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Saúde

Os doutores das bombas Os médicos que receitam indevidamente esteroides anabolizantes e outras drogas perigosas aos pacientes interessados em ganhar músculo a curto prazo, os problemas legais dessa prática, os casos de usuários arrependidos e o mercado negro do comércio desses remédios na cidade Sérgio Ruiz Luz* * Colaborou João Batista Jr.


Saúde

Os doutores das bombas Os médicos que receitam indevidamente esteroides anabolizantes e outras drogas perigosas aos pacientes interessados em ganhar músculo a curto prazo, os problemas legais dessa prática, os casos de usuários arrependidos e o mercado negro do comércio desses remédios na cidade Sérgio Ruiz Luz* * Colaborou João Batista Jr.


Chapéu

E

MARIO RODRIGUES

O oftalmologista Mohamad Barakat, dono de uma clínica na Avenida Brasil: ele aposentou o aparelho óptico para fazer sucesso no mercado de fitness

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xibir os músculos sarados no verão é um dos troféus mais cobiçados na era do culto ao corpo. No fim do ano, consultórios de nutrição esportiva na capital chegam a registrar um aumento de 50% em seu movimento. Há profissionais da área que turbinam os resultados graças a uma roleta-russa química na qual se destaca o abuso dos esteroides anabolizantes. Hormônios masculinos sintetizados em laboratório, eles estimulam a produção de proteína nas células musculares e, em sua utilização terapêutica, auxiliam na recuperação da massa corporal de pacientes debilitados por câncer ou aids, entre outras aplicações. Nas últimas décadas, popularizaram-se muito no meio das academias, onde são chamados de “bombas” graças ao seu efeito potente no organismo. Utilizadas em alta dosagem, tais drogas funcionam como um elixir mágico capaz de transformar o físico de pessoas em um curto espaço de tempo, rendendo doses extras de força e acelerando o processo de recuperação depois dos exercícios. Mas essa é uma terapia bastante perigosa. A lista de efeitos colaterais inclui doenças cardíacas e tumores no fígado. Devido a isso, a prescrição dos medicamentos a pessoas saudáveis é proibida pelo Conselho Federal de Medicina. Quem as receita para fins estéticos está sujeito a um processo que pode resultar, em última instância, na cassação do diploma. Alguns não se importam em correr os riscos. A forte demanda, a fiscalização frouxa e os altos lucros falam mais alto. Em São Paulo, um dos profetas da turma da malhação intensiva é Mohamad Barakat, um oftalmologista que aposentou o aparelho óptico e passou a fazer sucesso no mercado de fitness. Aos 50 anos, ele é uma espécie de propaganda ambulante do negócio. Suas camisas justas parecem cuidadosamente escolhidas para mostrar os 110 quilos distribuídos pela silhueta. “Tenho de me cuidar”, explica Barakat, contando que já foi um garoto obeso na infância. “Fiz bastante musculação e, nos últimos tempos, estou me dedicando ao tênis.” Na sala de espera de seu consultório na Avenida Brasil, batiza-

