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Rio Branco – Acre, QUARTA-FEIRA, 13 de julho de 2011

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especial

Mel e Peixe

Ass novas alternativas da economia e de negócios do Acre na região do Vale do Juruá.

Paulo Pernambuco, secretário Reis, o produtor Darci Mendes e o gerente da Seaprof Franco Melo, em Cruzeiro do Sul. Todos personagens de um programa através do qual o governo do Estado busca duas novas alternativas econômicas para o Juruá


especial Vale do Juruá começa conhecer duas novas alternativas para sua economia ‹TEXTO: ‹ tião maia ‹FOTOS: ‹ onofre brito, rodrigo almeida e tião maia

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onhecido pela capacidade de produção - tanto em qualidade como em quantidade - da melhor farinha de mandioca do Brasil, o Vale do Juruá, na região oeste do Estado, começa a dar os primeiros passos para mudar o hábito alimentar como também para gerar renda para agricultores dispostos a abrir mão do fogo e das derrubadas. Sob o incentivo do governo do Estado, através das secretárias de Pequenos Negócios (SEPN) e de Apoio à Produção Familiar (Seaprof), homens e mulheres que vivem da agricultura estão aprendendo, através de cursos técnicos e aulas práticas, que é possível agregar valor a produtos com grande potencial de produção na região, como o mel extraído de abelhas sem ferrão e o peixe produzido em tanques e açudes construídos no quintal de casa. É o caso, por exemplo, do agricultor Limiro de Souza, de 58 anos, dono de uma área de 60 hectares na Colônia Boa Vista, no Ramal Pentecostes, a uma hora de carro de Cruzeiro do Sul. Ali, quando acorda e precisa de um peixe para o almoço ou mesmo para vender, ele só tem o trabalho de desatar a tarrafa e, ainda de dentro da cozinha, fazer o “lance” sem tirar os pés de dentro de casa. A cada “lance”, como é chamado o ato de jogar a tar-

Limiro de Souza não precisa fazer muito esforço para pegar a refeição do dia ou para conseguir o peixe que levará ao mercado a partir da cozinha de sua casa. Com os dois novos tanques que estão sendo construídos em sua propriedade, está certo de que cada vez mais valerá a pena investir

rafa, são pescados peixes, como o piau e a matrinchã, com mais de um quilo por unidade. “Isso é dinheiro vivo”, diz ele, orgulhoso. Agricultor a vida inteira, Limiro está se convertendo

em pescador profissional graças ao programa do governo do Estado, concebido pelo governador Tião Viana e tocado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Indústria, Comércio

e Serviços (Sedicit) visando tornar o Acre autossustentável na produção de peixe. O agricultor já dispõe de um açude construído no passado com o próprio esforço e agora vai ganhar mais dois

tanques construídos pelo governo, também nos arredores de casa. “Eu estou muito feliz com a possibilidade de ganhar dinheiro sem ter que dar o duro que a gente dava no passado”, diz Limiro.

Complexo industrial de peixe vai custar R$ 53 milhões de investimentos

Governador Tião Viana tem sido o grande incentivador da sustentabilidade do Acre no mercado de peixes

Nesse programa, o governo do Estado está investindo R$ 53 milhões para a criação de um complexo industrial que será administrado pela empresa Peixes da Amazônia S/A. O complexo consistirá na construção de uma fábrica de ração, centro de alevinagens em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, além de indústria de filetagem de peixes numa parceria que vai envolver o setor privado, o governo e os pequenos pescadores, através de cooperativas. A empresa é constituída de 16 empresários, mais o governo

do Estado e cooperativas de pescadores, que serão donos de 25% das cotas. O complexo está sendo construído em uma área de 65 hectares no quilômetro 32 da BR-364, no sentido Rio Branco/Porto Velho, onde estarão localizados a fábrica de ração, o frigorífico e o centro de alevinagem. A previsão para que o complexo entre em funcionamento é julho do ano que vem. Já no primeiro momento de funcionamento, o novo complexo deverá gerar 1,2 mil empregos diretos e

pelo menos 12 mil de forma indireta. Em pleno funcionamento, o complexo deverá beneficiar algo como 20 toneladas de peixe por ano, 15 mil a mais do que é processado atualmente no Estado. O sonho do governador Tião Viana, segundo ele anunciou no lançamento do programa, é levar, em 2014, quando teoricamente termina seu governo, o complexo a beneficiar 100 mil toneladas de peixe por ano, o que deverá gerar uma receita estimada para o Estado em torno de R$ 1 bilhão anuais.


