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como

E L E S dirigem o

espetáculo Cinco empresas emergentes cujos negócios estão ajudando a vencer o desafio de ampliar o acesso à cultura no Brasil Carla Aranha fotos na lata


N ESPECIAL Cultura

o Brasil, apenas 7% das cidades têm salas de cinema, de acordo com

as estatísticas do Ministério da Cultura. Segundo um levantamento da consultoria alemã GfK, os livros brasileiros estão entre os mais caros do mundo. Em média, as entradas para shows numa cidade como São Paulo podem custar até 70% mais do que em Nova York — e as turnês dos principais artistas raramente saem das grandes capitais rumo ao interior. Novos escritores, produtores independentes e artistas emergentes tampouco têm facilidade para financiar seus projetos, o que poderia aumentar a oferta de artes e espetáculos no país. Esses dados ajudam a mostrar como o acesso à cultura ainda é restrito no Brasil, seja pela falta de infraestrutura — como auditórios e teatros —, seja pelos custos elevados. Para boa parte da população, assistir a espetáculos musicais, filmes e comprar livros ainda é um sonho de consumo. De acordo com uma pesquisa feita no começo deste ano pela consultoria Nielsen, 40% dos brasileiros pretendem gastar parte do salário no curto e médio prazo em cultura e entretenimento — é a prioridade da lista, seguida por pagamento de dívidas e viagens. “Nos últimos anos, a renda média cresceu, e muitos brasileiros melhoraram de vida”, diz Claudio Czarnobai, gerente da Nielsen. “Mas há uma grande demanda reprimida de bens e serviços culturais ainda não devidamente atendida.” Na quinta reportagem da série Sou Empreendedor — Meu Sonho Move o Brasil, Exame PME conta a história de cinco pequenos e médios negócios que estão crescendo ao ampliar o acesso da população à cultura. Nas próximas páginas aparecem empresas

76 | Exame pme | Julho 2013

como a Cinemagia, de São Paulo, criadora de um festival de cinema itinerante exibido em mais de 400 municípios do interior em todas as regiões do país. A paulista Livebiz transmite shows de artistas famosos para fãs de localidades por onde geralmente suas turnês não passam. O site paulistano Catarse tem ajudado a divulgar ideias de artistas e produtores culturais em busca de financiamento para internautas dispostos a contribuir com pequenas quantias de dinheiro. Ainda em São Paulo, a produtora de eventos Preta Multimídia promove feiras nas quais artistas podem expor criações inspiradas na cultura negra. Com sede em Florianópolis, o site Bookess fornece uma plataforma que permite a qualquer autor publicar seu próprio livro e colocá-lo à venda na internet, abrindo atalhos para novos autores se lançar no mercado editorial. Veja suas histórias.


Muitos artistas não têm como mostrar seu trabalho nos espaços tradicionais

adriana Barbosa Preta Multimídia — São Paulo (SP)

Produtora de eventos

O problema Artistas e designers que se inspiram na cultura afro têm pouco espaço para expor e vender suas criações

O que faz Feiras e eventos culturais gratuitos, como shows, peças de teatro e dança

Clientes Consumidor final e expositores

faturamento

300 000 reais

(1)

1. Em 2012


ESPECIAL Cultura

Ainda é difícil conseguir dinheiro para levar adiante novos projetos culturais

DIEGO reeberg Catarse

— São Paulo (SP)

Site de crowdfunding

O problema Mais da metade dos projetos de livros, filmes e espetáculos não consegue financiamento para sair do papel

O que faz Divulga projetos culturais para internautas dispostos a fazer vaquinha para financiá-los

Clientes Cineastas, escritores, músicos e produtores culturais

faturamento

310 000 reais

(1)