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do com o pomposo nome de Instituto de Medicina Integrada, Longevidade e Performance Humana, pode-se encontrar uma fauna variada de famosos, que inclui um esquadrão de ex-panicats, a apresentadora Adriane Galisteu, o atacante Guerrero, do Corinthians, e executivos como Lásaro do Carmo Júnior, presidente da Jequiti, empresa de cosméticos do Grupo Silvio Santos. Quem vai até lá pela primeira vez preenche os dados cadastrais em um tablet. Na alta temporada, Barakat recebe por dia cerca de trinta pessoas, que pagam 750 reais por uma consulta. Na época de pico de trabalho, portanto, o endereço fatura mais de 100 000 reais por semana. “Chego a ficar aqui até as 3 horas da madrugada para atender quem procura um encaixe”, conta. Aos que despencam ali dispostos a fazer qualquer negócio, o especialista diz ter uma fórmula. “Falo para essas pes­ soas que vou deixá-las ótimas para o verão... de 2015”, brinca, emendando a história de um rapaz que lhe pediu insistentemente uma poção para encurtar o caminho rumo à sonhada barriga tanquinho. “Abri a gaveta e falei para ele: ‘Tome, aí vai o pó de pirlimpimpim’ ”, lembra. Moral da história: “Não existe um passe mágico”. Seguindo a mesma linha de raciocínio, Barakat diz ser contra a aplicação de esteroides anabolizantes para fins estéticos. “Nunca uso hormônios se o indivíduo tem saúde normal. Acho inadmissível”, afirmou categoricamente a VEJA SÃO PAULO. Em seu consultório, entretanto, sem que ele soubesse que estava diante de um jornalista, a prática foi outra. O autor desta reportagem esteve lá em outubro, sem se identificar, pedindo ajuda para ficar malhado a tempo para o verão. Barakat é um nome bem comentado nas academias de ginástica da capital por aplicar dietas heterodoxas. O objetivo da visita anônima era checar se os boatos procediam. Em cerca de trinta minutos, depois de olhar rapidamente o resultado de um exame de sangue feito em maio, o médico alegou que a taxa de testosterona do paciente estava no limite mínimo inferior e mandou ver numa dieta de sessenta dias com quatro tipos de hormônio sintético, entre eles oxandrolona e estanazolol. O suposto pro-

O médico com Dani Bolina e as também ex-panicats Thaís Bianca e Juju Salimeni: lista de clientes famosas

“Vou lhe dar uma carona hormonal, um tapete mágico” Mohamad Barakat , 1º de outubro, durante consulta (750 reais) de trinta minutos. Baseou-se em hemograma feito pelo repórter em maio Paciente — Quero ficar bem para o verão, o senhor pode me ajudar? Médico — Sua testosterona está muito baixa (ele olha para um exame de sangue de maio). Eu teria de avaliar se o seu cérebro é capaz de estimular a produção natural. Posso até não pedir esse exame agora, se você continuar fazendo essa carinha de Garfield, como se dissesse: “Não me deixe na mão, dê a testosterona logo”. Então, eu vou usar um pouquinho de oxandrolona e estanazolol. Você vai tomar umas picadas durante os próximos dois meses. Mas preciso fazer um alerta. Paciente — Qual? Médico — De repente, você pode começar a ficar mais nervoso com as pessoas. Se isso acontecer, controle, respire. A testosterona vai deixá-lo diferente.

Paciente — Fora isso, tem mais algum risco, como câncer de fígado? Médico — Nenhum. A diferença entre veneno e poção é a dose. Vamos trabalhar com uma dosagem muito baixa. Vou lhe dar uma carona hormonal. Você estará em um tapete mágico, e temos dois meses de ação. Temos de tirar o melhor proveito disso. Quero tirar de você uns 2 ou 3 quilos de gordura. E subir uns 4 ou 5 quilos de músculo. Só não sei se consigo subir tudo agora. Mas, em alguns meses, você vai estar com a barriga “trincada”. Paciente — Mais alguma coisa? Médico — Você vai aplicar doses de GH, o hormônio do crescimento, na barriga, todo santo dia, durante dois meses. Ao final, avalie como foi o retorno do investimento em termos de resultados físicos.


