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especial | economia

estamos bem ou mal?

O paradoxo do Brasil de hoje: o emprego e o consumo nunca foram tão altos, mas o investimento está lento e o crescimento não empolga. Como explicar essa dualidade — e o que fazer para a economia deslanchar

J

ano era o deus de duas faces da mitologia romana. Uma face olhava para o passado, e a

outra, para o futuro. Quando uma mentia, a outra dizia a verdade — e, assim, um interlocutor jamais obtinha uma resposta assertiva para perguntas como: afinal, estou certo ou errado? Por séculos, Jano foi uma figura popular na cunhagem de moedas de bronze — que, como ele, têm dois lados. E é até hoje invocado para designar situações ambíguas, em que as dúvidas se sobrepõem às certezas. É exatamente assim o Brasil de hoje. Por um lado, boas notícias não nos faltam. O país chegou ao patamar invejável das economias com pleno emprego. Aproximadamente 35 milhões de pessoas ascenderam ao mercado consumidor desde 2003. Regiões mais atrasadas finalmente parecem ter saído da letargia. É a face do Brasil que dá certo. Mas há outro lado da moeda que causa preocupação crescente. Em 2012, a produção industrial e o investimento minguaram. E o crescimento do PIB nos últimos dois anos perdeu gás — crescemos apenas 0,9% em 2012. Neste ano, a economia começa a retomar o crescimento, mas ainda de forma tímida e desigual — a média das previsões é de uma 134 | www.exame.com

expansão de 3% em 2013. Diante desse quadro, a pergunta é inevitável: estamos mais para o Brasil do pleno emprego ou o da quase estagnação? Afinal, vamos bem ou mal? A face feliz do Brasil é frequentemente exaltada nos pronunciamentos oficiais. Recentemente, a presidente Dilma Rousseff reafirmou a melhora da distribuição de renda, o desemprego baixo e o resgate de 20 milhões de pessoas da extrema pobreza. Metade da população brasileira está hoje na classe média e pode se entregar a desejos antes represados, como a compra de uma TV de alta definição, um pacote de férias ou uma refeição fora de casa. É comum as empresas nesses mercados apresentarem números de deixar chineses com inveja. Foi assim com a International Meal Company, dona de redes de restaurantes como Viena e Frango Assado. Sua receita aumentou 30% em 2012. “Foi o melhor ano de nossa história”, diz Neil Amereno, diretor de relações com investidores da IMC. O setor de serviços, no qual a IMC atua, cresce à média de 3,5% ao ano desde 2005. Mas uma parcela crescente do país não se identifica com esse Brasil sorridente. A infraestrutura em frangalhos, a carga de tributos acachapante, a burocracia paralisante e a

germano lüders

humberto maia junior, patrick cruz e patrícia ikeda


especial | economia

estamos bem ou mal?

O paradoxo do Brasil de hoje: o emprego e o consumo nunca foram tão altos, mas o investimento está lento e o crescimento não empolga. Como explicar essa dualidade — e o que fazer para a economia deslanchar

J

ano era o deus de duas faces da mitologia romana. Uma face olhava para o passado, e a

outra, para o futuro. Quando uma mentia, a outra dizia a verdade — e, assim, um interlocutor jamais obtinha uma resposta assertiva para perguntas como: afinal, estou certo ou errado? Por séculos, Jano foi uma figura popular na cunhagem de moedas de bronze — que, como ele, têm dois lados. E é até hoje invocado para designar situações ambíguas, em que as dúvidas se sobrepõem às certezas. É exatamente assim o Brasil de hoje. Por um lado, boas notícias não nos faltam. O país chegou ao patamar invejável das economias com pleno emprego. Aproximadamente 35 milhões de pessoas ascenderam ao mercado consumidor desde 2003. Regiões mais atrasadas finalmente parecem ter saído da letargia. É a face do Brasil que dá certo. Mas há outro lado da moeda que causa preocupação crescente. Em 2012, a produção industrial e o investimento minguaram. E o crescimento do PIB nos últimos dois anos perdeu gás — crescemos apenas 0,9% em 2012. Neste ano, a economia começa a retomar o crescimento, mas ainda de forma tímida e desigual — a média das previsões é de uma 134 | www.exame.com