1. Em 2012


SESSÃO DE CINEMA NO SERTÃO

C

omo muitas pequenas localidades do interior do país, o município mineiro de Cachoeira Dourada passou nos últimos anos por um surto de crescimento. Segundo as estatísticas do IBGE, na última década a renda per capita da população aumentou 220%, impulsionada principalmente pela criação de gado — o rebanho bovino da cidade somava, no ano passado, mais de 9 000 cabeças. “A vida aqui melhorou bastante”, diz o mecânico César Pereira, de 37 anos, morador do município. “O maior problema é que falta algo para fazer nas horas vagas.” São, de fato, restritas as opções de atividades culturais para os 3 000 moradores de Cachoeira Dourada. A sala de cinema mais próxima, por exemplo, fica na mineira Uberlândia, a mais de 200 quilômetros de distância. Para chegar lá é preciso enfrentar estradas de terra e rodovias de asfalto esburacado, numa viagem que dura pelo menos 3 horas — isso quando não surge nenhum imprevisto. “Às vezes a gente encontra no meio do caminho uma boiada atravessando a estrada”, afirma Pereira. “Nesse caso, é preciso parar e esperar um tempão, até os animais passarem.” A distância e os percalços no trajeto fizeram Pereira ficar mais de dez anos sem ver um filme na tela grande. Ele pôde matar um pouco da vontade em outubro de 2011, quando a empresa paulista Cinemagia transformou, por dois dias, o ginásio de esportes de Cachoeira Dourada numa grande sala de cinema. Na ocasião, Pereira assistiu à animação Wall-E e à comédia brasileira Se Eu Fosse Você 2. “Eu era um dos primeiros a chegar para a sessão”, diz Pereira. “Ver filmes no cinema é muito mais legal do que na TV. Foi emocionante.” A Cinemagia foi fundada em 2001 pelos sócios Lia Pinheiro, de 34 anos, e Matteo Levi, de 75. Na época, ambos já tinham experiência no mercado cinematográfico — ele é sócio da distribuidora de filmes Europa, de São Paulo, e ela trabalhava como produtora em produções nacionais. Eles tiveram a ideia de criar um festival itinerante que percorresse pequenos municípios do interior. “Percebemos que havia uma demanda não atendida nas pequenas cidades”, afirma Lia. “No interior do país, pude encontrar um bocado de gente que não sabia como era ver um filme no cinema.” Desde 2001, a Cinemagia exibiu filmes e animações para mais de 3 milhões de espectadores em cerca de 400 cidades onde não há cinema — muitas

delas com menos de 50 000 habitantes, como Catuti, em Minas Gerais, e Anhanguera, em Goiás. No ano passado, as receitas da empresa chegaram a 6,5 milhões de reais, 62% mais do que em 2011. Segundo dados da Agência Nacional de Cinema, somente 7% das cidades brasileiras contam com salas de cinema. No Brasil, há 77 000 habitantes por tela de cinema — o país ocupa a 60a posição num ranking da Unesco que mede o acesso da população às salas de exibição, atrás de países como Argentina, onde há o dobro de cinemas por habitante, Costa Rica, Malásia e Indonésia. Em parte, a razão da escassez é a dificuldade que as grandes redes de exibição têm para recuperar investimentos em cidades pequenas. “O custo para abrir e manter uma sala de cinema é alto”, diz Marcelo Bertini, presidente da rede Cinemark, que mantém 214 salas de cinema no país. “Em localidades pequenas, o investimento ainda não compensa.” Só recentemente a rede Cinemark começou a sair das capitais para abrir cinemas em cidades de porte médio no inte-

Há uma tela de cinema para cada 77 000 habitantes no Brasil, hoje o 60o do ranking mundial que mede o acesso da população às salas de exibição rior dos estados — como a mineira Uberlândia, a paranaense Londrina e a gaúcha Canoas. O modelo de cinema itinerante adotado pela empresa ajuda a diminuir os custos. Equipes de cinco ou seis funcionários da Cinemagia percorrem o país em vans para levar projetores para praças, ginásios e escolas — muitas vezes, a apresentação acontece ao ar livre mesmo. “O município todo se mobiliza para assistir às sessões”, afirma Lia. “Vai todo mundo, desde o prefeito até o padeiro e a professora da escola.” Para não depender do faturamento da bilheteria, a Cinemagia adotou um modelo com base em patrocínios. “Nossos principais patrocinadores são grandes empresas que atuam no interior e têm interesse em expor suas marcas aos moradores das pequenas cidades”, afirma. É o caso da fabricante de agroquímicos Monsanto e da operadora de telefonia Vivo. “A exibição de filmes nas cidades pequenas ajuda a estreitar os laços com as comunidades agrícolas”, afirma Isabela De Marchi, coordenadora de sustentabilidade da Monsanto. Julho 2013 | Exame pme | 79


