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Este novo contexto exige novos posicionamentos dos movimentos sociais. Precisamos defender um novo projeto de Reforma Agrária, isto é, construir alianças entre todos os movimentos camponeses, com a classe trabalhadora urbana e com outros setores sociais comprometidos com mudanças estruturais. Após muitos debates, elaboramos, coletivamente, o nosso programa de Reforma Agrária Popular. Nele, reafirmamos que a terra e todos os bens da natureza devem estar a serviço de todo o povo brasileiro, sob o objetivo de produzir alimentos saudáveis, de qualidade e sem agrotóxicos. Afirmamos as sementes como um patrimônio dos povos a serviço da humanidade, além do compromisso com o reflorestamento de todas as áreas degradadas com ampla biodiversidade. É preciso ainda promover a cooperação agrícola, desenvolver as forças produtivas no campo sob novas relações sociais, sem que haja a exploração, opressão e alienação do trabalho. Precisamos desenvolver formas autossustentáveis de produção de energia em todas as comunidades, além de respeitar e demarcar todas as áreas dos povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e de pescadores artesanais. Do ponto de vista da educação, precisamos garantir nossa cultura e identidade social. Além disso, devemos combater de forma intransigente toda a violência contra as mulheres e crianças, garantir a formação técnica e política como instrumento de emancipação cultural, política e humana de todos os camponeses, sem nenhuma discriminação social.

JST - Como fica a composição das classes sociais no campo? GG - O setor capitalista, que representa o agronegócio, tem em torno de 450 mil estabelecimentos e controla cerca de 300 milhões de hectares. Há cerca de 400 mil trabalhadores assalariados e com vínculo empregatício nas grandes propriedades, e outros 1,8 milhões de assalariados temporários nas propriedades de 500 a 2 mil hectares, totalizando 2,2 milhões de trabalhadores assalariados para o agronegócio. O Censo do IBGE (2006) revela que esse contingente de trabalhadores, na década de 1980, era de 6 a 10 milhões. Portanto, houve uma redução muito grande do número de assalariados rurais. A conclusão é obvia: o agronegócio não gera emprego e por isso é uma atividade rentável apenas para os grandes capitalistas. Na condição social de camponeses, as estatísticas apontam o número de 4,8 milhões de agricultores familiares. Destes, apenas 1 milhão de famílias possuem renda que garanta a reprodução social da família. Os demais 3,8 milhões de camponeses pobres estão inviabilizados por esse Arquivo MST

JST - Como se deu a construção dessa proposta? GG - Com o agronegócio, a burguesia, o Estado e os governos assumem a posição de que não é mais necessária uma Reforma Agrária do tipo clássica para o desenvolvimento da agricultura brasileira. As terras e a forma de produzir alimentos são disputadas pelo agronegócio. Alterou-se a correlação de forças no campo, impedindo que a Reforma Agrária avance. Por isso ela está paralisada. Está bloqueada pela aliança de classes feita entre os grandes proprietários rurais, o capital financeiro, as empresas transnacionais que concentram terras e as políticas públicas, além dos meios de comunicação.

Por conta deste modelo houve um aumento significativo da produtividade agrícola por hectare e por trabalhador em todos os ramos de produção. Esse aumento da produtividade está combinado com o aumento de escala dos monocultivos bem como uso intensivo de agrotóxicos e máquinas agrícolas. Para continuar com a sanha de acumulação de riqueza por meio da produção agrícola, esse capital procura se expandir incorporando novas áreas para o agronegócio, sobretudo na região centro-oeste no bioma do cerrado, no sul da Amazônia e no chamado Mapitoba (sul do Maranhão e do Piauí, norte de Tocantins e oeste da Bahia).

Plenária da coordenação nacional

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013

modelo. Produzem basicamente para a subsistência e vendem um volume pequeno de produção. Entre eles, está a base social que lutaria pela terra e pela Reforma Agrária. Eles estão à margem deste projeto de agricultura do agronegócio, incluídos no Bolsa Família, mas completamente excluídos de políticas públicas estruturantes. JST - O que será preciso para que a Reforma Agrária Popular se popularize como uma reivindicação da sociedade? GG - Dependerá essencialmente de nossa capacidade de luta. Se é uma bandeira que vai favorecer toda a sociedade, esta terá que se mobilizar por meio de seus instrumentos organizativos. A classe dominante quer impor um projeto agrícola que vise atender o grande capital, e tem hegemonizado o debate de que a Reforma Agrária não é mais necessária. A classe trabalhadora terá que fazer a luta contra-hegemônica, pois só a ela interessa a Reforma Agrária Popular. Para o MST, a verdadeira Reforma Agrária será feita num outro modelo de sociedade. Só a força popular pode propor verdadeiras mudanças na agricultura. Temos que construir novas formas de luta, ampliar a produção de alimentos saudáveis a toda sociedade, persistir com a solidariedade e com nossas experiências bem sucedidas na área da alfabetização, além de avançarmos na área da comunicação popular. A força e a resistência do povo deverão ser hegemônicas para garantir as conquistas. A Reforma Agrária Popular, portanto, deve ser uma bandeira de toda sociedade. E já estamos no caminho, quando pautamos a Campanha contra os agrotóxicos, ou fortalecemos a luta unitária entre os movimentos do campo e da cidade, como a previdência

justa aos trabalhadores assalariados do campo, a luta pelo reconhecimento dos territórios indígenas e quilombolas, ou a luta contra os leilões do petróleo e a democratização dos meios de comunicação. JST - O lema foi definido: Lutar, construir Reforma Agrária Popular. Agora, quais as principais tarefas do militante do MST? GG - O papel do MST é continuar sendo a referência que sempre foi à classe trabalhadora, mantendo sua autonomia frente a governos e partidos políticos. Nossa tarefa é organizar os trabalhadores do campo e da cidade que ainda queiram lutar pela Reforma Agrária e pelas transformações sociais. Devemos continuar com os processos formativos,

“O setor capitalista, que representa o agronegócio, tem em torno de 450 mil estabelecimentos e controla cerca de 300 milhões de hectares” preparando novos militantes para todas as lutas que a conjuntura demandar. A única forma de alterar a correlação de forças é o povo mobilizado e consciente. Neste momento de reflexão, precisamos identificar nossas lacunas organizativas e as mudanças que serão necessárias para a melhoria da nossa prática, mas nunca perdendo a referência em nossos princípios, valores e estratégia política. A militância do MST está convencida de que precisa continuar fazendo o trabalho de base, fortalecendo os espaços de participação e de tomada de decisão desde a base. Aprendemos que o caminho é um só: organizar o povo e fazer as lutas de massa. Como diz o nosso novo lema, já aprendemos que a Reforma Agrária Popular depende da luta para construí-la. Vamos aproveitar esse tempo que temos antes do Congresso para dialogar com nossa base social sobre os desafios da Reforma Agrária Popular, fazer análises históricas do desenvolvimento capitalista e da correlação de forças na sociedade. Impulsionar esse debate é a tarefa de nossa militância neste momento.

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Jst 322  
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Lutar, Construir Reforma Agrária Popular! Rumo Ao 6º Congresso Nacional do MST: os desafios do movimento para os próximos anos, e a propost...

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