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Capa corel draw.

julho 2010

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ÍNDICE 3 LEIS DE INCENTIVO 4 MÚSICA 5 LITERATURA 6 TEATRO 7 DANÇA 8 CIDADE 9 INFLUÊNCIA CULTURAL 10 CINEMA NO MARANHÃO 12 MARANHÃO NO CINEMA 13 GRAFITE 14 ARTES VISUAIS 15 SEM FRONTEIRAS 16 ENTREVISTA 18 BLOCOS TRADICIONAIS 19 ENSAIO FOTOGRÁFICO CAPA Detalhe da obra “Cidadão Quem”, do artista plástico Marcio Marques, selecionada para 1º Salão de Artes Plásticas de São Luís

canal.com Revista Laboratório do Curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, Universidade federal do Maranhão, Campus Universitário do Bacanga, Av. dos Portugueses, s/n, CEP 65085-580, São Luis, MA.

EDITORIA L

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hegamos ao quarto número da revista Canal.com. Esta vem trazer uma proposta diferente, fruto da discussão com os alunos do 5º, 6º e 7º períodos: trabalhar uma publicação voltada para a cultura, abrangendo manifestações que sobrevivem de forma independente, muitas vezes sem visibilidade na mídia tradicional. A Canal.com procurou retratar a cultura não apenas como diversão e entretenimento, mas mostrar o trabalho árduo e, ao mesmo tempo, gratificante de artistas que atuam de forma competente mesmo sem reconhecimento público. Destaque para a produção do documentário da cineasta |Eliane Caffé sobre os conflitos entre as comunidades quilombolas de Alcântara e a Base Espacial. O filme está sendo gravado sob a forma de oficinas com a colaboração de personagens que fazem a história de três povoados locais e alunos bolsistas do curso de Comunicação Social. Outros aspectos abordados são os programas de incentivo à cultura, as artes do mangá e do grafite e a produção artística independente desde a música, passando pela dança até o cinema maranhense. O mais importante é acompanhar o processo de confecção da revista que vai desde a elaboração da pauta, redação, edição e revisão final e até mesmo a distribuirão, para que ela alcance o maior número de leitores possível. Uma revista –laboratório tem um duplo compromisso, preparar os alunos para o exercício do jornalismo e, ao mesmo tempo, primar por uma qualidade semelhante à que se encontra em publicações já reconhecidas. A coordenação desse processo é mais do que gratificante, é ver nascer talentos, trabalhar a criatividade e mostrar a realidade através de novos olhares. Esperamos que a continuidade dessa prática laboratorial seja um testemunho da capacidade de professores e alunos de jornalismo da UFMA. Profa. Dra. Vera Lucia Rolim Salles

Reitor Natalino Salgado Vice-Reitor Antonio Oliveira Chefe do Departamento de Comunicação Social Francisco Gonçalves Coordenador do Curso Esnel Fagundes Coordenação Editorial Profa. Dra. Vera Lucia Salles Projeto Gráfico

Jonilson Bruzaca Edição Profa. Dra. Vera Lucia Salles Pablo Habibe Figueiredo Maycon Rangel Abreu Ferreira Leonardo Ferreira Costa Anissa Ayala Rocha da Silva Cavalcante Rayssa de Souza Oliveira Amy Loren Redação Alunos do 5º, 6º e 7º períodos de 2010, Disciplina Jornalismo de Revista

Revisão Profa. Dra. Vera Lucia Salles Pablo Habibe Figueiredo Leonardo Ferreira Costa Fotos Alunos do 5º, 6º e 7º períodos de 2010, Disciplina Jornalismo de Revista Impressão Unigraf Tiragem 1.000 exemplares


NOVA LEI VISA ACABAR

COM MECENATO

NA CULTURA Janice Maria da Silva Lima Milú janicemilu@hotmail.com

Anissa Ayala Cavalcante anissa-ayala@hotmail.com

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cultura é um dos campos sociais mais prósperos de articulação, unificação e inclusão em todos os segmentos. No Maranhão, existe uma diversidade folclórica vasta e rica ainda não justamente valorizada e reconhecida, porém, enquanto política de estado percebe-se que, proporcionalmente, os recursos não são suficientes para atender a essa demanda cultural. O incentivo à cultura se faz em âmbito federal, estadual e municipal. São diversos estímulos que se popularizaram com a edição da Lei Rouanet. Por 18 anos, esta legislação atuou junto ao empresariado, que se beneficiava com investimentos em cultura, através da liberação de recursos a serem descontados no imposto de renda. Pressionado pela comunidade artística, o governo federal percebeu os inúmeros equívocos que a acompanhavam, como a própria política de mecenato, a promoção de marcas e não, necessariamente, por uma democratização cultural por parte das grandes empresas. Com isso, foi elaborado um anteprojeto que circula pelos estados, onde recebe sugestões, para a criação da nova Lei de Fomento a Cultura – o PROCULTURA. A nova Lei tem por objetivo ampliar e descentralizar os recursos,

promovendo uma maior participação da sociedade e acesso igualitário ao financiamento cultural, com a criação de fundos setoriais e a transformação do FNC (Fundo Nacional de Cultura) em um único financiador. O dinheiro passa a ser fiscalizado e gerido diretamente pelo governo, sem intermédio de empresas. “Não há verba que cubra a demanda cultural do estado, da pluralidade que aqui se encontra, que nem mesmo os maranhenses possuem o real entendimento”, afirma a chefe da assessoria de planejamento e ações estratégicas de cultura do estado, Rozenir Mesquita. Segundo Rozenir, enquanto política estadual foi iniciado um processo de apoio que está sendo implantado, com ações específicas voltadas para o estímulo e reconhecimento das tradições regionais, “mesmo com um dos menores orçamentos, dentre todas as secretarias, o governo vem aumentando a verba para o setor”. Em termos de participação nacional, ainda é ínfima a atuação do nordeste, sobretudo, o Maranhão, afirma a produtora cultural e atriz Elizandra Rocha, “dentro dos projetos inscritos do Nordeste nos editais a maior concentração está nos estados de Pernambuco e Bahia. Os motivos são vários, mas a questão da informação e, principalmente,

formação são dois importantes fatores”. Para ela, é fundamental que todas as atividades culturais tenham uma noção de gerenciamento e administração, para uma cultura popular reconhecida. “O poder público deve construir uma identidade coletiva a partir da diversidade cultural, respeitando-a sempre”, ressalta Elizandra. Sobre a questão da valorização das manifestações culturais, o membro da ONG “Cem Modos”, Raimundo Muniz, que atua com a elaboração de projetos e captação de recursos, enfatiza a necessidade de habilitar e informar a população, uma vez que a ausência de divulgação impede o envio de muitos projetos. “Com o PROCULTURA, existe a esperança de termos uma regionalização, uma distribuição por parte dos fundos criados pelo governo, que atingirão até mesmo as comunidades mais carentes, acesso igualitário ao direito à cultura”. O amplo entendimento do aspecto cultural do Maranhão desenvolvido em sua totalidade é algo que está em construção. Dentro desse processo deve-se perceber que a vida cultural de um território depende do município, do estado, e, principalmente, da sociedade civil, além de visões estratégicas que tornem o fazer cultural presente no cotidiano de toda população. julho 2010

