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A Revolução de 1924

Claudio Blanc


Projeto Mem贸ria Sindicato dos Padeiros de S茫o Paulo

Presidente: Francisco Pereira de Sousa Filho (Chiquinho Pereira) Coordenador: Aparecido Alves Ten贸rio (Cid茫o) Curador: Claudio Blanc www.padeirosspmemoria.com.br


Sindicato dos Padeiros de São Paulo - Projeto Memória

A Revolução de 1924

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mineiro Artur Bernardes governou enclausurado no Palácio do Catete, de onde raramente saía. Autoritário e vingativo manteve suspensas as garantias constitucionais ao longo de todo o seu mandato. Não concedeu anistia aos rebeldes que se ergueram em 1922, censurou a imprensa, mandou prender adversários e, sobretudo, decretou intervenção federal no Rio de Janeiro e na Bahia, Estados que faziam parte da “Reação Republicana”, contrária à aliança café-com-leite. A Revolução Libertadora de 1923, quando caudilhos gaúchos armaram seus peões e lutaram contra Borges de Medeiros, “eleito” à presidência do Rio Grande do Sul pela quinta vez consecutiva acabou beneficiando o governo, poupando-o do desgaste de intervir no terceiro Estado mais importante do Brasil. Em São Paulo, porém, mesmo as medidas austeras de Bernardes não lhe garantiram a manutenção do controle: o presidente enfrentou uma revolta que tomou a cidade mais poderosa da federação. 3


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Tropas na Estação da Luz, São Paulo

Em dezembro de 1923, o julgamento e a punição dos rebeldes de 22 pioraram ainda mais as relações entre o Exército e o governo federal. Dos cinquenta oficiais implicados nos levantes militares, onze não se apresentaram à justiça – entre eles Eduardo Gomes, Joaquim e Juarez Távora –, tornando-se desertores do Exército e líderes de novas conspirações. Esses tenentes revolucionários decidiram entregar o comando do movimento a um oficial graduado, mas só conseguiram a anuência de um general reformado, Isidoro Dias Lopes. Embora a articulação fosse nacional, São Paulo foi escolhido como o principal núcleo da revolução por causa da extrema vigilância policial que havia na capital federal. Um outro fator chave foi a colaboração da Força Pública Paulista, cujo comandante, Miguel Costa, aliara-se aos tenentes O movimento teve início na madrugada de 5 de julho, mesma data do levante dos 18 do Forte. Os rebeldes ocuparam as estações da Luz, da Estrada de Ferro Sorocabana e do Brás, além dos quartéis da Força Pública e outros pontos estratégicos da cidade. No dia 8, depois da fuga do presidente do Estado, Carlos de Campos, os tenentistas tomaram o palácio dos Campos Elísios. 4


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No dia seguinte, instalaram um governo provisório chefiado pelo próprio general Isidoro. Mas o governo reagiu com pulso de ferro. Depois da dura experiência de Canudos, então recente, os oficiais legalistas estavam convencidos de que só pela destruição de grande parte da cidade pela artilharia, seguida do ataque às trincheiras pelos carros de assalto e pela luta corpo a corpo com uso de baionetas, seria possível esmagar o levante paulista. Assim, as tropas governistas promoveram um intenso bombardeio, provocando o caos na cidade.

Trem sendo tirado dos trilhos durante a Revolução Paulista

A Mooca, o Belenzinho e o Braz foram os primeiros a sofrer as consequências dessa estratégia. Em pânico, os moradores abandonaram suas casas. As famílias com mais recursos saíram de São Paulo, indo se refugiar em Santos, Jundiaí, Campinas e em outros lugares. Muitos, não tendo onde se abrigar, acamparam ao ar livre, armando barracas improvisadas em locais ermos dos bairros. Em meio à confusão, houve numerosos assaltos e saques a armazéns e 5


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depósitos de firmas particulares, especialmente nos bairros operários. O dia 13 de julho foi particularmente dramático, especialmente para os moradores da zona leste. Os bairros da Mooca, Braz e Belenzinho sofreram um bombardeio tão severo que as ruas ficaram repletas de cadáveres. Os coveiros não davam conta de cavar sepulturas para enterrar todos os mortos, o que levou muitas famílias a sepultar suas vítimas nos quintais das próprias casas. A partir do dia 16, os revoltosos começaram as tentativas de armistício. A princípio, o general Isidoro condicionou a assinatura de um acordo à entrega do poder a um governo federal provisório e à convocação de uma Assembleia Constituinte. A negativa do governo federal, somada aos bombardeios que a cidade sofria, reduziu as exigências dos rebeldes à anistia dos revolucionários de 1922 e 1924. Mas nem mesmo essa reivindicação foi atendida.

Tenentistas da Coluna Prestes

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Em 23 de julho, um novo ataque abalou a Mooca. A terra foi lacerada pelas explosões; casas desabaram; muita gente morreu. O bairro foi escolhido como alvo devido à sua adesão à causa revolucionária. Mas essa postura estava longe de ser espontânea. Não encontrando número suficiente de civis dispostos a se engajar na luta, os militares rebelados procuraram imigrantes pobres e lhes ofereceram 30 mil réis e a promessa de 50 hectares de terra. Muitos não resistiram a mirabolante proposta e se alistaram. E como a Mooca era reduto de imigrantes, acabou sendo bombardeada. Diante da brutal ação repressiva das tropas do governo, as forças rebeldes de São Paulo, determinadas a continuar a luta, decidiram abandonar a capital na madrugada de 28 de julho e rumar para o interior, deixando um saldo de 500 mortos e 4850 feridos – a grande maioria de civis –, nos 23 dias que ocuparam a cidade. No entanto, àquela altura, já haviam eclodido rebeliões militares no Amazonas, em Sergipe e em Mato Grosso, em apoio ao levante de São Paulo. Os revolucionários paulistas, porém, ignoravam esses acontecimentos.

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Em outubro, enquanto os homens de Isidoro combatiam em território paranaense, tropas do Rio Grande do Sul iniciaram um levante. As forças rebeladas juntaram-se aos paulistas em Foz do Iguaçu, no Paraná, em abril de 1925. Desse contingente formado pelos efetivos dos dois Estados nasceu a lendária Coluna Prestes, que durante os dois anos seguintes marchou pelo interior do Brasil levando corajosamente a bandeira da revolução.

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