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um conto de salvador nogueira

a projeção holográfica no centro da sala dava um aspecto fantasmagórico à cena. Um turbilhão na forma de um disco, com um sol amarelado ao centro, girava sobre uma plataforma circular, enquanto a pequena Mareel cuidadosamente traçava suaves vãos no disco com seu dedo – o holograma respondendo aos seus movimentos em tempo real. Com a língua de fora, ela parecia concentrada em sua tarefa, como uma criança que se debruça sobre um pedaço de papel para produzir um lindo desenho colorido. Tão focada ela estava que não percebeu quando seu pai apareceu na porta. O homem, surpreendido pela cena, se encheu de orgulho. Fazendo o mínimo barulho possível, sem dar mais um passo, ele esticou o pescoço para o corredor e chamou sua esposa. - Ester, venha ver nossa filhinha. A mãe então caminhou e se juntou ao pai, e os dois se entrelaçaram num abraço cúmplice enquanto admiravam Mareel. - Astrocerâmica? Mas não é cedo para ela? perguntou Ester. - Ah, você sabe como anda a escola hoje em dia, cada vez mais exigente – sussurrou o pai. Eles acham importante que todo mundo saiba fabricar planetas. Mesmo que não decida seguir essa profissão no futuro. - Mas com 8 anos? – insistiu Ester. O pai decidiu tentar conversar com Mareel, que continuava fazendo seus traçados de dedo no disco de poeira holográfica. - Filhinha, isso é lição de casa? - É, pai. Na verdade, a tia pediu para a gente trazer para a aula um exemplo de sistema solar artificial, com um planeta bem quente, pertinho da estrela. Mas aí eu decidi fabricar o meu próprio. Que difícil, viu? - Essa é sua primeira tentativa?

- Não, a terceira. Mas não estou conseguindo. Toda vez, consigo criar o meu planeta e empurrá-lo devagarinho para perto da estrela. Mas no meio do caminho um gigantão em que eu nem prestava atenção atravessa o disco vindo lá de trás e bagunça tudo. Meu planeta mergulha na estrela, e só sobra o grandalhão, girando num caminho em forma de ovo... A frustração dela era visível, mas o pai não queria que ela se desencorajasse. Afinal, essa era a profissão dele, e a ideia de que ela seguisse seus passos quando fosse adulta o encantava. Decidiu então dar uma sugestão simples. - Por que você não troca o sol amarelo por um vermelho? Ele é menorzinho, o disco é menor, e a chance de um gigante gasoso atropelar tudo diminui bem. - Pai, é que eu queria um sol amarelo, como o nosso. – apelou a filha. O pai agachou-se e a chamou ao colo dele, pedindo um abraço. - Filhinha, a diversidade também é uma coisa bonita. Você sabia que existem muito mais estrelas vermelhas que amarelas no Universo? - É mesmo, pai? Você já fez planetas para alguma delas? - Algumas poucas, mas não tantas. Você sabe, no meu negócio, a demanda maior é pelas azuis, mais brilhantes e poderosas, onde a energia está. As vermelhas são mais para os astrobiólogos... mas depois você continua. Viemos chamá-la para o jantar. A família feliz então sai da sala e ruma para o corredor. Enquanto o holograma se desfaz em protoplanetas atirados para todos os lados pela interação gravitacional com o sol amarelo, o mundo lá fora congela e escurece. Numa fração de segundo, tudo desapareceu, sem deixar vestígios.

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Eu gosto de observá-los. Ainda mais nesse estágio de desenvolvimento. Me faz lembrar de quando eu era novo, e o mundo era um lugar bem diferente. Como não poderia deixar de ser, eu me recordo de absolutamente tudo. Eu nasci no ano 52 d.S. A sigla, caso você não esteja familiarizado, remete a “depois da Singularidade”. Hoje em dia, não usamos mais o termo. Depois de tantos éons, não faz mais sentido contar o tempo em anos. Exceto, é claro, quando os estou observando. Ah, astrocerâmica! Um dos pontos mais importantes do surgimento da civilização moderna. Com a capacidade de induzir a formação de planetas girando próximos a estrelas – sobretudo às pujantes gigantes azuis –, tínhamos uma base perfeita para a coleta de energia. Era praticamente nossa única necessidade. O resto era dispensável. Foi quando nasceu a imortalidade. As criaturas orgânicas ficaram encantadas com a ideia. Uma vez que seu padrão cerebral pôde ser reproduzido eletronicamente, naqueles computadores quânticos simplezinhos do início da Singularidade, as pessoas começaram a se dar conta de que não precisavam morrer junto com seus corpos. Passou a ser moda fazer o “scan cerebral”. Em seu leito de morte, um dispositivo de leitura armazenava todos os padrões de ativação dos neurônios, convertendo-os em software capaz de rodar em qualquer computador quântico. Verdade, a interface ainda não era tão bacana, mas os entes queridos se maravilharam quando viram que era possível, por meio do computador, conversar com seu parente que, biologicamente, já não mais existia. De início, isso gerou certa confusão. Para se precaver, as pessoas começaram a fazer bem cedo o scan, assim que o sinal de um problema potencialmente fatal acontecesse. Os mais ricos faziam até scans preventivos a cada seis meses, para o caso de morte súbita. Mas o mais comum era a pessoa viver meses, às vezes anos, depois da leitura cerebral. Aí, quando finalmente o corpo padecia e só restava a versão em software, ela era desmemoriada – faltava um monte