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foto: Marlon Silva

Rock

o desenvolvimento da produção

local Pablo Habibe

pablohabibe@hotmail.com

Cultura viva em alto e bom som

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rock tem uma história curiosa em São Luis. Até os anos 80 e 90 era mais um passatempo de iniciados que se conheciam pelo nome, o público era basicamente formado pelas próprias bandas que compareciam aos shows umas das outras. Todos se conheciam e tudo contribuía para que ficasse por isso mesmo. A ausência de espectadores, somada à distancia que separava a cidade de centros com uma indústria cultural mais desenvolvida, faziam do rock local uma espécie de carro sem combustível. Levá-lo para qualquer lugar exigia um esforço injustificável, melhor pegar um ônibus, não? Pode-se traçar um paralelo interessante com o reggae, um ritmo igualmente alienígena, mas que encontrou um terreno mais fértil e compatível com o seu estereótipo. Um dos fatores de sucesso desta música jamaicana está na sua incorporação pelos bailes. As raízes caribenhas desse ritmo eram menos distantes do que se ouvia localmente. Foi um pulo para que as semelhanças étnicas e sociais entre Kingston e São Luis se traduzissem na adoção de “dreadlocks” e outros reflexos visuais. A iconografia do rock era por demais exótica para não parecer des-

locada na Ilha do Maranhão. Seus grandes ídolos (ainda que não seus fundadores) eram brancos que vinham do frio anglo-saxão que, aqui, se identificavam mais com os viajados filhos de uma pequena elite. Acontece que o mundo tomou a cidade de assalto com a internet e a MTV. Já não é estranho ver gente com cabelos compridos e camisas ostentando logos de bandas famosas. “Punks”, “emos” e “metaleiros” (entre outros) saltaram dos monitores de TV e PCs para fazer parte da paisagem urbana. Um público que não se conhece pessoalmente, mas se reconhece e cria seus próprios espaços aqui e ali. É bom que se entenda “aqui e ali” por praças, teatros, bares e pelas redes sociais virtuais que pululam na internet. A oferta de informação gerou interesse e consumo, um combustível necessário para este tipo de produção cultural. O terreno ficou fértil não só para shows, mas para a propagação de estúdios de gravação, designers de material publicitário e estabelecimentos comerciais temáticos. Talvez uma das supostas distorções da pós-modernidade, o rock aqui ganha força num momento em que a indústria cultural passa por transformações ainda inconclusivas. Gravar um disco agora é mais

uma satisfação pessoal do que um passaporte para o sucesso. O contexto local está inserido em um muito maior, afetado pela pirataria e o consumo individual de músicas isoladas pelo download. Bandas locais como a “Pedra Polida” e a “Megazines” se divulgam e marcam shows virtualmente, apresentando material produzido localmente. Adnon Soares, produtor musical e dono do Estúdio CasaLouca, insiste que, gravar hoje em dia é muito mais fácil que na época do analógico (uso de fitas, antes da digitalização). Jorge Mondego, produtor de shows e bandas, coloca que muitos escutam rádio pela internet, que a cena rock de São Luis está crescendo e que tem um público diversificado e exigente. Mondego também afirma que a iniciativa privada é uma boa opção para se conseguir patrocínios, mas ainda falta incentivo do governo que, segundo ele, ainda depende do “QI” do interessado (quem indica). O fato é que existem oferta e demanda. O rock é parte da realidade cultural contemporânea em São Luis mesmo sem a infra-estrutura de uma indústria cultural economicamente madura para profissionalizar a “linha de produção”.


Literatura Breganeja Clarissa Raposo

clarissacraposo@gmail.com

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Bruno Azêvedo por Marcos Caldas

divertida descrição do livro “Breganejo Blues – Novela Trezoitão”, lançado no final do ano passado pela editora virtual Mojo Books, traduz perfeitamente o que é a obra, “uma novela policial que mistura bangue-bangue, anúncios pitorescos, quadrinhos, música brega e histórias de corno”. Com um layout moderno, a publicação de Bruno Azevêdo foge completamente do clichê literário maranhense, erudito e saudosista. Antes de Breganejo, Bruno publicou vários quadrinhos em fanzines e revistas, o áudio-livro “A Bailarina no Espelho”, na voz de Celso Boaes, um livro de contos chamado “Hemóstase” e as foto-tiras “3x4”, em parceria com sua esposa Karla Frei-

“Meu objetivo ao escrever é contar piadas divertidas para mim”

um autor

“trezoitão”

re. Em outubro, deve sair também de forma independente o inédito “O Monstro Souza”, a história de um cachorro-quente de 1,80m que trabalha como prostituto e serial killer na Praia Grande. “São Luís é uma cidade onde só se publica via oficial ou de maneira independente, não há mercado, não há iniciativa privada, mal há livrarias. Me entristece ver a fila de escritores esperando o edital do prêmio cidade de São Luís porque é a única chance que se tem de publicar”, contou o escritor, que gosta do fato de não botar a logomarca do governo nos seus livros. Ele alega que a publicação independente dá liberdade total para o escritor dominar todos os processos de produção de sua obra, mas só serve para quem não visa lucro nem espera algo a curto prazo. “Vale mais à pena trabalhar de maneira independente e poder chegar a quem você precisa que leia”, completou. “Breganejo Blues – Novela Trezoitão” foi publicado como e-book para download gratuito e lançado no Festival Internacional de Quadrinhos, que acontece a cada dois anos em Belo Horizonte. A história é sobre um taxista que investiga casos de maridos traídos e se formou nos cursos por correspondência do araponga brasileiro Bechara Jalkh, anunciados em antigos gi-

bis de faroeste. Em seus textos, Bruno é fiel à filosofia de tratar o que seria descartável no mesmo nível das coisas consagradas. No “Breganejo”, ele abusa da licença poética e “perverte” certas regras gramaticais “a favor do efeito e da narrativa”. A presença de regionalismos como “discunjuro”, “ééééguas!” e “rampeira”, tornam o texto divertido e familiar, principalmente para o leitor maranhense. Quem quiser adquirir um exemplar pode baixá-lo do site da editora Mojo Books ou solicitar um impresso com o próprio autor pelo e-mail bazvdo@ hotmail.com, “que vende por quanto quiser e para quem ele quiser”.

