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SOBRE

O

REINO

DE

PASÁRGADA

Pasárgada, adj. 2 gén. Relativo ou pertencente a Pasárgadas. S. 2 gén. Natural ou habitante dessa cidade. Pasárgadas, primeira capital da Pérsia, que se dizia ter sido fundada por Ciro, ao N.E. de Persépolis; hoje Murghab (Lello Universal Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, Lello & Irmão Editores, Porto, 1980, 2: 472).

Manuel Bandeira conta no seu livro Itinerário de Pasárgada: “Vou-me embora p’ra Pasárgada!” Foi o poema de mais longa gestação em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome Pasárgada quando tinha os meus dezasseis anos e foi num autor grego… Esse nome de Pasárgada que significa “campo dos persas” ou “tesouro dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias, como o de “L’invitation au voyage” de Baudelaire. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora p’ra Pasárgada” Senti na redondilha a primeira célula de um poema, e tentei realizá-lo, mas fracassei. Já nesse tempo eu não forçava a mão. Aban-


donei a ideia. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, me ocorreu o mesmo desabafo de evasão da “vida besta”. Desta vez o poema saiu sem esforço, como se já estivesse pronto dentro de mim. Gosto desse poema porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida; e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa da minha adolescência, - essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar…”

A propósito da pronúncia de “Pasárgada”: “O conhecimento de que o s intervocálico é sonoro em português, equiparando-se ao som do z, e a maneira como o topónimo está grafado no Dicionário Etimológico de Antenor Nascentes (V,II), e, ainda, a nitidez do próprio Manuel Bandeira no disco que gravou, no fim da década de 50 não deixam dúvidas de que a pronúncia é com o som de z. Creio que a tendência popular, hiperurbanista, de pronunciá-la com s surdo deve ser contaminação semântica e sonora do verbo passar, uma vez que Pasárgada contém o sentido utópico de passar além.” (Gilberto Mendonça Teles, in Vou-me Embora Pra Pasárgada (poemas escolhidos), José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1986, X).


Oiro de Minas A nova poesia das Gerais

Selecção e prefácio

Prisca Agustoni Colaboração de Carolina de Oliveira Barreto e André Luíz de Freitas Dias


MINERAÇÃO: SEUS MÉTODOS

&

ACHADOS

Prisca Agustoni

Para além de suas dimensões continentais, a sociedade brasileira merece ser pensada a partir de suas múltiplas realidades culturais, políticas e económicas. Estas, se por um lado geram conflitos dramáticos, por outro, revelam situações em que sobressaem lições ímpares de colaboração e solidariedade entre as pessoas. Diante dessa complexa perspectiva, entende-se que o país exposto nos espaços privilegiados dos média nacional e internacional não responde pela diversidade que, de facto, o sustenta. Dito de outro modo, um olhar crítico sobre a realidade brasileira demonstra que o Brasil mediático não é senão uma face entre outras (instigantes e desafiadoras) da sociedade nacional. Esse tema leva-nos de volta à década de 1950 e permite-nos observar que “os dois Brasis”, detectados naquela época pelo sociólogo francês Jacques Lambert, já eram (e continuam sendo) vários Brasis. Esse comentário, brevíssimo, de natureza sociológica, nos parece indispensável no momento em que se pretende justificar uma antologia de poesia brasileira contemporânea. Primeiro, porque no jogo das relações literárias, as controvérsias em torno da organização de antologias é carta por demais conhecida. Há sempre motivos, com razões maiores ou menores, para que os autores seleccionados e os não seleccionados, bem como os críticos e os leitores, ratifiquem ou subestimem o trabalho do responsável pela colectânea. Segundo, porque tratando-se de uma antologia de poesia brasileira contemporânea, não esperamos outro enredo, pois o que ora apresentamos é um recorte deste cenário poético e mais especificamente de uma das regiões geográficas do país, o estado de Minas Gerais. Apesar das divergências manifestadas nas opiniões de poetas e críticos, na poesia brasileira do século XX, é possível considerar-se três linhas de força, que se mantiveram até ao início da década de 1980: a primeira, derivada da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, caracterizou-se pelo esforço de actualização da poesia brasileira em relação aos novos temas, formas e práticas em curso na Europa dos movimentos de vanguarda; a segunda, por um desejo de contenção dos apelos das vanguarda propostos pelos modernistas; e a terceira, pelo experimentalismo técnico-formal do Concretismo. Evidentemente, essas linhas sofreram matizações que, ao mesmo tempo em que fixaram procedimentos, possibilitaram a emer7

PREFÁCIO

DA


gência de traços distintivos de vários autores. Na primeira linha destacaram-se, entre outros, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Deste, a geração da chamada Poesia Marginal (final dos anos 1970) se apropriou do poema curto ou poema-piada, da linguagem incisiva capaz de capturar os flashes do cotidiano. Na segunda vertente, Cecília Meireles e Péricles Eugênio da Silva Ramos recuperaram o tom elegíaco de herança clássica. De modo particular, João Cabral de Melo Neto, incluído nesta que foi chamada de Geração de 45, criou depois uma trajectória própria, marcada por uma poética antilírica. A este, entre outros nomes, se referiram os mentores da Poesia Concreta. Esta terceira linha de força tem nos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e em Décio Pignatari os articuladores de uma poética em que palavra, som e imagem (poética verbivocovisual) combinam-se na construção do poema-objecto. A título de exemplo, pode-se dizer que as matizes dessas linhas desdobraram-se em poéticas de largo fôlego individual, como a de Jorge de Lima ou dos mineiros Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, a partir do Modernismo de 1922; ou a de Affonso Ávila, a partir do experimentalismo dos concretistas. Esse processo estimulou a manifestação de poéticas que – inclinando-se mais para esta ou para aquela vinculação estética ou, mesmo, rechaçando esta ou aquela –, forjaram um mosaico de vozes na poesia brasileira do século XX. É difícil, portanto, desenhar uma cartografia dessas vozes, já que de norte a sul do país elas ecoaram com feições próprias, através de nomes como Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Carlos Nejar, Afonso Romano de Sant’Anna, Max Martins, Hilda Hilst, Thiago de Melo e tantos outros. O facto é que técnicas, heranças estéticas e ideológicas manuseadas mediante expectativas individuais vêm marcando a poesia brasileira moderna. Este painel teve sua tradução no contexto de Minas Gerais, onde poetas de diferentes gerações, para além de trafegarem pelas linhas de força mencionadas (através dos já citados Drummond, Murilo Mendes e Affonso Ávila, por exemplo), interferiram nelas para tecer sua própria linguagem poética. Em função disso, nomes como o de Emílio Moura, Abgar Renault, Dantas Mota, Henriqueta Lisboa, Laís Corrêa de Araújo, Adélia Prado e Adão Ventura inscreveram-se com vigor na cena literária do país. Diante do exposto, a tarefa de organizar a presente antologia, numa alusão ao título que a encima, converteu-se num desafio similar aos dos mineradores, cujo ofício se nutre do brilho do metal precioso encontrado ou por encontrar. No caso da antologia, o sonho do eldorado foi substituído por alguns critérios que, salvo engano, nos permitiram tocar algumas pedras raras e tam8


bém vislumbrar um veio maior, que é o da poesia mineira e brasileira contemporâneas. Ao nos debruçarmos sobre a produção mineira contemporânea, tornou-se evidente que a escolha do(s) critério(s) de selecção dos autores deveria embasar-se em algum elemento vinculado à mais recente história da poesia brasileira. Ou seja, era necessário procurar, no diversificado e original painel de (novos) poetas surgidos dentro e fora de Minas, aqueles cuja obra começou a ganhar destaque a partir da década de 1980, após a proliferação de vozes relacionadas à estética marginal e, sobretudo, após o crítico momento político vivenciado pelo país, que colocou sua cultura sob o jugo e a censura do regime militar, entre 1964 e 1985. Em decorrência disso, seleccionamos para essa antologia a obra de poetas que reflectiram e também transformaram, na subtil tessitura da linguagem, a riqueza das diversas vertentes estéticas que os precederam. Procuramos destacar a pluralidade de caminhos trilhados pelos poetas, considerando não apenas a sua actuação como poetas mas, evidenciando, também, o modo como eles estabeleceram a “consolidação de um consenso crítico”, paralelamente aos seus processos de criação. Esse recorte nos parece relevante, já que na actualidade a actuação do poeta e do intelectual no seio da sociedade reveste-se não só de aspectos relacionados a posicionamentos políticos, mas igualmente à produção de um discurso teórico (muitas vezes estimulado pelas estruturas académicas) ou jornalístico, bem como à organização de eventos, espectáculos e festivais nos quais é reservado à poesia e à performance poética um espaço privilegiado. Para nos referirmos à ideia da “consolidação de um consenso crítico”, baseamo-nos em alguns dados objectivos, que atribuem particular relevo às obras dos autores aqui seleccionados, quais sejam: a inclusão de poemas em outras antologias, as traduções e publicações em outros países (em revistas ou antologias), os prémios literários, as críticas e as resenhas que apontam a originalidade e densidade da obra, etc. Com evidência, nada justifica totalmente a escolha de um autor em lugar de outro, uma vez que estamos lidando com um universo – o da experiência poética – atravessado, em geral, pela subjectividade. No entanto, como sempre ocorre em casos similares, prevaleceu a necessidade de se fazer um recorte e de se indicar alguns critérios organizadores a fim de dar à presente antologia uma configuração. Considerados os pressupostos acima, encontramo-nos diante de um painel assaz rico quanto à diversidade de temas e estilos. Os dez autores que aqui representam a “nova poesia das Minas Gerais” revelam o seu rosto plural, um rosto tão enigmático e 9


