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Tragédia em praça pública Página 20

Rio Branco – Acre, TERÇA-FEIRA, 29 de novembro de 2011

Haitianos que usam o Acre como rota de fuga da miséria em seus país, transformam Brasileia em campo de refugiados, e município está à beira do caos ‹Textos: ‹ Tião Maia Fotos: Regiclay Saady

E

les começaram a chegar aos poucos, em pequenos grupos. No início, há cerca de um ano, o maior grupo contava cerca de 150 indivíduos. Parecia uma questão emergencial. Hoje, a ameaça é de permanência e os grupos de recém-chegados, que não param de crescer, já contam cerca de 1.500 pessoas, incluindo mulheres grávidas e crianças, todos famintos, muitos portadores de doenças graves, fugindo da pobreza, da epidemia de cólera e de Aids, da violência e de um país devastado pela miséria e por um terremoto de 7,0 na escala Richter, que atingiu praticamente todo seu território e provocou a morte de pelo menos 100 mil pessoas, 300 mil feridos e mais de um milhão de desabrigados. São refugiados do Haiti, que vêm entrando no Brasil através do Acre numa fuga desesperada em busca de solidariedade e trabalho. Eles escolheram o município de Brasileia, na fronteira com a Bolívia e o Peru, como ponto de parada para reiniciar suas vidas, mas ali

estão enfrentando situações tão adversas quanto a que vivenciaram em seu país. Com suas tranças negras sempre a adornar um sorriso e sorriso belo oferecido a quem quer que seja, Hanflor é uma graça de criança. Há três meses, mesmo que tenha desembarcado em solo brasileiro de forma clandestina como todos os seus patrícios, ela é (pelo sorriso e pelos beijos que vive a disparar para quem está à sua volta), provavelmente, a personagem mais popular de Brasileia, quase uma unanimidade ao ponto de várias famílias da comunidade estarem dispostas a adotá-la. Aos 2 anos de idade, Hanflor também é haitiana. E refugiada. Com seus passinhos miúdos e sempre segurando a mão de quem se dispõe a acompanhá-la, a sorridente Hanflor tem nas caminhadas pelas ruas de Brasileia um de seus passatempos preferidos. O mesmo passatempo de seus patrícios adultos, que também não têm o que fazer, mas nenhum motivo para sorrir. De tanto caminhar pelas ruas, dia e noite, como perdidos, eles já foram comparados a vampiros, uma clara referên-

Refugiados haitinaos chegam ao Acre diariamente às centenas trazendo mulheres grávidas e crianças como Hanflor, de 2 anos

cia preconceituosa à prática do vodu, uma crença sincrética haitiana que combina elementos do catolicismo e de religiões tribais da África, com fortes semelhanças com o candomblé praticado no Brasil. O principal elemento da crença invoca ritos tribais nos quais um feiticeiro

crava agulhas em um boneco de pano de modo a fazer com que a vítima ali representada, mesmo a quilômetros de distância, sofra dores e doenças terríveis. “O preconceito é o grande mal da sociedade contemporânea”, filosofa o padre Rutemar Crispim, pároco de Brasiléea e que

tem sido, a despeito de algumas críticas de fiéis católicos, um ponto de apoio às centenas de haitianos que chegam ao município todas as semanas. A grande maioria dos haitianos acampados em Brasiléia, no entanto, está vinculada às religiões cristãs pentecostais. O problema dos haitianos no município, aliás, não é novo. Começou logo após o dia 12 de janeiro de 2010, quando ocorreu aquele que foi classificado como um dos maiores terremotos já registrados na história da humanidade e que, além da tragédia humana, veio chafurdar ainda mais a combalida economia de um país de dez milhões de habitantes historicamente espoliados por seus colonizadores (Cristóvão Colombo já aportara por lá em 1492) e que lidera o ranking da pior economia das Américas e com muita chance de figurar entre as piores do mundo. De acordo com números divulgados por agências que estudam o desenvolvimento internacional, mais de 80 por cento da população do Haiti vive hoje com menos de um dólar diário, o número mínimo estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para diagnosticar as sociedades e economias classificadas como as que vivem abaixo da linha da pobreza absoluta. A se confirmar esses números, o Haiti é uma tragédia. Uma hecatombe social.