ESPECIAL Cultura

PUBLIQUE UM LIVRO VOCÊ MESMO

A

os 80 anos, a paulista Maria Hilda de Jesus Alão está realizando o sonho de ver seus livros publicados. Professora de português aposentada, ela começou a escrever há pouco mais de uma década, depois do nascimento de seus netos. “Comecei a inventar histórias para contar a eles”, diz. “Como não queria esquecer nenhum detalhe, passei a escrevê-las.” Por muito tempo, só os netinhos de Maria Hilda conheciam os contos infantis saídos da imaginação da avó. Ao longo dos anos, ela procurou editoras para apresentar seu trabalho — mas nenhuma demonstrou interesse em publicá-lo. “Na maioria das vezes, fui

Metade dos brasileiros não tem o hábito de ler ou comprar livros, e a maior parte da receita das editoras vem das vendas de material didático mal recebida pelos editores”, afirma ela. “Eles não deram nenhuma atenção a meus livros.” Em 2008, Maria Hilda encontrou um caminho para ver suas histórias impressas. Ela conheceu na internet o site Bookess, no qual autores independentes podem pôr obras à venda. A empresa, com sede em Florianópolis, havia acabado de entrar em operação. Fundado pelos empreendedores Marco Passos, de 24 anos, e Marcelo Cazado, de 40, o Bookess é uma plataforma online na qual qualquer pessoa pode transformar seus escritos em livro, por meio de um software de edição fornecido pela empresa — ao mesmo tempo, o site funciona como livraria virtual para vender as obras desses escritores. “É o que se chama de autopublicação”, diz Cazado. “Queremos dar aos novos autores um atalho para o mercado, sem precisar passar pelas grandes editoras.” Quem compra livros no Bookess pode escolher entre duas opções — baixar a obra pela internet para ler em computador, tablet, smartphone ou leitor di80 | Exame pme | Julho 2013

gital ou encomendar a impressão de um exemplar. Como só imprime sob demanda, a empresa não precisa se concentrar em títulos com potencial para atingir grandes tiragens, como costuma fazer a maioria das editoras. “A empresa nasceu para suprir uma carência do mercado”, afirma Cazado. “Nas editoras tradicionais, há pouco espaço para que as obras de novos autores possam chegar ao mercado.” Na prática, a maioria das editoras teme assumir o risco de investir na impressão de um livro que depois ficará encalhado nas prateleiras das livrarias — algo bastante frequente num país onde os índices de leitura ainda são baixos. Segundo uma pesquisa feita no ano passado pelo Ibope, mais da metade dos brasileiros não tem o hábito de ler nem de comprar livros. Outro estudo, realizado no ano passado pela Associação Internacional de Publishers, mostrou que o Brasil tem o nono maior mercado livreiro do mundo — metade das vendas, no entanto, é de material didático. “Consome-se pouca literatura no país, o que dificulta o surgimento de novos autores”, diz Leonardo Brant, sócio da Cemec, empresa paulista especializada em gestão cultural. As receitas da Bookess vêm de uma comissão cobrada a cada livro vendido. No ano passado, as receitas da empresa chegaram a 210 000 reais, quase o dobro de 2011. No site, já foram publicadas cerca de 20 000 obras de quase 5 500 autores — Maria Hilda é uma das mais prolíficas. Ela já pôs à venda 61 títulos, a maioria de histórias infantis. “Também publiquei contos eróticos que escrevi na juventude.” Cazado gosta de pensar em sua empresa como uma plataforma democrática para a publicação de livros. “Nossa única exigência é que as obras passem por uma revisão para evitar erros de português”, afirma. No começo do ano, Cazado vendeu uma participação na empresa para a paulista SBS, que mantém uma rede de livrarias e uma distribuidora de livros. “Eles veem a autopublicação como uma tendência no setor.” Com a ajuda do novo sócio, a expectativa é fechar 2013 com o triplo da receita do ano passado.