camuflado quanto as minas ocultas nas montanhas da bela paisagem brasileira. À pluralidade desafiadora desse painel soma-se a riqueza do microcosmo de palavras e símbolos que compõem a poética de cada autor. Contudo, é possível garimpar e encontrar nessa diferença alguns temas que perpassam, como uma coluna vertebral, a poesia mineira contemporânea. E isso, talvez, por serem temas que estão presentes, desde a modernidade, na tradição lírica ocidental. Em termos gerais, a memória se perfila como um leitmotiv ao qual o sujeito recorre para extrair os elementos de uma história pessoal construída sob uma perspectiva mítica. Nesse sentido a recuperação da mitologia é um procedimento amplamente empregue pelos poetas aqui apresentados para, ao se referirem a uma história e a um sujeito universais, edificarem a própria mitologia pessoal, única e intransferível. Uma mitologia portátil, à medida humana, passível de ser guardada num livro, num bolso, num verso. Se a memória, por um lado, particulariza uma experiência de feição ontológica, por outro, a representação do espaço físico (muitas vezes, um lugar não nomeado, mas identificado como alguma região de Minas Gerais) ou mental se universaliza, graças à palavra poética. Isso ocorre na medida em que o aspecto regional (a gente, a fala, a natureza e os factos de Minas) se abre para a representação de um lugar mítico, universal, recém surgido do caos, mediado e modelado pela palavra criadora, tal como lemos na última estrofe do poema Vicentim, reparador de livros, de Fernando Fábio Fiorese Furtado: “e posso mudar em verbo/ até a última paisagem”. Outro tema recorrente, embora abordado de inúmeras maneiras nos poemas desta antologia, é a cidade como lugar de passagem, de encontro e desencontro do indivíduo. Uma vez mais, esse tema caro à modernidade exibe nos versos dos poetas os seus flâneurs contemporâneos, sujeitos errantes que experimentam o estranhamento e o encanto. Essas várias aproximações à cidade reiteram o facto dela se constituir como um lugar que engole e devolve outros espaços, reais ou mentais, um lugar no qual – como recita o último verso do poema Labirinto de Ricardo Aleixo – o sujeito, à custa de se perder, se reconhece. A solidão, terceiro tema essencial, decorre então da experiência urbana, mas não somente dela. Ecoando o verso drummondiano “mundo, vasto mundo”, pode-se dizer que dele também se desprende um sentimento de solidão. Nessa direcção, os elementos da natureza (a pedra, a água, o pássaro) são mensageiros desse infinito que alumbra e esmaga, com a sua potência e beleza, o ser humano, e 10


sugerem, principalmente na poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão e Wilmar Silva, o enigma de um mundo indizível através das palavras. A leitura atenta do conjunto de textos aqui propostos mostranos ainda uma grande abertura para o diálogo com as fontes literárias mais variadas, ou seja, com vertentes culturais diferenciadas, privilegiadas por cada autor, como se verá a seguir. Uma adaptação contemporânea dos traços marcantes do Barroco, assim como a manifestação de um sentir expressionista emolduram os versos de Eustáquio Gorgone de Oliveira, fazendo com que sua poesia não seja classificável dentro de nenhuma das vertentes tradicionais que caracterizaram a poesia brasileira do século XX. O mesmo pode ser dito sobre a poesia de Júlio Polidoro, na qual o tom coloquial e irónico disfarça habilmente o fundo filosófico ou existencialista. Outro percurso instigante se observa através da fusão entre o formalismo pós-concretista e as preocupações estéticas e sociais caras a Ricardo Aleixo, numa poesia que deixa visíveis as marcas da vanguarda, ao mesmo tempo em que potencializa as ambiguidades e as possibilidades de significação do seu discurso pessoal. Por sua vez, a dicção contida de Donizete Galvão se propõe como um filtro que depura e transforma o desprezo e a decomposição do corpo e do mundo – com os seus valores mais puros – em matéria poética. Já a poesia de Maria Esther Maciel revela o intenso intercâmbio com outras linguagens artísticas, como o cinema e a pintura, na tentativa de captar o paradoxo da vida, sintetizado claramente no poema A voz e o espelho a partir de uma sugestão de Octavio Paz. O mundo figurado nos poemas de Fernando Fábio Fiorese Furtado exprime a densidade da história individual e colectiva que confluem para desenhar diferentes metáforas do corpo, como se estas fossem uma “segunda pele” que concentra as linhas de uma reflexão existencial e metapoética. No caso da poesia de Edimilson de Almeida Pereira, é possível dizer que o autor reelabora aspectos da oralidade e da estética barroca na qual os objectos, as palavras e os significados estão embutidos uns dentro dos outros, à maneira das bonecas russas que estão encaixadas, cada uma contendo em si a outra. É o sentido atribuído a um mundo engendrado por palavras e aberto para a existência de outros mundos possíveis. A poesia de Iacyr Anderson Freitas explicita a procura, por vezes dolorosa, de coisas e sentimentos profundos e cotidianos que constituem a raiz ontológica do ser humano que, frequentemente, se encontra exilado num tempo e num espaço em estado de desmoronamento e que se agarra, desesperado, à palavra e à memória para salvar as 11


sobras desse processo de desmantelamento interior. Por seu turno, preocupados não com a descrição dos objectos ou da natureza, mas com a apreensão do diálogo entre esses elementos e o corpo-linguagem do poeta, os textos de Wilmar Silva resultam numa inquietante leitura das experiências do homem. Quanto à poética de Fabrício Marques, o cotidiano é apreendido com ironia, ou seja, a noção do dia-a-dia como o espaço e tempo dos acontecimentos previsíveis é sugerida e esvaziada através da palavra poética. A esse processo superpõe-se um cotidiano cerzido com pequenas iluminações expressas através de uma linguagem coloquial. Como salientamos anteriormente, o ofício da mineração é incerto e desafiador, porque nos coloca – aqui na condição de leitores – diante de um campo de experiências poéticas em parte conhecido, em parte a ser desvendado. Essa tensão consiste num dos mais fortes apelos para que se possa pensar a poesia mineira e brasileira contemporâneas como um território aberto a novos diálogos e experimentações. Oiro de Minas é, portanto, um convite para que os leitores compartilhem uma experiência crítica e enriquecedora, ao longo dessa viagem poética às Gerais.

Juiz de Fora, Minas Gerais, 05 de Novembro de 2007

12


DE

MINAS

Eustáquio Gorgone de Oliveira

15

Donizete Galvão

29

Júlio Polidoro

43

Ricardo Aleixo

57

Maria Esther Maciel

71

Fernando Fábio Fiorese Furtado

85

Edimilson de Almeida Pereira

99

Iacyr Anderson Freitas

113

Wilmar Silva

127

Fabrício Marques

141

Sobre os Autores

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ÍNDICE

OIRO


Eustáquio Gorgone de Oliveira

Com banhos de ouro Nas cordas vocais as cantoras Saem de si para a cidade. Rebecas enterradas na garganta, oboés – Alguns cancerosos – a primazia Da matéria sobre o tempo. Tempo De soçobrar nos últimos veios-veios Do rio chamado ouro, tempo De tocar nas procissões em harpa e Comer a romã vermelha da cerimônia.

15


Eustáquio Gorgone de Oliveira

a poesia vai sendo assim escrita, cardo-santo no estômago. Aos poucos, outra luz na noite, azul que costura o corpo das crianças. Em glebas, os fonemas se encontram, os amargos e os mais doces. A poesia vai sendo assim escrita. Enquanto houver tardes, âmbulas, cada palavra será guardada em óleos santos.

16


Fugir de cidade em cidade. não adianta. Com ferraduras de talco deixo marcas. Todos sabem onde estou: verde debruçado em verde, branco em coradouro branco.

Eustáquio Gorgone de Oliveira

Ruas vales ravinas, tabuleiros de abraços, abrigo pegadiço? Todos sabem onde estou: azul em covas de azul, amarelo revezando amarelo. Atrás de decalques é impossível ficar. Em uma janela da sala é muito visível. Devo continuar sempre repintando as telas. Todos sabem onde estou: na flor vermelha, de cinza.

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Sei que quando te amo não há falsos sudários e estrelas maiores do céu amamentam as pequenas e anjos regentes do mundo desfazem a programada via-sacra e os sonhos-assaltantes se capitulam como dois mosteiros vazios e a pia batismal purifica o desejo vindo do corpo e santos refazem os milagres devorados pelo tempo e os cabelos sobem no barco que desce entre os espermas.

18

Eustáquio Gorgone de Oliveira

AMOR METÁLICO


Não me aterroriza a tua falta mas o vazio das palavras. Da ausência posso retirar imagens e pôr nos carretéis os abraços. Das palavras, tudo é em vão. Um pássaro doente, voando, diz mais do que eu. Por isso tua ausência é o eclipse menor. Ela pouco me fere. É uma cidade inteira que, imóvel, me persegue. As palavras, sim, inflamam o corte.

19

Eustáquio Gorgone de Oliveira

NOVOS POEMAS


As pedras não indagam. No silêncio, guardam definições. Sem a pegajosa angústia, o tempo passa por elas. Os sinais das chaminés cristalizam nosso inverno.

Eustáquio Gorgone de Oliveira

Cada qual em seu bridão, enredamos a vida com palavras.

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Aquela igreja é uma mulher que não sai da praça E toda vestida de branco e azul Bate seus brincos chamando os cristãos. Todos respeitam seus tijolinhos e bancos, E dentro dela a Virgem verga-se do teto Como uma fruta madura e viçosa. A orbe se assusta e acalma, serpenteia, E o povo parece um grande louva-a-deus Mirando o altar. Sim, a igreja É uma fêmea cheia de anjos, caiada, Estufada de música, granulada, E alimentando a solidão dos homens Pela placenta colorida das vidraças.

21

Eustáquio Gorgone de Oliveira

MÊS DE MARIA


A SOLIDÃO

Eustáquio Gorgone de Oliveira

A solidão ama corações completos. É noiva que propõe tachonar a liberdade. Visita qualquer um, criança ou adulto. Brota nos travesseiros como flor de macela. E muitas vezes arma seu camarim num tumor. É a noite terrível que se adere ao sonho.

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Eustáquio Gorgone de Oliveira

Atravesso a cidade. Vejo crianças no átrio das escolas. Dentro dos coretos, redemoinhos de ônibus. Sigo meu corpo, canoa. Apenas uma vez a solidão usou meus cabelos como remo. Quase imergi entre o povo. Só a língua me serviu de leme.

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Eustáquio Gorgone de Oliveira

Os dias se aproximam de maneira intermitente. Se houver desvão, há morte. Rosas propositais insurgem contra as rosas naturais, e espadas-de-são jorge duelam: as que ficam nos latões contra as que seguem o corpo. Amarelíssimos cravos. Nesta fresta dos dias eles se apegam a nós como arames farpados.