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O árduo

caminho do

teatro

independente

Diego Uchoa dieguinhouchoa@hotmail.com

Aos poucos o público

vai chegando e preenchendo os lugares vazios do teatro. Há expectativa no ar, todos querem saber como será o espetáculo. Atrás das cortinas, entre os atores e demais profissionais, o sentimento é outro: ansiedade, aquele “friozinho” na barriga. Tudo foi preparado com antecedência e pensado nos mínimos detalhes: cenário, luzes e figurinos. Além disso, vários dias de cansativos ensaios. A apresentação vem coroar meses de intensos trabalhos. As cortinas se abrem. Todos ficam em silêncio. O espetáculo começa.

Às vezes se “ consegue alguma

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ajuda, mas geralmente o dinheiro é pouco e não atende às necessidades de uma companhia

Essa descrição pode ser aplicada ao cotidiano de vários grupos de teatro, independentemente do segmento em que se encaixe: seja o teatro independente ou o mercadológico. A diferença entre ambos, sem querer reduzir muito o assunto, está relacionada às concepções de arte e aos financiamentos dos espetáculos. O mercadológico, conhecido também por “teatrão”, está ligado à lógica capitalista, uma peça de sucesso pode ficar anos em cartaz. Esse teatro ainda tem o apoio de médias e grandes empresas de entretenimento. Já o teatro independente é o oposto, busca pela originalidade, e “não é apadrinhado por ninguém, nem atende também às exigências do mercado”, afirma a aluna do curso de teatro da UFMA, Darcyleia Sousa, componente do Núcleo de Pesquisas Teatrais Rascunho. Esse grupo está formado há apenas cinco meses, mas já sente na pele as dificuldades de quem optou pelos caminhos da independência. A rotina dos independentes é dura. As dificuldades começam logo

depois de decidido o espetáculo a ser encenado. O teatro no Brasil é uma arte muito cara, os custos vão desde o aluguel do teatro até com o transporte. Muitos são os gastos e poucos os recursos. Às vezes se consegue alguma ajuda, mas geralmente o dinheiro é pouco e não atende às necessidades de uma companhia, as despesas acabam sendo divididas entre os componentes do grupo. O ritmo dos ensaios às vésperas das apresentações é intenso. Os atores ensaiam todos os dias e até mesmo nas madrugadas, para apresentar o melhor espetáculo possível. Esse esforço todo vale a pena, quando o público reconhece o trabalho das companhias independentes, eventualmente até ajudando na construção do espetáculo. Essas dificuldades fazem parte da rotina, mas nem assim impedem que esse tipo de teatro exista. Sem muito apoio e incentivo ele permanece vivo, com a dedicação de quem faz arte por prazer. Mesmo sendo notado somente entre o abrir e fechar das cortinas.


afro só brilham

foto: Raiza Carvalho

Danças

sob a batuta de

São João

Caroline Ribeiro caroline.ribeiro09@hotmail.com

Raiza Carvalho raizacarvalhot@hotmail

Ousadia e sensualidade do Grupo de Cacuriá Cacurelê

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atidas, tambores, saias girando ao som das toadas e uma sensualidade latente – características indispensáveis às danças africanas. Ao mesmo tempo, os elementos compõem uma cena comum das ruelas de São Luís. A cidade reflete o legado africano, tão enraizado na cultura maranhense, presente, tanto no tambor de crioula como no cacuriá, entre outras manifestações. O período junino apresenta um cenário de celebração. As danças “tipicamente” maranhenses estão em evidência por toda parte. Com o final dos festejos restam apenas fotografias, que perdem o brilho durante o resto do ano. Henrique França, coordenador do Grupo de Dança Afro Abanjá, convive diariamente com o dilema, e ressalta que a relação entre cultura afro e mí-

dia é a de um espaço que ainda precisa ser conquistado. A divulgação só acontece em momentos esporádicos, durante o período festivo, relegando as “brincadeiras” e danças ao ostracismo no resto do ano. França afirma, ainda, que é necessário um trabalho de conscientização política e cultural, que traga possibilidade de mudanças e enriquecimento, buscando, cada vez mais, a valorização dessa identidade étnica. Esta mesma busca, aliàs, seria um problema ainda recorrente ao brasileiro. Haveria uma desvalorização da cultura popular, posta em segundo plano em relação à cultura européia, segundo Álvaro Santos, idealizador do Curso de Dança Afro Brasileira do Centro de Criatividade Odylo Costa Filho. Para Álvaro, o problema para as

danças, folguedos e manifestações maranhenses é o preconceito cultural que distorce a influência negra tomando-a por algo pejorativo. Executar ações que possam trazer uma nova dimensão da potencialidade cultural negra, seria mostrar que ela está inserida em todas as esferas sociais e culturais, constituintes do que é ser brasileiro. As danças maranhenses são carregadas de um valor simbólico, tanto por sua beleza, encanto, diversidade e tradição quanto pela catarse em que se é mergulhado. Vivenciar esta africanidade inerente ao Maranhão é tornar viva uma herança, fazer com que nossa riqueza cultural não exista apenas como recheio de álbuns nas diversas páginas de redes sociais ou mera atração turística. julho 2010