expansão de 3% em 2013. Diante desse quadro, a pergunta é inevitável: estamos mais para o Brasil do pleno emprego ou o da quase estagnação? Afinal, vamos bem ou mal? A face feliz do Brasil é frequentemente exaltada nos pronunciamentos oficiais. Recentemente, a presidente Dilma Rousseff reafirmou a melhora da distribuição de renda, o desemprego baixo e o resgate de 20 milhões de pessoas da extrema pobreza. Metade da população brasileira está hoje na classe média e pode se entregar a desejos antes represados, como a compra de uma TV de alta definição, um pacote de férias ou uma refeição fora de casa. É comum as empresas nesses mercados apresentarem números de deixar chineses com inveja. Foi assim com a International Meal Company, dona de redes de restaurantes como Viena e Frango Assado. Sua receita aumentou 30% em 2012. “Foi o melhor ano de nossa história”, diz Neil Amereno, diretor de relações com investidores da IMC. O setor de serviços, no qual a IMC atua, cresce à média de 3,5% ao ano desde 2005. Mas uma parcela crescente do país não se identifica com esse Brasil sorridente. A infraestrutura em frangalhos, a carga de tributos acachapante, a burocracia paralisante e a

germano lüders

humberto maia junior, patrick cruz e patrícia ikeda


รšltimos dias: por falta de competitividade, a fรกbrica da Mangels, no ABC paulista, serรก fechada

20 de marรงo de 2013 | 135


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corrida de obstáculos

Um estudo dos economistas Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e Samuel Pessoa, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, ajuda a desvendar o aparente paradoxo. O texto faz relação entre a produtividade e o avanço dos setores que, há dez anos, sustentam o crescimento e a geração de emprego. Lisboa e Pessoa mostram que reformas feitas nos anos 90 e leis específicas criadas no início da década passada produziram um ganho de eficiência que se fez sentir especialmente no ramo de serviços. Isso ocorreu no comércio e na área financeira, atingindo desde o mercado de capitais até a concessão de crédito ao consumidor. Primeiro o país logrou estabilizar a moeda, com o Plano Real. A partir de 2003, o crédito se popularizou graças à criação do empréstimo consignado e de outras reformas. Em dezembro de 2005, a taxa de juro do crédito pessoal era de 5,3% ao mês. A do consignado era de 2,7%. Hoje, o crédito pessoal custa 3,4% ao mês, e o consignado, 1,7%. No período, o volume de crédito cresceu 150%. E isso gerou a alegria do consumidor que perdura até hoje. Já a indústria teve dificuldade em obter ganhos de produtividade. Muito mais que os serviços, o setor industrial depende de boas estradas, portos, oferta de energia. Nessas áreas, o Brasil continuou padecendo de falta de regras claras, demora na liberação de licenças ambientais e barreiras ao in136 | www.exame.com

o roteiro do Brasil que dá certo

Há uma parcela da economia brasileira que ainda cresce com vigor. São as áreas que mais se beneficiaram de reformas que estimularam ganhos de produtividade. Os setores de serviços urbanos e de produção e venda de bens de consumo são exemplos

as reformas No fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, o Brasil fez uma série de mudanças institucionais que deram estabilidade à economia e dinamizaram os negócios em vários setores

equilíbrio macroeconômico

Metas de inflação, câmbio flutuante e equilíbrio fiscal garantiram o sucesso do real

revolução no crédito

Novas leis criaram o crédito consignado e deram impulso ao mercado imobiliário

desestatização

Privatizações em setores como o de telefonia ampliaram o acesso a serviços

germano lüders; istock

educação de terceiro mundo seguem como inimigos do crescimento de muitos setores, em especial da indústria de transformação — o setor teve retração de 2,5% em 2012. As análises recentes mostram que, como consequência da combinação perversa, essa porção do país padece de uma anemia comum: a falta de produtividade. O conceito é mais abstrato — e, portanto, bem menos compreensível para o brasileiro médio — do que ter emprego ou não. Mas ele é crucial para o Brasil. “O crescimento sustentável depende de mais produtividade”, diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central.