24


Eustáquio Gorgone de Oliveira

Descanso no pequeno aposento e já não me cobro respostas. A respiração brota em meu peito como flor que esteve sem água. Ouço ruídos que não ouvia enquanto estava desperto. No recolhimento me nutro: despensa onde fica o milho. Durmo sobre ele, nele me perco. Também sou o cereal perecível.

25


presa em flor de tijolos o quarto tem seu perfume longe das ruas e praças. alli os lençóis se abrem para o bule e a louça genital. no Ribeirão a saudade fermenta fora do mapa.

Eustáquio Gorgone de Oliveira

a solidão é tanta e abandona os corpos na fuga.

26


eles se abraรงavam na sala como cobras que se picam dando filhos de pedra aos alicerces das casas. em plena luz do dia caranguejos รณrficos dormiam em seus braรงos.

Eustรกquio Gorgone de Oliveira

quando ela o deixou tornou-se uma montanha para a solidรฃo escavar.

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rosto claro feito a pincel. em dezembro se apegou à luz como as parasitas do parto. pôs o verde pêssego no ventre e no úbere o nome de sua avó. na messe e nos meses de fome que o amor esteja ao teu lado

Eustáquio Gorgone de Oliveira

e a felicidade não seja tola de ser apenas palavra.

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SILÊNCIO

Donizete Galvão

De pedra ser. Da pedra ter o duro desejo de durar. Passem as legiões com seus ossos expostos. Chorem os velhos com casacos de naftalina. A nave branca chega ao porto e tinge de vinho o azul do mar. O maciço da rocha, de costas para a cidade sete vezes destruída, celebra o silêncio. A pedra cala o que nela dói.

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ITINERÁRIO

Revolva com sua língua os lençóis de areia: ergue-se a cidade submersa.

Donizete Galvão

Deixe que a palavra morda a outra palavra e salte, exibindo guelras e escamas.

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QUEDA

Donizete Galvão

No outono, a carne soçobra. As maçãs do rosto cedem e a testa expõe seus vincos. Os lagartos procuram as rochas e pedem sol para suas couraças. Vista da janela, a cidade das cinzas provoca cansaço e náusea. O mar de pedra soterra a árvore dos brônquios.

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MENOS

Você não vê o homem, o pássaro, a mulher no gesto de Miró? Sinta o que ele traça: a tela pulsa, a boca murmura, o sexo arde. Você não vê graça no zen falado de João Arcanjo? Ouça o que ele anuncia: do sopro exato surge a geometria.

Donizete Galvão

No mundo das pedras lisas não cabe a dor.

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INVENÇÃO DO BRANCO “all this had to be imagined as an invisible knowledge”

O tanque é o avesso da casa. A rebarba. A ferrugem tomando conta da boca. O tanque é a parenta decaída, que machuca os olhos das visitas com suas carnes rachadas. O tanque é onde se lava o coador e o pó de café de seguidas manhãs desenha uma poça de água preta. Uma arraia-miúda, ervas e craca e limo, flora sem-vergonha, infiltra-se em suas paredes. À beira do poço, alguém imaginou copos-de-leite. Bebendo a umidade, em verde e branco brotaram. Reiventados pela distância, erguem-se vívidos, mais brancos que o branco, artifício de vidro. Recém-nascidos. Só porque eles existem, o tanque e seu corpo saloio foram salvos do esquecimento.

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Donizete Galvão

Wallace Stevens


DA NATUREZA

o berne plantado no lombo do boi estremunha ao ser cutucado com óleo queimado o verme solapa a polpa da goiaba estremece na fruta sem forma caída no chão o germe gira feito parafuso que fura a casca em verde tremula folha ao vento

Donizete Galvão

o verbo entranha-se na carne ganha corpo faz dos músculos seus vocábulos

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RETÍCULA

Do corpo que teve, se um dia o teve, não há mais sinal. A cada fotograma, a memória o distorce. Retorce lembranças. Superpõe figuras. Entorta os membros, acentua vincos. Amplia manchas. Músculos em magenta. Ossos em amarelo. Superposição de formas em filme fora de registro. Do primeiro corpo, não percebeu o sopro da carne ainda fresca.

Donizete Galvão

Quando se deu conta, o momento passara. Restaram: esse esgar, essas raias de sangue, esse olhar que se assusta todas as manhãs com o borrão no espelho.

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TAPERA

Donizete Galvão

Deixe que os morcegos ocupem o forro e as caixas de marimbondo tomem conta dos seus cantos. Deixe que a macega suba pela escada até o alpendre e prolifere nas rachaduras do reboco. Deixe que o musgo cubra o tampo da cisterna e que os escorpiões armazenem veneno sob os tijolos. Nada dói mais do que a lembrança da casa, encravada como um prego que lateja na memória.

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LIVRO DE CABECEIRA

Donizete Galvão

Rói as unhas, os cantos dos dedos e os nós da mão até que doer seja uma forma de esquecimento. Lanha-se com caco de vidro cada pedaço da pele para que se auto-revele a urdidura de cicatrizes, incunábulo, xilogravura, esgar de máscara: a dor como escritura.

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MAPA ama o inominado o perecível o particular a coleção de cacos de louça os arreios e os antolhos das mulas a caixa de ferramentas do avô o cavalo baio com o olho cego a luz do sol sobre as encostas a dureza das macaúbas

sem esperança sem consolo, com a paciência de um boi segue tua trilha de erros: rastro de palavras marcas da passagem serpentear de frases mapas de dor e descontentamento. 38

Donizete Galvão

nomeia as coisas que pedem o nascimento pela palavra escrita que se transforma em outra escrita geografia de migalhas dicionário pessoal de falas ditas na labuta concreta sem reconstituir um mundo cuida de um retalho: o fragmento pelo todo senhor de restolhos e rebotalhos inventário de perdas rol de inutilidades vasos vazios e quebrados


LEMBRANÇA DE SEVERO SARDUY

Donizete Galvão

Quando se fere com a tesoura a haste da manga, escorre o líquido, visco oloroso que prenuncia nas ventas o gozo. Antecipação do paraíso na tarde calorenta do suco de manga gelado que desliza pela garganta.

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OS HOMENS E AS COISAS

sem os objetos o corpo não tem gravidade diapasão prumo

cavidades onde lança seus parafusos sem os objetos o corpo se perde nos buracos sugados pela mente dispersa-se em círculos centrífugos o corpo necessita dos objetos para que estes confirmem sua existência em fuga

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Donizete Galvão

o corpo precisa de contrapesos: a mesa a porta a cama


MUNDO MUDO

salta, mundo, desse caroço de pedra em que estás aprisionado

salta, mundo, desse caroço de pedra vence as camadas de aluvião para que aflore um grão um broto um grito para quem está exausto de auscultar teu corpo ferido

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Donizete Galvão

toda a rua termina em muro toda palavra representa uma falha


À MARGEM

o rio morto o rio fétido o rio podre o rio lodo o rio negro espelho que reflete prédios e carros trilhos e latas o rio e a memória das águas

Donizete Galvão

à margem heráldica estática uma garça ergue para o céu a hipérbole do seu alvo pescoço

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há um furo no bolso do paletó tão fundo que dói espio de longe o tempo que passa e não consigo entender tudo se gasta: tecido, sonho, traça

Júlio Polidoro

e o vazio tão fundo que dói

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mãe, perdi vossos carneiros não sei por onde eles se foram nem percebo o novelo que me envolve, mas vejo a noite, mãe, cheio de medo a noite varreu dos olhos a pureza o pastor tornou-se rês de outro rebanho

Júlio Polidoro

perdoai, mãe, não são meus vossos carneiros

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Júlio Polidoro

Sou eu mesmo meu parente e me vivo a modo vário, permanente. Sou eu mesmo meu parente nas ruelas e cidades. E comporto muitos corpos que fundem o único, a única satisfação, o único desejo, que é permanecer. Sendo parte desse sangue sou meu sangue e, sendo parte de meu sangue, meu parente é seu sangue; mas eu, como parte de outra parte, não sou parte, enquanto meu parente, como parte do que sou, me sendo um tanto (já) me pertence.

45


Júlio Polidoro

Eu me declaro à morte e a pergunta que não faço é saber se ainda permaneço. Como pessoa ou “despessoa” sou extremo. E por declaração movo dois pólos. De um lado, sou a morte, do outro, sou a vida. Mas, o que significo como centro de dois nortes? A razão não me explica porque aconteço junto a ela e, gênio ou não, a supero. Porque, estando além de mim, sou mais do que posso e me adiantando, permaneço.

46


efêmero sou pouco quero mais longe o arco do meu soco perto da travessia em que pomos o olhar efêmero sou parco algo quer seguir além de mim resistir o que não posso atravessar meu corpo para que meu corpo o atravesse

Júlio Polidoro

não quero ser efêmero no arco do meu soco

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INDECISO

Júlio Polidoro

Às vezes meu desejo é não notar que tudo passa e que envelheço na medida que envelheço Por vezes meu intento é evitar que a busca de um espaço me enlouqueça que todos descubram que devo dinheiro aos inimigos qu saibam que nunca tive namorada Às vezes eu me sinto muito bobo conservando os costumes de família e comprando queijo na mesma padaria Às vezes é o provável do poema não fosse essa carência que sinto ao dizer que sinto às vezes

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MOSAICO

Dissociadas as palavras e seu desencanto. Ninguém responderá pela cor do dia. Todos vão ficar embaraçados: (a memória na curva de nós mesmos). Não se erga essa mão, o grito infirma.

Júlio Polidoro

No pátio de outra manhã daremos melhor desculpa.

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persigo, da fala, a plena expressão da sala nunca aberta, o corredor que nos conduza ao Verbo sem autor e que traduza as coisas do porão.

Júlio Polidoro

mas como seduzir a sedução e como, sendo ovelha, ser pastor, se a fala, como falso condutor, tem muitas e nenhuma direção?

50


eu sei, mas por saber, sei que sou parco, tudo que não tenho é o que perco: a morte se aproxima e fecha o cerco, descreve uma espiral, desenha um arco. sou para o oceano menos que um barco, me sinto sobre a terra qual esterco; fecundo esse fogo de que me acerco com o ar que se sufoca sob o charco. eu sei e por saber sei que sou pouco, perdido, navegando como louco, procuro por um cais que não conheço.

Júlio Polidoro

eu sei, pois por saber sei que pressinto: no gesto de perder, que não consinto, me enleia alguma teia que não teço.

