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oscar kellner neto

os amarradores de patas - estória -

2.ª edição

Delfinópolis-MG 2011


oscar kellner neto

Nota 1: Infelizmente não tenho o autor deste lindo trabalho para lhe dar o devido crédito. Nota 2: As ilustrações introduzidas nesta edição, são de minha autoria, variações em torno de um desenho (figura 11) apropriado de um trabalho didático sobre contenção de bovinos, “Técnicas para conter e derrubar bovinos”, constante às fls. 51/58 da Revista CFMV n. º 50, ano 16/2010. Porém, a assinatura do excelente desenhista de cuja figura me apropriei é ilegível e não consta quem seja esse autor em lugar algum do artigo ali publicado. Ei-la:

Se alguém o identificar, ficarei agradecido em ser avisado para poder lhe dar nominalmente o devido crédito.

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Abertura de caminhos

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O caminho fora aberto pelos fazendeiros da região a poder de braço escravo, do lapuz em esforço, enxadões, picaretas, machados, labancas, marretas e cunhas aplicáveis à empreitada. 2Parelhas de bois gigantes removiam do traçado os troncos, serras braçais e grupiões desdobrando as toras... 3

Para atender a todos os que custeavam a obra, a estradinha apta ao trânsito de carros-de-boi, palafréns, manadas, cavaleiros e transeuntes, estendia-se por uma sucessão de curvas, descendo e subindo morros, vencendo serras e movongos, ladeando grotões, cruzando regatos e córregos, evitando brejos, muçunungas e atoleiros, margeando perambeiras e borocotós, a fim de passar diante da casa-sede de cada fazenda que houvesse na região dos dois barrancos do Rio Grosso. 4

A estrada vicinal que demandava a vila de Santa Rita, a algumas léguas dali, era interrompida pelo caudal. 5

O ponto do Amarratórioa de Patas, no lado de Coivaras, ficava na Fazenda Pau D’alho, em um

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Vide Capítulo 3, versículos 7, 8, 11-18

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curralzinho de arame farpante atrás de uma capoeira fechada, sob frondoso jatobá... 6

Havia muitos anos que certos navegantes vindos de Longe, pai e filho, depois de muito lutar com seu barco-de-vogas devido à falta de uma ponte na grande corrente líquida, resolveram implantar ali, no local conhecido como Porto da Joana, aquele sistema de travessia por meio de uma balsa de varejão. 7

Os balseiros tinham se apossado de terras devolutas ribeirinhas nas duas bandas da corrente e habitavam numa cabana dotada de pouca mobília na margem de Coivaras. 8Desviaram do ribeiro dois regos d’água para serventia do rancho e nos alfobres formaram sua horta-de-couve. 9Decruaram o varjão para o plantio de suas rocinhas anuais, e formaram pomar. 10Criavam porcos e galinhas e bebiam o leite duma curraleirinha chifrosa que trouxeram na vinda. 11

Para seu ofício, usavam uma espécie de embarcação rude, de pequeno calado, fundo chato e costado baixo, formato quadrangular, sem propulsão própria, construída de madeira nobre, tábuas largas e congrossas sobre chassi de chapas metálicas: nela transportavam pessoas, animais e cargas de um lado ao outro do grande regato. 12

Ela tinha proa lançada, bordos largos e salientes e uma cobertura de grossos pranchões. 13 Eles usavam grandes varas para desatracá-la e

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impulsioná-la, no que eram ajudados pela correnteza do local. 14Às vezes ela empraiava tocada pelo vento e exigia grão-esforço e a empunhadura de reforçados caibros para se aviar. 15

Era aparelhada com o ror de utensílios e ferramentas, consendo: as redes de pesca, âncoras, fateixas, balroas, poitas, bimbarras, lamparinas e alavancas, cordagem e amarréis, o alforje com suas mudas de roupa e trastes, e seus arpões, arpéus, farpões, varejões, espeques, gaivões, os panos de leitos balouçantes com suas argolas e ganchos, o querosene, o guincho e seu guindalete, e aquela meada de pernas de fios de aço enrolados em feixes, os tais cabos, seja, a talingadura, enfim: toda a parafernália navegatória. 16Havia ainda ali um baú onde convivessem adaga, machado, facão e garrucha, também um pé de espora de si achado entre os perdidos e uma ou outra catrabucha. 17Num canto, a azagaia, a mor de onças. 18Inclua-se, por final, entre os trens, a exata bagagem de cozinha, víveres, panelas, talheres, moringas e bilhas. 19

Vira-e-mexe, pojantes, os riovagantes de cá pra lá levassem os carros com seus bois, muitos vários, juntas e juntas, e os carreiros com seus meninos candeeiros. 20

Certo que para maior segurança tiveram que adquirir uma coleção de catracas, roldanas e manivelas, as barricas de graxa, e todo o material de instalação que montaram em um dos lados da chata.

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Por dentro deste maquinismo de tração corria um grosso cabo de aço que fora fixado em troncos reforçados, de bom cerne, fincados em ambas as opostas ribas, naquele local. 22Isso também lhes facilitava o controle e a locomoção da chata enquanto cruzava o espesso corpo líquido... 23

Desde então, explorando com exclusividade tal serviço de pública utilidade, cobravam certa tarifa para levar o pessoal com seus pertences, tralhas e animália de uma margem à outra do curso fluvial. 24

Enquanto as enchentes não vinham, deixando-os inoperantes, o trabalho estafava. 25Nas cheias, cessava a faina à espera da baixa. 26

O flúmen ali, apesar de estreito, não propiciava a travessia a nado, o que implicava risco de vida ou perda de gado.

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Os libérrimos cativos

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Na parte alta de cada barranca do flux d’água os navegadores construíram com pranchas de peroba fixadas em esteios de aroeira um resistente curral com porteira de paus roliços que dava na boca de uma seringa com forma de funil donde saia o brete, um corredor curto da largura de uma rês adulta. 2Por ali se fazia o bovídeo embarque na balça, onde uma robusta arribana de tábuas de tamboril continha os semoventes; os passageiros e as mercadorias leves iam sobre o pequeno espardeque. 3

O capital aplicado no empreendimento viera das inúmeras travessias feitas com o canoão que tiveram antes, transportando indivíduos e seus embrulhos, trouxas e malotões... 4Principalmente passaram de lá pra cá os inúmeros negros alforriados, migrantes de longínquas lavouras e no geral hábeis na faiscância, em busca do Quilombo das Almas no alto da Serra das Sete Voltas, lados do Quenta-Sol, quiçá p’las bandas do exaurífico Desemboque, no Sertão da Farinha Podre, região do atraente mocambo. 5

Os descativos, agrolavrantes e faiscadores de remotas lavras, cabindas, bornus e bantos, gratos e generosos, no mais das vezes lhes pagassem com o

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fruto da bateia e não regateavam na entrega das douradas pepitas, escassilho do produto do garimpo, de legal quilate, libertos frutos de seus inocentes sucessivos furtos no suadouro das grupiaras, antes da Áurea. 6

Cada barcada transportava em média 21 cabeças de gado erado, mais os animais de sela e a singradura durava às vezes uma hora de luta ferrenha dos tripulantes para vencer a massa aquática. 7

O navegador pai, analfabeto, mas na época ainda sacudido, tinha o vezo de contar a animália traçando a lápis por meio de risquinhos verticais em uma folha de caderno ensebado o número de patas que estavam contidas na embarcação. 8Depois riscava, com um traço na horizontal, grupos de quatro pauzinhos, obtendo assim o número exato de animais que deviam pagar pedágio. 9

Como todo hábito, no começo causara estranheza, o homem preferia contar patas a contar cabeças, diziam... 10Mas, depois o fato caiu na rotina e ninguém mais botava reparo. 11Nem os protestos do filho que o ajudava, nem suas repetidas tentativas de alterar sua forma de contagem surgiram efeito... 12 Tudo continuou como ora, anos afora, nos fluxos de ida e volta. 13

Quando embarcava fêmeas de leite, primeiro entravam as mães e depois as crias, para que não se embaraçasse a contagem dos membros.

