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PSICOTERAPIAS i Psicanálise LACAN

A diversidade interna da psicanálise a tornou apta a sobreviver até hoje e fixar-se como prática socialmente reconhecida

'► O cenário que se apresentava a Lacan era substancialm ente diferente. A p a rtir da m etade do século X X havia um a maciça aceitação cultural das práticas psicoterápicas. M u ito além do espaço privado - e liberal — do consultório, elas foram absorvidas pela p siq u iatria e educação, levando ao reconhecim ento progressivo de sua im ­ p o rtâ n c ia e eficácia. As psicoterapias p as­ saram tam b ém a ser abordadas no cinem a e nas artes, além de serem pop u larizad as como práticas sociais inscritas em in stitu i­ ções ju ríd icas, hospitalares, entre o utras. A psicologia, com o disciplina universitária, adquiriu autonom ia, e, em diversos lugares do m undo, os aten d im en to s feitos p o r p si­ cólogos torn aram -se u m a p rática profissio­ nal estabelecida. A psicanálise c o n trib u iu p ara que esse processo ocorresse. N o Brasil, como em m uitos países, os cursos de psicologia c o n tra tara m psicanalistas para definir a form ação e a orientação clínica dos p si­ cólogos. Ela era ensinada nos cursos de p siq u iatria, com o u m a espécie de com ple­ m ento à form ação do m édico que p re te n ­ dia se h ab ilitar com o p sico tera p eu ta. P ro ­ cesso sem elhante ocorreu nas faculdades de pedagogia, serviço social e terap ia ocupacional. S u rg iam assim psicoterapias de o rientação psicanalítica, psicodinâm ica e de base psicanalítica. O u seja, soluções de com prom isso entre a psicanálise e a prática p sicoterapêutica, que aludia ao fato de que 12


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tais profissionais não tin h am form ação es­ pecífica conferida p o r um a in stitu ição de form ação de psicanalistas. N o contexto francês havia um agravante. A psicoterapia era um a prática social p o p u ­ lar, que vinha se desenvolvendo desde o sé­ culo X IX sob o im pulso da laicização dos serviços médicos, consoante com o espírito da Revolução de 1789 e com o Código de N apoleão. O u seja, curadores de alma, hipnotizadores, charlatões (do espanhol charlar, falar) e aconselhadores de todo tipo form a­ vam um grupo disperso de práticos aptos a ocupar o espaço social deixado pelos antigos diretores de consciência e pelos confessores form ados em doutrinas religiosas. Psiquiatras e educadores interessados na psicanálise, por sua vez, precisavam de um a versão acessível dela para increm entar suas form as de intervenção e tratam ento. Fi­ nalm ente, a psicologia nascente exigia um com prom isso não apenas pragm ático, mas conceituai com a psicanálise, o que veio a se estabelecer de inúm eras maneiras: psicologia do ego, teorias da personalidade, concepções de desenvolvimento, testes e procedim entos diagnósticos projetivos, teorias dinâm icas de grupos e instituições. T odas essas implicações, derivadas da absorção da psicanálise pela cultura, de­ viam ser com binadas com o u tro fator. D u ­ rante a prim eira m etade do século X X , quando Lacan se form ava psicanalista, a p ró p ria psicanálise vinha sofrendo tra n s­

formações, sobretudo depois da: m orte de Freud, em 1939. M últiplas derivações, m o­ dificações prático-teóricas e subdivisões no m ovim ento psicanalítico exprim iam tanto a reação dos psicanalistas im igrados no pósguerra, p o rta n to sujeitos a ambiências aca­ d êmicas e práticas distintas de sua origem, quanto os questionam entos internos e as controvérsias em relação ao m odo de ler e de dar continuidade às ideias freudianas. Os im passes relativos ao sentido de seus. textos, as questões sobre a legitim idade no quadro de um sistem a de formação de psicanalis­ tas ainda em definição, as tensões teóricas e divergências práticas estavam longe de nos fornecer um quadro sólido, unitário e consensual de como o psicanalista deveria proceder com seu paciente. P ara m uitos, essa diversidade in tern a da psicanálise é o que a to rn o u ap ta a sobrevi­ ver até os dias de hoje e estabelecer-se como u m a p rática reconhecida socialm ente, em ­ bora não red u zid a a um a profissão c o n tro ­ lada pelo E stad o nem pelas corporações de saúde ou pelas disciplinas universitárias.

DERIVAÇÕES CLINICAS N a h istó ria do m ovim ento psicanalítico encontram os três tipos de derivações clíni­ cas da experiência inaugurada p o r Freud. H á aqueles, com o Jung, Reich ou Adler, que a p a rtir de revisões teóricas form ula-


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ram projetos clínicos in d ep en d e n te s e autônom os da psicanálise original. R espectiva m ente, eles desenvolveram a psicologia analítica, a bioenergética e a psicologia individual —concepções de tra ta m e n to d e ­ rivadas da psicanálise, m as b a sta n te d is­ tin tas dela. E xistem tam b ém o u tro s que, m antendo-se na ó rb ita dos fu n d am en to s do m étodo psicanalítico, inovaram sua téc­ nica, seu alcance ou seus objetivos — caso de Ferenczi, M elanie K lein, ou W in n ic o tt. E ncontram os aqui inúm eras variantes da psicanálise, seus gêneros, suas escolas, suas tradições locais e intern acio n ais. Finalm ente, há os que im p o rtam noções e procedim entos clínicos da psicanálise ad ap tan d o -o s a outras perspectivas psicoterapêuticas ou contextos de tra ta m e n to , com ou sem declaração de proveniência. A qui o critério não é o da diversidade in ­ te rn a nem o da autonom ização, m as o da gradualização, ou seja, form as clínicas m ais próxim as, com binadas, ou mais d ista n te s do lim ite que definiria a psicanálise na sua essência ou do p o n to de vista no rm ativ o . R epresentam esse tipo de derivação as psicoterapias de inspiração ou base psicanalítica, as aplicações psiq u iátricas ou p e d ag ó ­ gicas e as form ações de com prom isso com o u tro s projetos clínicos. T em os então três p o líticas que d efin i­ riam as form as de p sico terap ia p ro v en ien ­ tes da invenção de F reud: (1) de fronteira fix a , baseada na exclusão-inclusão e na de-

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Lacan radicaliza a leitura e a prática de operadores clínicos, dando origem a uma tradição autônoma de transmissão da psicanálise finição essencialista e n o rm a tiv a da p sica­ nálise; (2) de fronteira interna, fu n d a m e n ­ ta d a no d ista n c iam e n to -a p ro x im aç ã o com relação ao ideal h istó rico ou c o n te x tu a l de psicanálise; e (3 ) de fronteira móvel, a p o ia ­ d a no deslo cam en to , n a assim ilação e na com binação de elem en to s do que viriam a g rad ativ am en te definir a p rática psicanalítica. O s exem plos até aqui tra ta d o s estão o rg an izado s no q u a d ro abaixo, le m b ran d o tra ta r-se apenas de casos rep resen tativ o s (ver quadro na pág. ao lado). E n c o n tra m o s algum a dificuldade q u a n ­ do exam inam os a posição de L acan nesse p eq u en o m apa da clínica p sicanalítica ou dos tipos psican aliticam en te in sp irad o s. E m p rim eiro lugar, ele p ro p õ e um a revisão teó rica radical n a form a de ler e p ra tic a r os p rin cip ais o p erad o res clínicos da p sican á­ lise. Isso de fato dá o rigem a u m a tradição a u tô n o m a de tran sm issão da clín ica, com


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das perv ersõ es), e ain d a no que tange aos seus objetivos (ta n to em face da p roposição radical de u m a ética da psicanálise, q u a n ­ to ao qu e se refere ao final do tra ta m e n to ). P o rta n to , a experiência laca n ian a po d e ser in clu íd a com o u m fragm ento adicional no q u ad ro da diversidade das psicanálises. D e novo, p o rém , en co n tram o s objeções p a ra e n q u a d ra r a clínica de L acan nesse critério. A s inovações técnicas, a idiossincrasia do estilo e as consequências p olíticas das ideias de L acan d e te rm in a ra m qúe ele fosse expulso da A ssociação P sicanalítica In te r­ n acional (IP A , sigla em inglês), em 1963. D o p o n to de vista teórico, isso re p re se n ta ­ ria um caso -lim ite de passagem da c o n d i­ ção de “diversid ad e no in te rio r do mesmo"' p ara a situ ação de "outra coisa que deve ser

suas regras, associações e genealogias, b em com o com as p ró p rias in stitu içõ es de fo r­ m ação de psicanalistas. O c o rre que, em vez de caracterizar-se e ju stificar-se seg u n d o "o u tro s princípios", a clínica de L acan se ap resen ta com o psicanalítica e rig o ro sa ­ m ente freudiana. C o n tra a política d e fro n teiras fixas, L acan afirm a qu e to d o e q u a l­ q u er tra ta m e n to dirigido p o r u m p sica n a­ lista é psicanálise. O u seja, ele su b stitu i o critério norm ativo (sobre a reg u larid ad e dos p rocedim entos) pelo form ativo (acerca de q uem se resp o n sab iliza p o r eles). E m segundo lugar, L acan inova a clínica ta n to no que diz respeito à sua técnica (notad am en te o m anejo do tem p o e das p a la ­ vras em análise) com o ao seu alcance (com relação ao tra ta m e n to seja das psicoses, seja

DERIVAÇÕES AUTONOMAS

DESENVOLVIMENTOS INTERNOS COM . INOVAÇÕES TÉCNICAS

COMBINAÇÕES E COM PROM ISSOS

Jung (psicologia analítica)

Ferenczi (técnica ativa, neocatarse)

Psicoterapia psicodinâmica

Adler (psicologia individual)

Melanie Klein (ludoterapia)

Psicoterapia de base psicanalítica

Reich (vegetoterapia, bioenergética, terapias corporais)

Winnicott (jogo do rabisco, atendimento conforme a demanda)

