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PRODUCÃO & NEGÓCIOS ANO 1 - NÚMERO 45 RIO BRANCO, DOMINGO, 09.12.2012

A produção de alimentos orgânicos vai bem além do fornecer alimentos saudáveis, é um modo de vida baseado na prática da sustentabilidade e que pretende melhorar o mundo, mas isso nem sempre é bem compreendido pela maioria das pessoas e autoridades

Bom pra todos!


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Viver com menos

Comunidade de agricultores abraçou a agricultura sem desmate, sem fogo e a produção orgânica, mas carece de apoio

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Clientes rodeiam bancas em busca de alimentos mais saudáveis

colônia há 32 anos, há nove anos fomos a Ufac e o Sebrae nos orientaram para aprender a plantar sem fogo, daí nos ensinaram as vantagens da produção orgânica que a gente gosta, pois colhe um alimento mais sadio e que não vai fazer mal às pessoas porque nós não usamos veneno. Isso é bom porque as pessoas querem alimentos mais saudáveis, então agente vende fácil tudo o que produzimos. Produzindo verduras e

legumes, mandioca, banana, mamão e outras frutas vendidas in natura ou na forma de doces, bolos e outros produtos, Misciléia esclarece que: “O sistema orgânico dá bem mais trabalho e a produção é bem menor que usando adubo e outros produtos químicos, então, ainda que a gente venda bem como vendemos, ganhamos menos dinheiro que na agricultura convencional. Além disso, a produção do mamão fica incerta, às ve-

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zes dá, noutras não dá, já feijão, arroz e milho não dá boa produção nem quando a terra é mecanizada. Na verdade, o que ainda produz bem é a banana e o abacaxi, mas agente tem umas 20 vacas para vender leite e queijo ajudando na despesa!” Misciléia explicou que o problema está na falta de apoio aos produtores: “A gente não tem condições de pagar R$ 120 por hora de gradeação da terra, também não

temos condições de comprar calcário que aqui chega 15 vezes mais caro que para os agricultores que trabalham lá no sul”. E ela conclui: “Há mais de dez anos que a gente não desmata mais, então hoje só temos terras velhas e também não temos condições para comprar adubo, então a alternativa é mesmo produzir orgânicos, só que a gente merecia receber algum apoio para isso!”

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Produção diversificada Para driblar a limitação produtiva da terra, agricultores investem na diversidade do beneficiamento para ganhar dinheiro

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lantando as tradicionais macaxeiras, bananas, abacaxi coco e na criação de galinha caipira a produtora do Polo Benfica, Joana Batista da Costa viu na diversificação com o plantio de flores e a fabricação de bolos e pudins variados um meio mais eficiente de ganhar dinheiro com os alimentos saudáveis que tira de suas terras. “Nos 20 anos que a gente está naquela colônia a gente sempre produziu macaxeira, banana e outras frutas da região, mas foi há uns 12 anos que recebemos orientação dos técnicos do Sebrae que aprendemos o plantio e produção dos orgânicos. Com o tempo a gente pegou gosto pela coisa e eu gosto de fazer isso. Vendo tudo o que produzo aqui na feira ou

Juracy Xangai

sustentabilidade vai muito além do tripé econômico, ambiental e social argumentado pela maioria dos ecologistas de plantão, ela requer a prática de um ponto fundamental que é o viver com menos, ou seja, consumir apenas o necessário, estimular a produção e dar preferência de uso aos produtos locais, usando menos coisas que venham de longe e impactem o meio ambiente na sua produção ou nos resíduos que vão deixar depois de usados. A comunidade de produtores do ramal Flaviano Melo localizada no projeto de Colonização Humaitá, há mais de dez anos abraçou a causa da agricultura sem desmate, sem fogo e a produção orgânica. As técnicas e treinamentos para isso foram oferecidos pela Ufac em parceria com o Sebrae e governo do Estado. Mas estes produtores que estão entre os fornecedores de alimentos orgânicos à feirinha de alimentos saudáveis que acontece todos os sábados e domingos no calçadão do Terminal Urbano, reclamam que depois da implantação das ações nunca mais receberam apoio para melhorar a produção. Exemplo disso é a produtora Misciléia de Jesus Carneiro moradora da colônia Bom Lugar, localizada no ramal Flaviano Melo que explica: “Meu marido vive naquela