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Um cenário de guerra Uma tragédia que se desenrola também a milhares de quilômetros do território haitiano. O Hotel Brasileia e a Praça Hugo Poli, no centro da cidade, são o palco desse teatro de horror que começa a incomodar a sociedade local e o próprio Governo do Estado. A propósito, é o dono do Hotel Brasileia, Sérgio Tuma, que revela a capacidade de ocupação do lugar: 30 apartamentos com possibilidade de hospedar até três pessoas por cômodo. Como na última sexta-feira 25 de novembro, havia no local 340 pessoas, o resultado não poderia ser outro: uma visão de acampamento, cenas típicas de campos de refugiados: homens, mulheres e crianças, muitos dos quais que sequer se conheciam anteriormente, dormindo amontoados, de forma improvisada, sobre e sob mesas, pelos corredores, no jardim, onde fosse possível. Banheiros escassos, promiscuidade absoluta, visão dos campos de concentração de triste memória para a humanidade e algo inconcebível para a sociedade contemporânea. Um autêntico cenário de guerra. De uma guerra pela sobrevivência com cenas que se espalham por

outras hospedarias da cidade e que se completam com mulheres esquálidas abanando fogareiros improvisados nos quintas nos quais tentam cozinhar um pouco de comida desde que o Governo do Estado e a sociedade local, sem controle da situação, passaram a diminuir a ajuda e assistência a um número de refugiados que só cresce a cada dia. “A gente não pode prever o número de refeições diárias porque todo dia o número de pessoas cresce”, diz a dona do restaurante que fornece parte das refeições pagas pelo governo. “O grande problema envolve as crianças, que não comem a comida tradicional. Elas precisam de leite, de frutas e de alimentos menos sólidos”, diz dona Conceição Silva, dona do restaurante “Bom Sucesso”. Um problema que, naquele dia de sábado, 26 de novembro, iria aumentar com a chegada de novos 27 refugiados, entre os quais quatro crianças. Os 27 novos problemas foram recebidos, como ocorre a cada chegada de novos grupos, com efusivas manifestações de apreço, com direito a gritos e danças tribais de seus patrícios. Eles chegam quase sempre da

mesma maneira: nos finais de semana, na calada da noite (quando a fiscalização da Polícia Federal, por falta de estrutura, é arrefecida), em táxis bolivianos contratados assim que desembarcam em Iñapari, em território peruano, e que percorrem a chamada “Estrada do Tráfico”, já em território boliviano, até a chegada a Cobija e de lá para Brasileia. A Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), que monitora a questão dos refugiados, trabalha com informações de que os haitianos, para chegar ao Brasil, estão sendo orientados pelos chamados “Coiotes”, mercenários que atuam na fronteira do México com os Estados Unidos, que cobram pela imigração ilegal para território norte-americano e que estariam expandindo seus negócios com os haitianos tangidos para o Brasil. “Temos informações de que os mercenários cobram US$ 1.500 para retirarem os refu-

No cenário típico de acampamento de refugiados, homens, mulheres e crianças dormem amontoados no Hotel Brasileia

giados do Haiti e trazê-los até a fronteira com o Brasil”, disse o secretário de Justiça e Direitos Humanos, Nilson Mourão. De acordo com o secretário, os refugiados estão deixando o Haiti de avião até a República Dominicana, de lá voam para o Panamá, passam pelo Equador e chegam ao Peru. De Lima ou de Cusco, viajam de carro até Porto Maldonado e daí a Iñapari, capital da província de Tahuamanu, de onde seguem até a fronteira com o Acre. Diante da chegada de novos

grupos de refugiados, o funcionário público escalado pelo governo do Estado como o assessor para assuntos relacionados aos haitianos, Damião Pacífico, incubido de por alguma ordem naquele caos, pergunta, desolado, ao repórter “Quando isso vai parar? Quando esta reportagem estava sendo escrita, o governador Tião Viana anunciava que estava em Brasília, prestes a ser recebido pelo ministro das Relações Exteriores, para tratar do assunto.