Psicodrama de orientação psicanalítica

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excluída". O ra, naquele m o m en to L acan já tin h a con trib u íd o significativam ente p ara fo rm ar um a nova geração francesa de a n a ­ listas, contava 62 anos e era figura co n h eci­ da e respeitada nos círculos p sicanalíticos, psiquiátricos e psicológicos, bem com o nos circuitos universitários e in telectuais. P o r­ ta n to , sua descaracterização com o p sican a­ lista soava apenas com o um a m an o b ra p o lítico-norm ativa, francam ente indefensável segu nd o parâm etro s atuais. Isso, no e n ta n ­ to, criou essa espécie de p aradoxo p a ra localizá-lo na origem de mais u m a orien tação psicanalítica, entre outras. C o n tra a política das fronteiras in te rn a s L acan afirm ou que “o p sican alista não se au to riz a senão po r si mesmo", assim com o não haveria nenhum ser do analista, com o figura positiva de identidade, d escen d en te de u m arquipsicanalista originário, p a s­

H av ia p o r p a rte de L acan u m esforço co n tín u o p a ra fu n d a m e n ta r não apenas a psicanálise, com o teo ria do inconsciente e das pulsões, m as seu m é to d o de tra ta m e n ­ to. U m em p en h o p a ra d e te rm in a r as c o n d i­ ções e os lim ites além de um p ro lo n g am en to da técnica ou de certas m odificações de sua d o u trin a teórica, m as de to d a e q u alq u er experiência que se q u eira psicanalítica. P ara

Na clínica lacaniana, a duração da sessão é variável e depende do que é dito e realizado entre os participantes da cena analítica

sível de ser verificado em alguém . N a sua concepção, o que se tra n sm itiria de p sica­ n alista a psicanalista, desde F reu d , seria um desejo (o desejo de analista), e não u m a identificação nem um a form a de ser ou de

ele, o psicanalista, m ais que u m a pessoa e um a função, to m a p a rte no p ró p rio concei­ to de inconsciente. D essa m an e ira ele co n ­ trib u iu p a ra estabelecer algum a u n id ad e do p ró p rio cam po psican alítico e pro m o v er u m a separação m ais clara d ia n te das o u tras m odalid ades de tra ta m e n to psicológico. C o n tra a política da fronteira móvel L a ­ can afirm ou que a p sico tera p ia levava o sujeito de volta ao pior. O u seja, os com ­ p ro m isso s e as concessões à m o ral da ad ap ­

obedecer ( obede-ser). Essa situação duplam ente a n ômala, um a clínica independente, em bora não a u tôn om a e diversa das outras, mas excluída do co n ju n ­ to do p o n to de vista norm ativo, sugere tratar-se aqui de um caso do terceiro tipo: u m a clínica m ais ou menos psicanalítica, u m a form ação de compromisso. Esse e n q u ad ra ­ m ento, no entanto, tam bém não é possível. 16


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tação e da conform idade social, o objetivo de elim inar o m au d esem p en h o psíquico de form a a rein teg rar o sujeito em um fu n ­ cio nam ento social patológico seriam ideais de cura b astan te suspeitos. A objeção aqui é que fro n teira m óvel acabaria sendo u m p retex to p ara que a ética do desejo, com o trágica, fosse diluída em u m a norm alização do sujeito e um a o rto p e d ia d a alm a. Essa am bição de Lacan de fu n d am en tar a ação do psicanalista, tan to do p o n to de vista ético, com o epistem ológico, era ao m esm o tem po um convite à exploração de novas fo rm as de intervenção e à construção de um estilo p róprio de cada analista. O u seja, em vez de p ad ro n izar a ação, n o rm atizar a for­ m ação e burocratizar os procedim entos clí­ nicos, ten to u fixar alguns princípios e convi­ dar o psicanalista a p en sar e pro b lem atizar continuam ente as razões de sua prática. U m exemplo m uito discutido dessa p ro ­ p o sta é o uso do tem po lógico. Investigando a incidência da tem poralid ad e nas relações intersubjetivas, L acan pro p ô s u m a espécie de teoria alternativa para p en sar as relações do sujeito com o p ró p rio ato do p o n to de vis­ ta tem poral, a p artir da h ipótese do incons­ ciente. N o processo de construção de certe­ zas, decisões e escolhas deparam os sem pre com o o u tro e consequentem ente com nosso próprio desejo inconsciente. C om o in te rp o ­ lar esse aspecto decisivo da experiência de qualquer sujeito à clínica psicanalítica? A conclusão de Lacan é que o p ró p rio tem po

da sessão e do tratam en to , em seu conjunto, deveria ser p o n d erad o a p a rtir desse aspecto constitutivo dos sujeitos desejantes. O u seja, n u n ca se sabe q u a n d o u m a sessão de psicanálise vai term in ar. S u a d u ração é variável e d ep e n d e n te do que é efetivam ente d ito e realizado e n tre os p a r­ ticip an tes d a cena analítica. Esse é um b o m exem plo de com o um fu n d a m e n to teo ric a­ m en te sim ples leva a consequências p rá ti­ cas, técnicas e éticas difíceis de enfrentar. N a verdade é b a sta n te intu itiv o que nossa experiência tem p o ral d ep en d a do tipo de relação n a qual estam os in seridos, e, ao c o n ­ trário , a fo rm a de n o s relacionarm os com o tem p o (pressa, atraso, suspensão, in d eterm inação) defina aspectos fu n d am en tais de nosso en co n tro com o o u tro . O ra , p o r qual m otivo essa triv ialid ad e teórica não deveria ser levada em c o n ta n a clínica p sicanalítica — nessa que é u m a experiência ra d icalm en ­ te fu n d a m e n ta d a no sujeito?

SOFRIMENTO E MAL-ESTAR L acan p ro c u ro u m o stra r qu e a p sican á­ lise seria capaz de co n ta r com u m a psicopatologia p ró p ria , o u seja, que os q u ad ro s clí­ nicos havia m u ito conhecidos pela p siq u ia ­ tria e pela m ed icin a da alm a p o d e ria m e deveriam g an h a r novas descrições, segundo as condições do m éto d o psicanalítico. C o m isso conseguiu "despsiquiatrizar" e “desbio-

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logizar" a psicanálise sem que esta deixasse de ser um a clínica, no sen tid o m ais rig o ro ­ so do term o. A eficácia do tra ta m e n to psicanalítico se justificava p ara L acan no fato evidente, m as freq u en tem en te esquecido, de que a psicanálise é u m a experiência de fala. Se é p o r m eio dela que o “tratam en to " age, p ressu p õ e-se que as tran sfo rm açõ es p ro d u z id a s pela fala e a reversibilidade dos sintom as que p ro p icia d ep en d am da e s tru ­ tu ra de linguagem destes. D essa m aneira, supõe-se que o sin to m a te n h a e stru tu ra de m etáfora; o desejo, de m e to n ím ia; o recal­ que, de denegação; o sonho, de escrita; e a resistência, de discurso. O sujeito, p o r sua vez, estaria situ ad o en tre significantes. A psicanálise seria assim a ciência da linguagem habitada pelo sujeito. N a clínica de orientação lacaniana, há diagnóstico psicanalítico, mas ele não deve ser entendid o com o detecção de u m a d o en ­ ça orgânica ou de u m desvio m oral, e sim das form as de relação do sujeito com o ou tro , especificam ente segundo o fenô m e­ no descrito p o r F reu d com o tran sferên cia. H á u m a sem iologia, m as esta não é fo rm a­ da p o r um co n ju n to de signos estáveis ou p o r um d icionário de sin tom as, m as pela relação do sujeito com a p ró p ria fala, com a linguagem que esta p ressu p õ e e os d iscu r­ sos que a o rgan izam , bem com o com a lín ­ gua que lhe é p ró p ria e com um . H á ainda u m m éto d o de intervenção, m as este não é co n stitu íd o p o r u m co n ju n to de pro to co lo s

técnicos a ser seguidos, m as p o r u m a rela­ ção ética com o desejo, até m esm o p o r p a r­ te do p ró p rio an alista, que condiciona as in terp re ta ç õ e s e a c o n d u ção da cu ra em seu co n ju n to . P o r fim, L acan investigou siste­ m a ticam en te a q u estão das causas, d escar­ to u q u a lq u e r associação do inconsciente com a irrac io n a lid a d e e e stu d o u a fu n d o a reg u larid ad e e stru tu ra l dos sin to m as, das inibições e das an g ú stias. O u seja, há u m a clínica psicanalítica, que, no en tan to , não é im portação d eform a­ da ou m im etizad a da m édica. O sintom a é o conceito que a define com o tal; certas regularidades e condições estão envolvidas na produção, p o r exemplo, de um a conversão histérica, de um a ideia obsessiva ou de um a fobia. H á ainda form as típicas de inibição de p ensam ento, de ação ou de emoções, assim como m odalidades e transform ações previ­ síveis da angústia, da ansiedade e do pânico. O sin to m a é, ao m esm o tem po, um a m ensagem e u m a p rática; extração sim b ó ­ lica de satisfação. E tam b ém u m a atividade de defesa e a expressão de u m a fantasia. N essa m ed id a, é possível reconhecer as es­ tru tu ra s de linguagem nas quais cada um deles se ap resen ta, bem com o as inibições e angústias; caracterizar m odos de relação com o o u tro que se e n carn am em tais e stru ­ turas; descrever a gênese delas a p a rtir da constitu ição lógica do sujeito; e, finalm ente, é possível in terv ir e tra n sfo rm a r tais ap re ­ sentações sin to m áticas p o r m eio da palavra


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C o n tra essa política de fronteiras móveis, em te rm o s m etodológicos e clínicos, L acan desenvolveu u m a clínica e stru tu ral, o u seja, u m a lógica da ação ao longo do tra ta m e n to , rig o ro sam en te c o n g ru en te com a te o ria e

