileiro que promove a produção artesanal, para visitar a Associação das Rendeiras de Morros da Mariana, no Piauí. Com essa iniciativa, o estilista construiu um trabalho a partir da produção de renda, associada a suas próprias criações. A primeira-dama do Brasil,

Marisa Letícia, usou durante a posse do segundo mandato do presidente Lula em 2006, um vestido amarelo com camélias feitas em renda de bilro, assinado por Walter Rodrigues. Martha Medeiros, estilista renomada nacional e internacionalmente, que veste personalidades como a apresentadora Adriane Galisteu e a atriz Marília Pera, também investe nas rendas em suas criações de alta-costura. A alagoana é uma das principais responsáveis pela divulgação da renda no mundo. Na Europa, a renda de bilro fez sucesso recentemente em uma exposição, mas

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não foram expostas apenas peças de renda – a artista plástica catarinense Kátia Luz Cúrcio levou a Paris quadros pintados com desenhos abstratos e rendas. A mostra Brésil – Florianópolis, Une Mer de l’Art seguiu para outros países do continente europeu, onde despertou o interesse de críticos. Essa realidade, embora pareça a favor das rendeiras, ainda exclui muitas mulheres, que lutam contra uma correnteza de dificuldades, principalmente financeiras. As rendeiras da Lagoa da Conceição e as da região nordeste do país vivem em universos distintos – enquanto estilistas famosos divulgam orgulhosamente o trabalho das nordestinas, as catarinenses procuram se contentar com pequenos eventos, muitas vezes pouco divulgados ou então ignorados pela própria comunidade. Uma toalhinha pequena, para centro de mesa, de uns 20 centímetros de com-

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primento, custa aproximadamente 15 reais. Já um trilho grande, para mesa de banquete, não sai por menos de 200 reais. Pode parecer muito, mas uma rendeira pode levar de dias a meses para terminar o trabalho miudinho, minucioso das linhas que formam a renda. Aos seis ou sete anos de idade, surgia o interesse pela renda de bilro. Mães ensinavam filhas, netas e sobrinhas. Era como aprender a cozinhar, lavar, passar. Meninas rendeiras eram prendadas. Depois de casadas, faziam renda enquanto os maridos pescadores iam para o mar. Às vezes, tudo era tramado com linha de pesca. Depois de prontas, as rendas eram vendidas no mercado da cidade. Quando havia encomenda de peças grandes, rendeiras se reuniam em grupos para trabalhar. Hoje em dia, os trabalhos são, em maioria, individuais. Para as artesãs, não há pressa, já que a demanda é pequena.


A importância das rendeiras como patrimônio cultural de Santa Catarina No ano passado, em Florianópolis, foi assinada uma lei municipal que estabeleceu o dia 21 de outubro como Dia da Rendeira. A data foi criada para valorizar o trabalho das artesãs e motivar o poder público a promover a renda de bilro. Outra iniciativa que deve beneficiar a tradição, é a reforma do Casarão da Lagoa, que será feita em breve. De acordo com a Prefeitura Municipal de Florianópolis, a parceria entre o Ministério da Cultura e a Fundação Franklin Cascaes faz parte do Programa nacional de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural – Promoart e vai transformar o Casarão no Centro de Referência da Mulher Rendeira. Após a reforma, a construção que faz parte do Centro Cultural Bento Silvério, deverá expor rendas das artesãs da região, além de agregar uma loja e um museu. Datas, projetos, reformas: tudo para preservar a renda de bilro no estado. Mas será suficiente para impedir o fim da tradi-

ção? Haverá um dia em que as rendeiras da Lagoa serão apenas história, fotos e toalhas expostas em museus? Olhos e mãos exibem os sinais da idade avançada, mas não se intimidam: continuam trançando detalhes minúsculos nas rendas mais difíceis. Enquanto isso, a juventude vai se distanciando da tradição e se aproximando do consumismo, dos modismos, das coisas descartáveis e quase irresistíveis da vida moderna. Com o passar do tempo, os cupins vão acabar com os caixotes, a traças vão comer as almofadas, mas Dona Elias, Dona Zulma, Dona Norma e todas as guardiãs da renda, vão permanecer na história da cultura catarinense e na memória dos que tiverem a chance de conhecê-las. Por causa dessas mulheres, guerreiras, mães, avós, rendeiras remanescentes, Santa Catarina deve manter viva a arte da renda e deixar ecoar pelos quatro cantos o som do bater dos bilros. P

Além do artesanato: a mulher rendeira inspira canção Além de artesanato, renda também é música. Reza a lenda, que uma das canções mais conhecidas, Mulher Rendeira, teria sido criada por Virgulino Ferreira, o Lampião. Muito cantada nos sertões nordestinos pelos cangaceiros, a música foi adaptada e gravada por Alfredo Ricardo do Nascimento, o Zé do Norte, e deu ao filme O Cangaceiro, de Lima Barreto (1953), prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Cannes. Mulher Rendeira tem fama internacional, já foi interpretada por Milton Nascimento, pelo grupo Demônios da Garoa e até pelo cangaceiro Volta Seca, antigo cabra do bando de Lampião. A canção é um clássico cantado pelas rendeiras brasileiras, que no ritmo do bater dos bilros, puxam a letra:

Olê, mulher rendeira Olê, mulher rendá Tu me ensina a fazer renda Que eu te ensino a namorar Lampião desceu a serra Deu um baile em Cajazeira Botou moça donzela Prá cantar Mulher Rendeira As moças da Vila Bela Não tem mais ocupação E só vivem na janela Namorando Lampião Palavra de Jornalista Junho 2010

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FOTOS: CLARA ROSÁLIA DA SILVA

Tradição nos recantos do litoral Clara Rosália da Silva

O peditório é uma das fases mais importantes da preparação da festa do Divino Espírito Santo em Penha

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Pétalas de rosas foram dispostas cuidadosamente na mesinha central da pequena sala de estar, onde a bíblia, aberta, descansa no suporte. Hoje, no entanto, o personagem principal da celebração religiosa não é o livro sagrado, mas a bandeira vermelha rodeada de fitas coloridas com a estatueta de uma pomba branca na parte superior do mastro. A família espera ansiosa à porta da residência. É o dia em que todos se reúnem – avós, filhos, netos, genros e noras. No quintal, imperador e imperatriz do Divino Espírito Santo entram carregando a bandeira da evangelização. Atrás, a procissão segue cantando: – Deixa a luz do céu entrar. Deixa a luz do céu entrar. Abre bem as portas do teu coração. E deixa a luz do céu entrar. Para aproximadamente 300 clãs familiares dos municípios de Penha, Navegantes, Piçarras e Itajaí, no litoral norte de Santa Ca-


tarina, este é um dos dias mais importantes do ano. O peditório, como são chamadas as visitas, é a base da divulgação religiosa e arrecadação financeira para se realizar a festa de três dias em torno do domingo de Pentecostes, quando se encontram todas as famílias das casas por onde percorreu a bandeira da evangelização. Foi no Pentecostes que, segundo a bíblia, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos em forma de línguas de fogo. O fogo pode muito bem representar a paixão dessa gente ao Divino Espírito Santo e ao que esta tradição representa para a comunidade. Pele enrugada, olhos cansados, mãos calejadas. Os devotos mais velhos carregam estas características, muitas provindas do trabalho árduo na pesca. Agüentam firmes os 11 finais de semana de visitas, entre a quarta-feira de cinzas e o dia de Pentecostes. São estes os que mais lutam para manter a cultura popular na devoção ao Espírito Santo, que em Penha já dura 174 anos. A doação em dinheiro feita pelas famílias, para a realização da festa do Divino Espírito Santo na paróquia de Penha, se torna um detalhe insignificante diante do ritual da visita da bandeira.

A maratona da fé O dia de quem segue a bandeira da evangelização começa cedo. Às sete horas da manhã o encarregado de manutenção Maurício da Costa, de 43 anos, o Lito, e a esposa professora Elizabete Sueli Vicente da Costa, de 38 anos, a Beti, já estão de pé e esperam a família em casa para a primeira oração do dia. Durante sorteio no ano anterior, Lito foi o escolhido para ser imperador da festa em 2010. Engana-se quem pensa que as famílias imperiais devem ostentar riqueza ou serem pessoas influentes na política local. Eles são gente do povo. Da casa do imperador, seguem para a primeira família a ser visitada e encontram a comitiva do Divino Espírito Santo. Os membros da comitiva são sempre os mesmos, independente do imperador do ano. É formada por cerca de 20 pessoas tradicionais da comunidade que ajudam os imperadores na evangelização. Sebastião Paulo de Souza, de 61 anos, e Rosane Fagundes de Souza, de 55 anos, há treze anos fazem parte da comitiva. Começaram a seguir a bandeira depois que o filho

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se envolveu num grave acidente de moto, em 1995. O rapaz perdeu o movimento de um dos braços - uma seqüela pequena para quem ficou quase um mês em coma depois do traumatismo craniano. O casal atribui a recuperação do filho ao Espírito Santo e à Madre Paulina. Casos de devoção como o da família Souza são comuns de encontrar durante o peditório. É na bandeira onde os devotos simbolizam seu agradecimento. Colocam fitas de cetim para cada promessa feita ou graça recebida. O tamanho da fita corresponde à altura do devoto ou seu parente. Também vai escrito o nome de quem espera a ajuda divina. Em 2007, o então imperador Sirlei Nestor Pinto, hoje com 50 anos, começou as visitas com 22 fitas anexadas à sua bandeira. Ao final, havia 83 fitas coloridas colocadas por devotos durante o peditório. Os foliões, músicos responsáveis por guiar os rituais, permanecem ao lado do casal imperial durante as visitas. São cinco e se revezam para que em cada casa pelo menos três se apresentem. Cantam versos improvisados. Sabe-se que há discórdia no lar, cantam o perdão. Se na casa mora algum

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ex-imperador, citam o nome. Se há uma grávida, cantam a beleza do nascimento. É o que vem à cabeça do mestre folião. Ele é quem puxa a cantoria dedilhando as cordas de uma viola. Para acompanhar, um tambor e uma rabeca, instrumento folclórico parecido com o violino. O povo ouve atento cada verso. Na maioria das vezes a comitiva acompanha tudo de fora da casa. As salas de estar são pequenas para tanta gente. A imperatriz é quem puxa as orações. Os rostos demonstram concentração e fé durante as rezas. Depois, o patriarca ou a matriarca da família agradece a visita da bandeira.

É na bandeira onde os devotos simbolizam seu agradecimento. Colocam fitas de cetim para cada promessa feita ou graça recebida.