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especial Produtores podem tirar mais de dez toneladas de peixe em um hectare de lâmina de água “É um programa ousado, e a determinação do governador Tião Viana, aqui no Juruá, é de que a gente construa tantos açudes e tanques quanto sejam possíveis no verão”, afirma o gerente da Seaprof no Juruá, Franco de Melo. A Seprof e a Sedicit estão atuando, além de Cruzeiro do Sul, em Mâncio Lima e Porto Walter. É em Cruzeiro do Sul que o programa de construção de açudes e tanques para os futuros criadores de peixe parece mais adiantado. O programa do governo prevê a cessão de 40 horas de trabalho de máquinas para abertura dos tanques. São tanques de 50 por 20 ou de 60 por 30. “A ideia é de que, no futuro, os produtores possam aumentar a produção com eles mesmo construindo os tanques a partir do lucro que vão obter com essa ajuda que o governo vem dando”, diz Franco de Melo. O governo trabalha com números de que em um hectare de

lâmina de água, o produtor vai recolher 12 toneladas de peixe por ano. É essa a esperança de Manuel Costa de Oliveira, de 65 anos, dono de uma área de nove hectares na comunidade Assis Brasil, também no Pentecostes, em Cruzeiro do Sul. Em sua área, vivem pelo menos 22 famílias, entre filhos, parentes e agregados. Ali, o governo está construindo dois tanques, com os quais, no auge da produção, ele deverá ganhar entre 60 a 70 mil a cada retirada de peixes, de seis em seis meses. “Se isso der certo, vai ser a redenção financeira da minha família”, diz Manuel. “Um sinal de que eles não vão viver os mesmos sacrifícios que tenho vivido.” Uma prova de que o programa do governo tem tudo para dar certo pode ser verificado na propriedade do agricultor Paulo Afonso Marinho de Souza, o “Pernambuco”, de 59 anos. Dono de 120 hectares

na Colônia São Francisco, também nos arredores de Cruzeiro do Sul, ele já retira 10 toneladas de peixe a cada safra de seis meses. “Dá para retirar 20 toneladas de peixe”, revela o dono de cinco açudes, todos construídos a mão, na base do enxada. Mesmo assim, “Pernambuco” não vai abrir mão da ajuda do governo para a construção de pelo menos mais um açude na sua propriedade. “O governador veio aqui e disse que o que eu precisasse do governo seria atendido. Tenho esperança de que esse programa beneficie não só a mim, mas a todos aqueles que trabalham e acreditam que é possível com dignidade do próprio suor”, disse. Além da produção de peixe, “Pernambuco” também vive da produção de laranja em grande escala. “Acho que chegou a hora de pensar em beneficiar essa laranja aqui mesmo. Suco de laranja com peixe me parece uma boa pedida”, diz, brincando.

Manuel Oliveira, aos 65 anos de idade, do Ramal do Pentecostes, tem esperançs de que com os novos tanques que estão sendo construídos em sua propriedade, sua família obterá os benefícios que ele nunca alcançou


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especial Um curso sobre as vantagens da criação de abelhas sem ferrão A melioponicultura, termo técnico aplicado à atividade de colheita de mel de abelha sem ferrão, também já é uma realidade para produtores do Ramal 3, do Projeto de Assentamento Santa Luzia, em Cruzeiro do Sul. O que era uma atividade artesanal e desenvolvida sem a técnica apropriada passará a ser feita dentro dos melhores padrões desse tipo de cultura. Isso está fazendo com que as pessoas que viviam somente da agricultura, passem a ter uma nova alternativa de ganhar dinheiro dentro de um programa de absoluto respeito ao meio ambiente. Tudo começou há um mês, com uma visita do secretário de Estado de Pequenos Negócios, José Carlos dos Reis, e de Florestas, Carlos Ovídeo, durante uma reunião para debater com os produtores locais meios de obtenção do óleo de buriti em escala industrial sem a derrubada das árvores ou outros mecanismos de destruição da floresta. Ao ser informado que os produtores locais também estavam iniciando a atividade de recolhimento de mel de abelhas sem ferrão de forma artesanal, José Carlos dos Reis entrou em contato com o secretário de Apoio à Produção Familiar (Seaprof), Lourival Marques de Olieira Filho, e a partir daí foi concebido um programa de apoio aos produtores que começa a dar resultado. O primeiro passo foi a criação de um curso de capacitação para profissionalizar a atividade. O curso foi dado pelo produtor Engelberto Flach, que aprendeu a atividade com os pais alemãos que migraram para Santa Catarina, nos anos 60. No Acre há 15 anos, ele desenvolve esta atividade numa área de 78 hectares no quilômetro 82 da BR364, no município de Bujari. Levado ao Vale do Juruá, reuniu, durante uma semana, uma sala de aula de 27 alunos, entre homens e mulheres, para mostrar que é possível ganhar dinheiro com as abelhas. Os alunos primeiro aprenderam a teoria,

