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PAINTITBLACK#2 Punk From The Vaults Of Suave! Alex Chilton Entrevista: Alvaro Ortega Rios Voadores: rock psicodélico tropicalista contemporâneo Os Incríveis Entrevista: A volta do “Maior de Todos”, Muhammad Ali Mais power ou mais pop? Entre ilhas e teclas Entrevista: Pedro Henrique Bang Bang Babies Quadrophenia Discos que você deveria ter BOMP! Ética ou Estética? Parapatia Organização e produção: Haline Pichinin Maisa Ferreira Gabi Ortiz Caio Braga

Colaboradores: Ceci Marip Cristina Alves Eva Cristina Filipe Henz Gabriel Guerra Murilo Caixêta Pedro Henrique Pedro Rodrigues Yanic Braga Revisão: Murilo Caixeta Ilustrações e programação visual: Maisa Ferreira


Punk From

The Vaults Of Suave! DOWNLINERS SECT

O Downliners Sect foi formado na Inglaterra pelo guitarrista Don Craine e pelo baterista Johnny Sutton no ano de 63, após o fim do Downliners, antiga banda da dupla. Logo foram acompanhados por Keith Grant no baixo e Terry Gibson na guitarra. Após o primeiro lançamento, um EP ao vivo financiado pela própria banda (400 cópias apenas) - “Nite in Gt. Newport Street” - conheceram Ray Sone e o convidaram pra tocar gaita no grupo. Em 64 saiu o álbum “The Sect”, no auge da febre beat. O som era R&B básico, com aquelas mesmas influências da época: Slim Harpo, Bo Diddley, Alexis Korner etc Mas o lance do Downliners Sect era um bagulho mais do tipo daquela molecada disléxica e com problemas em casa descontando as frustrações em instrumentos musicais. Ainda não existia o termo “punk”, mas nem precisava. É só escutar “Be a Sect Maniac”, plágio demente de Bo Diddley, que você vai entender. Sons como “One Ugly Child”, “Hurt by Love”, “Bloodhound” e “I Wanna Put a Tiger in Your Tank” ilustram bem isso também, R&B violento. Nada de beat aqui, Downliners Sect era freakbeat! O disco seguinte foi o “The Country Sect”, de 65, onde o grupo desenvolveu melhor suas influências musicais vindas da América. Mais calmo do que o LP anterior, com composições country basicamente. Em 66 saiu “The Rock Sect’s In”, mais rock. Não é acelerado como o The Sect, mas é muito bom e posso destacar aqui o som “Everything I’ve Got to Give”, que inclusive foi regravado pelo Thee Mighty Caesars, numa versão garage punk ignorante. O próximo lançamento do grupo seria somente em 1979, após a reunião de seus membros pra gravar o F.U.2 LP. Agora vai escutar Downliners Sect! The Sect – 1964 – EMI


The Country Sect – 1965 - EMI The Rock Sect’s In – 1966 - EMI Showbiz – 1979 – Sky Live in The 80’s – 1986 - Garageland Savage Return – 1991 – Promised Land The Birth of Suave(Comp) – 1991 – Hangman

F.U.2

Lenda desconhecida do garage punk o F.U.2 é alvo de especulações curiosas, uma delas a de que seu único álbum teria sido gravado em duas horas após um “almoço líquido” de seus integrantes. Boato, mas seria no mínimo engraçado se fosse verdade. A real por trás dessa banda é a seguinte: membros de meia idade do Downliners Sect, precursores do garage/freakbeat, gravando um LP de punk rock em 1977! Garage Punk como não se escuta em qualquer lugar, sons como “Mean Evil Child”, “Playing My Guitar” e “F.U.2” vão te fazer esquecer esse mundo merda por um momento e tudo que você vai querer fazer é destruir alguma coisa. Agora a história: No fim dos anos 70 Terry Clemson (Terry Gibson) era amigo de um produtor, Eddie Bourne, que já o havia chamado para tocar guitarra na gravação de uma banda chamada The Vacants. Após o sucesso relativo do álbum do Vacants, Terry convenceu Eddie a ajudá-lo a fazer um álbum de punk rock sob o nome de F.U.2. Terry e Keith Grant se juntaram para compor e os primeiros sons a sair foram Out of School e Playing My Guitar, que acabaram saindo também no álbum Showbiz do Downliners Sect em 79. Na sequencia desse inicio inspirado foram recrutados o baterista Paul Holm, Robin Langridge nos teclados, Don Craine na guitarra e Paul Tiller na gaita. Segundo Clemson, a intenção nunca foi fazer um “álbum secreto” do Downliners Sect, e sim ver se eles conseguiriam fazer um disco de punk rock e se safar, o que de fato conseguiram, e a decisão de chamar os antigos membros (Don Craine e Paul Tiller) foi só para que eles ganhassem um troco como músicos de estúdio. O disco foi gravado e mixado em um dia, praticamente ao vivo pra garantir a crueza,


característica principal de qualquer banda de garage de se preze. Essa pérola foi lançada em 1977, na Austrália, pela Beat com o titulo Depressions, na Itália pela Shoking, Espanha pela Olympo e na França pela Les Treteaux, com o melhor título possível: PUNK ROCK BY F.U.2. Não fez sucesso e ficou sendo mais um daqueles discos incríveis esquecidos no tempo, salvo por algumas faixas inclusas em coletâneas Killed by Death, que não por acaso têm um de seus volumes intitulados KBD #F.U.2 e a Back to Front, série prima dos KBD, Bloodstains e cia. Ainda bem que em 2012, nos EUA, a 1-2-3-4-Go! Records reeditou o LP, garantindo assim que as futuras gerações dementes por punk em todas as suas formas possam apreciar este clássico obscuro. Punk Rock by F.U.2 LP – 1977 – Les Tréteaux F.U.2/Out of School 7” – 1977 – Shoking Killed by Death #1 – 1989 – Redrum – “Star in The Streets” Back to Front #2 – 1993 – Incognito – “F.U.2” Kick Your Mama’s Ass – 1996 – Reverendo Moon – “Star in The Streets” Killed by Death #F.U.2 – 1998 – Redrum – “Playing My Guitar”

THEE HEADCOATS SECT

Como o nome sugere, esse projeto reúne membros do Downliners Sect com o Thee Headcoats. Sem dúvidas o Downliners Sect foi uma influência não somente para as bandas do Billy Childish, mas para todas as bandas que surgiram na cena garage de Medway. Don Craine ficou impressionado ao ouvir os primeiros LPs do Headcoats, punk/r&b showcase como aponta a contracapa do Headcoats Down!, o debut da banda. Disso pra eles se reunirem foi bem rápido e as consequências são dois LPs e um EP, com clássicos do Downliners Sect, Thee Headcoats e outros nomes do garage. Headcoats On 7” – 1991 - Hangman Deerstalking Men – 1996 – Hangman’s Daughter Ready Sect Go! – 1999 – Vinyl Japan Pedro Rodrigues