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A origem dos Amarratórios

Já os Amarratóriosb surgiram quando o velho, para pagar dívida de jogo do filho em casa de zoinas, pelo que o afastou do negócio, perdeu grande parte dos bens amealhados em anos de trabalho duro.

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Uma vez sozinho, teve que investir o resto de suas economias na compra e fixação, no outro lado da barca, de um maquinismo à moda de diferencial automotivo, com seus eixos, satélites, coroas, planetários e cruzetas adaptados para a redução do humano esforço por meio de moitões, poleames, estropos, manivelas e tirantes, mais as catracas e roldanas por onde era tracionado o cordame de aço... 3

Tudo para aumentar a sua segurança e facilitar seu controle e impulsão durante a travessia. 4 Os braços agora haviam minguado, proliferando os calos... 5

Com seus varões e cabedais, resseguro, o manobrista da maromba conduzia ao seu destino bestas, mercadorias e gente.

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Vide Capítulo 3, versículos 7, 8, 11-18

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Semi-cego (seus olhos aos poucos iam sendo tragados por cataratas), já alquebrado, viúvo, meio surdo, o solitário riajor começou a cobrar um valor considerado absurdo pela transportação de cargas, bípedes e quadrúpedes em sua balsa. 7

O Amarratório era um local distante uma quarta de légua do Rio, onde se praticava às esconsas uma forma de enganar o riogeiro no cômputo das patas. Havia um na banda de Coivaras e outro num piquete ensombrado de pindaíbas da Fazenda Santa Fé, num canto próximo do caminho, já no barranco de Santa Rita. 8

O ludíbrio consistia em amarrar junto ao peito da rês uma de suas patas, geralmente uma das mãos, por meio de cordas trançadas que passavam 9 Manquitóis, os animais iam pelos mucubus. caminhando com esforço até a abegoaria na beira do Riugrosso para o embarque, precedidos pelos aboios dos vaqueiros. 10

A posição incômoda da surrupeia trazia grande padecer ao armento, quando não torcidos membros, desarticuladas juntas. 11

Tangidas para dentro da nau, o embarcadiço contava suas patas no modo e forma de praxe. 12Paga a barcagem a viagem era realizada. 13

Com o embuste, por cada quatro cabeças o fluvinheiro recebia o pedágio de apenas três, e assim,

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nos múltiplos de quatro, sucessivamente, até o limite de 21 reses pagantes na contagem do transportador. 14 Com a carga máxima, na realidade levavam 28 tapeando o Velho-do-Rio – assim o chamavam - em sete sem pagamento de frete. 15E a grande jangada começou a gemer no transporte em razão do peso excessivo dos bovinos sonegados... 16Cínicos, culpavam-lhes a gordura pelo sobrepeso suportado. 17

Depois de pojado no cairel oposto, assim adiante, depois de uma curva do caminho e fora das vistas de quem estivesse no porto, liberavam suas patas das redes de cordas e seguiam viagem, rebanho mancando geral... 18

Como o comandante nunca mais quis saber do filho expulso, e não ouvia opiniões ou conselhos alheios, por anos funcionou o embuste, acumulandose o enorme prejuízo de 25% em cada boiada atravessada.

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O formidável cortejo

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Mas não ficou nisso... 2Com o tempo, descobriram uma forma diferente de amarrilho nos Amarratórios, pelo que os boiunos a duras penas e a poder de severo castigo, foram treinados para andar apenas nas duas patas traseiras...

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Era imponente o cortejo daqueles seres neobípedes caminhando semieretos para o embarque... 4As fêmeas gingavam ao caminhar devido ao peso da ubraria chacoalhando. 5

Pensando bem, não eram movimentos naturais. Era um andar dolorido de ossos deslocados, ligamentos partidos e músculos febris... 7Daí existindo em cada cândido olhar bovino, um espanto e uma lágrima perenes: viraram miados os mugidos da boizama possuída de miálgico assombro. 6

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E dava que maltratassem, mortificavam tanto extouros, marruares castrados, - taurinos e indicus - como os 9 Apuavam, supliciavam, novilhos de engorda... bestializavam e arpavam as inocentes criaturas. 10

O ardil elevava as perdas do velhomen para 50% em cada travessia assim realizada, inflacionando também o sobrepeso imposto ao barco.

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A dolorosa saltitância

A amarração de patas continuou... 2Em seis meses o gado estava condicionado para caminhar saltando em apenas uma pata traseira, como bois ou vacas-sacis...

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Muitos ossos se quebravam, rupturas de tendões eram frequentes. 4Fraturas expostas exigiam um ou outro sacrifício... 5Mugidos de lamento, desespero e sofrimento povoaram as noites de Coivaras naquela ocasião. 6Ninguém imagina até onde vai a brutalidade dos reis do gado nem onde finda a resistência dos irracionais à tortura... 7

O ruído ensurdecedor das patas socando o convés no momento do embarque evocava trovões em tempestade, ou o reboar de canhões nos campos de batalha. 8Logo, a boiama arriava suxa, brucutu! tombando no estrado, extenuada pelo martírio que lhe impunham, sendo colocada de pé à custa de pontas de ferrões. 9Ao tanto destroncadas, deitassem sem apelo permanecendo inermes, abnóxias e sangrantes no decúbito forçado do delíquio. 10

O bôer catrumano acusava peso desproporcional ao número apurado... 11O lavagante não ouvia direito o bramido nem entendia os gemidos vindos do chassi da chata. 14


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A total amarração

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Com o tempo, amarraram as patas dianteiras cruzadas sobre o peito da rês. 2As pernas eram peadas longitudinalmente, esticadas uma em cada flanco do animal, flexuras em tormento. 3Por meio dos aguilhões das varas-de-ferrão, das tuzinas condicionadoras, de coisa feita e por sugestão hipnótica, amestraram-nas a se quedarem contorcidas, boiantes no ar, com as quatro patas amarradas, meante a câimbras e desmaios, assim antigravitacionais, posto que bem nutridas, redondas, nédias.

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No início desse derradeiro engenho, devido ao despreparo, chegaram a perder - o que não lhes serviu de lição! - dois garrotes de dezoito arrobas que se evolaram, vogantes do éter, sumindo pigmentais no firmamentoc. 5

Logo conseguiram controlar o 6 ascensorismo. Cingiam pelas ancas as reses com cangalhas onde, depois da amarração, colocavam certas pedras imantadas. 7Graças a isso, elas se mantinham pairando no ar a sessenta centímetros do solo, contorcionistas e sobreaflitas. c

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Nota: neste versículo o A. tem como intertexto o A.T., 1Rs 18, 23


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Após o preparo, os bicornes eram trazidos do Amarratório para a travessia atados uns aos outros, encabrestados, leves, planantes, dirigíveis, tufados, conduzidos pelos ajudantes dos boiadeiros como se fossem assustadas miniaturas de zepelins. 9

Sem este expediente, os buzarates iriam pelos ares como esses balões recheados de gás que as crianças perdem nos parques de diversão. 10

Nos locais de amarração ou com elas já a bordo, os homens se aproveitavam da imobilidade forçada dessas como que bonecas infladas seviciando-as em sádica zoofilia, causa de geral balanite... 11

Segundo consta, por falta de alabardas e enxergas as arreatas feriam o lombo dos tetrápodes, causando-lhe chagas, contusões e pisaduras, donde lhes curassem os abscessos a poder de pomadas e cauterizações.