CONSEQUÊNCIAS

1 produtividade e aquecimento da atividade Os setores que elevaram a eficiência tiveram uma nítida expansão das atividades. Um exemplo é o que ocorreu na concessão de crédito As reformas aumentaram a produtividade de parte da área de serviços, em especial o comércio e o setor financeiro (decomposição do crescimento médio anual, em %)

Crédito pessoal

Crescimento do PIB do setor Crescimento por incorporação de mão de obra Crescimento por aumento de produtividade do trabalho

6,1%

5,4%

4,1%

2,3%

5,3% 2,8%

3,1% comércio

Com juros menores, a oferta de crédito na economia mais que dobrou (estoque total de crédito em proporção ao PIB) 53%

As reformas permitiram também a queda das taxas de juro (taxa de juro mensal) Crédito consignado

4,1%

1,7%

2% Setor financeiro

dez/05

26%

3,4% 2,1%

dez/09

2001

jul/12

2012

2 mais emprego e mais renda Esses setores ampliaram as contratações e deram a principal contribuição para que a taxa de desemprego no país caísse Com a economia aquecida, o desemprego diminuiu... (parcela de desempregados na população ativa — média de cada ano) 12,3%

O aumento do emprego e da renda mudou o perfil socioeconômico do país (número de pessoas na classe média)

...e os salários aumentaram (variação da massa de renda da população ocupada)

5,5%

6,5%

67 milhões (38% da população)

103 milhões (52% da população)

2003

2012

3,1% 2003

2012 2004

2012

Resultado: consumidores e empresas ganharam A nova classe média foi às compras. O acesso mais amplo a artigos de consumo estimulou especialmente o comércio varejista. Carências históricas começaram a ser reduzidas, como a da habitação — para regozijo de construtoras e imobiliárias Com mais renda e mais crédito, os brasileiros foram às compras... (total do consumo das famílias em dólares)

...e foram beneficiados setores como o varejo... (variação anual das vendas no comércio) 8%

1,4

...e a construção civil (imóveis financiados pelo sistema da poupança)

450 000

trilhão

700

bilhões 2003

36 000 2012

2003

2012

2003

2012

-3,7% Fontes: Abecip, IBGE, Tendências Consultoria, Secretaria de Assuntos Estratégicos, artigo Uma História sobre Dois Países, de Marcos Lisboa e Samuel Pessoa

20 de março de 2013 | 137


especial | economia

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por que uma parte do Brasil anda devagar

Enquanto uma parte da economia ganhou produtividade, outros setores se ressentem de medidas para melhorar o ambiente de negócios. A falta dessas providências atrapalha investimentos na infraestrutura. O principal setor afetado negativamente é a indústria

faltam reformas

infraestrutura

Por uma década, o governo deixou de lado a agenda de privatizações de estradas, ferrovias e aeroportos

Resultado: o custo logístico é elevado ambiente de negócios

Em vários setores, faltam regras claras e há excesso de burocracia para investimentos em grandes obras

Resultado: os investimentos não andam CARGA TRIBUTÁRIA

Os impostos são altos e a tarefa de pagá-los é complexa e cara

Resultado: quem

produz é penalizado TRABALHO A folha de pagamentos é onerada com encargos excessivos

Resultado: o trabalho

é cada vez mais caro

(custo de transporte de cargas em proporção ao PIB)

6,3%

4,7%

BRASIL

ESTADOS UNIDOS

24 23% 56%

meses

é o tempo médio para a obtenção de licenças ambientais

é o aumento do custo tributário da indústria acumulado desde 2006(1)

é o aumento do custo de pessoal na indústria acumulado desde 2006(1)