A partilha Chegou a hora da partilha. O jeito sério que reina durante as orações se dissipa com a alegre canção diante do alimento oferecido. São cerca de 15 casas visitadas por dia. A maioria das famílias serve um verdadeiro banquete. A professora Ana Luiza Teodoro dos Santos, de 43 anos, está desde as sete horas da manhã trabalhando na cozinha. Ela não está em casa. Ana já havia recebido a bandeira do Divino Espírito Santo com os irmãos. Juntamente com mais dez pessoas da comunidade, se dispôs a ajudar a amiga que oferece o almoço naquele dia. Tem comida para 150 pessoas. O banquete já virou tradição na maioria das visitas. Querem receber bem a bandeira da evangelização. Há os que defendem que tanta comida desvirtua o sentido da peregrinação. “É para apresentar algo só para a partilha. Pode ser uma jarra com água”, comenta dona Maria Luiza de Souza Coelho, de 64 anos, membro da comitiva e esposa do mestre folião. Todas as famílias visitadas têm a sua própria bandeira do Divino. São iguais à da evangelização, que leva este nome por acompanhar a família imperial e a comitiva durante o peditório. Quando acaba o ritual em uma casa, a bandeira da evangelização é levada para outra geralmente pela família que acabou de recebê-la. Uma forma de costurar os laços afetivos que compõe a comunidade. Por isso, o imperador carrega a bandeira somente na primeira visita ou quando as casas são muito distantes uma da outra. Na última casa do dia, a música “Os devotos do Divino”, de Ivan Lins, encerra o ciclo de visitas. A canção virou hino e é cantada também pela manhã e no almoço: Palavra de Jornalista Junho 2010

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– Os devotos do Divino vão abrir sua morada pra bandeira do menino ser bendita e ser louvada, ai, ai. Cada família é representada por pelo menos um empregado do Divino Espírito Santo. São eles quem entregam no peditório a doação em dinheiro para a realização da festa na paróquia de Penha. Com tantos empregados, as visitas do dia se estendem até o começo da noite. Nem sempre a bandeira visitou tantas casas. Antes eram apenas doze, o número de apóstolos. No máximo, uma ou outra família a mais onde houvesse pessoas doentes. “De 59 (1959) pra cá, houve a necessidade e colocaram 20 empregados. Em 60, mais 80 empregados. Hoje tem 1.200”, conta seu José Olavo Coelho, de 65 anos, o mestre folião Zé Olavo, dando referência ao crescimento populacional dos municípios. Já o pescador aposentado Francisco Amâncio da Costa, de 75 anos, o Seu Dico, afirma que foi no ano de 1956 que o número de empregados cresceu e conseqüentemente o número de visitas nos meses que antecedem os festejos. De acordo com Seu Dico, o imperador do ano de 1956 teria convidado mais empregados para conseguir pagar as despesas da festa para toda a comunidade. Independente das divergências de datas e motivos, o fato é que atualmente o almoço no domingo de Pentecostes, no auge da festa, é servido para pelo menos três mil pessoas das famílias dos empregados. Não é a toa que em quase todos os parágrafos deste texto aparecem as palavras família e comunidade. A tradição do Divino Espírito Santo é, mais que tudo, o fortalecimento destas relações humanas. Noemia Pinto de Souza, de 69 anos, a dona Tana, e dona Juraci Maria dos Santos, de 70 anos, sabem bem disso. Há cinqüenta anos se conhecem e só agora, durante o pedi-

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tório, é que Dona Tana visitou pela primeira vez a casa da amiga. “Só mesmo o Espírito Santo pra trazer ela aqui”, brinca dona Juraci.


Tradição Há três versões sobre o surgimento da festa do Divino Espírito Santo. Todas giram em torno do casal Dom Diniz, sexto rei de Portugal no século XIV, e dona Isabel de Aragão. Atualmente a devoção ao Espírito Santo é vista por todo o Brasil. Em cada região ou município os festejos apresentam características diferentes. Em Penha, a tradição foi trazida por portugueses que chegaram à enseada do Itapocoroy, hoje bairro de Armação do Itapocoroy, no século XVIII. A primeira festa no município, no entanto, só foi realizada em 1837. Hoje, as visitas da festa do Divino em Penha abrangem também os municípios de Piçarras, Navegantes e Itajaí.

Saiba mais Divino Espírito Santo, O Império da Fé, livro de Vilmar Carneiro. Editora Ipêamarelo, Itajaí (SC), ano de 2006. A Festa do Divino Espírito Santo em Penha – SC: Análise turística e antropológica dos rituais de preparação da festa. Dissertação de mestrado em turismo e hotelaria de Olinda Terezinha Fernandes. P

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FOTO: ARQUIVO PESSOAL DA ARTISTA

Poemas deste lugar

Em Balneário Camboriú, poetas e escritores se reúnem na Academia de Letras para trocar arte e cultura Fernanda Beltrand O outono se aproxima, formando um tapete de folhas amarelo-avermelhadas, o cheiro é de madeira molhada e o silêncio paira no ar. Uma menina de cabelos longos e anelados senta em um galho, quase um colo, a menina fecha seus olhos e naquele momento as histórias vão sendo criadas, imaginadas, os sentimentos transformam-se em traços

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arredondados, construindo as palavras que se misturam. As palavras tornam as escritas femininas e nasce assim uma nova poeta. “Capturar a imagem de alguma insignificância que voa, um vento que passa, um corpo que brinca de alegria, uma agonia de dor, lamentos de amantes, saudades, solidão”, é assim que a multiartista Claudia Regina


FOTO: FERNANDA BELTRANDA

Teles dá a receita de como fazer poesia. Adicionando e misturando palavras, a poeta natural da cidade de Luis Alves, Santa Catarina, pesquisa diversas linguagens artísticas. Com uma escrita fluente, Claudia forjou muitos poemas na adolescência. Ganhou seu primeiro livro intitulado Lucíola, do escritor José Alencar, em um concurso de poemas na escola em que estudava. Ela conta que não tinha condições emocionais para lê-lo, a história era forte, mas que leu do mesmo jeito, pois havia sido o seu primeiro livro. A poesia é como um mar contra o rochedo para a poeta. A necessidade de escrever surge nos momentos mais inesperados, como os fenômenos da natureza, conflitos e sentimentos. Assim como para a presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú, Mara Terezinha de Souza, inspirada em fatos do cotidiano e relacionamentos. Começou a escrever aos dez anos de idade, participou de concursos, trocava poesias com suas amigas na adolescência e não parou mais. Atua ativamente na divulgação da cultura na cidade de Balneário Camboriú. Conta que a Academia de Letras existe para promover essencialmente a cultura literária, divulgar e lançar livros. Além de incentivar o gosto pela leitura em palestras municipais e particulares. Os imortais, como são conhecidos os seus membros, nascem através de sua obra literária. A poesia ou a lírica é uma das sete artes tradicionais, junto com a dança, a pintura, a escultura, a música e o teatro. “O verso é o veículo da lírica, seu instrumento mais adequado”. Essa é uma das frases da poeta Teresa Not. Nascida na cidade de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, é formada em Filosofia pela Fundação Universidade Bagé, Funba, hoje Urcamp. Lá lecionou diversas disciplinas da faculdade de Ciências e Letras até aposentar-se.

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Contribuiu “de forma rica para cultura da cidade”. Expressava através de seus textos toda a sua criatividade e intensidade. Ela é considerada uma das personalidades mais marcantes da cidade. Além das poesias, gostava de músicas do gênero latino-americano e popular brasileira. No seu caderno, já com as páginas amareladas pelo tempo, estudava poesia e técnicas de expressão. Tudo registrado junto com as primeiras poesias que nasceram em Junho de 1986. Um universo poético está presente em seus estudos metalinguísticos, revelando a linguagem falando de si mesma. Atualmente, os poetas escrevem versos livres. São os que permitem mais liberdade ao autor, conta a poeta Mara. Para o poeta Osvaldino Marques, que é considerado uma das mais fortes presenças poéticas da moderna geração, a base do verso tradicional é a vocálica e a do verso livre é consonantal. Trocando em miúdos, são versos que não possuem restrição métrica, nem em rima nem nas estrofes.

Receita de Poesia Claudia Regina Teles

Capturar a imagem de alguma insignificância que voa, um vento que passa, um corpo que brinca de alegria, uma agonia de dor, lamentos de amantes, saudades, solidão. Caso você não tenha estes ingredientes à sua disposição, imagine-os, que é a mesma coisa. Coloque tudo e vá adicionando e misturando palavras. Cuidado com o exagero; Servir quente ou fria, tanto faz Excelente para todas as ocasiões sempre que sentir vontade ou que doer o ferimento ou cicatriz

Poesia pelo mundo A poesia está ligada diretamente à imaginação e à sensibilidade do que ao raciocínio. É uma das mais importantes formas literárias. Os poetas da antiguidade já recitavam histórias de deuses e heróis. Ao longo do tempo, os poetas e os filósofos preocuparam-se em definir a poesia. Para o poeta espanhol García Lorca, “Todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm”. Já o poeta francês Stephané Mallarmé, defendendo outra concepção, afirmou que “a poesia se faz com palavras, e não com ideias”. E segundo o britânico norte-americano, T. S. Eliot, “aprendemos o que é poesia lendo poesia”. No Brasil, o primeiro registro de poesia

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é o do jesuíta José de Anchieta, no século XVI. Já na segunda metade do século XVIII, o Brasil viveu o pré-romantismo representado por Tomás Antonio Gonzaga, Claudio Manoel da Costa e Alvarenga Peixoto, entre outros. Em meados do século XIX, os poetas brasileiros, entre os quais se destacam Gonçalves Dias, Castro Alves, Fagundes Varela e Álvares de Azevedo, eram profundamente influenciados pelas literaturas portuguesas e francesas e conservavam em suas obras alguns traços da poesia Renascentista. Com a chegada do Modernismo, com novas idéias e experiências, surge em 1922 a Semana da Arte Moderna com os poetas Mário de Andrade e Oswald de Andrade.


FOTO: ARQUIVO PESSOAL DA ARTISTA

Academia de letras de Balneário Camboriú tem 33 membros e já funciona há 8 anos. Quando foi criada apenas 20 pessoas participavam do grupo.

Academia de Letras de Balneário Camboriú

A Academia de Letras surgiu em 2002 a partir de uma reunião de poetas e escritores com o objetivo de aquecer a produção literária. Quando foi criada, a academia era composta por vinte pessoas. Hoje, conta com a participação de 33 membros. As cadeiras são vitalícias, ou seja, membros novos só podem ser escolhidos após a morte de algum membro atual, conta Mara Terezinha de Souza, presidente reeleita da academia até Julho de 2010, quando acontecem eleições. A posse acontecerá durante as comemorações do oitavo aniversário da cidade de Balneário Camboriú. Já passaram pela presidência da academia Eduardo Meneguelli Junior e Rita de Cássia Oliani. Para se tornar membro da academia, é necessário ter no mínimo um livro de valor cultural editado e ser morador da região do Vale do Itajaí. P

Lembranças Mara Terezinha de Souza

As lembranças Surgem como fantasmas. Atormentando minhas noites, Perturbando meu sono Invadindo o quarto. O teu corpo Como um espectro Passa pela porta fechada Para você...e para o amor! Não respeita a privacidade Dos lençóis...e invade Adulterando minha emoção. O êxtase deste encontro clandestino Não é marcado por sinais noturnos. Sem ruídos...sem máculas! Somente o sono prazeroso Deixa evidente Sua passagem Por mais uma noite.

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ww A trupe itajaiense Bagagem Cênica viaja por toda Santa Catarina. Leva teatro popular para o pátio de escolas. O segredo para 25 anos de espetáculos é uma bagagem cheia de comédia e crítica social.

FOTO: FABRÍCIO DE CARVALHO

Na Bagagem do teatro de Itajaí Camila Gonçalves Antes de o sol nascer, os atores do Bagagem Cênica, Leandro Cardoso, 25 anos, Rodolfo Lançoni, 21, e Vinicius Bellé, 19, seguem para o espaço da Companhia Anchieta Arte Cênica. Uma casa modesta, localizada em um beco no bairro São João, em Itajaí. Chegam e o cheiro do café já está no ar, foi preparado pelo diretor Valentim Shmoeler, 54 anos, que os aguardava. Além da cozinha, a casa tem sala de estudo, de ferramentas, figurinos, e uma sala maior para os ensaios. Enquanto tomam café, acontece um papo descontraído sobre o espetáculo do dia an-

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terior. Alguns detalhes devem ser corrigidos, outros acrescentados ou até cortados. Depois, fazem um curto aquecimento corporal e vocal e os atores seguem para seu destino: divulgar o espetáculo E seja o que Deus quiser em três escolas de Itajaí. O diretor é o responsável por confirmar as visitas. Conversa antecipadamente com coordenadores e diretores das escolas. Dificilmente são negadas as apresentações, isso desde 1985. Para atrair um maior número de alunos os atores, divulgam a peça em cada sala, com um dos 23 personagens, interagindo com a turma.


