Page 1

a borboleta universália corpo e escrevi aos prantos um minuto um dia de gato dimensão saudaçõ r entre mil folhas flor construía memória o dom da palavra o urub omem da beira insepulto o olho má a cabeça tomada casa de insetos linha poema excesso de alumínio mors et vita medo Cattleya labiata #13 mar depois da guerra requiém para e cinzeiro a repartição ausência 14 sobre os sombras pico do jara


nota editorial A Originais Reprovados chega à sua décima terceira edição e nós, do curso de Editoração da ECA-USP, não poderíamos estar mais contentes com seu lançamento. A revista é uma forma de retornarmos à comunidade uspiana o conhecimento adquirido na graduação, dando uma oportunidade a estudantes de toda a universidade de se expressarem. Em 2018, o projeto publica originais de alunas e alunos da ECA, FAU, Educação, FEA, FFLCH, IME, IQ, Psicologia, Poli – do campus de São Paulo –, da FFLCRP – Ribeirão Preto – e do IAU e IFSC – campus de São Carlos. Agradecemos a todas as autoras e autores pela confiança em nosso trabalho e esperamos que gostem do resultado!

3


sumário

4

A borboleta

16

A cabeça tomada

17

A carta que escrevi aos prantos

22

Casa de Insetos

24

Cattleya labiata

31

dimensão

32

Flor Construída

33

Insepulto

34

Mar

36

Mors et Vita

37

O Homem da Beira

41

O olho mágico

45

pico do jaraguá

49


RĂŠquiem para ela

51

Sobre os Sombras

55

Soneto para Aline

58

Termino em terceira pessoa

59

14

60

5


escolha dos editores

6

A Repartição

64

Ausência

69

cinzeiro

70

Corpo

71

Depois da Guerra (Os Rostos)

72

Excesso de alumínio

77

linha poema

79

Medo

81

Memória

84

O dom da palavra

85

O urubu

86

Por entre mil folhas

90

saudações

91


Um dia de gato

92

Um Minuto

94

Universรกlia: Medo

96

7


os autores A borboleta Raphaela Ikeuchi Letras raphaela.ikeuchi@gmail.com A cabeça tomada Joaquim Serra Letras joaquim.ferreira.neto@usp.br A carta que escrevi aos prantos AMT. Arquitetura e Urbanismo - IAU aluisio.teles3@gmail.com Casa de Insetos Lênon Guimarães Alípio Estatística lenongsa@gmail.com Cattleya labiata Gustavo Hatagima Mestrado em Educação gustavo.hatagima@gmail.com

8


dimensão Tarcísio Dias Química tarcisio.filho@usp.br Flor Construída Julia Riani Marin Psicologia - FFCLRP juliarcmarin@gmail.com Insepulto Larissa Purvinni Letras larissa.purvinni@gmail.com Mar V. M. Gonsalez Psicologia vitor.gonsalez@usp.br Mors et Vita T.K. Rodrigues Pedagogia thays.rodrigues@usp.br O Homem da Beira Pedro Vittorio Jornalismo pedrovittorio@gmail.com O olho mágico Fabio Mariano Doutorado em Design fabiomcpereira@gmail.com 9


pico do jaraguá Felipe Marcondes da Costa Letras gumpfelipe@gmail.com Réquiem para ela Mariana Barbieri Vassoler Letras marivassoler100@gmail.com Sobre os Sombras Miguel Giansante Engenharia Ambiental miguelgiansante@gmail.com Soneto para Aline Maria Eduarda Paniago Letras m.e.paniago@hotmail.com Termino em terceira pessoa Luiza Viana Letras luizav.9770@gmail.com 14 Koda Ciências Físicas e Biomoleculares - IFSC alvespedro769@usp.br

10


A Repartição Rafaella Carrilho Editoração rafaella.carrilho@usp.br Ausência Fabio Mariano Doutorado em Design fabiomcpereira@gmail.com cinzeiro Tarcísio Dias Química tarcisio.filho@usp.br Corpo Gustavo Hatagima Mestrado em Educação gustavo.hatagima@gmail.com Depois da Guerra (Os Rostos) Pedro Vittorio Jornalismo pedrovittorio@gmail.com Excesso de Alumínio Rodrigo Luis Letras rodrigoluisms@gmail.com Linha poema Carolina Mendonça Marangoni Arquitetura e Urbanismo carolina.marangoni@usp.br 11


Medo Daniel Nunes Letras dannunes63@hotmail.com Memória Gustavo Hatagima Mestrado em Educação gustavo.hatagima@gmail.com O Dom da Palavra Tarcísio Dias Química tarcisio.filho@usp.br O Urubu Joaquim Serra Letras joaquim.ferreira.neto@usp.br Por Entre Mil Folhas David Tatit Psicologia david.tatit@usp.br Saudações Felipe Marcondes da Costa Letras gumpfelipe@gmail.com Um Dia de Gato Arthur Akamine Ciências Contábeis arthur.akamine@usp.br 12