O sintoma é, ao mesmo tempo, uma mensagem e uma prática, bem como uma atividade de defesa e expressão de uma fantasia

com a ética da psicanálise. S e o p rim eiro aspecto do p ro jeto lacan ian o é m o s tra r que a p sicanálise é u m a clínica fu n d a d a n a linguagem , o segundo asp ecto do p ro g ra m a clínico lacaniano cor­ resp o n d e à crítica sistem ática do exercício do p o d e r n a situação de tra tam e n to . P r i­ m eiram en te, ele e n ten d e u que isso derivava d a fo rm a au to c rá tic a e subserv ien te com o a fo rm ação de an alistas vinha sen d o tr a ­ ta d a nos an o s 4 0 e 50, em que can d id ato s a an alistas deviam seguir reg u lam en to s e m estres. O u seja, após anos de o b e d iê n ­ cia, essa exp eriên cia de dom inação te n d ia a se re p ro d u z ir no in te rio r do tra ta m e n to p sican alítico . M as, além de u m a vicissitu­ de in stitu c io n a l, isso levou L acan a p e n sa r m ais rad icalm en te a vocação h u m a n a p ara a servidão v o lu n tária e alienação — relação

e da relação na qual elas se realizam . T ra ­ ta-se, p o rta n to , de u m a clínica a u tó n o m a, capaz de oferecer os p ró p rio s fu n d am en to s segundo o crivo da razão e em acordo com critérios de cientificidade, justificação e transm issão que lhe são atin e n te s. Esse é ju stam en te u m aspecto problem á­ tico em algum as form as de psicoterapia, nas quais a intervenção ju n to ao paciente se en­ contra subm etida a um diagnóstico origina­ do em outro discurso (psiquiátrico ou moral, p o r exemplo). A lém disso, quando o trabalho psicoterapêutico se dá em outros contextos (jurídico, educacional ou institucional), corre o risco de que seus fins sejam a eles subm eti­ dos, de m odo acrítico. P odem os ainda veri­ ficar que, em alguns casos, a psicoterapia se reduz a u m conjunto de técnicas de aplicação mecânica, sem um m étodo propriam ente ju s ­ tificado, segundo critérios internos e conso­ antes à prática em questão.

qu e se a tu a liz a nas form as de sin to m as, nos tip o s de relação n e u ró tica, perversa ou p si­ cótica, e q u e no fu n d o definem u m a espécie de d esco n h e cim e n to sistem ático do sujeito em relação ao seu desejo. Seja na sua im p li­ cação nele o u no seu reco n h ecim en to , seja n a su a realização sim bólica, no q u a d ro de u m a h is tó ria ou de suas condições de so ­ cialização, esse sistem a de d esco n h ecim en ­ to do desejo e de não responsabilização de 19


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si é o m o to r da alienação, p ro ced en te do que L acan cham ou de im aginário. D istin g u ir a dim ensão im ag in ária da simbólica na condução do tra ta m e n to seria assim um prim eiro a n tíd o to p a ra que "a im ­ p o tên cia em su ste n ta r au ten tic a m e n te u m a práxis [não se reduza] ao exercício de u m p o der". É im p o rta n te salien tar o títu lo do tex to no qual L acan coloca essa ideia: “D ireção da cura e os p rin cíp io s de seu p o d er" (1 9 5 8 ), ou seja, um a declaração d ire ta e p ro g ram ática de que a reflexão sobre o tr a ­ ta m e n to é indissociável de u m a ab o rd ag em crítica das form as de poder. A pedagogia ou o rto p ed ia da alma, assim com o a direção da consciência, ru m o à a d a p ­ tação ou ao conform ism o, figuram com o antim odelos para a psicanálise lacaniana. N esse sentido, Lacan p reten d eu o rien tar o tratam en to psicanalítico p ara u m a dissolu­ ção das condições que o to rn a ra m possível. O u seja, rum o a um a experiência radical de decom posição da ficção pela qual o p sicana­ lista se apresenta com o m estre soberano do saber inconsciente (função tam b ém d en o ­ m inada “sujeito suposto saber"). E isso, p o r m eio da travessia das identificações e ideais e da separação com relação à paixão especí­ fica pela qual nos oferecemos com o objeto e assim nos tom am os. Q u an to a essa política defronteiras internas, em que o psicoterapeuta expande sua ação de influência sobre o paciente, ao m odo de um a colonização p o r sugestão, se poderia dizer,

0 trabalho da associação livre, a rememoração e a reapropriação das formas de desejar levam à reconstituição simbólica do desejo segundo Lacan, que se trata do próprio antim odelo da psicanálise. O psicanalista dirige a cura, e não o paciente. Por isso, deve cuidar para que a identificação do analisando com ele seja dissolvida de maneira m etódica e que o lugar de mestre, que por vezes o paciente confere ao analista na transferência analítica, seja analisado, passo a passo. O terceiro aspecto no tó rio do p ro jeto clínico de Lacan refere-se à sua insistência de que o tra tam en to seja um a “aventura da verdade". R ecuperando a noção de expe­ riência, com o percurso dialético e tra n sform ativo p o r meio do qual um sujeito se en co n tra e p ro d u z as p róprias condições de existência, a psicanálise se coloca sim u l­ tan ea m en te com o um em p reen d im en to de descoberta e invenção. O trab alh o da as­ sociação livre em análise, a rem em oração e a reapropriação das form as de desejar es­ tabelecidas na história do sujeito levam a


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um a espécie de reconstitu ição sim bólica do desejo. A d esco b erta de certas regularidades, na gram ática da vida am o ro sa ou na re ­ corrência de certas injunções trau m áticas, p o r exem plo, p ro d u z in crem en to de saber sobre a vida do paciente. A lição clínica de Lacan começa pelo fato de que esse saber - obtido peio processo de decifração do inconsciente, segundo a escu­ ta rigorosa da fala do paciente, com o m enor acréscimo possível de sentido — não cura o sujeito. É fato que isso p ro du z efeitos de es­ tabilização narcísica, de redução da angústia e até de rearticulação das relações com a reali­ dade e seus laços constitutivos. H á, portanto, um efeito terapêutico decorrente de tal form a de produ zir um saber, de refazer u m a h istó ­ ria, de recuperar as escolhas de um sujeito se­ gundo determ inações que lhe escapam. Lacan, no artigo “C iência e verdade" (1966), lançou a seguinte p e rg u n ta p ara aqueles que ingressavam na p rática clínica: “O que vocês fazem tem o sentido de afir­ m ar que a verdade do sofrim ento neurótico é ter a verdade com o causa? S im ou não?". O u seja, o sofrim ento tem u m a verdade que precisa ser reconhecida talvez p o rq u e ele m esm o não passe dessa verdade bloqueada, como um a realização intersubjetiva, u m a palavra am ordaçada, um a assunção subjetiva ou social de um a experiência in o m in ad a e, po rtan to , incapaz de ser sim bolizada (social­ m ente integrada). C ontudo , u m a psicanálise não term ina, m as começa nesse p o n to .

Para Lacan, a experiência psicanalítica deve ser capaz de inventar um a verdade, de ser u m acontecimento de verdade na vida de alguém. O emprego dessa palavra — verdade - tão carregado nesse contexto, deve ser m i­ nim am ente esclarecido, pois não se trata de u m conteúdo ou conjunto de saberes mais ou m enos confiáveis sobre si m esm o. A psica­ nálise, p ara Lacan, não é um a experiência de autoconhecim ento, pois só se p ode apreender pro p riam en te objetos; conhecer-se a si m es­ m o é tom ar-se como objeto, p o rtan to alienarse — o que é um contrassenso na perspectiva lacaniana. A psicanálise, p o rtan to , tem m ais a ver com cuidar de si que conhecer a si. P ara Lacan, um a verdade só pode ser sem idita, e em dada estru tu ra de ficção, de m odo singular, m as não individual. Ela é m uito m ais da ordem do tem po, ou de um acontecim ento local, que u m enunciado u n i­ versalm ente verídico ou plausível; m uito mais experiência e formalização de u m paradoxo que a aquisição de um a evidência clara e dis­ tin ta sobre si m esm o. P o rtan to , contra um a política de fronteiras fixas, que to rn aria a psicoterapia u m a busca dirigida pelo encontro com nossa essência interior, Lacan p ropõe um a política da dissolução de fronteiras, b a ­ seada no reconhecim ento de que som os seres destituídos de essência, ou que nossa essência é essa falta cham ada desejo. Essa aventura da verdade seria apenas um trajeto de separa­ ções ou de suspensões de falsas fronteiras, de abandonos progressivos de m odos de ser. 21


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O q u arto aspecto que caracteriza a clínica de orientação lacaniana diz respeito ao que não pode ser cu rad o , ou seja, ao in tra ­ tável em d eterm in ad o sujeito. Eis u m traço antipsicológico ou antifilosófico m arcan te dessa concepção de experiência psican alítica. O u seja, ela se p ro p õ e re d u z ir o sofrim ento assim com o as psico terap ias. A p si­ canálise tam b ém se p ro p õ e dissolver certos

As pessoas não buscam tratamento porque sofrem, mas devido ao saber sobre o próprio sofrimento, que se tornou insuficiente sintom as, de acordo com as aspirações da clínica baseada em u m m éto d o que, p o r sua vez, pode dar conta co n ceitu alm en te de sua eficácia terapêutica. M as, assim com o as psicoterapias em geral, não é capaz de aca­ bar com o que F reud cham ava de m al-estar (Unbehagen). Esse aspecto é m u ito im p o r­ tante, pois im plica reconhecer lim ites p ara o que podem os p ro m e te r aos nossos p a ­ cientes, aos quais não se p o d e re crim in ar que dem andem nad a m enos que a felicida­

de. Significa não p ro m e te r a cura p ara além do possível. O reco n h ecim en to do caráter irred u tív el do m a l-esta r não é u m a fórm ula genérica, aplicável no q u ad ro de um a visão p essim ista ou trágica de m u n d o . Ele p reci­ sa ser e n c o n tra d o em cada sujeito, que de fato o vive de m an eira diferente e única. N esse p o n to , a crítica de L acan ao p ro je to a d a p ta c io n ista das psicoterapias refere-se ao m o d o com o as d iferentes políticas da cura p o d e m ser levadas a p ro m e te r o im ­ possível e com isso desco n h ecer o real que se exprim e na experiência h u m an a: a lo u c u ­ ra c o n stitu in te e lim ita n te de sua liberdade, sua fin itu d e expressa pelo envelhecim ento e p recaried ad e do corpo, sua lim itação p e ­ las incidências da falta (castração, privação e fru stração ), sua paixão pelo d esco n h eci­ m ento e p ela servidão. T u d o se passa com o se no núcleo d u ro de certos sin to m as, na fo rm a cristalina de d ete rm in a d as an g ú stias e, no fundo, no que há de p io r na ex p eriência de alguém , e n ­ co n trássem o s algo que precisa ser reco n h e­ cido ou d estin ad o , m as não elim inado. É o que F reu d d e n o m in o u pulsão de morte, que com põe u m verdadeiro divisor de águas na h istó ria da psicanálise: há os que a d m item esse conceito e os que o rejeitam . Lacan, p o r sua vez, co m p re e n d e u essa noção de várias m aneiras: com o rep etição insidiosa que atravessa a vida de alguém ; com o fas­ cinação n e u ró tic a pelo tra u m a; com o lugar de re to rn o da alucinação; e com o um a es-


PSICOTERAPIAS I Psicanálise LACAN

pécie de m olde às avessas p ara a p ró p ria se ­ xualidade do sujeito e ev en tu a lm en te p a ra seu m asoquism o. A essa série de fenôm e ­ nos clínicos e de constataçõ es em to rn o da form a com o lidam os com certas condições como a finitude, o d esam p aro e a diferença sexual, L acan deu o nom e de real. A ssim como a verdade não corresponde m uito bem ao saber, o real não se confunde com a realidade. Ele pod eria ser definido ju s ­ tam ente com o aquilo que, fazendo parte da existência, não "entra" na realidade, não cabe nela. D aí as ligações dessa dim ensão psíquica com a criação e a sublim ação. E tam bém sua incidência sem pre na form a de um im possí­ vel que "não cessa de não acontecer" na vida de alguém, o que corresponde aproxim ada­ m ente à noção clínica de gozo. N o final de sua vida, Lacan com eçou a perceber que as ambições clínicas da psicanálise dependiam da form a de considerar o real, bem como da possibilidade e dos lim ites de tratá-lo pelo simbólico ou pelo im aginário.

