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PaÚL NA TERRA DOS DITADOS Conto I- Quem sai aos seus… Paúl foi crescendo, crescendo, como crescem todos os meninos no seu caminho acidentado para se tornarem homens. Em poucos anos já conhecia a serra de lés a lés. Andava muito com os pastores pelos montes, brincando com as ovelhas ou galopando, qual cavaleiro destemido, no lombo dos cães: os Serra da Estrela. E como Paúl gostava dos cães da serra! Ele havia o Mel, o Pardal, o Boina, o Catita, o Bimbo, o Mondego e outros mais. Contudo, para Paúl, só um deles contava a valer. Apenas um fazia bater de alegria o seu jovem coração aventureiro. Assistira ao seu nascimento, e o Tio Antonino dera-lhe a responsabilidade de lhe escolher o nome. Paúl pensara... pensara... e com os grandes olhos negros brilhando por entre as madeixas do seu cabelo da cor do carvão, dissera: - Mondego, pois então, só pode ser Mondego, não é Tio Antonino? O velho pastor sorrira afirmativamente: - Pois seja. Mondego fica-lhe bem. Paúl e Mondego eram companheiros inseparáveis... ou quase. Só quando o velho pastor, com o seu rebanho, se afastava da aldeia é que os dois se separavam. E mesmo assim nem sempre, pois se não houvesse escola, lá ia Paúl, com eles, pela serra fora em busca de aventura. Tio Antonino não era na verdade seu tio. Desde que, um dia, ali chegara, havia cinquenta anos, que todos lhe chamavam assim. É que o anterior dono do grande reba-

nho era conhecido e chamado por esse nome. Assim, para além do rebanho, o velho pastor ganhou também o nome de Tio Antonino. Isto contara-lhe seu pai, num dia de muita neve, durante uma conversa à lareira. E havia ainda quem dissesse que o velho pastor já era velho quando ali chegara cinquenta anos antes. Diziam, talvez por isso, que o Tio Antonino passara já os cem anos de idade. Mas, ao certo, ninguém sabia. O velho pastor comprara o rebanho com duas bolsas de ouro. E os velhos da aldeia contavam histórias misteriosas de tesouros escondidos por entre as rochas, algures nas montanhas de granito, num lugar secreto que só o Tio Antonino conhecia. Tudo isto fascinava o jovem Paúl e o resto da pequenada da aldeia. Mas Paúl era de longe o mais interessado de todos. E não era maravilhoso andar pela serra em busca de aventura? Paúl pensava que sim. À noite ele e Tio Antonino acampavam junto ao rebanho. E o jovem ouvia fascinado as histórias da serra que o velho pastor lhe contava. Para não ter frio costumava enroscar-se à volta do Mondego. O cão mal se mexia para não incomodar o dono. E assim adormecia ouvindo o Tio Antonino e tentando imaginar tudo o que o velho lhe contava. Certas histórias já ele as escutara vezes sem conta. A seu pedido, algumas delas, eram tantas vezes repetidas que quase as sabia de cor e salteado. Mas sempre que as ouvia parecia-lhe haver algo de novo. Por isso as voltava a escutar. Por isso pedia uma e outra

vez para as ouvir. A história de que mais gostava era a do Patusco, o pai do Mondego. Olhava com malandrice para o Tio Antonino e pedia de forma mimada: - Ó, Tio Antonino, como é mesmo aquela do Patusco e dos lobos? O pastor sorria, fingindo acreditar que Paúl se esquecera da história e lá a contava mais uma vez: - Já lá vão três anos desde que tudo se passou. O Patusco andava sempre comigo na guarda das ovelhas. Era o cão Serra da Estrela mais bonito que eu já tive. Tinha um pelo castanho, assim da cor do mel e um olhar muito meigo como nunca mais vi outro igual. Era grande como o Mondego e brincalhão como o Bimbo. E sabes, nunca perdeu uma ovelha. Ora, uma vez, lá para os lados do Fundão, aconteceu sermos acordados a meio da noite pelos lobos. Faziam tanto barulho, que me pareciam muitos e com fome. Eu não queria servir de ceia aos bichos e também não me sentia nada satisfeito por ir ficar sem três ou quatro ovelhas. Ia para tentar fugir quando reparei que não podia. Atrás de nós, e dos lados, as paredes das rochas eram muito altas e difíceis de subir. Eu escolhera o local por isso mesmo. Pois ao pôr as ovelhas por detrás de mim e do Patusco impedia que elas se afastassem do acampamento, o que nos deixava dormir tranquilamente. Mas nem me lembrara dos lobos. Eram três. Contudo, pelo barulho que faziam pareciam ser mais de meia dúzia. Eu já ouvira muitas vezes o Patusco a correr com os lobos que se

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