Um Minuto Rafael Lima Dalle Mulle Mestrado em Psicologia em FFCLRP dalle_mulle@hotmail.com Universalia: medo Koda CiĂŞncias FĂ­sicas e Biomoleculares - IFSC alvespedro769@usp.br

13


14


15


Uma borboleta carregando um vendaval nas asas Pousou um dia no teu ombro desnudo Para melhor apreciar as flores desabrochadas do teu jardim,

A

borb

olet

a

Flores de cores muito quentes, em brasa, Prontas para provocar um incêndio agudo Assim como os teus lábios pintados de carmim.

A borboleta, hipnotizada, de asas trêmulas, titubeou. Deveria ou não deveria? Não deveria, mas foi E voou até as flores.

16


A

CABEÇA

TOMADA

Acordou no meio da noite com as patas do bicho já perto do nariz. Que coisa era aquela? Sentia que ele se movia, mas Bernardo, que era atleta e corria todas as manhãs, não podia se mover. Já tinha ouvido falar de paralisia do sono, mas não sabia muito a respeito. Era daquelas coisas que acontecem com os outros e com que não valia a pena se preocupar. Mas agora era diferente, um artrópode nojento andava sobre sua cara com quase que total displicência. Talvez pensasse que ali fosse um objeto qualquer com alguns buracos escuros em que pudesse se acomodar e depositar ovos ou fezes ou o que fosse; essas coisas de bichos que pela distância taxonômica sempre muito pouco importou para Bernardo. Sentiu de novo as patas percorrerem, mas agora já não via o bicho, devia estar perto do pescoço e subindo lento. Bernardo não conseguia gritar, lembrava que isso acontecia pela paralisia, mas pouco importava saber, queria mesmo era chamar a mulher no quarto ao lado, ou que algum dos filhos acordasse no meio da noite como sempre faziam e no caminho da cozinha olhassem para o quarto do pai - Vitor, o mais novo, sempre o chamava para ajudá-lo a alcançar o filtro de barro porém o menino miúdo não vinha. 17


Bernardo ouvia o som da própria voz dentro de si. Sabia que não conseguia fazer com que ela saísse do corpo e se tornasse livre por aqueles cômodos de paredes brancas. A luz do abajur estava com as pilhas fracas e com essa pouca luz amarela não podia ver direito o bicho. Percorria os olhos pelos móveis, mas pouco enxergava. Via apenas as pilhas de papel que cobriam quase a mesa toda do canto. Eram as provas do fundamental que devia ter passado a noite toda corrigindo, mas, apesar do controle que aparentava, não estava com cabeça para aquilo. O motivo era uma pilha amarrada por um grampo que vinha sob todos os outros e que trazia carimbos de todos os tipos e assinaturas em várias folhas; o divórcio estava feito. Sairia da casa em poucas semanas, era apenas esperar até que o novo apartamento estivesse com o mínimo de mobília. Márcia foi paciente ao apressar a mudança. Bernardo sabia como seria, os seus pais se separaram quando ele era pequeno e se lembrava muito bem de todo o processo. Primeiro era a negação de tudo, e as brigas se acumulavam como mobília no quarto de despejo. As frases são tortas, mal intencionadas e criptografadas para espantar a atenção suspeita dos filhos – agora o bicho aparecia novamente sob o nariz. Bernardo acompanhou com os olhos, único recurso que não lhe fora tirado, e viu quando o bicho entrou de uma vez. Sentiu por dentro uma coceira leve, talvez fosse pela paralisia amenizada e só chegava aos sentidos um reflexo turvo do que realmente sentia. O bicho saiu. Bernardo viu o rastro melecado que ele deixava nas pontas duplas de seus bigodes. Lamentou não ter um daqueles bigodes fartos que tampam o nariz – feito o do tio Manuel –, aquele que quando era pequeno sempre perguntava ao pai como é que o tio Manuel conseguia respirar. Não se sabe se pelo teor pegajoso do musgo pregado nas patas ou por habilidade natural, agora o bicho andava de lado contornando a maçã do rosto de Bernardo até parar muito perto do canto do olho. Alguns poucos filetes de luz deixavam 18