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O declínio do navegante

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Fésteis na rapinagem, agora os dissolutos, em conluio na baldroca, lesavam completamente o grandevo riajante, pagando apenas pela travessia das cavalgaduras, tendo-o por patau, na intenção de arruiná-lo... 13

Com isso, a embarcação já não acusava peso nem mostrava presença vacum... 14O balsejante abmouco não ouvia os bonfos nem os muns. 15 Transolhava lusco, desenxergando patas pra contar no cercado do barco. 16Apenas sentia um certo cheiro de estrume fresco, sem contudo entender-lhe a origem. 17

Estranhou alguma vez o acúmulo de esterco no piso que limpava ocasionalmente. 18

Uma vez embarcadas e depois da tentativa inútil de contagem do ancião, por segurança algumas das reses eram atadas pelos cabrestos às argolas parafusadas no piso do convés, enquanto as outras eram fortemente amarradas com correntes aos corrimões e parapeitos integrantes da estrutura de ferro da barca. 19

Enquanto isso o estábulo boiante foi se acostumando ao sub-peso...

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O renascente amado com preferência

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O idoso navegatário, mãos calosas, surro por lambuzado em graxas, contudo sem renda, não fazia pra se manter. 2Em pouco, era uma sombra, cadavérico, chupado, caxexa: um definhado dono de flictenas sangrantes. Já rebaixado a grumete, descarnava-se famelgamente em trapos. 3

Entrementes, navalha e espelho...

embarbecia,

desocupando

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Seu ranchinho maldotado, com o descuido tornou-se uma tapera e em pouco desabava. 5Daí, o relento o acolheu e ele se amparava da inclemência sob uma lapad beira-rio, onde no inverno tirava lecheguana, sonhando-se tiritante quíchua em peruanas cordilheiras. 6 Ascetizava? 7

Noutros tempos, socorria-se da friagem com uma boa cachaça que lhe traziam, produzida nos alambiques dum renomado engenho na região da Cangalheira. 8

Do abrigo à entrada, mantida a fogueira acesa no escuro breu a espanto dos rastejantes malinos.

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Nota: Aqui o A. tem como intertexto o A.T., 1Rs 19,9a.

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Além, riscando luminância dos noctiluzes.

o

negrume,

a

fraca

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Ali perto, marginais e noctívagos, pelejassem nas sombras pelo de-comer a ariranha, a lontra, o mão-pelada e o graxaim. 11

Acolá, o regougo dos micurês buscando ninhos e filhotes... 12

Longe, esturros e tossidos jaguarunos.

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Nas altazoras todos os pardos são gatos e no céu a Boieira em brilhância reina... 14

Prevenido, nas cercanias cultivasse seus Bois-gordos, o dito volácio, planta de milagreiras raízes de cujo cozimento se extrai um salvatério de picada de cobras, mantendo no limpo os canteiros de suas tantas outras ervas curativas e aromáticas. 15

Nas noites suaves do verão, deitava-se de costas sobre moitas pra espiar o céu. 16O favônio então o acariciava, refrescando sua pele endurecida pelo sol... 17Momentos amenos... 18

A brisa fagueira lhe trazia descanso e agradável sonolência... 19Eram momentos a menos de sofrimento, penúria e angústia...

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Até que um dia, numa alvorada, estando de fome e folga, sentou-se numa pedra defronte a um remanso, perto de uma nascentezinha - mina mínima, um estilicídio - onde saciava a sede, e dali ficou banzando, observando a enseada tranquila da caudalosa corrente, ocado bucho. 21Depois, estava olhando num canto da pocinha do olho-d’água ua mãezinha anura cuidando de seus girinos e foi quando alguns pássaros estranhos, negros e corvilíneos, trouxeram-lhe pão. 22Ali estando novamente ao crepúsculo, trouxeram-lhe carne. 23Isso repetiu-se toda manhã e toda tarde, sempre que ali esteve e enquanto a fonte não secoue. 24

Conquanto, navegante.

começou

a

desmorrer

o

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Depois, deu-se que encontrou na praia da margem oposta uma panela com um pouco de farinha e logo adiante uma garrafa com um resto de azeite de oliva. 26Relutou em se alimentar daquilo. 27Mas então se lembrou que a matula devia ter sido esquecida pelos ciganos que haviam acampado nas imediações, antes de transportá-los duas manhãs atrás para Coivaras, levando uma criança enferma que desvivente em busca de recurso.f e

Nota: Nos versículos 21 e 22 deste Capítulo, o A. tem como intertexto o A.T., 1Rs 17, 4 e 6 f Nota: A partir do versículo 25, até o versículo 31 deste Capítulo, o A. tem como intertexto o A.T., 1Rs 17, 7-24

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Eles disseram ter vindo de Sapaterag, lugar de que ele nunca tinha ouvido falar. 29Cresse na gitanaria, em sua alegada miséria pedindo desconto na passagem? 30Pois levou-os, que litorâneos vindos de portuária urbe em que se fabricava o vidro, disseram mais. 31

Daí uns dias quando os mascates voltaram, a mãe da criança, uma viúva, lhe disse: “Veja gajão! Meu filho vive!” 32E apontava o pegulho sadio, que já corria sareleptoh, brincando com outras crianças zíngaras. 33

Uma coisa é certa: apesar do coser diário no fogãozinho de pedras, a farinha da panela nunca se acabou e a vasilha de azeite jamais se esvaziou, enquanto não veio o sossego sobre o semblante daquelas águas. 34

Nesses dias, advindo-lhe sonos, êxtases e transes, donde o encontrassem perâmbulo pela ourela, no maior palor, ora murmurando estranhos projetos, preâmbulos de planos de encontrar erva para alimentar burros e cavalos abrigados em cavernas e grutasi, ora tresloucando palmas e sapateando no ritmo enlevado de uma dança andaluza vinda de guitarras flamencas que só ele ouvia... 35Dada a mortificação, o

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Anagrama de Sarepta acrescido de um “a” eufônico. Anagrama de Sarepta com o “a” final tornado em “o”, acrescido da sílaba mesoclítica “le”, formando uma variante de “serelepe”. i Nota: neste versículo o A. tem como intertexto o A.T., 1Rs 18,5 h

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fomentassem com unguento, reconduzindo-o à razão, resgatado do delírio. 36

Nas noites de lua nova abastecia sua despensa, enquanto se entretinha pescando de promombó: apreciasse sobremaneira os peixes pulando pra dentro da canoa, atraídos pelo facho de luz, clarão do lume ali aceso sobre folhas de zinco... 37

Ornando as orlas as sempre embaúvas com suas inquilinas correições nas folhas embaladas em doce brisa. 38Formiguinha caindo n’água, peixinhos papavam. 39 E atrás deles vinham os primos mais velhos. 40

Debruçados sobre a flor-d’água, os galhos do ingazeiro lançam à deriva bagas recheadas de um quase algodão doce. 41Os dourados afloram para a colheita. 42

Atraindo os pacus dentimagna, haviam os crocantes coquinhos da macaúba, sempre rolantes pasto afora e água adentro, desafiando robustas mandíbulas para fragmentar-se. 43

Às rumas, ali no negror da via aquática habitantes outros profundezavam: jaús e bagrões lambepedras... 44Com isca certa, iam aos anzóis duríssimos, donde viessem brigantes e chorões, fisgados com irreversão, na enverga das longas varas supridas em linhas de estrangeira resistência. 45

Ou então de manhã aflorassem cá e lá nos tantos ganchos da longa linha do espinhel deixado na espera...

