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l a g n i r e Do s o d o t r o f n o c para o o d a n o i c i d n o c ar Conheça a história vitoriosa do ex-seringueiro Detinho e o sucesso de sua casa de farinha no Quinari Entre um “bico” e outro de trabalho na capital do estado, Detinho completou o ano de 1980 sustentando a família com o corte tarauacaense José Francelino abra- seringa na Bolívia, próximo à fronteira com ça a esposa Gertrudes e aponta o Acre. “Depois da Bolívia, vim procurar para o ar condicionado no quarto trabalho como auxiliar de tratorista de uma do casal. “Um amigo me disse que, depois firma que prestava serviço de abrir ramais do seringal, eu estou luxando aqui na colô- para um tal de Incra, que eu nunca tinha ouvido falar”, lembra Dentinho. nia, usando até ar condicionado”. Isso já era final de 1980. Ao chegar na Em seguida, Seu Detinho, como José é mais conhecido, faz questão de percorrer as firma, o ex-seringueiro pediu dinheiro andemais dependências da casa para mostrar tecipado para deixar para a família, antes o freezer, o telefone celular, a geladeira, o de “entrar na mata com a peãozada”. Mas microondas, a televisão e todos os demais a empresa negou, dizendo que não fazia utensílios domésticos que conseguiu com- adiantamento e que pagamento só depois prar como produtor da boa farinha do Acre, do mês trabalhado. “Respondi que não trabalhava de graça. que faz sucesso no mundo inteiro. O mesmo “orgulho” que sente em mos- E que, se era para a minha família passar trar o conforto que tem hoje em sua casa, si- fome, eu passaria fome junto com ela”, retuada no ramal Novo Horizonte, no km 8 da lata seu Dentinho, sentindo-se perdido, pois estrada de Rio Branco a Senador Guiomard, fora deixado na sede do Incra naquele dia seu Detinho diz que tem em contar sua histó- por seu cunhado e não conhecia bem a capiria vitoriosa de vida, que começou no final da tal. Após andar alguns metros, ele disse que década de 40, lá no antigo seringal Alagoas, foi seguido por um homem, que o abordou perguntando se ele já possuía terra para trainterior do município de Tarauacá. Uma bela história de lutas, que continua balhar. “O homem me cumprimentou e perhoje com o seu Detinho sendo uma espécie de gerente de uma das modernas casas de guntou se eu era peão e se eu estava saindo farinha que o então senador e hoje gover- do Incra. Eu disse que não sabia nem o que nador Tião Viana conseguiu aprovar junto à era Incra. Contei a ele a minha história lá do Fundação Banco do Brasil para gerar renda seringal. E ele pediu para mim acompanhar ele”. Chegando ao Incra, Dentinho foi encae empregos na zona rural do estado. Um dos nove filhos do seringueiro Pi- minhado pelo homem para fazer sua inscrinheirinho, que aos 10 anos chegou do Ceará ção a fim de receber um lote de terra. “Ele para cortar seringa no Acre, trazido por um disse que eu era um acreano que precisava irmão mais velho, Seu Detinho, hoje com de terra para trabalhar. Aí me deu um arro63 anos, também cortou seringa durante 18 cho no coração e desceu lágrimas nos olhos anos. Depois disso, subiu para a cabeceira de agradecimento”, relata seu Detinho. Depois de seis meses e novos bicos na cido rio Tarauacá “para pegar experiência” antes de vir morar em Rio Branco com dona dade, Dentinho foi chamado pelo Incra para receber um lote de 80 hectares no Projeto Gertrudes e os filhos. “Fui lá para a cabeceira do rio Taraua- de Assentamento Dirigido (PAD) Pedro cá para conhecer, para poder vir para Rio Peixoto, na BR-364. “Ganhei a terra lá na Branco. Lá encontrei minha mulher, nos BR-364, onde morei por 14 anos. Fui titulaconhecemos, nos casamos e constituímos do com 80 hectares”, recorda. Passados os 14 anos produzindo mana nossa família”, diz Dentinho, ao pedir o assentimento da esposa. Gertrudes confir- dioca, arroz, feijão e outras culturas, Detima a história e diz que veio para Rio Branco nho foi um dia no Quinari ajudar um amigo também por causa do filho do meio, que ti- a construir uma casa. Ali, conheceu um ranha vindo para tratar a saúde. Curado, a avô paz que estava vendendo seu lote. Pensando do filho disse que ele não voltaria mais para no filho que já tava com 18 anos, o agora o seringal, que preferia morar na capital do agricultor Detinho comprou o lote de 13 estado. Detinho, a mulher e os outros dois hectares. Mas foi ele quem acabou se mufilhos vieram, então, para a capital, onde dando para o local, onde já vive com a mulher, dois filhos e vários netos. chegaram no dia de Natal de 1979. Texto e fotos:

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ESPE Em seu lote de 13 hectares, próximo a Senador Guiomard, seu Detinho só ampliou sua história de sucesso, obtido com sua grande disposição para o trabalho desde que era menino no seringal Alagoas. Começou plantando arroz, milho e mandioca, como fazia lá na propriedade antiga da BR-364. Mas logo resolveu se especializar na produção de cana e de mandioca. Da cana, passou a fazer mel, rapadura, açúcar preto e outros produtos. Da mandioca, começou a produzir muita farinha e goma. Resultado: em poucos anos, só dava o seu Detinho na feira de Senador Guiomard vendendo farinha, goma, mel, rapadura e açúcar preto de excelente qualidade. Isso sem falar nas muitas encomendas que passou a despachar de seu lote, freqüentado pela freguesia grande das cidades de Rio Branco e de Senador Guiomard. “Hoje, estou mais conhecido do que farinha no mercado”, brinca o agricultor. O sucesso de seu Detinho e de dona Gertudres se ampliou ainda mais quando, há dois anos, ele foi contatado pelo setor agrícola do governo para instalar em seu lote a casa de farinha destinada a atender os vários produtores da sua região agrícola. Seu Detinho diz que foi “algo que caiu do céu”, pois sua vida melhorou ainda mais depois disso. Se antes produzia farinha numa casa artesanal, com quintura e fumaça a lhe ameaçarem constantemente a saúde, seu Detinho diz que a nova casa de farinha, moderna, higiênica e tecnologicamente mais apropriada, “animou mais ainda a minha vida”. “A mudança para melhor não foi de 100%, mas de 200%. Foi a mesma coisa de você estar muito tempo no sol e vir para a sombra. Ou então estar na chuva e vir para um lugar enxuto”, diz Detinho, que todo dia recebe telefonema de pessoas pedindo uma, duas ou três sacas de farinha. Para ele, antes o trabalho era tanto pesado como sem sentido. Segundo ele, na casa de farinha antiga, além da quintura do forno e da fumaça, o cachorro, o

gato entrava no lugar onde se fazia farinha. Hoje, fechada, a casa de farinha moderna exige de seu Detinho todo um ritual de higiene e limpeza ensinada a ele e aos demais produtores pelo pessoal da Vigilância Sanitária do governo. Com a nova casa de farinha, a produção de farinha de seu Detinho pulou para 10 toneladas anuais e a produção de goma já chega a cinco toneladas anuais. Mais 12 produtores da região também passaram a produzir muita farinha para os mercados de Rio Branco e Senador Guiomard. O sucesso da casa de farinha está sendo tão grande que seu Detinho e os companheiros produtores da região já ampliaram as áreas plantadas com mandioca. Seu Detinho diz que esse ano já vai dobrar de dois para quatro hectares o plantio da cultura. Com isso, a sua produção de farinha também deve dobrar. Ele conta que a técnica Palmira Alves de Oliveira, chefe da Cadeia Produtiva da Mandioca, da Secretaria de Produção Familiar (Seaprof), recomendou que a partir deste ano a mandioca pode ser plantada duas vezes ao ano, sendo a primeira em maio, no início do verão, e a segunda em outubro, no início do inverno. Para movimentar bem a casa de farinha para ela não ficar ociosa, Palmira Oliveira, lembra que devem ser plantados com mandioca no mínimo 40 hectares. Da nova casa de farinha, seu Detinho diz que valeu o sacrifício que ele e seus amigos da associação de produtores tiveram que fazer para construí-la, melhorando muitas vezes o sistema de produção que eles usavam para produzir farinha. “Hoje, as coisas mudaram para melhor. Eu trabalho com a casa de farinha fechada, com mais organização, com mais higiene e não entra qualquer um”, assinala. Para completar: “no forno em que a gente torra a farinha, a gente não pega quintura. A quintura agora é simples. Não é mais aquela quintura grande. Não tem mais o vento que trazia a fumaça, trazia o vapor que vinha para cima de você. Muitas vezes, soltava o rodo de mexer a farinha e caía fora

