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As minhas aventuras no mundo da JSD Orlando Leal, militante n.ยบ 19870

Maia, Julho de 2005


As minhas aventuras no mundo da JSD

“À Juventude Social Democrata dirijo-me também, e sempre especialmente, porque a JSD é a nossa ponta de lança, o nosso fermento revolucionário interno e democrático, a nossa forma de progresso, incentivação e crítica constante, mas a Juventude Social Democrata, não está à venda, não se aluga, não se deixa instrumentalizar. É o que é, porque serve o programa do Partido Popular Democrático e porque está integrada no Partido Popular Democrático”

Francisco Sá Carneiro Discurso em Lisboa a 22 de Dezembro de 1975

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As minhas aventuras no mundo da JSD

Introdução Muitas vezes, a história é feita de pequenas histórias, que vão sendo contadas aqui e ali, umas perdem-se no tempo, outras vão passando de boca em boca, transformando-se quase em lendas, sendo inflamadas pela fantasia do sonho de quem as viveu com emoção, ou minoradas caso a pessoa que as conta tenha delas más recordações, e pretenda, por vezes, transformá-las numa mera patranha, que o tempo se encarregará de fazer omitir. São histórias com nomes, com pessoas e com sentimentos, que muitas vezes por uma questão de pormenor, a vontade própria, ou pura má sorte passam ao lado daquilo que se poderá considerar “uma grande carreira política”. Estes sucessos e insucessos podem ser medidos ao nível dos cargos ocupados, ou das metas atingidas. O que é mais difícil de analisar, são os sentimentos e as emoções que fazem os homens e as mulheres da nossa JSD. São as coisas desta vida, que é a nossa vida!... É nestas coisas, e nesta gente que se constrói a nossa história colectiva, é, e como gostava de referir o infelizmente já desaparecido José Gama, “a nossa gente, a gente que sabe o que diz, porque só diz aquilo que sente”. Porque é que os olhos de alguns antigos militantes da JSD ainda brilham quando passados muitos anos lhes fazemos lembrar das histórias do seu tempo? Porque é que esses mesmos homens e mulheres estão sempre dispostos a ajudar a estrutura, quando para tal são solicitados? Ou pura e simplesmente nos telefonam a saber se há novidades ou se é preciso alguma coisa? Porque será, que, como eu já assisti, temos militantes que no seu último Plenário, no seu último Conselho Distrital, ou no seu último Congresso se enchem de lágrimas de saudade? A resposta a estas e muitas outras questões, não está, segundo a minha opinião, em nada de palpável ou tangível, mas pura e simplesmente, ligada a um sentimento colectivo de saudade, essa palavra tão nossa que faz com que as pernas tremam e os olhos vertam lágrimas...

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Este é o meu contributo pessoal, para a nossa história, não são mais do que simples momentos e pequenas histórias a maioria que eu vivi, e outras que eu ouvi. Histórias engraçadas ou simplesmente diferentes. São pequenos relatos que, bem vistas as coisas não têm grande influência para os grandes momentos, mas que marcaram os tempos e as pessoas que as viveram, e ainda hoje são recordados com saudade por quem os sentiu. Talvez por esse motivo, não as devemos chamar de histórias, mas sim aventuras, as minhas aventuras no mundo da JSD.

