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lutadores do povo

Cabe-nos, agora, manter seu legado vivo nos nossos sonhos e atitudes

Adelar Pizetta Setor de Formação do MST

Dada a condição de operários de seus pais, desde muito cedo Reinaldo Antônio Carcanholo adquiriu consciência sobre a realidade dos trabalhadores, o que lhe causava indignação e provocava o espírito de rebeldia. Professor do Departamento de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo, Carcanholo nasceu em Sorocaba, interior de São Paulo, no dia 29 de agosto de 1945. Faleceu em 30 de maio de 2013, em Vitória, no Espírito Santo. Inteligente e dedicado aos estudos, no final dos anos 60 ingressou no curso de Economia na Universidade de São Paulo. Na militância estudantil, se vinculou aos grupos que lutavam contra a ditadura militar, inclusive os que defendiam a resistência armada, mas não chegou a entrar para nenhum destes. O engajamento político lhe rendeu a repressão, que passou a persegui-lo e o obrigou a ter uma atuação clandestina. Não havendo mais condições para permanecer no Brasil, foge para o Chile.

Foi um combatente dentro e fora da universidade para defender a importância da teoria crítica como arma e ferramenta de luta para os movimentos sociais Lá, conclui o Curso em Economia. Envolve-se nos processos sociais e revolucionários da Unidade Popular, liderada pelo presidente Allende. Em 1972 ingressa no Curso de Mestrado em Economia. Com o golpe militar de 1973 no Chile, busca asilo na Costa Rica, quando em 1978 ingressa no Doutorado em Economia na Universidade Autônoma do México (UNAM), sob orientação de Ruy Mauro Marini.

Arquivo MST

Reinaldo Carcanholo: um militante da emancipação humana

Foram cerca de 20 livros, dentre eles “Capital: essência e aparência”, da Expressão Popular

É necessário destacar sua atuação e solidariedade aos processos de libertação nacional que estavam em marcha na Nicarágua e em El Salvador. Com ousadia e coragem contribuiu sobremaneira com a Revolução Sandinista, participando de reuniões com os dirigentes da Frente Sandinista e Libertação Nacional (FSLN) e participando de processos de formação e educação popular.

De volta ao Brasil

Retorna ao Brasil em 1982, após quase quinze anos de exílio e militância internacionalista. Passa a atuar na Universidade Federal da Paraíba, buscando construir novas trincheiras de luta revolucionária, estruturando um Curso de Pós-Graduação em Economia de vertente marxista, tornando-se referência nacional e formando uma série de intelectuais e professores de distintas universidades brasileiras. Participa da criação da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Economia, da Sociedade Brasileira de Economia Política e da Sociedade Latinoamericana de Economia Política e Pensamento Crítico (SEPLA), em 2005. Todos esses processos, de intensa militância acadêmica e produção intelectual, buscavam promover e incentivar o trabalho acadêmico radicalmente crítico em economia. A partir de 1991 se vincula à Universidade Federal do Espírito Santo

Jornal Sem Terra • Set-out-Nov 2013

(UFES). Passa a contribuir de forma militante com os movimentos sociais e sindicais da região, em particular com o MST-ES, e logo em seguida ao MST Nacional e, nos últimos anos, como um importante professor da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Foi por intermédio de sua ousadia e por compreender a importância da formação em alto nível para os dirigentes e formadores dos movimentos que, em 2005, juntamente com o MST/ENFF cria o Curso de Especialização em Economia Política no Departamento de Economia da UFES, sendo o primeiro coordenador do curso, que se encontra na sua terceira edição.

movimentos sociais, em especial com o MST, mais um dos seus filhos – este por adoção – tão queridos”. Lega-nos o exemplo da solidariedade, do amigo que sempre foi em todas as horas. Sua simplicidade contagia e convoca a todos/as para seguir na mesma trilha do estudo e da luta. Foi um combatente nas trincheiras dentro e fora da universidade para defender a importância da teoria crítica como arma e ferramenta de luta para os movimentos sociais. Lega-nos uma obra em seus trabalhos escritos, em suas palestras e intervenções teóricas. Mas, acima de tudo, lega-nos seu próprio exemplo de vida. Demonstrou o amor à vida, deu sentido a ela até o último momento. Diante da gravidade da situação de saúde que o abateu, encarou a própria morte em pé! Cabe-nos agora, manter esse legado vivo por intermédio de nossos estudos, dos cursos de formação escolar ou não, das lutas e organização

Legados

Ademais de inúmeros trabalhos escritos e apresentados em eventos acadêmicos, de publicações em periódicos e revistas científicas, o Professor deixa cerca de vinte livros escritos, dentre eles o “Capital: essência e aparência Vol 1 e 2”, publicados pela Editora Expressão Popular. Como bem disse seu filho Marcelo, “meu pai dizia que se tem algo que caracteriza a essência humana é a rebeldia [...]. Em toda sua vida, acadêmica, política, militante, Reinaldo Carcanholo sempre teve o mesmo comportamento. Não importava se ele estava dando aula em um curso mais acadêmico-formal, ou em um trabalho militante com os

popular, nos sonhos e atitudes de rebeldia e esperança na construção de uma nova racionalidade humana, socialista, que supere as relações regidas pela ordem do capital. A ele o MST rende uma homenagem, e um tributo de continuidade na luta, com o nosso reconhecimento e compromisso com a causa que Reinaldo abraçou durante toda a sua vida, sem nenhum tipo de vacilação: a emancipação humana. Viva o Professor, o Militante, o Companheiro, o Revolucionário, o Socialista Reinaldo Carcanholo.

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Jst 322  

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular! Rumo Ao 6º Congresso Nacional do MST: os desafios do movimento para os próximos anos, e a propost...

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