Alex Chilton Natural de Memphis, no Tennessee, Alex Chilton é uma figura que exerceu considerável influência em importantes obras relacionadas ao power pop, garage e rock alternativo em geral. Seja como músico ou como produtor, Alex serviu como referência fundamental para muita coisa produzida no underground dos anos 80 e 90, tanto é que foi homenageado com o título de uma conhecida música dos Replacements. Chilton começou a carreira como vocalista do Box Tops no final dos anos 60, grupo responsável por hits como “The Letter” e “Neon Rainbow”. Em seguida, integrou o Big Star, lançando 3 discos que não conseguiram êxito comercial para a época, mas que hoje são considerados clássicos. O Big Star é uma banda cultuada por diversos artistas do mainstream e recentemente foi lançado um documentário sobre a banda, intitulado “Nothing can hurt me”. Como produtor, Alex ajudou a criar a sonoridade primitiva e selvagem dos primeiros trabalhos do Cramps, além de produzir outras belezuras, como o Tav Falco’s Panther e o segundo disco do The Gories. Entre os discos solos de Chilton, merecem destaque o excelente “Like Flies on sherbert” (de 79) e High Priest (de 87). Alex Chilton faleceu em 2010, as causas não foram confirmadas. Pedro Henrique


entrevista:

Alvaro Ortega

Artista, ilustrador e músico, há mais de 20 anos Alvaro Ortega trabalha em jornais, revistas, gibis, publicidade entre outras mídias gráficas na Espanha. Até agora, ele já publicou gibis, tirinhas, quadros, pôsteres, capas de discos, animações locais e internacionais. No mundo da animação, em 2006 ele começou a fazer uma coleção de clipes com temas como Beatles, ícones pops e música britânica dos anos 60. Desde então, ele fez colaborações para diversas bandas de tributo aos Beatles, produzindo animações para serem usadas no palco. Muitas dessas animações estão disponíveis no canal dele no Youtube (http://www.youtube.com/user/aalvarortega). Recentemente, ele publicou uma grande coleção de cartões postais para o mercado espanhol, você pode encontrá-la na loja virtual dele: http://www.alvarortega-online. com Olá Alvaro! Nós gostaríamos de saber mais sobre você! Há quanto tempo você trabalha como ilustrador? Como isso começou? Conte-nos sobre seu começo na arte pop underground. Alvaro: Meus primeiros trabalhos são de 1990, estou desenhando há mais de vinte anos. Todos os seus trabalhos são em vetorização, certo? Você já usou alguma outra técnica ou tem vontade de usar?


Alvaro: Sim, 90% da minha produção é digital e eu uso um software para ilustração vetor. Quem são seus artistas favoritos? E influências, quem te inspira? Alvaro: Muitos. Eu sempre amei Noran Rockwell, Hopper, Penagos, Equipo Crónica, Roy Lichestein, Alan Aldridge, Heins Edelmann....mas eu devo indicar alguns autores de quadrinhos também: Hergue, Ted Benoit, Yves Challand. Como você deve saber, o que chamou nossa atenção no seu trabalho artístico foram seus desenhos com referência mod. Como surgiu essa ideia? Sua arte do Coral Mod Londinense, Beat Plásticos são realmente inspiradores. Alvaro: Eu tive uma banda de beat na minha juventude (chamada Revolver, 1983, Alvaro era vocal: https://www.youtube.com/watch?v=6wHu4SxWj7M ) e nós tínhamos aquele visual e atitude. Então, eu sempre amei ícones Beat e Mod e todo esse estilo inglês. Também, claro, eu amo a música pop dos anos 60. Eu li que você já fez arte para algumas capas de discos, você poderia nos dizer algumas? E como foi essa experiência? Alvaro: A primeira foi há muito tempo atrás, eu não consigo me lembrar do nome da banda. Recentemente, eu fiz algumas como o primeiro EP do The Submarins (http://es.myspace.com/563549121), e do álbum do GÜNTER (http://guntermusic.bandcamp.com). Você nota alguma diferença entre o seu público em geral e no público underground? No jeito deles sentirem, olharem e apreciarem sua arte? Alvaro: Claro, e eu também tenho sentimentos diferentes e intenções diferentes quando eu trabalho para o mercado mainstream ou para agências de publicidade, ou faço minhas ilustrações pessoais sobre minha música e preferências artísticas. Seu trabalho é 100% digital ou você faz um esboço a mão antes? Alvaro: Meu trabalho artístico é 100% digital. Os que são feitos à mão, nunca lancei ate esse momento, mas quem sabe...? Só o tempo...


No que você está trabalhando agora? Algum projeto futuro? Alvaro: Estou fazendo mais desenhos para minha loja online e trabalhando em algumas séries de flash filmes para o meu canal no YouTube (http://www. youtube.com/user/aalvarortega), e também em alguns anúncios (alguns como autor e outros não). Você gostaria de dizer mais alguma coisa? Alvaro: Muito obrigado pelo interesse no meu trabalho. Eu acredito em uma conexão mundial entre pessoas que compartilham o mesmo gosto especial para musica e arte sobre cultura pop, e vocês têm esse sentimento. Muito obrigada pela sua atenção! Tudo de bom, e continue com o ótimo trabalho! Alvaro: Agradeço muito! Cheers! www.alvarortega-online.com Haline Pichinin