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a alma vem nomear as coisas: noite, lobos, uivos para a lua tempo essa arena sem touro orion segura o nada três marias sobre a terra o corpo a curva longe, o verbo nascituro rompendo a distância

Júlio Polidoro

e a boca abastada de espuma e ranço

52


MINARETES DE ISTAMBUL

Muezim arranha o céu da mesquita, xeques do jardim de Rumi. Mulá brande o rosário da sapiência em nosso susto. A luz arrosta a indiferença. Minaretes de Istambul.

Júlio Polidoro

Sonhar acordado: por dentro, o lado de fora é azul.

53


PERTENÇA

o que falta identifica o abandono afasta o contingente estrangeiro segue, pois, a não escolha tua nau suspensa no bordejo o que falta expressa não sentença

Júlio Polidoro

veleiro a deslocar o vento

54


RELÓGIO

o tempo passa e sobrevive o ipê é só idéia do que foi daquele lado um outeiro sobrepõe-se a outro e outros o monóculo mais gasto que as horas vê mover-se a engrenagem dispensa o arbítrio do olhar

Júlio Polidoro

sem escolha o silêncio gira seu ponteiro

55


GEOGRAFIA DO ABRIGO

a geografia do abrigo é outro ângulo da íris os bondes não mais aponto o corpo que passa e não vemos de mãos dadas o ícone nos leva ao labirinto o abrigo é isto: mechas na esquina do quarto insetos colidindo com a poeira

Júlio Polidoro

nesta geografia o olhar conspira nova perspectiva

56


LAVA

Meianoite que não passa. Nervos saltando e estes sinais de inferno: o disco emperrado da melancolia, a curva ascendente da tua ausência e o grito que não sai – língua morta –, que se desmancha dentro, lava.

Ricardo Aleixo

Meianoite e um quarto.

57


POÉTICA

Aprendi com Valéry um pouco disto que faço: “Eu mordo o que posso” (palavra, carne ou osso)

Ricardo Aleixo

Me acho me acabo de vez me disfarço

58


O ANJO

Vi, enfim, o anjo, cara cara, meu ( no seu

a

igual

comeรงo, seu meu outro,

fim ),

o de asas limpas, o que quanto mais mais

roto in-

Ricardo Aleixo

teiro dentro de mim.

59


OUTROS, O MESMO

O corpo, esse trapo. Ora, Pascal, por que n達o esse texto? Pense bem: poder ser outros, o mesmo sob re outros

Ricardo Aleixo

-um palimpsesto.

60


TRÍVIO

vazio

até

o

fundo crispado

na

treva mais dia

um des

liza

para

dentro de dos

um três

caminhos volta

Ricardo Aleixo

sem

61


JOÃO

não o

importa

samba.

tem

sempre

um

sample

do

último

instante do

antes

mundo

começar nem

do

importa

o

mundo.

é

sempre

o

mesmo

samba

e -

em

da

g a r g a n ta

aos

nada.

glissandi,

dedos

-

silêncio,

aquele

nada

Ricardo Aleixo

aquele

sampleado. não

importa

o

62


BISPO DO ROSÁRIO

quem fez e refez cem vezes o caminho do mundo até antes cem vezes na cabeça o longo trecho entre o mar e o céu quem re fez o caminho da perda com seu manto

Ricardo Aleixo

de ver deusfilho

63


DOIS

dois irmãos no começo. o que sabe o caminho e o outro: dois. e não há retorno. dois irmãos desde nunca. um, o que vê e conta. outro, o que ouve. dois. não se separam. por onde passam, o mundo: o coração de um pássaro, desvios, carcaças de antílopes, cidades riscadas do mapa, o dorso tigrino de um presságio, o tempo mais velho, um deus

Ricardo Aleixo

trocando a pele. dois irmãos ainda agora.

64


CINE-OLHO

Ricardo Aleixo

Um menino n達o. Era mais um felino, um Exu afelinado chispando entre os carros um ponto riscado a laser na noite de rua cheia ali para os lados do Mercado. 65


ELA AQUELA

Ricardo Aleixo

ela aquela noite n達o falava (ouvi-la era ouvir asas - as de uma serpente que as tivesse), voava

66


CONFIDÊNCIA

Ricardo Aleixo

Prefiro a paciente proeza das traças, meu rapaz, aos versinhos bem traçados dos quais te mostras capaz (assépticos e sérios como os de ninguém mais). Ah! Ler-te é penetrar na paz dos cemitérios. Ainda respiras, mas já se entrelê, junto aos títulos dos teus livros, os dois precisos vocábulos (“Aqui jaz”) com que, um dia, te saudarão os vivos.

67


MÁQUINA ZERO Quarto dia: entendo q ue o que preciso, se q uero mesmo continuar a p erambular com alguma chance de êxito p or uma cidade ( duas ) como Berlim, é de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e nquanto caminho ), permeável a t udo: ao frio ao sol cortante, às crianças t urcas com seu comércio informal de b rinquedos usados, à b eleza sem rumo da adolescente que ( longas p ernas abertas sobre um p rosaico selim de bicicleta ) c avalga o c omeço da tarde, aos grafites que “ d ariam belas fotos”, à Topografia d o Terror, às ruínas, ao r asta que me saúda ( “R asta !” ) na Wilhelmstrasse, às l ascas do Muro na vitrine da pequena l

Ricardo Aleixo

oja, ao a marelo-zoom do metrô a pontando na curva a ntes do teatro, à História, 68


LABIRINTO Conheço a cidade como a sola do meu pé. Espírito e corpo prontos para evitar outros humanos polícias carros ônibus buracos e dejetos na calçada incorporo hoje o Sombra amanhã o Homem In visível sexta à noite o perigoso Ninguém e sigo. Como os cegos conheço o labirinto por pisá-lo por tê-lo de cor na ponta dos pés à maneira também do que fazem uns poucos com a bola

cidade toda (a mínima dobra retas cada borda curvas) e nela – à custa de me perder – me reconheço. 69

Ricardo Aleixo

num futebol descalço qualquer. Conheço a


A UMA (OUTRA) PASSANTE

está feito : ao meu olhar ( o olhar não dobra esquinas ) agora só resta dobrar a esquina

Ricardo Aleixo

ou então

70


AULA DE DESENHO

Maria Esther Maciel

Estou lá onde me invento e me faço: De giz é meu traço. De aço, o papel. Esboço uma face a régua e compasso: É falsa. Desfaço o que fiz. Retraço o retrato. Evoco o abstrato Faço da sombra minha raiz. Farta de mim, afasto-me e constato: na arte ou na vida, em carne, osso, lápis ou giz onde estou não é sempre e o que sou é por um triz.

71


PAISAGEM COM FRUTAS

Duas peras sobre a mesa esperam a tua fome. O dia é verde e o vento tem cores provisórias. Sobre o muro um pássaro mudo de olhar escuro perscruta a tua sombra

Maria Esther Maciel

Ele sabe que ninguém sabe em que azul ocultas teu absurdo.

72


NOTURNO a T. S. Eliot

O dia é noite no poema: Sombras, pedras, luas secas encobrem a estação das flores. Sobre o deserto memory and desire ainda restam: ecos entre as cinzas deste verso. Will it bloom this year?

Maria Esther Maciel

Na terra triste do poema enterro o fim e o infinito: me faço silêncio, eclipse.

73


OFÍCIO

mar ave margem imagem nada.

Maria Esther Maciel

Escrever a água da palavra o vôo da palavra o rio da palavra o olho da palavra o oco da palavra

74


MANUSEIO

Maria Esther Maciel

T茅pidas essas m茫os que divagam devagar por meus relevos 贸bvios e demoram fundo no obscuro ponto onde o corpo se abisma e silencia, absurdo. devagar por meus relevos 贸bvios

75


SOBRE UM FILME DE WONG KAR-WAY

O corpo e seus possíveis. O dentro que, na pele, vira flor. Os cheiros, a memória do que, de tão breve, não fica senão como sombra líquida quase cítrica

Maria Esther Maciel

desse amor.

76


ECLIPSE

A lua desliza sob as sombras do sol que não há: luz de escuros véu para o olhar que não vê senão a cor lilás da noite que reluz

Maria Esther Maciel

num verso de Éluard.

77


DO CORAÇÃO DO PAI

O coração do pai

fala

O coração do pai

falha

O coração do pai

cala

O coração do pai

pára

O coração do pai

passa

a limpo o coração que fala por um fio.

Maria Esther Maciel

da filha

78


BLACKHEATH

A poesia me chama entre as árvores de folhas incompletas. O vento é frio, apesar de terno. Corvos mancham o azul sem peso desta tarde que não começa.

Maria Esther Maciel

O trem também me chama. E não vou.

79


AMOR

Na vĂŠspera de ti eu era pouca e sem sintaxe eu era um quase uma parte sem outra um hiato de mim.

Maria Esther Maciel

No agora de ti aconteço tecida em ponto cheio um texto com entrelinhas e recheio: um preciso corpo um bastante sim.

80


Permanece em mim como um segredo e que ninguém escute teu silêncio na minha boca nem a linguagem de teus olhos que em mim se inscreve como poema Torna-te clandestino em meu país sem nome e desenha em mim o teu enigma teu reverso e teu verso sem tradução Te exila em minha teia me define com tua senha perenizando em meu corpo o teu mistério – entre cortinas, no refúgio exato dos lençóis.

81

Maria Esther Maciel

CLANDESTINIDADE


DESTERRO

Desabitado o corpo resta a sombra do anjo sem nome

Maria Esther Maciel

O reino do longe ĂŠ aqui: na terra insone, onde a pedra consome a falsa raiz.

82


A VOZ E O ESPELHO (sobre um paradoxo de Octavio Paz)

Tu presencia me deshabita: saio a esmo sem medida do mesmo no ermo de mim: faรงo-me diversa convexo-me em ti no reverso onde me perco revejo-me, reescrita e recomeรงo, inversa embora a mesma

Maria Esther Maciel

mas ao medir-me nรฃo mais te vejo e no instante do espelho finito reflito: tu ausencia me habita.

83


CONTRATO

Sombras que conheço: Confio a vós o meu excesso o nome avesso que me empresto a imagem vária que me dei. Viajo ao longe do que sou, além do meu espanto

Maria Esther Maciel

Levo a face deixo o espelho e seu reflexo Em vosso rosto deposito o meu assombro

84


O CORPO E AS CIDADES

das cidades em geral

Fernando Fábio Fiorese Furtado

De quantas cidades estive (e não digo as que, de passagem, guardei apenas uma rubrica e o rumor do jornal dormido, nem aquelas em livro escritas ou contrabando dos amigos em cartões-postais e souvenirs), poucas vestiram este corpo, camisa feita de encomenda, sem rugas, pences, rebordos.

