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A PADARIA DO POVO No coração do bairro de Campo de Ourique, existe uma instituição centenária chamada Cooperativa “A Padaria do Povo”. Foi criada em 1904 por um grupo de trabalhadores e comerciantes. Surgiu por proposta do Rei D. Carlos, influenciado pela Rainha D. Amélia. Inicialmente servia para distribuir pão pelas pessoas carenciadas das zonas de Campo de Ourique, Santa Isabel e Campolide. Ao longo dos anos, foi perdendo o seu papel de fornecedora de pão, mas teve um papel muito importante a vários níveis. Por exemplo, abrigou no edifício a Universidade Popular, frequentada por personalidades tais como Bento de Jesus Caraça, António Sérgio, Fernando Pessoa, entre muitos outros. Na altura do estado Novo, as salas de convívio foram palco de reuniões clandestinas de activistas

anti ditadura. Os fornos, já desativados, serviam de abrigo a esses mesmos activistas quando as instalações eram visitadas pela polícia política. Filmes eram exibidos no salão de festas. Através destas actividades, a cultura era levada ao encontro de quem não tinha acesso a ela de outra maneira. Mais tarde foi também um supermercado. Com mais baixos que altos, a padaria foi sobrevivendo ao longo dos anos. E hoje em dia, continua, de outra forma, a ser importante para muitas pessoas. Todos os dias, pelas três da tarde, eles estão à porta. O tio Abílio, o senhor Jeremias, o Zé da Praça, entre muitos outros, aguardam por um dos três rapazes: o Hugo, o Filipe ou o Vasco. São eles que tomam conta do espaço mais activo da Padaria, o bar com sala de convívio. Todos os

dias, estes seniores avançam quase em procissão para entrarem no espaço que lhes dá abrigo, conforto, algumas horas de convívio e, claro, jogos de cartas. Por vezes aparece por lá o Barbas, um sem abrigo que também encontra naquele lugar o único sítio para se abrigar e esquecer das coisas más que a vida lhe trouxe. Ali, o Barbas encontra respeito, carinho e, claro, alguns copos de tinto. Mas também, sempre que há jantares organizados por e para os cooperadores, o Barbas tem lugar cativo. Às vezes não há jantar nenhum, mas consegue-se sempre arranjar qualquer coisa para o ele não se ir deitar de estômago vazio. Este espaço fica no primeiro andar do edifício. No rés-do-chão, todas as quintas-feiras e sábados, é organizado um baile sénior, onde também muitos idosos se encontram para


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