No dia seguinte, o céu está nublado, a chuva parece próxima. É necessário chegar mais cedo, possivelmente esta apresentação não será no pátio. Por isso, os jovens atores ficam sem café da manhã e partem para a primeira escola do dia. O diretor Valentim vai para a segunda escola organizar a venda dos ingressos. Os atores terão pouco tempo até a segunda apresentação. Enquanto os artistas aguardam a abertura da sala, um canta: O samba, a viola, a roseira/ Um dia a fogueira queimou/ Foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou. Roda Viva, composição de Chico Buarque. Outro lê O inimigo do mundo, livro de Leonel Caldela. Mas não ficam nesta folga por muito tempo. A secretária avisa que o espetáculo será na biblioteca. A sala parece imprópria, cadeiras jogadas por todos os lados, maquetes, trabalhos dos alunos nas mesas e objetos antigos amontoados. Ganha o nome de biblioteca porque há uma estante com livros. Isso não é problema para os atores, dizem que na maioria das escolas é diferente. Principalmente se alguém da direção já fez ou faz teatro. E ainda acrescentam: “Muitas vezes os alunos não estão educados para receber o espetáculo”. Cada um tem uma tarefa: um monta o cenário, o segundo organiza os figurinos e o terceiro vende os ingressos nas salas. Isso

tudo ao som de música popular brasileira, é o estilo preferido do grupo. Os alunos ficam curiosíssimos. Mesmo sabendo que é teatro, querem ver o que os garotos fazem na biblioteca. Depois de organizarem o espaço, as bagagens são destrinchadas, os figurinos começam a dar cor àquele lugar sem muita graça. As mesas são colocadas sobre outras mesas e o cenário ganha forma. Um tecido preto esconde toda a estrutura improvisada, alguns detalhes em tecidos coloridos são colocados de uma forma abstrata para representar os caminhos que o Bagagem Cênica já passou ou passará. Atrás do cenário, são organizados os adereços por ordem de cena. São 23 personagens representados pelos três atores. Para interpretar, o item básico é criar a gênese do personagem. Os atores usam como base os livros do dramaturgo russo Constantin Stanislavski: “O ator deve trabalhar a vida inteira, cultivar seu espírito, treinar sistematicamente os seus dons, desenvolver seu caráter; jamais deverá se desesperar e nunca renunciar a este objetivo primordial: amar sua arte com todas as forças e amá-la sem egoísmo”, ensina o mestre. Em seguida, colocam uma roupa social preta. É o figurino de base, mais a maquiagem, pancake branco, com bochechas avermelhadas. Em apenas cinco minutos, o lugar começa a ter cara de teatro.

FOTOS: CAMILA GONÇALVES

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Os alunos ficam espiando, alguns mais curiosos se aproximam para ver a transformação que houve na biblioteca. Ou melhor, o que vai acontecer na biblioteca da escola. – Diminui o volume da música! – fala Vinicius. – Corre, os alunos estão vindo – acrescenta Leandro. – O pancake está no fim – diz Rodolfo. – Já estamos atrasados – Vinicius fecha a conversa. Dão-se as mãos. – Isso é uma oração? – pergunta a repórter. – Também. É uma corrente para trocarmos e recebermos energias positivas – conclui Leandro. Abre-se a porta da biblioteca, os alunos sentam no chão e os atores interpretam! Brasil, abre a cortina do passado... E começa o espetáculo: E seja o que Deus quiser! Com uma sonoplastia bem brasileira. Um início não tão original, porque no dia 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral com seus tripulantes fazia esta cena. A diferença é o que no descobrimento do Brasil provavelmente não houve tanto humor e tantas críticas sociais. O espetáculo é composto por uma sequência de cenas. Um entra, outro sai, liga o som, desliga, entra novamente, sai de novo, liga o som e desliga. É uma bagunça organizada. Nas trocas de cenas, vários

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adereços são colocados e tirados. Servem para caracterizar melhor o personagem. O sotaque também muda, varia entre: Português de Portugal, Francês, adolescente e mulher. Tem duração de uma hora, mas nos bastidores com o Bagagem Cênica, tudo acontece a mil por hora. Os atores se abastecem das risadas, que são muitas. Quebram a quarta parede, jargão usado no teatro quando o ator se refere diretamente ao público. Esta forma de fazer teatro é cara a cara com a platéia. E assim segue o espetáculo, são oito cenas, com textos próprios e adaptados da dramaturgia nacional e internacional. Aborda educação, vestibular, política, adolescência, sexualidade e por fim o amor, que é representado por Romeu e Julieta, numa divertida adaptação da obra de Shakespeare. Eu morro ou não morro? Eis a questão! Últimas falas. Alô, alô, a gente apresentou... Começam os aplausos, a trupe agradece. Alguns alunos pedem para tirar fotos e até autógrafos. Ficam constrangidos ao assinar as agendas emperiquitadas das alunas. Estão atrasados para a próxima seção. O cenário começa a ser desmontado, os tecidos dobrados e os figurinos guardados. Tiram a maquiagem e o figurino de base. As bagagens estão prontas para seguir para a próxima escola. O diretor e os professores agradecem e pedem que voltem.


Aqui a plateia fica no chão A maioria das escolas não tem um anfiteatro, um dos motivos para o espetáculo ser feito no pátio. Quando os alunos chegam para assistir, uns querem cadeira, outros logo entendem que a platéia senta no chão. Os atores pedem que todos se sentem. Até então, os alunos estão conversando muito e ainda não se entregam para os atores, querem assistir. Quando começa, reina o silêncio, de repente uma risada ali, outra aqui. É uma introdução cantada, o inicio é bonito, mas não pede riso. Mas de súbito, todos caem na gargalhada, a partir daí, os adolescentes não piscam, ficam atentos e parecem animados com que estão assistindo. A cada troca de cena, parece uma escada, as risadas aumentam, uns batem palmas fora de hora, outros tiram fotos, há aqueles que só observam. Os professores não ficam fora disso, estão se divertindo. Como os atores dizem – pegamos a plateia – é quando não há alunos dispersos, todos estão juntos no mesmo compasso. A estudante Marciele Ferreira, 16 anos,

adorou, diz não conhecer o teatro da cidade e que esse é o segundo espetáculo que assistiu, mas o único que gostou e riu muito. Uma das cenas aborda a política, a adolescente diz ser a mais critica e compara com a política do Brasil. “Sem falar na cena das freiras, foi a que eu mais gostei. Fala de sexualidade de uma forma muito criativa”. Já o professor de Língua Portuguesa, Marco Antônio de Matos, 36 anos, vai ao teatro com frequência e diz que os espetáculos preferidos são os teatros populares, principalmente quando retratam a realidade. Ele já conhecia o trabalho do Bagagem Cênica e acha que levar esse trabalho às escolas é fundamental. “Os alunos precisam dessa cultura. Principalmente em escolas mais carentes, como essa em que eu trabalho. Depois que assistem, os alunos ficam o resto da semana comentando, rindo, falando as piadas que ouviram no espetáculo e imitam personagens”. Marco Antônio sempre que pode, faz exercícios referentes ao teatro que os alunos assistiram. Palavra de Jornalista Julho 2010

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Mais comemoração para os 25 anos de teatro Plateia no palco. É assim que acontece o espetáculo As Pessoas de Minha Pessoa. A peça é interpretada pelo ator Valentim Schmoeler e dirigida pelo ex-integrante da Companhia Bagagem Cênica, Rafael Orsi de Melo, 25, que trabalhou cinco anos na trupe e auxiliou na direção da peça E seja o que Deus quiser. Esta montagem também comemora os 25 anos do grupo. O homenageado é o poeta Fernando Pessoa, pela grande admiração que o ator tem pelo trabalho do português. É um convite a uma conversa poética e reflexiva. P

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CARTAZES: ANCHIETA ARTE CÊNICA

1985 – O Castelo da Bruxelândia 1986 – O Cavaleiro negro x Gumercindo Tavares 1987 – O vale das abóboras 1988 – Bailei na Curva 1989 – Patética 1990 – Greta Garbo 1991 – De pedaço em pedaço 1992 – O gigolô da pátria amada 1993 – Tapete de moleque 1994 – Cavaleiro Negro x Gumercindo Tavares 1995 – Liberdade 1996 – Farfalho de emoção 1997 – A busca de Biel 1998 – Brincando em cima daquilo 1999 – Fala Pessoa 2000 – Meninos de Papel 2001 – Despertou a primavera 2002 – No reino da Urucubaca 2003 – Amor I love you 2004 – Angu e Caviar 2005 – O menino sonhador 2006 – Eu vou morar na lua 2007 – Society Brazil 2008 – Meninos de Papel 2009 – Assuntos de Família 2010 – E seja o que Deus quiser 2010 – As Pessoas de Minha Pessoa

Principais espetáculos

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FOTOS: SUELLEN PEREIRA RODRIGUES

Para dar asas à imaginação Suellen Pereira Rodrigues

A contação de histórias cria um mundo novo e estimula a criatividade

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Era para ser apenas mais um dia comum. O auditório vazio começava a ganhar vida conforme a plateia entrava e ia tomando seu lugar. A inquietação revelava que algo ia acontecer. A agitação era digna de um evento muito grande. Barulho, risos e conversas se multiplicando. O público continuava a entrar. As roupas pequenas, a baixa estatura e os olhares curiosos revelavam a pouca idade dos espectadores, somente crianças.


O sinal ecoa pelos corredores mostrando que está quase na hora. Olhares atentos procuram em todos os lados por dicas que possam explicar o que está prestes a acontecer. As professoras têm trabalho para conter o grupo de alunos. — Pedro, teu lugar não é aí — reclama a professora. Assim como os rostos, expressões de encantamento e dúvida, os lugares se misturam. A que horas vai começar? Neste momento, as conversas servem pra passar o tempo e dividir a ansiedade. No palco estão três mulheres caracterizadas com roupas parecidas. Acenos e sorrisos foram tudo o que ofereceram até agora. Mas, no instante em que se levantam e começam a se movimentar, não se ouvem mais vozes no auditório. Só as delas. As três mulheres se chamam Bruna, Telja e Daiana e são contadoras de histórias. Com perguntas e brincadeiras, vão conquistando a confiança da plateia. Agora o espetáculo pode começar.