85


das cidades sob medida

Fernando Fábio Fiorese Furtado

Embora me sirvam de abrigo, dos cenários às personagens, forneçam o de que preciso para um plágio de Pasárgada ou minha Ítaca de bolso, das cidades entre parênteses (neste poema ou na memória), nenhuma desconhece a régua, o traço do corpo que as escreve, escreve como quem se entrega.

86


de Diamantina

Fernando Fábio Fiorese Furtado

De quantas cidades estive, Diamantina tem o tamanho do corpo com que se ama e vive, com folgas e bolsos largos para acolher-nos no regaço. Tem os olhos na altura do homem, e ruas que arregaçam as mangas, e pátios de pássaros destros, e capelas que erguem as saias para deixar fugir o céu.

87


AVÓ DEPOIS DE MORTA

A avô ainda rega o canteiro onde mirraram os brinquedos.

Fernando Fábio Fiorese Furtado

Mesmo morta ainda ralha com a tempestade que escondeu os meninos em outra idade.

88


VICENTIM, REPARADOR DE LIVROS

Fui muitos antes. Desta pequena queda, um corpo oblíquo espera mapa ou sentença.

Erratas também recolho com mãos que desconheço: a linhagem do homem ninguém sabe. A limpo e a luto passo livros, desertos, cidades – os hóspedes em frases demudados. E posso mudar em verbo até a última paisagem.

89

Fernando Fábio Fiorese Furtado

Da história me desfaço, rascunhando uma rosa nos obituários.


Livro só existe no plural. De modo que não há como abrir um único, sem com isso outro, e assim acionar a espiral que, par em par, outros abrirá; o mesmo que a mão dentro do bolso surpreendesse outro e, nesse um, outros bolsos em seqüências infinitas, à semelhança de uma dízima; e em cada qual houvesse chaves de cofres há muito saqueados, de gavetas que nenhuma abre, da cidade depois dos bárbaros, porque chegamos sempre tarde.

90

Fernando Fábio Fiorese Furtado

CAPRICHOS BIBLIOGRÁFICOS


Fernando Fábio Fiorese Furtado

Como dissera versos antes, para o livro chegamos tarde, cedo demais para o não-livro; na estante um espelho inimigo, esse olhar só possível quando o silêncio entre amantes queda, e o mínimo rumor é tanto que, no corpo, o corpo analfabeta. Livro é como, em outros, a morte se abre para ensaio ou trégua; livro é mapa, mesmo conforme, onde o território desconcerta; é quando não há enigma algum – nem termo, início ou promessa.

91


CADERNETA DE CAMPO

1. a lição é onde termina o professor como um morto a sós com suas flores o professor de semiótica que olha a própria sombra enfim atravessar a porta como um livro no labirinto

2.

uma árvore sem raízes

3. abrir um livro é ampliar a noite em que um professor de literatura persegue pequenas verdades policiais seqüestra-se ao espelho ao sentido mesmo porque é ele o assassino mas não o autor dos falsos indícios 92

Fernando Fábio Fiorese Furtado

(saber demais desconfia) de menos saber se faz o que ensina a esquecer o nome o número o texto


DEAD LETTER

percorrê-la nunca por inteiro de forma que permaneça um cadáver sobre a mesa centro móvel à espreita do sétimo selo de indícios do que era tua letra

excesso de olhos e unhas como um gato vigiando a sombra do pássaro escrever-me é tua vingança: palavras são diques ainda quando dizes todo o oceano

93

Fernando Fábio Fiorese Furtado

a fuga a febre o gasto andar o círculo só e desarmado


Fernando Fábio Fiorese Furtado

Mesmo os tios alfaiates desconhecem a fazenda e o fio com que tecemos – ou nos tece – essa camisa adulta de esquecimento, os bolsos vazios, a não ser por uma página da tabuada de menos. Inútil postular o périplo da bicicleta alemã: os pedais riem deste corpo sem rodas e sem rumo, pedalando para o caos.

94


A CASA

na rua da Casa não passe. o futuro será póstumo a fachada da Casa não olhe. os olhos serão outros não calçada da Casa não pise. a terra será queda

aos viventes da Casa não fale. qualquer palavra é rendição os cômodos da Casa não visite. os gatos enlouquecem de tanta beleza na Casa eu vivo. os ausentes são minha família

95

Fernando Fábio Fiorese Furtado

os frutos da Casa não coma. dentro as paixões disparam


DANAÇÃO

E não ficar polindo os ossos do mito.

96

Fernando Fábio Fiorese Furtado

Bom mesmo era morar num lugar de nome bonito – Nossa Senhora dos Remédios, São Tomé das Letras, Dores do Turvo – cultivar violetas e samambaias e fazer do itinerário dos peixes minha mística.


COMO DESFAZER BAGAGENS

Como quem de viagem demora a acomodar-se ao clima, ao horário, às vogais de outra sintaxe, também escrever estranha quando muda de paisagem.

Como quem de viagem pouco ou nada decifra do manuscrito-cidade (mal soletra as esquinas), também escrever ensina, menos importa encontrar-se. Como quem de viagem evita, quando sabe, os apelos do fóssil, do que é fausto adrede, também escrever prefere o que se dá sem salvas.

97

Fernando Fábio Fiorese Furtado

Como quem de viagem, o que carrega apouca a dicionários, passagens e alguma muda de roupa, também escrever exige aprender a descartar-se.


Como quem de viagem sabe o prazer de andar sem endereço ou idade, com a roupa amassada, também escrever comparte esse corpo sem abas. Como quem de viagem, para rever a janela onde lhe sorriu uma criança, o embarque adiaria, também escrever alcança os vestígios desse dia.

Fernando Fábio Fiorese Furtado

Como quem de viagem, das malas faz relicário de rostos, ruídos e mares, de balas, livros e ácidos, escrever também seria como desfazer bagagens.

98


NA CASA DA PALAVRA

os homens que falam poeira cadê sua miséria comentam o motivo de falarem poeira cadê sua miséria. Poeira cadê sua miséria não é só poeira cadê sua miséria: mas o ovo de outras coisas.

O modo de falar poeira cadê sua miséria deixa a língua no sal. Os homens que falam poeira cadê sua miséria treinam de usá-la. E nunca repetem o que disseram no camaleão poeira cadê sua miséria.

99

Edimilson de Almeida Pereira

Os homens que falam poeira cadê sua miséria se vestem de poeira cadê sua miséria. Eles se conhecem desde-o-ó-do-mundo pela música que poeira cadê sua miséria faz neles.


O JOGO DO CÁLICE

Um homem só morto vê o besouro da palavra, mas o vivo no seu terno domingo é que pode negociar. Quantos chegaram das orações e, lagarto, a compreensão sua do céu punha cabelos brancos na manhã.

O que esperar do esqueleto que pretende ser um texto? E no vivo algo espera? O corpo da mulher teve graças porque sonhou na água. E cá, não há o morto nem o vivo mais certos da palavra. A diferença é no que fazem: um vê o besouro da palavra, o outro negocia.

100

Edimilson de Almeida Pereira

O vivo e o morto devem conhecer a miséria do vento, cada um a seu tempo. Assim irmãos vão desejar o abraço das palavras.


O CORPO

Edimilson de Almeida Pereira

Ainda está lá, apesar dos anos. De um lado a outro, desvia-se das pedras, toca as margens cada vez mais humano. A roupa se desfez, os sapatos, o que havia nos bolsos. Nada restou, mas o corpo flutua alheio à chuva, ao vento, à vingança. Há muito nos povoa, suas rugas não pertencem ao tempo de seu sacrifício. São de agora, nos interrogam. Que fazer desse corpo que não sabemos de onde veio e se instalou em nós?

101


SÍLABA

Edimilson de Almeida Pereira

Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida é tudo o que se queira. Não está na boca e nela se arvora. Testa o sentido, duvida de si mesma. Vai ao baile, está nua ao meio-dia. Não é língua do suplício nem do vexame, desenrola os signos e se pronuncia.

102


EXERCÍCIOS

do sangue Antes da circulação, o desprendimento, como se a história fendesse em queda livre. Depois, apalpar a rugosidade do labirinto.

do luto O braço remove um chinelo dentre a herança. A tarde golpeia. Não pela falta do par, mas pela curvatura que torna o calçado estranho aos pés.

A lama é uma régua de outra precisão. Pelo tanto que a roda afunda, dá a saber o peso dos bois e se estão firmes, quando a derrapagem é o piso.

da alegria O dente é o ponto agudo do assobio. Sua sibilação submerge na caverna. Mas, aberta a boca, o dente expõe a pedra de amolar.

103

Edimilson de Almeida Pereira

da cegueira


Para conter a sete chaves dá-se a arca. Senhora de si, contra cupins e traças, contra a ameaça dos anfíbios. Maior a do esquecimento. Passando de casa em casa, de um parente a outro atinge a inércia de jamais ancorar. Embora seja esse o plural da vida, alguma raiz reclama seus gumes. Arcas são abraços de vegetal e homem, contrato de gravidez. Uma vez no rebojo se multiplicam em alarmes. Em pugnas e morte, em lençóis enxovais, em minas. Para exibir a sete chaves o invisível só mesmo a arca e a família que nos habita.

104

Edimilson de Almeida Pereira

ARCA


A GRÃO SECO

O mundo ainda não começou. Chifres, aranhas, miolos são vírgulas de um corpo que não se mostrou. E não sabemos quando arreará as garras. O que tem sido mel e cinza em nossa língua não será nada. Também somos rascunhos. Vai-se o dia em que aliciamos as delícias. Os dias durariam se durássemos. Passou por mim o cordão. Uma duas sanhas. A prenda no precipício. Quero dizer o nome.

O rio sumiu a ponte, cinzas tomam a cidade. A noiva deserta. O verbo que foi esterco dispersa. Passou por mim, me entardeceu. Talvez a fome, talvez a peste. Se me exilam, mais deslindo os reveses. Me querem os que me rendem. Passa o terceiro carro. O quarto para lavar os cabelos. Estamos saindo, apesar do medo. Ao meio da praça, o grande carro. Passou por nós, encardimos por ele.

