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1ª EDIÇÃO – JUNHO/JULHO 2011

ENCARTE ESPECIAL JST 30 ANOS


JST 30 ANOS Militante relembra aspectos da constituição do JST, coloca sua importância para a organização e formação da identidade Sem Terra

O MST comemora neste ano os 30 anos do Jornal Sem Terra. Criado antes da fundação do Movimento, ele começou como um boletim de solidariedade às famílias acampadas em Ronda Alta, no Rio Grande do Sul. Em 1984, passou a ser um jornal de circulação nacional, para tratar das lutas, desafios e conquistas do povo Sem Terra. O Jornal Sem Terra publica uma série de três encartes especiais para marcar esses 30 anos de história, com o resgate de fatos importantes, elementos para reflexão, diálogo e ações. Uma delas é a campanha de assinaturas e leitura do jornal, que faremos junto à militância e à sociedade. Neste primeiro encarte, a entrevistada é Judite Stronzake, do Setor de Formação, que fez sua monografia na primeira turma do curso Pedagogia da Terra, na Universidade de Ijuí, sobre “O Jornal Sem Terra e a formação da consciência do Sem Terra do MST”. Apresentamos também capas das edições do jornal na década de 1980. já é mais do que um meio de comunicação. É um simbolo. O militante se identifica, tem afinidade, gosta dele.

JOANA TAVARES SETOR DE COMUNICAÇÃO

Jornal Sem Terra: O que a motivou a pesquisar o JST e quais as principais descobertas que a pesquisa trouxe? JS- A motivação foi tentar entender as razões que levaram à criação do Jornal Sem Terra, qual o contexto da época, o papel do jornal na organização do MST e na formação da consciência dos trabalhadores Sem Terra. O objetivo foi fazer um resgate histórico e discutir a contribuição do JST na formação da consciência dos Sem Terra do MST.As descobertas foram impressionantes, ao perceber que o jornal nasceu antes do MST e registrou um processo de gestação da organização das famílias Sem Terra, num primeiro momento no estado do Rio Grande do Sul e na região Sul. Depois disso o jornal acompanhou e registrou em palavras e fotos a história do MST, do Brasil e da América Latina. Tornouse um patrimônio ideológico da organização. O Jornal Sem Terra, para o MST,

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JST- Como foi o contexto de constituição do JST? JS- O Jornal Sem Terra nasceu em maio de 1981, como um Boletim Informativo Sem Terra, colado à realidade nacional e em especial à realidade em que viviam os trabalhadores sem-terra. Nasceu das circunstâncias criadas pelo processo histórico de luta de classes em que viviam os trabalhadores brasileiros. Naquele período era ditadura militar no Brasil. JST- Como surge o jornal? JS - O surgimento do JST e do MST foi consequência de vários acontecimentos que se desenvolveram especialmente a partir de 1978. Vários estados com muita luta de agricultores sem-terra se reuniam para debater, discutir os problemas e organizar formas coletivas de superação. Assim multiplicaram as ocupações no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São

Jornal Sem Terra, o porta-voz do MST Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Bahia, Rio de Janeiro, Goiás. JST- O que a história do JST tem de particular em relação a outros veículos de informação? JS- A particularidade do Jornal Sem Terra é que ele nasceu em um acampamento sem-terra. Nasceu em 1981 na forma de papel-ofício no acampamento de Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta, Rio Grande do Sul. Após cinco meses de acampamento começou a edição do Boletim. Chamava-se Boletim Informativo da Campanha de Solidariedade aos Agricultores Sem Terra. Era mimeografado, com tiragem de 700 exemplares, tinha 11 páginas, não havia uma clara