Desesperada, refugiada haitiana improvisa a feitura da ração diária no fundo do quintal de uma pensão em Brasileia


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ECIAL

Políticos já defendem a expulsão No meio de um cenário de guerra, Hanflor e os amiguinhos de sua idade brincam alheios à desolação e à tristeza. É a alegria da menina que faz sua popularidade na cidade. Agentes federais, funcionários da imigração, enfermeiros e todas as demais pessoas que mantêm contato com ela e são aquinhoados com seus beijos, querem colocá-la no colo, tirar fotografias, beijá-la. “Eu vou ficar muito triste quando ela for embora. Ela é uma graça mesmo”, disse Margarete Tuma, a irmã do dono do Hotel Brasiléia, e que mora em frente à praça onde os refugiados costumam se reunir. “Praticamente toda cidade quer ficar com ela”. A situação de Hanflor é diametralmente oposta a de seus patrícios. Em função do número de refugiados e da chegada cada vez freqüente de novos grupos, já há quem defenda, abertamente, a expulsão dos haitianos. É o caso do deputado estadual Astério Moreira (PRP), que vem a ser cunhado da prefeita de Brasileia, Leila Galvão, o qual não esconde o desconforto com a presença dos haitianos no município. “Isso não vai poder continuar. A cidade está à beira do caos”, denunciou o deputado, que faz parte da bancada evangélica na Assembleia Legislativa. Mais moderado, o vereador João Raimundo Araú-

Foto: Tião Maia

Nilson Mourão denuncia situação em Brasília através de relatório ilustrado

jo de Melo, o “Joãozinho”, não defende a expulsão pura e simples dos refugiados, mas acha que alguma coisa precisa ser feita. “A estrutura de Brasileia é muito pequena para atender esta demanda por serviços básicos, de saúde, de assistência. Isso é algo que tem ser assumido pelo Governo Federal”, disse o vereador. A prefeita Leila Galvão confirma que está muito preocupada. “A gente não sabe como isso vai parar porque temos informações de que mais refugiados estão desembarcando na fronteira e a caminho da nossa cidade”, disse. Embora também não defenda a expulsão dos refugiados, do alto de seu 1m50, o secretá-

rio Humanos do Acre, Nilson Mourão, vagava, na semana passada, pelos corredores do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, tentando chamar a atenção do governo federal para o problema, que é muito mais grave do que se pode imaginar, ele dizia. De posse de um relatório ilustrado inclusive com fotografias com as que ilustram esta reportagem, o secretário confirmou que estão chegando também imigrantes de outros países como Gana, Tanzânia, Paquistão e Cuba. O mais grave de tudo, segundo o relatório do secretário, é que “muitos haitianos não estão passando pelos procedimentos sanitários de praxe, tais como exames e vacinas

recomendas”. Isso significa que, entre os refugiados que chegaram ao Acre, seguramente há contaminados com o vírus da Aids, doença que atinge pelos menos cinco por cento da população haitiana, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Como os haitianos doentes têm procurado o serviço público de saúde de Brasileia, sendo comum serem encontrados nas filas em busca de socorro, muitos pacientes brasileiros, que também precisam de cuidados médicos, estariam se recusando a procurador hospitais e centro de saúde, com medo de contaminação. “Por isso, eu sugeri, em indicação na Câmara Municipal, que a secretaria municipal de saúde estabeleça um dia e um horário específico para atender só os haitianos, porque muita gente da nossa sociedade não quer se misturar com eles, mesmo nos centros de saúde, com medo de doenças como a Aids”, disse o vereador “Joãozinho”. Ao pedir socorro ao governo federal para a questão, o relatório do secretário Nilson Mourão revela que, além das dificuldades na área de saúde, o governo está encontrando dificuldades na expedição de documentação para os refugiados. Por falta de estrutura, a Polícia Federal em Brasileia ex-

pede apenas três protocolos de imigração por dia. Sem documentos brasileiros, os refugiados não podem trabalhar. Sem alternativa de renda, começam a ser aliciados por traficantes de drogas que infestam a região. “Isso nos preocupa”, disse o delegado de polícia em Brasiléia, José Alves. “O que ajuda é que, ao que consta, eles não tem uma índole criminosa”, admite o delegado. Mesmo assim, há quem diga que algumas mulheres refugiadas estariam se prostituindo, principalmente em Cobija, na Bolívia, onde os haitianos não vem encontrando qualquer tolerância ou solidariedade. Homens e mulheres são expulsos e reclamam que sofrem extorsões.