SHOWS PARA TODOS OS GOSTOS

U

ma das canções mais conhecidas do compositor mineiro Milton Nascimento, gravada na década de 80, diz: “Todo artista tem de ir aonde o povo está”. Nem sempre, no entanto, é fácil fazer o público


Há um grande mercado carente de shows e espetáculos musicais no interior do país

gustavo marques Livebiz

— São Paulo (SP)

Vídeos pela internet

O problema O alto custo para produzir shows musicais acaba restringindo esses eventos às grandes capitais e encarecendo os ingressos

O que faz Transmite shows ao vivo pela internet

Clientes Produtores de eventos

faturamento

800 000 reais

(1)

1. Estimativa para 2013


ESPECIAL Cultura

Nas pequenas cidades, conheci muita gente que nunca havia assistido a um filme no cinema

LIA PINHEIRO Cinemagia

— São Paulo (SP)

Produtora de eventos

O problema Mais de 90% das cidades brasileiras não têm salas de cinema

O que faz Promove sessões gratuitas de cinema ao ar livre, em escolas e ginásios de 400 municípios do país

Clientes Monsanto, Sky, Correios

faturamento

de reais 6,5 milhões

(1)

1. Em 2012


encontrar-se com seus ídolos. Veja o caso da técnica de nutrição Shirlene Meira, de 45 anos, moradora de Ribeirão Preto, no interior paulista. Raramente ela pode ir ao show de um de seus artistas preferidos, como Gal Costa e Gilberto Gil. “A preferência do povo aqui na região é a música sertaneja”, diz ela. “É difícil passar uma semana sem show de alguma dupla famosa, mas quase nunca há apresentações de música popular brasileira.” Nos últimos meses, Shirlene tem recorrido ao site da empresa paulista Livebiz para curtir os shows de seus ídolos. A empresa nasceu no ano passado, quando o paulista Gustavo Marques, de 37 anos, decidiu criar um negócio para levar apresentações de músicos e cantores brasileiros a um público que nem sempre pode ir aos shows. “A empresa surgiu da constatação de que há muita gente sem acesso a espetáculos musicais de qualidade”, afirma ele. “A maioria dos artistas se apresenta apenas nas capitais.” A ideia de criar uma empresa como a Livebiz surgiu quando Marques trabalhava como gestor de redes sociais numa agência de publicidade de São Paulo. Uma de suas tarefas era produzir o conteúdo capaz de atrair internautas para os perfis que os clientes da agência mantinham no Twitter e no Facebook. “Às vezes, transmitíamos shows ao vivo pela internet”, diz ele. “A audiência bombava.” Para transmitir os shows, a equipe de Marques filma as apresentações ao vivo ou em estúdio. As imagens então são enviadas por satélite para uma empresa em Nova York, responsável por dar um tratamento ao som e à imagem para que cheguem sem problemas ao computador, tablet ou smartphone dos espectadores. No modelo adotado por Marques, a transmissão é bancada por patrocinadores. Na maioria dos casos, o serviço é encomendado à Livebiz por empresas que patrocinam shows­e buscam por uma alternativa para fazer suas marcas chegar a um público mais amplo que a plateia de um teatro. Em 2013, as receitas da ­Livebiz deverão chegar a 800 000 reais. A Livebiz é um exemplo de negócio com potencial para crescer na esteira da expansão do show ­business no Brasil. Segundo a consultoria PwC, os shows musicais movimentaram no ano passado 225 milhões de dólares no país — 30% mais do que em 2007. Um levantamento feito por Exame PME em sites de entretenimento e de produtoras de eventos mostrou que em 2012 foram apresentados 307 shows internacionais nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília e Florianópolis, ante 235 em 2010. O principal entrave a um crescimento ainda mais acelerado desse mercado está no preço dos ingressos. Nos Estados Unidos, as entradas para espetáculos musicais custaram no ano passado, em média, 43 dólares — o equivalente a menos de 100 reais —, segundo o site americano Pollstar, que faz pesquisas

sobre o mercado de música e vende ingressos. No Brasil, os preços podem ser 70% mais caros — em média, os ingressos vendidos em 2012 pela promotora de shows T4F, de São Paulo, custaram 172 reais, de acordo com os relatórios da empresa. “No Brasil, os custos com o aluguel dos espaços e os encargos de mão de obra estão inflacionados e são repassados ao público”, afirma Marques. “Espero que a ­Livebiz se consolide como alternativa para quem não tem dinheiro para ver ao vivo.”