“O JST por si só não é formador da consciência. Ele é um instrumento para ajudar o MST a fortalecer a organicidade interna” definição do projeto gráfico. A primeira edição tinha na capa a “Carta dos colonos acampados em RondaAlta” e na segunda página foram expostas as atribuições do Boletim, que era principalmente manter constantemente informados todos os colaboradores da campanha de solidariedade, através de suas entidades, sindicatos e federações de trabalhadores rurais e urbanos, comunidades de base e também para ampliar a campanha de solidariedade em nível regional, estadual e nacional. A burguesia da época passou a utilizar os meios de comunicação nacional para combater a luta dos agricultores. JST- Era uma resposta dos trabalhadores... JS- Neste contexto começou a surgir uma grande campanha de solidariedade, na verdade era uma campanha política nacional em defesa da luta pela terra, em defesa dos camponeses. Então vinham pessoas do Brasil visitar o acampamento como forma de manifestação. Quando o Curió fechou a cerca da Encruzilhada Natalino, aumentou mais a necessidade de

ajudando a compreender e analisar a realidade. Apontar para o futuro, os grandes desafios, os rumos da luta, apontar o que fazer para o militante. Ele é uma espécie de porta-voz do Movimento.

número 17, de janeiro de 1982, ele passou a ser publicado quinzenalmente, passando a ser mensal em julho daquele mesmo ano. Notamos que havia preocupação com as crianças, com a poesia e a música. Também era clara a luta contra os meios de comunicação locais e estaduais, que mentiam sobre a realidade. O boletim refletia ainda sobre a necessidade das famílias organizarem-se em núcleos para fortalecer a resistência à repressão militar e sobre a importância do acampamento ser dirigido pelos próprios colonos.

ter informações.Assim o boletim cumpria um papel de divulgar na sociedade o que estava acontecendo no acampamento. Outro objetivo era criar unidade e integração entre as famílias acampadas. Ele era lido nas reuniões dos núcleos, que se reuniam por barracos, e também em assembleias. O coronel Curió tentou utilizar o método de comunicação de massa, porém de massa urbana. Ele usava alto-falante, os soldados distribuíam panfletos de barracos em barracos. Os conteúdos das mensagens eram para desestimular a organização e a luta das famílias que estava em marcha naquele momento. A luta ideológica já estava travada. As reuniões, o boletim informativo, as celebrações, assembleias eram eficazes e assim foi cada vez mais se aglutinando pessoas em torno da luta dos colonos sem-terra. JST- No seu trabalho, você distingue as fases do JST. Quais são as fases principais? JS- A escolha de organizar fases para contar a história do JST foi uma metodologia da pesquisa para facilitar a compreensão.A pesquisa foi realizada de maio de 1981 a junho de 2000. O primeiro período vai de 1981 a 1985. Podemos considerar a fase da gestação ao nascimento do JST. Era ainda – até 1984 – um boletim, que foi o reflexo e o portavoz do que ocorria na luta pela terra, em especial do acampamento da Encruzilhada Natalino. Nesta fase não tinha uma periodicidade definida, ele era elaborado quando havia informações importantes e novas. As primeiras edições chegaram a ser publicadas semanalmente. Depois do

JORNAL SEM TERRA • JUN/JUL 2011

JST- Qual o resultado? JS- A existência do boletim nesta fase conseguiu, de certa maneira, expandir as mensagens das famílias, produzindo um efeito na sociedade. A segunda fase vai de 1986 a 1994, e corresponde ao crescimento e consolidação do MST e também do próprio Jornal Sem Terra. O jornal passa a incorporar ainda mais a ideologia do Movimento, os princípios,

a necessidade de organizar os trabalhadores sem-terra de todo o Brasil. Procurava tratar sempre dos desafios do MST, levá-los a todos os militantes. A terceira fase vai de 1995 a 2000, e representa a consolidação da identidade do Jornal Sem Terra. Nesse período, o jornal retratou a problemática da realidade brasileira e do MST, pois o modelo de agricultura do governo foi contrário à Reforma Agrária. Neste período, o Setor de Comunicação deixou de ser sinônimo do JST, houve um avanço sobre o caráter e o entendimento das tarefas políticas do JST e da comunicação do Movimento.