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O deslize dos capatazes

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Em certa manhã, ali chegou a maioria dos famanazes boiadeiros do arraial e seus agregados, que somavam cinquenta e um homensj, com seus cavalos e muares ajaezados, enchendo o coibente boiável com a manada de ruminantes imponderáveis. 2A comitiva com seus cães ia para um rodeio no arraial vizinho onde tinha montaria de zainos chucros e touros descomunais. 3

Logo após desatracar do embarcadouro, o balseiro já em saúde recuperado, dono de nova força muscular e entrado em febras notou banzado que alguma coisa atrapalhava o navegar de sua chalana. 4

Alguma coisa complicava o seguir viagem para a outra orla. 5

Para ele, inexplicável a dificuldade da barcaça fazer-se ao largo... 6Não entendia a inutilidade de seus esforços em colocá-la em navegação, mesmo ajudado a contragosto pela jagunçada presente. 7Arre que não soubesse ainda

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Nota: Aqui o A. tem como intertexto o A.T., 2Rs 1, 9-10


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totalmente de si e estivesse sua cachola em estado de giração? 8

Sua tarefa acaso a cabo não seria levada?

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10 Desvende-se. Por desídia dos atabalhoados peões, empolgados com a viagem e ciosos com os enfeites de suas montarias, ataviadas com xairéis e sobreancas de vário colorido, macios enxergões e fofos pelegos arruivados de ovinas peles lanosas, haviam instalado mal as cangalhetas e elas se soltaram do dorso das alimárias logo após o desatraque, devido à atrítica superlotação no quadrilátero flutuável.

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Houve a intensa azáfama na busca de correção para a nova anarquia. 12Mas revelou-se inútil o esforço: livres da incômoda arreata, assim desjungidas do peso que mantinha seu equilíbrio gravitacional nos conformes, elas entraram em levitação e não houve força humana que as trouxesse de volta ao chão.

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Presos à embarcação, aqueles como que casulos flutuantes, com aprumados rabos helicopteralmente rabanando cerdas na horizontal, forçavam uma decolagem vertical, já soerguidos aos ares, definitivamente encantados por incoercível e escura magia e presas de irresistível magnetismo sideral...

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Alguns boiotes e novilhas de inda macia pele incharam extremamente. 15

Uma ou outra re(s)voante não conseguiu evitar a vasca inflatória e explodiu suavemente como bolha de sabão. 16Ao redor de suas cabeças algemadas ao assoalho banhado em sangue, restasse espalhado o ror de destroços: membros em 30


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desquartejo, bofe, tripas, bucho, fressura, cascos, couro e carne dilacerados... 17

Foi o Susto e veio o Pasmo: os calafanges do alfoz coivarense quedaram-se espavoridos em at么nito aniquilamento...

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Remissão e prece

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Vagas inquietas sacudiam vigorosamente o barco, retendo-o pela pressão do vácuo, - esforço de ninfas segurando-o por baixo? -, o que era facilitado por seu mínimo calado d’água, devido à ausência de quilha e à pouca distância vertical entre a parte inferior e chata do casco e a sua linha de flutuação. 2

Os elementos da natureza mostravam-se inquietos, insensatos, perplexos, como se navegando estivessem... 3

Ecoava pelo ar uma pocema, um como hosana pagão à catástrofe iminente, formado pelos gritos aflitos de homens vociferando blasfêmias, pelo ruído nervoso dos passos miúdos das mulas desatinadas sapateando no tablado, pelo nitrido abufado dos bucéfalos em pânico e pelos berros medrosos das reses volantes, hirtos pescoços tracionando pelos cabrestos o medonho peso... (4Ah! Os cavalos... O riorujo apreciava transportá-los de tardinha... 5Como que hipnotizado, fixava aquela visão maravilhosa de suas silhuetas suadas contra os últimos raios do sol, que os

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tornavam como que incandescentes, lembrando-lhe turbilhões de fogo...)k 6

Enfim, com esforço vacilante, a grande plataforma navegável fez-se ao largo, presa aos cabos de travessia que lhe balizavam a trajetória. 7

O filho do rionheiro chegava ao local nessa hora. Não pôde embarcar, mas dirigiu ao pai um olhar de súplica, obtendo dele um sinal de perdão. 8

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Nota: Aqui o A. tem como intertexto o A.T., 2Rs 2, 10-11.


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Ensaio de voo

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Mal se afastara da borda, a barca-açu com o seu madeirame pesado, suas ferragens, suas parafusamentais roldanas e catracas, suas âncoras fateixas e poitas, seus arpões, seus arpéus e balroas, seus farpões, ferros e máquinas, com sua carga humana e animal, subjugada pela desgravidade do lote bovino embarcado, tentava liberar-se de seus atavios de aço, safar-se de seus cabedais de mareagem, seus aparelhos, aprestos e utensílios e, magnetizada, minaz, intencionava ascender com a força do anti-peso atraindo-a aos ares. 2

O calejado timoneiro sem leme a tudo assistia impassível sem arredar pé da ponte de comando, diga-se humilde castelo de proa sobre minúsculo tombadilho, de onde comandava a maquinaria acionando alavelas e manivancas. 3

Aos poucos o paquete caboclo-fluvial parecia se desconjuntar, estertorante, vítima de aerídricas forças antagônicas que tanto o seguravam nas águas como o atraíam para cima. 4Tornava-se uma armação nadante instável composta de objetos e seres sobrepostos e amarrilhos de ferro e carbono retesados.

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5

No apogeu do esforço, sob rangidos e estalos, com enorme estrondo, soltaram-se do batelão os aparelhos e engrenagens que o prendiam aos cordões metálicos e ele, desopresso das amarras, ascendeu. 6

Sim, liberta da cordoalha de aço que se prendia às suas ferragens e a guiava aos dois extremos de seu trajeto, a grande catraia cedeu à pressão ascensional e afastando-se das águas foi se elevando aos céus, arrastando consigo uma cauda formada de cachoeiras reticentes, mãos líquidas de ondinas nervosas tentando reter, agônicas, o objeto voador. 7

Despossuída dos antigos rumos e devota das imensidões etéreas, inaugurava seu novo fadário.

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O abandono

1

12

À balsanave fora dado o apulso e agora conduzia aquele rebanhoso encargo para a liquidez celestial? 2Enfim se comprazia: subissem ablegados para a imensidão do azul... 3

Lágrimas torrenciais lavaram as cataratas dos olhos do idoso nauta. 4Abriram-se-lhe os tímpanos a poder de novas marretas e bigornas, de ornejos e trelinchos... 5Desamouco, - que agora tinha desobstruídas as membranas saculares dos ouvidos, os primeiros sons que ouviu limpidamente foram de gonzos e dobradiças rangentes. 6Pôde enxergar – visão assaz emocionante! - as vacas em ascensão soerguendo consigo o barco-nave tão assim carregado de estripulias... 7

Com a força da sucção sendo vencida pela completa desaceleração da gravidade, e enquanto a espaçobalsa se aviava em pressas despedida do leito de espumas, decolando na vertical e invadindo ruidosamente o vazio do espaço, houve um violento abalo nas camadas atmosféricas e formou-se sobre as ondas uma névoa que se conservou durante anos naquele local. 8

No espelho anfractuoso das águas revoltas, para sempre permaneceriam os reflexos do imenso 37


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vulto negro de um casco enferrujado que, ousando influir no espaço-tempo, causou o aeremoto. 9

Zurros, relinchos e mugidos, agora desesperados, eram endereçados às duas margens em busca de adjutório, sinfonizando uma cantilena de horror com os brados angustiados dos des-humanos flibusteiros... 10

Aqui e ali mãos em desatino implorando perdão, suplicando por socorro: ridículos ademanes, meros bichancros...

