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NOTAS SOBRE “A MODERNIDADE E A EUROPA” – O que tem a ver com o Brasil ? Maria Ciavatta1

Estou na Università La Sapienza di Roma, Itália, para um breve período de Pósdoutorado, de três meses, aceita pelo Prof. Dr. Marcello Mustè do Departamento de Filosofia. Tenho tido a oportunidade de conhecer algumas das principais questões que estão discutindo. Defronto-me com salas sempre cheias de estudantes, embora a frequência, aqui, não seja obrigatória, mas o exames são orais e dependem de muito estudo. Além de ouvir úteis análises sobre conceitos de Hegel presentes em Marx, tive a oportunidade de ouvir a um cientista político francês Ives Charles Zarka (Univeristè Paris - Descartes), do qual, em transcrição livre, trago aqui apenas algumas ideias.2 Zarka discute Hobbes sobre um tema que preocupa os europeus – e não está ausente no Brasil – que é o conflito. Por que os homens lutam até a morte na guerra? As noções de inimigo e de hostilidade estão no centro do conflito político, nas guerras. Em Hobbes é um estado de violência e de medo, a possibilidade permanente de morte violenta, de eliminar ou de destruir o adversário. A figura do inimigo, interno ou externo, é uma obsessão da política. O poder sobre os outros é o maior poder que existe. A determinação que define o inimigo é sempre relacional, com um indivíduo ou com uma coletividade. Não é possível explicar a guerra porque os homens são maus, ela resulta de uma relação de conflito que leva à morte quando não existe um poder político ou quando o poder político não pode exercer sua função. Outra conferência de Zarka foi sobre Rousseau. Resgato algumas ideias que nos ajudam a pensar o conflito de classes que emerge com força no Brasil. Rousseau inverteu o conceito de soberania do povo, que vem dos séculos XVI / XVII. Sua contribuição é importante porque ele inventa um novo estatuto de soberania do povo. Antes dele, a soberania era potencial, virtual, nunca atual. Na história do pensamento, o povo é o fundamento da soberania, mas também produz o medo do povo. Por isso, era necessário tutelar o povo. A partir de Rousseau há uma mudança total. A soberania do povo não é virtual, é atual, é a única soberania legítima. A questão não está em saber como a dar a soberania, a questão é saber o que é um povo, como se cria um povo. O último evento que quero destacar foi a apresentação do livro Terrore e Modernità de Donatella de Cesare, que será traduzido em outros países, inclusive no Brasil.3 Participaram quatro professores e dois jornalistas que fizeram comentários e 1 Professora do Programa de Pós-graduação em Educação - Uff, membro e fundadora do Neddate, coordenadora do Grupo THESE – Projetos Integrados de Pesquisas sobre Trabalho, História, Educação e Saúde (Uff-Uerj-EPSJV/Fiocruz). 2 ZARKA, Ives Charles. “Inimicizia e amicizia in Hobbes”. Seminari com Ives Charles Zarka. _______. “l ´idea di sovranità popolare in Rousseau”. Università La Sapienza di Roma, Dipartimento de Filosofia, 11 a 12 aprile 2017. 3 DI CESARE, Donatella. Terrore e modernità. Torino: Giulio Einaudi, 2017


levantaram questões sobre o tema, com a participação da autora. Transcrevo algumas ideias do capítulo onde ela trata da “Bomba da modernidade”, um tema que também diz respeito à área Trabalho-Educação quando analisamos criticamente as consequências do desenvolvimento tecnológico e da nova organização do trabalho na vida dos trabalhadores, no crescimento do desemprego e do trabalho precário, na desregulamentado das relações de trabalho até o limite como prevê a reforma trabalhista em curso no Brasil e, para minha desilusão, as reformas que estão fazendo estragos na sociedade italiana. Donatella compara a modernidade a um trem que leva a todos “a luz da razão e a igualdade da velocidade. Arranca-lhes os antigos preconceitos, tira-os dos usos e costumes herdados do passado, emancipa-os do peso da tradição, libera-os do jugo da religião. São, finalmente, sujeitos autônomos, libertos do estado secular de minoridade, capazes de avaliar criticamente tudo que lhes diz respeito, a começar de sua própria vida. (...) O trem da modernidade corre ousado para uma vitória final, alimentando a fé na ciência, a certeza das melhorias trazidas pela técnica. O seu avanço é a confirmação do progresso” (p. 18)