que Bernardo visse uma penugem macia que cobria o que seria o queixo do bicho. Do que seria o nariz, seguia uma haste que se bifurcava em dois ferrões, que feito um alicate em uso, remexiam ora simulando um corte perfeito, ora parando na metade. Para Bernardo, esse controle parecia ainda mais asqueroso. Fitou aqueles olhos geométricos e por instinto fechou os seus. Quando abriu já não sabia onde o bicho estava. Olhou em volta e tudo que via eram as pilhas de papel. Talvez tenha ido embora. Tão rápido pensou e já sentiu uma pressão no ouvido direito; o bicho ia entrando. “Preciso fazer alguma coisa”, disse, mas sabia que só podia ser ouvido por si mesmo. Tentou mover as pernas que tentava acompanhar com os olhos. Mas via apenas os dois montes que os joelhos quase flexionados faziam no cobertor. Nada. Qualquer movimento era frustrante e causava ainda mais pânico no movimento que tentava a seguir. “O jeito mesmo é esperar”. Deixou com que os sentidos não apelassem a nenhum membro. Sentiu-se relaxado. Apenas sentia que o bicho cavoucava sem destino certo. Era muito grande, não passava no canal e metade do corpo se quedava e puxava a parte da frente para cair duro no pavilhão auditivo. Depois disso as pernas frouxas pelo exercício tateavam a subida. As patas traseiras se alongavam como nunca para alcançar e suportar o peso que a pressão do canal fazia para expulsar o bicho. Bernardo seguia sem poder ver cada investida do bicho. Quando sentia que ele estava ganhando espaço, apertava os olhos o mais forte que podia para tentar causar algum dano à investida. Ficaram assim por um tempo que pareceu longo para Bernardo. Quando silenciou a pressão por um breve período e ele correu com os olhos para tentar alcançar o bicho, teve uma surpresa – espantosa mesmo sem qualquer contração nos músculos do rosto –, o bicho ganhava novamente espaço em uma de suas narinas. Dessa vez, ou pela mucosa que ganhara nos orifícios, 19


ou pela real força que trazia, o bicho conseguiu penetrar e Bernardo apenas acompanhava a cartilagem do nariz ondular. Tentou novamente mover os músculos que não respondiam a seus comandos. Pensou que poderia ficar assim como estátua pelo resto da vida e viriam outros bichos e sabe-se lá o que mais viria. Via as duas patas traseiras esticadas que chegavam a se confundir com os bigodes; depois não viu mais nada. O desgraçado entrou. Não sentia mais nada, pegada ou deslize que fosse. Poderia ter sufocado? Bernardo tentava não respirar ou apressar a respiração. Mas nada conseguia. Um tempo se passou sem que ele sentisse movimento que fosse. Poderia ter engolido o bicho? Os olhos revirados e vidrados procuravam no quarto como se eles pudessem encontrar alguma chave para o acontecido. Mas sempre voltavam para a mesma pilha de papel. Os papéis do divórcio estavam ali e o lembravam de como fora difícil receber aquilo. Já não dormia com a mulher há alguns anos pela rotina que levava, mas não era para tanto. Para quê o divórcio? Logo as coisas iriam se acalmar, Bernardo dizia à mulher, mas para ela a espera matava aos poucos o pouco que ainda sentia. “Foi duro ouvir isso”, Bernardo respondeu. E ela dava de ombros e fazia sequer que estava ali, como se fosse muito ter que explicar-se. Isso o incomodava e o tirava do sério a ponto de dizer nas últimas semanas que merda nenhuma assinaria porque não se resolve nada no fogo do instante – algum poeta disse e ele repetia. “Mesmo que disse pode ser mentira”, disse Márcia sorrindo. Sabia que Bernardo preferiu sempre os números às letras. E os meninos, como ficariam? Cresceriam sem o pai em casa, ou com alguém que fosse para sempre um estranho, que só de pensar corria-lhe um veneno pelas artérias que fazia a cabeça explodir. Mas nos últimos dias vinha pensando nos meninos, que brincavam sem preocupação. Claro que com um faro 20


aguçado para as conversas dos pais que pareciam agora dois estranhos que nunca se tocavam. “Está subindo...”, mal pôde dizer e o canto da boca foi escancarado às pressas pela selvageria de um corpo volumoso. O bicho parou na metade, como que para tomar fôlego. As patas dianteiras zanzavam pelos lábios finos, mas foi no espesso bigode que encontraram força para continuar sua marcha. Totalmente para fora, balançou o corpo ágil, flexionou as patas e pulou. Bernardo acompanhou o movimento e viu quando o bicho saltava pela fresta da janela. Pouco tempo se passou até sentir o nariz coçar e subir uma das mãos. Não comemorou a volta dos movimentos porque o vulto das coisas já agia sobre as memórias e Bernardo mal se dava conta – como sempre acontece – de que era tragado para o sono profundo. Levantou cedo, antes do despertador de pilhas fracas arrastar seu som baixo e melancólico pelo quarto. Sentou-se na mesa com os olhos fixos na pilha de papel. Tentou puxar os últimos, mas, como se estivessem colados, trouxe metade da pilha e a outra parte ameaçou cair para trás. Assinou as oito páginas e soltou o corpo na cadeira como se tirasse um peso que o mantinha sempre arqueado. Deixaria a casa o quanto antes, tomaria o café que teria outro gosto.