Rios Voadores rock psicodélico tropicalista contemporâneo

Da embaixada de Sergipe (apelido da casa da vocalista Gaivota Naves) para as festas de Brasília, Rios Voadores está em pleno vapor. A banda, que começou do vamos-tocar-na-casa-dos-brothers, acabou de gravar suas primeiras músicas e já conta com seguidores fiéis. Recentemente, o grupo venceu o Festival Chilli Beans, o que lhe rendeu um lugar no já tradicional Porão do Rock. A Rios Voadores tem influências musicais que perpassam a experiência mística-psicodélica-rock’n’roll de Mutantes e Beatles com o rock dançante dos Kinks. Indissociável do rock brasileiro dos anos 1970, período musical que nós só conhecemos pelos vinis e blogs obscuros, a Rios traz em sua gênese um sentimento de saudosismo atualizado que tem como maior característica a mistura musical.  Com poucas músicas gravadas, a Rios Voadores é uma experiência que acontece ao vivo. A banda é composta por Gaivota Naves (vocal), Marcelo Moura (vocal, guitarra), Tarso Cardoso (teclado, vocal), Gabriel Magalhães (violão, guitarra), Beto Ramos (baixo) e Hélio Miranda (bateria). O show conta com versões de “These boots are made for walking”, de Nancy Sinatra, e “Cenouras”, do Som Imaginário, passando ainda por Secos & Molhados, Gilberto Gil e, claro, Beatles. O restante do repertório é autoral e o clima de ousadia e experimentação se dá na variedade de vocais e solos. Destacamse a densa “Música do Cais”, com um vocal poderoso que parece uma homenagem a Elis Regina; “Mulheres Coloridas”, de ritmo lúdico e letra psicodélica/sinestésica; a ótima “Brasil de ponta-cabeça” assume um papel de carro-chefe, aquela música cheia de brasilidade que tocaria no rádio e faria a tia careta balançar a cabeça enquanto escuta. Até sair oficialmente o primeiro disco da banda, nos resta fazer o que toda banda de rock espera: sair de casa para tomar uma boa cerveja e curtir um som.  A Rios Voadores surge numa onda de artistas que (re)tomam o cenário musical da cidade com músicas autorais, que humanizam as festas infestadas por djs e fazem a gente querer sair de casa para dançar. Parece que o rock, que há quem fale que morreu, somente mudou de endereço e resolveu curtir uma onda boa na capital e transformar a cidade em um lugar do caralho.  facebook.com/bandariosvoadores soundcloud.com/riosvoadores

Yanic Braga


Os incríveis

Quando recebi o convite para escrever uma pequena matéria no Paint it Black, fiquei animada, afinal o conteúdo do zine fala sobre décadas e culturas das quais me identifico muito! Anos 60, para mim, remete logo de cara à cena nacional, me lembra... Jovem Guarda! Não só pela personalidade da época, mas pelo valor sentimental e familiar que ela me traz. Claro que sinto uma certa saudade de algo que não vivi, mas convivi em casa, com os discos do meu avô e com meu pai sempre cantarolando e tocando músicas da Jovem Guarda que me marcaram muito. Vou citar meu disco preferido, que talvez não seja o predileto de alguns, mas considero que ele tem sua importância para a época. “O MILIONÁRIO” (1965), álbum de estreia da banda OS INCRÍVEIS, (cujo primeiro nome era “The Clevers” no início da década de 60, esse nome surgiu após o rompimento com o empresário que na época era dono do nome “The Clevers”). Eles compuseram alguns sucessos, dentre eles “Era um garoto que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”, música que ficou conhecida e foi regravada por alguns artistas. Como sou fã de bandas instrumentais, esse disco foi um prato cheio para mim desde a primeira vez que eu o ouvi lá na casa dos meus avós! A música que leva o nome do disco (O Milionário) é a quarta faixa do lado B, que, na minha opinião, tem uma pegada de trilha sonora de filme bangue-bangue, pois quando a ouço fecho os olhos e me vem em mente os filmes de faroeste que meu pai assistia, assim como alguns a considerem talvez com uma levada surf music . Outra faixa que gosto bastante é a Honky Tonk Song, ( por coincidência é também a quarta faixa do disco, porém do seu lado A), a levada do sax, o ritmo e gingado que ela tem me dá vontade de levantar e começar a arriscar alguns passos e sair por aí riscando o salão! Portanto, se você que está lendo essa matéria não conhece a banda ou esse álbum, te dou um conselho: levanta da cadeira e vá procurar ouvi-lo, tenho certeza de que não irá se arrepender! Todas as músicas do disco são boas e com certeza nostálgicas. Bem, esse disco além do conteúdo me agradar, tornou-se meu predileto, afinal o herdei de meu avô, assim como tantas outras influências e histórias, então só posso dizer: valeu Vô!! Espero que tenham curtido ler algumas palavras sobre algo que faz parte de mim. Ceci Oliveira (Ceci Marip).


Entrevista:

A volta do “Maior de Todos”,

Muhammad Ali

“Nenhum vietcongue jamais me chamou de crioulo”. Foi assim que o polêmico boxeador autodenominado Muhammad Ali se recusou a lutar na Guerra do Vietnã, tendo sua licença cassada pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Três anos e meio depois, “The Greatest” teve sua licença novamente aceita pela Comissão Atlética da cidade de Atlanta, e já tem luta marcada para outubro contra Jerry Quarry na mesma cidade. Ali mantém o título de campeão dos pesos-pesados há dez lutas em sequência, desde que derrotou Sonny Linston em 1964. Em uma rápida entrevista concedida após um dia de treino em sua cidade natal, Louisville, Ali nos revelou sua expectativa para a luta. Murilo – Você ficou sem lutar dos 25 aos 28 anos, a principal fase da carreira de um atleta. O que tem a dizer daqueles que falam que você nunca mais vai ser o mesmo lutador? Ali – Se eu fosse o mesmo lutador que era há três anos, teria perdido três anos da minha vida. Murilo – Jerry Quarry foi o único lutador que quis te enfrentar. O que tem a dizer sobre ele? Ali – É preciso dar créditos ao Quarry, ele é um cara de coragem. Aquele que não tem coragem suficiente para aceitar riscos, não irá conquistar nada na vida. Murilo – Como é voltar aos treinos após tanto tempo sem lutar? Ali – Eu odeio cada minuto dos treinos, mas digo para mim mesmo: “Não desista! Sofra agora e viva o resto de sua vida como um campeão”. Murilo – Você passou esse hiato em sua carreira fazendo palestras em escolas contra a Guerra do Vietnã. Depois desse tempo, você acha que achou um pouco de paz? Ali - Quando você consegue espancar qualquer homem do mundo, você não conhece a paz. Murilo – Esse discurso não te parece um pouco contraditório? Como faz para lidar com isso? Ali - É apenas um trabalho. A grama cresce, os pássaros voam, as ondas acabam na areia. Eu bato nas pessoas.