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A outra partida

1

13

Sempre em ascensão, a peça voante ligeira era agora à distância apenas um bote mínimo sem serventia, qualquer coisa mal presa, em desequilíbrio, sem sustentação confiável: desmeteoro, ascendente estrela de volta pro vazio numa infinita desodisseia... 2

À medida que o barquel subia, oscilante e instável, de lá certamente se podia ver as margens se aproximando, até formarem os limites de um risco azul serpenteando entre relevos de montes e pradarias. 3

O ascético aquanauta em sua ascensoral partida venceu os empedernidos céticos... 4

Tudo ali ao redor vagava absorto, ar repleto de mexinflórios e itinerâncias. 5

A uma distância maior, aquilo virou um barcote, como se visto do binóculo pelos fundos. 6

Depois, num ponto do azul ainda se via a barqueta, pingo preto que logo em seguida sumiu, tragada pelas regiões sidéreas, em busca de seu buraco negro... 7

Pela redondeza, aos poucos a natureza emudecia.

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8

Destarte, Elias, o antigo, partia novamente deste Mundo, liberto de erro, pacificado no amor filial. 9 Transfigurado, em outro lugar, do passado ou do futuro, foi criar o enredo de um novo tipo de arrebatamentol. 10

Então, só o silêncio restou sobre a face das

águas.

l

Nota: Aqui o A. tem como intertexto o A.T., 2Rs 2, 10-11 e o N.T., Mc 9, 1-13

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Biobibliografia OSCAR KELLNER NETO é natural de Franca/SP (1949), casado, pai de dois filhos, avô de três netos e vive em Delfinópolis/MG, entre serras, cachoeiras e lagos, desde 1975. Arte-Educador, Professor de Gramática e Redação, Técnico em Contabilidade e Advogado atuante, Kellner também se dedica à pintura e à escultura, áreas artísticas em que sempre logrou êxito. Nas horas vagas, inda cuida de terras, gado, peixe e gente. Gosta de sumir pelos vãos da Serra da Canastra, onde cavalga, conversa, joga truco, sonda falares, respira cores e transpira poesia. O Autor, míope, curioso e astigmático, começou a escrever em 1963. Seus primeiros versos foram para a musa eterna, hoje sua esposa: Maria Alcina. Sempre colaborando em suplementos literários de vários jornais com seus textos poéticos, foi premiado na 1.ª Semana de Arte Moderna de Franca, em 1966, com o poema Beatniks. Em 1967, seu poema Do Mágico e seu aprendiz, recebeu o 1.º lugar em outro concurso francano. Publicou seu primeiro livro de poesias em 1968: CANTO DE BUSCA, em edição mimeografada e com lançamento nacional. Em 1969 editou e lançou seu segundo livro, MURAL, com poesias concretistas. Seu poema-processo

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RELÓGICAS, elaborado a partir de carimbos confeccionados com peças de relógio, em parceria com Antônio de Pádua Primon recebeu o 1.º Prêmio no Concurso Nacional Souzandrade, em Divinópolis(MG), em junho de 1969. Nesse ano - o de seu casamento - o Autor recebeu da imprensa francana o título de Intelectual do Ano. Desde então, vem organizando seu livro-objeto, de poemas-processo, FLASH! ainda inédito e em constante evolução. A partir de 1970, Kellner passou a coletar seus contos e a divulgar seus textos em prosa, colaborando em jornais, suplementos e páginas literárias de toda parte e participando de algumas antologias nacionais e de fora. Em 1975 lançou cópias de seu texto concretista FOSSAPOGEU - (epistolas aos coivarenses - textos do hospício) - , de circulação restrita. Em 1977 divulgou seu primeiro romance: O CRIME PERFEITO DE SEZOGLA SUEM, em pequena edição oferecida à crítica do círculo de amigos-leitores fiéis. Participou, em 1979, com o conto O Espetáculo, da antologia A PRESENÇA DO CONTO, organizada pela Editora do Escritor, de São Paulo. Seu primeiro livro de contos O OUTRO LADO DE COIVARAS : O MUNDO foi publicado pela Editora Pirata, de Recife, em 1984. A revista Globo Rural publicou seu conto Paz-sarinha, sob o

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título “O touro Charuto” em sua edição do mês de setembro de 1994. Em 2009, em comemoração ao seu 60º aniversário, Kellner relança a obra MURAL em conjunto com FOSSAPOGEU, na obra poética MURAL & FOSSAPOGEU, pela Editora Clube de Autores, de São Paulo. Ainda em 2009, pela mesma editora, lança o livro de contos O JUIZ E OUTROS CONTOS, o romance O REINO DE COIVARAS e a novela TOCAIAS E DUELOS. Também em 2009, pela mesma editora paulista, lança a obra COIVARAS (cantos), onde reuniu os trabalhos O JUIZ E OUTROS CONTOS – contos -, ROSALDA GENTIL - romance – e TOCAIAS E DUELOS – novela. Também em 2009, pela Editora Clube de Autores, relançou o livro O CRIME PERFEITO DE SEZOGLA SUEM. No final de 2009, em regozijo pelo jubileu de diamante de seu nascimento, Kellner lança pela Editora Casa do Novo Autor, de São Paulo(SP) o livro FAZENDA INTERIOR. Lançou O QUILOMBO DE PALMIRA (flash contos) no findar de 2010, bem como tirou da estante um livro de versos: VISITAÇÃO (trovas). Veio a lume tambéem em 2010 seu livro-objeto, de poemas-processo, FLASH.

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Publicou nas letras jurídicas, a monografia A CAUSA CURIANA, no campo do Direito Romano. Permanecem inéditos, O PROCESSO CAUTELAR E A COISA JULGADA, monografia na área do Direito Cautelar; e, na área do Direito Penal, desenvolveu trabalho em parceria com Juliano Quireza Pereira e Lúcio Augusto Malagoli tratando do PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. Intenta republicar seus poemas da adolescência junto com outros inéditos que vem guardando há muito: RECANTOS DA VIDA. Kellner também se dedica às artes plásticas e à fotografia. Proclama a volta à Natureza. Prepara um reino de pedra, água e sol: Coivaras.