lia lubambo; danilo verpa/folhapress;eduardo marques

vestimento privado, entre outros percalços. “As dificuldades cresceram nos últimos anos, sobretudo para a realização de investimentos mais complexos”, diz Lisboa. Grandes obras de infraestrutura costumam levar anos até vencer a verdadeira corrida de obstáculos ambientais e burocráticos para sair do papel. Resultado: na indústria, a produtividade do trabalhador brasileiro caiu 10% de 2003 a 2009. A baixa produtividade explica em parte o fato de setores que levaram 46 bilhões de reais em benesses tributárias no ano passado crescerem pouco ou até encolherem. A indústria têxtil foi uma das beneficiadas por bondades despejadas pelo governo nos últimos dois anos — como a desoneração da folha de pagamentos, concedida em 2012. Essa e outras iniciativas, como a desvalorização do real, deveriam ter ajudado a contrabalançar os problemas do setor, abatido pela concorrência de artigos importados da China. Mas não foi o que ocorreu. A fabricação de tecidos caiu 4,6% no ano, e a de roupas, 10%, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil. Entre empregos diretos e indiretos, foram cortados 130 000 postos — ou quase 10% da força de trabalho do setor. “Não crescemos em 2012. A desoneração foi importante e o juro caiu, mas essas medidas ainda são insuficientes”, diz Aguinaldo Diniz, presidente da Cedro Têxtil e também presidente da Abit. O baixo crescimento do mundo nos últimos quatro anos fez subir os estoques de bens industriais — e esses produtos começaram a ser desovados no aquecido mercado de consumo brasileiro. É o que ajuda a explicar casos como o da metalúrgica Mangels. Ela é fornecedora do setor automotivo, o campeão em receber estímulos do governo — foram 11 medidas desde 2011. Ainda assim, a empresa decidiu fechar sua unidade de serviços de aço localizada em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, responsável por um quarto de seus negócios. Os 380 empregados da fábrica começaram a ser demitidos em 28 de fevereiro. “A carga fiscal excessiva, a falta de projetos de


e a mão do estado pesa O governo federal aumentou as despesas nos últimos anos (gastos da União em proporção ao PIB)

Mas os gastos não significam aumento do investimento público 18,2%

15,1%

2003

2012

(investimento público em infraestrutura como proporção do PIB em 2012)

1,2%

Além de aumentar seus gastos, nos últimos anos, o governo se tornou mais intervencionista. A política de ditar rumos em setores escolhidos e interferir nos negócios multiplica distorções Os preços dos combustíveis são mantidos artificialmente baixos. Há pouco, o governo pediu a prefeitos para postergar os reajustes de tarifas de ônibus

Para baixar o preço da energia elétrica, o governo obrigou concessionárias a rever contratos que estavam em vigor, prejudicando os acionistas

Dilma Rousseff baixou mais de 40 medidas para proteger a indústria nacional da competição com importados. O isolamento leva o consumidor a pagar mais caro pelos bens

Resultado: um país travado A falta de reformas e o intervencionismo inibem o investimento privado. O investimento público ainda é pequeno. As indústrias sofrem e o Brasil cresce pouco O investimento total vem caindo desde 2010 (investimento na economia(2), em % do PIB) 19,5%

19,3%

18,1%

Nesse cenário, a indústria foi o setor que mais saiu prejudicado (variação anual da produção) Bens de capital 20,9% 3,2%

2010

2011

2012

2010

2011

2012 -9,1%

Indústria de transformação

O desempenho da economia nos últimos anos foi declinante (taxa de variação do PIB)

7,5% 2010

2,7% 2011

10,3%

0,9% 2012

2010

0,3% 2011

2012 -2,5%

longo prazo e a logística precária tiram a nossa competitividade”, diz Robert Mangels, presidente da Mangels. A empresa teve prejuízo de 25 milhões de reais nos nove primeiros meses de 2012. O fechamento da fábrica é uma tentativa de reduzir dívidas, cortar custos e recuperar a rentabilidade. e agora?

Os problemas que sufocam parte da indústria suscitam a questão: até que ponto poderá coexistir o país que vai bem com o que vai mal? O Brasil é hoje mais rico do que jamais foi. Essa guinada ganhou força no fim dos anos 90, com a adoção do tripé sobre o qual a política econômica brasileira se sustenta — superávit primário das contas públicas, câmbio flutuante e meta de inflação. Essa combinação de políticas foi o ponto de partida para o segundo avanço, ocorrido no primeiro mandato do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nessa fase, passaram a ser concedidos aumentos reais do salário-mínimo, e o programa de transferência de renda Bolsa Família em dez anos injetou 100 bilhões de reais na economia. Mas não há bem que dure para sempre. “A médio prazo, o que faz a diferença é o crescimento econômico. Sem ele, não há programa social que dê conta”, diz Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda no governo Itamar Franco. Mesmo empresas que aproveitaram a onda de consumo veem a luz amarela quando projetam o futuro. A fabricante de tubos plásticos Amanco, que cresceu em média 11% ao ano desde 2006, espera expansão bem mais modesta nos próximos anos — cerca de 1,5 ponto percentual acima da variação do PIB. “Já passamos pelo crescimento baseado na aceleração da renda”, diz Maurício Harger, vice-presidente do Grupo Mexichem, dono da marca Amanco. “Continuamos otimistas, mas a expansão agora vai ser menor.” A empresa planeja investir 100 milhões de dólares até 2015 para aumentar a produtividade das fábricas. O que motiva os investimentos é o custo da mão de obra — só no ano passado, os salários de operários da montagem subiram 30%. “A continuar assim, chegaremos a um pon-