Murilo – No Brasil, o esporte mais popular é o futebol. Como você é jogando futebol? Ali – Eu sou o melhor, apenas não joguei ainda (risos). Murilo – Você não acha que está sendo um pouco prepotente? Ali – Quando se é tão grande quanto eu, é difícil ser humilde. Às vezes eu tento ser modesto, mais aí começa a me faltar argumentos. Murilo – De onde você tira tanta confiança? Ali – É a falta de fé que faz as pessoas terem medo de aceitar desafios. Eu acredito em mim mesmo. Murilo Caixêta


Mais power ou mais pop? Ouvindo e refletindo (ou apenas uma desculpa para falar de bandas que gosto) Na maioria das vezes em que ouço um som considerado power pop, me pego pensando com meus botões: “isso está mais para power ou mais para pop?”. Qual seria a linha tênue que diferencia um power pop do punk rock, quando esses estilos estão misturados? O que distingue uma baladinha romântica qualquer desse ritmo frequentemente romântico e dançante? Para começar o papo, percebo que na maior parte das ocasiões em que o power pop se apresenta, ele chega aos nossos ouvidos acoplado a outros estilos. Além do punk, com que se fundiu no final dos anos 1970 e início dos 1980, ora ele aparece como coluna vertebral de um rock’n’roll quase clássico, como no enérgico Paul Collins’ Beat, discidência do Nerves, ora ele se mistura ao hard rock, ora ele é usado por bandas brit pop ou indie, como em Teenage Fanclub e em algumas músicas do Kaiser Chiefs, ou é explorado pelo mod revival do final dos 70s, como em Lambrettas e Squire. Esse extenso espectro de combinações já seria suficiente para definir uma grande gama de sons leves e pesados, mas não para aí. Cada banda coloca sua personalidade no som que faz. Apesar de óbvio, quando isso se aplica a um gênero tão coringa e mutante quanto o power pop, fica difícil identificar o elo entre um grupo e outro. Vou falar de alguns exemplos emblemáticos, e um ou outro nem tão emblemático assim. Pensando na ambivalência entre power e pop e os pesos que são atribuídos


a cada um desses elementos, recordo da banda inglesa Fast Cars. O grupo de Manchester tocava no final dos anos 70 um som absolutamente rápido, incisivo e impactante com sua bateria desgovernada e guitarras distorcidas. Por vezes, a música chegava a ser crua e até mesmo agressiva, como na alucinante The kids just wanna dance, uma das mais simbólicas do estilo. Eis uma banda bastante “power”. A despeito disso, The Keys, seus contemporâneos e conterrâneos, foram na direção oposta se considerarmos o jeito de tocar. Suas guitarras eram 99% mais limpas, de timbre macio, com frases elaboradas e suaves que serviam de fundo para uma voz igualmente melódica e suave, sustentada também por backings que alcançam tons difíceis. Ou seja, uma banda mais “pop”. Outra banda representante do estilo, o Protex, tem esse nome por conta da música Protex Blue, do Clash. Desnecessário dizer que portanto, em grande parte, o que o grupo faz é punkrock, com guitarras rasgadas de reverb pronunciado e vocal marcante. Do outro lado, o Pinkees, uma das milhões de bandas da mesma época e região – da virada dos 70s para 80s no Reino Unido, o Protex da Irlanda do Norte, o Pinkees da Inglaterra – parece


ter suas composições muito mais ancoradas em Beatles, o que se mostra principalmente na canção I’ll be there, do que no punk propriamente dito. Pelo menos é isso que parece, a se julgar pelo trabalho com coros, vocais em tons diferentes e linhas melódicas. Com um teclado mais presente e roupagem New Wave, o sensacional The Jags se parece com o Pinkees em dois aspectos: o musical, bebendo de fontes que se cristalizaram como a gênese do estilo e com refrões grudentos; e o de sucesso, com um pequeno número de músicas que estourou na época em que foram lançadas e depois foram esquecidas para sempre (e mais depois ainda, para nossa sorte, foram resgatadas, como aconteceu com uma infinidade de bandas daquele estilo e período). Mas para cada exemplo, há um contraexemplo. Nesse caso, como contrapeso, bastante peso, lembro dos violentos mas ainda assim lindamente melódicos Pointed Sticks, banda canadense da transição dos 70s para os 80s. Falando em clássicos do power pop, mas nos afastando da oposição entre guitarras distorcidas Vs. limpas, ou voz suaves Vs. agressivas, ou som pesado Vs. som leve, abordo outro confronto: o das músicas felizes Vs. músicas tristes. Diferentemente do blues, sim, o blues negro norte-americano do começo do século XX, cujas músicas de origem quase que necessariamente eram tristes (daí o nome), o power pop parece não ter regra quanto a que humor seguir. Do lado dos tristes, ou no mínimo fortemente emotivos, gosto de lembrar da faixa perfeita Screaming, da banda americana 20/20, e de Oh Tara, do Knack, igualmente dos EUA, igualmente romântica, igualmente emotiva, igualmente emocionante. Do outro lado, no time das músicas felizes, coloco Good girls don’t, também do Knack, e inúmeras músicas de bandas da cena de Nova Iorque: os irreverentes Speedies e os vibrantes Colors.


Desde os clássicos até a atualidade, as gravações de power pop podem ser mais power ou mais pop de acordo com diversos critérios de divisões: agressividade/ suavidade; rapidez/lentidão; romantismo/irreverência; felicidade/tristeza; e assim por diante. E sobre os níveis de complexidade sonora? Podemos ir da simplicidade dos primeiros álbuns do Undertones e as guitarras semi-limpas da fantástica banda mod sueca The Moderns, para a sofisticação do Plimsouls, banda formada por ex-membro do Nerves que, em alguns momentos, conta com órgão e metais e lembra até soul. Todas essas diferenças entre os grupos e os estilos de se fazer power pop tornam o gênero, por si só, rico e complexo. Mas essa riqueza está difusa, pois outra coisa chama a atenção: alguns clássicos do power pop são tão clássicos que não são mais clássicos do power pop. Quer dizer, não se limitam mais ao estilo, e se tornam clássicos do rock. É o caso de Hanging on the telefone, do Nerves (famosa pelo Blondie); I want to be your boyfriend, do Rubinoos, roubada e assassinada com esmero pela Avril Lavigne em Girlfriend; My sharona, do Knack, que toca insistentemente no rádio; e Turning japanese, do Vapors, que aparece até em videogame. São músicas que a maioria das pessoas conhece, mesmo no Brasil, mas poucos sabem das bandas que as compuseram ou mesmo as classificam como power pop. Isso é mais um indício e ao mesmo tempo reflexo do caráter volátil-adaptável-efêmero desse ritmo, que se faz presente sem se notar. Power pop é um gênero solto no ar, talvez faça parte do inconsciente coletivo, aparecendo aqui e acolá, quem sabe sem sequer a intenção de seu compositor. Talvez resida aí a dificuldade de se determinar o que faz e o que não faz parte desse estilo, e o que continua sendo power pop, mesmo sendo mais power, ou mesmo sendo mais pop. A receita parece simples – toque música pop dançante com uma pegada mais pesada – mas não é. Há um milhão de variações entre o acessível do “pop” e o pesado do “power”, da mesma maneira que há trocentas maneiras de fazer a suposta “música de três acordes”. Além disso, ele é muito mais um ingrediente usado em uma imensa variedade de canções dos anos 1960s aos 2010s do que uma receita consolidada. E essa é minha conclusão, ou falta de conclusão, para esse texto que serviu meramente como justificativa para recomendar algumas bandas, tendo em vista que praticamente todas que citei representam umas das minhas favoritas do estilo :) Gabriel Guerra