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Apreciações de leitores amigos

1 - Márcio Almeida - (MG) – 08/02/2010: “Meu caro Oscar, OS AMARRADORES DE PATAS é um conto a mais em que v. dá continuidade ao experimentalismo roseano de "Fazenda interior." Prevalece no conto o uso de lexias incomuns ou em desuso, neologismos, para relatar uma história trivial, sem grande impacto, se não o da própria narrativa. Palavras como pojado, velhomem, fluvinheiro, manquitóis, riojeiro, brete, congrossas, palafréns, labancas, balsanave, rebanhoso, trelinchos, examouco, espaçobalsa, bichancros, desmeteoro, desodisseia, itinerâncias, fateixas, riorujo, abufado, poema, atrítica, saralepto, pegulho, estilicídio, lecheguana, boiante, caxexa, famelgamente, bonfos, muns, patau, arregatas, meante, tuzinas, apuavam, entre muitas outras - é que garantem ao conto o estranhamento. V. mantém-se fiel ao seu veio telúrico vivenciado, dele extraindo histórias que contrastam a pós-modernidade ao viés antanho dos casos desdobráveis em narrativa de ficção. Não obstante ter se incluído entre os de projeção desenvolvimentista, o Brasil continua rural, catrumano, recorrente a tradições que remanescem das sesmarias, glebas, fazendões, que alimentam o imaginário nacional com uma vertente úbere de histórias como o úbere de vaca. É válido porque não são muitos escrevendo este tipo de narrativa de ficção. Grande abraço - Márcio Almeida” =*=

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2 - Emídio Lopes Araújo – Natal(RN) – 11/02/2010:

“Caro Oscar. Leitura difícil em consequência da utilização de palavras de uso regional. Outras só conhecidas por gente do respectivo ofício. Acrescento uma dificuldade para o leitor: há palavras não dicionarizadas. Apesar do estranhamento, entende-se perfeitamente a narrativa, que tem começo, meio e fim. Enredo interessante. O leitor que não se deixar intimidar pelas palavras das categorias acima citadas, tem curiosidade em percorrer o conto e alcançar a cativante conclusão. Aprecio textos curtos, mas em consideração ao autor, li três vezes. Valeu a pena ler. Abraço, Emídio.”

=*=

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3 - Vicente de Paula Silveira – Franca(SP) – 11/02/2010: “Meu caro Oscar. Partindo da premissa que não é possivel pensar sem símbolos, segundo pesquisas no campo da Psicologia e que a riqueza de termos para descrever a embarcação, seus pertences e as peripécias do seu timoneiro, além de instrumentalizar o pensamento para o ato de pensar, cumprindo uma função altamente pedagógica, introduz o leitor atento no mundo encantado de um homem que viveu uma verdadeira "desodisseia", povoada de sucessos e fracassos, embustes e trapaças, vitórias e desgraças, virtudes e pecados. Seu conto é uma amálgama de ficção e realidade, descrito com a maestria de um grande filólogo, de um dicionarista inteligente e apaixonado. Seu tresloucado barqueiro, pensa, sente, quer e age, vivenciando a totalidade dos fenômenos da mente humana (cognitivos, afetivos, volitivos e psico-motores), que das agruras de uma vida desgraçada, ascende como uma substância ectoplasmática aos assentos etéreos nunca dantes navegados, na linguagem camoniana. A leitura de seu conto,evoca em minha mente as sábias e proféticas palavras do poeta Francisco Otaviano: "Quem passou pela vida em brancas nuvens E em plácido repouso adormeceu, Quem não sentiu o frio da desgraça, Quem passou pela vida e não sofreu, Foi espectro de homem, não foi homem, Só passou pela vida, não viveu". Vicente de Paula Silveira =*=

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4 - Paulo César Garcia – Franca(SP) – 16/02/2010:

“Estimado Rei, Nunca um súdito poderia tecer qualquer idéia sobre idéias de seu rei. Fácil seria puxar-lhe o real saco. Embora saibamos de sua real bondade, tememos a guarda real, cujo capitão deve ser um cidadão como nós. Mas, diabo, tenho que cumprir o desejo real. Ele sugeriu que a gente manifestasse. Sugestão real é uma ordem desgraçada de ruim. Suas palavras me levaram de um lado ao outro, subi serras e cumieiras, desci grotas e árvores, entendia quase todas sem nunca tê-las visto (coitados dos dicionaristas). Por instantes, numa leitura rápida e inquisitiva, eu queria antecipar o fim. O que vai acontecer? O desgraçado virou comunista? Não crê mais na espécie humana? Onde está a moral da história? Quando terminei a leitura percebi que o Rei me levara, num dia muito quente, a descer ladeiras difíceis, suando sem dó, amedrontado e com a respiração em suspenso, para, enfim, deliciar num banho real em uma de suas cachoeiras do reino. Se água não sobe morro, como então pode haver uma cachoeira? Deixa isso prá lá e curta o refresco. Parabéns, meu caro e ilustre escritor. Sinto-me lisonjeado por ter lido o real conto em primeiros olhos. Obrigado pela viagem e pelo refresco. Abraços.” =*=

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5 - Maria de Lourdes Hortas - Recife - PE

Meu caro Oscar Kellner Neto,

Terminei há pouco de ler pela segunda vez o seu conto OS AMARRADORES DE PATAS. Na primeira leitura fiquei sem fôlego. Dei um tempo e hoje reli-o, com calma, apreciando as palavras, as imagens, a narrativa. Certamente você conquistou uma forma de escrever muito própria . O seu trabalho com as palavras, bem como a fusão entre forma e conteúdo (impossível separá-las) é, literalmente, extraordinário. A narrativa surpreende o leitor a cada passo, inicia-se como um rio, vai num crescendo até virar cachoeira, explode em invento e nos leva pelos ares, na nave que v. constrói. Parabéns!

Maria de Lourdes Hortas Recife/julho/2011

=*=

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os amarradores de patas

GLOSSÁRIO

a grande catraia

a balsa

abegoaria

espécie de curral, local onde se recolhe o gado

ablegados

banidos, desterrados

abmouco aboio

(neol.) que ouve pouco, quase surdo canto dolente e monótono, ger. sem palavras, com que os vaqueiros guiam as boiadas ou chamam as reses

abufado

(neol.) contração ideológica do vocábulo afabado (sufocado) com o termo bufado (na acepção de sopro forte e ruidoso)

ademanes

acenos

adjutório

auxílio, socorro, ajuda

aerídricas

relativas simultaneamente à água e ao ar

aeremoto

vibração violenta da atmosfera

agônicas

em agonia

agrolavrantes

(neol. ) que lavram o campo, cultivadores de lavouras

ajaezado

cheio de enfeites; ornado, adereçado

alavelas e manivancas

(neol.) troca de letras entre os termos "alavancas" e “manivelas”

alfobre

canteiro entre dois regos por onde corre água

alfoz

território

alimária

conjunto de animais

albarda

sela grosseira própria para resguardar o lombo das bestas de carga

altazoras

(neol.) na noite alta

amarratório

(neol.) amarradouro, lugar onde se faz a amarração das patas dos animais

amarréis

(neol.) presilhas, liames, atilhos, amarrilhos

amarrilho

cabo, cordão ou fio com que se amarra qualquer coisa

andaluza

típica da Andaluzia, Sul da Espanha

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oscar kellner neto

animália

conjunto de animais

antagônicas

contrárias, opostas

antigravitacionais

exercendo ação contrária à da gravidade

anura

anfíbio desprovido de cauda, sapa

apogeu

o mais alto grau

apuar

cravar ou supliciar com pua(s), torturar

apulso

direito de conduzir o gado através da propriedade de outrem para levá-lo para beber em um tanque comum

aquanauta

(neol.) nauta, marinheiro, marujo

armação nadante

a balsa

armento

rebanho

aroeira

aroeira-vermelha - madeira pesada e resistente

arpéu

pequeno arpão, fisga para peixes

arreata

correias com que se prendem os animais

arribana

curral, local onde se recolhe o gado

arruivado

de tom mais ou menos ruivo; arruivascado, avermelhado

ascensoral

ascendente

ascensorismo

ascendimento, ascensão, subida

ascético

dedicado a privações e mortificações

ascetizar

tornar-se asceta

ataviadas

ornadas, enfeitadas

atrítica

(neol.) relativa à situação de atrito provocada pela superlotação. No texto, contração ideológica do vocábulo artrítica, (relativo à artrite – pelas dores, inflamação, limitação dos movimentos ou a destruição das articulações relatadas no texto) com o termo atrito referindo-se à fricção dessas partes de cada rês entre si.

