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BOLETIM

UNIVErSITÁRIO Nº 06 - Agosto - 2011 ::::: “sciat ut serviat”

Do dia 16 a 21 de agosto, cerca de dois milhões ou mais de jovens, provindos de todas as partes do mundo, irão se reunir em Madrid (Espanha) para a JMJ (Jornada Mundial da Juventude). Do Brasil haverá uma grande participação. Para que esse encontro ao redor do Papa Bento XVI? Diante dos desafios do mundo de hoje, que se encontra numa profunda crise existencial, está surgindo uma nova juventude que não é mais do “sexo livre, das drogas e do rock’n roll”, isto é, de uma vida desenfreada e sem sentido. Ela está procurando uma existência que a realize nas suas mais profundas aspirações. É uma juventude consciente da dignidade humana e divina da pessoa e, por isso, quer ser sadia fisicamente, digna de bem-estar material, e, sobretudo, imbuída dos verdadeiros valores humanos e cristãos - como o respeito e o conhecimento total da verdade sobre o homem, as coisas e Deus. Isso para que possa realizar o seu maior anseio: a verdadeira felicidade, que se pode encontrar só na vida de amor de Deus. Eis por que o lema do Encontro é: “Enraizados e edificados em Cristo... firmes na fé” (cf. Cl 2,7). Nessa semana mundial da juventude, essa imensa multidão de jovens - que o Espírito de Deus move, chamando-os de todos os continentes, culturas e religiões – se encontra para rezar com o representante de Cristo, Salvador da humanidade, para ouvir e discutir a sua palavra, que irá abordar os problemas humanos, existenciais e políticos que mais angustiam a humanidade atual, e haurir luz e força, humana e divina, para criar uma nova civilização feita de respeito, justiça e paz; afinal, a civilização tão almejada do amor. Certamente será uma grande festa de verdadeira alegria na fé em Cristo. O Jovem sem Deus é nada; com Deus é tudo, especialmente é esperança e realização de bem e de paz.

IDEOLOGIA E FÉ CRISTÃ

PARTICIPAÇÃO

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BOLETIM UNIVERSTIÁRIO : Agosto/2011

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MUNDO EM CRISE E ESPERANÇA

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REFLETINDO SOBRE FÉ E RAZÃO (3)

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IDEOLOGIA

Seria a fé cristã uma ideologia? Não. É a verdade na sua plenitude, que nos ensina o valor e a finalidade das coisas, o porquê da existência das pessoas e qual a sua finalidade, e ,enfim, nos revela a natureza e a vida de Deus, que é o amor, sinônimo da verdade. Apresenta-nos, pois, a verdade naquilo que ela é real e totalmente. Nela e só nela a pessoa encontra a sua verdadeira realização humana e divina.

E FÉ CRISTÃ FOCALIZANDO A CULTURA No artigo anterior do nosso Boletim, dizíamos que a ideologia é a absolutização de uma verdade parcial, isto é, a elevação de um simples aspecto da verdade à verdade total, para fazer crer de poder solucionar problemas sociais. A sua finalidade, pois, é dar suporte valorativo à luta de um grupo ou classe que querem alcançar determinados fins. Com um slogan poderíamos dizer que é “uma verdade para...” fins específicos de um grupo ou classe, em geral constituído por uma minoria que, em nome da ideologia, acaba explorando e esmagando a maioria, desumanizando a vida humana e atrasando o desenvolvimento verdadeiro. Podemos compará-la a uma tempestade ou até a um tufão que chega, arruinando a sociedade. Naturalmente, como todo erro, cedo ou tarde, fracassa e acaba. A história no-lo ensina! Lembremos a ideologia nazista, a marxista ou comunista, e, atualmente, pensemos na ideologia dos ditadores islâmicos que, um após outro, estão caindo. Isso porque, a ideologia, na realidade, é uma desvirtuação da verdade. A verdade, uma hora ou outra, volta à tona. Embora, talvez, depois venham a surgir outras ideologias Ela está presente na política, na economia, no campo das ciências e em outras atividades sociais. Nas universidades a que mais domina é o cientificismo, do qual já falamos, e o laicismo negativo, ateu, que desrespeita a dignidade da pessoa dos alunos e da sociedade no seu direito natural de procurar e vivenciar a verdade plena. Nelas (universidades), onde a verdade deveria ser a luz, o atrativo e o motor do progresso, a ideologia, subjacente ao cientificismo e laicismo, é a escuridão, a repulsa e o obstáculo ao verdadeiro progresso. Mas certamente muitos se perguntam: NÃO É TAMBÉM A FÉ CRISTÃ UMA IDEOLOGIA? A fé cristã, que fundamentalmente consiste na aceitação da mensagem central de fé - a de que Cristo é Deus feito homem - e da mensagem central da ação cristã: “Amai-