Entre ilhas e teclas Ao escrever sobre o rock dos 60’s, eu poderia falar dos Beatles, eu poderia falar dos Stones, falar da tão famosa “British Invasion”, popularizada pelos quatro cantos do planeta, falar das bandas psicodélicas mais desconhecidas dos EUA, mas quero mesmo é falar de uma cena musical de um local muito específico. País berço da civilização ocidental, com suas ilhas todas espalhadas pelo Mar Mediterrâneo, a Grécia foi palco de excelentes bandas de garage nos anos sessenta. Quando pensamos em bandas de garage, obviamente que o que nos vem à cabeça de início são aquelas das conhecidas coletâneas Nuggets ou, para quem já deu alguns passinhos a mais, a Back from the Grave por exemplo. Mas a ideia aqui é ir mais além, e abrir a mente e os ouvidos para algo que se passava especialmente em Atenas, já que a grande maioria dessas bandas se formaram lá ou em cidades próximas, entre os anos de 1965 e 1969, período que nos interessa. O rock britânico (especialmente) era, em grande parte do mundo, forte influência para quem fazia rock na época, mas a maneira que cada país e/ ou cultura se apropriava dessa sonoridade, inserindo outros elementos e transformando-a em algo mais particular, muitas vezes até bem diferente daquilo que vinha da Inglaterra, era o que torna a cena 60’s tão interessante. Para voltar a falar da Grécia, partiremos de um comparativo com o que era feito aqui no Brasil. Sabemos que a Jovem Guarda era a “tradução” do que vinha de fora. Mas, para quem é atento, não é difícil perceber algumas características específicas das bandas nacionais. Seja a linha de baixo mais cadenciada ou a base de órgão sempre bem marcante, isso fazia com que mesmo


as versões dos hits ingleses ficassem com um toque mais “local”. Na Grécia não era diferente, sendo que, uma das características mais significativas, que diferencia e identifica as bandas de lá, é justamente o modo de empregar o órgão. Não como aqui, o instrumento é usado com um timbre bastante agudo, muito mais em solos e notas soltas que desfilam durante toda a música. Para conferir com os próprios ouvidos, vale escutar “Until the end” – The Forminx, “Miss Blue Jeans” - Juniors, “Eho vrei mia agapi” - New Hopes, “Six miles from the cage” - The Zoo e já que estamos comparando, há até versões de músicas do Roberto Carlos “Namoradinha de um amigo meu (L’innamorada de un amico mio)” – Cinquetti e “Você não serve para mim (Den kanis pia gia mena)” – Mariners. Mas qual seria o motivo de o órgão ser trabalhado de tal maneira e, em alguns momentos se sobressair aos demais instrumentos? Creio que a proximidade geográfica com a Itália seja uma boa justificativa, pois era lá que se fabricavam os famosos órgãos Farfisa, com seu timbre marcado e estridente, bem “conveniente” para fazer os nossos cérebros fritarem seja no som mais beat dos Blue Birds (ouça “Julie” e “Sweet Polly”), na levada mais surf dos Adams Boys (dance com “Dizziness” e “Get Away”) ou na garageira pesada e psicodélica dos Olympians (embarque com “Hopeless endless way”). E onde encontrar tudo isso? Vale a procura por coletâneas como “Shaking In Athens”, “Greek Garage Bands of the 60s” e “Six Miles From the Cage” (em dois volumes) e tudo o mais que você conseguir encontrar, porque a viagem é garantida! Cristina Alves


Bandas/Ano de formação/Cidade:

MARINERS (1965, Atenas) M. G. C. (1965, Αtenas) ADAM’S BOYS (1959, Atenas) MINIS (1966, Αtenas) APHRODITE’S CHILD (1967, Atenas) MONKS (1964, Thessaloniki) ARIS, ALBA & THE OLYMPICS (1965, NEW HOPES (1967, Piraeus) Atenas) OLYMPIANS (1965, Thessaloniki) BLOW UP (1967, Thessaloniki) PACIFICS (1966, Thessaloniki) BLUE BIRDS (1964, Piraeus) PERSONS (1966, Piraeus) BMW (1965, Thessaloniki) PLAY BOYS (1965, Αtenas) BRIGHTNESS (1965, Thessaloniki) RABBITS (1964, Rhodes) CHARMS (1963, Atenas) SEAGULLS (1964, Atenas) CINQUETTI (1967, Atenas) SKYROCKETS (1964, Atenas) DRAGONS (1964, Atenas) SOUNDS (1963, Atenas) ESQUIRES (1966, Αtenas) SOVER GROUP (1968, Piraeus) FORMINX (1962, Atenas) SPIDERS (1964, Patras) FRATELLI (1968, Thessaloniki) STORKS (1965, Αtenas) GIRLS (1966, Atenas) STORMIES (1964, Atenas) GREEKS (1964, Thessaloniki) STRANGERS (1966, Thessaloniki) HARLEMS (1964, Atenas) TEENAGERS (1965, Αtenas) IDOLS (1964, Atenas) UNITED LOVELY SOUNDS (1966, JAGUARS (1966, Atenas) Atenas) JUNIORS (1962, Atenas) UP TIGHT (1967, Thessaloniki) KNACKS (1966, Atenas) VIKINGS (1964, Piraeus) LOUBOGG (1966, Αtenas) WE FIVE (1966, Αtenas)


Entrevista:

Bang Bang Babies

Beirando já os dez anos de existência, os Bang Bang não são mais novidade nesse mundo sujo do garage underground. Os caras tocam um garage rock genuíno com uma cara bem própria. Com alguns disquinhos lançados e apresentações Brasil afora, eles estão na área mandando um dos shows mais fodas e espontâneos em tempos de rock-bonito-bunda-mole!