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quando as pessoas me procuram em casa pra fazer as encomendas!” No começo eram apenas as verduras, banana, mandioca e o tradicional bolo de macaxeira, mas com o tempo as pessoas começaram a pedir bolos diferentes, então comecei a fazer bolos de macaxeira com leite, com abacaxi, pudim de macaxeira com coco, com queijo e frutas de época, o pessoal gostou muito da variedade de sabores!” Além da inventividade, Joana faz questão de preservar e vender produtos tradicionais como o pé de moleque feito com massa puba de mandioca, a tapioca, o beiju e o bolo de macaxeira com castanha. Da horta traz couves, cheiro vende pimenta, jiló, quiabo cultivados organicamente. Tam-

Joana Batista aposta na diversificação para melhorar a renda da família

bém vende galinhas e ovos caipiras. “Gosto de diversificar, quem tem pouca terra precisa produzir coisas diferentes

para garantir um ganho todo tempo, então participei do treinamento oferecido pelo Sebrae em Parceria com a prefeitura pra gente produ-

zir flores, hoje sou membro da Associação Florescer e no meu viveiro me especializei em cultivar cactos e outras plantas suculentas!”


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Da cidade para o campo A Pedro saiu da colônia e passou 15 anos trabalhando na cidade, mas conseguiu voltar pra roça

urbanização, fenômeno em que as pessoas deixam o campo para viver nas cidades faz com que 80% da população brasileira hoje esteja vivendo em áreas urbanas, em conseqüência disso há cada vez menos produtores de alimentos. Praticamente todos que saem da roça para a cidade não voltam nunca mais ao campo, mas Pedro Alcantara é uma dessas exceções, conforme ele próprio relata: “Nasci e me criei na colônia e saí pra cidade na esperança de viver melhor, mas a falta de trabalho não oferecia uma boa opção de vida. Depois de 15 anos na cidade eu me desiludi de vez e dei graças a Deus quando consegui um lote no pólo Wilson Pinheiro onde já estou há 12 anos e, mais antes tivesse voltado, porque agora minha vida é muito melhor!” O amor pela terra é tanto que Pedro praticamente se recusa a sair da colônia: “Gosto mesmo de ficar cuidando da horta com as coves, alface, cheiro verde, pimenta, jerimum e das árvores com limão, laranja, cacau e outras frutos. Quem vem pra vender na feira é minha esposa, hoje ela não pôde vir, mas eu só saio da colônia em último recurso, podendo eu fico lá!” Apesar de todo esse amor pela terra, ele ainda lamenta as dificuldades para escoar e comercializar suas colheitas sem ter que deixar o trabalho na produção. “Bom seria se a gente vendesse lá mesmo ou mandasse pra alguém vender na cidade, mas o jeito é deixar o plantio pra vir vender porque senão o prejuízo é grande. Lá dentro o marreteiro paga no máximo R$ 3 por um cacho de banana, quando aqui na feira eu vendo a palma a R$ 2, então é melhor vir toda semana pra garantir o sustento da casa!” Quando aos frutos de cacau nativo das matas acreanas, que ele traz de sua colônia, Pedro esclareceu que: “Na verdade eu não plantei, foram os passarinhos, eu vi quando nasceram dois pés e cuidei pra que crescessem, eles produzem muitos frutos e como o pessoal gosta muito, agora vou aumentar o plantio!”

Neide fez da produção um modo de vida que garante o sustento da família

Opção de vida Assentados do Moreno Maia aderiram à agricultura orgânica para proteger a si mesmo e outras pessoas

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cada 15 dias Neide Alves de Souza deixa sua colônia no projeto agroflorestal Moreno Maia que se localiza na área da Transacreana para vender sua produção na feirinha dos alimentos orgânicos. “Moro lá há mais de 20 anos, mas há nove começamos a ven-

Pedro deixou a cidade e voltou pra roça onde diz viver melhor

der aqui na feirinha. Isto aconteceu depois que o pessoal da ONG Acs, Ufac e Sebrae fizeram uma palestra e ofereceram treinamento pra gente produzir alimentos orgânicos que são mais saudáveis. A gente gostou da idéia porque produzir sem veneno é melhor mesmo e deu certo porque vendemos tudo o que trazemos!”

Ela esclareceu que só vem a cada 15 dias porque várias famílias de sua comunidade também produzem orgânicos, então se dividem em dois grupos e, a cada semana, apenas um vem à feira para que todos possam vender sua produção. “Trazemos farinha amarela que é das mais tradicionais

do Acre, agora o pessoal também se animou a aumentar a produção da farinha d’água que estava quase desaparecendo e muita gente gosta. Também trazemos macaxeira, jerimum, pimentas, banana, açafrão, melancia, mamão e outras frutas da região”, explica Lucineide.


