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SANTA CRUZ fotografia Ozias Filho

poemas Luís Filipe Cristóvão


Título Santa Cruz Autores Ozias Filho Luís Filipe Cristóvão Design e Paginação

Edição 1000 exemplares

ISBN 978-972-8979-19-5 Depósito Legal 000 000/08

© LIVRARIA LIVRODODIA e OZIAS FILHO, 2008

Printed by A3 Agosto 2008 LIVRODODIA EDITORES Av. General Humberto Delgado, nº 6 - A 2560-272 Torres Vedras | PORTUGAL geral@livrododia.com.pt w w w.livrododia.com.pt

Este é um livro RECARBON. As emissões de carbono no âmbito da produção deste livro são compensadas através do sequestro de quantidade equivalente de CO2 (dióxido de carbono) pela plantação de árvores no concelho de Torres Vedras. No cálculo desta compensação foram tidas em conta as emissões resultantes da produção de pasta de papel e da impressão de cada volume.

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Dedicado a


Havia um texto para encenar um livro e havia um livro para encenar um tempo. E eu precisava de um lugar de noite, de um tempo simultâneo sobreposto ao meu, de uma matriz de areia aonde o verbo se ajustasse ao vento para esculpir no flanco das falésias um texto de silêncios que excedesse os livros Ruy Duarte de Carvalho

mas falta o tempo e cresce o laberinto Frei António das Chagas


SANTA CRUZ


Talvez tenha existido aqui um arvoredo, antes das dunas, muito antes de toda esta pedra levada pelo vento para o mar. Escuto esta atracção de sÊculos, dia a dia, noite a noite, este enamoramento da natureza, sensual amor dos elementos inanimados.

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SANTA CRUZ


Preciso de aprender esta nova língua, um imperceptível movimento dos lábios, o sol do mar, o batimento do coração. Preciso de aprender um modo de contar esta história, de viver esta vida imaginada pela névoa, quando é de manhã.

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SANTA CRUZ


Ser daqui é ser de longe, de onde nascem as ondas, de onde começam a soprar os ventos, de onde os homens são sós e os caminhos pedregosos. Ser daqui é ser do mundo inteiro. É ser de nenhum lugar.

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SANTA CRUZ


Aqui, o deserto, e depois as vagas cavalgando dunas e arribas, inscrevendo à força a sua violência na pedra. Perceber isto, é perceber a beleza que existe no incompreensível.

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SANTA CRUZ


Aqui, o deserto, uns quantos homens, padres, caminhando por entre a névoa e os dias, encontrando aqui a magia, o sossego e a vidência que o inquieto espírito pede, e que nunca nenhum homem alcança, por muito que se aproxime.

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SANTA CRUZ


Laborava entĂŁo a fome nesses dentes e era o tempo das ĂĄguas e dos monstros, bailando aos pares nos longos caminhos de terra. Bebiam os homens e os carros, enquanto as mulheres choravam pelas janelas.

31


SANTA CRUZ


A minha idade é não ter idade e eu sou do tempo da construção das casas, dos pés despidos sobre a terra. Éramos do exacto tamanho dos dias, apenas acrescentados de uma fogueira, pequenas brasas restando da sopa quente do jantar. Éramos do material dos legumes e da fruta pequena que crescia no quintal. Os nossos pés eram pães duros, mas as lágrimas e a dor eram adultas, carregavam-nos como quem leva o trigo até à vila. A minha idade é não ter idade, pouco sei dizer do que não vivi. Foi desses dias que me fiz inteiro.

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SANTA CRUZ


Antigo posto de vigia comido pelo tempo, ali passa os seus dias ainda disponível para avisar da chegada de inimigos que são agora inexistentes, meros fantasmas que só na sua imaginação se formulam.

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SANTA CRUZ


Pássaros levantam da areia e vêm teus lábios salgados feridos de vida, um permanente ardor dos sentidos por entre os teus dedos a saltitar. Vem e recomeça o trilho da tua paixão, medita de pés juntos, envoltos na areia, e um pássaro, ao ficar para trás, permanece, não no céu, mas nos teus sonhos.

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SANTA CRUZ


O corpo precavido é a mão que acaricia a pedra e lhe reconhece as feições dos animais mortos. Bebe-se, junto à areia, o sangue lavado, e são as pequenas crianças quem se ergue do fundo do oceano. Tudo seria, ainda assim, infinitamente mais pequeno e útil, a tal bastaria a pronunciação de um nome, o erguer de um olhar. Todas as pequenas coisas cheias de pormenores inexplicáveis.

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SANTA CRUZ


Desconheço onde ficaram as impressões digitais de todos estes homens de pedra escavados como grutas pelas ondas do mar. Desconheço a cor dos lábios das sereias que encantaram, até, os homens mais santos. Ser daqui é ser de longe.