Todos estão embalados pela emoção da velocidade, embalados pela ideologia do conforto e “a segurança do happy end”. A imaginação criada pelo trem do progresso não pode prever o fim inglório do poderoso comboio. ”Para todos os adeptos da modernidade, que é, ao mesmo tempo, uma concepção do mundo e, sobretudo, uma visão da história, onde cada época refaz e supera a precedente, nada poderá comprometer o projeto emancipatório das Luzes da Razão” (p. 19). Deste ponto de vista, guerras de extermínio e outras mortes são acidentes de percurso, patologias que devem ser debeladas, expurgadas da história de da razão, que têm levado a uma “visão esterilizada e tranquilizante do progresso humano” (ibid.). À parte dos conservadores pós-modernos, os filósofos se dividiriam entre os que se mantêm fiéis às Luzes da Razão, onde os extermínios seriam “loucura”, resultado da “barbárie, e aqueles que, há muito, haviam visto na barbárie “a face oculta da modernidade”, onde Auschchwitz teria sido um “extermínio administrado” (ADORNO, HORKHEIMER, MARCUSE), e a barbárie, um “produto da moderna civilização ocidental em seu estágio mais avançado” (MARX, apud DI CESARE, 2107, p. 20). O 11 de setembro e os atos terroristas que assolam a Europa, entre outras causas (disputas econômicas, políticas, religiosas), têm raízes na moderna “civilização” e não podem ser vistos fora desse contexto. Muitas outras questões da história das últimas décadas são expostas com textos etnográficos e análises de filosofia política de particular agudeza. Pelos limites desta comunicação, registro apenas algumas delas. Quando a exceção se transforma em norma, é o fim do Estado de Direito. O Estado-nação renuncia à política em favor da polícia e renuncia à soberania na medida em que a democracia se torna uma “fobiocracia” (p. 185). Tendo Hobbes como referência, analisa o Estado de segurança que opera ao contrário do modelo delineado por Hobbes, para quem o contrato, que transfere o poder ao soberano, “pressupõe o medo recíproco e o medo de todos contra todos. O Estado intervém para por fim ao medo. Ao contrário, o Estado de segurança requer o medo e se funda sobre o medo”. Para se legitimar, “deve manter o medo, fomentá-lo ocultamente, amplifica-lo mediante uma orquestração político-midiática cotidiana” (p. 187), referência que nos é familiar através da despolitização, da notícia lacunar, da indução danosa ao ódio e à intolerância.


A política se torna mera administração, um exercício de governabilidade. Embora o Estado prometa segurança e proteção ao cidadão e busque legitimar-se, abandona os cidadãos a imprevistos, a perigos e cria uma hierarquia dos medos sobre os quais estabelece seu plano de segurança. “O liberalismo é a ideologia deste abandono” (p. 186). Em nosso país, é o abandono dos pobres a face mais visível do Estado de exceção. Exacerbado pelas políticas neoliberais, o abandono, desde os tempos coloniais e imperiais, pode ser traduzido pelos limites de recursos para moradia, saneamento, saúde, educação, previdência, trabalho digno e remunerado, segurança. O outro polo do tema modernidade é o terrorismo. A autora discute três paradigmas de interpretação: como “choque de civilizações” (Huntington), como luta de classes e como produto das enormes desigualdades econômicas que alimentam a violência e a guerra “santa” da religião. “O terrorismo é estreitamente ligado à globalização, da qual não é apenas o efeito, mas, de certo modo, o vetor que o impulsiona: de um lado nega o planeta unificado, enquanto, de outro, explode as fronteiras, cancela os limites, anula as diferenças entre guerra e paz, militares e civis, emergência e normalidade” (p. 158). São muitas e complexas, as causas do terrorismo. Entre outras, a convergência entre os fluxos do capital financeiro e o terrorismo internacional, que têm a seu favor as redes de comunicação e a cumplicidade dos poderes, a exemplo do grande tráfico de armas. E argumenta: “O poder desenfreado do capitalismo global que contribuiu de modo determinante, favorecendo um grupo reduzido de vencedores, deixou e deixa atrás de si uma massa de perdedores, não apenas excluídos de qualquer possibilidade de emancipação, mas também profundamente humilhados”(p. 160).

Nesta sociedade de uma classe média generalizada e de uma classe rica oculta aos olhos comuns, os imigrantes (diversos países da África, Bangladesh...), é constrangedor vê-los, “estranhos no ninho” de uma sociedade bem sucedida. É um grande problema na Itália, pela localização territorial que lhes facilita o acesso, pelos serviços de salvamento no mar e de acolhimento em terra, pela quantidade dos que chegam, pela recusa de alguns países da União Europeia, de recebê-los. Não é o foco do livro, mas eles são parte da globalização capitalista. Roma, maio de 2017.

Modernidade e terror notas para o neddate 2017