EXPEDIENTE 2

vos assim como eu vos amei...”, é uma verdade eterna, ou seja, uma verdade que perpassa a História sem sofrer modificação alguma nos mais variados encontros com cada história pessoal e social, apesar de suas diferentes ressonâncias e encarnações históricas. É também uma verdade universal, no sentido de que supera ou ultrapassa todo e qualquer fechamento: étnico, nacional, social, cultural, político etc., conforme São Paulo diz nas palavras que dirige aos Gálatas: “não existe mais nem hebreu, nem grego...todos sois um em Jesus Cristo”. Enfim, é uma verdade cuja comprovação não depende de sua eficácia, mas da autoridade daquele que a transmitiu, Cristo, que - sendo Deus feito homem - pode declarar: “Ego sum veritas”, “Eu sou a verdade”. A fé cristã não foi criada por um grupo para fins humanos – embora tenha consequências benéficas para enfrentar e solucionar os problemas dos homens. Ela existe porque é a verdade sobre o valor e a finalidade das coisas, das pessoas e sobre Deus. Ela não nos dá a verdade sobre a estrutura e o dinamismo das coisas materiais. Essa é tarefa da ciência, da experimentação científica, da razão humana. A finalidade da fé cristã é servir toda pessoa humana, indicando-lhe o caminho verdadeiro da sua realização e oferecendo-lhe a capacidade, a força e os meios para percorrê-lo. Por isso, a fé cristã propõe, sem imposição, este caminho a todos, indo ao encontro da verdadeira realização humana, que corresponde à felicidade para sempre. Este caminho é Cristo, que veio entre nós para nos ensinar o que devemos fazer para alcançá-la; morreu na cruz, carregando sobre si toda a nossa maldade, para que pudéssemos obter o perdão dela; e, enfim, ressuscitou - demonstrando a sua divindade - para que também nós pudéssemos viver a sua vida divina e, assim, depois da morte, ressuscitar com ele para a felicidade do amor de Deus, nosso criador e Pai.

Colaboradores: Arquidiocese de Londrina Paróquia Sagrados Corações E-mail: boluniversitario@gmail.com

Gráfica Idealiza Jornal de Londrina

Tal qual a fé cristã, também o Islamismo coloca a felicidade da pessoa humana na outra vida, mas sob a perspectiva de prazeres materiais. Perguntemo-nos, no entanto: como isso pode ser, se a matéria é uma realidade terrena? A fé cristã a coloca no amor do Criador, porque esse amor divino é a Verdade. E a felicidade podemos tê-la só na Verdade, porque o que não é verdade é nada, é mentira. Nesta afirmação, de que a “o amor divino é a verdade” está a chave da fundamentação, também racional, da fé cristã – da fé em Deus que é amor- e consequentemente da segurança do comportamento ético cristão e da felicidade no amor eterno de Deus. Que o amor seja a essência da verdade divina e, consequentemente, também humana – posto que o homem é “imagem” de Deus – o deduzimos daquilo que Deus é. Com efeito, o que é a verdade? A verdade é o que é. A mentira é o que não é. E Deus, quem é? Deus é aquele que é, por ser o Criador de tudo e, consequentemente, eterno, onipotente, onisciente, perfeição, enfim. Por isso, Deus é a verdade. Partindo, porém, da criação, já com a razão, descobrimos que Ele deve ser necessariamente a Inteligência que pensa a vida e a Vontade que a quer e a cria. Ora, a vida é o único bem. Então, Deus é aquele que quer o bem. Mas, querer o bem é amar. O que significa que Deus -