“Joaozinho” propõe segregação em postos médicos

Ídolos do futebol seriam a causa da atração pelo Brasil Há todos os tipos de profissionais entre os imigrantes. A grande maioria, entre os homens, está na faixa etária dos 20 a 45 anos. São marceneiros, carpinteiros, pintores, pedreiros, músicos e até estudantes de Direito – todos no auge de sua força de trabalho. As mulheres têm profissão mais modesta, geralmente vinculadas a atividades domésticas. Mas há também cabeleireiras e até uma jogadora de futebol, Destina Anexante, de 28 anos, que chegou a jogar na seleção oficial feminina haitiana e que foi obrigada a deixar o futebol por pressão de seus pais, que não admitiam uma mulher praticando um esporte atribuído no Haiti apenas aos homens, e também porque, como o terremoto, a seleção nacional também se desintegrou. Destina espera que, no Brasil, onde chegou no último dia 26 como integrante do grupo de 27 novos refugiados, tenha uma chance de mostrar suas habilidades como jogadora. Seu maior sonho, claro, é ver de perto (e quem sabe jogar a seu lado) a alagoana de Dois Riachos Marta, pelo terceiro ano consecutivo eleita pela Fifa a melhor jogadora de futebol do mundo.

Destina e sonho de jogar com Marta

Chery: paixão pelo futebol do Brasil

O futebol, aliás, parece ser o elo que liga os haitianos ao Brasil. Sociólogos têm dito que parte da preferência dos refugiados pelo Brasil se deve ao contato dos haitianos com militares do Exército Brasileiro desde que os nossos soldados passaram a integrar a missão de paz das Nações Unidas no país, em abril de 2004, para restaurar a ordem após um período de insurgência e de violentos conflitos causados pela deposição do então presidente Jean-Bertrand Aristide. As outras razões seriam a falta de fiscalização nas fronteiras do país e o reconhecido sentimento de acolhida e solidariedade dos brasileiros. Pode ser, mas são os próprios refugiados

que informam a principal razão de sua escolha pelo Brasil na hora de abandonar o Haiti: o futebol e a sensação de algum jeito de se aproximar, física e geograficamente, de ídolos como Ronaldo “Fenômeno”, Ronaldinho e Robinho. É o que revela o estudante de direito haitiano Esdras Helton, de 30 anos. Há sete meses vivendo no Brasil, professor de inglês em Rio Branco, ele já se comunica em bom português e, aos finais de semana, vai a Brasileia ministrar aulas sobre a língua oficial e a cultura para seus compatriotas. Aulas ministradas em criolo e francês, as duas línguas oficiais do Haiti. Segundo ele, nove entre dez haitianos ado-

ram a Seleção Brasileira e tem nos dois Ronaldos, mesmo que um deles tenha se aposentado, e em Robinho seus principais ídolos. “Acho que isso começou quando os haitianos vieram de perto a seleção e os jogadores brasileiros que tanto admiram”, disse Esdras, se referindo ao jogo realizado em 2004, com a seleção sob o comando Carlos Alberto Parreira, em que o Brasil, com dois gols de Roger, três de Ronaldinho Gaúcho e um de Nilmar, venceu a frágil seleção haitiana, que então ocupava o número 95 do ranking da Fifa. Apesar da derrota, os haitianos, que haviam feito festa para os brasileiros logo na chegada da seleção, continuaram a festejar os brasileiros pelas ruas de Porto Príncipe mesmo após o jogo em que foram derrotados por seis a zero. “Nenhum haitiano esquece aquele dia de alegria e felicidade”, diz Esdras, se virando para os compatriotas, sentados em círculo, pedindo a confirmação, em crioulo, sobre o que ele havia dito. Todos, em coro, incluindo as mulheres, respondem que sim, com a mão para cima, como um juramento. Envergando uma camisa da seleção brasileira, com o escudo

da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) sobre o peito, Chery Dienne, de 31 anos, está no Brasil na companhia de mais três irmãos. O orgulho de envergar uma camisa da seleção de futebol de seu coração só não é maior do que o orgulho de trabalhar e ganhar o dinheiro com o qual pretende ajudar o restante da família que ficou no Haiti, revela o agora operário da empresa Consórcio Tarauacá, que trabalha no programa “Ruas do Povo”, em Epitaciolândia. Chery e seus três irmãos são elogiados por sua dedicação ao trabalho pelo responsável pela obra, o engenheiro Abdel Derze. “Eles são ótimos como operários. Se a gente disse que será preciso varar a noite trabalhando, eles não prostetam nem fazem cara feia como os brasileiros. Trabalham com disposição e alegria”, disse Abdel. “E o melhor é que a gente não precisa se preocupar com o grupo. Meu canal de comunicação é com o mais velho, que repassa a orientação aos irmãos. Na cultura deles, o mais velho será sempre o líder do grupo”, avaliou Abdel.