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Filha da

Precisão Leonardo Costa

leonardo-fcosta@hotmail.com

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enário romanesco a encantar a todos à primeira mirada. Ruas de paralelepípedo exalando versos e ressoando os acordes vindos dos saraus. Azulejos portugueses, assentados de forma minimalista, a cintilarem nas fachadas de um casario nobiliárquico. Quantos paquetes a atracarem em seu sagrado cais, quantas glórias cantadas por ilustres literatos. Essa era a Praia Grande de séculos atrás! Hoje, nada mais que um valioso pedaço da memória da cidade de São Luís corroído pela inoperância do Poder Público e pelo olhar desatento da sociedade civil. Diferentemente do que se veicula pelas campanhas publicitárias país afora, o conjunto arquitetônico inserido no bairro, formado em sua maioria por traçados característicos dos séculos XVIII e XIX, encontra-se em precário estado de conservação. Levantamento feito pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), no ano de 2008,

acusou 133 imóveis com estruturas danificadas e 35 com risco de desabamento ou em ruínas. Por tal razão, a cidade foi ameaçada de perder o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela UNESCO em 1997. O fato de grande parte dos prédios tombados ser de propriedade particular dificulta os merecidos cuidados em relação a esse verdadeiro acervo material a céu aberto. “Os proprietários aproveitam os dias em que há pouca movimentação nas ruas para empreenderem reformas arbitrárias nos casarões [sem a prévia autorização das instituições de preservação do patrimônio], principalmente internas, tendo como perspectiva o lucro, em especial por meio da construção de estacionamentos ou da especulação imobiliária”, explica Antônio José Oliveira, chefe da seção de fiscalização do Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico do Maranhão (DPHAP), órgão estadual responsável pela tutela de algumas áreas do Centro Histórico da capital. Quem trabalha ou convive diariamente na Praia Grande acredita que a população não reconhece a

relevância histórica da qual o local é dotado. Para Elisângela Lopes, secretária da Morada das Artes (estabelecimento onde artistas plásticos residem, expõem e vendem suas obras), a juventude ainda não se deu conta de que sua ancestralidade está em meio àqueles monumentos erguidos com o sangue da escravidão negra a mando de uma aristocracia agrário-comercial. “A nova geração não consegue ver a importância que este bairro traz. Meu medo é que todas essas belas construções desapareçam um dia”, desabafa. Especialistas estão se debruçando no estudo de medidas que possam equacionar o dilema vivido pelo bairro, que ora tenta manter o peso da tradição colonial, ora entrega-se aos estilos mais modernos. O arquiteto Rodrigo Freitas destaca a conjunção de três fatores capazes de garantir esse intento: programas habitacionais, políticas de educação patrimonial e transformação do espaço em centro de referência econômico-tecnológica. Restam a consciência dos ludovicenses e atitudes mais enérgicas das três esferas de poder para que um exemplo palpável de nosso passado não venha a se tornar uma simples miragem.


A FORÇA ESTÁ COM OS OTAKUS

Maycon Rangel Abreu Ferreira rangelmaycon1989@hotmail.com

Sônia Raquel Soares raquelsoares88@hotmail.com

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cultura japonesa é repleta de simbologias, dentre elas o mangá: histórias em quadrinhos que surgiram na época feudal. Inicialmente contadas por meio de fantoches, ganharam o mundo na década de 40 e mais tarde, foram parar na televisão, iniciando assim a era dos animes, como Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z. Em São Luís, a influência da cultura japonesa se faz sentir principalmente entre os jovens. Prova disso é que há quatro anos, a cidade sedia um dos mais significativos eventos do gênero: o Matsuri (ou festival, em japonês). “O Matsuri começou a partir de um trabalho acadêmico com amigos que tinham gostos em comum. Então, resolvemos fazer algo que trouxesse o que sentíamos falta dentro dos eventos que acompanhávamos, como boa organização e outras vertentes.”, afirma Miguel Braga, um dos organizadores do evento. A estudante de Direito da UNDB, Ilane Jucá, tornou-se fã dos mangás no início de 2003. Hoje, ela se divide entre os livros jurídicos e os quadrinhos. “A coisa mais engraçada de ler um mangá é começar a ler de trás para frente, mas a gente se acostuma rápido”, declara. Afinal, o que torna o mangá uma arte tão atrativa? Segundo o professor de Antropologia da UFMA e coordenador do mestrado Cultura e Sociedade, Norton Correa, o jovem, como indivíduo que busca

uma identidade, se aproxima de pessoas e grupos que compartilhem interesses em comum. “Mesmo sendo grupos fluidos, o jovem sente a necessidade de estar ali e ‘encontrar-se’. Nesse sentido, o mangá funciona como um elemento aglutinador, de partilhamento de idéias e preferências.” O nordeste é a segunda região do país com o maior número de otakus (fãs de mangás e animes no Brasil). “Os HQ’s japoneses influenciaram muitos quadrinhos no Brasil, inclusive as histórias de Maurício de Sousa.”, afirma Robert da Silva, organizador do Matsuri 2010 e estudioso do tema. Ele acrescenta também que uma das características mais marcantes do mangá é a expressividade, com ênfase para os olhos das personagens, que são sempre grandes e refletem a carga emotiva dos enredos. Os eventos do gênero reúnem diversas manifestações, como concursos de cosplayers (otakus que costumam se vestir como suas personagens f avor it a s), pa les t ra s e shows embalados

pela J-Music, sigla utilizada para denominar a música japonesa em todos os seus gêneros. O crescimento dos festivais e do consumo da cultura japonesa indica que os otakus não se restringem à imitação de modelos culturais vindos de fora, mas, sobretudo, a uma expressão da interculturalidade, palavra que traduz bem o que é Brasil.

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foto: divulgação

Buscando fora o

Pelo Ouvido é um dos filmes mais premiados no Brasil e internacionalmente

que se tem perto

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oltronas alinhadas, uma grande tela à frente. O escurinho do cinema faz com que a gente viaje aos mais variados lugares, experimentando os mais incríveis sentimentos. Realmente, a sétima-arte é admirável. Mas, por que será que há tanta resistência dos maranhenses em relação à sua própria produção audiovisual? Fato é que as películas mais difundidas mundialmente são as hollywoodianas, baseadas em seus grandes astros e altíssimos investimentos. Muitos brasileiros limitamse em importar esse modelo cinematográfico e desconhecem aquilo que é feito em solo verde e amarelo. Ainda que, nos últimos anos, as produções nacionais tenham aparecido com maior destaque no cenário internacional e fugido, em parte, do tripé temático da violência, favela e sexo, o público não se distanciou das influências do cinema estrangeiro. No Maranhão, essa situação não é diferente. A produção audiovisual local não tem o apoio e investimentos de gran-

des produtoras, como a Globo Filmes, por exemplo, que alavancou imensamente o cinema comercial brasileiro nos últimos anos, e diminuiu o que aqui chamamos de ‘desconhecimento’. Esse fator, aliado à ineficiência da distribuição dos filmes e vídeos, que incrivelmente, são exibidos apenas no Cinema Praia Grande, focado nas artes menos comerciais, corrobora

“ Por que os

maranhenses não valorizam sua produção audiovisual?

o argumento da não valorização do audiovisual maranhense. O cineasta maranhense Francisco Colombo, diretor de filmes premiados como ‘Reverso’ e ‘ O Incompreendido’, acha que a recepção de filmes estrangeiros é mais calorosa devido

