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O INFANTE Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou­te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu­se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou­te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu­se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir­se Portugal! FERNANDO PESSOA BRINQUEDO Foi um sonho que tive: Era uma grande estrela de papel, Um cordel E um menino de bibe. O menino tinha lançado a estrela Com ar de quem semeia uma ilusão; E a estrela ía subindo, azul e amarela, Presa pelo cordel à sua mão. Mas tão alto subiu Que deixou de ser estrela de papel, E o menino ao vê­ la assim, sorriu E cortou­ lhe o cordel. MIGUEL TORGA

Há mulheres que trazem o mar nos olhos Não pela cor Mas pela vastidão da alma E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos

Ficam para além do tempo Como se a maré nunca as levasse Da praia onde foram felizes Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens... Há mulheres que são maré em noites de tardes e calma SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN OS LIVROS Apetece chamar­lhes irmãos, tê­los ao colo, afagá­los com as mãos, abri­los de par em par, ver o Pinóquio a rir e o D. Quixote a sonhar, e a Alice do outro lado do espelho a inventar um mundo de assombros que dá gosto visitar. Apetece chamar­lhes irmãos e deixar brilhar os olhos nas páginas das suas mãos. JOSÉ JORGE LETRIA


VERDES SÃO OS CAMPOS Verdes são os campos, AS PALAVRAS São como cristal,

as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda. Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras? EUGÉNIO DE ANDRADE

De cor de limão: Assim são os olhos Do meu coração.

Campo, que te estendes Com verdura bela; Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes Que traz o Verão, E eu das lembranças Do meu coração. Gados que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendereis; Isso que comeis Não são ervas, não: São graças dos olhos Do meu coração. LUÍS DE CAMÕES AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é? Ai, flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado! Ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pos comigo! Ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amado aquel que mentiu do que mi ha jurado! Ai Deus, e u é?

­Vós me preguntades polo voss'amigo, e eu ben vos digo que é san'e vivo. Ai Deus, e u é? Vós me preguntades polo voss'amado, e eu ben vos digo que é viv'e sano. Ai Deus, e u é? E eu ben vos digo que é san'e vivo e seerá vosc'ant'o prazo saído. Ai Deus, e u é? E eu ben vos digo que é viv'e sano e seerá vosc'ant'o prazo passado. Ai Deus, e u é? DON DINÍS A UM LIVRO No silêncio de cinzas do meu Ser Agita­se uma sombra de cipreste, Sombra roubada ao livro que ando a ler, A esse livro de mágoas que me deste. Estranho livro aquele que escreveste, Artista da saudade e do sofrer! Estranho livro aquele em que puseste Tudo o que eu sinto, sem poder dizer! Leio­o, e folheio, assim, toda a minh’alma! O livro que me deste é meu, e salma As orações que choro e rio e canto! ... Poeta igual a mim, ai que me dera Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera Velar a minha Dor desse teu manto! ... FLORBELA ESPANCA


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