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ESTATÍSTICA

DIÁRIO POPULAR QUARTA-FEIRA, 2 DE OUTUBRO DE 2013 Fotos Moizés Vasconcellos - DP

Mais cuidado com o trânsito, menos mortos

Apesar de recentemente ter sido alvo de investimentos, avenida Fernando Osório ainda precisa aprender a lidar com grande fluxo de veículos em horários de pico

Tudo indica que o ano deve encerrar com significativa redução do número de mortos no trânsito pelotense; apesar do aumento de investimentos na área, a principal mudança de comportamento deve partir daqueles que se utilizam diariamente do espaço público Osiris Reis

Pelotas. O município encaminha-se ao final do ano comemorando a redução de um dos mais importantes índices referentes à mobilidade urbana: a mortalidade no trânsito. Em 2012 foram 74 vítimas fatais e neste ano, até agosto, somaram-se 33 mortes nas rodovias federais, estaduais e municipais. Mesmo ainda faltando quatro meses a serem contabilizados pelas estatísticas, especialistas e Poder Público esperam que a redução nos índices continue até dezembro. Na reportagem especial de hoje, o jornal Diário Popular foi às ruas e trouxe novamente à tona um tema importante, principalmente às cidades em desenvolvimento. Como vai o trânsito na cidade? O relatório do Departamento Estadual de Trânsito do Estado (Detran/RS) vai além.

De 2007 a 2012, as avenidas Duque de Caxias, Fernando Osório e Adolfo Fetter, além da BR-116 (quilômetro 520 a 529) e BR-392 (quilômetro 60 a 69), estavam na lista de pontos críticos. Nesse mesmo período, somente na Duque, morreram 25 pessoas e na Fernando Osório, 24. Todos esses números chamam à reflexão: Pelotas entra em um momento no qual torna-se obrigatório debater o assunto, principalmente entre aqueles que ainda insistem em beber e dirigir. A secretária de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana, Joseane Almeida, acredita que a redução nos índices de acidentalidade no último ano deve-se, principalmente, a três fatores: uso do radar móvel, realização da Balada Segura e atuação dos agentes de trânsito. O primeiro estava fora das ruas há cerca de três meses por motivos de manutenção, mas estatísticas da pasta estimam redução de cerca de 60% nos acidentes com vítimas nos locais onde o radar atua. “Se a velocidade for baixa, a pessoa tem mais recursos e reflexos para evitar possíveis acidentes”, avalia a gestora. Implantada no início de agosto, a Operação Balada Segura, viabilizada entre os executivos municipal e estadual, ainda enfrenta dificuldades causadas pelos condutores, que organizam-se através das redes sociais na tentativa de burlar a barreira dos agentes de trânsito. “Quando avisam umas às outras, as pessoas são favoráveis ao ato

de beber e dirigir. É preciso que haja uma reflexão: é isso que quero para a minha cidade?”, questiona a secretária. A atuação do Radar Móvel deve ser intensificada com a chegada dos meses mais quentes na avenida Adolfo Fetter, quando aumenta o fluxo em direção à praia do Laranjal e às baladas instaladas na região. Com relação à avenida Fernando Osório, a tendência é a diminuição dos índices após a instalação dos elevados (espécie de quebramolas que produz mais impacto e obriga o condutor a reduzir a velocidade).

Incentivo. Atualmente trabalham nas ruas de Pelotas cerca de 40 agentes de trânsito, mas a expectativa é a divulgação em breve do edital para abertura de mais 60 vagas. O superintendente do Sistema Viário, Flávio Alam, acredita que a valorização da categoria é imprescindível ao trabalho com motivação. Também foi estabelecido que as horas extras serão pagas com 100% de acréscimo nos finais de semana e o fator risco de vidaseráfixadoapartirdejaneiro,emR$125,00. “É preciso demonstrar atenção com uma corporação muito mal vista por todos”, avalia.

Encontro entre prolongamento da Bento Gonçalves e Duque de Caxias é considerado como um dos mais críticos da região


DIÁRIO POPULAR

É preciso dar o exemplo a todos Atuando há 17 anos na prevenção dos acidentes de trânsito, a Fundação Thiago de Moraes Gonzaga tem forte ação em todo o Estado. O Programa Vida Urgente funciona na região de Pelotas, principalmente durante o verão, quando desenvolve campanhas de conscientização em festas e na praia do Laranjal. A presidente, Diza Gonzaga, mostra-se otimista com os números na cidade, mas deixa claro que o trabalho não pode parar e deve envolver cada vez mais todos os setores da sociedade. Na avaliação da ativista, engenharia, esforço legal e educação devem ser trabalhados em conjunto. No entanto, é com a educação que a mudança de postura pode ser vislumbrada. “Quando a fiscalização diminui e as pessoas não estão educadas, o retrocesso é certo. A educação vai garantir um futuro menos violento no país”, projeta Diza, que perdeu um filho em um acidente de trânsito em 1996.

