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PÁGINA ABERTA JUNHO 2010

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ENTREVISTA

Página Aberta - Qual a contribuição do COS para a comunicação alagoana? Antônio Freitas - Contribui para melhora do nível profissional dos comunicadores no estado. Mais de 90% dos profissionais que atuam nos diversos meios de comunicação são formados pela UFAL e possuem uma boa formação crítica mesmo vendendo sua força de trabalho aos grandes monopólios da comunicação. Página Aberta - Hoje, tanto no aspecto da infraestrutura quanto na qualidade do ensino, qual é a atual situação do COS? Antonio Freitas - O curso de comunicação está montando uma pós-graduação, mas não possui infraestrutura adequada para manter aproximadamente os 500 alunos que possui. O curso não dispõe de salas de aula em quantidade suficiente para atender todo o seu corpo docente e discente, tanto que, se utiliza de outro bloco. Não temos salas para realizar reuniões, não temos equipamentos apropriados, a universidade não propicia um clima agradável para o desenvolvimento intelectual dos alunos. Tanto que estou numa sala emprestada e compro material com recursos próprios. Queremos um bloco decente, com laboratório multimídia, agência de relações públicas e um auditório. Sem contar que os professores dão as aulas com salas abarrotadas de alunos para nossa estrutura. Página Aberta - A UFAL tem recebido recursos do REUNI, mas o bloco de comunicação não vem recebendo investimentos necessários. O que o senhor pensa sobre isso? E as duas entradas anuais? Antonio Freitas - Eu acho que a UFAL deve promover a entrada das pessoas, principalmente as que não podem pagar um particular, pois ela tem um papel de evitar a exclusão social. Mas esse ingresso dos estudantes deve ser acompanhado pela contratação de professores, não pode haver superlotação como vem ocorrendo, a produção é feita com muito sacrifício, não oferecem uma alimentação de qualidade, não temos um espaço verde; os alunos devem brigar por melhores condições.

curso de Agronomia. Há 25 anos lecionando pela Universidade, Antonio Freitas foi um dos pioneiros na implantação do Curso. Em conversa com a Equipe do Página Aberta, Freitas falou sobre a obrigatoriedade do diploma, a atual estrutura do COS, e sobre a grade televisiva alagoana.

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A TV é o grande livro do analfabeto Página Aberta - Ano passado a Universidade Particular Metodista de SP e a USP foram eleitas as melhores universidades de comunicação do Brasil em evento realizado pela Editora Abril. O curso de comunicação da UFAL está gabaritado a formar profissionais a competir no mesmo patamar no mercado de trabalho? Antonio Freitas - Essas universidades são paradigmáticas, tem uma tradição, temos uma realidade diferente. A USP recebeu muitos recursos por parte do governo. UNICAMP, USP se localizam na região mais rica do país, recebem um investimento maior, não dá para comparar com um estado abandonado, vivemos outra realidade. Nós somos jovens, temos 30 anos, em nível de academia não é nada; A Universidade do Porto – onde fiz pós-doutorado – tem 250 anos. Temos condições de formar, esse REUNI copia o processo de Bolonha para criar centros de excelência.Criar ilhas de preferências para o envio de verbas, vai haver uma relação onde universidades irão receber recursos e outras não. Estamos tentando montar um mestrado com professores sem experiência. A universidade pode contribuir com 10% o resto é com os alunos.

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Estamos tentando montar um mestrado com professores sem experiência Página Aberta - O telejornalismo sensacionalista ainda faz muito sucesso; nosso estado é representado por dois programas policias de bastante apelo popular. O que o senhor pensa sobre esse gênero jornalístico?

Antonio Freitas - Programas populares dão maior audiência, é usado baixos instintos, linguagem chula, Alagoas não está desconectada do resto do Brasil. Big brother Brasil não ajuda a pensar, o caso Nardoni se transformou em uma programa de audiência; eu me pergunto: não existe um botão para mudar o canal? Ninguém é obrigado a assistir, é necessário fazer uma pesquisa de recepção; será que não é oferecido outro tipo de programação? A sociedade de baixo nível educacional faz com que há uma penetração ou não? Talvez elevando o nível educacional esse tipo de programa perca audiência, não é só o campo da comunicação que responde, precisa-se do auxilio da psicologia. O sangue impacta, esse produto vende mais; a mídia ocupa o lugar da escola, a TV é o grande livro do analfabeto. Página Aberta - Com o fim da obrigatoriedade do diploma, o curso de jornalismo tem o risco de desaparecer das instituições de ensino superior? Antonio Freitas - Eu sou favorável a obrigatoriedade, nós vivemos numa sociedade bacharelesca, é uma questão de prioridade do saber, tem que haver uma igualdade no campo das profissões. Por que um médico tem que ter diploma? Hipócrates não tinha. Antigamente não existia diploma e sim conhecimento adquirido, o homem já o possuía. O diploma dá o

O poder não é ingênuo nem neutro. Se eu fosse dono de rádio ou TV iria acabar com a obrigatoriedade do diploma

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Fundado no início da década de 80, o curso de comunicação da UFAL contava apenas com a parte teórica e suas aulas eram ministradas no ICHCA - Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes - depois de muita luta por parte de professores e alunos o curso transferiu-se para o atual prédio, onde funcionava parte da estrutura do

reconhecimento de sua respectiva área, o diploma é o ritual pelo qual passamos na área de atuação. Eu posso falar que não precisa de diploma de Direito, pois pode ler um livro constitucional e elaborar uma defesa. A cultura é bacharelesca, o argumento é falacioso, está por trás o argumento da mídia. Um terço do congresso é dono da mídia, o poder não é ingênuo nem neutro. Se eu fosse dono de rádio ou TV iria acabar com a obrigatoriedade, jornalismo é crítico, há um jogo de interesses. Página Aberta - Quais as perspectivas para o futuro do curso na UFAL? Antonio Freitas - O futuro quem constrói são os alunos e os docentes. Tem que haver uma mobilização para lutar, não podemos ficar na teoria, temos que trabalhar com a apresentação e a prática, temos que debater para mudar, temos que buscar alternativas. O curso é nosso, o processo é de renovação, os estudantes não podem esperar sentados, é necessário usar e vivenciar o conhecimento.

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Com o fim da obrigatoriedade do diploma, o curso de jornalismo tem o risco de desaparecer das instituições de ensino superior? Eu sou favorá...

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