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Um traseiro do PPD A história remonta aos primeiros tempos da luta democrática, quando ainda não havia os agora mais que normais “outdoors” que passam a imagem dos candidatos de uma forma profissional, e montados por empresas da especialidade. Falo-vos do tempo do cartaz, da cola, do escadote, das trinchas e latas de tinta. Este episódio foi-me transmitido por um ilustre militante do PSD da Maia, o Sr. David Dias Hora Branco, farmacêutico, entusiasta pelo seu PPD/PSD e que coordenava as “brigadas” dos jovens militantes que durante a noite colocavam a propaganda do nosso partido. Numa bela noite, lá estava o Sr. David Branco, mais a rapaziada da JSD, na Estrada Nacional 14 a pintar as setas e dizeres do PPD no alcatrão, enquanto que outro grupo se dedicava à colocação de uma tarja, com palavras de ordem e slogans do Partido, amarrada a dois postes paralelos na dita via. E eis que no silêncio da madrugada se ouve o ruído de duas motorizadas a aproximar-se velozmente e a passarem, propositadamente por cima do símbolo do Partido, cuja tinta não tinha ainda secado, provocando os estragos que podemos imaginar, no trabalho recentemente realizado. O desalento tomou obviamente conta da “brigada”!... Mas de repente, uns metros mais adiante os dois veículos fazem inversão de marcha e dirigem-se de novo para as pinturas na estrada. É neste momento que, movido pelo instinto, um dos companheiros que estava em cima da escada encostada a um poste, salta para o chão e, rapidamente a segura numa ponta, atirando a outra para o outro lado da rua, onde é, de imediato apanhada por outro Jota. Estava então criada uma barreira física de protecção para as pinturas... Por sinal, um dos motociclistas consegue travar, o outro não, e enfaixa-se nos degraus, ficando pendurado, enquanto o veículo que o transportava segue, e pára uns metros mais à frente.

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É claro que o jovem motociclista “detido” pela “brigada” recebeu um “tratamento carinhoso”, mas quando pensava que o pior já tinha passado, eis que surge, pela voz de José Meneses Lopes (um dos primeiros militantes e dirigentes da JSD Maia), a seguinte e assustadora frase: “Vá lá, agora calcinhas para baixo!...” O homem, num misto de pânico, e abandonado pelo seu companheiro, que assistia a tudo, uns bons metros à frente e com o motor a trabalhar, não vá o diabo tecê-las, lá cumpre a ordem de forma apavorada e perfeitamente consciente que algo de muito grave lhe ia acontecer. Já com as calças, e tudo o resto devidamente para baixo, ouve uma nova ordem com a mesma origem da primeira. Mas desta vez era para se virar de costas para José Meneses Lopes. Finalmente, com o motociclista de costas e ligeiramente inclinado para a frente, Meneses entra em acção, pegando no pincel, levando-o à lata da tinta e com a mesma precisão com que pintava as estradas, lhe escreve numa nádega “PPD”. Na outra desenha as três setas que compunham o símbolo do Partido!... O homem pode depois seguir viagem, levando consigo as cores do nosso partido, à flor da pele… E lá continuaram as pinturas.

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O pontapé na Urna Arménio Teixeira Lopes foi presidente da JSD da Maia, e é hoje dirigente (vice-presidente) do seu núcleo residencial do PSD, o Núcleo da Vila do Castêlo da Maia. Em 1988 é candidato à Comissão Política Distrital (no lugar de vice-presidente), na lista encabeçada por Firmino Pereira. A lista perde por poucos votos para a de José Manuel Meireles, iniciando-se a partir desse processo, uma relação pouco pacífica entre as estruturas concelhia e a distrital. Chegam a existir processos contra a concelhia por alegadas irregularidades quanto às convocatórias para os actos eleitorais, que, foram sendo resolvidos até 1990, quando Arménio Lopes deixa a liderança da concelhia, passando para a presidência da Mesa do Plenário, e sendo substituído na liderança da Comissão política por Joaquim Carlos Mendes. No entanto e uma vez que se tratava de uma sucessão, o relacionamento permanece igualmente mau, até que, no ano seguinte, e ainda por causa das convocatórias, a Distrital chama a si o processo eleitoral. Os militantes recebem da Distrital uma convocatória que os informava que o acto eleitoral iria decorrer entre as 17H00 e as 19H00. Então como seria normal, no dia da votação, uns minutos antes da hora prevista para o início desta, entram na sede concelhia Arménio Lopes, candidato à Mesa do Plenário, e Carlos Mendes mais António Fernando Oliveira e Silva, candidatos à Comissão Política, na mesma lista. O opositor de Mendes era Armindo Isaac, visto com melhores olhos para Distrital. Reparam então que algo de estranho se estava a passar. O Presidente da Mesa em funções, um membro da Distrital, tinha iniciado o acto eleitoral, antes da hora marcada. Indignados questionam os presentes acerca daquilo que estava a suceder. Então são informados, que afinal o horário da votação seria entre as 15H00 e as 17H00, conforme o publicado no Jornal Oficial do Partido, e que a convocatória que seguiu para casa dos militantes teria seguido com um erro na hora. Uma “gralha“ de quem passou o texto a limpo, e que se deveriam seguir pela hora publicada no Povo Livre.