segundo a qual abelhas sem ferrão, também chamadas de indígenas, constituem um grupo de abelhas que apresentam o órgão de defesa (o ferrão) atrofiado. No Brasil, são mais de 400 espécies, distribuídas em 40 gêneros, sendo que, no Alto Juruá, a incidência são de cinco espécies de uruçu e jandaíra, amarelas e pretas. São as chamadas melíponeas, um pouco menores que as abelhas caracterizadas como trígonas, onde estão alinhadas as abelhas como a Jataí, de estrutura corporal mais avantajada e teoricamente com maior capacidade de produção. “Mas aqui no Juruá a diversidade é tão grande que eu creio que há espécies que sequer foram catalogadas”, disse Engelberto Flach. “É por isso que nós defendemos a manutenção da floresta, porque quando se derruba uma árvore não se está matando apenas a floresta, mas destruindo toda uma cadeia que chega até a abelha. Se derrubamos”, diz o produtor e professor. Ainda na aula teórica, os futuros produtores aprendem que, apesar de não terem ferrão ou terem o órgão de defesa atrofiado, isso não quer dizer que as abelhas são indefesa, Muito pelo contrário. Elas constroem suas ou ninhos em locais de difícil acesso, no interior de paredes grossas, topo de árvores altas, cavidades profundas. Tudo isso para escapar dos predadores, formigas, animais, baratas e, principalmente, o homem. Contra o homem, elas jogam tudo: enroscam-se em nossos nos cabelos e pêlos do corpo, beliscam com suas mandíbulas afiadas e ainda penetram nos ouvidos e narinas, deixando o inimigo sob estado desconfortável, às vezes insuportável. Os alunos também aprendem como funciona a organização das abelhas, com seu sistema de casta, com as abelhas rainhas reinando na colônia, as operárias trabalhando e zangões, os machos, apenas fecundando para morrer em seguida.

mel produzido por abelhas sem ferrão é superior em propriedades, no preço final do produto e na procura do mercado, ensina professor

Engelberto Flach ensina homens e mulheres as vantagens da produção de mel com abelhas sem ferrão

Professor ensina como capturar abelhas no meio da floresta O professor Engelberto Flach também adverte: como as abelhas do tipo Apis Melífera, aquela que tem ferrão, conhecida como Italiana ou Africana, as sem ferrão também não gostam de ruído e apenas são menos agressivas em relação às roupas. As abelhas do tipo Apis Melífera, além de não gostarem de ruídos, não suportam roupas de cores berrantes, como preto ou vermelho. “Parece que esse tipo de cor agride a visão delas”, diz o professor. Como parte das aulas teóricas, os alunos também aprendem que não é só pelo menor potencial de agressividade que a criação de abelhas sem ferrão é mais vantajoso

do que a criação das chamadas abelhas Apis. É que, apesar de aparentemente menos produtivas que as abelhas com ferrão, as sem ferrão produzem um mel de melhor qualidade, com o quase o triplo de propriedades medicinas. Em termos de comparação, enquanto um litro (cerca de 1k e meio) de mel de abelha com ferrão é vendido a média de R$ 25,00, a mesma quantidade, da abelha sem ferrão, alcança até R$ 150,00. “Me parece que a abelha com ferrão, extrai o pole de áreas agredidas, quase degradadas. Já a abelha sem ferrão, atua em áreas de maior diversidade de plantas e por isso seu mel

é melhor elaborado”, disse o professor Engelberto Flach.. A parte prática do curso foi a captura de abelhas na floresta. Primeiro, de acordo com o professor, o produtor localiza a colônia, e substitui o ninho original por caixas apropriadas e criadas especificamente para atividade. Com um pouco de mel no orifício de entrada,as abelhas acabam entrando paras caixinhas e assim podem ser transportadas para os locais de produção, que podem a poucos metros da casa do produtor. “Esta é outra vantagem. Como essas abelhas não tem ferrão, elas podem ser criadas pertos de casa, podendo ser manipuladas até por crianças”, disse Flach.

Produção de mel vira alternativa econômica É de olho nos preços e na aceitação do mel de abelhas sem ferrão pelo mercado consumidor que produtores como Darci Mendes dos Santos, de 50 anos, presidente da Associação dos Produtores do Igarapé Branco, também no Projeto de Assentamento Santa Luzia, se entregaram ao curso como crianças nos primeiros dias de aula. “Eu já trabalhava com abelhas, mas agora percebo que não é da maneira correta., A partir de agora, creio que não só vamos produzir mais, como também da melhor maneira”, disse. Darci Mendes e os demais produtores que participaram do curso são os encarregados agora de agirem como multiplicadores do que aprenderam. “Nós vamos procurar os companheiros

e repassar tudo o que aprendemos. O importante é que, com o que gente ficou sabendo, será possível ganhar dinheiro e sem a necessidade de derrubar ou destruir a mata nativa”, disse. “Esse é o

diferencial do atual governo. O governador Tião Viana, através dos seus secretários, está buscando meios de melhorar a vida dos produtores, principalmente dos pequenos produtores”, disse Darci.

Darci Mendes e José Carlos dos Reis: parceria em busca de uma nova alternativa econômica para produtores do Ramal 3, no Santa Luzia

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