FIQUE POR DENTRO BOLETIM UNIVERSTIÁRIO : Agosto/2011

que é aquele que é, isto é, a Verdade - é também aquele que ama, é o Amor infinito. Então, a Verdade (Deus) é o Amor (Deus). Toda a criação manifesta este amor, esta verdade de Deus criador naquilo que cada ser é: no valor, na finalidade, na estrutura e nas leis que o governam, etc. Quando nós procuramos conhecê-lo, encontramos a verdade, descobrindo o amor presente nele. E tudo isso nos é confirmado e plenificado também pela Revelação de Cristo Jesus. A fé cristã, portanto, não é uma ideologia, porque não eleva um aspecto da verdade à verdade total, negando os outros, mas nos apresenta a Verdade naquilo que ela é real e totalmente. Não existe verdade onde não há amor. Não existe amor onde não há verdade. A fé cristã é verdade, é amor. Cristão é aquele que ama. Realiza-se quem vive na verdade, no amor. A felicidade humana se encontra no amor eterno de Deus. Experimente a viver neste amor de Deus, neste amor verdadeiro, e...verá como a sua vida irá se iluminar de paz e, um dia, de felicidade. ::: Pe Antonio Caliciotti Graduado em Filosofia, Teologia e Pedagogia Mestre em Teologia Moral Mestre e Doutor em Filosofia Social Professor de Filosofia, Sociologia e Metodologia

• NOChe De LA JuVeNTuD (JMJ 2011) - Adoração, shows, sacra beats, jogos, missa - Transmissão ao vivo do anúncio do Papa em Madri Início às 22h do sábado dia 20/agosto e término às 6h do domingo dia 21. Salão da Paróquia N. Sra. Rainha dos Apóstolos Av. Tiradentes, 43 - Londrina

• eNCONTRO VOCACIONAL eM CAMPOS DO JORDÃO Dias 07, 08 e 09 de setembro de 2011 Inscrições e informações pelos fones: (12) 3662-3914 (18) 3322-7548 / 8135-8933 ou pelo e-mail: msrosa@femanet.com.br

O CONTEÚDO DESTE JORNAL TAMBÉM ESTÁ DISPONÍVEL NO BLOG: valoresecultura.blogspot.com

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PARTICIPAÇÃO 4

A

Revolução Francesa tinha um lema: liberdade, igualdade e fraternidade, com o qual queria resumir os ideais a que se propusera. Liberdade e igualdade indicavam dois direitos fundamentais do homem, e fraternidade, o novo relacionamento que se queria estabelecer, na sociedade , entre as pessoas. Aos dois direitos da pessoa humana, liberdade e igualdade, devemos acrescentar um terceiro, que também é fundamental e sem o qual é impossível chegar a um relacionamento social justo e fraterno: o direito da participação. Liberdade, igualdade e participação, com efeito, são a pedra fundamental de todos os direitos humanos e, por conseguinte, de uma sociedade bem organizada. São como um tripé que sustenta e alimenta o bem-estar individual, familiar, social, internacional e mundial. Todo mundo - em geral, justamente - fala mal do governo acusando-o de não visar ao bem do povo, por manter privilégios e por estar nas mãos de políticos que, embora eleitos pelo povo, estão - pelo menos a maior parte - apenas a serviço de interesses próprios ou de determinados grupos, classes ou de partidos. Não adianta, no entanto, falar mal do governo se o povo, na sua maioria, não exerce o direito de participação. Se o governo não se preocupa, como deveria, com o povo, é porque o povo não se preocupa com o governo: fica passivo, de braços cruzados diante da política dele. Nosso povo, em geral, ainda não tomou consciência da sua dignidade de pessoas humanas e consequentemente da necessidade de autogovernar-se,

participando da atividade política do governo. O Papa Paulo VI, na Carta Apostólica “Octogesima adveniens”, diz que nos homens de hoje existe uma dúplice aspiração: a aspiração à igualdade e a aspiração à participação”, que são “dois aspectos da dignidade do homem e da sua liberdade” (AO, n° 22). Toda pessoa existe para se realizar em todos os níveis: material, físico e espiritual. Mas, dado que vivemos com outras pessoas, essa realização só é possível dentro de uma organização social a nível nacional e mundial, onde todos participem dos bens e das decisões políticas. Participação nos bens Os bens e as riquezas do mundo, por sua origem e natureza, destinam-se à utilidade e ao proveito de todos: de cada um dos homens e dos diferentes povos. Por isso, todos e cada um têm o direito inviolável de usar solidariamente esses bens, na medida do necessário, para uma realização digna da pessoa humana. Todos os outros direitos, também o de propriedade e de livre comércio, lhe estão subordinados, como ensina inclusive o Beato João Paulo II quando diz que “sobre toda propriedade privada pesa uma hipoteca social” (AAS, 71, p.200). Naturalmente, para poder participar desses bens e riquezas da natureza é preciso que, de um lado, o Estado crie condições para isso, através de medidas adequadas, como, por exemplo, de uma justa reforma agrária, e favorecendo, com todos os meios, o trabalho para todos; de outro lado, que cada um trabalhe, porque é o trabalho que dá direito ao uso desses bens e riquezas. Até a Escritura diz