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Podemos imaginar a discussão que decorreu de seguida, e dos ataques de parte a parte. Ainda por cima, quando os candidatos, que acabavam de entrar na Sede são informados que apenas três militantes tinha votado. No meio da confusão, Arménio Lopes, arranca a tampa da urna, atira-a para o chão e pontapeia-a com violência desde o local da votação até à rua. Visto à distância, é claro que, e segundo as palavras do próprio Arménio Lopes, tratou-se de um episódio triste e que não engrandeceu em nada os envolvidos na questão e até mesmo a estrutura. Depois desse dia, seguiu-se mais um processo na jurisdição, nomeadamente a Arménio Lopes, António Fernando Oliveira e Silva e ainda Carlos Teixeira (Presidenta da Junta de Freguesia da Maia, que entretanto apareceu com o seu filho que também era candidato na lista de Joaquim Carlos Mendes). Após algum tempo o processo acabou por ser arquivado, para o bem da estrutura e a acalmia da concelhia. Mas o que é certo, é que passados cerca de 15 anos sobre esta história, poucas são as pessoas capazes de dizer o nome de todos os eleitos nesse dia, ou o que se passou durante o mandato. Mas o que toda a gente sabe e fala é quem foi o autor do “Pontapé na urna”, que passou também a ser a alcunha de Arménio Lopes.

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Perseguição Ruidosa Em 1991 decorreram as eleições Legislativas que viriam a culminar com a vitória e segunda maioria absoluta para o PSD. Foi uma campanha muito animada e com episódios divertidos como um que se passou entre os carros da JSD da Maia e da JSD de Rebordosa – Paredes. Um certo dia, após uma acção de campanha em larga escala, e que envolveu todo o Distrito houve uma actividade em Matosinhos, ao qual se seguiria uma outra no Porto. Então os diversos carros começaram a dirigir-se para a sede Distrital, onde iria ser feito o reagrupamento. Até que na Via-rápida que liga o Porto ao Aeroporto, sem motivo aparente, o carro da JSD de Paredes, baptizado com o nome “LARANJINHA”, por estar todo pintado de cor-de-laranja, seguia atrás do carro da Maia, a “CHÊPA”, faz uma travagem abrupta e começa a buzinar. Os “pilotos” da Maia não se apercebem de nenhuma anomalia, a não ser o facto dos seus perseguidores, pura e simplesmente, terem parado numa das mais movimentadas e perigosas vias do Porto, e com os seus fatos macaco cor-de-laranja terem saído para fora do mesmo em busca de algo, enquanto se tentavam desviar dos carros que passavam a grande velocidade. Onde e usando uma linguagem geométrica só se verificaram algumas tangentes às viaturas, e felizmente nenhuma secante. Passados uns minutos o “LARANJINHA” recupera e cola-se à “CHÊPA”, buzinando insistentemente. Os maiatos, pensando que se tratava de uma acção de campanha improvisada, tiram para fora das janelas as suas bandeiras e começam também a buzinar, sem entenderem muito bem por que motivo estavam a fazer aquilo. Só quando chegam à sede Distrital é que, finalmente, conseguem falar, e é aí que todos entenderam o motivo pelo qual se tinha dado aquela paragem na Via-rápida. Tinha sido “apenas” para apanhar o sistema de amplificação sonora (“gaitas”) que, devido à velocidade excessiva tinha saltado do tejadilho da “CHÊPA”

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Por incrível que pareça, e tirando algumas amolgadelas, todo o sistema sonoro ficou a funcionar na perfeição!...