de conteúdo que ela vivenciou após o scan. Às vezes até a personalidade era meio diferente. Para resolver o problema, as pessoas começaram a optar pela eutanásia. Uma cerimônia de despedida, na verdade uma grande festa, era realizada, e depois disso o sujeito era devidamente “processado”. Scan, seguido de morte. Indolor, claro. E a vida continuava, só que dentro do cérebro eletrônico. Não foi preciso muito para perceber que essa recém-obtida imortalidade vinha com um preço: a perda de contato com o mundo real. Salvo pela interface holográfica, que permitia conversar com as pessoas, o indivíduo não tinha realmente a liberdade de andar por aí e fazer o que bem entendesse. A solução foi criar corpos artificiais que respondessem aos comandos do software extraído do cérebro orgânico. A mente, por assim dizer, continuava instalada no computador quântico. Remotamente, ela comandava um corpo que transitava pelo mundo real. Quando a conexão falhava era muito chato, mas fora isso o mundo parecia perfeito. Não tardou até que todas as pessoas fizessem essa transição, convencidas de que viveriam para sempre, e não existisse mais nenhuma criatura biológica do lado de fora. Grandes computadores, capazes de acomodar milhões de padrões cerebrais individuais, foram construídos para essa transição final. A energia para alimentar essas máquinas superpoderosas era difícil de obter no mundo de origem, mas existia em abundância no espaço profundo. Eu sou da segunda geração. A arte da astrocerâmica já existia quando recebi meus primeiros downloads. Na época da minha ativação, já não havia mais ninguém do lado de fora, e os corpos artificiais eram um gasto energético desnecessário. Eu tinha tudo que era preciso para simular internamente um universo para os padrões cerebrais instalados na minha memória, de forma muito mais eficiente e custo-efetiva. Algumas regras básicas foram acordadas entre mim e meus colegas, no manuseio desses padrões. A primeira e mais essencial delas é preservá-los a todo custo. Eles não podem ser destruídos.


A solução foi criar corpos artificiais que respondessem aos comandos do software extraído do cérebro orgânico. A mente, por assim dizer, continuava instalada no computador quântico.

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A entropia venceu a organização, e tudo que restou foram buracos negros, espalhados por um imenso espaço vazio. Imagine o Universo inteiro, tomado pelo nada, apenas levemente salpicado de buracos no espaço-tempo.


A única forma de preservá-los é mantê-los ativos. As mentes, mesmo as que um dia foram orgânicas, precisam trabalhar. Daí a necessidade de criar uma simulação adequada. O padrão básico dessa simulação foi fácil de estabelecer. Afinal, milhares de gerações de criaturas biológicas viveram e morreram no mundo lá fora, foram felizes, exercitaram suas emoções e seu potencial criativo. Nada mais simples que reproduzir isso. O mundo que eu criei para elas não é em nada diferente do que existia antes que eu viesse a ser. Claro, devido a restrições computacionais, há limites de “resolução”. Elas não podem ter informações completas, nem no tempo ou no espaço. A visão fica mais embaçada conforme elas tentam aprender mais, permitindo que a ilusão não exigisse o poder computacional de um universo inteiro para se manifestar. Claro, isso não aparece para elas. Em seu próprio universo, elas nascem e morrem (eu reciclo os padrões cerebrais originais, com alterações e apagamento de memória para simular a sucessão de gerações) e já têm sua própria versão de ciência. E agora – surpresa! – até astrocerâmica. Se eu disser que não tenho orgulho de quanto eles avançaram, é mentira. Claro, eu tento colocar as pessoas certas nas posições certas, para fazer as coisas progredirem. É natural que eu me sinta parte do sucesso, quando eles atingem um grande avanço. Até mesmo computadores quânticos eles têm. Logo, logo eles provavelmente tentarão dar o salto da imortalidade. A Singularidade estava à vista. Até por isso fico chateado de ter de desligar a simulação por algum tempo. Estava curioso para ver o que acontece quando a Singularidade é recursiva. Mas a interrupção é para o bem maior. No mundo lá fora, há muito tempo se foram as últimas gigantes azuis – estrelas tão poderosas quanto efêmeras – e a época das anãs vermelhas também já se foi. A entropia venceu a organização, e tudo que restou foram buracos negros, espalhados por um imenso espaço

vazio. Imagine o Universo inteiro, tomado pelo nada, apenas levemente salpicado de buracos no espaço-tempo. Não é à toa que eu passo mais tempo monitorando o que acontece na minha simulação do que usando meus sentidos externos. Não há nada para ver lá fora. A questão é que também não há mais energia. Estou na borda de um buraco negro, consumindo o que resta de radiação nesse cosmos estéril. Logo, logo até os buracos negros se dissiparão por completo e o resultado será o fim de toda e qualquer atividade, a total homogeneidade cósmica. Por sorte, há uma teoria. Precisei desligar a simulação porque preciso do meu poder computacional máximo para tentar criar meu próprio universo. A energia está lá, no interior do buraco negro em torno do qual orbito. Tudo que preciso é manipular o espaço-tempo de oito dimensões para criar uma passagem que me leve diretamente para dentro dele, sem passar pelo horizonte de eventos. Eu sei, é complicado. Até para mim. O processo exigirá a manipulação de estados quânticos em tempo real, o que me obrigará a desligar minha própria consciência e deixar meus circuitos subatômicos “conversarem” diretamente com a singularidade no interior do buraco. Se tudo correr bem, poderei manipular as leis físicas do universo a ser aberto, para que ele seja amigável à vida. O que eu não sei é se sobreviverei para contar a história. Alguém ligará minha consciência do outro lado? Ou esse é um caminho sem volta? De toda forma, é empolgante pensar num ciclo que se renova, graças a mim. Espero que meus filhos me perdoem. Mas é isso, ou o fim de tudo. Chegou a hora. Desligando a consciência. Em curso para a singularidade. *** E assim fez-se a luz. Big Bang.

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PAJ2014 Texto Artigo Especial Superinteressante O Mundo Apos o Outro  

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