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A pessoa existe para se realizar em plenitude: material, física e espiritualmente, posto que ela é um ser social. Quer dizer, deve viver necessariamente dentro de uma sociedade, de cuja organização e gestão política e social ela deve participar. Se a política não visar ao bem comum (de cada um e de todos) e a vivência social não se pautar pelo respeito à dignidade humana e divina das pessoas, ela não consegue se realizar. Participe! É seu direito e dever. que quem não trabalha não tem direito de comer (2Ts 3,10), a não ser que ao indivíduo faltem condições físicas ou mentais. Participação política O homem, ser social, constrói o seu destino com os outros, dentro de uma sociedade representada pelo Estado. O Estado deve ter como finalidade a realização do bem comum, no respeito às legítimas liberdades dos indivíduos, das famílias e dos grupos, inclusive e especialmente à liberdade religiosa. Ele pode somente aquilo que é exigido e útil para a realização do bem comum. Tudo o que se fizer à margem e fora deste direito é abuso e violência. O bem comum é o conjunto de condições concretas que permitem a todos atingir níveis de vida compatíveis com a dignidade humana. Mas, para que o Estado, ou poder político, realize o bem comum faz-se necessária a participação consciente e responsável do povo no processo político. Como? Em primeiro lugar, elegendo para os cargos públicos pessoas competentes, responsáveis e honestas. Certamente a honestidade hoje é difícil encontrá-la nos nossos políticos. Isso porque os partidos são agremiações de compadres e comadres, com líderes que comandam até morrer, se auto protegendo e se perpetuando mediante normas estabelecidas por eles BOLETIM UNIVERSTIÁRIO : Agosto/2011

mesmos. Dever-se-ia permitir que grupos de cidadãos formassem livremente Listas Cívicas de candidatos por ocasião de cada eleição. Essas listas, talvez, reintroduziriam na política cidadãos honestos. Todavia, não esqueçamos que uma sociedade desonesta terá sempre representantes desonestos. Os políticos são frutos da sociedade. Cada árvore dá o seu fruto! Em segundo lugar, tomando consciência dos problemas nacionais e debatendo-os. Em terceiro lugar, votando em todos os níveis: federal, estadual, municipal e em plebiscitos contínuos. Estes devem se tornar a alternativa para a solução dos problemas mais importantes e cruciais da sociedade. Essa participação deve se traduzir em diálogo e respeito também dentro das empresas, das escolas, das famílias e das comunidades, para que se realize o bem-estar geral. Finalizando, perguntemo-nos: eu sou uma pessoa de respeito e de diálogo, começando dentro de minha casa ou comunidade? Só a participação pode levar à união, e a união, à solução dos problemas. ::: Pe Antonio Caliciotti

Graduado em Filosofia, Teologia e Pedagogia Mestre em Teologia Moral Mestre e Doutor em Filosofia Social Professor de Filosofia, Sociologia e Metodologia