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Eu voto no óleo fula Em 1994, era presidente da JSD Maia, Paula Mendes. Aproximava-se um novo acto eleitoral interno. Começa a surgir a possibilidade de uma lista alternativa, cujo rosto mais visível seria o de Emanuel Martins, que se tinha demitido da Concelhia da JSD, por considerar que esta tinha uma atitude muito passiva perante o a Concelhia do Partido. Então esta lista começa a ser olhada com alguma distância, sendo logo conotada com a oposição à Comissão Política Concelhia do PSD. Apesar do objectivo da candidatura não ser o de ir contra o Partido, o normal “diz que diz” criou alguma tensão, o que fez com que a candidatura de Emanuel Martins tivesse informado os órgãos nacionais e distritais da JSD do sucedido. Inicia-se a campanha eleitoral e Emanuel Martins percorre o concelho, angariando apoios que lhe davam um grande à vontade para o embate eleitoral. Tanto é que acabou por ser a única lista a ir a votos. No dia da votação aparece o candidato mais a sua equipa, e os membros da Mesa do Plenário Concelhio, na altura liderada por Luís Miguel Dias e um representante do Conselho de Jurisdição Distrital, Magda de seu nome. Mas o insólito acontece, e a pessoa que estava incumbida de abrir a sede não aparece, “deve ter-se esquecido”, ou então as dúvidas relativas à fidelidade com a concelhia não estavam resolvidas. Mas o Presidente da Mesa tinha os boletins de voto, pelo que se tratou logo de arranjar uma solução engenhosa para resolver o problema. Dirigira-se a um café das imediações e pediram uma caixa vazia, à qual o proprietário responde: “caixa, só se for uma de óleo fula que ali tenho”. E lá teve de servir de urna de voto!...

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A caixa foi então revestida com bandeiras do partido e lacrada com fita isolante que alguém tinha no carro. Um militante vai a casa buscar uma mesa de campismo, e é ali montada a mesa de voto. Em pleno passeio, e em frente à porta da sede concelhia. E o acto eleitoral decorre dentro da normalidade possível, com a cabine de voto a ser improvisada no tejadilho de um carro. No final a acta é afixada na porta de sede concelhia pela parte de fora, e passadas umas horas desaparece misteriosamente, surgindo a ameaça da impugnação do acto. Mas, já a contar com isso houve alguém que fotografou e filmou todos os passos do processo, e passados uns dias apresentaram as provas do cumprimento estatutário. Quanto caixa de óleo, nunca mais se soube dela, mas também não foi necessário, pois, apesar dos receios iniciais, o relacionamento entre as estruturas concelhias do PSD e JSD foram cordiais e de colaboração estreita.

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Três tristes Pandas, e um Pinto… Lobão Na Campanha das Legislativas de 1995, estavam ao serviço da Distrital do Porto do PSD vários carros alugados, dos quais se destacavam 3 Fiat Panda, que estavam geralmente entregues a militantes da JSD. Ora num só dia a frota sofreu um rombo de 2/3, e correu mesmo o risco de a frota se perder na totalidade. Tudo isto porque um militante da JSD de Matosinhos, de seu nome Pinto Lobão, a quem estava entregue uma das viaturas conseguiu, no espaço de menos de meia hora inutilizar dois desses carros, e tentar, sem sucesso, ter acesso ao terceiro. Eu estava, com um conjunto de outras pessoas à porta da sede Distrital quando vejo um dos carros de campanha, conduzido por Pinto Lobão a entrar na Rua de Guerra Junqueiro, envolto em fumo e a grande velocidade. Passado um instante, o carro é estacionado em frente à sede, em segunda fila, saindo do seu interior o condutor aflito a dizer que o carro tinha avariado, e que tinha de pegar noutro para ir cumprir uma tarefa urgente. Espantados com o espectáculo, e quase de forma instintiva, vendo a aflição do indivíduo, alguém vai ao bolso e lhe entrega a chave do segundo Panda, informando que este só seria necessário mais para o fim do dia. Logo, não haveria problema, em ser levado por Pinto Lobão. E tão rápido como chegou, lá partiu o nosso Jota rumo à sua missão, enquanto que o primeiro carro permanecia fumegante à porta da Distrital, como que a suplicar por uma visita à oficina mais próxima. As pessoas que estavam à porta da distrital foram entrando e foi chamado um mecânico para ver o que se passava.