A PLATEIA AJUDA A PAGAR AS CONTAS

E

m junho, o paulista Paulo Henrique Monteiro, de 45 anos, levantou perto de 150 000 reais para levar adiante as filmagens de uma série de animação baseada em roteiros de sua autoria. “Até o fim do ano, será possível gravar um episódio piloto”, afirma ele. “Espero que em 2014 a série seja exibida em alguma emissora de televisão.” Órfão desde bebê, Monteiro vive num quarto no Hospital das Clínicas, em São Paulo, desde os 2 anos de idade, quando teve paralisia infantil e perdeu parte da capacidade pulmonar — sua série vai contar histórias de crianças com deficiência. Monteiro arrecadou o dinheiro por meio do ­Catarse, um site de crowdfunding, como são chamadas as empresas na internet que permitem que várias pessoas contribuam com pequenas quantias para financiar um projeto ou um plano de negócios. No caso de Monteiro, quase 2 000 pessoas fizeram doações, que variaram de 15 a 10 000 ­reais. “Acho que sem o Catarse seria muito difícil tirar minhas ideias do papel.” O site foi criado há três anos pelo administrador Diego Reeberg, de 25 anos, e por outros três sócios.

No ano passado, os shows musicais movimentaram cerca de 225 milhões de dólares — um aumento de 30% em comparação com 2007 Julho 2013 | Exame pme | 83


ESPECIAL Cultura

Em 2012, 5 280 projetos foram autorizados a usar a lei de incentivo à cultura para captar recursos — 50% deles não conseguiram dinheiro algum A demanda de financiamento para iniciativas culturais no Catarse dá uma ideia da dificuldade em obter dinheiro para esse tipo de projeto. Um dos mecanismos mais utilizados no país para a realização de eventos culturais são leis de incentivo que, geralmente, permitem às empresas abater dos impostos os investimentos em filmes, livros, peças de teatro, festivais ou shows, entre outras manifestações artísticas. No ano passado, apenas metade dos 5 280 projetos aprovados pelo Ministério da Cultura para captar recursos por meio da Lei Rouanet — o principal mecanismo de financiamento cultural do governo federal — conseguiu o dinheiro. Desses, menos de um quarto atingiu o valor total previsto para o projeto. Sites de crowdfunding costumam cobrar comissão pelo dinheiro arrecadado. O Catarse fica com 7,5% sobre cada captação — as receitas do site chegaram a 310 000 reais no ano passado, o dobro de 2011. Reeberg e seus sócios procuram veicular projetos com mais chance de cair no gosto do usuário. Quem tem o pedido de inscrição de um projeto negado 84 | Exame pme | Julho 2013

tem a oportunidade de melhorar a proposta, com a ajuda da equipe do Catarse, e se inscrever novamente. “Transparência é fundamental em sites de crowd­ funding”, afirma Reeberg. “As pessoas precisam entender para onde irá o dinheiro que elas doarem.”