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COMENTÁRIOS DOS ESPECIALISTAS

A testosterona encontrava-se dentro da faixa normal. Mesmo que não estivesse, a prescrição de qualquer droga teria de ser precedida de vários exames. Em vez disso, o médico receitou de uma tacada só quatro tipos de hormônio, alguns em doses bem altas, como os 60 miligramas de oxandrolona por dia, o dobro da quantidade usada por frequentadores de academia em busca de hipertrofia muscular. COMO BARAKAT JUSTIFICOU DEPOIS A RECEITA:

“Alguma coisa foi feita devido aos exames do paciente e a uma conversa com ele. Não me lembro de algo que fiz há dois meses durante uma consulta. Não me sinto confortável em continuar esta conversa, teria de ver os dados de novo para falar sobre o assunto”.

blema de saúde, na verdade, era apenas uma desculpa para justificar o objetivo real. “Vou lhe dar uma carona hormonal. Você estará em um tapete mágico. Em alguns meses, você vai estar com a barriga ‘trincada’.” Em seguida, fechando o semblante, fez uma advertência. “De repente, você pode começar a ficar mais nervoso com as pessoas. Se isso acontecer, controle, respire...”, alertou. “A testosterona vai dei­xálo diferente.” Algum outro problema? “A diferença entre veneno e poção é a dose. Nunca ninguém morreu por causa de hormônio”, garantiu. Encerrou o atendimento receitando aplicações na forma sintética do GH, sigla em inglês para o hormônio de crescimento. Seu uso terapêutico é para casos de crianças com dificuldade de crescimento. A exemplo dos anabolizantes, apresenta uma longa lista de efeitos colaterais, que vão do aumento das extremidades do corpo, incluindo nariz e maxilar, ao câncer de fígado. No mundo fitness, virou remédio com supostos poderes de aumentar músculos, reduzir gordura e melhorar a disposição. O GH é aplicado por uma enfermeira no próprio consultório de Barakat. O procedimento custa 1 500 reais por mês. “Ao final de sessenta dias, avalie como foi o retorno do investimento em termos de resultado físico”, concluiu o médico. Ele se apresenta como nutrólogo e tem pós-graduação em endocrinologia pelo Ipemed de São Paulo, curso que não é reconhecido pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). Esse não é o único profissional da metrópole que recomenda anabolizantes e outros hormônios sintéticos para quem deseja acelerar o crescimento do corpo. A reportagem de VEJA SÃO PAULO obteve receitas semelhantes de outros especialistas (veja os quadros ao longo da matéria). Yasser Maciel Jorge, da Clínica Pollyanna Esteves, voltada para medicina e nutrição personalizada, na Vila Mariana, prescreveu uma ampola de deposteron a cada sete dias. “Depois de duas ou três semanas, a gente vê como o corpo vai reagir”, disse. “Aí, aumenta a dose ou diminui.” Outro especialista, Carlos Eugênio Ventura Lopes, que tem uma clínica no Itaim, recomendou injeções de 25 miligramas de deca-durabolin

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“Quer uma mudança rápida? Então tem de tomar” Jota Rodrigues, 16 de outubro, durante consulta (800 reais) de quarenta minutos. Nem quis ver o hemograma levado pelo repórter Paciente — Dá tempo de ficar sarado? Médico — Os hormônios vão dar um gás para você ficar bem rapidamente. Ao mesmo tempo que ajudam a crescer, fazem o corpo secar. Prepare-se que você vai ficar bem. Paciente — Quais são esses produtos? Médico — Vou passar oito ampolas de durateston. Tome uma por semana. Apli­ que-as nas nádegas. Junto com isso, use estanazolol, que também é para crescer, secando. A receita é para 120 cápsulas. Tome no café da manhã, no almoço e no jantar. Paciente — São anabolizantes? Médico — Sim, são anabolizantes leves. Você quer uma mudança rápida? Então tem de tomar isso. Paciente — Eu quero muito mudar, só não quero prejudicar minha saúde. Médico — Sim, é isso que vai acontecer. Sem te levar a nenhum dano. COMENTÁRIOS DE ESPECIALISTAS

Além de combinar dois anabolizantes, o médico exagerou na dose. Uma pessoa em tratamento de reposição hormonal consome uma ampola de durateston por mês – e não uma por semana. COMO RODRIGUES JUSTIFICOU DEPOIS A RECEITA:

“O paciente estava magro, querendo ganhar corpo. Dei os remédios em volumes baixos e iria acompanhar o caso. Não costumo agir assim, foi um caso isolado e fiz com a melhor das intenções”.