Contando histórias A contação de histórias é uma das artes mais antigas da humanidade. De lá pra cá, sofreu várias modificações para conquistar o público. No Brasil é possível encontrar vários grupos, inclusive teatrais, que se especializaram em passar histórias adiante. Mas qual a importância desta atividade? O ato de contar histórias é um forte aliado para o desenvolvimento da imaginação. Quando ouvimos uma história, viajamos, criamos um mundo novo. Quando você conta uma história para uma criança, além de estimular a imaginação, ela também aprende algo novo. Sejam palavras ou novas experiências. Em São Paulo, a associação Viva

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e Deixe Viver trabalha há nove anos com contação de histórias em hospitais. Uma pesquisa realizada por psicólogos da Santa Casa de São Paulo avaliou a ação em 15 crianças com câncer. O resultado foi que 66% obtiveram melhoras no humor, 60% apresentaram uma melhora no apetite entre outros benefícios. A associação trabalha com a ajuda de voluntários que promovem leituras de obras infantis nos hospitais. Em Itajaí, Bruna Machado, 26 anos; Telja Rebelatto, 31; e Daiana Wagner, 21 fazem parte do grupo Cálice Expressão de Arte. As três começaram no teatro e resolveram viajar no universo das histórias a partir de 2008. A primeira apresentação do grupo foi em uma escola de Balneário Camboriú. Um desastre. Após contar a história do Dr. Sabe Tudo, receberam um “nããão” quando perguntaram às crianças se tinham gostado. “Aquela negativa nos deu gana pra estudar”, contou Bruna. Como inspiração, o grupo Cálice escolheu Roberto Carlos Ramos. “A maneira

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com que ele conta histórias é o que a gente tenta retratar no palco. Nós o vemos como um professor, ele realmente é”, concordaram as contadoras. Ramos está entre os 10 maiores contadores de histórias do mundo. Em 2009, ele teve a sua própria vida contada no filme “O contador de histórias”. A profissão do contador ainda é vista com preconceito, por isso é pouco valorizada. Há quem acredite que para narrar uma história não é preciso especialização ou qualquer tipo de curso. Basta pegar um livro e ler. Quem lida com essa arte sabe que não funciona bem assim, e que agradar ao publico não é uma tarefa fácil. Por isso, é preciso estudo e dedicação. Outro fator contribuinte para que a contação seja bem sucedida é a sensibilidade do contador. É preciso entender muito bem o público que está recebendo a mensagem. “No nosso caso, tentamos buscar uma nova linguagem. Temos que acompanhar a evolução da criança. Hoje, eles não estão mais acostumados e nem gostam


da versão das histórias que os nossos avós sentavam e nos contavam. As crianças são mais dinâmicas e tudo é mais palpável”, falou Telja, do grupo Cálice. Pensando nisso, o Serviço Social do Comércio - SESC oferece cursos para a formação de novos contadores. Aqui em Santa Catarina, mais de quatro mil pessoas já participaram. Durante o curso, os alunos aprimoram a capacidade de compreensão e interpretação crítica de textos populares, do ancestral ao clássico. São técnicas que facilitam o processo da narrativa. Por ser de um grupo de teatro, Bruna, Telja e Daiana investiram na contação teatralizada. “É ao mesmo tempo um teatro narrado”. Elas utilizam técnicas de interpretação e objetos de caracterização, recursos que facilitam reconhecer a mu-

dança do personagem que está narrando a história. Além dos adereços, também usam recursos sonoros. Mas não se engane, você não vai encontrar ninguém responsável pela sonoplastia por ali. São elas que fazem os sons com a ajuda de uma corneta e um pandeiro. Com crianças pequenas é preciso ter um pouco de cuidado quando se trabalha com a parte teatralizada. As meninas do Grupo Cálice, por exemplo, estão sempre se movimentando no palco. Por isso, de acordo com a idade da turma, as características da apresentação mudam. Bruna explica que “com crianças menores de três anos trabalha-se sentadas e não usamos tantos recursos. Exploramos a sonoridade da palavra e não a palavra dita. A repetição também é bastante importante.”

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Qualquer história pode ser contada. Algumas ficam melhores se tiverem os finais adaptados. Por isso, é fundamental ter repertório e bastante criatividade. Mas, o mais importante de tudo, não é a história que você conta, e sim a maneira como ela é contada. P

Livros para ler e contar O contador de histórias (Roberto Carlos Ramos) O autor já foi menino de rua e reconquistou sua cidadania através da arte de contar histórias. Analfabeto aos 13 anos de idade, foi adotado por uma francesa que o ensinou a ler e a escrever. Neste livro, leva várias histórias que podem ser lidas ou contadas.

Nove Chapeuzinhos (Flávio de Souza) Em Nove Chapeuzinhos, ele cria divertidas versões para essa história, mudando sempre o lugar e a época em que ela se passa. Seja no período cretáceo, entre os dinossauros. Na Índia, há três mil anos, na mitológica Grécia Antiga, em Pindorama, por volta de 1500, numa floresta da Inglaterra, na Idade Média ou na capital do Império do Brasil, em 1889, em Minas Gerais,. Em 2001, escrita em 1901, ou em 3006, escrita em 2006, a Chapeuzinho, sua avó e o Lobo Mau fazem a festa. Trocando os sotaques, roupas e penteados.

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Itajaí por outros olhos No ano em que comemora 150 anos, o clima é cultural. Conhecer uma Itajaí que já se foi é garantia de que é possível o antigo conviver com o novo. Natália Alcântara

FOTOS: ARQUIVO HISTÓRICO DE ITAJAÍ

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Uma cidadezinha estranha. Algumas casas no centro, todo o resto era longe. O motivo para vir a Itajaí era suficiente para superar essa distância, afinal estava vindo para visitar sua mamita, mãe de criação na língua espanhola. Não ficaria aqui mais do que os três meses permitidos, porque voltar para Santiago no Chile significava liberdade. Depois de se formar em Contabilidade, passar as férias em uma cidade tranquila seria o suficiente para descansar da metrópole chilena. Com chapéu, luvas, meias de seda e sapato alto, Cora Eliana Tagle chegou a Itajaí no ano de 1955. Aos 22 anos, solteira, formada e cheia de vida, sentiu-se ridícula pela primeira vez ao ser ela mesma. Sem dúvida, era diferente. Seus trajes, seu modo de falar eram um chamariz tanto para as moças quanto para os rapazes. Na cidade, todos se conheciam. Mas a presença da estrangeira era também motivo para chamá-la a passear e dançar. Cora não hesitava em flertar com os rapazes, gosta-

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va muito de poder conversar com todos. Não se importava se algum homem casado puxasse conversa, afinal, o que chamava a atenção deles era o conhecimento de uma realidade diferente do que aquela vivida até então em Itajaí. Tudo aconteceu muito rápido. Durante as festas e bailes que frequentou na Sociedade Guarani, conheceu seu futuro marido. No carnaval do ano seguinte ficou noiva. Quando completou seis meses em terras brasileiras, foi preciso ir à Polícia Federal em Florianópolis. — Estou com casamento marcado, eu não vou embora não — reclamou ao delegado. Assim, Cora nunca mais se preocupou com o período de três meses, afinal, ao casar em dezembro, já era da cidade, “era brasileira”. Agora era Cora Eliana Tagle Amaral. Desde então, as principais ruas da cidade, Lauro Müller e Hercílio Luz, fizeram parte do seu cotidiano. Andava com seus


sapatos altos nas ruas sem calçamento, era tudo muito precário. Gostava de ver os palacetes pela cidade, a arquitetura era muito diferente do que se lembrava do Chile. — As casas eram muito grandes e fortes. Eu me impressionava com os palacetes. As famílias que tinham as casas mais bonitas eram as mais ricas – relembra Cora, hoje com 77 anos de idade. Os casarões mostravam o poder das famílias. Os frontões cuidadosamente trabalhados e com a fachada sempre virada para a rua principal eram projetados na sua maioria para que fosse possível avistar o rio, onde os navios atracavam. Muitos deles ficavam no berço da cidade, Rua Lauro Muller, onde nasceu e desenvolveu a cidade de Itajaí. Uma das construções mais importantes da antiga Rua da Praia, depois conhecida como Conde D´Eu e finalmente Lauro Muller, é o Hotel Brazil. Construído em estilo república, e inaugurado em 1897, serviu de ponto de encontro durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial. As bandeiras sempre hasteadas representavam a grandeza e fama que o hotel ostentava. Ali se reuniram homens de negócios para falar sobre a vida em Itajaí nos seus diferentes aspectos.

História feita com tijolos Passados cinquenta anos, a Rua Lauro Muller continua a mesma quando se fala em movimento. Há muitos carros, comércios e pessoas passeando. A diferença é que quase não se encontram as casas da época de Cora. Hoje, são prédios de todos os tamanhos que tomam conta da rua. Há quem diga que um dos prefeitos da cidade chegou a propor um novo Plano Diretor que proibiria a construção de prédios na Lauro Muller. A Câmara não aproPalavra de Jornalista Junho 2010

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vou o projeto por entender que tal atitude era contra o progresso não só da rua, como da cidade. Quem caminha pela Lauro Muller à procura do casarão de número 1335, quase passa sem percebê-lo. Ele abriga a Fundação Genésio Miranda Lins em uma casa com quase 100 anos de história. Devido a outras construções ao seu redor, o antigo Casarão Lins acabou ficando um pouco escondido e apertado. Abrir o portão, observar a antiga casa. Sua pequena varanda, o piso diferente, o estilo das janelas e portas, todos grandiosos. É fácil imaginar as pessoas que já moraram naquela casa. Será que no passado também era difícil encontrá-la, ou ganhava destaque na Rua da Praia? Quem pode responder a tudo isso é Dona Vera. Há quase vinte anos trabalhando em Itajaí, Vera Lucia Estork já adotou a cidade. — Sou de São Paulo, bairro Santo Amaro. Quando eu vim morar aqui, a cidade tinha o slogan: “Itajaí: há lugar para todos”. Outro dia eu ouvi alguém dizendo que é por isso que tem um monte de gente diferente aqui. Eu sou de fora, mas considero muito essa cidade — recorda dando risada. Dentro do Centro de Documentação e Memória Histórica da Fundação Genésio Miranda Lins, ocupa hoje o cargo de diretora, mas já foi bibliotecária arquivista. Sua paixão está em preservar as coisas do passado e despertar essa sensibilidade nas pessoas. Já chegou a ser chamada de conservadora por causa do seu jeito de ser. Ali, no meio dos livros, fotos, jornais e outras fontes de documentação, é possível ver seu papel de guardiã do passado. A maneira com que ela se identifica e se sente à vontade. O mais interessante de tudo isso, é que faz parte de um passado que ela não viveu, que não é da sua cidade natal. Mesmo assim, Vera fala com paixão sobre uma Itajaí que insiste em se manter viva através de sua arquitetura antiga.