(1) Entre o terceiro trimestre de 2006 e o terceiro trimestre de 2012 (2) Formação Bruta de Capital Fixo Fontes: CNI, IBGE, Instituto Ilos, LCA, Tendências Consultoria, Schwartsman & Associados, artigo Uma história sobre dois países, de Marcos Lisboa e Samuel Pessoa

20 de março de 2013 | 139


especial | economia to em que nem governo nem setor privado vão conseguir bancar novos aumentos”, diz José Roberto Mendonça de Barros, economista da MB Associados. Sem falar na pressão de custos sobre a taxa de inflação, que já anda acima de 6% ao ano. Em parte, ela é combatida com medidas que criam distorções, como o controle de preços dos combustíveis. O recente corte de impostos de produtos da cesta básica é de efeito duvidoso e pode funcionar como mais um estímulo ao consumo. “A cada crise, a tentação dos governos é adotar medidas de curto prazo, mas é preciso olhar à frente”, diz Werner Baer,­ economista da Universidade de Illinois e autor do livro The Brazilian Economy, Growth and Development. Alguns movimentos de espectro mais amplo alimentam a esperança de que isso tenha começado. A série de concessões de rodovias, ferrovias e aeroportos para a iniciativa privada, anunciada no ano passado, foi o mais notório deles. A recente revisão das condições oferecidas aos investidores, permitindo que o retorno do capital saia da faixa de 5% para 10% a 15% ao ano, é outro alento. Os cerca de 40 economistas, empresários e executivos ouvidos por EXAME concordam que o Brasil não está às portas de perder os ganhos da última década. “Quando olhamos para a frente, vemos motivos para manter o otimismo, entre eles o tamanho do mercado interno e os projetos de infraestrutura”, afirma Jua­rez Lopes de Araújo, presidente da consultoria Deloitte. “Mas o otimismo é garantido só para os próximos dois ou três anos.” Para que o futuro continue a ser promissor, é vital uma agenda de novas reformas. No longo prazo, as escolhas do Brasil de agora significarão a diferença entre ser uma nação mais velha, porém rica, ou ser uma sociedade envelhecida e ainda lutando para deixar a condição de emergente. “O risco é o país ficar limitado a perseguir um projeto mais modesto do que o que poderia de fato realizar”, diz José Alexandre Scheinkman, professor de economia na Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Ainda é tempo de optar pelo melhor. n 140 | www.exame.com

A saída é a produtividade

Para os economistas Marcos Lisboa e Samuel Pessoa, o crescimento do pib depende do aumento da eficiência do setor produtivo

A

lém do gosto pelo samba, Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (20032005) e professor da escola de negócios Insper, e Samuel Pessoa, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, têm em comum a ideia de que a economia cresce pelo aumento da produtividade, e esta, por sua vez, depende de instituições que criem um ambiente favorável aos negócios. “Marcos e eu concordamos em quase tudo”, diz Pessoa. Foi durante uma conversa informal que surgiu a ideia de escreverem juntos um estudo com o título Uma História sobre Dois Países. No artigo, concluído em fevereiro, eles explicam, analisando diferenças de produtividade, por que o Brasil exibe sinais contraditórios. A seguir, trechos do que a dupla falou a EXAME. Por que uma economia que cresce tão pouco continua empregando tanta gente? Marcos Lisboa — Os setores de serviços e consumo, que são os maiores empregadores da economia, cresceram muito nos últimos anos. Nesse processo de crescimento, empregaram mais gente. Isso ajudou a reduzir a taxa de desemprego. Outros setores, na área da indústria, cresceram menos, mas não são grandes empregadores. Por isso, temos, na média, crescimento baixo com alto nível de emprego. Nossa hipótese é que esse quadro decorre de movimentos divergentes em relação à produtividade na última década: ela