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Jota Rodrigues: da cardiologia às dietas hormonais

duas vezes ao mês. “Fica uma coisa bem segura para trabalhar”, disse. O cardiologista Josmar Rodrigues, mais conhecido como doutor Jota, um mineiro radicado em São Paulo desde o fim da década de 80, representa outro nome forte na área. Possui um movimentado consultório no Jardim América. “Atendo por aqui gente como o ator Luigi Baricelli e o piloto Rubens Barrichello”, conta ele, que cobra 800 reais a consulta. Aos 56 anos, o médico acorda às 5 horas para manter a boa forma. “Antes das 6 já estou na academia correndo, fazendo bike, musculação, nadando...”, enumera. Na sala do profissional, coleções de miniaturas de carro e de capacete mostram que o automobilismo é outra de suas paixões, ao lado das canetas-tinteiro Montblanc (em cima da mesa, guarda cinco canecas e um por­tatinta da marca). A exemplo de Barakat, adota “oficialmente” uma postura de condenação aos anabolizantes. “Sou contra”, disse a VEJA SÃO PAULO . “Hormônios somente quando for necessário, mas não para aquele garoto que está cheio de testosterona e quer

tomar droga para ficar mais forte. Isso é altamente prejudicial.” Em outubro, também estive lá, mostrando-me interessado no milagre do verão. “Você já experimentou algum hormônio?”, perguntou Jota, antes de receitar oito ampolas de durateston. “Vá à farmácia ou venha aqui mesmo aplicar as injeções nas nádegas, uma por semana”, orientou. “Use também estanazolol, que ajuda o corpo a crescer, secando. Tome três cápsulas por dia.” Questionado sobre os riscos do tratamento, amenizou: “A dosagem é muito pequena, não vai provocar nada. Você não quer uma mudança rápida? Então tem de tomar. Só usando suplementos alimentares não vai mudar nada”. O parecer mais recente do Conselho Federal de Medicina sobre o assunto data de agosto e é assinado por Júlio Rufino Torres, conselheiro relator da entidade. “A utilização de anabolizantes e hormônios de crescimento por quem não tem indicação de seu uso não deve ser realizada com a finalidade de aumentar sua massa muscular ou seu porte físico”, afirma o documento.


“Gigante ou magrinho?” Yasser Maciel Jorge, 21 de novembro, durante consulta (350 reais) de 1h15. Ele se baseou num hemograma feito pelo repórter em maio

Paciente — Como assim? Médico — Vou dar um exemplo. Em novembro do ano passado, um paciente chegou aqui e trouxe a foto de um amigo que pegou dez mulheres em um cruzeiro. O rapaz me disse: “Quero ficar maior do que ele para pegar ainda mais mulheres”. Fizemos o tratamento e, na véspera da viagem, ele postou uma foto no Facebook com o tal amigo. E estava realmente maior. Ele me contou depois que era chamado de mamute no navio.

Aqui na cidade cabe ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) fiscalizar a ação dos profissionais e punir abusos. “Quando recebemos uma denúncia, abrimos uma sindicância e, dependendo da gravidade, isso pode se transformar em um processo”, explica Mauro Aranha, vi­cepresidente do Cremesp. Segundo uma estimativa dele, são registradas por ano aproximadamente 200 sindicâncias na metrópole por prescrição inadequada de anabolizantes. “Cerca de 15% delas viram processos”, calcula. A pena mais leve é uma advertência, seguida de um termo de ajuste de conduta. Para ficar com a ficha limpa, o médico aceita ser monitorado de perto por um ou dois anos pelo Cremesp. Nos casos extremos, pode-se chegar à cassação do diploma. “É algo muito raro de acontecer; não conheço nenhum caso em São Paulo”, conclui Aranha. Além de essas drogas não serem recomendadas para essa finalidade, elas acabam sendo prescritas sem exames e em volume acima do normal. Na consulta com o doutor Jota Rodrigues, por