Áurea

Lei Áurea

azáfama

pressa e ardor na execução de um serviço

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os amarradores de patas

azagaia

lança curta com que se escora um bote de onça

balanite

inflamação da glande

balça

balsa

balsejante

viajante da balsa

baldroca

trapaça, logro, fraude

balroa

fateixa, pequena âncora de quatro braços amarrada por um cabo

balsanave

(neol.) a balsa - enquanto espaçonave - neologismo

banto

indivíduo dos bantos, trazido como escravo para o Brasil

banzado

pasmado, espantado

banzar

cismar, matutar, ficar pensativo

barca-açu

(neol.) a balsa

barcaça

a balsa

barcagem

frete pelo transporte em balsa

barco-de-vogas

barco de pequeno porte acionado por pares de remos móveis instalados em suas bordas

barco-nave

(neol.) a balsa - enquanto espaçonave

barcote

a balsa vista de muito longe, no ar

barquel

a balsa

barqueta

a balsa quase sumindo de vista

batelão

a balsa

bichancros

gestos ridículos

boiama

boiada

boiante

flutuante

Boieira

o planeta Vênus, a Estrela D'alva

boiotes

bois novos

boiunos

bovino

boizama

boiada

bonfo

(neol.) onomatopéia de mugido vacum

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oscar kellner neto

bornu

negro do antigo emirado de Bornu, trazido para o Brasil como escravo

bote mínimo sem serventia

a balsa diminuída de tamanho

brilhância

luminância, luminosidade

bucéfalo

cavalo

buraco negro

região do espaço-tempo dotada de um campo gravitacional de tal modo intenso que dela nada pode fugir, inclusive a radiação eletromagnética

buzarates

corpulentos, barrigudos

cabinda

negro apresado na costa Norte de Angola e trazido como escravo para o Brasil

cairel

borda, beira, margem, orla

calafange

desprezível, abjeto, vil, canalha

cangalha

artefato de madeira ou ferro, acolchoado, que se apõe ao lombo dos animais para pendurar carga de ambos os lados

cangalheta

cangalha

catarata(1)

queda d'água, cachoeira

catarata(2)

perda parcial ou total da visão pela opacidade menor ou

catrabucha

objeto desconhecido

catrumano

caipira

caxexa

raquítico

caudal

corrente fluvial

chalana

a balsa

chucro

não domado, bravio, esquivo

cigano

povo itinerante que emigrou do Norte da Índia para o oeste

maior da parte lenticular biconvexa e transparente do olho

(antiga Pérsia, Egito), de onde se espalhou pelos países do Ocidente; calom, zíngaro

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os amarradores de patas

coibente boiável

a balsa

coisa feita

magia negra, mandinga, feitiço

comitiva

grupo de pessoas que segue com a boiada; séquito.

comprazer-se

abandonar-se a uma autossatisfação; deleitar-se

congrossa

(neol.) de encorpada espessura

consendo

(neol.) tudo sendo ao mesmo tempo

contorcionistas

assumir posições contorcidas antinaturais

convés

piso ou pavimento da embarcação

corvilíneo

(neol.) com as linhas de um corvo

decruar

lavrar a terra pela primeira vez

decúbito

atitude do corpo em repouso em um plano horizontal

delíquio

dentimagna

perda de sentidos; desfalecimento, desmaio neologismo latino formado por “dentis” (dentes) + “magna” (grandes, poderosos) – significando no texto “de poderosa dentição”

des-humanos

ex-humanos

desamouco

(neol.) não mais amouco, ex-surdo

descativo

resgatado ou liberto do cativeiro; livre

desgravidade

(neol.) antigravidade, força contrária à atração mútua entre os corpos, originada pela gravitação

desmeteoro

(neol.) fragmento de meteoroide ou astrólito que sobe da terra para o espaço

desmorrer

retornar à vida

desodisseia

(neol.) uma não-viagem; falta de travessia, ausência de caminhos

desopresso

aliviado, desafogado, desabafado, libertado

despossuída

livre do domínio, da posse

em desquartejo

(neol.) esquartejados

desenxergar

(neol.) não avistar, não entrever, não alcançar com as vistas

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oscar kellner neto

desvivente

parando de viver

empraiar

(neol.) encalhar na praia

enxerga

almofada cheia de palha, que se coloca sobre a albarda

enxergâo

suadouro acolchoado com palha que se coloca sobre o lombo do cavalo, por baixo dos arreios; baixeiro

erado

gado gordo

escassilho

lasca, fragmento pequeno de algo que se quebrou

escura magia

coisa feita, magia negra, feitiço

espaçobalsa

(neol.) a balsa - enquanto espaçonave

espaço-tempo

espaço quadridimensional em que três das coordenadas são espaciais e a quarta corresponde ao tempo. É utilizado na geometria da relatividade de Einstein

espardeque

piso construído acima do convés onde se levam passageiros ou cargas leves

espavoridos

apavorados, aterrorizados

estábulo boiante

a balsa

estertorante

agonizante

estropos

braçadeiras

evolar-se

esvaecer-se, dissipar-se (neol.) contração do termo “exaurido” (esgotado) com o vocábulo “aurífico” (que produz ouro) – significando “esgotado produtor de ouro”.

exaurífico fadário

Destino

faiscadores

garimpeiros

faiscância

garimpagem

famelgamente

famintamente

farpante

que farpa; que rasga, dilacera

farpão

pequeno arpão; arpéu

fateixa

pequena âncora, farpão.

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os amarradores de patas

favônio

vento suave que sopra do poente

febras

coragem, força, vigor

fésteis

(neol.) festejantes sarcásticos

flexuras

junta dos ossos, lugar em que os ossos se articulam para dobrar um membro ou parte do corpo

flictena

bolha na pele

fluvinheiro

(neol.) marinheiro fluvial

fomentassem

friccionassem

fressura

conjunto de vísceras de um animal; bofes

gaivão

aparelho de pesca, de forma cônica

gajão

forma de tratamento respeitosa (equivalente a 'senhor') dada pelos ciganos a pessoas estranhas à sua raça

garrote

bovino de dois a quatro anos de idade

gitanaria

grupo de ciganos

grande catraia

a balsa

grande plataforma navegável

a balsa

grandevo

longevo, muito idoso

grumete

graduação mais inferior das praças da marinha

grupiara

depósito de cascalho em local elevado, acima do nível máximo das águas

guindalete

cabo ou corda de guindaste

helicopteralmente rabanando

(neol.) tremulando em giros as próprias cerdas à maneira

horta-de-couve

imantadas

cercado para plantio de verduras e legumes no texto, significando pedras que sofreram um encantamento ou uma magnetização da qual estão sob o domínio ou ascendência e que as atraem ao “centro magnético da Terra”.

incoercível

que não se pode dominar, refrear, impedir; irreprimível

indicus

(latim) raça de gado vindo da Índia; zebu

inflatória

(neol.) relativa ao aumento de volume

de um helicóptero.