Bang Bang Babies com Pedro Henrique vocalista, guitarrista e compositor da banda Quando e onde surgiram O projeto de banda rolou em 2005, mas a primeira formação fixa em 2006, quando o grande batera Helião resolveu abraçar a causa. Inspiração para o nome Caio, se eu inventasse algum motivo para o nome, eu estaria mentindo. Simplesmente soa bem, não precisa fazer sentido. Como se definem (estilo) Desde o começo a ideia é fazer rock cru. Com o passar do tempo fomos conhecendo algumas bandas voltadas pro garage mais tosco. Posso dizer até que mudamos um pouco de nossa concepção por assimilar as tosqueras, tanto no jeito de compor quanto no jeito de gravar. Influências (nacionais e internacionais) na formação Nacionais: Thee butchers orchestra, Damn laser vampires, Hang the superstars, Replicantes, Mutantes, por ai vai. Internacionais: Stooges, Oblivians, Clash, Sonic Youth, Wipers, Mudhoney, Chrome Cranks Discografia completa (CD, vinil, demo...) 2006 - Bang Bang Babies - EP 2008 - Love and bullets - CD 201O - Constant headache - single virtual 2011 - Natural - 7 polegadas


Temas das letras Na real, eu sempre faço as letras dias antes de gravar. Não existe uma temática ou algo do tipo. Deixe rolar Melhor show já feito pela banda Isso é foda responder. Gostei pra caralho do Rola Pedra em 2011, em plena quarta feira. Projetos para o futuro (lançamentos, shows, ida pra gringa...) Vamos lançar um single virtual e em seguida um split em 7 polegadas com a banda Cicuta, de Goiânia. Quem tem grana lança disco cheio, quem não tem lança picado, como nois. Onde ouvir as músicas e/ou como adquirir material (sites, lojas...) Fácil, meu email é bangbangbabies@gmail.com. Não só pra adquirir as paradas, estamos abertos pra trocar ideia tambêm. O que andam escutando atualmente Ultimamente ando ouvindo bandas do naipe de: Guadalupe Plata, Thee OH Sees, The Human Trash, Ty Segall, The Cyborgs, Tony da Gatorra. Por ai vai... Caio Braga


Quadrophenia Você provavelmente já assistiu Quadrophenia, certo? Se não assistiu ainda, não perca tempo, é um puta filme. Mas e o detalhe do detalhe, você reparou? Fiz uma lista dos pequenos “erros” do filme, erros de sequência e curiosidades, boa leitura! O filme foi filmado em 1979, retrata a famosa briga entres mods e rockers, que aconteceu em Brighton, em 1964. Curiosidade: John Lydon (Johnny Rotten, Sex Pistols) fez teste para ser o Jimmy, mas não rolou, o papel ficou com Phil Daniels. No começo do filme, a mãe do Jimmy entra no quarto dele para acordá-lo para o trabalho. Ela chama ele, chacoalha ele, e abre as cortinas da janela, se você reparar na vista da janela, verá um um trilho de trem. O trem, conhecido como 125 Intercity Express (ou “iconic nose” por causa do formato do trem), esse tipo de trem só chegou na Inglaterra em 1973, e essa linha que você vê pela janela, só começou a funcionar em 1975! Ahá! Outro erro clássico e proposital do filme, é durante a festa que eles vão...Jimmy vê a Steph dançando com o Peter Fenton, durante a música “Listen to Falling Rain”, ele fica puto e muda o disco, coloca o single de My Generation. My Generation, foi lançado em 1965! Ainda nessa mesma cena, você vê um disco do The Who na mesa, o Sell Out, esse disco foi lançado em 1967 e a versão que aparece, é um repress dos anos 70, então é um “errinho” de uns 10 anos de diferença! Reza a lenda que isso foi proposital, um marketing e uma maneira de tornar a banda atemporal. Aliás, a trilha sonora inteira do filme é animal. Outro errinho engraçado acontece na filmagem das cenas do Goldhawk Club, quando Spider leva uma surra dos rockers e chega ao clube... repare no moço de suéter azul


claro dançando, John Altman, ele sai da boate, junto com todos os outros mods pra ir atrás dos rockers, ele sobe na scooter e vai...na próxima cena, ele ainda está dançando na pista, hehe. Tem aquela cena onde o Jimmy busca Steph no trabalho, e ele dá uma carona pra ela na scooter dele, lembra? Ele anda o caminho todo com a scooter na primeira marcha, e passam por vários carros que não existiam ainda em 1964, Renault 5 entre outros, mas, minha dica é pra você reparar na expressão das pessoas que estão na calçada, vendo a filmagem...tem um cara que percebe o que está acontecendo e vem correndo, lado esquerdo da calçada, os outros completamente surpresos com o que estava rolando. Enfim, chegamos a Brighton! Muitas scooters, muita gente (até o Sting), diversão garantida! A maioria dos figurantes das cenas da briga, eram mods de verdade, tinham poucos rockers para as cenas, então, eles tiveram que vestir alguns mods como rockers o que deixou alguns putos, tipo o cara sangrando do lado direito da viatura (quando Jimmy é preso), ele se recusa a olhar pra câmera porque estava vestido de rocker e ia pegar mal. A famosa briga foi recriada lindamente, o diretor comenta que todos se envolveram mesmo na sequência e rolou gente ferida, mas nada grave coisa da empolgação do momento. O sapato da Steph, muda ao longo dessa sequência, de um sapato de salto branco, para uma sapatilha preta (minutos antes do beco, quando a polícia aparece na rua encurralando), e depois volta o sapato branco. O beco, onde rola o amasso do Jimmy e da Steph, se tornou um lugar muito visitado pelos mods, ficou famoso, as pessoas passam por lá, tiram fotos, grafitam e etc. O erro aí, é que minha torcida era pela Monkey. Depois de Brighton, Jimmy volta pra casa, briga com os pais, e volta pra Brighton. Logo depois que ele se decepciona com o Sting (cuja scooter dele também não era de 1964), rola umas cenas de praia... O cara que aparece nadando é coordenador do filme, que parou ali e quis dar um tchibum! Na cena em que o Jimmy é atropelado pela van dos correios, a scooter dele muda (repare no adesivo do lado direito da scooter, antes e depois do acidente), de uma Lambretta Li150 para uma Lambretta Sx Style, são as lanternas que diferem. É válido lembrar, que os mods usavam todos aqueles espelhos nas


scooters, porque tinha saído uma lei na Inglaterra que só permitia o uso de 2 espelhos, então eles adotaram muitos espelhos pra contrariar essa medida (ah, foras da lei!). Na última cena do filme, você vê vários rastros de scooter na terra, provavelmente tiveram que gravar a cena diversas vezes, e se você olhar com atenção, você vê a sombra do outro helicoptéro que estava ali filmando a cena... Eu vi duas vezes essa sombra. E tem também a tela da scooter do Jimmy, que aparece e desaparece durante essa sequência. As outras discussões a respeito do filme incluem: especulações sobre o cabelo da Steph, que não era um corte usado naquele ano, roupas e roupas, motos dos rockers, especulações sobre o uniforme dos policiais e carteiros que não estavam de acordo com o ano, também sobre o logo do transporte público britânico, e muitas, mas muitas, sobre os carros e modelos de scooter que aparecem no filme, a maioria foi produzida depois de 1965, aparece até uma Lambretta indiana que só chegou na Inglaterra depois dos anos 70! Mas depois de tudo isso, eu ainda acho que o maior erro no filme, é a presença do Sting! Um clássico vale a pena ver e rever. Haline Pichinin