Paciente — Eu quero ficar mais forte, mas não quero virar mamute. Dá tempo de ficar bem para o verão? Médico — Em um ou dois meses dá, sim. Paciente — Como funciona a terapia? Médico — Vou receitar o cipionato, que é uma testosterona. Você pode aplicar no braço ou na parte interna da coxa. Para começar, uma ampola a cada sete dias. Já vai dar resultado. Depois de duas ou três semanas a gente vê como o organismo vai reagir. Aí aumenta a dose ou diminui. Paciente — Não tem risco nenhum? Médico — Nenhum. O cipionato funciona como se fosse a nossa testosterona. Tudo isso que estou falando é com base em trabalhos científicos publicados. Então não tem dor de cabeça para ninguém.

Maciel Jorge: promessa de mudança rápida

COMENTÁRIOS DE ESPECIALISTAS

Os médicos prescrevem uma ampola a cada duas semanas em tratamentos hormonais. Nesse caso, o profissional recomendou o dobro da dosagem. COMO MACIEL JORGE JUSTIFICOU DEPOIS A RECEITA:

“O deposteron é um hormônio que, segundo a literatura médica, eleva o nível de testosterona de forma segura. Via de regra, sim, peço exames para as pessoas antes de receitar. Mas muitas vezes o paciente tem indícios de alterações que dispensam a necessidade de exame. Eu mesmo já tomei deposteron por seis meses”. FERNANDO MORAES

Paciente — Estou estagnado, queria melhorar a forma. Médico — Sua testosterona total está bem baixa, por isso provavelmente você está com essa dificuldade para obter ganho de resultado. Qual o seu target? Você quer estar como e em quanto tempo? Quer ficar gigante, quer ficar magrinho?


exemplo, o médico receitou uma ampola de durateston por semana. “É aproximadamente a mesma dose que uma pessoa toma durante um mês em tratamento de reposição hormonal”, compara Paulo Zogaib, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma das grandes autoridades no assunto no país. “Quanto maiores as quantidades usadas, maiores são os riscos de ocorrência de efeitos colaterais”, complementa. Outros especialistas fazem coro ao alerta. “As pesquisas não validam a utilização de anabolizantes e outros hormônios e mostram que o uso indiscriminado e banalizado pode levar a doenças muito graves”, reforça Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo do Hospital do Coração (HCor). Periodicamente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) elabora relatórios para o Cremesp com os médicos que estão emitindo muitas receitas de hormônios. Isso acaba funcionando

como ponto de partida para investigações de conduta. O outro caminho para chegar aos doutores das bombas é mais complicado, pois depende da denúncia de pacientes. “A pessoa tem vergonha de assumir em público que usou esses produtos”, afirma Alexandre Hohl, secretário adjunto da Sbem. “Seria como um viciado denunciando o traficante.” A maioria das pessoas que procuram especialistas do tipo vai em busca justamente das pílulas mágicas de crescimento, mesmo sabendo dos riscos. “Os pacientes são coniventes e os médicos, por sua vez, aproveitam a demanda crescente do culto ao físico e da transformação do corpo”, entende Mauro Aranha, do Cremesp. O órgão não tem registro de queixa ou processo contra nenhum dos quatro médicos que receitaram as drogas para o jornalista de VEJA SÃO PAULO. A sedução do atalho anabólico é enorme para quem não pensa nas consequências. O uso das substâncias, associado a

Lopes: “É melhor fazer isso com um médico do que sozinho”