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VOCAÇÃO

MUNDO EM CRISE E ESPERANÇA A história humana não é como uma bola que rola ao léu, sem um jogador. Ela, no seu desenvolvimento, apesar dos seus desequilíbrios, crimes e culpas, corresponde a um designo divino. A sua finalidade situa-se além de si mesma (da história terrena). As suas falências são sinais de mudança de rumos. Devemos nos colocar, ao mesmo tempo, à escuta da realidade e de Deus. Para isso precisamos de homens inteligentes e de fé viva e operante. A humanidade está atravessando uma profunda crise. As sociedades estão dilaceradas. Estamos diante do declínio de uma civilização, na qual alcançamos resultados extraordinários de ordem material, mas, ao mesmo tempo, uma profunda decadência espiritual e moral. Essa decadência não é percebida pela maioria das pessoas que, tendo casa, comida, férias, trabalho e, talvez, uma pequena poupança, não têm outra preocupação. Isso porque a nossa civilização se pauta pelo imediato, pelo efêmero, pela inércia mental hipnotizada pelo circo midiático que costuma esvaziar a vontade da procura daquilo que é realmente bom e justo. Para perceber e enfrentar essa crise, requerem-se homens de cultura. Certamente não os que fazem do conhecimento um comércio, ou que são preconceituosos, pregadores do dogma que hoje está na moda: o cristianismo não tem mais nada para nos dizer, porque, na realidade, nunca teve algo a dizer. Precisa-se de homens de cultura que não perderam o sentido da finalidade das coisas, tendo ainda o sentido das coisas primeiras e das coisas últimas; homens que consigam conjugar a ética com a metafísica e , sob esta perspectiva, com a teologia. Com efeito, quem vive no imediato, mesmo sendo intelectual, removeu necessária e completamente a ideia de Deus e, com ela, uma série de realidades e perguntas: a justiça, a eternidade, a fidelidade, o sacrifício, o pecado, a doação, porque ainda a miséria e a fome? E assim por diante. A história humana, dizia um escritor católico, é um papel mais escuro do que a tinta preta, na qual não se consegue ver não somente um sentido completo, mas, nem sequer um sentido qualquer. Somente a fé, luz dos tempos, descobre, na história e no emaranhado desconcertante dos acontecimentos que a compõem, um sentido oculto e até uma sua verdade. Ela ensina que na história da humanidade há um desenvolvimento interior que, além dos desequilíbrios, dos crimes e das culpas, corresponde a um desígnio divino. Irineu de Lion escreveu que os caminhos errados, nos quais o homem se perde no curso da sua história, possuem, apesar de sua culpabilidade, uma função pedagógica. Ele deve apreender que, esquecendo os caminhos marcados por Deus, estará prejudicando, fundamentalmente, somente a si mesmo. Cada época histórica vive do ciclo de morte e ressurreição: o que hoje acontece, com modalidade diversa, já houve no passado. Aquilo que devemos discernir nos acontecimentos, nas exigências e nas aspirações dos homens de hoje são os verdadeiros sinais da presença e do desígnio de Deus.

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A história humana, com efeito, tem um dúplice fim. O primeiro é o progressivo desenvolvimento da natureza humana no tempo, que só terminará com o fim natural do mundo. O segundo é o caminho para o Reino de Deus, que já começou com a Igreja e alcançará o seu fim somente na eternidade. Por isso, o fim absolutamente último da história situa-se além da história e se realizará num mundo transfigurado pela visão direta da soberania de Deus. Fantasia? Não. Você conhece alguma outra alternativa que tenha realmente sentido? Essa visão vem da fé bimilenária da Igreja católica. Só ela ilumina toda a história humana, desvelando as intenções de Deus sobre a vocação integral do homem, e, por isso, guia a inteligência para soluções plenamente humanas diante de toda situação de crise. O que a Igreja nos pede é que nos coloquemos em atitude de escuta diante da realidade da história na sua precisa configuração, nas suas causas, nos seus possíveis desenvolvimentos, sem distorcer os fatos, dobrando-os a um esquema ideológico já constituído. Essa escuta nos faz avaliar os fatos na suas raízes culturais, históricas e ambientais. Lembremos o método de Spinoza: “Não chorar, não rir, não odiar, mas compreender”. A moderna civilização ocidental, por exemplo, que para alguns está em declínio, certamente oferece múltiplos e graves sinais de decadência moral. Mas, esses graves sinais não serão episódicos? As suas falências históricas não são sinais mais de uma necessidade de transformação do que de um fim? A causa profunda da crise atual podemos encontrá-la no orgulho do homem moderno. Ele conseguiu dominar em grande parte a natureza, mas não o próprio poder, porque, tendo-o desvinculado do transcendente (de Deus), tornou-o ingovernável. Assim o homem, tornando-se dependente do poder onicompreensível da razão e da ciência, naufragou na alienação do seu verdadeiro bem, da qual provém a desilusão em relação ao presente, o temor do futuro e o desencanto pelo progresso. Fica pois a esperança de que, superadas as falsas certezas do racionalismo iluminista e as tentações do niilismo, possam novamente ficar verdes as raízes cristã da cultura do Ocidente por meio de homens modernos que guardaram a “tremenda solidão da fé” (cf. R. Guardini, La fine dell’epoca moderna).