105

Edimilson de Almeida Pereira

O nome inscrito na cisterna. O nome que os martelos trepidaram. Passou o cordão de sangue. Ficou depois de minha sede. Vejo sua miragem. A família o elege, ele se curva mas se foi desde que chegara.


Casado, minha viagem começa. Deixo a esposa e algum benefício para o recém-nascido: pensarei nele enquanto o navio sulca o canal da mancha. Entenda, é para bem da família a mudança. Não amo Birminghan mais que Faído, porém o dinheiro se planta na outra esquina do canal da mancha. Montarei um hotel distinto e a cada ano retorno para saber dos filhos. (E a esposa? mais do que a casa não pede outro merecimento?) Entenda, a vida tem suas costuras. Providenciei um baú fornido onde cabem as ânsias de quem se habituou à montanha e às lides da manhã. (A esposa, mais que avental, não quererá outro laço? O fogo que não se aparta e entre um carinho e outro não se resuma ao parto?). Entenda, Birminghan não é distante, e esse baú inglês recebe os saldos que as castanhas de Faído não garantem. (A esposa não come, se descabela e as unhas ferem o vento). Entenda, um hotel não se abandona assim: o cadastro de clientes impede outra mudança. O amor que me ame entre Faído e o canal da mancha. (A noite aliciou a esposa? ela se deu, que importa). Rendas sobram no banco, clientes no hall. O idioma alheio fala, se me calo. Estufa a mesa de tanto fruto. Mas o baú , por que se esvazia no lucro? 106

Edimilson de Almeida Pereira

BAÚ INGLÊS


SENHORITA DESESPERO

Chamem o amador de blues vou bater nele como boxeur. Na casa onde mora, luas mexem os olhos até ferver. Chamem o amador de blues vou matá-lo arrumar emprego. Tenho de magoar sua íris. Vejo sua pele sob a blusa movendo rios incêndios. Vou matá-lo se me faz feliz. Chamem o amador de blues que persegui dias e noites.

depois ganhar dinheiro. Quero ser das que dançam até fechar o clube e ferir no tórax meu companheiro. Chamem o amador de blues não confio nele mais não. É desses que entram a alma e fazem a gente arder. Chamem o amador de blues. Vou bater nele como boxeur. 107

Edimilson de Almeida Pereira

E soube miserável sem irmã. Chamem vou matá-lo


Se alguém quer matar-me tire os cadarços do amor. Não somos a primeira sede mas sua cara família. A que almoça o domingo e vira a miséria pelo avesso. O incêndio nos assedia e não come em nossa mesa. A menos que sua ânsia seja outro mantimento. Se alguém quer matar-me de amor, dance a aspereza. Nada aqui se faz sem ritmo.

108

Edimilson de Almeida Pereira

PRECEITO


Fala de vendedor ambulante é signo em rotação. A gente lança no ar o que tem de ser dito e colhe – nem sempre – o fruto de algo vendido. Repetimos as falas aceitas para garantir a venda, mas o risco do improviso é o que há. Três por dois, duas por uma – essa sintaxe apraz. A gente lança no ar. Se der ritmo ganhamos a feira, se não, fazemos finta de baile.

109

Edimilson de Almeida Pereira

AULA


HISTÓRIA ANTI-NATURAL HOMEM BALA Um emprego não basta para sanar as dívidas. Quanto mais ajusto tanto preciso ajuntar. Quando paro, tudo em mim trabalha. E já uma outra dívida, crescendo no sujo da antiga, se anuncia. Mal desço na praça um braço me cobra, outros me olham. Tudo em mim se rala. O que sobra gera outra promissória. HOMEM GOL

Edimilson de Almeida Pereira

Falhar é um direito, em meu caso, um caos. Se me ausento do lance é como se acabasse o gás para o almoço. Cada boca tem a fome do juízo final até que o juiz apite: acabou. O jogo agora se disputa mesmo sem partida. Não há dono do time, bola também não há. A tática minha e sua é atacar na defensiva. HOMEM MOSCA Para lições de leveza nada mais que o corpo. Se possível um anúncio em que a sorte nos 110


convide à sua fazenda. Para se manter no ar é preciso músculos e alguma tolerância. Nossa natureza é pedra, se muito, espuma. Mas não será absurdo flutuar na palavra uma vez e outras. HOMEM RÃ

Edimilson de Almeida Pereira

O início do mergulho está na ausência da água. Quando tudo é esgoto como achar o que se busca: um braço e um dejeto são uma só carcaça. Recuperamos as coisas em partes e com isso a luta se reapresenta. Num braço o corpo, num chassi a máquina que o precipitou no rio. Mergulhar é dar início a um quebra-cabeças. HOMEM NU A mão que me devassa não colhe senão fiascos de um tecido. Há muito me imprimo em formas anuladas. As que têm medo e, sendo muitas, vão sozinhas ao labirinto. Onde não há marcas vigem meus dedos. O nome que ostento é um clã de anônimos associados & filhos. 111


Paredes em branco, portas janelas azuis. Fila de casas com orgulhos enfileirados. Uma ordem dentro da outra. Quartos, metade quartos. Searas, enfim, para a cisma do criador. Nada insinua ruptura. A chuva não frisou o branco, o mar se conteve. Receios arrastaram os que esperavam, a mobília não. O suor de antes não legou a mensagem do sacrifício. Esse, aninhado no corpo, também se dilui, só a astúcia abre sulcos sob o retrato.

112

Edimilson de Almeida Pereira

ESCARIAÇÕES


NO ÚLTIMO DIA Chegado é o tempo em que tudo se funde sobre meu corpo. O beijo me acusa às milícias e eu sei desde muito que todo beijo é traição. Conto os que me condenaram e não compreendo o assédio das mortes em mim, o avanço de todas as digressões contra meu nome, esse azul que não se curva diante de nenhum sacrifício. Contemplo apenas o que me coube.

Chegada é a hora maior em que o ar se ajoelha, em que os numerais se fundem, em que a trindade rasura o zero dos milênios, em que a eternidade inteira se escoa na proa de um segundo, em que à sombra de meu nome os abutres oram e comem. A hora em que Deus coloca-se à prova e comigo partilha o fardo de ser homem. 113

Iacyr Anderson Freitas

Ao sul e ao largo demovo os fogos da transfiguração.


EM MIL

tracejaram no espaço a horizontal de um nome até sangrar seu sumo (enquanto o mar se assenta calmamente nas patas traseiras) exclamações gretadas como rios escorrem para a morte não sabemos o que fazer por isso não fazemos nada o esquecimento sulca nosso ombro e nos diz não se esqueçam por favor não se esqueçam

das pegadas pulam escorpiões do calcanhar uma náusea suntuosa estamos livres e oramos nossa fé divide em mil a escuridão 114

Iacyr Anderson Freitas

na margem esquerda e na margem direita desolação


FUI EU

Teu rosto me acusa. Teu rosto ĂŠ todo um passado me transcendendo. De frente, olhos fixos, esse passado me sonda, me assalta e de minuto a minuto me principia.

Mas nĂŁo seria esse o meu rosto? Olho em torno, interrogo-me : meio-dia que busca o sol-posto.

115

Iacyr Anderson Freitas

Volto enfim a nascer, mais desolado e sĂł a cada dia.


ESSE ESTRANHO NOME

Ainda buscava um qualquer afago com a palavra. Em tudo via esmorecer o rito, o chão, a fala, depois o céu apenas, mais nada. Que incêndio abate o encanto desta casa? Onde a promessa dos dias, os retratos provinciais, as cartas jamais escritas, porquanto lidas no estrume e na febre, o amor? Onde o amor, esse estranho nome?

Iacyr Anderson Freitas

Procuramos deveras e é queda o tesouro não tocado. Aos poucos, surge a sede de escavar a terra com a terra. 116


De escrevê-la à margem, como algo vivo ou quase: entre as herdades não podemos vê-la (nunca a soubemos ao certo). Depois, escultura tímida, erigir seus moldes no caderno (traição, traição é sua música extrema).

Iacyr Anderson Freitas

Buscamos o abismo – não o dano, as letras, o contorno que de leve se estiola: o que escrevemos como lembrança nos escreve.

117


PRESENÇA Todas as noites nesta espera. Tudo excessivo, sufocante. O céu, até mesmo o céu em demasia. Súbito estamos sós diante da casa. Os viventes perderam-se: insídia, asco? Um ramo de flores fustiga o instante. Ah, a velha falta de ar, os retratos irrefutáveis, o ruir de datas não sentidas e a vaga lembrança de um pomar.

Ainda que pudéssemos implorar nova permuta – as reses imaginárias, alqueires de sombra ou limo – nossa herdade não se afastaria: passado o périplo, resistiríamos, com o tronco já tombando das coxias. 118

Iacyr Anderson Freitas

Na sala, a presença terrível. Os tumbeiros. Um mar de ocasos nos devora (eis que devemos enfrentá-la, essa presença).


MURILIAMES/ 3

levaram-me pelas m達os sobre o feno fizeram-me reconhecer os oceanos que me modelaram para o ocaso agora entendo o espasmo que rebenta dos alheios frutos a ferrugem e o claustro sob toda a magnitude que amo

Iacyr Anderson Freitas

com os olhos em fogo fizeram-me reconhecer os ventos que me anteciparam a surpresa com seus sulcos e a treva sobre toda a extens達o que amo

119


POSSESSÃO

sei que esta tarde e este mar são meus porque aqui sonhou-os o amor um dia e também o que declaro às milícias tuas e a grandeza sem mácula desta hora os tubérculos as vertentes de sais incendiados por teu rosto

em cada linha em cada letra em cada prefixo ou pronome desse amor que entre corpos se consome

120

Iacyr Anderson Freitas

tudo foi aqui sonhado um dia


DILÚVIO

lento por entre os autos o amor elabora seu queixume as águas vieram perfurar a ordenação dos meses arquitetura que se entrega à escarpa amarelecida por seus tomos o amor sedimentou meu corpo no corpo de outros viventes ouço ainda o trabalho dessas fusões

Iacyr Anderson Freitas

e seu leve fascínio pelo extermínio

121


ESTÂNCIA

os viventes arrastaram as oficinas do dia sem palavra ou canto um oceano amanheceu-me suas águas percorrem agora a antiga estância vão lavar tudo vão deixar as memórias em bando

Iacyr Anderson Freitas

me alucinando

122


já não se divisa o menino sob um céu de ossos, vozes. morto há muito e povoado agora com a voz absurda dos mortos, a língua infantil, o hálito em fogo dos mortos, caminha como se longe, noutra fábula, um vento por sua ausência fluísse

Iacyr Anderson Freitas

(como se dentro soasse ainda seu tambor).