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É preciso resgatar o passado Muitas pessoas têm buscado informações sobre Itajaí devido à comemoração dos 150 anos. A história do município vai além do que está guardado no arquivo. É a própria busca das pessoas por suas raízes. O resgate através do patrimônio histórico-cultural é uma maneira de conhecer as origens, e principalmente, criar raízes. — Um dia desses, durante uma apresentação de um evento em comemoração ao aniversário da cidade, ouvi crianças cantando aquela música. “Se essa rua, se essa rua fosse minha...” — faz uma pausa, depois com a voz embargada continua — me fez lembrar a minha infância. Não só a lembrança. É como se você quisesse agarrar de novo o passado. Mas já foi. Parece que é isso que está acontecendo com Itajaí. Quando o assunto são as casas antigas que foram derrubadas, Vera muda de semblante. Fica mais séria. É como se fos-

se uma pergunta indiscreta. — O que fica é o sentimento de impotência. A gente não consegue fazer nada. O problema é que sempre são muito caras as restaurações. Alguns imóveis até se mantêm preservados, mas é a vontade de poucos. São poucas as pessoas que têm sensibilidade para preservação — comenta folheando o livro “Itajaí Imagens e Memória”. Apesar das dificuldades e mesmo com incentivos dados pela Prefeitura Municipal, Itajaí consegue preservar algumas dessas construções. Mas é muito difícil. — Se caminharmos pela cidade, fica claro que perdemos algumas dessas antigas edificações. Com isso, acabamos perdendo um pouco da história, mas grande parte dela ainda se mantém de pé, e isso faz com que mais pessoas se interessem por essa antiga Itajaí. É preciso haver um trabalho de educação patrimonial para que desde crianças, as pessoas aprendam a conhecer a história do seu município e tenham o desejo de continuar deixando essa história viva. Esse é o desejo de quem trabalha para que esse patrimônio não seja esquecido, permitindo assim que o antigo e o novo convivam

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harmoniosamente, apesar da modernidade e progresso necessários para o desenvolvimento sócio econômico. Na introdução do livro Identificação do Acervo Cultural de Itajaí, publicado em 2001, organizado por Ana Bela S.F.A. Machado é possível aprender um pouco mais

sobre a arquitetura tão peculiar de alguns imóveis importantes de Itajaí. E principalmente entender que “(...) o patrimônio histórico e cultural é como a família, precisa ser preservado, para não corrermos o risco de desconhecermos nosso passado e nossas raízes”. P

O que significa tombar um patrimônio? A expressão é antiga. O tombamento se referia ao ato de guarda e conservação de documentos importantes nos arquivos da Torre do Tombo, em Portugal. Hoje significa o ato e registro em livros especiais (de construção, monumentos, objetos, documentos, entre outros) considerados importantes por razões históricas, arquitetônicas, artísticas, tecnológicas ou afetivas. Desse modo, são protegidos por lei pelo governo e comunidade, e passam a ter sua preservação assegurada. O conjunto desses bens forma o Patrimônio Cultural. Dependendo da importância do bem, ele pode ser tombado por órgão público municipal, estadual ou federal. O órgão estadual responsável pela inscrição e guarda dos livros de Tombo, é a Fundação Catarinense de Cultura. O importante lembrar é que a comunidade tem papel fundamental na preservação, só assim é possível conservar a história e identidade cultural.

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Fotografias cedidas pelo Arquivo Histórico de Itajaí. O Centro de Documentação e Memória Histórica de Itajaí é composto por mais de 15 mil fotografias mostrando ruas, edifícios, monumentos, pessoas, famílias e flagrantes sociais, culturais, religiosos, políticos e esportivos.


FOTOS: KATIANA DEGGAU

O patrimônio mais gostoso da cidade Katiana Deggau

Além de ser um lugar cercado de histórias, é um ótimo ambiente para saborear cultura de ver, ouvir e provar

A antiga “Praia do Rio” é conhecida hoje como Praça Felix Asseburg, o endereço do Mercado Público de Itajaí. Suas estruturas foram projetadas em 1916, marcadas pela influência dos imigrantes germânicos no Vale do Itajaí. Era o primeiro dia daquele ano de 1917 quando o prefeito Marcos Konder inaugurou o mercado que era o orgulho da cidade. Ali, se atenderiam agricultores, pescadores e comerciantes de Itajaí, no início se comercializava secos e molhados, depois chegou a vender tecido e a possuir um açougue. Sua estrutura inicial possuía quatro frontões, com cobertura em telhas “castor”, típicas da área da imigração. A estrutura era em madeira, e cada entrada apresentava portões de ferro. João Pedro da Silva, pai de Isaías João da Silva, “tirou madeira” para a construção do Mercado Público. Isaías é proprietário da loja de artesanato que era de seu pai. Palavra de Jornalista Junho 2010

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Depois de um terrível incêndio, o mercado foi reformado e suas fachadas foram modificadas. A necessidade de usar a modernidade que chegava ao país e o próprio incêndio foram as causas das mudanças. Os ornamentos externos foram destruídos, as paredes que eram decoradas com frisos retos e os frontões foram demolidos, deixando o mercado com a aparência atual. Os portões de ferro continuam, sua fachada é pintada na cor amarelo queimado na grande parte, mas do chão até a metade das portas a parede é na cor vermelha e suas pilastras em branco. Os toldos em verdes com listras vermelhas são armados para proteger as lojas do sol, as portas dos estabelecimentos são verdes. Na frente do mercado há enormes coqueiros e embaixo deles encontra-se um banco, perfeito para relaxar. Um dos seus pontos principais é o chafariz, que fica no pátio interno do prédio e é de autoria de Luiz Colares, uma tradição ibérica. Aos sábados, o ambiente serve de espaço para tradições populares, como serestas e o boi-de-mamão. “Esse espaço cercado de lembranças e tradições serve de palco para fados, mas

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em grande parte também música popular brasileira”, declarou Luciano Cabral Garcia, funcionário do conservatório de Musica de Itajaí. Oliver Dezidério, diretor do conservatório, é o responsável por selecionar os artistas que se apresentam no local, sempre aos sábados. É ele que escolhe os artistas que irão se apresentar no espaço. O ambiente sem cobertura, permitindo olhar o céu, o artesanato, as mesas e a circulação de pessoas transmitem uma sensação de alegria e movimento.

De geração em geração Isaías João da Silva, 72 anos, nascido em Itajaí, é o proprietário do Artesanato Silva, que antes era de seu pai, João Pedro da Silva. Isaías estudou até a 4ª série e foi trabalhar na loja da família. Ele lembra que o Mercado Público teve períodos de grande abandono, ficando apenas a loja Artesanato Silva e a loja Porto Belo, também de artesanato. Em outra época, um


prefeito queria despejá-los e tinha a intenção de transformar o mercado em uma galeria de artes, mas não conseguiu. Depois do incêndio, a loja Porto Belo desocupou o mercado, apenas o senhor Isaías não saiu, contratou um advogado e permaneceu ali. Depois do término da reforma, já no governo de Jandir Bellini, Seu Isaías voltou para o mercado We está lá até hoje. Sua loja vende de tudo de vassouras até panelas – são balaios, cestos, vassouras, abajures, tapetes entre outros artigos. A maioria dos produtos é artesanal, não apenas de artesãos locais, mas também de todas as partes do país. Também se vendem produtos industrializados, mas em menores quantidades. Seus clientes variam entre itajaienses e turistas. Os visitantes encontram lá as famosas lembranças que gostam de levar para casa: chaveiros, artigos de palha, tapetes. Além do Artesanato Silva, há também a loja Artesanato Porto Belo, que vende produtos do mesmo segmento, artigos de palha e cestarias. Na ponta do mercado está o Empório Éden. Logo na entrada avistamos deliciosas frutas cristalizadas e maravilhosos doces portugueses. O empório atende o público com produtos a granel, castanhas, frutas secas, ervas e temperos. Raquel Dias, gerente do local, nos conta que dos artigos tipicamente açorianos, vendem o bacalhau e doces portugueses, como o pastel de Santa Clara que é o único produzido em Itajaí. Os outros vêm de São Paulo, e são os mesmo servidos na Marejada, festa que apresenta Palavra de Jornalista Junho 2010

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produtos do mar através das exposições, do folclore português e da culinária. Os tradicionais vinhos portugueses também estão à venda. Há ainda as cachaças, que Raquel reforça que são bem procuradas. Os doces secos viram atração com formatos dos pontos turísticos de Itajaí, como a Igreja Matriz, a rocha do Bico do Papagaio. Além de deliciosos, são lindos. No outro canto do mercado, com suas mesas postas, guarda sol sempre armado, enfeitando ainda mais o lugar está o Café e Restaurante Mercado Velho, que serve a seus clientes a culinária portuguesa e comidas com frutos do mar, típico do local afinal se localiza ao lado do Mercado de Peixe. É gostoso saborear uma deliciosa sardinha, ou o tradicional “Baú de Roupa Velha”, prato de carne seca acebolada, pirão de feijão, mais os acompanhamentos. Petiscar uma linguiça açoriana, uma carne seca e no inverno saborear uma feijoada completa, servida aos sábados. Outro prato servido pela casa é a bacalhoada, com peixe em posta, assado com batatas, ovos, cebola, entre outros ingredientes com bastante azeite de oliva. Quem gosta de pintar ou de artigos em madeira, encontra no mercado produtos em madeira crua, como porta jóias, molduras, porta trecos entre outras coisas, prontos para pintar. È um lugar que sem dúvida encontramos entretenimento para toda a família, e um lugar repleto de histórias e delicias para serem vistas e outras saboreadas. P

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FOTOS: REINER WOLFF

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O alumínio ganha formas Any Gabrielli Costa

Originalidade e design diferenciado, essas são as principais características das obras do artista plástico Reiner Wolff

Embalar as obras, ligar para transportadora, conferir passagens, verificar horários, arrumar a mala pessoal, sem esquecer a nécessaire. Tudo certo para mais uma feira do artista plástico Reiner Wolff. Próxima parada, Porto Alegre. Mãos de Terra, uma feira que tem como propósito incentivar a miscigenação cultural entre artesãos do mundo todo, promover negócios com lojistas, e permitir ao público conhecer o que há de diferente e melhor em várias culturas. Geralmente, participam da feira associações, órgãos públicos e privados que apóiam e incentivam a cultura artesanal e as delegações oficiais dos países participantes. Durante os dias de exposição da feira, são realizadas oficinas artesanais oferecidas ao público. Muitas têm apoio do Serviço de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Ministério da Cultura, Prefeituras e outros. Arame de alumínio, chapas, madeira, couro, brocas, cordas, parafusos, tintas, tecidos, escovas, serra e

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outros materiais são encontrados aos montes no estúdio do artista plástico Reiner Wolff. Morando atualmente na praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú, tem uma oficina no quintal de sua casa. Aliás, o artista utiliza partes da própria casa como atelier e show room. Reiner trabalha no lugar onde mais gosta, no meio da natureza e de seus animais de estimação. Além de artesão, montou uma empresa, a Lobo & Art’s que se especializou no artesanato, em que o trabalho é realizado em parceria com arquitetos, decoradores e designers. As fachadas de prédios são obras imensas, realizadas em parcerias com construtoras que enfeitam vários edifícios de Balneário Camboriú e região. Com uma equipe que desenvolve desde a criação, desenvolvimento e divulgação das obras, a Lobo & Art’s trabalha também com quadros que são utilitários, como porta-utensílios e mural. A principal característica é o design exclusivo, numa combinação de espírito alemão com cara de Brasil.


Antes de criar qualquer obra, ela passa por um longo processo de desenvolvimento. Primeiro é feito o brainstorm, quando são discutidas as primeiras ideias sobre a obra como forma, tamanho, textura, cor. Passando esta etapa, muitos rabiscos são feitos, refeitos e só em seguida começa a materialização do projeto. “Todo processo de criação começa através do pensamento, porém muitas vezes nem sempre o que pensamos podemos materializar”, afirma Wolff. O artista trabalha com um material resistente, leve, moderno, tanto em sua cor natural ou com acabamento nas mais diversas cores, o alumínio valoriza qualquer peça e ambiente. Definindo como um bom trabalho, os acabamentos, ori-

ginalidade, criatividade, material ecológico, preço e principalmente o design diferenciado. Segundo Reiner, o artesanato brasileiro está em plena expansão. Mesmo com a concorrência dos produtos importados, o país vai descobrindo sua própria identidade. Pode-se agregar valor ao trabalho que tenha identidade, seja pela sua história local, ou algum material característico. Há um panorama favorável para o artesanato brasileiro, basta ver as inúmeras feiras nacionais e internacionais em que o país tem se destacado. Claudia Wolff, responsável pela divulgação dos trabalhos de Reiner, oferece dicas de outras formas de divulgação de trabalhos artesanais, que são as Palavra de Jornalista Junho 2010

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exposições e os salões de arte. Eventos completamente diferenciados das feiras, as exposições podem ser individuais ou coletivas. Os salões de arte são eventos que passam por curadorias e geralmente servem como currículo para o artista. Os salões de arte são a prova mais difícil em que o artista se expõe, são vários curadores que fazem a escolha. Primeiro enviam-se fotos dos materiais e só assim para ser selecionado e participar. Conforme diz Cláudia, estes salões de arte têm sido questionados, pois estão selecionando apenas artistas com nível acadêmico, deixando os autodidatas de fora. Outra ferramenta importante é a internet, hoje em dia tudo está disponível na rede, apesar dos maiores volumes das

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vendas serem realizados nas feiras, porque concentram um público maior que vai especialmente para adquirir o artesanato. As feiras servem para divulgar o trabalho e vender, porém é necessário ter sempre o cartão de visitas com um site para se fazer o pós-venda, afirma Cláudia.