::: Pe Antonio Caliciotti

Graduado em Filosofia, Teologia e Pedagogia Mestre em Teologia Moral Mestre e Doutor em Filosofia Social Professor de Filosofia, Sociologia e Metodologia

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Quando a pessoa nasce, vive segundo seus instintos. Mas, a um dado momento, implícita ou explicitamente, se pergunta: “ por que vivo?”. Se ela , conhecendo a si mesma, se encontra com Deus, compreende que a existência lhe é dada para amar. Uma missão belíssima e a mais sublime possível! Diante dessa resposta, no entanto, surge outro questionamento: como amar? Fazendo o que, em que estado de vida? - Pedro, qual é a sua vocação? - Maria, que pergunta é essa? - Pedro, é uma pergunta que me fizeram e à qual eu não soube responder. - Marta, você que outro dia me dizia que está pensando em se consagrar a Deus, que é algo que também não entendi bem, saberia responder? - Penso que sim. Na realidade existem três vocações fundamentais. A primeira é existencial, a segunda é profissional e a terceira é do estado de vida. Vou explicar.

Vocação existencial. É a vocação de toda pessoa humana. Vocação provém da palavra latina “vocare”, que quer dizer chamar, convidar a realizar alguma tarefa. Ora, toda a criação, por ter sido um ato criativo de amor de Deus, existe para alguma finalidade. A pessoa humana, por ser “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26), certamente deve ter a vida e a finalidade semelhantes às de Deus. Mas, quais são a vida e a finalidade de Deus? - Eu confesso que não sei, disse Pedro. - Nem eu - acrescentou Maria. - A resposta - continuou Marta - nos é dada pela razão e pela fé, e é substancialmente a mesma. Deus é a Inteligência que pensa e a Vontade que quer e cria a vida, ou seja, é a plenitude do ser, da vida e, por isso, a fonte. Mas a vida, por sua vez, é o único bem que existe; pensálo e querê-lo é, pois, amar. De modo que a vida de Deus é amar; e se é amar, a sua finalidade também é amar. Isso nos é confirmado pelo Evangelista São João, que afirma que Deus é amor. (1Jo 4,8.16) Ora, sendo o homem - cada um de nós – “imagem e semelhança de Deus”, a nossa vida, assim como a nossa finalidade, deve ser também para amar. Isto é, vivemos para amar e, consequentemente, a nossa realização está somente no amor. Essa é a finalidade da existência de todos os seres humanos. Isso, naturalmente, nos leva a nos perguntar: primeiro, as pessoas têm consciência disso? Segundo, nós vivemos amando? Terceiro, donde provêm todos os males da humanidade que nos afligem? - Marta - disse Maria - realmente, se nos amássemos, o mundo seria imensamente diverso, a nossa vida seria outra: muito, muito melhor; diria, um paraíso terrestre. - Marta - acrescentou Pedro - obrigado por essa explicação. Sabe que foi uma luz que você me deu e que começou a me perturbar interiormente? De fato, logo me perguntei: estamos BOLETIM UNIVERSTIÁRIO : Agosto/2011

numa Universidade, estuda-se tanto, mas ninguém nos fala disso. É uma noção fundamental para a nossa existência e, afinal, para a nossa felicidade e o bem- estar de todos! Talvez nós devamos fazer alguma coisa para que todos reflitam por que vivemos. É muito importante, aliás, vital. - É verdade - voltou a dizer Marta - o mundo seria infinitamente melhor se todas as pessoas vivessem no amor. Haveria mais respeito entre as pessoas e não existiriam injustiças, violências, corrupções; viver em sociedade seria agradável e, certamente, teríamos paz interior e social. Ninguém nos fala dessa verdade porque a sociedade atual é materialista, consumista e relativista. Em geral, as pessoas vivem como se Deus nem existisse. Cada um vive segundo os próprios interesses e gostos pessoais. Não se procura mais ter um comportamento ético que corresponda à dignidade da pessoa humana. Alguém, com muito pessimismo, definiu a sociedade de hoje como uma multidão de imorais, que procura somente o prazer. Mas continuemos a falar sobre as demais vocações.