ENTRADA EM ANALISE N e m to d o paciente qu e p ro c u ra u m analista se tra n sfo rm ará em um analisante. Por isso, desde F reud, an tes de se com eçar um a análise p ro p riam e n te dita, é feita um a série de encontros, conh ecid a com o tra ta mento de ensaio ou entrevistas preliminares, cujas funções são diversas. E n tre elas, exa­ -

m in a r a n a tu re z a e o estado das queixas tra z id a s p elo paciente, b em com o a posição e o sab er qu e o sujeito m an tém com relação ao seu so frim en to , além de favorecer a fala livre de tal m o d o que a relação de tra n sfe ­ rência p o ssa ser desencadeada. E ssas e n tre ­ vistas p relim in ares co stu m am tra z e r algum alívio àquele que p ro c u ra u m a análise ta n ­ to p o rq u e algum as dim ensões do m al-estar e n c o n tra m nom eação, red u zin d o o sen ­ tim e n to de dispersão e confusão, q u an to pelo fato de que o d iscu rso interior, com o q u al o sujeito se debate, v irtu a lm e n te se m odifica q u an d o en co n tra um d estin a tário . É c o m u m as pessoas que d izem não se le m ­ b ra r de seus so n h o s com eçarem a trazê-lo s p a ra a sessão apenas pelo fato de que, a p a r­ tir de então, há alguém d isp o sto a ouvi-los. A oferta cria a d em an d a . O exam e da queixa leva inevitavelm ente ao trab alh o de recordação: q u a n d o aquilo de que o pacien te reclam a com eçou, sob quais circu n stâ n cias ficou m ais in ten so ou desap areceu ; suas teorias e h ip ó teses sobre a origem ou sua d eterm inação; as repetições e incid ên cias dessa dificuldade nas pessoas significativas p ara ele. Esse processo d e p e n ­ de en tão de u m fato m u ito sim ples. O s in ­ d ivíduos não p ro c u ra m tra ta m e n to p o rq u e sofrem , m a s devido ao saber deles sobre seu so frim en to , que se to rn o u insuficiente o u in a d e q u a d o . É isso que d e te rm in a que o m al-estar, an tes visto com o d eco rren te das contin g ên cias da vida, da boa ou m á so rte 23-


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o u do je ito de ser do p ró p rio sujeito ou de quem o cerca, seja agora in s u p o rtá v e l. É p o r isso que há sem pre um a narrativa associada ao sintom a, p o r exemplo, "nascemos p ara sofrer", "é preciso aceitar o que vier”, "cada u m deve resolver seus problem as p o r si mesmo" E sta p o d e ser in d u zid a p o r algo exterior ao sujeito, p o r exemplo: "a es­ cola ped iu que eu fosse atendido", "o médico recom endou que procurasse um psicanalis­ ta" “determ inado parente está m u ito p reo ­ cupado comigo" "na nossa família é assim" O u , ainda, está silenciada ou tru n c a d a de tal m aneira que nem mesmo o paciente sabe do que se queixar: "está tudo ótim o, não tenho do que m e reclam ar" "tenho tu d o o que sem ­ pre sonhei, mas..." Essas diferentes formas de queixa expri­ m em um saber sobre o que vai mal, ou do qual se infere determ inado regime de rela­ ções do sujeito com a realidade. P o r exemplo: "o problem a vem do outro" ou "começa em mim", ou ainda "está em algo que ultrapassa a m im e ao outro". Portanto, d urante as en tre­ vistas prelim inares é preciso tra ta r a queixa

em função de um erro de perspectiva, e stru ­ turalm ente determ inado no caso da neurose. A realidade em que o sujeito se insere e da

volte a ser com o antes, que o sintom a seja re­ movido. Esse é o estado psicoterapêutico da queixa, pois supõe que o sintom a ten h a sido p ro d u zid o sem função, história ou determ i­ nação que im plique o p ró p rio sujeito. O sin­ to m a pode então ser rem ovido sem prejuízo o u consequência, pois é u m excesso sem sen­ tid o ou serventia. N o p rim eiro m o m en to das en trevistas p relim in ares, a tarefa é retificar as relações d o sujeito com o real. C o n sid erem o s que o real, na acepção lacaniana, é o im p o ssí­ vel de reco n h ecer em certo regim e de rea­ lidade, o p o n to cego que, ao ser excluído, fo rm a u m a realidade, c o n ferin d o -lh e co n ­ sistência, coerência e u n id ad e. R etificar as relações com a realidade seria assim m o s­ trar, no caso d aquela vida específica, o que o sujeito p re c isa negar p a ra se co n stitu ir e se m an ter com o tal. R atificar e retificar são alte rn a tiv as im p o rta n te s nesse caso. R atifi­ car a posição do sujeito d ian te d a realid a­ de o rie n ta o tra ta m e n to p ara a solução de p ro b le m as; já retificá-la é convidá-lo a re ­ p o r a q u estão de o u tra form a, A retificação d e p e n d e d e u m a recusa calculada p o r p a rte do a n a lista dos term o s nos quais o problem a-q u e ix a é colocado, de tal m an eira que o pacie n te vê-se o brigado a a lterar a sua p o si­ ção, fazen d o o p ro b lem a evoluir p a ra um a

qual ele se queixa não é o que p rocura tra n s­ formar, pois em geral ele já está dem asiada­ m ente adaptado a ela. O que ele dem anda é outra coisa, que ela lhe dê mais satisfação,

questão, e a queixa, p ara u m sin to m a. P ara retificar a po sição de realidade é necessário refazer a h is tó ria na qual o sujeito se insere, p assa n d o da do sin to m a p a ra a do sujeito.

de tal m aneira que as relações do sujeito com a realidade sejam transform adas. Isso ocorre


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A questão, p o r sua vez, difere do proble­ ma p o rq u e precisa de u m a h istó ria p a ra se colocar, sendo d o tad a de certa in sistên cia

lise. O desejo h u m a n o estaria alienado em significantes que retêm e sim b o lizam e n ­ c o n tro s significativos de p razer e desprazer, d em an d a s p o stas ou su p rim id as ao longo da vida, p o n to s de inserção de lim ites, re ­ gras e condições que fo rm am a lei p ela qual nos socializam os, sendo su p o rtes p a ra a tran sm issão de desejos, ideais e ex p ecta­ tivas de u m a fam ília, g ru p o ou c u ltu ra, com o em blem as e brasões de u m a h istó ria dos desejos de alguém . O que ch am am o s de posição diante da realidade é, no fu n d o , certo estado de alienação com relação a tais significantes, que vão ap arecendo de m odo insisten te, recorrente, e p ro d u z in d o u m a cadeia m odificada de incidências q u an d o se p assa da queixa ao sin to m a d u ra n te a as­ sociação livre, a qual o p aciente é convidado a fazer nas en trevistas prelim inares. D izem o s alienação p o rq u e esses signifi­ cantes aparecem sem pre de um lugar: o O u ­ tro, n a acepção lacaniana do term o . A liu m , q u er d izer o u tro , e é ju s ta m e n te assim que nos relacionam os com o desejo in co n scien ­ te, com o se ele viesse de u m O u tro (grafado com letra m aiúscula), e n ão de m im m esm o. Disse isso, mas na verdade não era isso que eu queria dizer (p o rta n to , q u em o disse?); so­ nhei aquilo, mas era só um sonho, nada d iz de m im como um ser dotado de razão e vontade

nas palavras que a rep resen tam . E sta s são cham adas p o r Lacan de significantes, e é a escuta deles — não apenas do significado e do sen tid o — o que caracteriza a p sic a n á ­

autônoma (m as, então, q uem sonhou?); fi z determ inada coisa, algo que eu mesmo sei ser prejudicial, tolo, ou contrário, uma deliberação da m inha consciência (então, fez se g u n ­

Nas entrevistas preliminares é preciso tratar a queixa de tal modo que as relações do sujeito com a realidade sejam transformadas P o r exemplo, alguém que te n ta várias ve­ zes e n trar n u m a faculdade, e sta n d o sem p re prejudicado p o r in fo rtú n io s (p e rd e r o h o ­ rário, passar o rascu n h o de fo rm a e rra d a ou esquecer a carteira de id e n tid ad e ), p o d e ter sua relação com essa queixa ratificada pelo analista, se ele e n ten d e r qu e é p reciso m e ­ lh o rar o foco e a atenção do c a n d id a to p ara que isso não ocorra nas p ró x im as te n ta ti­ vas. O u então ele p od e retificá-la, o u seja, levar o sujeito a alterar as relações com a realidade, p e rg u n ta n d o -lh e so b re as razões desejantes que envolvem a escolha dessa carreira ou a execução desse curso.