Martha Jackson mjbennington@hotmail.com

Rayssa Oliveira ray.67@hotmail.com

à própria educação dos brasileiros. “O brasileiro foi muito mal educado pela TV. As pessoas não querem ser incomodadas, então buscam no cinema aquilo que vêem na televisão”, diz o cineasta. Em relação à distribuição, Colombo é categórico: “A dificuldade na concorrência é discrepante, você vê que o filme internacional fica mais tempo nas salas de cinema e também têm mais cópias e trailers. Os filmes brasileiros acabam ficando com uma, duas salas, no máximo, exibidos em poucas semanas. Os maranhenses, em nenhuma”. Apesar dessa ‘desvalorização’, há várias produções locais vencedoras de festivais da sétima arte em todo o Brasil, inclusive internacionalmente. Um exemplo é o filme ‘Pelo Ouvido’, escrito e dirigido por Joaquim Haickel e que ganhou importantes premiações no Brasil e no exterior, como melhor filme no Concurso Iberoamericano de Cortometrajes de Cartagena, na Colômbia; melhor filme internacional no FirstGlance Film Festival Philadelphia;


opção, na busca de uma produção mais livre, em que a idéia do autor/ produtor será realizada na íntegra, sem sofrer interferência de patrocinadores ou render-se a sua censura implícita. Um bom exemplo de curta-metragem independente é o recente filme ‘O Destruidor de Ilhas’ de Denis Carlos, que retrata o cotidiano dos diversos tipos humanos encontrados na Ilha de São Luís. Outro cineasta que merece destaque na atual produção cinematográfica de São Luís é Frederico Machado, engajado em dar maior visibilidade à produção e festivais maranhenses direcionados no cinema-arte. Uma de suas principais realizações é o curta ‘Infernos’, que ganhou vários prêmios como o de melhor filme no Festival Hispano- Brasilei-

ro de Valença. A obra ‘Vela ao Crucificado’ também rendeu ao cineasta maranhense nove premiações em festivais nacionais. Percebe-se que há produções de qualidade em São Luís; o que falta, na verdade, não são bons temas, mas, muitas vezes, público para prestigiar as obras dos produtores locais. Dar mais valor ao que é de fora já é marca cultural do brasileiro; no Maranhão, isso parece ser ainda mais evidente. Não é à toa que frases depreciativas, como ‘Filme maranhense? Não deve ser bom!’, são repetidas exaustivamente por estas terras. Está na hora dos maranhenses mudarem seus conceitos e abrirem a mente para uma produção audiovisual riquíssima, que está bem próxima.

foto: divulgação

melhor direção no Boston International Film Festival; melhor filme no VI Ibero Brasil Cine Festival de Valência e prêmio especial do júri na Mostra de Cinema Latinoamerica de Catalunya, na Espanha, entre muitos outros, inclusive no Festival Guarnicê de Cinema. Mas não são somente as grandes produções que têm espaço nos festivais. Hoje, com pouco dinheiro e uma câmera fotográfica comum, que todos têm em casa, é possível produzir vídeos interessantes, capazes de concorrer nas mais diversas modalidades de produção, das mais altas tecnologias às mais baixas. Essa facilidade vem possibilitando um crescimento do cinema independente no Maranhão. Independente não necessariamente por falta de investimentos do governo, mas por

Vela ao Crucificado é destaque na produção cinematográfica maranhense

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festival Guarnicê busca difundir a produção audiovisual no Brasil e é importantíssimo como vitrine das produções locais. Além disso, é um dos mais antigos festivais de cinema nacional, datado de 1977, quando ainda se chamava Jornada Maranhense de Super-8. Os grandes realizadores do evento são figuras importantes no audiovisual maranhense como o cineasta Murilo Santos e Euclides Moreira Neto,

que, em parceria com a Universidade Federal do Maranhão, deram início ao projeto. Outros festivais, como o Vídeo de Bolso e o Maranhão na Tela, também tem grande repercussão no estado. Focados nos benefícios das novas tecnologias para a produção atual, são bons exemplos de que o audiovisual não se restringe aos grandes estúdios.

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UM

foto: Marilda Mascarenhas

NOVO JEITO DE FAZER CINEMA Amy Loren amylorensc@hotmail.com

Rúbia Oliota rubia_oliota@hotmail.com

A cineasta paulistana

Eliane Caffé, reconhecida pela produção do filme “Narradores de Javé”, está em terras maranhenses para desenvolver seu mais novo trabalho, o doc-ficção “O Céu Sem Eternidade”. A diretora chegou a Alcântara em maio desse ano, e o término das filmagens está previsto para o final de julho. O enredo do longa-metragem traz o fervoroso conflito de terras vivenciado pelas comunidades remanescentes de quilombo, localizadas no município, e a empresa estatal binacional Alcântara Cyclone Space (ACS). Tomando como pano de fundo as problemáticas desse contexto, o projeto de Eliane Caffé, inicialmente, estaria focado na criação de uma polifonia. Um “diálogo” entre a leitura que os quilombolas (de Trajano, Pepital e Mamuna) e os cientistas da base espacial fazem do céu.

Lentes que capturam diferentes olhares: Eliane Caffé (centro) com os membros do projeto

Na prática, a cineasta conta que a realidade produtiva tem sido diferente e que, devido às circunstâncias, ela está se adaptando: “Ao longo do caminho vamos encontrando resistências, adversidades que precisamos respeitar, no sentido que temos que saber ler para reconfigurar nossa idéia inicial sem perder o interesse”. O mais interessante da produção é a metodologia inovadora utilizada. A idéia é fazer um filme que seja fruto da experiência coletiva. Ao contrário da produção tradicional, a direção não estará concentrada em Eliane, mas todos aqueles que estão envolvidos plenamente na empreitada participarão do núcleo dirigente. A intenção era criar um núcleo de dez pessoas das comunidades, que estariam à frente desta produção, além de cinco estudantes do projeto de extensão de Comunicação Social da UFMA, criado para a oportunidade. Porém, por motivos circunstanciais, esse plano foi se alterando. “Começamos como um grupo, que foi se modificando na prática. Muitas pessoas que se interessaram pelo projeto não puderam se engajar por conta de compromis-

sos diversos”, afirma Caffé. Somente no final do processo, os participantes que assumiram a condução diária do longa assinarão a direção da obra. A realidade antes imaginada e a realidade hoje vivida obrigam a cineasta a pensar uma nova angulação para o filme: “Cada dia é uma descoberta! Uma coisa interessante que percebi é que há uma diferença entre o grupo coeso das lideranças (Movimentos dos Atingidos pela Base Espacial) e o que encontramos nos povoados. A maneira de enfocar essa luta tem vários níveis. O desafio é fazer com que esses discursos se cruzem sem cair no jornalismo”. Concluído o trabalho, todo o material coletado se tornará patrimônio para Alcântara. Todas as gravações serão convertidas em acervo disponível para livre exibição, além de aproveitamentos futuros. Apesar do filme não ser comercial, seu processo de distribuição pretende alcançar espaço no mundo cinematográfico. Com seu renome internacional, a cineasta Eliane Caffé promete trazer visibilidade à produção maranhense. Confira mais informações sobre o filme no site: www. oceusemeternidade.blogspot. com