21


A carta que escrevi aos prantos Estou cansado de ser aceito e tolerado Eu quero ser igual Quero ser naturalizado. Quero ser igual aos meus irmãos héteros, Pai. Quero ser orgulho como eles quando casar, Mãe. Quero poder dizer o que sinto Quero compartilhar minha vida amorosa Quero ser conhecido por vocês, Receber um telefonema Numa tarde de sexta-feira E vocês perguntarem Como vai o meu amor. E vocês contarem o que acharam Do meu namorado. Quero, acima de tudo, ser acolhido Ser abraçado, por quem eu sou Não me deixem, por favor, Viver minha vida sozinho. Não me deixem chorar sozinho Se meu relacionamento acabar. Não evitem esse assunto na mesa. Não excluam meu parceiro da família. 22


Não me vejam como antinatural Não me vejam como quem tem menos Moral. Não sou mais pervertido que as outras pessoas. Não sou doente. Não me inflamei de paixão por outro homem Do dia pra noite e Escolhi ser gay. Eu apenas amo, pais, Como qualquer outro ser humano Que ama e precisa ser amado, Integralmente, Que sente e precisa sentir Ser sentido. Então peço a vocês, Não me olhem com esse filtro Me acolham como pais Que sou filho, como qualquer outro Me apoiem na minha condição, Nas minhas escolhas. Esse é meu último pedido, O mais difícil deles, Mas o único que realmente Importa.

23


Casa de Insetos Começou com uma pequena fila de formigas, cada uma menor que a ponta de um alfinete. Lutavam para carregar alguns farelos de pão parede acima, e Amanda só as viu, invisíveis entre as frestas dos azulejos, pois quase desmaiara sobre elas em seu insone vagar pela cozinha. Observou sua laboriosa batalha por toda a madrugada, mas adormeceu antes que houvessem terminado a jornada até a oculta entrada de sua colônia. Quando acordou, muitas horas depois, ainda sentada no chão da cozinha, percebeu que elas continuavam sua escalada, não se movendo senão alguns poucos centímetros de onde estavam antes de adormecer. Passou as próximas madrugadas acompanhando sua marcha incessante e obstinada. Quando anoitecia, errava pela casa sem direção e invariavelmente acabava de volta à cozinha, onde observava as pequenas formigas arrastarem-se pela parede até o sol nascer. Nos primeiros dias, ainda ia ao trabalho; chegava exausta, e várias vezes tinha que se esconder no banheiro para recompor-se. Contudo, sem forças para se pôr de pé quando chegava a hora de ir, começou a faltar ao serviço. Seu chefe lhe deu duas semanas de folga; disse-lhe que ele e todos os 24


outros estavam ali para o que ela precisasse, e pediu-lhe que ficasse bem. Amanda pensou em viajar, usar aqueles dias para afastar-se de tudo – especialmente de si mesma. Aceitou o convite da mãe para visitá-la, mas no dia da viagem inventou um mal-estar e ficou em casa, perambulando por entre as formigas e os farelos. A primeira coisa que percebeu foi que não era apenas um grupo de formigas, mas vários, que emergiam de uma centena de pequenos buracos nas paredes assim que anoitecia, cada um deles entrava para o que Amanda não sabia dizer se eram várias colônias ou apenas uma gigantesca a estender-se por toda a casa. Carregavam tudo, de lixo inorgânico a restos de comida, cada vez mais abundantes na cozinha há tanto tempo não lavada. Houve dias em que, deitada por horas no chão frio e sujo, podia senti-las sob si, carregando seu corpo, milímetro a milímetro, em direção a algo para o qual, agora via, sempre esteve fadada. Não tardou a conseguir diferenciá-las umas das outras. Eram todas minúsculas, iguais em sua pequenez, mas havia as que só apareciam a partir das três da manhã e se moviam sempre em linha reta, as que ziguezagueavam pelo teto das cinco às seis, traçando padrões arcanos e ininteligíveis, as que davam voltas em torno de um mesmo ponto por várias horas e pareciam sequer buscar por comida, e outra infinidade de grupos comportamentais, cada uma com suas obsedantes particularidades. E todas, pouco a pouco, consumiram o ambiente ao seu redor, saturando o ar e o mundo com sua presença. Ao fim da primeira semana já não eram só formigas: moscas e pernilongos dos mais diversos voavam pela cozinha, suas sombras oscilando gigantescas pelas paredes. Zuniam ao seu redor em voos cada vez mais rentes, mordendo sua carne com cada vez mais fúria. Amanda, na maior parte do tempo, caída e sem forças no chão da cozinha, deixava que consumissem-na; algo na dor a fazia se sentir bem. Certa noite, ela viu um grupo 25