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do a vontade de quem ?); quando o f i z e disse “estava fora de m im mesmo” (e onde você estava?). Hm cada um a dessas localizações do inconsciente o sujeito p o d e se to m a r com o coisa, um objeto imaterialmente material ou com o p u ra form a vazia. N esse sen tid o , d i­ zem os que o sujeito está reificado (coisificado), quando to m a a si m esm o com o u m objeto e não subjetiva seu desejo. Se tudo cam inha bem, esse processo de ref i cação das relações com o real, que orga­ niza a realidade do sujeito, abala seu estado

O desejo humano é o desejo do Outro, mas esquecemos disso ou rejeitamos esse fato, e a verdade negada retorna no sintoma

de reificação e suspende sua d em an d a de rati­ ficação. Essa retificação equivale a um p rim ei­ ro m om ento de reconhecim ento do desejo e, consequentem ente, do inconsciente. O que se verifica então é que esse desejo, ten d o um a história, expressando-se em significantes m a ­ teriais da língua e organizando-se ao m odo de um mito individual, é no fundo desejo do O utro. É assim que a linguagem, a h istória e a família se apresentam com o alteridades que nos constituem como tal, sobredeterm inando nossos anseios. O desejo h um ano é o desejo do O utro; no entanto, nos esquecem os disso ou rejeitamos esse fato. E a verdade negada

lise. Se para F reu d o trata m e n to de ensaio deveria d u ra r algum as sem anas, para Lacan ele segue um tem po cham ado de lógico, que p ode ser mais ou m enos extenso (do p o n to de vista da duração objetiva) p ara cada um . T em po, d in h eiro e disposição dos envolvidos são três aspectos que precisam ser acertados nas entrevistas p relim in ares. Isso envolve solução p a ra assu n to s p ráticos, tais com o q u an ta s sessões sem anais serão n e ­ cessárias, o valor dos h o n o rário s, e, p rin cipalm ente, a disposição p a ra ingressar nessa av entura in certa, cuja regra fu n d am en ta l

retorna no sintom a. C ontudo, subjetivar um desejo não é o mesmo que assum ir um a vontade, assim como apropriar-se de um a im agem não é o

é te n ta r m a n te r a associação livre. Falar

mesmo que se responsabilizar p o r u m dese­ jo. Temos aqui um segundo m o m en to que marca o encerram ento das entrevistas p re ­ liminares e caracteriza a entrada em aná-

dele. Falar p ara u m o u tro do qual se saberá m uito pouco, m as em direção a q uem u m vínculo de g ra n d e confiança e acolh im en to se fo rm ará. A decisão de acolher esse p a ­

de form a tão solta q u a n to se consiga, sem crítica, ju íz o ou p reparação, sem sab er ao certo o que o o u tro q u er o u espera ouvir


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ciente e de to rn á-lo um analisan te é um ato do analista, que tem seu correlato do lado do paciente. T o d o ato é u m a decisão ética, p o rta n to não d ep en d erá apenas de c o n d i­ ções que, u m a vez aten d id as, d e term in e m o seguim ento do processo. Isso será m u ito im p o rtan te nos m o m en to s v in d o uro s do tratam ento. A decisão de p arar ou co n tin u ar se abre de tem pos em tem po s e será, a cada vez, um a reconfiguração da e stru tu ra lógica dessa ap o sta inicial. Esse segundo m o m en to que encerra as entrevistas p relim inares está, p o rt anto, b a ­ seado na implicação subjetiva. A to de reco ­ nhecim ento ou de intuição inicial do que

tal apresentação será sem pre u m a fixação do que.se espera, o que é p o ten cialm en te o pres­ sivo, ao con trário da sim plicidade cristalina rep resen tad a pela regra fundam ental: faleme livremente do que te ocorrer. E ssa fixação de expectativas terá u m papel im p o rtan te no seguim ento dos acontecim entos, servin­ do de p o n to de apoio p ara o que F reud ch a ­ m ou de resistência.

está em jo g o no sintom a, bem com o de sua abordagem pela análise. É p o r isso que os psicanalistas são, em geral, tão econô m icos em ap resen tar regras de fu n cio n am en to . N ão há exatam ente um a bula ou um m anual de instruções p ara a psicanálise p o rq u e faz parte do tra ta m e n to que suas n o rm as se­ jam apresentadas no ato, e não ao m odo de um jogo em que p rim eiro se leem as regras e depois se inicia a p a rtid a.

bem com o a d im en são te m p o ral é im p o r­ tan te nesse processo de decisão. Im plicação é u m term o da lógica que se refere à neces­ sidade de co nsequências necessárias. O u seja, os d ito s do sujeito re to rn a m a p a rtir do lugar do O u tro , de fo rm a in vertida, p a ra ele p ró p rio . P o r exem plo, se ele diz "essa é m in h a m u lh e r”, está im plícito que “ele é seu ho m em ”; se nega v eem e n tem ente que um a figura com quem so n h o u é seu pai, ele está im plicado nessa negação veem ente; se afir­ m a te r esquecido isto ou aquilo, está s u b ­ ten d id o qu e ele, m esm o assim , sabe do que se tra ta . Isso não q u er d ize r que no tr a ta ­ m en to não se p o d e voltar atrás n o que se disse ou afirm ou, m as que tu d o o que é dito terá p o te n cia lm en te um a consequência, de tal fo rm a qu e está excluída a p o ssibilidade de apelar p a ra o álibi “não fui eu, foi o o u ­

Isso tem seus m otivos. N ã o se p o d e s a ­ ber de antem ão de qual m aneira ao paciente se relacionará com o analista, com o será a transferência. A apresentação neutra do fu n ­ cionam ento das sessões será, p o rtan to , vaga e indeterm inada do p o nto de vista do que realm ente im porta para o analisante, ou e n ­ fatizará aspectos que podem ser indiferentes ou desnecessários p ara o caso. A lém disso,

TRANSFERÊNCIA E INTERPRETAÇÃO V im o s que a noção de implicação subjeti­ va é fu n d a m en ta l p a ra a e n tra d a em análise,


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tro (inconsciente) que disse ou que m e fez dizer". Isso cria um a posição p a ra o p sica­ nalista que é a de fazer valer esse lugar do O u tro , de onde as palavras d itas p o d em re­ to rn ar, de m aneira in vertida, p ara o p ró p rio sujeito, de tal fo rm a que ele as escute. T em os então dois m ovim entos im p o r­ ta n te s contidos nesse e n ten d im en to de im ­ plicação subjetiva: a subjetivação do desejo e a realização do sujeito. C e rta vez, Lacan sin te tiz o u da seguinte m an eira o percurso do tr a tr am ento, b asean d o -se nessa o p o si­ ção: "Q u an d o a análise com eça o sujeito fala de si, mas não fala com o o u tro ; depois ele fala com o o u tro , m as não fala de si; q u a n ­ do ele fala de si com o o u tro , o tratam en to está term inado". E ssa altern ân cia exprim e a oscilação das du as p rin cip ais m o d alid a­ des de intervenção do analista: o m anejo da transferência e a in terp re tação . Q u e o su ­ je ito fale de si, m as não fale com o o u tro, é u m a situação m u ito co nhecida na neurose. E le não fala com o o u tro com o in stância sim bólica, m as com o projeção im ag in á­ ria de si m esm o, ou seja, u m espelho, um a so m b ra dele pela qual está apaixonado sem saber, com o no m ito de N arciso . Essa rela­ ção im aginária, m arcada pela agressividade e rivalidade, m as tam b ém pela paixão, faz com que o analisan te situe o analista como u m figurante desco n h ecid o d a p ró p ria h is­ tó ria, com o alguém que sabe tão bem q u a n ­ to aquele que fala do que são feitas suas convicções, crenças e esperanças.

O estilo lacaniano de interpretar é inspirado no chiste; ele deve ser breve, produzir surpresa e reverter expectativas de significação O u seja, ao longo da passagem do p ro ­ blem a p ara a questão e da queixa p ara o sin to m a, o p ró p rio analista foi to m a n d o p a rte nesse sin to m a; foi e n tra n d o na peça teatral à m edida que ela foi sendo re m e m o ­ rada pelo paciente. Ao falar, o an alisan te vai d e se n h a n d o a im agem e a figura de seu in terlo cu to r, d ep o sitan d o nele resp o stas e assentim en to s, de tal form a que o an alista se to rn a ele m esm o u m sujeito su p o sto para o saber fratu rad o e d isten d id o em to rn o do d esd o b ram en to da n arrativa do sin to m a. C o n fo rm e a im agem vai sendo c o n stru í­ da na figura do analista, ela é sim b o lizad a pelo paciente. Esse sím bolo de seu desejo, até en tão recalcado, é assum ido pelo sujeito com o fragm ento esquecido da p ró p ria h is­ tória. L em b rem o -n o s: a d em an d a do p a ­ ciente é que o saber sobre o so frim en to seja recom posto, que a realidade seja ratificada, que a sua identificação seja preservada, nem


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que isso custe sua reificação com o objeto ou sua desim plicação com o sujeito em p ro l do am or do analista. P ara L acan, to d a vez que alguém fala de m odo au ten tic o com o o u tro surge a transferência, e esta é a realidade se­ xual do inconsciente colocada em ato. A transferência p ode ser p en sad a com o um a troca p o r m eio da qual o analista reencena personagens, reaçoes e experiências com o analisante, ao m odo de u m a rep e ti­ ção dos conflitos que constitu em a histó ria da vida deste. M as trata-se de u m a repetição que in tro d u z um a novidade, diferencial, pois agora h á um a nova possibilidade de solucio­ nar a falta que se reapresenta n a reaparição do significante. C ontudo, a tro ca tran sfe­ rencial não é ju sta , p o rq u e de fato o analista não p o d erá oferecer ao analisante aquilo que ficou em suspenso o u se cristalizou com o im agem de desam paro, ausência ou incom pletude. T u d o o que ele p o d e é fazer-se su ­ p o rte p ara o processo de sim bolização que ficou bloqueado nesse p o n to . A psicanálise seria assim um a form a de tra ta r o real p e lo simbólico, separando-o do imaginário. H á, p o rtan to , três dim ensões da tran sfe­ rência. A im aginária, com posta pela d e m an ­ da am orosa e sua co n trap artid a em term os de identificação, projeção e introjeção. A sim ­ bólica, pela qual o analista se serve do O u tro para favorecer a subjetivação e sim bolização do desejo. E, finalm ente, a real, rep resen ta­ da pela repetição e pelo apego “insensato" ao m al-estar e um desejo de "não se curar".