Vocação profissional. A pessoa é dotada naturalmente de muitas capacidades. Umas aparecem espontaneamente, outras se manifestam porque cultivadas, outras, enfim, ficam latentes por falta de oportunidade para desabrochar. A educação na família, na escola e no ambiente em que se vive, visa fazê-las emergir. De modo que a profissão escolhida geralmente corresponde aos dotes do indivíduo. Ela permite ganhar o pão de cada dia, sustentar a família, ajudar quem precisa, contribuir com o desenvolvimento da sociedade, aprimorar as qualidades da pessoa e a sua realização como cidadão. - É importante salientar, porém - interveio Maria - que a vivência da profissão é o momento mais oportuno para viver a vocação existencial, que é amar. Somente assim, a profissão realiza a pessoa integralmente, como cidadão e como imagem de Deus. Cada um de nós, na vida, no trabalho, é a presença humana, o rosto visível de Deus-amor. Dai a necessidade da ética profissional, que significa especialmente respeito à pessoa humana, responsabilidade, honestidade, justiça, dedicação, bondade. - É verdade, Maria - continuou Marta - aliás, é na profissão que o indivíduo constrói também a sua felicidade eterna, agindo de maneira ética, como você explicou, e fazendo dela um continuo agradecimento a Deus por tudo o que ele é e possui.

::: Mercedes dos Santos Rosa Graduada em Direito e História

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FÉ E RAZÃO CONHECIMENTO PELA REVELAÇÃO

O ser humano goza de três formas de conhecimento: científico, filosófico e espiritual. Os três são fundamentais para a sua realização plena. Entre eles, o mais importante, materialmente, é o conhecimento científico; racionalmente, é o filosófico; espiritualmente - que diz respeito à verdadeira realização ou felicidade da pessoa – é o da Revelação. Este nos é dado já pela natureza, mas, em plenitude, é transmitido diretamente por Deus, em Jesus Cristo.

No número anterior deste Boletim tratamos do conhecimento científico. Vamos agora, abordar o conhecimento obtido pela Revelação, que nos dá o sentido profundo das coisas, da existência do homem e sobre Deus. O homem bíblico, ao refletir sobre a sua condição (possibilidade) de conhecimento, descobriu que não se podia compreender a verdade total sem “se colocar em relação”: ou seja, em relação consigo mesmo, com o povo, com o mundo e com Deus. De fato, colocando-se em relação com a natureza e raciocinando sobre ela, a razão humana pode chegar ao Criador: “pela grandeza e beleza das criaturas, podese, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor” (Sb 13,5). “O livro da natureza” é um primeiro nível de revelação divina. Todavia, o que a razão alcança, sendo limitada, pode ser verdade, porém só adquire plenitude se o seu conteúdo for colocado num horizonte mais amplo, o da fé, que é a aceitação da Revelação direta de Deus feito homem, Jesus Cristo. Com efeito, colocando-se em relação com Deus, a razão descobre, através da fé (Revelação aceita), o sentido profundo de tudo e, particularmente, da própria existência. E, assim, encontra respostas para questões tão dramáticas como a dor, o sofrimento do inocente e a morte, tendo presente, através da fé, o mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo. A Revelação direta de Deus tornou-se necessária desde que o homem se colocou em plena e absoluta autonomia em relação ao Criador, ultrajando a vida humana (ultraje simbolizado pelo homicídio de Caim, que mata Abel). A desobediência lhe fez perder a facilidade e a plenitude de acesso a Ele. O livro do Gênesis descreve de maneira figurada essa condição do homem, quando narra que Deus o colocou no jardim do Éden, tendo no centro “a árvore do bem e do mal” (2,17). O símbolo é claro: o homem, sendo criatura, não era capaz de discernir e decidir, por si só, aquilo que era bem e o que era mal, mas devia apelarse a Deus (representado pela árvore do bem e do mal). A cegueira do orgulho, no entanto, iludiu os nossos primeiros pais. Quiseram ser soberanos e autônomos, prescindindo do conhecimento vindo de Deus (comer o fruto da árvore significa isso mesmo: decidiram se auto-governarem; eles mesmos estabelecerem o que era o bem ou o mal; em outras palavras, se proclamarem iguais a Deus). Com essa desobediência original e ruptura com o Criador, ficaram privados da luz dele, no conhecimento do bem e do mal. E assim, a capacidade humana de conhecer a verdade foi se tornando ofuscada pelo afastamento daquele que é fonte e origem da verdade. Paulo de Tarso diz que os pensamentos dos homens, por causa do pecado, se tornaram fúteis, e eles, tolos.(cf. Rm 1, 21). Mas, a vinda de Cristo remiu a razão de sua fraqueza, prisioneira de si mesma. Como? Através da Revelação, preparada ao longo de séculos e realizada, de maneira plena, por Jesus, que concedeu novamente à razão humana a capacidade de conhecer a verdade sobre Deus, o homem e as coisas..