Pelos muros da

cidade

A

arte, considerada por muitos, é qualquer produção humana que tenha a intenção de transmitir alguma emoção. “Eu considero o grafite uma fonte artística legítima. Numa cidade monocromática, as formas, cores e as idéias fazem toda a diferença”, afirma a estudante de comunicação social, Stephannie Lee. Porém, a maioria não reflete acerca da mensagem passada. A marginalização dessa arte se dá quando as pessoas consideram o grafite o mesmo que pichação, contudo não é bem assim. “Por causa do uso de spray, as pessoas nos confundem com marginais e por isso nossa arte acaba ficando à margem da sociedade e, muitas vezes, discriminada”, lamenta o grafiteiro Joelson, grafiteiro há mais ou menos oito anos na Vila Embratel. Este segmento também sofre com a falta de apoio. Todo financiamen-

Aline Alencar aline_alencar88@hotmail.com

Como tudo começou to para compra de tintas vêm do próprio bolso e, às vezes de outras pessoas. “Às vezes recebemos tinta ou spray dos donos dos muros onde pedimos para grafitar, mas não é sempre”, afirma Joelson. “Há alguns anos atrás a prefeitura da capital fez uma campanha divulgando o grafite, mas não durou muito e ficou por isso mesmo. Desde então não houve mais nada. O que fazemos vem do nosso bolso e por puro amor”, completa. O grafite não é só a expressão de sentimentos como a transmite em cores e símbolos o contexto social e político em que vivemos. Em São Luis, onde o crescimento populacional é grande, a concentração das pessoas acontece principalmente nas periferias, não falta sobre o que protestar. “O grafite é um pouco de tudo, nele falamos de política e cultura maranhense. Protestamos”, enfatiza Joelson.

Dados concretos a cerca da aparição do movimento em São Luis são incertos bem como o surgimento do grafite. Acredita-se que o mesmo começou a ser praticado no final da década de 80. No mundo em geral, sabe-se que esse tipo de arte se envolve com a história do homem das cavernas, que pintavam as paredes como forma de se comunicar e expressar. Muitos se dedicam a esta arte, comparam essa prática com a do grafite . Como parte do hip hop, o grafite transmite esse movimento bem como as demais ramificações: o rap, a dança e o skate são alguns deles. O grafite difere da pichação porque se utiliza não só do spray como também de tinta, rolinhos para pintura, tinta látex básica e látex branco com pigmentos.

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de

artistas

independentes

foto: Raiza Carvalho

A dupla jornada

Wyllyane Rayana

wyllyane_rayana@hotmail.com

Elizabeth Bezerra

lysa_wonderfull@hotmail.com

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necessidade de espaço para produzir, ensaiar, expor seu trabalho, a falta de reconhecimento e, além disso, de entendimento do público a respeito das Artes Plásticas, aliadas à ausência de recursos materiais e financeiros para produção do trabalho artístico, são as maiores dificuldades encontradas pelos artistas. A causa maior parece ser a falta da promoção de políticas culturais que insiram as comunidades no âmbito da arte. Para Miguel Veiga, professor, Mestre em Pedagogia Profissional, especialista em Educação Artística e Artes Visuais, ator, diretor e figurinista, quando nos voltamos especificamente para o Maranhão, a produção artística é quase que totalmente independente, visto que investimento é coisa ainda rara. “Uma das provas disso foi o 1º Salão de Artes Plásticas de São Luís, que há mais de 14 anos não realizava uma exposição de grande porte, não por falta de bons artistas, mas,

principalmente, devido a falta de interesse em políticas culturais que alguns governantes vêem como supérfluas”. Um dos fatores que se somam às dificuldades dos artistas plásticos maranhenses é a ausência de uma formação acadêmica e de recursos para desenvolver seus trabalhos. “Somos carentes de conhecimento, não dispomos de cursos que atendam a demanda de interessados em Artes Visuais. Somente o SENAC, oferece um curso à distância para atender a região Norte”, afirma Miguel Veiga. Ele também destaca a importância de novas políticas que atendam à necessidade de formação profissional. Outra questão é a dos artistas se

manterem através do seu trabalho. Muitos se dedicam a outras atividades para obtenção de renda fixa e continuam produzindo por satisfação pessoal. A artista plástica e advogada Eliza Coelho Anchieta, por exemplo, trabalha como assessora jurídica e também consegue se manter como produtora artística independente. Dulce Maria é outra que se formou em Educação Artística, mas nunca se dedicou exclusivamente para as artes. Atualmente é coordenadora dos eventos relacionados à área no Ministério Público e, de vez em quando, participa de algumas exposições coletivas. O que se percebe, de maneira geral, e ainda mais no âmbito local, é a escassez de financiamento e investimento na produção artística e cultural, o que faz com que muitos artistas plásticos deixem de se dedicar à arte e invistam em outros trabalhos, já que sobreviver do que mais gostam de fazer lhes é negado.