JST- Quais são os principais objetivos do JST? JS- O jornal faz parte da organicidade e da formação do Movimento. O JST por si só não é formador da consciência. Ele é um instrumento para ajudar o MST a fortalecer a organicidade interna. Ele não tem pernas nem bracos, não é uma estrutura orgânica em si. Depende das pernas e braços dos militantes para se locomover, movimentar e percorrer o Brasil afora espalhando as ideias, experiências e sonhos. A relação entre o JST e a organicidade leva à ação, consequentemente ajuda no processo de formação da consciência. O jornal deve estar a serviço da organização, pois ele cumpre sua função na medida em que traz artigos de reflexão, que orienta o militante a estudar, que promove a discussão, que coloca os desafios do Movimento. JST- Como o jornal ajuda a fortalecer a organicidade? JS- Ele deve provocar o militante a debater nas suas instâncias e com isso gerar uma mudança na sua prática. O JST é um complemento da organicidade, onde tem organicidade então ele ajuda a avançar, a fluir a organização. Outro objetivo é ajudar na unidade política, revelando que a realidade e os problemas sociais são comuns a todos os estados e regiões. Ajuda a fortalecer o processo de unidade do Movimento, a pensar sobre a realidade. Ele é um construtor de ideias e pensamentos coletivos. Deve ajudar a manter a unidade política em torno de programas, planos, símbolos, ideias, estratégias, táticas. Explicar por meio das informações,

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JST - E quais seriam os principais desafios? JS- Temos muitos desafios em relação ao JST. Um é de natureza orgânica, que envolve as questões de distribuição, utilização. Precisamos recuperar a ideia do zelador do jornal, para ele ser utilizado nas escolas, cursos de formação. Outro desafio tem uma natureza formativa, está ligado à necessidade de consolidarmos as iniciativas de comunicação já existentes e criar outras maneiras para formarmos

“Em todo esse tempo, o JST só conseguiu informar os militantes porque teve a capacidade de colocar-se em contato com os próprios militantes” os militantes comunicadores. Há ainda o desafio de natureza prática, financeira. É preciso superar as dificuldades econômicas, buscando formas junto à militância e aliados. Outro desafio é de natureza política, garantir o acompanhamento político na elaboração e produção do jornal. É uma responsabilidade política do MST a construção de coletivos com militantes responsáveis pelo JST.

JST- Qual a contribuição do JST para a formação da identidade Sem Terra e para a própria luta? JS - O jornal em toda sua existência e circulação cumpriu com algumas tarefas, nos deixando lições históricas de sua contribuição com a formação da consciência dos Sem Terra organizados e mobilizados pelo MST. O JST contribuiu como ferramenta de contar e registrar a história do Movimento, reflete exatamente o que é o MST. Contribuiu também como ferramenta de informação dos Sem Terra, fazendo um desvelamento da informação transmitida nos meios de comunicação tradicionais. Em todo esse tempo, o JST só conseguiu informar os militantes porque teve a capacidade de colocar-se em contato com os próprios militantes. Também contribuiu historicamente como uma ferramenta de estudo e fonte de conhecimentos gerais. Contribui como ferramenta de construção da organicidade. JST- Qual o papel do Jornal na formação da consciência? JS- É como se fosse o fio condutor, mas se não estiver ligado a alguma coisa, o fio não dá choque, não produz a luz. Então o jornal a grosso modo é isso, o fio condutor. Mas a verdadeira energia elétrica que forma a consciência é a combinação dos elementos de formação política, organicidade e mobilização. Ele ajuda na denúncia dos problemas sociais do povo brasileiro e da América Latina. Serve como ferramenta de alimento do belo e esperança. Ajuda sendo uma ferramenta de agitação e propaganda da luta da classe trabalhadora. Por último, ele possui uma contribuição no aspecto de formação da identidade simbólica. O jornal é mais que um meio de comunicação, ele é um símbolo para os militantes.