“Você deve melhorar sua parte de músculo e tudo o mais” Carlos Eugênio Ventura Lopes, 22 de novembro, em consulta (750 reais) de uma hora Paciente — Nas academias, a turma usa muito anabolizante. É ruim? Médico — Se souber utilizar um de­­cadurabolin da vida, pode ser útil, sim. Paciente — O senhor recomenda? Médico — Eu utilizaria 25 miligramas de deca-durabolin a cada dez dias, uma ampolinha. E ficaria monitorando depois o seu nível de testosterona. Paciente — Pode ser útil para mim? Médico — Sim. Eu usaria deca-durabolin por dois meses. Você quer? Paciente — Qual o seu conselho? Médico — Se o caso é “Eu quero ficar sarado, mas não desejo pôr minha saúde em risco”, eu utilizaria a dose mais baixa do deca-durabolin. Paciente — Não vai me fazer mal? Médico — Tem gente que usa essa dosagem duas vezes por semana. Eu estou receitando duas por mês. Então fica uma coisa bem segura para trabalhar. E você deve melhorar sua parte de músculo e tudo o mais. COMENTÁRIOS DE ESPECIALISTAS

Quatro doses no período de dois meses correspondem a algo entre 25% e 50% a mais do que o uso terapêutico.

LUCAS LIMA

COMO LOPES JUSTIFICOU DEPOIS A RECEITA:

“Eu receito para fins estéticos, mas sempre ligados à saúde. Tudo é feito com acompanhamento médico, após exames, e receitando, no máximo, três ampolas. Tem paciente que chega aqui falando que toma seis por semana. Prefiro que essa pessoa reduza a carga e tenha acompanhamento profissional”.

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Estragos no organismo Como agem no corpo os hormônios sintetizados em laboratório AÇÃO

› Facilitam a entrada de proteína nos músculos,

fornecendo combustível para eles aumentarem de tamanho

› Em altas dosagens, associadas a um treinamento pesado na academia, possibilitam o ganho de até 3 quilos de músculos em um mês. Sem as drogas, o mesmo resultado pode demorar um ano

› Aumentam a tolerância do corpo a cargas maiores de esforço › Aceleram a capacidade de recuperação depois dos exercícios › Reduzem a gordura corporal

ROYALTY FREE

um período de malhação pesada, pode render um ganho de 3 quilos de músculos em um só mês. Sem a alavanca química, uma pessoa leva um ano para obter resultado semelhante. Alguns dos médicos que receitaram os medicamentos não tiveram problemas em falar durante as consultas como o culto à estética impulsiona seu negócio. “No ano passado, atendi um rapaz que trouxe a foto de um amigo bem musculoso, pedindo para ficar ainda mais sarado do que ele”, contou Yasser Maciel Jorge. A explicação: em um cruzeiro, o tal fortão havia feito um sucesso enorme com as mulheres. “Depois de um tempo, esse paciente ficou realmente maior que o amigo, foi ao mesmo navio e era chamado por todos de mamute.” Carlos Eugênio Ventura Lopes comentou a pressão das pacientes pelas drogas. “Algumas mulheres chegam aqui dizendo que, se eu não recomendar GH, vão procurar outro médico.” Barakat teve prazer de elencar suas pacientes-celebridade, como as modelos que fizeram sucesso na onda do padrão de beleza transgênico. “Atendo Juju Salimeni, Dani Bolina e Thaís Bianca, entre outras expa­nicats”, afirmou. Elas teriam esculpido o corpo pegando carona hormonal? “Vixe... Você está brincando? Usaram bem mais do que você vai usar.” Juju Salimeni deu entrevistas recentes dizendo que se arrependeu de ter tomado anabolizantes durante uma fase de sua vida. Procurada por VEJA SÃO PAULO, não quis falar mais sobre o assunto. Dani Bolina negou incrementar suas formas voluptuosas com os medicamentos. “Consigo resultados malhando bastante e cuidando da alimentação”, jura. Thaís Bianca diz que é uma usuária arrependida. “Você consegue um resultado, mas perde tudo depois”, afirma. “Não compensa.” Uma das que sofreram com essas dietas foi Andressa Urach, de 26 anos, vice-campeã do concurso Miss Bumbum 2012. “Eu era muito magra na adolescência, sofria bullying e tinha o sonho de entrar para a TV, por isso resolvi fazer um tratamento para encorpar”, conta, lembrando-se das primeiras aplicações que fez de anabolizantes há dez anos. Ela realizou um intensivão hormonal em 2011, antes de disputar o concurso de “legendete por um mês”,