Vida de viajante:

foto: divulgação

a migração no meio artístico

maranhense Francisco Bezerra francisco.bez@hotmail.com

Wyllyane Rayana wyllyane_strelinhak@hotmail.com

H

á uma máxima no meio cultural maranhense que diz que para fazer sucesso aqui, você precisa primeiro fazer sucesso lá fora. Em busca deste tão sonhado reconhecimento, profissionais das mais diversas linguagens artísticas saem de nossa terra para se aventurar nos grandes centros. São notórios os casos daqueles que conseguiram êxito. A sambista Alcione, o cantor e compositor Zeca Baleiro e o carnavalesco Joãozinho Trinta são os exemplos mais famosos. Mas, além deles, muitos outros artistas saem do Maranhão em busca de novas oportunidades. O músico Mano Borges morou cerca de dez anos em outros estados. Foi ao Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e fez viagens para os EUA e Europa a trabalho. Segundo ele, um dos motivos de Rio-São Paulo ser considerado o grande eixo artístico do país é a “grande mídia” dos dois

Artistas maranhenses, como Mano Borges, foram buscar o sucesso lá fora

estados. “Tem gente que vai para o Rio ou São Paulo porque vislumbra seguir uma carreira nacional, aparecer no Faustão, no Jô...”, brinca. Para quem trabalha no ramo, a produção cultural do Maranhão é tão vasta e rica quanto a de outros estados. A diferença está na difusão destas produções e no apoio dado aos artistas. “Enquanto o Maranhão vende sua história e suas belezas naturais para o Brasil, a Bahia e outros estados do nordeste vendem e exportam sua música, dança, teatro e lucram com isso”, afirma o consultor e produtor cultural André Lobão. A proliferação de faculdades, teatros, casas de show é maior nos estados mais ricos, onde o público e os recursos investidos são maiores, o que faz com que muitos artistas busquem oportunidades nesses lugares. “A migração para os grandes centros, o velho caso do nordestino que vai ganhar a vida em São Paulo é

algo cultural e não acontece somente no meio artístico”, ressalta André Lobão. Para ele, os artistas têm dificuldade em se reconhecerem como parte do processo econômico de seu local. Muitos deles lutam entre si pelas escassas verbas públicas, que faz com que artistas e político estabeleçam uma relação personalista e clientelista. O premiado cineasta maranhense Francisco Colombo afirma que, no caso do cinema, diferentemente do que acontece em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia, não há mercado independente para a produção de audiovisual local. Isso dificulta a fixação do artista nativo. Para o autor do curta metragem Reverso, a produção artística, no Maranhão, é quase que exclusivamente financiada pelos órgãos governamentais. “É preciso dar uma chacoalhada, principalmente nas mentes das pessoas para que algo de novo surja”, desabafa. julho 2010

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Arte cultura e comunicação

Jessica Wernz

jessica.wernz@hotmail.com

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Yasser Arafat “Prix de Caricature” XIV Festival Du Dessin Humoristique D’Anglet/ França - 1992

cartum é uma linguagem universal. Os meus desenhos eu faço para me comunicar com o resto de mundo”. É com essa frase que Érico Junqueira Ayres demonstra o seu amor e dedicação pelo cartum, pela caricatura e pela charge. Cartunista profissional, formado em Engenharia Civil, Érico é professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estadual do Maranhão, de Desenho Industrial na Universidade Federal do Maranhão e ainda compositor. O artista nasceu em Salvador, em 1948, e vive no Maranhão desde 1955. Considerado

Como você se tornou o cartunista que é hoje? Essa escolha se deu de forma muito natural. O meu pai já gostava de rabiscar papel e depois ele me disse que herdei aquilo sem nem mesmo vê-lo desenhar. Então comecei a me apaixonar pela história em quadrinho, eu via aquilo e dizia: é isso que quero fazer. Eu sou um autodidata,

um dos maiores cartunistas brasileiros, com vários prêmios recebidos em salões de humor do Brasil e do exterior, suas obras já foram expostas na França, na China, na Itália, em Cuba e em muitos outros países. Mas, mesmo com tantas premiações, Érico conservou seu jeito de ser, que demonstra uma simplicidade tão grande quanto o seu talento. Nesta entrevista, ele expressa sua modéstia, mesmo tendo sido laureado inúmeras vezes com prêmios nacionais e internacionais, e revela seu compromisso com a arte.

por onde passei aqui no Maranhão nunca tinha visto nenhum cartunista, nem sabia que isso era uma profissão. Depois de um tempo passei a ter mais contato com a mídia impressa aí fui desenhando e foram aparecendo convites para publicar. O cartunista que mais me influenciou foi Carlos Estevão que desenhava para a revista “O Cruzeiro”. Até

hoje ele é meu desenhista preferido. Comecei tentando copiar outros: Tio Patinhas, Pato Donald, o próprio Carlos Estevão e Ziraldo, mas depois adquiri minha própria identidade gráfica que faz a pessoa olhar e dizer: aquele desenho é do Érico. Essa minha característica é perceptível por meio dos traços e da escrita.


Você encontrou algum obstáculo no início da sua carreira? Tinha políticos que não gostavam de cartunistas, alguns gostavam, outros não. Na escola também muita gente não gostava, eu tocava nos pontos negativos das pessoas e por isso havia aquele medo, muitas pessoas queriam revidar. Você é um cartunista muito premiado. Quantos prêmios você já ganhou? Algum tem maior importância para você? Até hoje tenho mais ou menos 112 prêmios. O mais importante para mim foi a caricatura que fiz de Yasser Arafat. Ela proporcionou que eu fosse até a França receber o prêmio, lá fui tratado como um “paxá”, não gastei um tostão durante os dias que passei lá. Foi meu primeiro grande prêmio. Você já ganhou algum prêmio Maranhense? Não. Aqui já nem participo, eu evito porque vejo que só ganham determinadas pessoas. Os prêmios que ganhei aqui foram na época que estava começando, prêmio de elaboração de cartaz, a logo do Banco do Estado do Maranhão, essas coisas. O que falta para que essa arte

Madre Teresa de Calcutá “Primer Premio” IX Bienal Internacional de Humorismo/ Cuba - 1995

se desenvolva no Maranhão? O número de pessoas que pesquisa sobre cartum aqui é muito pequeno, até porque não é da cultura. A gente não tem uma mídia forte que gere emprego e renda para as pessoas que trabalham com isso. Infelizmente as pessoas aqui não podem dizer que vivem só do que ganham desenhando; lá na França, os cartunistas ficavam admirados e me perguntavam como eu tinha tempo para fazer cartum e fazer outras atividades. Lá eles vivem só do salário que ganham para fazer revistas em quadrinhos ou ilustrar editoriais de grandes jornais. Você é muito conhecido fora do estado e até do país. Você acha que falta reconhecimento aqui no Maranhão? O interesse pelo desenho é universal, em todo lugar tem crianças e adultos interessados. Aqui, não falta reconhecimento. O que falta é o mercado, porque o Maranhão ainda é o estado que tem mais analfabetos no Brasil, assim fica difícil para editar um livro porque o número de pessoas que vai comprar é muito pequeno. As pessoas estão mais preocupadas em comer do que em comprar livro de arte ou consumir jornais. O que falta aqui é dinheiro, é elevar as classes sociais, diminuir a distância entre ricos e pobres para que as pessoas tenham acesso à cultura. O certo seria fazer com que a renda das pessoas aumentasse para que elas pudessem consumir essa arte. Como funciona a produção de cartuns aqui no Estado? Há alguma política de incentivo à produção? Não tem incentivo para nada. As pessoas fazem por gostar, eu sempre fiz não para viver disso, mas porque gosto, faço dese-

