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“CHICLETE” Talvez influenciado por Ben Wilson, ele que decidiu colorir chicletes usadas nos pavimentos das ruas Londrinas , talvez não, decidi realizar este projecto. Este autor considerava interessante utilizar algo interpretado como nojento e desprezível pela maioria não-senciente artística , em algo criativo, original e único. No fundo uma grande filosofia, humilde e tocante que é muito apreciada por mim, mas não é disso que este projecto trata. No entanto, é talvez a primeira relação que encontrei com chicletes e arte. Ben wilson tinha a consciência de que era algo nojento para os outros, o que é perfeitamente congruente com a visão do “nojo” de Slavoy Zizek, que interpreta psicanaliticamente essa sensação e a descreve como uma quase que separação de matéria que outrora foi parte integrante nossa, vista de fora. A chiclete mascada por nós, que merece a nossa confiança ao sair do pacote ou da embalagem, torna-se outra quando cai no chão e se torna nojenta.

Num prefácio tardio devo dizer como surgiu esta ideia que concretizei hoje. Tudo começou numa noite normal, com uma mulher sentada à minha frente. Eu media e analisava cada movimento seu. Antes de tomar o seu café processual resolveu despejar-se de uma chiclete mingada, gasta e cansada na beira de um pires. O pires era branco, a chiclete era branca... e enquanto ela tomava o seu café negro eu virei toda a minha atenção para aquela peça de arte. Esforcei a minha visão, esforcei a minha imaginação e vi a chiclete como uma escultura minimalista. imaginei-a com pelo menos 50 vezes mais o seu tamanho de origem. Nesse insight tive a ideia e desenhei o projecto em breves segundo, ficou embargado por algum tempo mas permitiu-me cozinhar o texto que agora escrevo. As abordagens são inúmeras, mas é a visão inusitada que me adoça, de ver algo corriqueiro como algo chave para decifrar o mundo. Não peço que seja adorada a imagem até porque não gosto delas e já me basta o episódio da venda da chiclete mascada por Alex Fergunson pela módica quantia de 590 mil dólares. Questiono-me: Mas o que justifica esse preço? Será uma recordação de um jogo? Será a parte integrante de uma pessoa, contendo energia ou o seu ADN?

Não obstante, a vereda deste projecto vai bem mais fundo, bem mais que o baixio da moratória na sua visão formal do uso da chiclete. Bem mais rebelde do que a rebeldia juvenil de colar chicletes em carteiras da escola secundária. Bem mais beligerante que o maxilar ossudo contraído ao esmagar a chiclete. Ele contempla estes e outros domínios assertivamente porém o busílis é refundido na questão da arte e da vida. O resultado daquela magnifica escultura seria parte constituinte de uma aleatoriedade cosmologica ou não? O projecto oferece vários prismas que podem ser utilizados em extrapolações, uma chiclete nada representa talvez, e uma palavra? E um facto judicialmente relevante? Será menor a semiótica da chiclete num fundo colorido do que a bandeira das Nações Unidas? Para mim, ela representa um brandir ruminante perante a insídia sociedade capitulada num escudismo circunspecto inexorável.!!!!!!! A chiclete é o sargaço das nossas indagações frustradas exibidas num não-dizer artificialmente natural.


Poderá haver uma aritmética cosmológica na escultura do tropicalismo aromático sintético desta goma? Antes de haver chicletes, já havia o hábito de mascar plantas dependendo do trabalho, da cultura, do país... Podemos ainda hoje encontrar quem masque tabaco, a menta, a aroeira, o gengibre etc... Curiosamente foi um fotografo o responsável pela invenção do chiclete, de seu nome Thomas Adams. O espaço geografico que nos encontramos condiciona inclusivamente a interpretação que se pode dar a uma chiclete, pode parecer um pouco excessivo estar a dar importância para algo que nós portugueses utilizamos e cuspimos sem nenhuma preocupação ou sentido de alarme, contudo o caso seguramente seria diferente se estivessemos situados em Singapura. É também dificil dar um sentido mais ortodoxo à chiclete do que o fim a que ele se destina, no entanto subestimamos por vezes a correlação de palavras que por vezes nada parecem ter que ver uma com a outra. Se colocarmos a palavra água e crime juntas, duas palavras que não suscitam à priori nenhuma correlação somos capazes de ser surpreendidos

quando a àgua pode ser o mobil de um crime, a causa de um homicídio... morte por afogamento, ou agressão dolosa por água a ferver outrem. Chiclete e destino - formatura da chiclete quando terminada poderá ser interpretada como resultado final expectável? Chiclete e pornografia - a enganação geral do organismo de um precedente que nunca virá. Chiclete e escravatura - o hábito ruminante de mascar e a mascação como forma de triturar a amargura do trabalho. Chiclete e turismo - Bubble gum alley em seattle. Chiclete e a tendência diplomata social- cobertura halitosa. Este projecto é dedicada ás agricultoras Peruanas que mascam coca, e à minha esperança de as fotografar um dia. “ a presumida descartibilidade das coisas que usamos está subaproveitada”


Projeto Chiclete Jo達o Rodrigues jpcostar@gmail.com


CHICLETE