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Mas alguns minutos depois, entra de novo, na sede Distrital, completamente esbaforido o nosso Pinto Lobão e dirige-se novamente aos restantes condutores a pedir a chave do terceiro Panda, porque o segundo tinha tido um problema!... Mas desta vez a resposta não foi tão célere, e em vez de lhe ser entregue a responsabilidade da condução foi-lhe perguntado o que se tinha passado!... Então começa a explicação!... No primeiro carro, e segundo Pinto Lobão tinha surgido, de repente, uma luz vermelha acesa no painel de instrumentos, como não sabia o que queria dizer, decidiu dirigir-se até à sede distrital, mas como reparou que o motor estava a deitar fumo, decidiu acelerar o máximo que podia, para não ficar pelo caminho. O segundo tinha uma resposta muito mais simples. Pura e simplesmente o tinha enfaixado num marco de sinalização luminosa, danificando a parte inferior do motor, e ficando o carro imobilizado. E só depois desta explicação é que o terceiro Panda arranca em direcção ao local onde o segundo estava parado, com Pinto Lobão devidamente sentado, no lugar do passageiro, não vá o diabo tecê-las. Chegados ao local, conta quem lá esteve, o acidente era muito estranho, sendo difícil imaginar qual o percurso que tinha sido feito para colocar o carro naquela posição, pois a viatura tinha galgado as guias em granito do separador central das faixas de rodagem, indo embater e tendo destruído um marco metálico luminoso com cerca de 60 centímetros de diâmetro. Mas o que era importante seria ver quais os reais danos causados na viatura. Na realidade, o que o primeiro carro tinha era apenas falta de água no radiador, pelo que, e devido à insistência na circulação do mesmo, pura e simplesmente gripou o motor. Já o segundo, com a força do impacto, pura e simplesmente partiu a parte inferior do motor… Como devem compreender, Pinto Lobão nunca teve acesso à chave do terceiro Panda!...

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Campanha para o Centro Histórico Ao contrário do que se passara em 1991, a campanha eleitoral para as Legislativas de 1995 tinha uma estrutura de distribuição de campanha muito diferente. Quatro anos antes era a Coordenadora de campanha da Distrital que levava ás sedes das secções o material de propaganda. Em 1995 funcionava ao contrário, com as secções a terem de se dirigir à Distrital, para levantar o material. Certo dia, chega uma chamada à Distrital oriunda da sede da secção do Centro Histórico do Porto, a questionar por que motivo não havia sido distribuída nenhuma campanha como era hábito. O inquiridor era um indivíduo com sotaque brasileiro, e a sede do Centro Histórico era mais conhecida pelo seu bar (tipo tasco), que pelo trabalho político ali realizado. E era uma secção pouco activa. Motivo pelo qual não era muito conhecida, nem merecedora de grandes créditos. Então surge a resposta, seca e dura, por parte da pessoa que atende o telefone: “Se quer material pegue nas perninhas e venha cá buscá-lo”, ao qual se seguiu uma contra resposta que deixou o interlocutor distrital perfeitamente mudo… Entretanto entram na sala em que a conversa decorreu as duas pessoas, uma das quais eu próprio, que andavam no Panda sobrevivente à condução de Pinto Lobão, e que, por causa das circunstâncias da campanha, conheciam todas as sedes do distrito e respectivos responsáveis. De imediato é-nos perguntado pelo Director Distrital da Campanha, Marco António Costa, se conhecíamos um indivíduo com sotaque brasileiro do Centro Histórico. Como a resposta foi positiva, seguiu-se a segunda questão: “E como é que ele é?”. Ao qual a resposta foi: “É um tipo porreiro, só é pena não ter pernas…” A resposta dada veio confirmar os piores medos de quem a tinha feito. E então confirmou que aquilo que tinha ouvido no telefonema era verdade, o nosso Brasileiro tinha simplesmente respondido: “Oh cara… Mas eu não tenho pernas!...”. Então, e até ao final dessa campanha, só o Centro Histórico é que teve direito a receber a propaganda na sua sede.