Um alemão em terras brasileiras Nascido em novembro de 1957, na glamurosa cidade de Berlim, Alemanha, Reiner Paul Walter Wolff, mais conhecido com Reiner Wolff, é um artista plás-


tico que faz do alumínio a sua arte. Sempre buscando novidades nas tendências mundiais, acompanhou desde cedo o desenvolvimento cultural Europeu, tornando-se hoje em dia um artista renomado. Conheceu o mundo das artes aos 17 anos, quando prestava serviço militar não obrigatório na cidade de Munique. Estudou vários tipos de artes como balé moderno, jazz, teatro, música, artes plásticas. Em seguida, desenvolveu trabalhos de decoração de interiores, com largo conhecimento em madeira, sempre dando destaque ao sentido artístico de todo material. Ao vir morar no Brasil, se envolveu com artes plásticas e aos poucos foi descobrindo o artesanato. A riqueza que existe na matéria-prima brasileira chamou sua atenção, e se apaixonou pela criação e o mundo artesanal. Hoje o artesanato deixou de ser hobby para ser atividade principal, “além de aliviar o estresse é um meio para se manter as contas em dia”, afirma o artista.

Uma escolha consciente O alumínio é o único material reciclável que pode ser reaproveitado infinitas vezes, sem perder suas características no processo de reaproveitamento, ajudando a diminuir a quan-

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tidade de lixo no planeta. Segundo o biólogo Eduardo Cartamil, o alumínio pode ser reciclado através das sobras de produtos utilizados no cotidiano, como latas de bebidas, clipes, grampos, esponjas de aço, canos, sucatas de reformas, utensílios domésticos entre outras sobras, mas nem sempre eles voltam a ser o que eram antes. O Brasil é campeão mundial de reciclagem de latas de alumínio para bebidas há alguns anos, recuperando quase 100% das latinhas consumidas, segundo dados da Associação Brasileira do Alumínio. Esse processo que envolve catadores de sucatas, cooperativas de lixo e indústrias de reciclagem, gera emprego e renda para milhares de pessoas. Além disso, a reciclagem das latinhas de bebidas estimula a coleta de outros materiais, como papel, vidro e plástico, colaborando diretamente para a redução do volume de lixo acumulado. A reciclagem de qualquer tipo de material é importante, afirma o biólogo, tanto para diminuir o acúmulo de lixo, quanto para preservar a natureza da comercialização de matérias prima. O consumidor em geral, pode auxiliar na reciclagem separando todo o lixo produzido nas residências e empresas, impedindo que a sucata se misture aos restos de alimentos, o que facilita o reaproveitamento pelas indústrias. Dessa forma, evitamos também a poluição. P

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A arte que dรก vida aos troncos Palavra de Jornalista Junho 2010

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FOTOS: KEILA ZANATTO

Keila Zanatto

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O cheiro de madeira no ar, cedro e nó de pinho, serragem pelo chão, pela roupa, ferramentas de todos os tamanhos, tintas e cera de abelha. É desse cenário que saem grandes obras de arte, de uma pequena colônia austríaca em Santa Catarina para o mundo. Herdeiros de uma tradição, os artistas desenvolvem estilo próprio e uma inspiração invejável. Eles têm muito em comum. Observadores e detalhistas, dedicam a vida a esculpir madeira. Cada detalhe talhado é uma letra a compor a história dos escultores. Histórias de família e de aprendizado. Histórias de ontem, tão reais e vivas quanto as de hoje, só que com outros personagens.


Uma arte que veio de longe, de navio, para sobreviver à crise. Espremida na bagagem de imigrantes austríacos. Herança de famílias que deixaram um país assolado pela guerra e desembarcaram em Treze Tílias, no meio oeste de Santa Catarina, a 470 km da capital Florianópolis. Foram eles que atravessaram o oceano com a ideia de entalhar madeira, de dar vida aos troncos mortos e ensinar a arte aos filhos, netos e bisnetos. É desta carga de cultura que a cidade se tornou “o berço da escultura catarinense” e tem hoje, mais de vinte escultores profissionais. 1933. Mundo entre guerras. A Áustria sente os resultados da derrota na Primeira Guerra Mundial. Crise econômica, fábricas fechadas, desemprego, dívidas e a falta de recursos para a atividade agrícola foram os motivos que levaram o então ministro austríaco da Agricultura, Andreas Thaler, a partir em busca de novas terras. Apoiado

pelo governo da Áustria, Thaler e as famílias de agricultores reconstruíram seus sonhos em terras brasileiras. O novo povoado, um pedaço de chão que chamaram Dreizehnlinden (Treze Tílias). Nome do poema preferido do fundador da cidade. Em um cantinho, junto aos seus pertences, os imigrantes conseguiram colocar na bagagem muito mais que a arte de esculpir. Arrumaram um espaço e trouxeram também a dança, a música e a Banda dos Tiroleses formada na viagem, no navio. O idioma, alemão. O chapéu verde com penas ao lado, os trajes. Festas típicas, culinária. Estilo austríaco para as casas com o campanário e o sino nos telhados. Tudo continua preservado. Uma herança que não se perdeu. As pequenas montanhas e o clima semelhante ao Tirol, estado da Áustria, foram terreno fértil para brotar uma cultura que passa de geração a geração.

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As nevascas nos invernos rigorosos da Áustria impediam os camponeses de realizar suas atividades. Trancados em casa, eles preenchiam as horas geladas do dia com um passatempo: esculpir madeira. Mas, fazer obras de arte com pedaços de árvore não era só uma distração de inverno. Quando o sol do verão derretia a neve, os pastores conduziam os animais até as pastagens no alto das montanhas. Enquanto o rebanho saciava a fome, os camponeses já sabiam que tinham tempo livre para o seu hobby. O que eles não sabiam é que aquele entretenimento, anos mais tarde, a quilômetros de distância, seria uma atividade levada a sério como profissão e que as obras em madeira correriam o mundo. Os primeiros imigrantes escultores que chegaram a Treze Tílias e ensinaram a arte de esculpir madeira foram Georg Thaler, irmão do fundador da cidade; Josef Moser e Andrä Thaler, filho de Andreas. Andrä que aprendeu

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com seu avô, ensinou seus três filhos, entre eles Gotfredo Thaler, e um dos netos, Werner. Já Bernardo, Conrado e Rudi Moser são os sobrinhos a quem Josef Moser passou a técnica. Ele era escultor formado pela Academia de Belas Artes de Munique, na Alemanha. Esses artistas fizeram nascer dentro de suas famílias, uma escola de escultores, onde um ensina o outro. Os ensinamentos começam desde cedo, alguns na infância, outros na adolescência. Cada aprendiz cria seu próprio estilo e aos poucos, descobre o talento que corre pelas veias. Em Treze Tílias, é possível ver que a escultura não faz parte só do ambiente em que vivem os artistas, mas também das casas da maioria dos moradores, seja na madeira das portas, num quadro da santa ceia ou em uma imagem da face de Cristo no nó de pinho. Assim como os austríacos da época da imigração, os descendentes também são fortes seguidores da religião católica.


A escultura de uma cruz e a imagem de Cristo pregado, com sete metros de altura em uma das ruas da cidade, chama atenção. A casa logo atrás da gigantesca obra é de Gotfredo Thaler, 70 anos. É ali que estão algumas das esculturas que faz, em seu ateliê e o de suas filhas Ingrid e Ellen. Gotfredo fez faculdade de Belas-Artes em Brasília e depois, em busca de aperfeiçoamento, partiu para Áustria, onde teve contato com grandes escultores. Confiante, com novas técnicas e cheio de experiências, voltou ao Brasil para dedicar-se à escultura sacra e ficou conhecido por suas obras gigantescas. É necessário subir em andaimes para esculpir. Seus trabalhos podem ser encontrados em todo Brasil. As obras mais famosas estão no Vaticano, na Áustria, na Igreja Dom Bosco de Brasília – DF e na Catedral de Joaçaba – SC.

Mulheres de madeira Ela começou aos 11 anos e desenvolveu uma arte diferente. Esculpe mulheres finas e altas com vestidos longos. Este é o estilo da escultora Ingrid Thaler, 34 anos. Formada em Artes Plásticas, pela Universidade Federal de Santa Catarina, ela frequentou a Escola Profissional para Escultores em Madeira em St. Jakob – Ahrntal – Südtirol na Itália. Recebe encomendas de todos os cantos do país e esculpe o que o público solicita. Amplia e imprime o modelo a ser entalhado. No caso de bustos, ela diz que o correto seria uma pessoa real posar para que os detalhes fiquem mais precisos. A madeira que a escultora utiliza é o cedro. Ingrid explica que para a obra não correr riscos de rachar depois de pronta, o tronco precisa ser cortado no inverno, ou como eles costumam falar, nos meses que não pos-

suem a letra R - maio, junho, julho e agosto. Paraná, Mato Grosso e algumas cidades de Santa Catarina são os fornecedores da matéria prima para as obras. Quando o trabalho de Ingrid é descoberto e o público se interessa em aprender, ela vira professora e ensina os admiradores. Disponibiliza todo o material, a madeira e os formões já que são difíceis de encontrar e custam muito. Em outro canto da cidade, provinda do mesmo lugar, a história se repete, mas com outros personagens. Rudi Moser e Christian. Ferramentas em mãos, um modelo em papel fixo na parede e um pedaço de madeira, eis o desafio para pai e filho. Os especialistas em nó de pinho dividem o mesmo ateliê. Rudi teve grande influência de sua mãe Maria Thaler Moser. Os trabalhos são variados, pois atende encomendas, tanto no estilo barroco quanto moderno, mas o que ele sabe mesmo esculpir é a Santa Ceia e relevos em portas. Christian não gostava de esculturas, mas foi influenciado pelo pai. Começou aos dez anos e agora com 23, vive da arte. Para aperfeiçoar a técnica, foi trabalhar na Áustria. Christian conta que os austríacos valorizam o trabalho manual. A onda da tecnologia atingiu até as esculturas e as obras feitas em máquinas estão em alta no mercado. Arte sacra é sua preferência. P Palavra de Jornalista Junho 2010

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Folclore brasileiro e tirolês Este é o estilo encontrado nas esculturas de Ludwig Blahowetz. Ele nasceu em Linz na Áustria. Era 1953 e a situação dos países europeus ainda não estava cem por cento, por isso a família mudou-se para São Paulo. Influenciado pelo pai que esculpia em metal, Ludwig formou-se em escultura na Escola de Arte em Salzburg, na Áustria. Em 2004, mudou-se com a esposa para Treze Tílias. A semelhança com suas origens enraizada na pequena cidade e o contato que ele pode ter com os demais escultores foram os principais motivos para a escolha. É possível reconhecer suas obras pelos relevos. Ele trabalha os detalhes até das costas dos personagens do quadro, e mais, não é só escultor. Alguns dos escultores de Treze Tílias só esculpem, deixam a parte da pintura para outros membros da família. O que destaca o austríaco é que ele desenvolve sozinho todos os passos. Não procura modelos prontos e segue, vai além, com lápis e papel na mão, desenha. Esculpe e pinta, com tinta aquarela mesmo.