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ESPECIAL

O drama de quem perdeu tudo e, para sobrevier, tem que doar os filhos “Eu ama Brasil, mas um dia vai voltar para o Haiti”, diz, em português ainda claudicante, Amos Saint Justem músico profissional (toca guitarra e piano), outro refugiado em busca de emprego. Ele quer saber dos repórteres que o entrevistam se há muitas casas noturnas em Rio Branco e se há espaços para músicos estrangeiros. Ele diz que ama a Música Popular Brasileira, admira Gilberto Gil e Caetano Veloso e revela que espera ganhar dinheiro no Brasil, mas, como diz, espera poder voltar ao Haiti um dia. “Meu coração sempre será do Haiti”, diz o pintor de paredes Alex Juijkel. “Terei Brasil no coração, mas sou haitiano”, acrescenta, revelando o que parece ser o sentimento da maioria de quem está, por contingências econômicas, sendo obrigado a aceitar uma segunda pátria. Mas há também quem se divi-

mas que, por erro na hora do embarque no Equador, seu marido foi parar em Tabatinga, no Amazonas (Estado que tem recebido também muitos refugiados haitianos), enquanto ela foi parar em Brasiléia. Desesperada, ela pensa em doar o filho que traz no ventre, assim que nascer. “Ela não diz que só não doará o filho

Fabe, grávida, pensa em doar o bebê

Amos procura emprego como músico

da ao meio, literalmente. É o caso de Fabe Luciana, de 30 anos. Mãe de dois filhos, um de oito anos, que ficou no Haiti, com os avós, e Isabelita, de pouco mais de um ano, que nasceu no Equador, logo após o início da diáspora

haitiana rumo à América Latina. Grávida de oito meses, Fabe está separada do marido, Ronald Filistem, por questões grográficas. Com ajuda de Esdras Helton, o intérprete, Fabe diz que ama o marido e que também é amada,

se reencontrar com o marido e se conseguir emprego”, afirma Esdras. Mesmo assim, há várias famílias interessadas na adoção. Afinal, as crianças haitianas, com suas tranças características, como é o caso de Hanflor, fazem sucesso entre as famílias brasileiras. O sucesso almejado pelos haitianos adultos.

Esdras (de camisa amarela) ministra aula sobre o Brasil aos patrícios refugiados

Haiti foi o primeiro país a abolir a escravidão A história do Haiti remonta a 7000 mil anos. Os primeiros humanos a habitar esta ilha, conhecida como Quisqueya, seriam índios arauaques (ou taínos) e caraíbas. Em 5 de dezembro de 1492, Cristóvão Colombo chegou a uma grande ilha, à qual deu o nome de Hispaniola. Mais tarde passou a ser chamada de São Domingos pelos franceses. Dividida entre dois países, a República Dominicana e o Haiti, é a segunda maior das Grandes Antilhas, com a superfície de 76.192 km² e cerca de 9 milhões de habitantes. Com 641 quilômetros de extensão entre seus pontos extremos, a ilha tem formato semelhante à cabeça de um caimão, pequeno crocodilo abundante na região, cuja “boca” aberta parece pronta a devorar a pequena ilha de La Gonâve. O litoral norte abre-se para o oceano Atlântico, e o sul para o mar do Caribe (ou das Antilhas). Já no fim do século XVI, quase toda a população nativa havia desaparecido, escravizada ou morta pelos conquistadores. A parte ocidental da ilha, onde hoje fica o Haiti, foi cedida à França pela Espanha em 1697. No século XVIII, a região foi a mais próspera colónia francesa na América, graças à exportação de açúcar, cacau e café. Após uma revolta de escravos, em 1794, o Haiti tornou-se o primeiro país do mundo a abolir a escravidão. Nesse mesmo ano, a França passou a dominar toda a ilha. Em 1801, o ex-escravo Toussaint Louverture tornou-se governador-