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oscar kellner neto

insensato intertexto

não conformes ao bom senso, à razão texto literário preexistente a outro texto e que é aproveitado, por absorção e transformação, na na elaboração deste, ou que o influencia

itinerância

caminho, rumo

jaguaruno

(neol.) de suçuarana, onça parda.

labanca

(neol.) alavanca, ferramenta manual pesada usada para

lapuz

homem do campo; rústico, camponês, campônio

lavagante

labugante, navegante

tirar lecheguana

tiritar de frio

levitação

fenômeno psíquico, anímico ou mediúnico, em que uma

ao deslocamento de pedras e árvores

pessoa, um animal ou uma coisa é erguida do solo sem uma razão visível, apenas devido à força mental que movimenta fluídos ectoplásmicos capazes de vencer a força da gravidade litorâneo

situado à beira-mar; vindos do litoral

lume

fogo, fogueira

palafrém

aqualquer tipo de cavalo

madeirame

madeiramento

magnetismo

resultado de forte e inexplicável atração; encantamento

manivancas e alavelas

(neol.) troca de letras entre os termos "manivelas" e "alavancas"

manquitóis

maromba

mancos, coxos cabo de aço ou de fibra vegetal, suspenso de uma margem à outra de um curso de água sobre o qual os tripulantes das embarcações de travessia exercem tração manual para fazê-las deslocar

marruares

touros bravios

meante

em meio

mexinflório

acontecimento, fato confuso; embrulhada; enredo, intriga

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os amarradores de patas

miálgico

relativo a dor muscular

micurês

Gambás

minaz

ameaçadora, intimidante

mocambo moitão

refúgio na mata, de escravo(s) foragido(s); quilombo caixa de madeira ou metal de aparelho de força (poleame), que trabalha com uma só roldana

movongo

depressão funda de terreno junto de elevações íngremes

mucubu

anca de boi

mucurês

muçununga

gambás pântano, paul; terreno alagadiço e muito ácido, no qual medram musgos, fetos, etc., e de onde escorre água nociva ao homem e aos animais

muns

(neol.) onomatopéia de mugido vacum

navegatário

(neol.) titular da navegação no local

neobípedes

(neol.) bípedes antes inexistentes

ninfa

divindade que habitava os rios, fontes, bosques e montes

nitrido

relincho, rincho

noctiluzes

pirilampos, vagalumes, lucernas, lampírides

noctívago

que tem hábitos de vida noturnos

novilha

fêmea bovina nulípara, que nunca pariu

o objeto voador

a balsa

o paquete caboclo-fluvial

a balsa

ocado bucho ondina

estômago vazio, oco nas mitologias germânica e escandinava, gênio ou ninfa do amor, que vive nas águas.

orla

margem, beira, borda

ourela

borda, margem, beira, orla

ovinas peles lanosas

peles de ovelhas providas de lã; pelegos

parafusamentais

(neol.) peças onde vão parafusos que as tornam ferramentas

patau

indivíduo simplório, ignorante

peça voante ligeira

a balsa - enquanto espaçonave

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pegulho pelego perâmbulo peroba

petiz, criança, infante a pele do carneiro com a lã, essa pele colocada sobre os arreios para para tornar o assento do cavaleiro mais confortável (neol.) contração ideológica dos vocábulos "sonâmbulo” + “perambulante”

pindaíba

madeira de boa qualidade (neol.) contração ideológica dos vocábulos “pigmeu” + “pigmento”, significando “como minúsculos pigmentos” substância sólida existente na natureza ou produzida quimicamente, que absorve, refrata e reflete os raios luminosos que sobre ela incidem árvore de até 10 m (Xylopia brasiliensis), da fam. das anonáceas, nativa do Brasil (MG), de folhas lanceoladas, flores amarelas e frutos acres, aromáticos e condimentares, sucedâneos da pimenta-do-reino; embira, embireira, erva-doce, pau-de-mastro, pindaíva, pindaúva

plataforma navegável

a balsa

pocema

rumor de muitas vozes; vozearia, assuada

poita

objeto pesado que faz as vezes de âncora em embarcações

pigmentais

pigmento

miúdas; pandulho pojado

tirado da embarcação

pojantes

que navega com facilidade

poleame

peça de madeira ou ferro usada para passagem de cabos fixos ou de laborar, em uma embarcação

portuária

próxima ou ligada a um porto

preâmbulo

Prefácio

profundezavam

(neol.) viviam nas profundezas, no íntimo

promombó

modo de pescar em noite escura, em que o pescador ilumina o interior da canoa com uma fogueira ou um facho de luz para atrair os peixes, que saltam dentro dela;

quadrilátero flutuável

quíchua

a balsa inca; indigena de tribo pré-colombiano do vale de Cuzco, no Peru, cujos remanescentes formam parte considerável das populações do Peru e do Equador

rapinagem

hábito de roubar

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os amarradores de patas

rebanhoso encargo

(neol.) encargo composto pelo rebanho

regougo

som cavo, gutural; ronco, roncadura

resseguro

re(s)voante

muito seguro, muito firme (neol.) contração ideológica dos vocábulos "rês" + ”voante" para formar o novo termo "resvoante" significando "rês esvoaçante em revoada". De "revoar" – voejar, esvoaçar, pairar, volatear; fazer revoada"

reticente

vacilante, hesitante

riajante

(neol.) viajante do rio

riajor

(neol.) viajor do rio

riogeiro

(neol.) viageiro do rio

rionheiro

(neol.) marinheiro do rio

riorujo

(neol.) marujo do rio

riovagantes

(neol.) navegantes daqueles que vagam pelo rio

ror

grande porção de coisas; quantidade

salvatério

recurso para escapar

Sapatera

Sarepta

(neol.) Anagrama de Sarepta acrescido de um “a” eufônico (neol.) Anagrama de Sarepta com o “a” final tornado em “o”, acrescodp da sílaba mesoclítica “le”, formando uma variante de “serelepe” importante cidade portuária do Reino Judeu do Norte, perto de Sidon, na fronteira de Canaã, onde os Sidônios fabricavam vidro

sideral

sidérico, celeste

sidérea

celeste, sideral

sinfonizando

emitindo som não necessariamente musical tempo de viagem de uma embarcação desde a partida até chegar ao porto de destino

sarelepto

singradura sobreaflitas sobreanca

tomadas de grande aflição revestimento de tecido ou couro que recobre a anca da cavalgarura; xairel

surro

Manchado

surrupeia

corda ou tira de couro que prende os pés dos animais

suxa

frouxa, bamba

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oscar kellner neto

talingadura

feixe de fios metálicos, torcidos ou trançados como uma corda

taurino

gado de origem europeia

transolhar transfigurado

(neol.) olhar através, mal enxergando transformado, metamorfoseado; com a figura, as feições e a forma alteradas

trelinchos

(neol.) relinchos repetitivos

tresloucando

Desvairando

tuzinas

surras, espancamentos

ubraria

ubre, úbere, mama com vários mamilos ou tetas

unguento

medicamento à base de gordura para friccionar

urbe

Cidade

vasca

velhomen

Limite (neol.) palavra formada do vocábulo “velho” mais o termo inglês “men”, designativa de “velho-muitos-homens”, “ velho-faztudo”, significando “homem-velho-trabalhador-demais”.

vogantes

que se desloca à tona da água; flutuante

xairel

revestimento que cobre a anca da cavalgadura

zaino

cavalo de pelagem castanho-escura

zíngaras

ciganas

zoinas

meretrizes

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Os amarradores de patas