POSSÍVEIS EFEITOS COLATERAIS (EM AMBOS OS SEXOS) A. Aparecimento de acne no rosto B. Aumento dos níveis de irritação e agressividade

C. Desenvolvimento de quadros psiquiátricos graves, como depressão e síndrome de abstinência

D. Maior risco de doenças cardiovasculares e aumento do colesterol ruim, o LDL A

ESPECÍFICOS NOS HOMENS

B

E. Sobrecarga das funções do fígado, podendo causar cirrose e até câncer

C

ESPECÍFICOS NAS MULHERES

Aceleração da calvície

Engrossamento da voz D

D

Encolhimento dos seios

Crescimento da mama E

E

Surgimento exagerado de pelos no corpo

Alteração no ciclo menstrual

Diminuição dos testículos e risco de infertilidade

Hipertrofia do clitóris

WI

LL

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AC K


FERNANDO MORAES

AGNEWS

REPRODUÇÃO

Andressa Urach, em foto atual e aos 13 anos: usuária arrependida

O fisiculturista Enzo Perondini: “É um caminho que ninguém sabe onde vai terminar”

como são conhecidas as figurantes do programa Legendários, de Marcos Mion. “Junto com as drogas, fiz três meses de treinos superpesados e consegui o corpo que desejava”, diz. Apesar de alcançar o objetivo, ela começou a sofrer graves efeitos colaterais, todos eles associados à dieta de medicamentos. A voz ficou mais grossa, a acne começou a avançar no rosto e o tamanho do clitóris aumentou. “Tive de fazer uma cirurgia íntima para corrigir isso e fiquei traumatizada”, afirma. “Não tomaria essas drogas novamente.” Mais dramático foi o caso de Maria Melilo, a vencedora do Big Brother Brasil em 2011. Em novembro, ela passou por uma cirurgia para estirpar um câncer no fígado no Hospital Sírio-Libanês. Segundo Maria, o tumor teria sido causado pelo consumo de anabolizantes. Fora do campo médico, um dos primeiros usos conhecidos das substâncias do gênero ocorreu na II Guerra Mundial, quando soldados nazistas recebiam doses do medicamento antes das batalhas para aumentar sua agressividade. A droga migrou para o campo dos esportes em 1954. Durante o Campeonato Mundial de Halterofilismo em Viena, na Áustria, o médico americano John Ziegler ficou espantado com o físico avantajado dos soviéticos e as quantidades assombrosas de peso que içavam. Depois da competição, Ziegler convidou um médico daquele país para beber em um bar e, entre um drinque e outro, ele teria confessado que a turma estava fortalecida por anabolizantes. Na volta para os Estados Unidos, Ziegler começou a fazer experiências usando a terapia em atletas de lá. Poucos anos depois, vários competidores de modalidades diferentes estavam em busca das pílulas milagrosas do doutor. Em 1976, elas entraram para a lista negra do Comitê Olímpico Internacional. O maior escândalo dos Jogos ocorreu em 1988, quando o velocista canadense Ben Johnson perdeu a medalha de ouro dos 100 metros livres em Seul, pois o controle de doping apontou o estanazolol como combustível ilegal de sua impressionante arrancada rumo à linha de chegada. O surgimento dos campeões de laboratório estimulou muitos amadores a iniciar a mesma corrida química. Em