A presença do analista, com o um objeto não "especularizável" e que funciona com o sem blante de causa de desejo para aquele paciente, am arra essas três dim ensões: ima­ ginária, que F reud cham ava de resistência (e, p ara Lacan, é sem pre do analista); simbólica, que F reu d denom inava elaboração ou o to r­ n ar consciente; e real, para F reud nom eada reação terap êu tica negativa, depen d en te da pulsão de m o rte (e que, para Lacan, se liga ao gozo). Esse objeto enigm ático, coorde­ n a d o r das relações en tre desejo e dem anda, figura-se na transferência ao m odo de um a fantasia. É nele que se concentram as form as mais decisivas da angústia. O m anejo da transferência alterna-se com a interpretação. O estilo lacaniano de in ter­ p re tar é tradicionalm ente inspirado no chis­ te, ou seja, deve ser breve, pro d u zir surpresa e reverter expectativas de significação e com ­ preensão. A ideia aqui é que a sessão é um espaço m uito cu rto p ara examinar, recons­ tru ir e às vezes refazer o conjunto extenso de encontros que com põe um a vida. P ortanto, é im p o rtan te que o analisante trabalhe d u ­ rante a sessão, mas o. essencial é que ele leve sua análise adiante, fora do consultório. D aí a pertinência da noção de transferência, nos diversos sentidos lacanianos: deslocam en­ to tem poral do presente ao passado e deste ao futuro; um a substituição sim bólica entre pessoas, m odos de relação e dem andas reti­ das; u m a transform ação da m etáfora (que dá a estru tu ra do sintom a) em m etoním ia (que


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com preende a estru tu ra do desejo); palavras transferidas entre analisante e analista, bem como para um sujeito suposto ao saber inconsciente. Todos esses sentidos foram sintetizados po r Lacan na tese de que a tra n s­ ferência tem a estru tu ra lógica do que ele denom inou sujeito suposto saber. Freud estabeleceu u m a sequência para designar esse processo: recordar, repetir e elaborar. O que se recorda é o suposto, o que se repete é o sujeito, e o que se elabora é o sa­ ber. O u seja, o trabalho de recordação p arte do presente, lança-se ao passado e projetase no futuro. N o caso dos sintom as, quando eles se atualizam na transferência (tam b ém cham ada neurose de transferência), esse tra ­ balho de recordação é su b stitu íd o pela repe­ tição. À s vezes, trata-se de u m a repetição em ato (no qual o sujeito age p ara não pensar ou não lem brar); em outras, é discursiva (da qual não consegue sair); em o u tras ainda, a encontram os nas escolhas ou na form a de o sujeito colocar-se em situações traum áticas (em que reencontra de m odo sistem ático algo do qual está p e rm an en tem en te fugin­

interpretação deve com portar certa am bigui­ dade, pois assim p erm itirá ao analisante que decida onde e como ela será recebida; ou seja, que ele m esm o complete o trabalho de ressignificação do próprio dizer. A interpretação pode se resum ir à repetição de um significante insistente ao longo da sessão ou da análise. É passível de ser feita p o r meio de um a p e­ quena m udança na form a da palavra: uma pessoa m uito ocupada, p o r exemplo, pode se dar conta de um a nova implicação se lhe su­ gerimos que de fato é ela é m uito oculpada. Pode tam bém se resum ir ao silêncio ali onde esperávamos um a resposta, e vice-versa. Se a análise p ro g rid e entre períodos de m anejo sobre a transferência e m om entos de interpretação, é de sum a im portância que am bas respeitem o que Lacan cham ou de tem po lógico. Já vim os ser ele que decide o encerram ento das entrevistas prelim inares e o início da análise. S erá tam bém de acordo com ele que cada sessão se estru tu rará e o conjunto do trata m e n to poderá ser pensado. A direção do tra tam en to passa pela m o d u ­ lação do tem po, e isso não significa apenas

do). O corre que a repetição satisfaz a resis­ tência, e com isso o processo de sim boliza-

que a duração das sessões seja variável, assim com o sua frequência, e que as pró p rias in­ tervenções devam ser feitas de acordo com o momento certo. Esse p o n to foi, e ainda é, alvo de m uita controvérsia no meio psicanalítico.

ção e de subjetivação se in terrom pe. Já o terceiro tem po, representado pela ela­ boração, é o que a interpretação visa favorecer. Portanto, ela deve dar continuidade, prolon­ gar ou acrescentar, de form a m ínim a, o que for necessário para a passagem da recordação à elaboração. D aí vem a ideia de que um a boa

Lacan ten to u justificar esse procedim en­ to em um artigo notável: “O tem po lógico e a asserção da certeza antecipada: um novo sofisma” publicado em 1945. Nele, aborda 30


PSICOTERAPIAS I Psicanálise LACAN

aqui um a solução que não é im ediata, mas que passa reflexivamente pelo não movimento do outro, pela subjetivação desse tempo para compreender: se o outro não age é porque ele não vê dois pretos. N o terceiro caso, o prisio­ neiro vê dois discos brancos e suspende seu ato, mas, após sim bolizar esse tem po em que n en h u m dos três se move, ele pensa tratar-se de um caso em que alguém está vendo um preto e um branco (e ele é o preto). P o rta n ­ to, começa a sair. M as, quando ele o faz, os outros o acom panham no m esm o momento. A o ver os outros saindo, o prisioneiro perde a certeza antes adquirida (que ele tem um disco preto p orque alguém está vendo um branco e um preto). M as, ao constatar que a certe­ za foi abalada nos três, que interrom pem seu ato (tam bém cham ado de escansão do ato), o prisioneiro recupera a certeza de que ele é um branco, e não há mais dúvida possível sobre isso: é o momento de concluir.

O tempo lógico é uma tentativa de apreender como as nossas decisões são sempre tomadas coletivamente, ou seja, em função do outro uma situação virtualm ente indecidível. U m carcereiro diz a três prisioneiros que libertará aquele que resolver o seguinte enigma: havendo três discos brancos e dois negros, cada um deles será colocado nas costas dos prisioneiros, de tal form a que cada um deles verá a cor dos demais, mas não poderá ver a do seu disco, devendo sair da sala para declarar ao carcereiro a cor que tem às costas, ju stifi­ cando sua resposta. D essa situação inferem se três soluções. N o caso em que vê dois p re­ tos, o prisioneiro apresenta-se im ediatam ente

O tem p o lógico é u m a tentativa de apre­ ender com o nossas decisões são sem pre to ­ m adas coletivam ente, ou seja, em função do outro. P o r m eio dele se percebe que não é possível saber algo sobre nós m esm os sem p assar pelo o u tro . H á , p o rta n to , um a lógica tem p o ral que não é a do inconsciente em si — que, com o Freud afirm ara, não com por­ ta tem p o ralid ad e —, m as do sujeito, desde que se considere o inconsciente e que ele se apresente ao sujeito com o discurso do O u ­ tro. P ode-se en ten d e r assim com o a relação transferencial se m ovim enta entre instantes

à saída para declarar que é p o rtad o r de um branco (pois só restam discos dessa cor); é o instante de ver, em que ele percebe a situação. N o caso em que vê um branco e outro preto, ele não tem com o decidir de im ediato. M as, percebendo que ninguém se move e n en h u m dos três se apresenta à saída, ele conclui que só pode ser um branco (pois, se ele tives­ se um negro, o outro já teria saído). Tem os 31


PSICO TERA PIAS I Psicanálise LACAN

de ver, tempos de compreender e momentos de conclusão. E, assim, de m odo cruzado, m ovi­ m enta-se a interpretação. D aí que seja um grande problem a clínico colocá-la de m odo a, por exemplo, retirar d eterm inado sujeito de suas açóes impulsivas, baseadas no im ediatismo do instante de ver, in tro d u zin d o -o no tempo de compreender. Inversamente, a interpretação p o d e fa­ vorecer a passagem do tempo sem fim p ara compreender indefinidam ente (e não deci­ dir), indo na direção do m om ento de con­ cluir. Por fim, a perenidade deste p o d e ser revertida po r um a interpretação de que to d o momento de concluir é tam bém um novo ins­ tante de ver. A interrupção de um a sessão, cortando a fala do paciente e im pedindo que ele pronuncie a últim a palavra in te n ­ cionada, pode ser um a m aneira de alterar a temporalidade que estrutura o sintom a o u a transferência. N esse caso, a interrupção terá adquirido um efeito de interpretação, o que só se poderá julgar a posteriori pelas conse­ quências produzidas sobre o sujeito.

das form as de tran sferên cia se m odifica ao longo do tem p o , em geral com a redução do so frim en to im p ingido pelos p rim eiro s e pela estabilização de m o d o s m ais p ro ­ dutivos d a segunda. C o m isso, u m vasto m aterial discursivo — rep rese n ta d o p o r sonhos, lem branças, confrontações, h ip ó ­ teses e elaborações sobre as m odalidades m ais variadas de am or, escolhas, decisões e aco n tecim en to s — vai se p ro d u z in d o e se a cu m u lan d o de form a crescente com o ad ensam en to sim bólico dos significantes envolvidos, das identificações e da dialética en tre desejo e d em an d a . F orm as m ais ag u ­ das da tran sferên cia, bem com o ex p eriên ­ cias mais cristalin as de angústia, com eçam a ser ab o rd ad as. H á u m a reco rrên cia cada vez m aior de certas fantasias, e estas se co­ m unicam en tre si de fo rm a m ais repetitiva e fechada que antes. Freud já tin h a observado que u m sin to ­ m a rem ete a várias fantasias, e vice-versa. Ao contrário dos devaneios e das fantasias conscientes, a d eterm in ação dos sintom as se dá a p a rtir das fantasias inconscientes. E stas co m an d am a form a de am ar, c o n d i­

FIM DO TRATAMENTO

cionam escolha de objetos desejáveis, d e ­ term inam traços de sim p atia e an tip atia,