de formigas lutando contra uma vespa em uma batalha incompreensível e visceral, e botou sua mão entre elas, permitindo que a picassem até que seus dedos estivessem inchados. Alguns dias antes de ter que voltar ao trabalho, uma amiga foi visitá-la. Disse que coincidentemente estava nas redondezas e resolveu parar ali por um minuto, mas Amanda sabia que aquilo não era verdade, e em um assomo de injustificada petulância convidou-a a se sentar na cozinha, onde, apesar de estarem escondidos os insetos, ocultos nas frestas e nas colônias à espera da madrugada, vigorava ainda seu indelével estigma de podridão. Conversaram pouco, uma conversa de risos forçados e respostas prontas e a mulher, incomodada, foi embora sem fazer nenhuma das perguntas que queria e deveria ter feito. Passadas as duas semanas, voltou ao serviço aparentando uma revigorada disposição, e foi recebida com um bom humor cauteloso e preocupado. Amanda não se lembrava de muito do que acontecera naquele dia. Quando foi embora, disseram-lhe que não precisava voltar na manhã seguinte, ou em qualquer outra. No caminho para casa, viu uma mulher muito bonita, de talvez trinta, trinta e cinco anos, mexendo compenetrada em seu celular, com uma criança a chorar timidamente ao seu lado, que puxava seu braço e tentava chamar sua atenção. Sentiu que havia ali algo cujo significado, muito maior que si, escapava-lhe, e por muito tempo revisitou o choro da criança e a distância da mulher em busca dessa explicação fundamental que escondiam, mesmo sabendo que era provável ter apenas as imaginado em um de seus devaneios cada vez mais indistinguíveis da realidade. Depois daquilo, ficou muito tempo sem sair de casa. Passava as noites se arrastando pelos corredores, perdida em meio à revoada de insetos que assolavam não mais apenas a cozinha, mas todos os cômodos da casa, e, ao amanhecer, desabava onde quer que estivesse, caindo em um sono inquie26


to e sem sonhos do qual despertava somente quando o sol se punha, tão cansada quanto estava antes de adormecer, para repetir o mesmo itinerário da noite anterior, em um vagar contínuo e interminável pelas formigas, baratas, percevejos, e todos os demais insetos que iam surgindo em número cada vez maior a cada novo dia. Existir reduziu-se a uma mesma sequência de passos e respiros, desprovidos de qualquer razão senão a de pô-la cada vez mais próxima de um óbvio e incompreensível desfecho. De pouco a pouco, as pequenas coisas da vida começaram a deixar de fazer sentido. A casa já não tinha por que ser lavada – ninguém senão ela entraria ali. O lixo e a sujeira logo tomaram proporções inaceitáveis para uma pessoa normal, sem que isso causasse a ela qualquer incômodo. Banhar-se tampouco se fazia necessário. Passava vários dias sem se lavar, e, quando o fazia, era apenas devido ao temporário e, cada vez mais, fugidio alívio que tirava da água escaldante do chuveiro ao cair sobre suas costas. Não tinha apetite; comia muito pouco, não mais do que o necessário para não morrer. Uma noite, perdida entre o sono e o desespero, apanhou um inseto disforme que voava sobre sua cabeça e o pôs dentro da boca, mastigando-o com voracidade e sofreguidão. Vomitou por toda a madrugada, sem que o gosto de fel deixasse suas entranhas. Saía de casa não mais do que duas vezes por semana, sempre de madrugada, e apenas quando estritamente necessário, fosse para comprar algumas bolachas, que lhe serviam de alimento por vários dias, ou para fugir momentaneamente dos insetos – quando, numerosos demais, peçonhentos demais, tornava-se impossível respirar –, apenas para perceber que sua desgraça já havia se expandido para muito além das quatro paredes de sua casa. Em uma dessas saídas, deparouse com uma mulher a chorar na calçada, fugindo dos próprios insetos, com um pequeno gato a miar desesperadamente a 27


seus pés. Pareceu-lhe que um dia já havia a conhecido, e por ver nela a mesma fuga que havia em si, aproximou-se, quase sem se dar conta do que estava fazendo. Cumprimentaram-se, trocaram as mentiras usuais, e a mulher contou-lhe que se sentia mais triste do que nunca, que seu filho havia fugido de casa para casar-se com uma garota no Sul, e que agora ela estava sozinha, realmente sozinha, pois já não era jovem e não havia mais ninguém ao seu lado. Contou-lhe que já tinha sido feliz, que tivera incontáveis amigos e incontáveis amores, que havia dançado e sorrido, que havia se lançado em cada vazia jornada como se houvesse nelas algo mais do que apenas um momentâneo prazer, que nunca pensara para além de seus sonhos sem sentido e sorrisos sem razão, e que sempre tivera a certeza de que um dia pagaria por toda essa negligente e desmesurada alegria, que finalmente esse dia havia chegado e agora não sabia o que fazer. Contou-lhe que o filho deixara para trás seu gato ao ir embora, este que agora chorava aos seus pés, e que o animal sentia tanto sua falta quanto ela própria, miando desesperadamente todas as noites na casa insuportavelmente vazia. Contou-lhe que não conseguia mais dormir, e que viera até ali para abandoná-lo, mas que não tinha coragem de fazê-lo. Contou-lhe que pensava em se matar. E tudo aquilo Amanda ouviu com a empatia de quem compreendia sua dor e a distância de quem sabia que não tinha nada que poderia fazer. E assim conversaram um pouco mais, despediram-se, e Amanda voltou para seus próprios insetos, que pareciam corroer a casa com redobrado vigor. Não saberia dizer quanto tempo se passou até finalmente sucumbir ao peso de seu desalento. Como acontece àquele que desiste de si mesmo, eventualmente ruiu seu frio estoicismo ante a própria ruína, e Amanda viu-se enfim sozinha, presa em um corpo macilento e sujo, distante de tudo aquilo que talvez pudesse lhe fazer feliz. A casa, já há muito completamente tomada pelos insetos, decompunha-se, e a mulher não 28