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SANTA CRUZ


Tenho o corpo cheio de vento, os olhos cheios de uma água escura que escorrega pelas rochas. Tenho as manhas das marés, a lucidez dos pássaros. Sou da imensidão dos espaços, da luz.

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SANTA CRUZ


Estás mais perto do céu. Não precisas de subir, basta que feches os olhos, que te deixes levar. Agora já sabes a cor da manhã, já sabes o tom do divino.

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SANTA CRUZ


Não, não há música. Pede-se o silencioso respeito das matinas, o leve sussurro do terço deslizando nas pontas dos dedos. Não, não há música. Apenas o ritmo dos passos ecoando nave adentro, as estátuas sorridentes beijadas pelas lágrimas que não se podem conter.

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SANTA CRUZ


A noite azul-cobalto dos sentidos fez-se então festa desgarrada – era o queimar das nuvens, as árvores devastadas. Pela sombra, as aves, caindo devagar. O cão com asma, ecoando nos prédios. A noite azul-cobalto dos sentidos, o não saber dizer a cor dos teus olhos, o tom da tua voz. Os animais felizes junto à porta da entrada.

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SANTA CRUZ


Helena, descalça, olha os pescadores, busca neles uma imagem onde ancorar o desejo e trepar o infinito, ténue corpo que marcha sobre as areias, ténue e frágil como o pensamento, e ainda assim, a luz que o sol nela reflecte ainda ilumina os sonhos de todos os homens da terra.

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SANTA CRUZ


Ignoro outro sentido para todo este azul do mar, mas os meus olhos, todo o corpo, me impelem a ele, à viagem, e é o seu sussurro ao meu ouvido a minha inteira meditação. Peço-lhe um segundo, uma pausa, recolho-me em sua casa e não o oiço, será apenas um sussurro, este mar, a maré a encher.

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SANTA CRUZ


Deixa o mar entrar em tua casa, o teu corpo é água salgada e navega-se como o reencontro. De que te adianta dizeres agora que nada sabes de poesia? Segura a cabeça entre as mãos, nada te faltará. Deixa o mar entrar em tua casa, faz-te água, sal, areia, reencontro. Navegas em ti como quem nasce. É apenas isso, o conhecimento das marés.

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SANTA CRUZ


Dentro de ti, fonte do meu ser, encontro a paz tantos dias afastada – e talvez seja difícil de compreender a singularidade dos meus actos, mas tu de tudo sabes e eu nada tenho que te dizer. Dentro de ti brilha tudo como brilham os meus olhos, e o teu ventre é quente, apaixonado, eterna consolação de mim.

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SANTA CRUZ


Não lhes sobra nome. As águas brancas, feitas de vento e de barcos frágeis, pele escamada dos peixes, foram buscar as asas ao futuro e trouxeram a manhã com o barulho dos motores.

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Fazer o quê? O vento sopra agora nos andaimes, é hora de refazer a história do lugar – onde estava a amada, o pôr-do-sol? Os operários chegam agora de mochilas, em barcos, e cantam o dia inteiro para as paredes da torre, embriagados de luz e areia.


SANTA CRUZ


Não à perfeição, oiço passos rua abaixo, as vozes das mulheres, o choro das crianças, sacos de plástico, olhares gulosos, sotaques de outras partes do planeta. Não, não à perfeição, repito, poesia urbana, vida de todos os dias, compras feitas à pressa, vozes, vozes de mulheres, olhares, bem, todos, todos os dias, sentar-me aqui, provar o café, sorrir, saber, isso, sou homem, estou vivo.

97


SANTA CRUZ


Eu sou do tempo da areia, do vento sobre os corpos Ă­nfimos em descober ta. O meu nome ĂŠ conhecido, fica em minhas mĂŁos pelas tardes, veste casaco, cumprimenta as pessoas da terra.

101


SANTA CRUZ


Penso muitas vezes nos elementos da natureza, pensando em como o corpo dos homens tĂŁo bem explica a existĂŞncia de tudo em seu redor. Muitas vezes eu hesito, em todas elas sei que existo.

105


SANTA CRUZ


E depois de tudo isto, um pormenor apenas, um não saber dizer o que olhar ou sentir, uma profunda nostalgia de todos os tempos, confusão dos sentidos, das agendas ou memórias, telefones públicos a tocar de madrugada, dizer que te amo, dizer o quê, toda a vida a vida inteira, depois de tudo isto, um lugar onde querer ficar.

109


SANTA CRUZ


Vejo a pedra conhecida pelo mar. Faço dela o meu coração. Bate. O mar bate na pedra, amolecendo-a. Meu coração.

113


SANTA CRUZ


Esta é a voz do meu canto, plena de rouquidão das vagas, salgada como a história do passado, rupestre como a pedra, elevada como o azul de tanto céu. Esta é a voz do meu mundo, o tom lírico mais profundo, a nervura mais sensível, a pele feita toda terra, o coração ser Santa Cruz.

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