FEIRAS PARA PROMOVER A CULTURA AFRO

A

té pouco tempo atrás, a designer paulista Ana Paula Xongani, de 35 anos, tinha poucas oportunidades de mostrar as criações de sua empresa. Ela cria roupas com tecidos importados de Moçambique e acessórios para cabelos afro. “Vendia minhas peças apenas pela internet, mas sentia falta de um espaço onde pudesse ficar cara a cara com os clientes”, diz ela. “Também não tinha recursos para alugar um ponto comercial e abrir uma loja.” Em 2011, Ana Paula encontrou um lugar para expor suas criações na Feira Preta, evento voltado ao público afro realizado anualmente em São Paulo — na edição do ano passado, cerca de 6 000 pessoas visitaram os estandes. “O evento traz ótimos resultados”, diz Ana Paula. “Hoje, boa parte do meu faturamento vem de clientes que conheci na feira.” A Feira Preta é promovida pela Preta Multimídia, empresa de eventos fundada em 2002 pela empreendedora Adriana Barbosa, de 35 anos. Na época, ela havia acabado de perder o emprego como produtora musical numa gravadora quando teve a ideia de criar uma feira em que artesãos e artistas pudessem expor criações inspiradas na cultura afro. “Havia pouca receptividade para a cultura negra em outros eventos semelhantes”, diz Adriana. “Por isso, tive a ideia de fazer um evento próprio.” No ano passado, o faturamento da empresa chegou a 300 000 reais. As receitas vêm do aluguel de estandes para os expositores, de empresas que se dispõem a patrocinar os eventos e de ingressos vendidos ao público, que paga até 30 reais para assistir a apresentações de artistas como o rapper Emicida e o grupo Samba da Vela. Além da feira, a Preta Multimídia realiza eventos culturais mensais em locais como o Centro Cultural São Paulo, na capital paulista, com apresentações de música, teatro e dança de jovens artistas. “Iniciativas como essa são interessantes por abrir espaço para artistas e profissionais da cultura que não desfrutam de muito espaço nos canais mais tradicionais”, afirma o especialista em gestão cultural Leonardo Brant, do Cemec.

Michel Téo Sin

A ideia para a empresa surgiu quando Reeberg ainda estudava administração de empresas e começou a participar de feiras de empreendedorismo. Num desses eventos, ele conheceu profissionais da área de tecnologia que tentavam levantar dinheiro no Quickstarter, um dos primeiros sites de crowdfunding a surgir nos Estados Unidos. “Naquela época, já estava pensando em abrir meu próprio negócio”, diz Reeberg. “Achei que havia lugar no Brasil para criar um site semelhante ao Quickstarter.” No início, Reeberg esperava que o Catarse ajudasse outros jovens empreendedores a conseguir dinheiro para dar a partida em suas próprias empresas. Aos poucos, no entanto, o site atraiu a atenção de produtores culturais, cineastas, músicos e escritores, que viram nele a possibilidade de financiar suas ideias. Desde que foi criado, o Catarse ajudou a concretizar 565 projetos — boa parte deles na área cultural, como documentários, livros, festivais de música e gravações de CD. Cada um arrecadou em média 12 700 reais.


Novos autores ainda enfrentam grandes dificuldades para se lançar no mercado

marcelo

cazado Bookess

— Florianópolis (SC)

Site de autopublicação de livros

O problema Para as grandes editoras, não é financeiramente atrativo lançar autores iniciantes, cujas obras têm pequeno potencial de vendas

O que faz Mantém um site em que novos escritores podem vender suas obras em formato digital ou impresso sob demanda dos leitores

Clientes Consumidores

faturamento

210 000 reais

(1)

1. Em 2012


ESPECIAL Cultura

A cultura EM NÚMEROS Leitura

Teatro

O Brasil tem o nono maior mercado editorial do mundo, mas os livros custam caro e a maioria dos brasileiros não tem o hábito da leitura

Há poucos teatros no país, e a maioria está concentrada no Sudeste

EUA

31

China

10,6

Alemanha

9,75

Japão

França

Reino Unido

7,1

4,6

4,1

Preço dos livros no varejo (em dólares)(2) Ficção

Espanha

Espanha

43 43,3

Portugal

2,9

Itália

Número de teatros (por

27,7 39,3

100 000 habitantes) 0,85

26,1 34,6

Holanda

1. Em 2012 Fonte International Publishing Association

Fonte Perfil dos municípios brasileiros/IBGE

29,9 38,7

Brasil

2,5

dos municípios brasileiros têm teatros

35,7 37,4

França

3,4

25%

31,9 49,4

Alemanha Itália

Menos de

Não ficção

Brasil

0,66

29,3 37,5

56

0,46

0,46

2. Em 2012 Fonte Painel do livro/GfK

0,28

Ce nt ro Sul -O es te No No rte rd es te

(em bilhões de euros)(1)