precisava olhar para fora para saber que as colônias, e todas as pestilentas e disformes criaturas que nelas se escondiam, haviam tomado a terra, os céus, e cada desconhecido paraíso que um dia podia tê-la salvado. Quando sua mãe, em uma fortuita e desesperada chamada telefônica, percebeu o que estava acontecendo, já era tarde demais. Amanda, jogada sobre o chão, ouvia sua voz distante, chorando-lhe coisas que não compreendia, enquanto acima de si o teto, vergado sob o peso de tantos insetos e vapores, fazia-se cada vez mais próximo, prestes a desabar sobre ela com tudo aquilo que se escondia nos invisíveis labirintos de sua solidão. *** Só a muito custo reconheceu-a sentada ali, em um banco afastado da praça, seu olhar perdido e turvado, alheia à multidão que girava ao seu redor. Estava muito diferente do que se lembrava. Aproximou-se devagar, observando-a de longe e quando finalmente convenceu-se de que de fato era Amanda, foi até ela, sorrindo animada e cumprimentando-a com a típica proximidade das grandes amigas. Abraçaramse, fez um comentário sobre há quantos anos não se viam e perguntou-lhe como andava a vida, para só então perceber que Amanda não se lembrava de quem ela era. Surpresa e um pouco embaraçada, apresentou-se e disse de onde se conheciam. Amanda apenas sorriu e assentiu, sem nada dizer. Perguntou-lhe o que estava fazendo ali, e Amanda disselhe que havia acabado de sair de uma entrevista de emprego, e não sabia como voltar para casa. Disse-lhe que, enquanto vagava sem direção, chegou àquela praça e lembrou-se de que antigamente gostava de ir até ali ver as crianças se divertirem. Acalmava-a a despreocupada alegria com que brincavam, mas hoje não havia nenhuma criança, apenas aquela multidão a correr e gritar à sua volta. “É por causa do jogo. Hoje é a final”, 29


disse-lhe, mas viu em seu olhar vazio que Amanda não tinha ideia do que estava falando. Estranhou que ela tivesse ido a uma entrevista vestida como estava, com um roupão amassado e velho que nada tinha de apropriado para a ocasião. Perguntou-lhe para que tipo de trabalho foi a entrevista, mas ela não soube responder; disse que simplesmente haviam-na chamado e ela fora, mesmo não se lembrando de ter se candidatado para nada. Ao redor, a multidão entoava hinos e gritava alegres obscenidades. Amanda os observava em silêncio, sem parecer realmente enxergá-los. Ficaram ali, uma perdida em impenetráveis vazios, a outra sentindo que devia dizer algo, mas sem saber o quê, até Amanda erguer-se e, com um aceno rápido e um sorriso curto e involuntário, despedir-se, dizendo que tinha que ir embora. Com passos hesitantes e confusos, afastou-se antes que a outra pudesse impedi-la. Quando já quase perdida na multidão, parou e voltou-se para a mulher. Ficou a observá-la por um momento, com algo incompreensível a gritar por detrás de seus olhos, aguardando por algo que nunca veio, e que nunca viria, para então retomar seu caminho e desaparecer.

30

C


Cattleya labiata Funda sobre o outro sua estrutura. Coluna de um templo verde coriáceo. No planalto do ar eleva-se ereta floresta mínima. Disponível ao olho desabrocha em si testículos de púrpura pele que nos alicia. Inflorescência da nua escultura.