123


neste chão sem memória os pianos nos espreitam para o possível susto perdida a mensagem dos povos alguém falará em nosso nome não saberemos quando onde a fatura das famílias lucinda caída no poço? sua lembrança nos inquirindo onde? onde?

Iacyr Anderson Freitas

ninguém responde

124


canso-me sempre do embate das cousas as muitas lutas que tingem até o açúcar das frutas ou algo que lembre

Iacyr Anderson Freitas

repetidos enredos entre meus dedos

125


APENAS ELE

tudo muito quieto não fosse o menino brincando na memória eis nossa infância entre os móveis como o retrato de cecília

Iacyr Anderson Freitas

§ alguém toca o piano apenas ele destoa da mobília

126


VOYEUR

sim as abelhas picam teu corpo e eu nada faço senão mirá-lo entre pólens açucarados de inverno são fêmeas que abatem tua pele e fecundam todo o enxame e o mel e a cera

Wilmar Silva

entre a colméia eu me escondo no seio de tua flora antes que me revelem à festa

127


VÊNUS

sigo pela flora teu céu e azul ateadas tochas miosótis no ser setas de bronze crispadas a urze o véu de vênus fincado em mim tua fruta floral de arabesca raiz teu corpo desnudo o bosque de heras onde frestas de sol cortaram teu púbis

Wilmar Silva

sim houve eclipse no ardor da água lépido e lascivo sorvi tua ausência eu hirto e dúctil um potro de fogo 128


TÉTIS

tua fronte coroada de água crivou meus olhos de viajor seguindo a rota das marés alcancei as algas marinhas celestial anjo dos sargaços emergiu do verdor das rochas tecido de úmida constelação sorvi teu suor e teu aroma

Wilmar Silva

tétis outonal do meu sonho a exalar lume em tua tez tétis guarnecida de falenas acalenta meu pranto noturno

129


ÊXODO comemos a fruta que o tempo madurou no ventre da terra devoramos sua casca seu miolo e suas fibras e as sementes úmidas de saliva e sal não vingam na aridez sulcamos seu imo e retemos o sumo viemos de algum lugar perdido na memória: forasteiros campestres estradeiros da morte galgamos o infinito miramos os pássaros e ouvimos gorjeios desfeitas as rédeas os potros sumiram

Wilmar Silva

caminheiros sem rumo iremos a algum lugar matinais ou vespertinos marginais e viperinos fiamos nossos destinos sob o sol e sob a lua 130


CETICISMO

não sei onde pôr minhas dúvidas chorei em vesperal e derreti meu olhar visto os pulsos e exangue guardo relíquias em antiquários os relógios de meu orfanato sem vislumbrá-los tiveram os ponteiros quebrados empobreci de tédio vivo o que deter ante o brilho remanescente da lua

Wilmar Silva

um bicho de fogo renasce de dentro de mim uma montanha com espectro solar e prisma de esfinge música vinda das trevas fere o meu coração

131


CÓLERA

sem dúvida essa fadiga me entardece é mais forte do que o vento o vento que não é da família dos chacais e me procura com uma lente invisível o vento que racha as paredes e atravessa a pintura

Wilmar Silva

o vento que atravessa a pintura e diz que os decibéis das flores que lhe oferto estão em anomalia

132


A COMPOSIÇÃO DA PALAVRA

Wilmar Silva

a derradeira nascente acende a ilha cercada de águas à derradeira vertente os lobos é que varam atrás de alimento e a primípara seta eu é que lanço e vôo

133


e agora nesse escuro de assustar coruja nessa madrugada de amolar machado com a língua feito vara verde treme o corpo da alma quando você fala olhando a janela o quadrúpede cor de terra do lado de dentro perto da porta meio de banda fera armada atrás do metálico aquela tarde em casa quando o norte fez presença crina rabo de cavalo

Wilmar Silva

eu joão eu tenho que ensinar esse cachorro a ser cachorro

134


e depois de bater a laje vem esse temporal e depois desse temporal vem os pés sobre a laje sobre a laje os olhos a verter águas de arco-íris e cristalino sobre a laje as íris as membranas as retinas as imagens os olhos de lince para o lince olhar a laje os estragos da chuva na laje e depois a laje pisada e vista a laje meio a meio e virgem a laje a laje para o cume o cume da laje para o meu pássaro rouxinol sim a casa para a chuva a constelação de sóis e luas e estrelas

Wilmar Silva

a colheita de canários e o plantio das palmas e plantas

135


antes de rodar a roda d’água vem essa chuva vem de longe o rumor o barulho de orvalho na romã essa boca e essa língua que mina em linfa essa furna e por um instante essa boca fechada em seguida o estrondo a cabeça em pânico esse assombro de mula em busca do mulo vem de longe o vexame esse medo essa cólera de irisar em si o rumor nesse pomar

Wilmar Silva

de repente ferido pela boca

136


ARRANJO DE SANHAÇO E GERÂNIOS, DIA 16

Wilmar Silva

eu/ dia-a-dia-dia no exercício de liberdade e vôo, rasante - o meu beijo de sanhaço preparo entre canteiros guarnecidos de gerânios, róseo, cultivo o possível gosto de encontro aos lábios de ceres mas, agora - em pleno meio do cerrado anseio, impávido, penacho eu pavão ramagem de estios, geada ao corpo, eu antes, salto do galho e lasco: sol aceso lume, lépido, é tempo de outono, sóis

137


ARRANJO DE GAIVOTAS E PAMPULHA, DIA 31

Wilmar Silva

eu-menino-do-campo, te faço conviva e digo que a palavra que escrevo é origem, invento gaivotas no sertão ilha é meu corpo de encontro ao teu aqui, longe, após o inverno da tempestade verto o amálgama da pampulha veleiro arco-íris que choram de solidão, eu agora impávido e celeste, anjo de fogo eu-espelho d’água, narciso e orfeu flautas e flores, eu-pássaro cais e flora -

138


1

Wilmar Silva

eu quebrado por você sou estilhaços no lago de púrpura/ lá entre nós e calos, sou esta enxurrada que invade eu/ aquele que vem com faunos de flautas e flechas sou o mesmo wilmar silva de mil diamantes nos olhos e mesmo que haja asas de arribação na mira da boca: o que faço com esta língua na mina de sangue/ vem agora um ouriço com vestigio de godiva, eu/sou este cavalo com escamas nas crinas e cascalho para cavalgar num corpo distante/ mais que esta noite com centelhas de semens que nascem entre meus dedos de sonhos/ eu

139


2

Wilmar Silva

/ eu que venho com um ramalhete de espinhos na carne derramo lâminas e facas nos olhos dos pés, ainda sim/ serro um pássaro/ de asas nos braços coiote eu/ eu hiena nascer de um rio sem margem, piscoso envenenado de tanto mergulhar na terra eu perdido no escuro da madrugada atrás de você um ermo eu: uma ave ferida no ermo eu: apenas um caçador alcança a lontra no dorso sou eu este que vem armado de flechas e dardos/ para uma flecha presa no umbigo a minha língua para um dardo derretido na virilha a boca de beijos

140


SINTA MEU PULSO

Fabrício Marques

Eis que projeto um poema sobre o abismo branco da página em alarme. Ao primeiro descuido e à minha revelia, jaz e volta, germe que adquire vida própria. Com poderes de reger-me, manda que eu vá pela selva selvagem dos textos e dos sentidos. E, antes de ir-me, com amor me olha, e diz, como diria meu pai: fique firme.

141


O MAR

diante das galés e já com sono o velho olha o mar com rugas de marfim com as lembranças removidas pelos garis outras levadas pelas marés indo de paris ao pará o velho amarfanha o que lembra

Fabrício Marques

e o mar se marfa nesta noite gris

142


NERUDA ENCONTRA LORCA

De mim fugiam pássaros às quatro horas da tarde. Pássaros tranquilos, pássaros lentos de mim fugiam, deixando em meu peito, no entanto, suas asas.

Fabrício Marques

Às quatro horas da tarde sem vento.

143


FICANDO TARDE

Estou ficando tarde. E o tempo vai carpindo antes do tempo rugas de cansaço e lucidez. Com ar de melancolia (estou ficando tarde) percorre o rosto um sorriso.

Fabrício Marques

As horas se gastam, amarelam como quando a vida arde - ó albor – na pele, sem aviso.

144


TALHER

Fabrício Marques

foi só brandir o talher em meio às chávenas para o silêncio agitar saudades de ser barulho

145


TAMBOR

tudo principia com um som um estampido que arromba um domingo de chumbo no mundo eco de trombeta fundo sem assombro

FabrĂ­cio Marques

vislumbre de sombra na penumbra por si jå abumbrosa tudo começa tudo sucumbe com um som de tambor ou texto truncado 146


O TEXTO QUE VAI o texto que vai aqui escrito não é meu nenhuma linha jogada ao infinito palavra alguma me pertence desconfie de tudo pode ser que seja disfarce disfarçado de desastre

Fabrício Marques

ou plágio que se despede da sombra e vai na direção contrária 147


MANHÃ

Fabrício Marques

manhã tão magnífica que a moça de olhos de amêndoa ignoraria se surgisse o apocalipse entre as magnólias

148


ENCANTAMENTO PELO SAMBA a poesia está com tudo e não está prosa a poesia não tem pressa não tem prazo não tem glosa a poesia está em ramos está em rosa rima petrosa texto veludo escrita porosa quem por acaso mantém acesa a brasa e vibrando a brisa da história

Fabrício Marques

prima por ser vazada de proeza e glória a poesia está em tudo e não é prosa 149


EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS

lá vem você entre estrondo e gemido chamando à fala mãos que tocam o que poderia ter sido e olhos que dizem

Fabrício Marques

“sou todo ouvidos”.