Autocaricatura

nhos até de graça. Às vezes pessoas no exterior pedem desenhos e avisam logo que não vão pagar (risos) que é só para colocar em exposição no museu. Com tantos prêmios fora do Estado e até do Brasil você nunca quis morar em outro lugar? Já tive oportunidades de sair daqui, mas me identifico com o Maranhão. Eu gosto dessa ilha, aqui estão meus amigos e minha família. É um lugar que me agrada, aqui tem tudo o que eu gosto. Para mim a cidade do tamanho de São Luís é ideal porque gosto de sossego quando estou desenhando, não sei desenhar com alguém mexendo, batendo o pé ou cantarolando, gosto de me trancar e ficar sossegado. Como as pessoas podem ter acesso às suas produções? Só vindo aqui no meu ateliê. Eu não divulgo, não gosto de lançar livros, lancei só uns três e nunca mais. Então edito, guardo, às vezes ponho em uma livraria ou outra, e vou guardando para permutar ou doar para as pessoas que pedem e estão interessadas, porque muita gente compra livro e guarda, nem abre. Quero que esses livros meus fiquem nas mãos de alguém que esteja interessado de verdade. julho 2010

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O brilho que vem do esforço Aline Alencar

aline_alencar88@hotmail.com

Neilson Viana

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cada carnaval, os blocos tradicionais de São Luís se reúnem para brincar e mostrar seu brilho e suas cores. Para que o espetáculo se concretize, são necessários, no mínimo, seis meses intensos de preparação. O processo é extenso e exige de todos os integrantes, trabalho árduo e cuidadoso para serem impecáveis na passarela e ruas da capital. Cada bloco se esforça do jeito que pode e corre contra o tempo de estar pronto para a grande festa. Os integrantes participam de cada etapa. Geylson Paiva, ex-brincante do bloco Os Guerreiros fundado há quatro anos conta como participava deste processo: “Existem os treinos durante a semana e no final da mesma. Há também apresentações prévias em clubes e nas ruas para arrecadar dinheiro e possibilitar o acabamento das roupas, pois existem peças que são montadas na sede do bloco com a ajuda dos brincantes como colagem do chapéu, botas e manto.” Esse penoso trabalho é comum a todos os blocos.

neilson_f2006@hotmail.com

No quesito apoio e finanças, a realidade é disforme. Muitos passam dificuldades na hora de comprar materiais, pagar músicos, conseguir transporte, entre outros afazeres necessários para a composição do bloco. Os grupos recebem um cachê por cada apresentação. Esse dinheiro é dividido em duas partes: uma antes do carnaval e a outra depois. O problema, como alegam brincantes e organizadores, é que, além do dinheiro ser diferenciado de agremiação para agremiação (mesmo que permaneçam nos mesmos grupos, A ou B), a primeira parte do cachê é dada em ‘cima da hora’. “Cada bloco recebe um valor diferente e numa data diferente, ao contrário do que estipula o governo. É usual o dinheiro chegar as nossas mãos duas semanas antes do carnaval. Assim não dá tempo de se organizar por isso temos que recorrer a patrocínio de políticos e empresas privadas”, comenta o organizador e fundador do bloco “Arlequim de Ouro”, Soares Filho. Apesar de tudo, é consenso en-

Origem dos Blocos Tradicionais

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Os blocos surgiram pouco depois do ano de 1920, como alternativa encontrada pela elite maranhense para brincar um carnaval diferente dos modos das camadas populares: os Blocos de Sujos, os Tambores de Crioula, Grupos de Fofões. Também conhecidos como Blocos de Ritmo, possuíam uma característica singular que era sair com suas batucadas pelas ruas, antes dos três dias de carnaval. No intuito de conseguirem a simpatia popular, utilizavam a vestimenta de fofão sem máscara, com um chapéu cônico confeccionado de cartolina e um batuque bem

tre os participantes que o esforço é compensado na hora em que o público se deixa envolver pela cadência do samba e pelas fantasias luxuosas. “Não gosto muito do desfile em si. O melhor mesmo é fazer o circuito de rua, as pessoas interagem com os brincantes do bloco, não é uma brincadeira onde as pessoas ficam distante apenas assistindo, você sente e o brincante e participa da festa. As músicas são pura poesia, contam histórias do estado e das nossas origens”, completa Soares. Por trás dessa tradição rítmica, existe toda uma cadeia produtiva. “São contratados músicos, costureiras, sapateiros, enfim toda uma mão-de-obra para que o desejo de contar a história e belezas do nosso estado se realize a cada ano. Porém, falta mais união dos blocos e maior investimento por igual nos mesmo por parte do poder público. Investimento que encontramos mais em outros estados como Pernambuco”, afirma Soares.

ritmado, formado por tambores pequenos. Porém, em meados de 1930, para melhorar a qualidade do som e da harmonia, surgiram caixas cilíndricas de madeiras com aproximadamente 80 cm de altura por 40 cm de largura, confeccionadas com compensados e cobertas com couro de bode, chamadas de contratempo, por serem tocadas na marcação do tempo da música, proporcionando um som mais harmônico e forte. Além do contratempo, outros instrumentos de percussão compõem a bateria dos Blocos Tradicionais, tais como: retintas, cabaças, reco-recos, agogôs e ganzás.


TUDO QUE EXISTE TEM COR

A

málgama de sabores nativos, espelho de nossa gente. Popularmente chamada de “Mercado da Praia Grande”, Casa das Tulhas, vivenda dos hábitos seculares numa

São Luís que respira a fugacidade dos tempos modernos.

visão

Laureada pela prosa agradável de tipos populares, esculpe valores singelos na alma de quem a freqüenta.

tato

paladar Em meio à labuta diária de argutos vendedores, um estuário de iguarias é revelado. Mariscos se amontoam nos artesanais entrelaçados de palha, olfato

aguardentes insaciáveis reluzem cores atraentes, frutas diversas despertam os mais qualificados paladares.

Fotos: Amy Loren e Rayssa Oliveira Texto: Leonardo Costa

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Revista laboratorio do Jornalismo da UFMA

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