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Ruídos indesejados… Ainda na campanha de 1995, numa viagem entre Valongo e Ermesinde, pela estrada que atravessa a Serra da Valongo, o carro de som da JSD (que para não variar, era um Panda) seguia apressado, e atrasado para uma acção de campanha na cidade de Ermesinde. A amplificação sonora ia desligada e a meio do caminho, o insólito acontece. Ao longo da estrada, no lugar da Formiga, em pleno meio citadino, um rebanho com mais de duas centenas de ovelhas seguia vagarosamente em direcção ao centro da cidade, ocupando toda a faixa de rodagem. Mas como o atraso era grande, o carro tenta contornar o rebanho, mas sem sucesso, pois este ocupava as duas faixas de rodagem. E eis que me surge uma ideia brilhante… O carro de som que seguia lentamente na retaguarda do rebanho, pura e simplesmente, liga a amplificação sonora no máximo, numa tentativa de causar medo aos animais e pusesse o rebanho em fuga, logo a andar mais depressa. A emenda foi pior que o soneto, e as ovelhas em vez se manterem em grupo ordenado, fugiram em vária direcções, paralisando totalmente todo o tráfego. Era ver ovelhas espalhadas pelo meio do trânsito, e o pastor aos saltos a barafustar e a insultar os tripulantes do carro. Passados uns bons minutos, lá conseguiu o pastor reordenar as ovelhas e a caravana seguiu em marcha lenta atrás do rebanho, com o pastor olhando de soslaio para o carro de som e marcando o ritmo com o cajado!... É claro que a partir desse momento não houve condições quer para fazer a ultrapassagem, quer para ousar em voltar a ligar a amplificação sonora, pelo que lá seguimos ao ritmo do rebanho, até este, passados algumas centenas de metros seguir por um caminho paralelo, e permitir seguir a viagem de forma mais apressada.

Passados uns dias, em Vila do Conde, lá seguia o mesmo Panda, com a mesma amplificação, e os mesmos tripulantes e deparam-se com uma nova barreira que ocupava a estada.

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Mas desta vez, em vez de ovelhas eram automóveis que seguiam lentamente, em grande número e pelo centro da rua da Junqueira, principal artéria das Caxinas. Sugerindo ao condutor tratar-se de um habitual congestionamento de trânsito. Ora como o objectivo era o de fazer campanha, não seria grande problema e lá continuamos atrás do grupo com o som bem alto, até sermos interrompidos, segundos depois por uma pessoa que sai do passeio e se dirige a nós. Chegado à beira do vidro apenas diz: “Oiçam lá, eu até sou dos vossos, mas vocês vão atrás de um funeral!...” De imediato foi desligada a amplificação, pedidas as desculpas e seguimos para outras paragens..

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O condutor encartado Na Campanha para as presidenciais de 1996, todo o Partido se esforçava pela eleição de Cavaco Silva. Na Maia, uma das missões que estava entregue à JSD era a coordenação do carro de campanha (devidamente equipado com amplificação sonora). O Director de Campanha Concelhio indicado pelo PSD, António Peixoto, lembrou-se de iniciar um conjunto de circuitos com o dito carro, pelas zonas mais habitadas, entre as 20H30 às 22H00, e pediu à JSD para tratar disso. A resposta dos dirigentes de então foi um redondo “Não”, exactamente por se tratar da hora de jantar, que era uma hora para estar com a família e nunca para campanhas. Aliás até se poderia tornar incomodativo e contraproducente. E o problema é esquecido, até que, a 3 dias do final da campanha a JSD é chamada ao director de campanha, que pede a chave do carro porque, por iniciativa própria, tinha conseguido um condutor para fazer o horário de jantar. Como a ordem vinha de cima, às 18H00 lá foi entregue ao Director de Campanha o carro e respectiva chave, pela JSD, cujos elementos permaneceram na sede de campanha mais algum tempo e depois foram jantar. Quando voltaram do jantar, depararam-se com o Director de Campanha com olhos arregalados a perguntar se o motorista por ele arranjado tinha carta de condução. A resposta foi uníssono “Não”. Então o director continua: “mas ele é da JSD, vocês confiam nele?” Apercebendo-se que estava descoberta a identidade do dito condutor mistério, a resposta dada foi a seguinte “sim, confiamos, mas para subir aos postes, não para conduzir carros” Entretanto um outro elemento do Partido conta a história que se tinha passado à hora de jantar. Um telefonema havia chegado, a avisar que o “condutor” do carro de campanha o tinha desfeito contra um muro.