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Fotografia para todos FOTOS: FABIELI FERNANDA KEHL

Oficinas gratuitas oferecem a oportunidade de um contato mais próximo com a arte de fotografar em Balneário Camboriú Fabieli Fernanda Kehl

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Quando observamos ao redor, muitas vezes, encontramos belas paisagens com crianças brincando em uma pracinha ou até mesmo com simples borboletas pousadas em um tronco. As imagens permanecem na mente por um curto período, pois logo enxergaremos outras paisagens, outras borboletas. Depois de algum tempo, ainda conseguimos recordar aquelas imagens, mas nem sempre ficam nítidas na memória de cada um. Com o avanço da tecnologia, temos diversos aparelhos que permitem registrar momentos marcantes. É através da fotografia que podemos retornar àquele passado não muito distante e relembrarmos situações que foram significantes. Quantas vezes não estamos sozinhos em casa, e o álbum de fotografias nos chama a atenção. Nem sempre as imagens são esteticamente agradáveis, mas trazem boas lembranças. Hoje em dia, é fácil manusear uma câmera fotográfica, mas nem todos entendem realmente o universo da fotografia. Há técnicas e conceitos que somente quem estuda o assunto é que consegue compreender. Muitas vezes, apenas o modo como observamos certas imagens não são suficientes para que elas saiam como a gente desejou. Quantas imagens foram deixadas de lado por não conseguirmos demonstrar a real visão nelas? Para o fotógrafo Celso Peixoto, a bagagem cultural influencia muito na hora de captar boas fotos, mas não é o suficiente. “O resultado final é um pouco do que você é, se você não tem responsabilidades, isso irá refletir no seu trabalho. Mas para conseguirmos passar realmente o que desejamos nas fotografias, devemos ter pelo menos noções técnicas básicas”. Peixoto, como é mais conhecido em seu trabalho profissional, começou como músico aos quinze anos. Já prestou

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vestibular para Engenharia Mecânica e trabalhou com topografia. Mas aos poucos foi percebendo que sua verdadeira vocação era a fotografia, principalmente na área social. “Nunca fiz uma fotografia apenas por fazer. Minha ideia é de que através das imagens podemos sacudir as pessoas para fazê-las pensar realmente o que viemos fazer nesse planeta”. Há dez anos na profissão, deixou de lado sua carreira de músico para ingressar na fotografia. Percebia que através das imagens, ele conseguia passar muito mais seus sentimentos do que através da música. Hoje, Celso Peixoto trabalha com fotojornalismo na Prefeitura de Balneário Camboriú, além de seu trabalho autoral e documental. Através das lentes e de um olhar fotográfico, conseguimos expressar inúmeros sentimentos para que outras pessoas compreendam o que está se passando em volta. Celso sugere classificações particulares para a fotografia, e a divide em comercial, documental, e artística. “A fotografia é principalmente artística. É uma forma de expressão, pois através dos meus trabalhos em fotojornalismo e exposições, eu consigo expressar a ideia inicial, além de chocar ou encantar as pessoas”.


Digital X Analógica Com a globalização, a fotografia também passou por transformações. Até pouco tempo atrás, só podíamos contar com as câmeras analógicas, aquelas em que é necessário utilizar filme. Em um processo acelerado, o que parecia ser de última geração tornou-se ultrapassado. As câmeras fotográficas digitais chegaram para ocupar o lugar das analógicas.

Celso explica que para muitas pessoas a mudança foi positiva, mas pra outras não. O fotógrafo passou por essa transformação, mas diz que não sofreu problemas para se adequar. “Eu comecei a minha fotografia no analógico. Mas como eu trabalho bem com o computador e lido com a internet, a mudança não me pegou de surpresa, pois eu sempre busquei me aperfeiçoar. Mas eu

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percebo que muitas pessoas ainda lutam contra isso, mas estão vendo que agora não tem mais volta”. Celso diz ainda que uma fotografia não pode ser considerada melhor ou pior do que a outra. São diferentes sim, mas a plástica, a luz e o recado que cada um passa na fotografia são independentes de ser digital ou analógica. “O resultado está aí, talvez você perceba a diferença somente no final, mas quase sempre é imperceptível”. Hoje em dia, o equipamento digital melhorou muito, mas antigamente para o fotógrafo chegar ao resultado e a qualidade de uma fotografia analógica, era necessário ter em mãos equipamentos caríssimos.

Qualquer um é capaz de fotografar? Para começar a fotografar, a pessoa precisa ter em mãos uma câmera. Para quem está iniciando, o fotógrafo indica as que possuem um zoom ótico e não digital, pois para ele, o zoom digital não traz bons resultados. A pessoa deve busca se enquadrar ao seu perfil. Muitas não gostam de carregar equipamentos pesados, então preferem câmeras portáteis que têm boa qualidade de imagem. Mas, Celso salienta que muitos iniciantes já se interessam por fotografias mais complexas, então indica câmeras profissionais, de maior porte, com lentes cambiáveis e outras funções.

Dicas para começar a fotografar Para iniciar o processo de fotografar, a pessoa precisa ter algumas noções básicas. Celso indica quatro técnicas que trazem bons resultados: - Toda máquina fotográfica possui dois estágios no botão. Quando você aperta suavemente ela faz o foco, e depois ao apertar o botão até o fim, a máquina dispara; - Nunca se deve fotografar contra o sol ou contra uma luz muito intensa. Sempre fotografar na diagonal para que não entre luminosidade na lente da câmera; - Não tire fotos de objetos muito próximos usando o flash, a fotografia fica “chapada”, como dizem os fotógrafos pelo excesso de iluminação; - Procure sempre segurar firme a máquina. Espere ela terminar de fotografar para depois soltar a mão.

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Oficina Educando o Olhar Algumas pessoas aprendem a fotografar por conta própria, outras garantem que nasceram com o “dom”, e há outras que ainda buscam cursos especializados. Se você for uma dessas pessoas que querem orientação profissional, o Projeto Oficinas, juntamente com o fotógrafo Celso Peixoto, criou a “Educando o Olhar”. O objetivo principal é melhorar o olhar fotográfico, criando imagens com estética e conteúdos mais aprimorados. A turma inicial era formada por crianças, mas logo foi encerrada, pois as mesmas não assimilavam muito bem as técnicas. A outra começou com professores da Rede Pública durante o dia, mas com o sucesso, logo foi transferida para o período da noite para que mais pessoas tivessem acesso. Celso garante que em todas as turmas o resultado foi surpreendente e que a maioria dos alunos desenvolveram trabalhos brilhantes. “Com certeza, a oficina revela vários talentos, pois muitos dizem que aprenderam a ver a fotografia com outros olhos”. Para a aluna Solange Pfiffer, 40 anos, a fotografia é uma forma de expressar seus sentimentos, além de ser seu trabalho profissional. “Eu já sou decoradora e estou me especializando na fotografia. Já estou montando um estúdio fotográfico e pretendo continuar atuando na área”. Solange diz que se interessou na oficina quando percebeu que o que via era necessário ser guardado não apenas na lembrança, mas em documentos.

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Para Anderiquei Canfield, 27 anos, não foi diferente. Ele já trabalha como designer, e garante que a fotografia influencia totalmente em seu trabalho. “Na minha profissão eu preciso entender principalmente sobre a manipulação das imagens, em como construir uma boa fotografia para que meus clientes entendam a ideia que eu quero passar, para assim, conseguir divulgar e vender meus trabalhos para um número maior de pessoas”. Mas nem todos os alunos estão em busca de aprimoramento profissional. Letícia Santos de Oliveira, de 18 anos, é estudante. Seu interesse pela oficina surgiu involuntariamente. “Não me interessava por fotografia, mas sempre sou eu quem fotografo nas festas. Meus amigos sempre disseram que eu levava jeito para a coisa, então resolvi me especializar”. A estudante diz que a cada dia surgem novas técnicas, novas funções que são difíceis de entender, então com a oficina, o professor explica todos os mecanismos e as noções necessárias para fazer uma boa fotografia. A oficina é mensal e é composta por quatro aulas de três horas cada. A idade mínima exigida é de 16 anos, mas não existe idade máxima. “Ao final de cada mês eu fico na expectativa sobre os novos alunos que irão entrar. Temos senhores aqui que estão com seus setenta e poucos anos, cinquenta e poucos, vinte e poucos anos”, diz Celso. Para frequentar as aulas, por ser gratuita, a única exigência é que o aluno tenha uma câmera digital, não necessariamente profissional. As inscrições podem ser feitas na sede do projeto em anexo ao CAIC Ayrton Senna da Silva das 8h às 12h e das 13h30 às 17h30, de segunda à sexta-feira. P

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Marcado na parede Palavra de Jornalista Junho 2010

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FOTOS: DAYANE REGINA CORDOVA BAZZO

Dayane Regina Cordova Bazzo

Artistas ou grafiteiros, eles são polêmicos – amados ou combatidos, mas nunca passam despercebidos

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Os primeiros traços nascem na parede branca. Nos estilos estêncil, wildstyle ou persona, eles vão ganhando forma, as cores preenchem os espaços em branco e aos poucos, a marca de cada um fica registrada ali. Nos muros abandonados ou becos da cidade, podemos encontrar esta expressão da cultura de rua, o graffiti. Usando vários moldes feitos com papel cartão, Luis Felipe Berejuk, 22 anos, começa a dar forma ao seu desenho. Há um ano fazendo graffiti, ele diz que sua especialidade é o estilo estêncil, talvez um dos mais difíceis de fazer, pois os moldes são todos feitos a mão. A modalidade mais conhecida, e também a mais vista pela cidade, é o estilo

wildstyle. As letras trançadas formam o nome Diant na parede. Diant, 24 anos, ex metalúrgico da cidade de Erechim, no Rio Grande do Sul, largou tudo e veio morar em Balneário Camboriú há dois anos, para viver do que ele mais gosta de fazer. Incorporou o jeito graffiti de ser e não revela seu verdadeiro nome por nada deste mundo. Já as caricaturas vistas por aí nas paredes são chamadas de persona. É o estilo que Rhuan Santos, o Rhuan RZ, 19 anos, mais gosta de fazer. Inspirado pela música, ele prefere homenagear amigos e seus ídolos, tanto da música quanto do graffiti. Em Itajaí, essa arte surgiu depois de 2004, quando o colombiano Adrian H. Guzmán, conhecido como MakeOne, 29 anos, resolveu mostrar o seu trabalho.