Dificuldade de aceitar a Revelação. A verdade que a Revelação nos apresenta, às vezes, é incompreensível à sabedoria 8

humana, mesmo porque o nosso pensamento é limitado por natureza e - devido ao fato de ter perdido a referência de Deus a respeito da verdade - é também ofuscado. Vejamos, por exemplo, a contraposição que encontramos entre a “sabedoria deste mundo” e a “sabedoria de Deus” revelada em Jesus Cristo crucificado. A crucificação de Cristo anula toda a tentativa da mente para construir, sobre razões puramente humanas, uma justificação suficiente do sentido da existência. Com a morte de Cristo, Deus realiza algo que a mente humana não pode compreender: fazer da morte a fonte da vida e do amor. Para a nossa razão isso é “loucura” e “escândalo” (1 Cor 1,20). Mas para Deus é sabedoria. São Paulo nos diz que Deus escolheu, no mundo, aquelas coisas que nada são, para destruir as que são (1 Cor 1, 27-28). A razão não pode explicar o mistério do amor que a cruz representa, mas a cruz pode dar à razão a resposta última que esta procura. De modo que a filosofia, se for ajudada pela fé, pode abrir-se para a verdade total, mas, se ela não se abrir à fé do sentido da morte e ressurreição de Cristo, naufraga. Em outras palavras, a sabedoria humana deve acolher a ação da sabedoria de Deus sem compreendê-la, simplesmente crendo nela. Isso porque a sabedoria de Deus provém do seu amor infinito, que Ele é (1Jo 4,8.18). Esse amor é ilimitado, ultrapassa a nossa compreensão humana, e se manifesta na sua plenitude para conosco na morte de Jesus (1Jo 3,16). A nossa razão não pode esgotar o mistério do amor de Deus que a cruz representa. ela é demais limitada. Onde está, pois, o sentido da existência do homem? Só Deus crucificado na sua humanidade, tomada da Virgem Maria, no-lo revela: no amor da morte dele na cruz, no sangue por ele derramado, na vida nova que nos brota da sua ressurreição. Por isso Jesus nos diz: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (J0 13, 34) esse é o conhecimento da Revelação, que nem a ciência e nem a filosofia poderiam nos dar. Podemos não aceitá-la, mas não encontraremos a resposta satisfatória alhures e viveremos sem meta realizadora. O que é um absurdo e esvazia a nossa vida! Sintetizando, Deus se dá a conhecer fundamentalmente de dois modos: pela natureza e pela Revelação direta e plena em Jesus Cristo. Por meio da natureza. Raciocinando sobre ela, podemos, por exemplo, chegar ao conhecimento do Criador. Por meio da revelação direta de Jesus. Ela nos permite chegar à compreensão plena e segura da verdade filosófica a respeito do Criador, e total, a respeito do sentido de nossa existência e de outras verdades, chamadas sobrenaturais. Sobrenaturais porque pertencem ao plano divino, superior à nossa plena compreensão humana, mas que nos dizem respeito porque nos mostram onde se encontra, em que consiste e qual o caminho da nossa realização ou felicidade. (continua)

::: Pe Antonio Caliciotti

Graduado em Filosofia, Teologia e Pedagogia Mestre em Teologia Moral Mestre e Doutor em Filosofia Social Professor de Filosofia, Sociologia e Metodologia

BOLETIM UNIVERSTIÁRIO : Agosto/2011


Boletim Universitário  

Boletim Universitario - teste

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