melhorou na área de serviços e piorou na indústria de transformação. Samuel Pessoa — Acreditamos que o ganho de produtividade seja resultado das reformas institucionais nos 11 anos de Pedro Malan (ministro da Fazenda de 1995 a 2002) e de Antonio Palocci (ministro da Fazenda de 2003 a 2006), que eu costumo chamar de “período Malocci”. Estou falando de reformas como a Lei de Responsabilidade Fiscal e microrreformas como a criação do crédito consignado e a alienação fiduciária, que impulsionaram o mercado de crédito. As reformas melhoraram a eficiência da economia, e o setor de serviços foi o mais beneficiado. Por que os serviços foram mais beneficiados do que a indústria? Marcos Lisboa — A expansão do crédito foi boa para todos os setores. Mas o impacto acabou sendo menor na indústria porque esse setor depende mais de investimentos em infraestrutura e do que eu chamo de investimentos complexos — grandes obras que afetam as pessoas e o meio ambiente. Não houve reformas que incentivassem essas duas áreas. Ao contrário. Houve dificuldade crescente e, portanto, perda de produtividade. O Brasil tem carência de infraestrutura e isso decorre da dificuldade de fazer esses investimentos. Melhoras institucionais podem realmente aumentar a produtividade da economia? Marcos Lisboa — Em geral, asso-


temporário da produção e da renda. Uma vez esgotados esses ganhos, a economia se estabiliza, porém num nível de renda maior. Para voltar a crescer, é preciso conseguir novos ganhos de produtividade.

LISBOA (de pé) e Pessoa: o Brasil esgotou os ganhos das reformas feitas na era “Malocci”

ciamos produtividade ao chão de fábrica. No entanto, o desenho das instituições e as regras que definem nosso ambiente econômico têm impacto relevante sobre a produtividade, inclusive para explicar a diferença de renda entre os países. As regras para a importação de bens de capital, os instrumentos de crédito e a regulação da infraestrutura influenciam a escolha das técnicas de produção. E, portanto, influenciam a produtividade do país. Reformas que incentivem a formalização das empresas, no fim das contas, ajudam a aumentar a produtividade. Vamos tomar como exemplo a redução da cumulatividade do PIS e da Cofins e refor-

germano lüders

O governo está atento Samuel PEssoa: à necessidade de uma nova Governo está agenda de reformas? desfazendo as Samuel Pessoa — Oque governo está reformas modernizaram país Está fazendo uma contrarreforma. destruindo o regime de política macroeconômica que deu as bases para o crescimento da última década. Colocar 450 bilhões de reais no ­BNDES para emprestar a algumas empresas, aumentar alíquotas de importação, reduzir impostos para proteger a indústria, segurar os preços para controlar a inflação... isso é a contrarreforma.

mas que ampliaram o acesso ao mercado de capitais. Essas mudanças induziram muitas empresas a se formalizar. As informais têm seu crescimento restringido pelo medo de chamar a atenção do Fisco. Ou seja, preferem se manter pequenas para evitar problemas. Mas, quando se formalizam, podem crescer e usufruir dos ganhos de escala, ou seja, obter maior produtividade. Os dados do PIB mostram que o setor de serviços vem crescendo a taxas menores do que nos anos anteriores. Por que isso ocorre? Marcos Lisboa — Ganhos de produtividade induzem um crescimento

Até quando isso pode continuar? Samuel Pessoa — A renda do brasileiro continua em alta por dois motivos principais: reajustes no salário-mínimo e programas de transferência de renda. Isso foi bom por um tempo porque reduziu a desigualdade. Mas é um modelo que só se sustenta no contínuo aumento dos gastos públicos, financiado pela elevação da carga tributária. Se a economia não crescer, ficará cada vez mais difícil para o governo aumentar sua receita. Isso vem ocorrendo, mas a queda dos juros, no ano passado, proporcionou uma economia ao caixa do governo que deu um fôlego adicional. Também não podemos esquecer que salários em alta e produtividade em baixa resultam em aumento da inflação e são péssimos para uma indústria que sofre a concorrência dos importados. Por isso, eu acho que, num eventual segundo mandato de Dilma Rousseff, será difícil manter a situação do jeito que está. Humberto Maia Junior

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