150


CRUZEIRO 2X1 ATLÉTICO

pensava em minha filha na doce luz da manhã no que a bola bateu na trave perdi a chance do empate já nos descontos a torcida não entende tanta coisa que acontece

Fabrício Marques

no lance do relance de um átimo de segundo

151


NOTURNO

pensando que a vida é um mergulho atravesso a chuva e vou andando andando quase de brincadeira pensando que a vida é um mergulho na chuva e vou, como quem se molha e deixa na calçada a alma umedecida vou de alto a baixo, pelo centro, pela beira no céu às vezes lua nova, às vezes cheia atravesso a chuva e vou andando às vezes duchamp, às vezes padre vieira atravesso a chuva, a alma umedecida passa pelos olhos a vida inteira

e cai diante de mim, osso puro no chão todo vermelho e diz, olho no olho, antes do suspiro: “vai e escreve o que digo, filho; quando você cair (de qualquer maneira) - isto não falha – faça muito barulho” 152

Fabrício Marques

enquanto do oitavo andar de um tédio um homem se joga num pulo suicida


AUTO-RETRATO EMBAÇADO Vinte anos tenho e as feridas expostas em desenho Em carne viva a vida me chama: quando escuto, venho Entre objetos que me acolhem E tudo aquilo que no dia escapa aos olhos em sonho retenho

como o moribundo que se recusa a partir

153

Fabrício Marques

Neste engenho a minha força empenho,


ADMIRÁVEL PÁLPEBRA DO DIA

Admirável pálpebra do dia estranha ao poeta que, insone, esgueira-se sob a fina chuva de melancolia a perseguir palavras como se pérolas incrustadas na pele, no mármore, na pupila e nem percebe a estatuária disposta na praça de cuja proa partem imagens vazias

Fabrício Marques

de modernidades tardias

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AUTORES OS

SOBRE

Eustáquio Gorgone de Oliveira nasceu em Caxambu, a 22 de Abril de 1949. É licenciado em Letras e Pedagogia. Entre os livros publicados, destacam-se: Delirium-tremens (1974), Minas (1983), Fuzis leporinos (1984), Exercícios (1986), Comarca do Rio das Mortes (1990), Tear de Imagens (1990), Girassol Fixo (1995), Passagem na Orfandade (1999); Rubra Casca (2002), Manuscritos de Pouso Alto (2004), Ossos Naïves (2004), A Janela do Verbo Assistir (2006). Actualmente reside em Caxambu. Foi finalista do Prémio Murilo Mendes, de Juiz de Fora, em 2003, e vencedor do mesmo prémio em 2004. Obteve em 2005, o prémio de Incentivo à criação literária da Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, e ganhou, em 2006, o Prémio Cidade Belo Horizonte. Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, a 24 de Agosto de 1955. É formado em Administação de Empresas e Jornalismo. Reside em São Paulo. Publicou: Azul Navalha (1988), As Faces do Rio (1991), Do Silêncio da Pedra (1996), A Carne e o Tempo (1997), Ruminações (1999), Pelo Corpo (em parceria com Ronald Polito, 2002), Mundo Mudo (2003). Júlio Polidoro nasceu em Juiz de Fora, a 29 de Julho de 1959. Trabalha actualmente na área administrativa da Universidade Federal de Juiz de Fora. Reside nessa mesma cidade. Publicou: Treze Poemas Essenciais (1979), Pequenos Assaltos (1990), Orla dos Signos (2001), Outro Sol (poesia reunida, 2004). Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte, a 14 de Setembro de 1960. Actua em diferentes áreas das artes contemporâneas como performer, músico e crítico. Coordenador do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte (FAN, 1995-2006), idealizador e redactor-chefe da revista RODA, é também organizador da Bienal Internacional de Poesia da mesma cidade, onde reside. Publicou: Festim (1992), A Roda do Mundo (em co-autoria com Edimilson de Almeida Pereira, 1996); Quem Faz o Quê? (infanto-juvenil,1999) Trívio (2001), Máquina Zero (2003). Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas, a 01 de Fevereiro de 1963. Vive em Belo Horizonte desde 1981. É professora de Teoria da Literatura na Universidade Federal de Minas Gerais. Poeta e crítica literária, publicou: Dos Haveres do Corpo (poesia, 1985), As Vertigens da Lucidez: Poesia e Crítica em Octavio Paz (ensaio, 1995), A Lição do Fogo (ensaio, 1998); Triz (poesia, 1998); Vôo Transverso (ensaio, 1999), A Memória das Coisas (ensaio, 2004), O Livro de Zenóbia (prosa poética, 2004). Fernando Fábio Fiorese Furtado nasceu em Pirapetinga, a 21 de Março de 1963. Desde 1972 reside em Juiz de Fora, onde é professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal. Publicou, entre outros, os livros de poesia e ensaio: Leia, não é cartomante (poesia, 1982), Exercício de Vertigem & Outros Poemas (1985), Ossário do Mito (poesia, 1990), Trem e Cinema: Buster Keaton on the railroad (ensaio, 1998), Corpo Portátil (poesia reunida, 2002), Dicionário Mínimo (poemas em prosa, 156


157

AUTORES OS

SOBRE

2003), Murilo nas cidades: os horizontes portáteis da modernidade (ensaio, 2003). Edimilson de Almeida Pereira nasceu em Juiz de Fora, a 18 de Julho de 1963. Professor de Literaturas Brasileira e Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de inúmeros livros de poesia, ensaio e literatura infanto-juvenil. Na área de ciências sociais publicou em co-autoria com Núbia M. Gomes Negras Raízes Mineiras: os Arturos (1988) e Flor do Não Esquecimento: cultura popular e processos de transformação (2002). Em poesia editou Dormundo (1985), Livro de Falas (1987); sua obra poética encontrase nos volumes Zeosório Blues (2002), Lugares Ares (2003), Casa da Palavra (2003), As Coisas Arcas (2003). Em literatura infanto-juvenil editou Histórias trazidas por um cavalo marinho (2005), Loas a Surundunga (2006), entre outros. Ganhou inúmeros prémios nacionais na área das ciências sociais, assim como na área da literatura. Iacyr Anderson Freitas nasceu em Patrocínio do Muriaé, a 22 de Setembro de 1963. Formado em Engenharia Civil, reside em Juiz de Fora, onde é funcionário público da Fazenda Estadual. Publicou, entre outros, os livros: Verso e Palavra (1982), O Aprendizado da Figura (1989), Sísifo no Espelho (1990), Primeiro Livro de Chuvas (1991), Heidegger e a origem da obra de arte (ensaio, 1993), Messe (1995), Lázaro (1995), Mirante (1999), Oceano Coligido (antologia poética, 2000), As Perdas Luminosas: uma análise da poesia de Ruy Espinheira Filho (ensaio, 2001), Terra Além Mar (Lisboa, 2005). Sua obra foi recentemente reunida nos volumes: A Soleira e o Século (2002), Quaradouro (2007) e Primeiras Letras (2007). Além disso, publicou o livro de contos Trinca dos Traídos (2004). Obteve inúmeros prémios nacionais e internacionais com a sua obra poética e com o livro de contos. Wilmar Silva nasceu em Rio Paranaíba, a 30 de Abril de 1965. Reside em Belo Horizonte desde 1986. Dramaturgo, actor, performer, publicou, entre outros, os livros: Lágrimas & Orgasmos (1986), Águas Selvagens (1990), Moinho de Flechas (1994), Pardal de Rapina (1999), Arranjos de Pássaros e Flores (2002), Cachaprego (2004). Organizou, em 2005, a antologia O Achamento de Portugal, publicada com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto Camões. É curador do evento As Terças Poéticas, realizado nos Jardins Internos do Palácio das Artes de Belo Horizonte. Fabrício Marques nasceu em Manhuaçu, a 22 de Novembro de 1965. É jornalista e professor de Comunicação na Universidade UniBH, em Belo Horizonte. Foi director do Suplemento Literário de Minas Gerais. Organizou o livro de entrevistas Dez Conversas / Diez charlas (edição bilíngüe português-espanhol, 2004), com dez poetas brasileiros contemporâneos. Publicou os livros: Marquises (poesia, 1992), Samplers (poesia, 2000), Aço em Flor : a poesia de Paulo Leminski (ensaio, 2001), Meu Pequeno Fim (poesia, 2002).


Os autores, a organizadora e a Ardósia, Associação Cultural comprometem-se em não reeditar este livro com as características técnicas e artísticas aqui apresentadas. Desta obra foram impressos quinhentos exemplares, numerados sequencialmente em algarismos árabes. Todos os exemplares estão rubricados pela organizadora Prisca Agustoni. O livro Oiro de Minas foi composto em Garamond, sobre papel Modigrianni Camoscio 320 g para as capas e Modigrianni Neve 95 g para o miolo. Foi utilizado o tipo Goudy Extra Bold na capa. Nesta obra foi mantida a ortografia do Português do Brasil. Impresso no mês de Novembro de dois mil e sete.

Exemplar número:


COLECÇÃO PASÁRGADA Projecto e Edição: OZIAS FILHO Título: OIRO DE MINAS – A NOVA POESIA DAS GERAIS Autores EUSTÁQUIO GORGONE DE OLIVEIRA, DONIZETE GALVÃO, JÚLIO POLIDORO, RICARDO ALEIXO, MARIA ESTHER MACIEL, FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO, EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA, IACYR ANDERSON FREITAS, WILMAR SILVA, FABRÍCIO MARQUES

Selecção e Prefácio PRISCA AGUSTONI Concepção Gráfica: CRISTINA PEREIRA E OZIAS FILHO Criação da Capa e Fotografia: OZIAS FILHO Título da fotografia: “NENHUM LUGAR” Logotipos Ardósia e Pasárgada: MARCOS ORIÁ Tiragem: 500 EXEMPLARES Data de impressão: NOVEMBRO DE 2007 1ª e única edição Impressão e acabamento: GC DESIGN © Ardósia Associação Cultural e Autores

Depósito Legal: ????????????????? ISBN: 978-972-99487-4-9

As receitas obtidas com a venda deste livro revertem para o financiamento de outras propostas literárias da Colecção Pasárgada.


Voo do pássaro para a forma que não existe: a perfeição. Voo do verbo, voo da arte, voo perfeito, voo são. Realidade irreal.

Pedra lapidada que contém a génese, que circula o princípio e circunda o óbvio, pedra que não é pedra, é forma, que forma o todo que vem de si.


O livro Oiro de Minas A nova poesia das Gerais contou com o apoio das seguintes entidades:


OIro de Minas - a nova poesia das Gerais