Su de st e

Receitas das editoras de livros

% dos brasileiros não têm o hábito de ler livros Fonte Instituto Pró Livro/Ibope

Fonte Ministério da Cultura/IBGE

Cinema Os brasileiros que vivem nas grandes cidades pagam um dos ingressos mais caros do mundo — e quem mora nas regiões Norte e Nordeste tem pouco acesso às salas de projeção Preço dos ingressos

20,5 17,5

(em dólares)

16

Copenhague

Xangai Sydney

São Paulo Paris Nova York Madri

13,5 13,2

Norte

Sul

Nordeste

1,19 1,54

1,37 0,37

13,2

0,51

12,1 11,5 Preços coletados em janeiro de 2013 Fonte Samy Dana

86 | Exame pme | Maio 2013

Sudeste Centro-Oeste

14,9 13,9

Londres

Santiago

(por 100 000 habitantes)

16

Genebra

Berlim

Número de cinemas

Total de salas no país: 2 098(3) 3. Em 2010 Fonte Ministério da Cultura/IBGE


não falta demanda

Pedro Herz, dono da Cultura — uma das maiores redes de livrarias do país —, diz que há um grande número de consumidores que podem formar um forte mercado de cultura no Brasil MARIA LUISA MENDES

empreendedor Pedro Herz, de 73 anos, dono da Cultura, uma das maiores redes de livrarias do país. Seu escritório fica na avenida Paulista, e a conversa aconteceu numa semana de junho em que havia protestos, contra tudo o que está aí, pelo Brasil todo. Eu tinha apanhado chuva, não havia conseguido táxi e estava sem sombrinha. Pedi desculpas por meu estado. “É culpa do governo”, ele disse. Herz é assim — engraçado e irreverente. Herz entrou no setor de cultura nos anos 50, quando seus pais — um casal de judeus que veio da Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial — compraram livros importados para alugá-los a imigrantes que ainda não sabiam falar português. Foi esse o embrião da Livraria Cultura, que faturou 430 milhões de reais em 2012. Nesta entrevista, Herz fala sobre as oportunidades do setor. exame pme Somos quase 200 milhões de habitantes, mas só 7% das cidades têm cinemas, de acordo com o Ministério da Cultura. Pesquisas mostram que os livros no Brasil estão entre os mais caros do mundo. Os novos artistas sofrem para obter financiamentos para seus projetos — quando conseguem. O que está acontecendo?

No caso dos financiamentos para novos projetos, os caminhos existem. A lei permite que as empresas patrocinem atividades culturais em troca pedro herz

Henrique Manreza/Brasil Economico

M

inha roupa estava molhada quando entrei na sala do

pedro herz livraria cultura — São Paulo (SP) Rede de livrarias com 17 filiais em dez cidades de nove estados

faturamento

430 milhões de reais

(1)

1. Em 2012

Maio 2013 | Exame pme | 87


ESPECIAL Cultura de vantagens fiscais. Por que, então, a produção cultural movida a esses recursos não é maior, mais vibrante? Porque entre a decisão de patrocinar alguma coisa e percorrer os caminhos da lei é preciso enfrentar uma série de obstáculos. Que obstáculos são esses?

A burocracia é enorme — é preciso apresentar um monte de documentos para liberar os recursos. Mesmo com a liberação, os recursos só podem ser usados depois que a pessoa captou 20% do valor total. O dinheiro tem de estar depositado em determinados bancos e não é permitido fazer transferências eletrônicas. As regras ficam mudando ao longo do jogo. Muitos empresários fazem patrocínios uma vez só e depois desistem. É um dinheiro bem gasto?

Sim. Ao contrário do que muita gente diz por aí, o brasileiro valoriza a arte. Há mais de dez anos, quando a Pinacoteca de São Paulo trouxe uma exposição com obras do escultor francês Rodin, milhares de pessoas fizeram fila para ver. O preço era baixo e também houve muita divulgação. Mas o público não vai a exposições somente porque estão baratas ou são de graça...