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O flagrante obtido por VEJA SÃO PAULO no mês passado de como funciona o mercado negro de receitas no centro: o primeiro homem-placa ouve o pedido e indica um colega que, depois de quinze minutos, surge com uma receita em branco, ao custo de 80 reais

gular de medicamentos. “A cada quinze dias, instauramos dois ou três inquéritos sobre o assunto, vários deles tendo como responsáveis pelas vendas personal trainers e gente que atua no ramo de fitness.” Nas academias daqui, uma mulher fornece as drogas no esquema delivery, depois de um depósito bancário feito pelo comprador (veja o quadro abaixo). A facilidade atual de acesso aos produtos surpreende até quem lida com isso há tempo. “Ficou mais tranquilo, com certeza”, atesta o fisiculturista Enzo Perondini, de 50 anos, dez vezes campeão brasileiro entre 1990 e 2002. “Na época em que eu me dopava, comecei a comprar de um fornecedor da Lapa indicado pelos meus amigos.” Consumidor frequente desse tipo de substância em sua carreira, assumiu em público a prática em 1998, quando enfrentava sérios problemas de saúde em decorrência do uso, como uma suspeita

de câncer no fígado. Foi banido do esporte, converteu-se à religião evangélica e virou pastor. Hoje, convive com sequelas de saúde como hipertensão, além de um rim com apenas 40% de sua capacidade. Depois de um tempo afastado do circuito de torneios, voltou aos palcos neste ano, exibindo sua massa de 120 quilos nos campeonatos do Musclemania, nos Estados Unidos, que possuem controles mais rigorosos de doping (no auge dos tempos de preparação química, Enzo pesava mais de 150 quilos). “Estou limpo e não vou voltar a aplicar injeções”, garante. De tempos em tempos ele dá palestras alertando sobre os riscos de alguém repetir sua experiên­ cia e se mostra indignado com os médicos que recomendam essas drogas. “Quem receita não pode garantir que nada de ruim acontecerá ao paciente”, entende. “Os anabolizantes são como uma estrada que ninguém sabe onde vai terminar.” ■

O INACREDITÁVEL SERVIÇO DE “BOLA-DELIVERY” No universo de algumas academias da cidade, é bem comentado um serviço de entrega em domicílio de anabolizantes, sem a necessidade de apresentação de receita médica. A reportagem de VEJA SÃO PAULO encomendou por telefone, no último dia 5, uma remessa de decadu­rabolin, oxandrolona e estanazolol (foto), ao preço de 750 reais. Quatro dias depois do depósito feito em uma conta bancária do Bradesco na capital em nome de Laura Profes, um motoboy entregou o pacote no endereço indi-

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cado (depois disso, a revista encaminhou o material para a 2ª Delegacia de Crimes contra a Saúde Pública). O comércio clandestino de medicamentos controlados rende de dez a quinze anos de cadeia. A responsável pelo serviço já esteve envolvida com tráfico de drogas. Em 2006, Laura foi presa em flagrante no Aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, transportando 923 comprimidos de ecsta­sy. Acabou condenada a quatro anos de prisão e está recorrendo em liberdade.

FOTOS IVAN DIAS

São Paulo, o negócio começou a se popularizar nas academias a partir dos anos 60. Mesmo com várias campanhas de conscientização sobre os riscos dos produtos (a mais recente delas é da rede Bio Ritmo, com o lema “Diga não aos anabolizantes”), os fanáticos pela malhação ainda formam o grosso do público consumidor. Hoje, quem não recorre aos médicos para conseguir as drogas acaba indo ao mercado negro. No centro da cidade, alguns homens-placa funcionam como corretores de receitas frias. Pode-se conseguir uma delas por 80 reais. Na internet, sites com nomes sugestivos como Anabolizando oferecem a venda e a entrega dos produtos. “É difícil flagrar os responsáveis pelo crime, pois algumas dessas páginas são administradas fora do Brasil”, afirma Adriano Caleiro, titular da 2ª Delegacia de Crimes contra a Saúde Pública, que trata dos casos que envolvem a venda irre-


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