31


D

I

M E n s ~ Ã O 32

o tempo do hoje correvoadecolaplainaaterrissa. os segundos passam à volta do relógio, um... dois... três. o horário se esvai no círculo que o constringe, perco o passado que voa livre e se limita à rocha ancorada do futuro. o ontem, embora pétreo, já encontrou sua razão de ser nos limites do dia, enclausurou-se na sua possibilidade finita de ter sido e ponto final. o passado é um pássaro livre, que, na meia-hora, na hora inteira, (sessenta minutos), dançou a valsa de tantos minutos, mas pôde ter sido também a tormenta de tantos anos. o futuro, ancorado no cais do infinito, embora plural, não tem tempo de ser. não se limita ao um... dois... três... e seu decreto máximo, irremediável e impossível, estende-seaolongodoverso ou impõe-se num súbito ponto final imprevisível.


A palavra que entra e sai titubeia em meus lábios Escapa para a ponta dos meus dedos quando passo a mão por [meu cabelo Escorre pelos fios, cai em meus ombros Vem se alojar em minha clavícula Se enrosca em minhas roupas Vai caindo aos poucos E escorregando chega ao chão Sigo em frente sem perceber Mas logo alguém a apanha Como uma flor murcha no chão Ela se enrosca, se esgueira Se embrenha em uma nova pessoa E com o tempo vai ao chão novamente Mas pouco importa Flor bonita, mesmo quando murcha, chama a atenção Um outro alguém há de pegá-la do chão E colocá-la na cabeça Até que escorregue novamente

Flor Construída 33


In Se Um amor sem corpo é como um cadáver ao qual não se prestaram honras fúnebres Vaga sem rumo, sem casa, assombra os vivos, não descansa jamais Interfere nas histórias como um segredo que se revela em tragédias ou farsas Aviso de Cassandra sem eco nem providências humanas ou divinas Um amor sem corpo não deixa passos no averno Visita um a um os círculos do inferno Um amor sem corpo é, dos amores todos, o único que restará eterno

34


pul to Chama sem pira funerária Cinzas não recolhidas A moeda que falta Sem Caronte nem Letes Sem redenção Sem nostos, sem glória Quisera te deixar partir Fazer o luto, sofrer Mas teu corpo vaga sem sepultura, seu fantasma divide meu leito Vivo no meu desejo que não tem como ter paz

35


A existência sobre si se agita, Dissolvendo-se as ondas ao se criar Em sua própria imensidão. Imerso em mim, sinto-me tocar, Pelas águas frias da percepção, Minha alma, em cada gota envolta. A realidade se revela acima Na superfície de minha forma. Sua luz por mim perpassa Sem, porém, revelar de seu véu A mais profunda fossa. Do mundo, reflito o céu Sem nunca o absorver: Tal é meu ser em viver. Meus motivos seguem as ondas Que se derramam sobre o mar. Sem jamais encontrar as praias, As ondas vão sobre si desaguar Na imensidão do meu significado: Tais são meus pensamentos ventando. Quando a tempestade vem As ondas se agitam furiosas E as águas se fazem cinzas. Daqueles barcos que navegam este mar Restam aqueles em que se respira A dor de cada raio colérico E o sal, das águas que os invadem, Feito de sangue a chorar. A angústia pulsante em ira De frequência a se esgotar no vácuo. 36

Mar


Mors et Vita 37


O último pulsar é sentido no instante em que o bipe da máquina declara a pulsação fraca. Os rostos ao seu redor, embaçados, parecem mergulhar na mais densa tensão, mas nada disso parece chegar perto de onde você se encontra. A preocupação com a criança que vinha para o mundo desaparece assim que seu choro surge no fundo de sua mente. E é nesse instante de súbita compreensão que a paz a domina e... Escuridão? Não. Não é escuridão. Nesse momento, me percebo. Eu existo e estou ali, ainda que eu não consiga ver meu corpo, minha composição material. Sou apenas alma. Existo. Olho para os lados. Está escuro, mas não é escuridão porque escuridão é gelada, impalpável. Ali é o algo. O algo no escuro, mas principalmente o algo. Busco o ar, mas sinto-o passando por mim, abandonando-me porque de súbito vejo que não preciso dele. Eu inexisto, mesmo existindo, afinal não preciso alimentar o corpo. Ele foi descartado. E ali estou eu, o nada, por ali fico à espera do que ocorrerá. Passa um segundo? Um minuto? Uma hora? Não sei. Apenas sei que a tranquilidade me envolve. Estou nu de intenções, benefícios e malefícios. Se tenho mente, não sei. E diante de uma fagulha que a clareza me proporciona, vejo a aproximação da silhueta de uma pessoa. Uma pessoa. Não como eu fui, porém, uma pessoa. Percebo-me a encará-la, pequeno, diminuto, infame e humilde. O que quer que eu havia sido no passado, já não importa, pois passado, presente e futuro se fundem no agora. Sinto a paz. Olho para o rosto familiar, a sensação de conhecimento quase tocável se não fosse pelo misto de memórias e coisas das quais provei em todas as minhas existências até 38