Discos que você deveria ter

Pebbles Compilation - Original punk rock from the psychedelic 60s! Do volume 1 ao 28 em lp. Uma compilação excelente, formada basicamente por bandas americanas após a British Invasion. O termo “punk rock” foi popularizado nessa época, para definir o som dessa galera, muito jovem, e sem aquela sofisticação de um músico. Quem popularizou o termo, foi Lenny Kaye, que produzia a coletânea: Nuggets: Original Artyfacts From The First Psychedelic Era 1965- 1968, da mesmo gênero, recheada de covers de clássicos e bandas desconhecidas. Recentemente, foi lançado pela Bomp, o Pebbles Box – 5 Lps, todos coloridos, com encarte e pôster!


Saiu também em Cd, com o nome de Trash Box. As músicas desses 5 discos, não são exatamente as mesmas do Pebbles volume 1 ao 5, aparecem várias que estão nesses, e muitas das melhores dos outros volumes do Pebbles. Vale super a pena essa aquisição!

Roots of Swedish Pop – The Mod Years (vol 1 e 2) Essa é pra você, que achava que a Suécia só produzia hardcore punk. Essa coletânea é excelente, foi lançada em 1996, mas é só de bandas suecas dos anos 80, nessa pegada mod-garage-powerpop. Baixe os dois volumes, no primeiro você encontra raridades como Moderns, Mops, Docent Dod e Vertex, banda que me apaixonei muitos anos atrás (Fell In Love, puta música estranha e fofa), de quando eu ouvia música por aquele site TheModPopPunkArchives (quem nunca? atual: Punkandoi.free.fr), de 1981, com apenas 2 Eps lançados. E no volume 2, a coisa fica melhor ainda, com The Wylde Mammoths – Nothing I Can Do/Run From Her), The Creeps, The Backdoor Men, a chorosa do The Crimson Shadows -Even I Tell Lies a baladinha do High Speed V – Is It True?. Imperdível! Haline Pichinin


BOMP! BOMP! – SAVING THE WORLD ONE RECORD AT A TIME Suzy Shaw & Mick Farren AMMO Books – EUA – 2007 – ISBN:978-0-9786076-8-5 Ótima leitura para apreciadores e curiosos do mundo do garage/punk/psych! Generoso em gráficos, fotografias raras e dezenas de artigos incríveis, este livro documenta a trajetória da Bomp! Records e seu idealizador, Greg Shaw, entusiasta do rock’n’roll como nenhum outro. Começando pelo Mojo Navigator (segundo zine de rock da história!) ainda em 66 com todos os nomes que você pode imaginar – The Doors, The Jimi Hendrix Experience, The Grateful Dead etc etc etc, passa pela criação da revista Who Put The Bomp? em 70, que foi essencial para a formação de uma cultura musical baseada no rock dos anos 50 e 60, contestando de forma positiva a situação de passividade em que o gênero se encontrava no começo da década de 70. Artigos sobre surf music, rockabilly, powerpop, garage, resenhas de discos... tem até uma matéria sobre bootlegs, discutindo a importância da prática


para a divulgação das bandas e de discos raros e o impacto no mercado! Tudo isso sem falar que essa revista foi um dos canais por onde passou a banca do punk e da new wave desde o comecinho, sendo o Greg Shaw um dos maiores entusiastas do gênero, especialmente o powerpop. O resultado desses esforços foi a Bomp! Records, lar de bandas que você adora: Devo, Dead Boys, Stooges, Iggy Pop solo, Stiv Bators solo, 20/20, Nikki and The Corvettes, Venus and The

Razorblades, DMZ... Sem falar que rolava festas sinistras na loja da gravadora, shows do Blondie, 999, Damned, tudo isso somado à cena mais que embaçada da região: Germs, Weirdos, Zeros. Depois da Bomp! veio o também importante selo Voxx, dedicado a popularizar o crescente revival garage de bandas como Chesterfield Kings, The Event, Crawdaddys e as selvagens The Pandoras. É importante ressaltar que o livro foi editado pela Suzy Shaw, casada com Greg Shaw nos anos 60 e que mesmo após a separação continuou trabalhando ao lado de Greg para coordenar todos esse projetos. Fac-similes dos zines e revistas originais, resenhas, entrevistas, artigos e matérias sobre centenas de bandas e selos, tudo isso e MUITO mais nas trezentas páginas desse livro indispensável pra qualquer interessado no assunto.

Pedro Rodrigues


Ética ou Estética?

Parece-me que vivemos muito preocupados com o que irá acontecer com o mundo, quais os rumos dessa modernidade e quais as posições que devemos tomar frente aos mais diversos assuntos. Ao pensar um pouco sobre a história dos costumes, logo percebo que estamos realmente adentrando na espiral da esteticidade desenfreada. O que difere ética e estética e o que significa dizer que o mundo de hoje abandonou os trilhos da ética? Na realidade, quando pensamos a história do mundo e dos humanos, é fácil pensar em sentidos de origem, ou seja, do que nos leva de volta às raízes. A origem nos joga de volta aos rituais antigos, ou até mesmo aos que permanecem como sombras de algo antigo no moderno. Então nos sentamos todos à mesa e usamos talheres. Para a França de Versailles de 4 séculos atrás isso era algo que se estava inventando, estavam inventando a etiqueta, que seria um passo entre a ética e a estética. Para eles, sentar-se à mesa e usar talheres poderia significar manter uma certa distância do mundo da natureza, e nada mais adequado do que um metal, esse símbolo da tecnologia, do domínio do homem sobre a besta, para servir de cerca/ separação nessa nova forma de se comportar. Na idade média, um alquimista poderia fazer suas considerações acerca do que seria o metal e para quê ele serviria a nível psicológico e mágico e isso o ajudaria a entender o porquê - claro, se isso se desse no seu tempo – dos etiqueteiros de Versailles adotarem aqueles objetos, de determinados metais, ao invés de outros tipos e formatos de objetos. Por que determinado metal deveria ser usado? Ferro e não ouro, ou prata e não cobre, que tipo de pessoa deveria usar cada tipo de metal. Uma visão crítica sobre a sociedade de classes nos diria que cada classe usa o metal que pode, mas uma visão medievalista de um estudante de alquimia, poderia nos dizer que cada metal responde a cada agremiação social pois na escala dos metais possíveis, cada tipo familiar, cada tipo de ser humano atrai configuração diferente de elemento. O alquimista faria isso de várias maneiras, sem juízo de valor ou com juízo de valor, certamente não um juízo de valor marxista. De qualquer forma, nessa nossa tentativa de entender as relações éticas e estéticas, nos parece bom pensar no passado, ou no passado que nos pareceu bom resgatar, e entender como os rituais que antigamente tinham significado em cada valor, em cada sentir que aquilo remontava a origem, pela força de