As condições para delim itar o térm in o

confl uem para identificações e ideais e p a u ­

do tratam ento constituem , hoje, um tem a de muita pesquisa nos estudos lacanianos. De certo modo, essa é um a form a de p e n ­ sar o tratam ento em seu conjunto e em sua orientação geral. A análise dos sintom as e

tam a vida sexual. A fan tasia é u m a espécie de hipótese so b re os m o d o s preferenciais de construção de objetos p ara u m sujeito. C ada um a delas ap resen ta duas fases, um a ativa e o u tra passiva. P o r exem plo, d u ra n te


PSICO TERAPIAS I Psicanálise LACAN

os at aques histéricos descritos p o r C h arco t, e observados p o r F reu d , u m a m ulher, em estado de alteração de consciência, p o d ia, sim u ltaneam ente arran car as ro u p as com um a m ão e n q u a n to cobria o corpo com a outra. M o strar-se e esconder-se form ava assim duas fases de u m a m esm a fan tasia . A lém dessas duas fases, a fantasia tem três tem pos, ou três sequências, das quais u m a perm anece o cu lta p ara o sujeito. C o m isso, já se dizia que nela há u m a espécie de co n ­ tradição fu n d am en tal subjetiva, ou, m ais precisam ente, u m a divisão. A fantasia p e r­ m ite defender o sujeito da angústia d eco r­ rente do enco n tro com as form as “desves­ tidas” do objeto de seu desejo, defo rm á-lo po r m eio das tro cas significantes e a rtic u la r a lei sim bólica d a interd ição (responsável pelo recalcam ento) com a extração de sa tis­ fação, p razer e gozo. Ao contrário das dem ais form ações do inconsciente, com o sintom as, sonhos, lap ­ sos de linguagem e ação e transferências, a fantasia não é pro p riam e n te interpretável (no sentido de fazê-la parte da elaboração do sujeito). Isso ocorre p o rque no fundo ela

A fantasia, ao contrário das demais formações do inconsciente, como sintomas, sonhos e lapsos, não é interpretável b rir a ja n e la e, m ais que isso, a nos enganar, c o n fu n d in d o -n o s q u a n to ao p o n to onde ter­ m in a m o ld u ra e com eça a teia. D aí que para lid ar com a fantasia é necessário u m p ro ­ ced im en to clínico d iferente d a retificação, im plicação, do m anejo da transferência e da in terp retação . T ra ta -se do qu e F reud cha­ m o u de construção. O u seja, aqui o analista in tro d u z ativam ente u m fragm ento novo na tela de fantasia do sujeito. E ssa in tro d u ç ã o deve obedecer às exi­ gências da lógica do significante e do te m ­ po, e ain d a e star de aco rd o com o regim e

já é um adensam ento construído para am ar­ rar diversas funções psíquicas, ao m odo de um quadro com u m a paisagem ensolarada

de ficção, em q u e se d ese n ro la a verdade do sujeito. É p o r isso qu e falam os da p sican á­ lise co m o u m a av en tu ra da v erdade e com o u m a ex p eriên cia do real. A fan tasia articu la essas d u a s d im en sõ es, a da verdade e a do real, de ta l fo rm a a to r n a r o sujeito apto ao desejo. Q u a n d o p e rtu rb a o desejo, ele po d e te r d ificu ld ad e em se a p re se n ta r ou se su s­

que se coloca sobre um a janela para se te r um a garantia de que "lá fora” o tem po esta­ rá sem pre bom . In te rp re ta r o quadro p ode nos ajudar a enxergá-lo melhor, mas isso não m udará o fato de que ele ainda está a enco33


PSICOTERAPIAS I Psicanálise LACAN

tentar. O objetivo ú ltim o da análise é fazer um a “travessia” dessa fantasia, ou das id en ti­ ficações que são perfiladas e organizadas p o r ela. Por travessia se entende a experiência de que a fantasia é u m a co n stru ção artificial e contingente, e não u m a form a o b rig ató ria e necessária de estar com o o u tro . T am b ém se pode com preender essa experiência com o o processo pelo qual nos d am o s co nta de que o O u tro é um lugar sim bólico (e não a encarnação perfeita sob a form a de in s titu i­ ções, pessoas ou ideais); ou seja, ele m esm o não é com pleto. F inalm ente, a ideia de tr a ­ vessia evoca a noção de viagem, e de fato essa é um a ótim a im agem p a ra sin tetiz a r a experiência psicanalítica. U m a jo rn a d a que nos transform a p ro fu n d a m en te ta n to pela ficção que ela p erm ite inv en tar q u an to pelo real que nos convida a descobrir. N a fantasia, o sujeito prom ove, conserva e protege uma espécie de identificação fu n ­ damental; m im etiza um objeto que —este sim — seria um a espécie de resposta p ara a indeterm inação que paira sobre o desejo do O utro. Tudo o que o rem ete à dúvida, à in­ certeza, à divisão ou à desorientação é res­ pondido por meio dela. A fantasia é, assim, um a resposta construída para a p erg u n ta fundam ental: o que o Outro quer de m im ?. Se o sintom a é feito de u m a articulação entre verdade e saber, ela é mais um a a rti­ culação entre verdade e crença. É p o r isso que podem os agir em conform idade com o que sabemos, mas em descom passo com

A psicanálise é uma experiência radical de desalienação e separação que permite ao analisante dissolver a neurose de transferência nossas crenças, e vice-versa. A fantasia tem o papel psíquico de encruzilhada. Ela p re ­ serva, com o um a espécie de guardiã, nossa solução p ró p ria p ara o enigm a do prim eiro confronto com o desejo do O u tro : aquele se dá no in te rio r do com plexo de E dipo e, mais especificam ente, no nó crucial form ado pelo com plexo de castração. Ela localiza o sujei­ to do lado h o m em ou m ulher, articulando o problem a im aginário da eleição de gênero, com o sim bólico da escolha de objeto e o real da inscrição prevalente de gozo. O ra, o problem a central do trabalho de construção da fantasia, que se dá ao longo de todo o tratam ento, é que o objeto definido por essa fantasia (objeto a, causa de desejo) vai se infiltrando na transferência. Ele é a fonte da influência e o que dá consistência ao sujeito suposto saber, que, p o r sua vez (como vimos), fornece a forma lógica e dialética da transfe­ rência. Para funcionar como fonte doadora de


PSICOTERAPIAS I Psicanálise LACAN

sentido, a fantasia em si não pode ter nen h u m sentido. Isso é passível de se m anifestar ao modo de um imperativo, de um a ordem coer­ citiva ou intrusiva para o sujeito. P o r exem plo, um paciente de F reu d sentia-se m isterio sam en te com pelido a esco­ lher m ulheres que se revelavam a ele com o tendo um m isterioso b rilh o no n ariz. O exame da e stru tu ra significante dessa esco­ lha de objeto, ao qual o sujeito se e n c o n tra ­ va fixado (na ficção de sua fantasia), m o s­ trou que ele tin h a sido educado p o r u m a babá inglesa, sendo o inglês seu id io m a prim eiro. H av ia então u m equívoco en tre as línguas, em que o desejo inconsciente se apoiava: o G lanz a u f die Nase ( brilho, em alemão, no nariz) tin h a sido tran sferid o do Glance a u f die Nase (olhar, em inglês, o n a ­ riz). Exem plificam os assim as duas fases da fantasia, relativam ente disponíveis ao sujei­ to. N a p rim eira, ele o lha o brilh o (G lanz) no nariz de u m a m ulher, na segunda é o lh a ­ do (Glance) p o r esse b rilh o que o fascina. O que precisa ser c o n stru íd o é o terceiro tem po da fantasia, este sim recalcado. E m nosso exem plo, ele seria o equivalente da proposição: se fa z e r olhar para o outro. D u ra n te m uito tem p o L acan se dedicou a criticar as p ro p o stas de tra ta m e n to psicanalítico que se orientavam p ara a id e n ­ tificação com o analista, ou com seu ego, ou ainda com seu superego. Para o autor, a psicanálise é um a experiência radical de desalienação e separação, p e rm itin d o ao a n a ­

lisan te fazer —de fo rm a regrad a e m etó d ica — u m g ra n d e lu to . O u seja, dissolver a n e u ­ rose de tran sfe rên cia p o r m eio d a travessia das identificações u nificadas p ela fantasia fu n d am e n tal. E ssa dissolução equivaleria a u m a separação e n tre o su jeito su p o sto saber e o objeto a, causa de desejo. D essa m an eira, o sujeito p o d e ria sep arar-se da influência e s tru tu ra n te do pai (n a condição de saber servir-se dele), recu ar d ian te de ideais que cultivam a c o m p letu d e, o am o r concluído e a não d ep e n d ên c ia (com o falso sin ô n im o de a u to n o m ia ) e p ro sse g u ir sua jo rn a d a tra n sfo rm a n d o seu sin to m a , que no início d a análise se ap resen tav a com o queixa, e q u e no m eio dela se exprim ia com o d em an d a , no q u e L acan c h am o u de sinthom a (co m "th"). E ste é algo com o um sin to m a d ep o is de analisado, o u seja, u m a nova p osição d ian te do conflito q u e ele re ­ p re se n ta , d o traço de gozo que ele realiza e do p o te n c ia l de a n g ú stia qu e in d u z .