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Produzindo sem fogo

Pioneiros na prática da agricultura sem fogo são exemplo de que a proposta é viável na geração de renda familiar

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ntonieta Conceição de Lima mora há 36 anos na colônia localizada no quilômetro sete do ramal Flaviano Melo, dentro do Projeto de Assentamento Dirigido Humaitá. De lá sai todas as semanas para vender sua produção na feirinha onde se destaca como uma das bancas com maior diversificação de produtos. “Eu trago urucum, banana, açafrão, gergelim, tucumã, ouricuri, paçocas e doces, além de pimentas, molhos e sabão de vários tipos, principalmente os que faço reciclando óleo de cozinha e sebo de boi. O importante pra nós que temos propriedades pequenas é ter uma produção bem variada porque assim o dinheiro vai pingando de vários lugares!” Garante Antonieta. Ela lembra que as orientações recebidas dos técnicos da ACS, Ufac e Sebrae estimulando a agricultura sem fogo foram muito importantes para que melhorassem a produção em sua colônia. “A proibição de desmatar estava impedindo a gente de produzir, então nós aprendemos um outro jeito de tocar nossas lavouras e isso é bom pra todos. Hoje tenho as vacas pra vender leite, planto banana roxa que não sofre com a sigatoka, além de vender massa puba e tapioca junto com as frutas e verduras. Tudo isso vale a pena porque esta feira ajuda muito na nossa renda!”

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Mudança radical Q

Família deixou Mato Grosso para buscar uma vida melhor produzindo no Acre

uando o marido resolveu dar baixa na Polícia Militar, vender seu sitio e mudar-se para o Acre, há 27 anos, sua esposa Alverina de Souza Vieira embalava os sonhos do casal em busca de uma vida melhor no ramal do Bujari, dentro do Projeto Humaitá. “Quando chegamos a malária já tinha diminuído bastante, mas os pioneiros do projeto sofreram demais. Aos poucos nós fomos acertando nossas lavouras, hoje produzimos muita banana, café, gergelim do preto e do branco, abóbora e macaxeira. Pra completar também faço

doces de banana, cupuaçu, leite, mamão, gergelim, cocadas e mariolas de banana, além dos molhos de pimenta na manipueira, então vendo de tudo um pouco, conforme a época do ano!” Garante Alverina. Agora, quase 30 anos depois de ter deixado a localidade em que vivia no Mato Grosso, ela avalia. “Viemos em busca de melhoria, mas não foi mais fácil do que a gente já sofria lá, mas enfrentamos e hoje vivemos bem. Aqui é bom porque vendemos tudo o que produzimos, mas tenho de reconhecer que a região do Mato Grosso melhorou muito mais que aqui!”

Alverina veio para o Acre em busca de uma vida melhor

A qualidade dos produtos oferecidos na feira dos orgânicos é o principal atrativo

De tudo um pouco na banca da feira


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Todas as tribos

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Casal indígena dedica-se a agricultura orgânica produzindo verduras e ervas

esde os tempos em que vivia numa pequena colônia, em Sena Madureira, Tereza Puatuesta, mais conhecida como “Tereza Pakay”, já havia descoberto no cultivo das hortaliças e ervas uma boa fonte de renda para garantir o sustento de sua família. Hoje vivendo num dos lotes do assentamento Espinheira, localizado à margem da estrada Transacreana, ela e o marido ampliaram a produção que é toda vendida na feirinha dos orgânicos, aos sábados e domingos no calçadão do Terminal Urbano. “Desde moça, antes de me casar eu já plantava verduras para vender e continuei depois de casada. De Sena viemos para o projeto Humaitá e há 12 anos fomos para o Espinheira. Há sete anos começamos a vir pra feira trazendo verduras, frutas e ervas que a gente planta sem usar veneno nenhum!” Por trás da banca onde expõem couves e alfaces misturados a limões, bananas e outras frutas

Tereza Pakay descobriu desde jovem que poderia ganhar dinheiro e viver melhor produzindo frutos e verduras

regionais, além de ervas como hortelã, crajiru, picão, cravo de defunto, melissa e frutos de noni, ela esclarece. “Fiz vários cursos para aprender a plantar os alimentos orgânicos. Venho toda se-

mana pra feira, preciso ganhar dinheiro porque tenho um filho e três netos em casa, então a feira ajuda a gente a vender um alimento que é bom pras pessoas e pra nós também!”

Caderno de produção e negócios  

producao e negocios

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