Mais equipame mais renda e m

Agricultor ouve explicações da técnica Palmira, da Seaprof, no i

Mandioca sendo despejada na balde para virar farinha a seguir


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ECIAL

entos para gerar mais empregos

interior da casa de farinha

porque não agüentava. Não tem que resiste. Agora não tem fumaça, a parede é muito grossa, não esquenta. Antes, não podia encostar, era quente, era fogo. As condições de trabalho melhoraram sem comparação. Embora a qualidade de vida dos produtores tenha melhorado muito, seu Detinho diz sonhar com algumas outras coisas que eles precisam para ampliar ainda mais a sua produção e o sucesso de suas vidas no meio rural. Uma delas é a aquisição de um trator para trabalhar mais e melhor a terra. Outra seria uma empacotadora média na região ou na cidade mais próxima para pesar e empacotar a farinha. Um terceiro item seria a aquisição de um caminhão e o quarto sonho a construção de um galpão para guardar os equipamentos usados na casa de farinha. “Com tudo isso, a gente iria gerar mais emprego e mais renda em nossa região para ajudar o Acre a crescer mais”, conclui seu Detinho. (R.A.)

Seu Detinho ao celular, dona Gertrudes e a neta na cozinha da casa

TV e freezer do casal ampliam qualidade de vida da família

Seu Detinho e dona Gertrudes gostam de dormir no ar condicionado

Seu Detinho, dona Gertrudes e os netos na frente da casa de farinha

Na varanda da casa em ampliação, ex-seringueiro é exemplo de bom agricultor


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ESPECIAL

Ex-seringueiro Detinho e o neto querido em frente a uma plantação

Mais renda e empregos para milhares de famílias de agricultores A família de seu Detinho é apenas uma das 1.020 famílias de pequenos agricultores que já melhoraram de renda e de qualidade de vida com a instalação e o funcionamento de casas de farinha conseguidas pelo governador Tião Viana junto à Fundação Banco do Brasil e instaladas pela Secretaria de Produção Familiar (Seaprof) em 10 dos 22 municípios acreanos. O montante de famílias beneficiadas com as primeiras 29 casas de farinha construídas no estado representa quase cinco mil pessoas, espalhadas pelos municípios de Rio Branco, Assis Brasil, Brasiléia, Plácido de Castro, Acrelândia, Senador Guiomard, Porto Acre, Bujari, Sena Madureira e Xapuri. Em junho do ano passado, a Fundação Banco do Brasil celebrou mais um convênio com a Seaprof. Desta vez, foi para a construção de mais 42 casas de farinha, que devem beneficiar mais 1.480 famílias de pequenos produtores, representando um universo de cerca de 6.400 pessoas. Além dos municípios beneficiados na primeira etapa do programa, estão sendo construídas casas de farinha em Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Marechal Thaumatur-

go, Porto Valter e Epitaciolândia. O programa de casas de farinha dos governos da Frente Popular começou no início de 2008, quando a equipe da Seaprof, após receber o sinal verde do então senador Tião Viana, entrou em campo reunindo organizações de produtores rurais e prefeituras dos 10 municípios beneficiados inicialmente pelo programa. No programa, as prefeituras participam com a mão-de-obra e repassam R$ 1,9 mil para complementar a construção de cada uma das casas de farinha. Gestora do programa, a Seaprof é responsável pela distribuição

dos materiais e equipamentos até os locais de construção das casas, além do monitorar todas as obras. Na primeira etapa do programa, a Fundação Banco do Brasil financiou R$ 725 mil, com o governo do estado entrando com contrapartida da ordem de R$ 140 mil. “É um programa que está gerando muita renda e emprego no meio rural acreano, que produz uma farinha de qualidade, muita apreciada em qualquer lugar do mercado consumidor brasileira”, assinala a técnica Palmira Alves Cruz de Oliveira, chefe da Cadeia Produtiva da Mandioca da Seaprof. (R.A.)

Agricultora vizinha chega com a mandioca na casa de farinha

Seu Detinho mostra a modernidade da casa de farinha de seu ramal

Mandioca pronta no balde para virar farinha na casa


Do seringal para o conforto do ar condicionado