Ponto de vista. O professor do curso de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Alexandre Pereira Maciel, acredita que ainda há muito a ser conquistado e a ampliação do sistema viário, sozinha, não deve resolver todos os problemas do trânsito. Não existe uma medida isolada e milagrosa. São várias ações que precisam acontecer em conjunto. Precisamos melhorar a valorização dos meios alternativos de transporte, sugere o especialista. Maciel deixa claro: o Poder Público não irá solucionar todos os problemas; são necessárias fortes mudanças na conduta do cidadão frente à utilização do espaço coletivo.

Pontos críticos da cidade O relatório mostrado pelo Detran/RS exemplifica algo que todo o pelotense, principalmente os condutores, sentem na prática. De 2007 até o ano passado, os pontos críticos na cidade dividem-se entre rodovias federais e avenidas. As campeãs de mor-

tes dentro da cidade - as avenidas Duque de Caxias, Fernando Osório e Adolfo Fetter são unidas pela mesma característica: os excessos de velocidade dos condutores. Na Adolfo Fetter, principal meio de acesso à praia do Laranjal, basta uma conversa com os moradores e trabalhadores das redondezas para ter acesso às inúmeras histórias de quem passa a maior parte do dia no local. O vendedor de abacaxis, Luís Carlos Corrêa, 58, atende a clientela há cerca de cinco anos nas proximidades do entroncamento com a rua General José Artigas. Durante esses anos presenciou diferentes episódios envolvendo os condutores. “Ninguém respeita nada. Há carros que passam voando por aqui, com, no mínimo, 150 quilômetros por hora”, lamenta, ao fazer a constatação. Sua sugestão é a implantação de uma sinaleira na esquina, além de elevados, para contribuir com a redução da velocidade. Na Fernando Osório, nas proximidades da avenida Salgado Filho, o trânsito intensifica-se durante os horários de maior fluxo - das 11h30min às 13h e das 18h às 19h e transitar pela região torna-se tarefa difícil. A mistura entre veículos, ônibus, motocicletas, bicicletas, charretes e pedestres obriga todos a redobrarem as atenções, o que na prática, pode não acontecer. “Todo o trânsito está caótico. A cidade não está projetada para esse crescimento absurdo de veículos”, analisa o gerente de uma abastecedora, João de Paula, de 49 anos.

Até o ano passado, avenida Adolfo Fetter foi um dos locais que mais registraram mortes Arte - Paula Moreira - DP

Autos de infração em 2013 Os números são referentes ao trabalho realizado pelos agentes de trânsito na cidade; o mês de setembro foi contabilizado até o dia 11

Profissão. O mototaxista Roberto Silva

Lima, 31, encara o trânsito como profissão há mais de dez anos e carrega na memória as marcas de um acidente que lhe resultou em quase 30 dias em coma. Mesmo assim, não abandonou a profissão. “A prefeitura precisa alargar mais as avenidas e fazer um corredor de ônibus”, sugere. Em sua avaliação, os pontos mais críticos são dois: a esquina da Duque com o prolongamento da avenida Bento Gonçalves e também com a rua Frontino Vieira. “O trânsito é um estresse. Conseguimos ganhar um dinheiro bom, mas é uma responsabilidade muito grande. Conosco, com os passageiros e também com os outros condutores”, avalia.

Kamilla Alves - Especial - DP

Ferramentas de combate ○

Acidentalidade fatal ○

Confira abaixo a comparação entre os dois últimos relatórios do Detran, divulgados nos anos de 2012 e 2013

Balada Segura (iniciada em agosto) 16 ações (entre educativas e fiscalizatórias) Média de quatro casos de embriaguez ao volante por noite

Frota - 172.593

Acidentes com morte

veículos

Cinco etilômetros estão à disposição da prefeitura

Parceria

Não existe uma medida isolada e milagrosa. São ações que precisam acontecer em conjunto.”

O trabalho também conta com a parceria do Grupo de Trânsito (GTran) do 4° Batalhão de Polícia Militar, em atuação desde o ano passado. Ao total, são oito policiais, divididos em atividades durante os três turnos. O trabalho é realizado com barreiras e fiscalização na cidade e também em parceria com os agentes de trânsito na Operação Balada Segura.

Alexandre Pereira Maciel, professor

Fontes: Secretaria de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana e Detran/RS ○

Vítimas fatais

2012 2013

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Mais cuidado com o trânsito, menos mortos