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Encarte especial faz parte da campanha de leitura e assinaturas do Jornal Sem Terra

Por uma comunicação dos trabalhadores e trabalhadoras O encarte especial JST 30 anos faz parte da campanha de leitura e assinaturas do Jornal Sem Terra. O lema da campanha é Jornal Sem Terra: Por uma comunicação dos trabalhadores e trabalhadoras. Leia e assine!

“Leio sempre o Jornal Sem Terrinha. Gosto muito dos textos, mas às vezes eu não entendo. Aí eu pergunto pra minha mãe ou alguma educadora. Acho importante ter um jornal para as crianças, porque mesmo as crianças que não sabem podem aprender coisas novas. Acho que o jornal poderia ter mais brincadeiras”. Gabriel Sarmento Martins, Comuna da Terra Dom Tomás Balduíno, em Franco da Rocha (SP)

“A mídia não trata das lutas dos trabalhadores. Ou não é notícia, ou tratam para criminalizar. Assim, uma publicação como o Jornal Sem Terra cumpre dois papéis: ser um contraponto à mídia conservadora e trazer informações de temas tão importantes como a luta pela Reforma Agrária, a realidade da agricultura familiar, o combate ao latifúndio”. Altamiro Borges, jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB

“Entrei no MST pela porta de entrada do Jornal. Fui convidada pelas lideranças para ser zeladora do JST em Rondônia. Divulgava o jornal para os aliados, mandava notícias do estado e buscava garantir para que ele chegasse até à base dos acampamentos”. Itelvina Masioli – Setor de Relações Internacionais

A campanha tem dois eixos: estimular a leitura e ampliar o número de assinantes. A meta é fazer 5.000 novas assinaturas do jornal, entre agosto deste ano e o 6º Congresso Nacional do MST, em 2012. Faça a sua parte!

30 anos JST Exalta o povo brasileiro Pela ordem e decisão A saga de um povo guerreiro De um país de tradição E o Jornal Sem Terra é parceiro Por uma nova comunicação. São três décadas de história Dando voz ao camponês Divulgando na memória Afrontando o Estado burguês O JST é a trajetória E o povo é quem o fez. Parabéns por 30 anos De valores carregados Aqui nós comemoramos As vitórias nos estados Vemos sonhos realizados E os Sem Terra informados. Um jornal de tradição De cultura e valor Que resgata a educação De nosso povo trabalhador E convida a nação A ser nosso zelador.

O encarte especial apresentará nas suas três edições depoimentos de militantes do MST, amigos do Movimento e leitores sobre a importância do jornal. A publicação faz parte da trajetória de todos que fazem parte do Movimento.

“Nesses 30 anos, o Jornal Sem Terra se consolidou como parte do MST. Temos muitos outros materiais que circulam entre nós, mas não estamos dando conta da importância do jornal para o acampado novo, para quem vai conhecer a luta pela Reforma Agrária e também para a unidade entre todos do Movimento”. Izabel Grein, MST PR

“O Jornal Sem Terra foi nestes 30 anos e continua sendo uma ferramenta importante de luta pela Reforma Agrária e na luta de classe. Nesses 30 anos fez combate permanente contra o latifúndio, contra a monocultura agro-exportadora e contra todo o tipo de violência e injustiça cometida contra os que lutam pela Reforma Agrária e contra todas as injustiças cometidas contra a classe trabalhadora em qualquer parte do mundo. Defender, fortalecer e ampliar o Jornal Sem Terra é nossa tarefa militante” Jaime Amorim – MST PE

Hildebrando Silva de Andrade, militante do MST RN Mande depoimentos, textos, poemas e fotos para as próximas edições para jst@mst.org.br. Quando você leu o JST pela primeira vez? O que você achou? Qual a contribuição para a sua militância? Entre também para a história do nosso jornal!

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JORNAL SEM TERRA • JUN/JUL 2011


JST 30 anos - encarte especial - edição 1