“Quem não conhece a história do graffiti não entende que, além da arte, ele é cultura”

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Diferente de Bogotá e Nova Iorque, cidades onde ele já havia morado, Itajaí não tinha influências do graffiti. Seu primeiro trabalho na cidade foi no Projeto Arte nos Bairros, onde ensinava as técnicas do graffiiti para os jovens da comunidade. Foi assim que Daniel André Nardes, o DanTwo, 20 anos, conheceu o graffiti. Participou do projeto e encontrou nessa arte a tão sonhada liberdade, "é o único momento em que eu posso fazer o que quiser", diz Daniel, que estuda Design Gráfico e se diz ser muito voltado para as artes. Mas o graffiti, apesar de sua popularização, ainda é confundido com a pichação e visto com preconceito. "Quem não conhece a história do graffiti não entende que, além da arte, ele é cultura", esclarece Rodrigo Rizo, 22 anos, grafiteiro há oito anos. "O graffiti e a pichação vêem da mesma essência, o ato de se expressar. E por trás dos desenhos existe toda uma técnica e organização". Dentro da cultura do graffiti está a atitude, a vontade de querer aprender novas

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técnicas de pintura, o respeito pelo trabalho do outro, e existe até um código de ética da rua. "O grafiteiro deve respeitar a pichação, e vice-versa”, confirma Rizo. Existem também as suas próprias gírias e alguns termos, como por exemplo, o tag, que é a assinatura do grafiteiro e crew, grupo de grafiteiros que se reúnem para pintar juntos. Bermuda jeans surrada, camiseta larga, ambas manchadas de tinta, boné e chinelos. A roupa revela o estilo largado de Diant, que há sete anos sentia pela primeira vez na pele a adrenalina de pegar uma lata de spray e sair pelas ruas da cidade pichando seu nome. Até que um dia se interessou pelo graffiti e hoje faz dele sua profissão. "Quero conhecer o mundo pintando", declara Diant. "É muito mais bonito ver uma pintura dessas pela cidade do que aquelas pichações sem fundamento". O aposentado Moacir Pedroso, 70 anos, acredita que os desenhos feitos pelos grafiteiros incentivam a arte na cidade, nas palavras dele, "é fenomenal o que esses garotos fazem".


Qual você levaria para casa? Não está apenas na rua. O graffiti, que nasceu em Nova Iorque nos anos 1980, hoje vem sofrendo uma transformação. Ele passou a ocupar espaços destinados à arte de elite como galerias de arte, moda e a publicidade. “O graffiti está sendo domesticado”, afirma a assessora do Projeto Pretexto do Sesc de Itajaí e também artista plástica Fabiana Wielewicki. Ele virou um produto para ser comercializado. Mas, o que os criadores dessa arte pensam sobre isto? Para o grafiteiro Quiko Nuts, 30 anos, quanto mais vender, melhor. “As pessoas acham que graffiti na rua não tem valor, mas quando vai para uma galeria, você ganha dinheiro com seu trabalho”. Ele diz que já foi discriminado e até preso enquanto pintava na rua. “As pessoas discriminam sem conhecer”. A questão levantada pela artista plástica Fabiana Wielewicki não é apenas sobre vender o seu trabalho mas, se ele não está perdendo sua identidade, sua essência. O graffiti, assim como outras artes e a moda pode está se banalizando. “É uma intervenção urbana. Mas é bom poder vender seu trabalho, e isso não mata o que está na rua”, afirma o grafiteiro Eduardo Braga Guimarães, o EDRO, 22 anos. A arte transforma, seja na rua ou dentro de casa. P

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FOTOS: JULIETE LUNKES

Rock’n’ roll de brechó Juliete Lunkes

Banda joinvillense aposta no rock com cheiro de velho dos anos 60

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Um pouco acima da porta do estúdio, sem chamar a atenção dos desavisados, um quadro da capa do disco Let It Be, dos Beatles, parece ter a mesma intenção daquelas placas de boas vindas. Bem na entrada, os cinco músicos conversam animadamente sobre as andanças do novo disco que está para ser lançado. Vitor, Tiago, Hugues, Rômulo e Hesséx formam a banda Reino Fungi. O figurino, os cortes de cabelo e a moda que escolheram, evidenciam o grupo nas ruas de Joinville. Talvez se estivéssemos em 1967, na fila de um show do Roberto Carlos, ou dando uma volta pela Abbey Road, em Londres, eles poderiam se misturar aos seus semelhantes.


“Isso começou no nosso primeiro show, em 2001. A gente queria criar uma identidade, uma coisa mais de grupo, de banda, saca? Então fomos até uma loja de noivas e alugamos camisa, gravata, essas coisas”, conta o baterista Hugues Torres. O show foi no jantar de fim de ano de um clube de futebol. No repertório estava tudo o que acompanharia o grupo pelos próximos anos: Beatles, Raul Seixas e muita Jovem Guarda. Segundo Hugues, a influência para tocar o rock sessentista vem de casa. “Minha mãe é beatlemaníaca, e meu pai e a mãe do Tiago amam a Jovem Guarda”. Há quase dez anos, quando surgiram, não havia nada atual que pudesse explicar a opção daqueles jovens. Na época, eram um quarteto de primos e irmãos, vestidos de terno e gravata de brechó, tocando músicas que poderiam muito bem ter feito sucesso 40 anos antes. Ao contrário de serem bem vistos ou considerados artistas de vanguarda, estavam mais para “retardados” fazendo algo que ninguém entendia. Mais tarde, com o surgimento de outras bandas, a ideia foi fundamentada. Em 2004, a Reino Fungi lançava seu primeiro disco. O álbum homônimo causou alvoroço no underground catarinense e, de repente, já somavam fãs nos três estados do sul e em parte do sudeste do país. Participações em programas de televisão e o grande número de shows no estado de São Paulo fizeram a banda se mudar para a capital paulista em 2007. A mudança resultou em uma troca de integrantes e um novo disco pronto para estourar. O Reino Fungi e o Clube do Chá Dançante inseriu a banda em um rótulo difícil de ser deixado de lado. Eles passaram a ser “a banda com um som meio Jovem Guarda”. Palavra de Jornalista Junho 2010

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Da garagem aos holofotes Assistindo a um programa de televisão local em Joinville, o empresário Arnaldo Fortuna viu naqueles caras uma espécie de releitura do que viveu na década de 60. Antes de o Reino Fungi alcançar qualquer objetivo maior fora dos limites de Joinville, Arnaldo os convidou para abrir o show da dupla jovemguardista Os Vips, organizado por ele. “A gente era uma banda de porão e, de repente, estávamos tocando para a alta sociedade joinvillense”, lembra Hugues. As pessoas gostaram tanto do show que pediram se eles não poderiam voltar ao palco depois da atração principal. Passados uns dias da apresentação, Arnaldo tornou-se empresário do Reino Fungi. Aficionado pela Jovem Guarda e fã incondicional de Roberto Carlos, Arnaldo alimenta desde muito cedo essa paixão. “Em 1967, com nove anos de idade, fui ao lançamento do longametragem Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. A partir daí me tornei um admirador do movimento musical mais popular que já aconteceu no Brasil, a Jovem Guarda.”. A parceria entre o empresário e a banda durou quatro anos e, segundo Arnaldo, o contrato não foi renovado porque os garotos estavam querendo se dedicar mais aos estudos e menos à banda. “Dessa forma não precisariam mais de alguém que os orientasse para uma carreira em nível nacional.”. A relação da banda com Arnaldo foi temperada por alguns desentendimentos, mas tornou-se uma grande escalada. Ele era focado em seus objetivos e não media esforços para chegar aonde queria, o que muitas vezes tornava as

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coisas complicadas para os garotos. “Mas foi bacana”, admite o baixista Vitor Torres, “foi uma época de bastante profissionalização na banda”. O guitarrista e vocalista Tiago Lanznaster se apressa a concordar. “É, o Arnaldo tinha os contatos fundamentais que uma banda precisa”. A verdade é que muito do que aconteceu ao Reino Fungi não seria possível não fosse a audácia do jovemguardista Arnaldo Fortuna. “O Rômulo até ganhou umas rugas”, brinca Hugues enquanto o guitarrista Rômulo Plank fazia uma careta e o resto da banda caía na gargalhada. Apesar das piadas, logo todos concordaram com Hugues. “Ele amava o Reino Fungi e sempre trabalhou muito por nós. A gente tem que reconhecer isso”. A banda descobriu com Arnaldo que fazer Rock’n’roll é coisa séria. “Não é só porque é rock tem que ser uma coisa relaxada”, dispara Vitor. Depois que o segundo disco foi lançado, trazendo composições descaradamente jovemguardistas e regravações de Renato e seus Blue Caps, a banda foi convidada a participar de um especial dos 40 anos da Jovem Guarda na Rede Record. “Nós fomos a única banda que não participou da Jovem Guarda e que foi convidada a tocar

no programa”, contam orgulhosos. Mais tarde também fizeram parte do disco tributo ao White Album dos Beatles, ao lado de artistas como Zé Ramalho, Zélia Duncan e Lobão. Os dois anos de intervalo entre o lançamento do primeiro disco até o Clube do Chá proporcionaram novas descobertas que foram absorvidas e traduzidas em um único álbum. “Nós éramos uma banda de rock anos 60 e de repente estávamos sendo apresentados para as pessoas que faziam rock nos anos 60 aqui no Brasil”, comenta Hugues se referindo aos grandes nomes da Jovem Guarda que conheceram nesse período. “Nós tivemos a oportunidade de trocar uma ideia com o Roberto Carlos no camarim”. Amigo próximo da cantora jovemguardista Martinha e devidamente apresentado à grande parte dos músicos que lançaram o rock no Brasil na década de 60, não havia como o ex-empresário levá-los para outra direção. “O Arnaldo veio com esse lance de fazer show do Renato e seus Blue Caps, da Martinha, Jerry Adriani. Nós estávamos imersos nesse universo musical. Não tinha como ser diferente, era só o que agente escutava e conversava”, defende Hugues.

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Quem se define, se limita Passados quatro anos desde o lançamento do Clube do Chá Dançante, a banda, que agora é um quinteto, prepara-se para o lançamento do terceiro disco. A entrada do tecladista Hesséx Cognaco já é capaz de revelar algumas mudanças. “Nesse disco, além do que a gente já carregava, há coisas novas que fomos descobrindo individualmente. No disco anterior foi uma descoberta coletiva. Nesse, foi de forma separada”, explicam. A ideia do terceiro disco é sair um pouco desse universo exclusivamente jovemguardista e acrescentar novas influências entre as que sempre acompanharam o grupo. “Se tu ouvir o primeiro disco, vê que ele não nada a ver com Jovem Guarda”, diz Rômulo. Pensativo, Vitor dispara logo em seguida. “Mas, as pessoas podem ouvir esse e se identificar com a Jovem Guarda. É uma loucura isso!”. O álbum, que está em fase final, tem a produção assinada pelo jovem e experiente Gabriel Vieira. “Ele é um produtor que gravou de tudo. Samba, gauchesca, orquestra”, conta Hugues. “É bacana ter uma pessoa assim na gravação do disco. O Gabriel é um cara extremamente musical e profissional”, elogia Vitor. Com 22 anos, Gabriel já produziu dezenas de bandas diferentes. Aos 14, montou seu estúdio, e com16, produziu a primeira banda profissionalmente. Sobre o novo trabalho do Reino Fungi, Gabriel revela estar bem diferente dos anteriores. “Acho que está mais original. Novas influências contribuíram e a mescla de novos instrumentos e ritmos também”. O grupo diz que as músicas estão tão diferentes umas das outras e que o álbum pode não

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ser compreendido. Mas Gabriel é enfático. “Na música não existem leis. Posso citar vários discos com músicas bem diferentes, mas que se conectam. O Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, é um exemplo”. Para o quinteto, esse trabalho é uma soma de experiências. “É como na vida. O Reino Fungi é um ser vivo. Não tinha como a gente ficar só nesse lance Jovem Guarda”. E Hugues ainda sugere: “Tem uma frase que eu li essa semana, pode por ela como título dessa nova fase do Reino Fungi”, em um gesto de enquadramento com as mãos, diz: “quem se define, se limita”. P


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Cultura catarinense  

Tradição de novos hábitos formam o mosaico cultural no litoral norte de Santa Catarina.

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