ÉTICA DA PSICANÁLISE F reu d d iz ia qu e a psican álise era um tr a ­ ta m e n to q u e se fazia p ela via de levare: ela apenas re tira algo q u e está a m ais no s u ­ je ito , seu sin to m a , so frim en to e m al-estar. A s psico tera p ias b aseadas na sugestão, ao co n trário , o p e ra m p ela via de porre, ou seja, elas acrescen tam algo: na fo rm a de u m sa­ ber, de u m a regra de ação ou de u m a disci­


PS1C0TERAPIAS I Psicanálise LACAN

plina. S eg u n d o essas categorias da estética de L eonardo da V inci, a psicanálise estaria para a escultura (em que a p e d ra é lap id a ­ da p ara dela se e x trair u m a figura), assim com o a sugestão e staria p a ra a p in tu ra (em que o a rtista acrescenta tin ta sobre a tela). C o n tu d o , dois rep aro s devem ser feitos. N e m to d a psico terap ia se baseia no ideal de um reto rn o a u m estad o a n te rio r de saú ­ de n em p ro m ete, p o r m eio da subm issão a um saber p ré -c o n stitu íd o , m ais do que se p o deria esperar da condição existencial do hom em . Lacan, p o r sua vez, m o stro u , a p a rtir de um a crítica sistem ática, que a psicanálise não estava isen ta de in co rp o rar ideais ad ap tacio n istas e conform istas nem de in tro d u z ir u m a posição de p o d er q u es­ tionável com relação ao paciente. P o r isso, in tro d u z iu um a série de con­ ceitos que visavam fu n d am en tar a ação do psicanalista para além de um procedim en­ to técnico. Ele argum entava que o conjun­ to de problem as h ab itu alm en te tidos como técnicos em psicanálise deveria ser tratad o como ético. N esse m ovim ento, ele fez um a

senso a serem seguidos, mas de ponderação no que se costum a cham ar de "particularida­ de e contingência do caso”. E m geral, entende-se que a quantidade de relatividades envolvidas nos tratam entos psicológicos é tão grande que não se pode n unca ju stificar as razões e decisões clínicas de m odo a que elas aspirem a algum a univer­ salidade e assim possam ser tran sm itid as p u ­ blicam ente ou de form a racionai. É verdade que a decisão de até o nde prosseguir em um a psicanálise ou em um a psicoterapia depende

curiosa separação entre ética (com o reflexão

sem pre de u m acordo entre os envolvidos. É

sobre a relação entre ju ízo s e atos) e m oral (com o conjunto de valores que se expressam coercitivam ente em práticas). A ssim , a for­ m a com o se acolhe u m paciente, a m aneira como se intervém sobre seu sofrim ento, o cam po no qual se justificam os p rocedim en­ tos, as intervenções e o pró p rio h o rizo n te da cura não são sim plesm ente objetos de con-

correto que a avaliação de m elhora ou p io ­ ra dos sintom as é de difícil comparação, de paciente a paciente. A intensidade do sofri­ m ento, a qualidade do m al-estar e a diversi­ dade dos sintom as são tam anhas, bem como a ligação deles com a histó ria de cada pessoa em seu conjunto único de encontros é tão pouco eliminável, que as estatísticas ten d em

Lacan costumava argumentar que, em psicanálise, o conjunto de problemas habitualmente tidos como técnicos deveria ser tratado como ético


PSIC O TERAPIA S I Psicanálise LACAN

a focalizar generalizações in congruentes ou de pouca utilidade. Psicanalistas têm m odos m uito distintos de proceder e ju stificar suas ações; basta acom panhar as discussões sobre casos clínicos p ara reconhecer com o, nessa m atéria, governa o dissenso. D ia n te da especificidade do p ro b le m a e da precariedade das soluções, L acan o p to u p o r um a estratégia não h ab itu al. D e sd e os prim ó rd io s da m edicina, a clínica firm o u -se como u m tipo de saber derivado da o b se r­ vação do d o en te em seu leito. Foi p o r essa via que se p ro d u z ira m as p rim eiras h ip ó te ­ ses etiológicas, p o r m eio das quais p o d ia se passar dos sinais clínicos às descrições e agrupam entos diagnósticos estáveis das doenças p ara daí in ferir ações terap êu ticas de eficácia regular. A razão em pírica p r o ­ cede p o r indução, ou seja, generalizações progressivas do conhecim ento co nso an te àquilo que se repete de form a regular nos casos p articulares. Isso está p resen te d esd e o início da m edicina, especialm ente n a tr a ­ dição oral conhecida com o clínica. Essa confiança na razão em pírica c h e ­ gou até F reud, que a expressou in ú m eras vezes q u ando se tratav a de ju stificar o tr a ­ tam en to psicanalítico. Lacan, p o r sua vez, percebeu que essa confiança na observação se tornava m ais p ro b lem ática do que p o d e ­ ria parecer, u m a vez que o terren o no q ual o tratam en to se desenvolvia era a linguagem . A observação dela difere da dos fenô m e ­ nos do corpo e dos órgãos. C om o observar,

pela utilização dos se n tid o s, audição e vi­ são, p o r exem plo, o q u e u m pacien te quer d iz e r com seu silêncio o u equívoco de p a ­ lavras? C o m o re c o n h e c e r q u e às vezes ele d iz o c o n trário d o qu e fala, o u que fala, m as não diz, o u ain d a q u e escolha term os de m an eira a b so lu ta m e n te p ró p ria e id io s­ sincrática? O s fe n ô m en o s de linguagem re ­ q u erem um m é to d o de d escrição diferente dos n atu rais. S eu e n te n d im e n to deve ser ta n to indutivo, afinal o se n tid o das palavras d e p en d e de seu uso e do seu contexto de em prego, com o ta m b é m dedutivo, pois a linguagem d e p e n d e das contingências do sujeito falante e das exigências form ais da lín g ua (sintaxe, g ram á tic a , lin earid ad e e sistem aticid ad e). O fato m ais óbvio é que q u a n d o falam os as regras d a linguagem nos são inco n scien tes. A o en fatizar qu e a experiência do tra ­ ta m e n to está b asead a n a linguagem , Lacan lan ço u u m p ro g ra m a de ju stificação cien tí­ fica da psicanálise, d o ta d o de características u m ta n to d iferen tes das qu e en co n tram o s em F reu d . N o e n ta n to , isso não significa fo rm alizar toda ex periên cia do trata m e n to . É possível que as d iferen tes form as de p si­ canálise se d efin am p o r p ro p o rçõ e s d is tin ­ tas e co m p ro m isso s p a rtic u la re s en tre téc­ nicas p sico tera p êu ticas, m éto d o s clínicos e éticas de cura. Só assim p o d em o s e n te n d e r p o r que a verdade, um a categoria inicialm ente estra­ n h a ao cam po d a ciência m od ern a, pode


PSICOTERAPIAS I Psicanálise LACAN

ter algum a im portância p ara Lacan. M u ito antes de ser um a noção epistem ológica, que recai sobre fatos do m u n d o e proposições, a verdade era considerada u m a experiência ética a p artir de um a relação de fala en tre duas ou mais pessoas, que tem com o p o n to de p artid a a dim ensão trau m ática da exis­ tência hum ana. O desam paro, o d esencon­ tro en tre os sexos, a angústia, a loucura, a ex­ periência da m orte e da finitude, bem com o a insuficiência da felicidade, não são sin to ­ m as nem apenas contingências in d u to ras de sofrim ento, mas figuras de nossa liberdade e condição hum ana. D esde a antiga tra d i­ ção grega do cuidado de si — que se opõe à tradição do conhecim ento de si — especulase sobre a possibilidade de alguém d izer a verdade sobre o p ró p rio desejo e de colocar em palavras seu m al-estar no m undo. É n es­ sa perspectiva que a psicanálise seria, p ara Lacan, um a experiência equivalente àquela antiga cura sui (cuidado de si). M as, além de um a aventura com a ver­ dade, a psicanálise é u m a clínica. Ela tem razão diagnostica específica, sem iologia pró p ria e um a teoria das causas compatível com o reconhecim ento da im portância da linguagem e das dim ensões sim bólica, im a ­ ginária e real do ser h u m an o . D izer que a psicanálise é um a clínica é reconhecer que ela provém tanto da reflexão ética ocidental, quanto da tradição de cuidado aos doentes procedente da m edicina. A h isteria é defini­ da pela presença de sintom as e pela aptidão

Além de ser uma aventura com a verdade, a psicanálise é uma clínica com razão diagnostica, semiologia e teoria etiológica específicas para p ro duzi-los: deform ações no m odo de ap reen d er as form as corporais, dores e anes­ tesias, conversões e am nésias. O m esm o se diria da obsessão e da com pulsão, das fobias, do pânico, das alucinações, das inibições de aprendizagem , das disfunções sexuais, das im pulsões e assim p o r diante. A diferença en tre psicose, perversão e neurose p ode ser traçada em função da causação diferencial de sintom as, entendidos como m odos de de­ fesa específicos. E stes têm u m a apresentação clínica regular, de tal form a que podem os reconhecer sua presença ao longo do tem po e das culturas. A clínica psicanalítica, com o vimos, com eça e term ina pela atualização desses sintom as na relação com o psicana­ lista. D aí que o tratam en to seja ao m esm o tem po dos sintom as e destes to rn ad o s tra n s­ ferência (neurose de transferência). P o r fim, devem os reconhecer que a p si­ canálise p ro cu ra d irim ir o sofrim en to nas


PSICOTERAPIAS I Psicanálise LACAN

suas mais diferentes form as. O lu to p ela perda de um ente querid o , os im passes d a vida am orosa, a d eso rien tação d ia n te da vida e do desejo, a solidão e o p rec o n c e i­ to, as form as de vida sen tid as com o in a ­ dequadas ou esvaziadas, a d o r de existir, a exclusão e a inclusão social são exem plos de sofrim ento que não são expressões de n o s ­ sa lim itação universal. E m que p ese o fato de estarem ligados a sin to m as, ao m o d o de queixas ou de tipos de p erso n alid a d e, esses tipos de sofrim ento são acessíveis pela p s i­ coterapia, p rin cip alm en te p o rq u e são p a to ­ logias do reconhecim en to — seja ele de si, do ou tro, pelo o u tro ou do desejo. O sofrim en to é u m a condição que afeta form as de vida, que tem gram ática e se m â n ­ tica próprias, p o r m eio das quais o sujeito aspira a fazer-se reconhecer (o que F re u d exam inou p rin cip alm en te com os co n cei­ tos de narcisism o, m aso q u ism o e su p ereu ). D aí que en ten d er e tra ta r o so frim e n to é operar p o r atos de reco n hecim en to . Se re s­ tringirm os a psicotera p ia a essa acepção, por certo a psicanálise de o rien tação lacaniana é tam bém u m a form a p sic o te ra p ê u tica. N esse caso, ela en fatizará a e straté g ia de passar do desejo de reco n h ecim en to ao reconhecim ento do desejo.

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CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER é psicanalista, gradua­ do em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), mestre e doutor em psicologia experimental, com livre docência em psicologia clínica pela USP e pós-doutorado pela Manchester Metropolitan University. Atualmente é professor do Instituto de Psicologia da USP (Departamento de Psicologia Clínica). É analista membro (AME) da Escola de Psicanálise do Fórum do Campo Lacaniano e autor de Lacan e a clínica da interpretação (Hacker) e O cálculo neurótico do gozo (Escuta).

A Diversidade da psicanalise como prática social reconhecida (Christian Ingo Lenz Dunker)  

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