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Entretanto António Peixoto só dizia: “O que é que eu vou dizer ao Sr. Luciano Gomes?” (Presidente do Partido) ao qual, já perdidos de riso, alguém responde “Ajoelhe-se e peça humildemente perdão” Entretanto vão chegando alguns militantes da JSD a quem se vai contando o sucedido, até um comentar “Tudo bem! Foi inconsciente. Mas mais inconsciente foi quem lhe passou o carro para as mãos”. O nosso Director transpirava por todos os poros… Finalmente foram ver e o carro ao local onde este se encontrava. Pura e simplesmente se tinha enfaixado num muro, que acabaria por derrubar e estava pronto para ir para a sucata. O condutor estava a um canto, e antes de perguntar se estava bem ou magoado, António Peixoto, ainda com uma restes de esperança pergunta: “mas tu tens carta ou não”, ao qual o condutor ingenuamente responde “porquê? É preciso?”.

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Conclusão Este pequeno trabalho foi executado no âmbito do Concurso sobre a história da JSD, lançado no encerramento do XVIII congresso nacional do PSD no Fundão, a 20 de Março de 2005. Apesar de ter colaborado com o trabalho apresentado pela Distrital do Porto, (para os Contributos regionais / distritais), decidi concorrer, ou melhor dar a minha contribuição na parte dos contributos individuais, porque considero que a participação de todos é mais do que uma vontade individual, deve ser quase como uma obrigação. Pelo menos para quem diz que sente e vive a JSD. Assim, decidi escrever algumas das minhas memórias pessoais ao sabor da pena, ou por outras palavras, contar histórias que comigo se passaram, ou que me tenham um dia contado outros militantes. Não escrevi sobre nada muito importante para uma história de nível nacional, tentei antes recuperar alguns episódios isolados, mas verdadeiros, que embora sem grande interesse colectivo, continuam a ser comentados com saudade e boa disposição por quem as viveu. Foi quase como uma pequena monografia intimista, sobre pessoas e acontecimentos que ficaram perdidos no tempo, e que nunca tiveram dimensão ou prospecção dos grandes líderes ou dos grandes acontecimentos. Mas e como foi referido na carta de Carlos Coelho do dia 15 de Abril de 2005, um documento que tentou reflectir a riqueza da expressão da JSD em todo o país, prestando homenagem a alguns protagonistas diluídos no tempo e acontecimentos esquecidos da memória colectiva, por, aparentemente, e tirando os seus protagonistas, não serem relevantes. Foram estas algumas das minhas histórias, algumas das minhas muitas aventuras no mundo da JSD. Espero que tenham gostado da leitura, e que de alguma forma tenha dado o meu contributo individual e muito pessoal para uma grande história colectiva.

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Índice Introdução ……………………………………………………………………… 03 Um traseiro do PPD ………………………………………………………….. 05 O Pontapé na Urna …………………………………………………………… 07 Perseguição Ruidosa ………………………………………………………… 09 Eu voto no óleo Fula …………………………..…………………………….. 11 Três Tristes Pandas, e um Pinto… Lobão ……………………………….. 13 Campanha para o Centro Histórico ……………………………………….. 15 Ruídos Indesejados ………………………………………………………….. 16 O condutor encartado ……………………………………………………….. 18 Conclusão ……………………………………………………………………… 20

Dados do Autor Nome: Orlando Jorge Vieira da Silva Leal Número de Militante: 19870 Morada: Rua Bernardo Santareno, 14 – Barca / 4475-010 MAIA Telefones: 916033306 / 934263100 Fax: 229488389 E-mail: orlandoleal@netcabo.pt

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