Não — e a boa notícia é justamente essa. As pessoas vão se estiverem motivadas. E, no meu modo de ver, motivação não falta. Os brasileiros querem consumir cultura. Se os empreendedores montarem eventos de qualidade, o público irá novamente. É assim que os hábitos culturais — ler livros, ouvir boa música, assistir a bons filmes — se formam. Qual é o grande problema para o mercado de cultura se desenvolver no Brasil?

A infraestrutura tem de melhorar para o setor de cultura se desenvolver

88 | Exame pme | Maio 2013

De certa forma, o mercado está se desenvolvendo. Uma das empresas que a reportagem descobriu, a Cinemagia (veja na pág. 79), é um exemplo de atitude empreendedora nesse sentido (a Cinemagia, da paulista Lia Pinheiro, promove sessões gratuitas de cinema ao ar livre e em escolas de pequenas cidades, com patrocínio de grandes empresas, como Monsanto e Sky). Vocês falaram também da Catarse (site de vaquinhas para projetos culturais) e da Bookess (site de autopublicação de livros). Como se vê, os empreendedores estão atuando. E, quando se pensa no tanto de gente que vai a parques para assistir a concertos de orquestras e jovens que frequentam festivais de cinema, constata-se que, do outro lado, não faltam consumidores. O modelo econômico fecha.

Que critérios usar para definir o mercado de cultura?

De um modo bem genérico, pode-se dizer que cultura é aquilo que desperta interesse intelectual e emocional no ser humano. Ninguém duvida que música seja cultura, mas jogo de futebol também é — ainda que, para a maioria dos que vão ao estádio, o objetivo seja extravasar. Os espetáculos postados no YouTube são cultura. Filmes de super-heróis são cultura? Por que não? Só porque divertem os espectadores? Às vezes fico cansado dessa discussão elitista do que pode ser considerado cultura e do que não pode. Os empreendedores deveriam abrir mais negócios não necessariamente destinados ao público mais informado?

Olha, não dá para ignorar que instrução — coisa que falta nas escolas do Brasil — ajuda a aproveitar certos espetáculos. Só que o mais importante é que haja eventos que atraiam as pessoas, não importa o grau de instrução delas. Independentemente da região ou do produto, o empreendedor deve oferecer ao público algo que o faça pensar, sentir. O consumidor tem de sair do espetáculo com algum grau de emoção e reflexão. Por que essa música me emocionou? Como esse pintor me tocou? As pessoas precisam parar de se preocupar com esse negócio de “não entendo disso, não entendo daquilo”. Como assim?

Os consumidores deveriam ouvir mais a própria intuição em vez de se importar tanto com a opinião de críticos de arte. Os críticos podem ajudar quando trazem informações sobre um filme ou uma peça — mas não são autoridades supremas e a opinião deles não importa tanto quanto algumas pessoas pensam. Também acho bobagem julgar se um filme é bom ou ruim pelo seu diretor. Um monte de gente me diz que não entende música clássica. A verdade é que nem tem muito o que entender. Tem de ouvir. É o único gênero de música que eu escuto as pessoas dizerem “eu não entendo”. Você entende de axé? Sabe definir o que é? Eu não sei direito o que é. E por que mais gente não vai a concertos?

Por causa da infraestrutura, que é bem ruim. Eu trouxe a São Paulo uma orquestra. Houve greves, e não conseguimos liberar os instrumentos no aeroporto. Eram quatro ônibus e levou-se horas para chegar ao hotel. Os músicos perguntaram se dava para ir de metrô, mas não tem linha de metrô no aeroporto! Aqui tudo é complicado. Quem vai a jogo de futebol tem de pegar ônibus superlotado. Quem vai de carro não encontra lugar para estacionar. Sair do estádio é dificílimo. Pegar táxi fica muito caro. Para ir a um espetáculo de balé, tenho de sair com 2 horas de antecedência, pelo menos. Essas dificuldades desestimulam qualquer um.


PAJ2014 Materia Completa Cultura e Educacao ExamePME Como Eles Dirigem o Espetaculo