dizer uma determinada cultura, a religare, religiosidade, e entender como a espiritualidade pode ter se perdido nesse meio tempo. Como a espiritualidade fora abandonada – e como ela grita pelos quatro cantos em busca de vozes. Nos parece interessante ver que com a modernidade e os anos que foram se passando à revolução francesa – essa nossa necessidade de marcos históricos – fomos ficando cada vez mais necessitados de negar essa espiritualidade. Assim somos laicos e não temos mais um sistema de mitos, santos e lendas – pelo menos não os da tradição -, mas temos novas lendas, temos a saga star wars, que representa bem essas novas mitologias que vão se formando e tentando dar significado ao mundo. Paralelamente a isso, temos um sistema ético que se impõe, a carta dos direitos do homem que surgiu com a revolução francesa é isso, representa necessidade de tratamento ético aos indivíduos, esses mesmos que acabaram de surgir – Como assim? Não existiam indivíduos antes? Isso, antes da modernidade só quem falava em indívíduo eram os iniciados das ordens secretas, antes se pensava em coletivo, estranho imaginar isso, né?! - Esse sistema ético que se impõe como um sopro do espiritual que uma vez existiu. O que é que mantém o mundo em pé?! É a ganância? Não, o que mantém o mundo em pé é o bem. Ok, podem falar que estou vendo as coisas de uma maneira cor de rosa. Pode ser que sim, na realidade, essa grande viagem a qual estou me permitindo ingressar agora, corre o risco de ficar um pouco acima das nuvens em alguns momentos, senão não seria uma viagem. Mas só o bem poderia manter esse mundão em pé. Só o bem que o Tim Maia, aquele grande homem, que tanto viajou que em algum momento se perdeu, só o bem que ele nos diz pra seguir poderia manter o mundo. Isso porque o mau se corrompe, ele não se sustenta, então não sustenta o mundo. O mau, por ser a parte negativa da existência, viverá para sempre como sombra, como não manifestação. Um caoísta poderia dizer que dessa forma o mau também é motor, mas na realidade, ele não passa de uma pequena engrenagem de uma versão da máquina da existência, essa máquina poderia ter varias versões, e somos nós quem as inventamos. Um lapso de percurso, uma manifestação acidental da realidade, isso é o mau. Só o bem, a plenitude de sua integralidade é que existe de fato. Mas esse mundo nosso virou o quê? Abandonamos a ética, o holocausto dos anos 1940 ou os ataques e bombardeios à Líbia atual nos mostram como abandonamos a ética. Ó ética, essa fada que esconde a espiritualidade da realidade. A espiritualidade é a ciência da origem, da existência pura e simples, do bem. Já a ética, ela é sua maquiagem, ela mantém os traços de uma plenitude


que um dia se conheceu. Nos parece que hoje o mundo mudou e mais um véu foi jogado sobre a realidade que um dia conhecemos, nos parece que hoje a estética predomina. Passamos da espiritualidade para a ética, e agora, parece que a estética tomou vez. Qual o significado de um mundo relegado à estética? O significado de um mundo relegado à estética é zero. Não há significado, apenas significante. Um mundo esteticamente enviezado nos mostra, por exemplo, que o facebook é o nosso novo muro de lamentações, significa que passamos a apoiar nossa identidade em imagens, sejam sonoras, visuais, escritas. Significa que lemos pouco, que escrevemos pouco, ou quando escrevemos muito, só conseguimos perceber o que há de significante’ nas relações. Somos assim, e mais do que apenas estarmos assim, não aceitamos de forma alguma algo diferente disso. Esses dias conversava eu com uma amiga, e dizia “Perceba, só aceitamos hoje em dia respostas estéticas, se eu perguntar pra você se gostas de algo, não aceito que me responda mais do quê um sim ou não, junto a uma justificativa estética.” Se alguém nos responde dizendo que não gosta de algo e a justificativa para tal resposta é uma questão ética, geralmente iremos rechaçar, e se a justificativa for uma questão espiritual, aí com certeza a resposta não será aceita de forma alguma. É a estética que nos faz gostar de uma moda, de uma década, de uma tendência artística. Claro, a arte pode significar ligação espiritual também. Mas hoje, o que é essa ligação espiritual? Parece que a espiritualidade fora abandonada mesmo quando Duchamp expôs seus ready-mades. Estamos vivendo a ditadura da estética. Passamos pela espiritualidade, pela ética, pela etiqueta e agora vivemos a estética. É claro que existem continuâncias e permanências entre uma fase e outra, mas observando de forma geral, podemos enxergar assim. De modo que um antigo poderia enxergar o mundo de forma religiosa, um alquimista de forma mágica, um habitante da corte de versailles dava mais valor à etiqueta, um adolescente da era digital de forma estética, esse parece ser o caminhar das coisas e, com o perdão da teleologia, nos mostra que a estética parece ter aportado seu navio e levantado armas contra os fantasmas das outras eras que queiram passar. A questão é, poderá esse navio vazio em sua consistência aguentar a ressaca do mar abissal (sem fim)? Eva Cristina


Este zine tem como tema algo sobre a cultura underground. Nesse número temos uma miscelânea de textos e entrevistas sobre música, quadrinhos, artes visuais, entre outros. Sua construção é feita de forma colaborativa e a venda tem como objetivo apenas custear a produção. Dedicado a todos os amigos e familiares dos participantes pelo apoio, e a todos que se identificam, produzem e apoiam manifestações subculturais. zinepaintitblack@gmail.com


BSB <------> SP JULHO de 2013


Paint it Black #2