-geral, mas, logo depois, foi deposto e morto pelos franceses. O líder Jean Jacques Dessalines organizou o exército e derrotou os franceses em 1803. No ano seguinte, foi declarada a independência (o segundo país a se tornar independente nas Américas) e Dessalines proclamou-se imperador. Como forma de retaliação, em 1804, os escravistas europeus e norte-americanos mantiveram o Haiti sob bloqueio comercial por 60 anos. Em 1815 Simon Bolívar refugiou-se no Haiti, após o fracasso de sua primeira tentativa de luta contra os espanhóis. Recebeu dinheiro, armas e pessoal militar, com a condição de que abolisse a escravidão nas terras que libertasse. Posteriormente, para por fim ao bloqueio, o Haiti, sob o governo de Jean Pierre Boyer, cercado pela frota da ex-metrópole, concordou em assinar um tratado pelo qual seu país pagaria à França a quantia de 150 milhões de francos a título de indenização. A dívida depois foi reduzida para 90 milhões, mas assim mesmo isso exauriu a economia do país. Após período de instabilidade, o Haiti foi dividido em dois e a parte oriental - atual República Dominicana - reocupada pela Espanha. Em 1822, o presidente Jean-Pierre Boyer reunificou o país e conquistou toda a ilha. Em 1844, porém, nova revolta derrubou Boyer e a República

Dominicana conquistou a independência. Da segunda metade do século XIX ao começo do século XX, 20 governantes sucederam-se no poder. Desses, 16 foram depostos ou assassinados. Tropas dos Estados Unidos ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país. Em 1946, foi eleito um presidente negro, Dusmarsais

Estimé. Após a derrubada de mais duas administrações governamentais, o médico François Duvalier foi eleito presidente em 1957. François Duvalier, conhecido como Papa Doc, apoiado pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, instaurou feroz ditadura, baseada no terror policial dos tontons macoutes (bichos-papões) - sua guarda pessoal -, e na exploração do vodu. Presidente vitalício, a partir de 1964, Duvalier exterminou a oposição

e perseguiu a Igreja Católica. Papa Doc morreu em 1971 e foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier - o Baby Doc. Em 1986, Baby Doc decretou estado de sítio. Os protestos populares se intensificaram e ele fugiu com a família para a França, deixando em seu lugar o General Henri Namphy. Eleições foram convocadas e Leslie Manigat foi eleito, em pleito caracterizado por grande abstenção. Manigat governou de fevereiro a junho de 1988, quando foi deposto por Namphy. Três meses depois, outro golpe pôs no poder o chefe da guarda presidencial, General Prosper Avril. Depois de mais um período de grande conturbação política, foram realizadas eleições presidenciais livres em dezembro de 1990, vencida pelo padre salesiano Jean-Bertrand Aristide, ligado à teologia da libertação. Em setembro de 1991, Aristide foi deposto num golpe de Estado liderado pelo general Raul Cedras e se exilou nos EUA. A Organização dos Estados Americanos (OEA), a Organização das Nações Unidas (ONU) e os EUA impuseram sanções econômicas ao país para forçar os militares a permitirem a volta de Aristide ao poder. Em julho de 1993, Cedras e Aristide assinaram pacto em Nova York, acordando o retorno do governo constitucional e a reforma das Forças Armadas. Em outubro de 1993, porém, grupos paramilitares impediram o desembarque de soldados norte-americanos, integrantes

de uma Força de Paz da ONU. O elevado número de refugiados haitianos que tentavam ingressar nos EUA fez aumentar a pressão americana pela volta de Aristide. Em maio de 1994, o Conselho de Segurança da ONU decretou bloqueio total ao país. A junta militar empossou um civil, Émile Jonassaint, para exercer a presidência até as eleições marcadas para fevereiro de 1995. Os EUA denunciaram o ato como ilegal. Em julho, a ONU autorizou uma intervenção militar, liderada pelos EUA. Jonaissant decretou estado de sítio em 1º de agosto. Em setembro de 1994, força multinacional, liderada pelos EUA, entrou no Haiti para reempossar Aristide. Os chefes militares haitianos renunciaram a seus postos e foram amnistiados. Jonaissant deixou a presidência em outubro e Aristide reassumiu o País com a economia destroçada pelo bloqueio comercial e por convulsões internas. No período de 1994-2000, apesar de avanços como a eleição democrática de dois presidentes, o Haiti viveu mergulhado em crises. Devido à instabilidade, não puderam ser implementadas reformas políticas profundas. O atual presidente do Haiti é o cantor popular Michel Martelly, que assumiu em maio deste ano,. após um complicado processo eleitoral. É a primeira vez que uma transferência de poder se dá entre dois cidadãos eleitos pelo voto popular no Haiti. (Fonte: Wikipedia)


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