este exato momento. Quem é? O que faz e o que quer? Os globos que compõem os olhos trazem a sensação do horizonte de uma terra que um dia visitei. São azuis e brilham sozinhos. A pele é clara. Os lábios finos e róseos. O rosto longo, afinado. A pessoa se aproxima em sua altura e daquele ponto vejo apenas o seu abdômen coberto por uma roupagem elegante. Sua mão vem em minha direção e eu a recebo. Parecemo-nos mago e feitiço. Um globo de magia na palma de seu bruxo conjurador. O sujeito me encara, olhos analíticos. Aproxima-me de si, quase que a beijar a inexistente superfície do núcleo de energia que é minha alma condensada. Percebo-me essencial para ele, mas no fundo iludo-me com aquele ar apaixonante que muito certamente, em outro mundo, ele confundiria qualquer outro ser. Conforme me ergue para enxergar-me, na ponta de seus dígitos, sorri de leve o mais galanteador dos sorrisos. Movo meu campo de visão para baixo e vejo que a mão alva e esquerda de meu manuseador carrega uma saca com vários outros pontos de luz. Infindáveis. Percebo-me neles também. E ouço lembranças que não são minhas. Sinto as suas melancolias. Volto-me para meu companheiro, atenção completa em suas ações. Colocará aquela peça, o Eu, junto dos outros? Soltar-me-á ao infinito para que eu me perca, sem destino? Há de devolver-me? Se sim, sou indigno? Não compreendo, ainda que saiba o que se passa. A mão que me segura abaixa e, em um momento, vejo em seus lábios o mais amoroso dos sorrisos. E no instante seguinte, voou para longe da presença, do rosto angelical, dos cabelos louros escuros. Rodopio, deslizo para o infinito.

39


Acorda. Lá está você diante de um rosto tão familiar. O sorriso no rosto indica que alguém está realmente feliz em te ver. A combinação de elementos, no entanto, parece estranha, disforme; uma salada completa de cheiros, sensações, barulhos que levam você a sentir o medo. O mais puro, o mais intenso medo. Você chora. Os berros que saltam de sua garganta parecem anunciar o fim do mundo. Não quer saber se o ambiente mergulha em alegria, você apenas compreende que as luzes fortes querem acabar com aquela faísca que era a vida. E por isso você chora. Contudo, ao perceber o seio perto de si, o riso fácil de alguém que você tem certeza conhecer de algum lugar, a calmaria chega. Seus olhos vão na direção daquele sorriso doce, estranhando, e então depara-se com o rosto angelical da mulher que, naquele instante, te deu vida. A mesma por quem você morreu alguns anos antes ao dar luz. Luz. Vida. Morte. E num súbito eu te tiro as lembranças. E você volta a chorar.

40


O Homem da Beira Vagava por aí há tanto tempo que só podia crer que o meu caminho seria dor e caos e os pés cansados. Mas antes que pudesse recordar-me, olhei ao meu redor: um mato verde calcado por pequenos olhos tristes que, tão desamparados quanto eu, fitavam como quem quer um pedaço. Senti um cheiro vivo, e a cada passo quebrava alguma folha seca. Os pássaros gritavam em algum lugar distante, sentia quase o peso do ar úmido. Então andei, quem sabe por inércia, andei, como quem anda sem motivo, mas com a estranha sensação de tê-lo, apenas não podendo ter acesso; no entanto, estava lá, pois eu sentia, borrado e indefinido, mas presente. Num átimo, aguçaram-se os sentidos: à frente, um grande abismo; acima, o sol; ao lado, apenas grama verde e curta. 41


Andei, talvez tentando contorná-lo - pois vi que do outro lado havia vida, outra floresta como a que eu estava, outro caminho em que pudesse andar. Segui, e após quem sabe um par de horas, olhei e vi à minha frente inúmeras estreitas pontes de madeira e corda. Enquanto protegia a minha fronte de raios tão potentes como flechas, singrava aquela orla e observava as pontes que levavam a outro lado. Mantive o meu olhar no lado esquerdo, a mão nos olhos, sobrancelha rota. Meu pé direito tropeçou num galho, fazendo com que o todo desabasse. Quando tentava levantar meu corpo, meus olhos levantaram, então viram um homem de boné sentado, inerte, olhando fixamente à sua frente. Aproximei-me mudo deste homem que olhava o outro lado. Tive medo mesclado com vontade de saber quem mais podia haver naqueles cantos sem vida humana. Então me sentei próximo. — Pra onde você olha? — perguntei. — Eu olho pros caminhos que não escolhi, — respondeu. — Pedi pros céus que me dessem o poder de olhar o futuro. Eles me negaram... Eles negaram. Ao invés, permitiram que eu visse tudo o que não aconteceu. Tudo, tudo o que não... Todos os futuros que descartei enquanto tomava cada decisão. — E quanto ao seu futuro? Você vê? — Eu posso ver tudo o que não aconteceu. Todos os futuros que descartei enquanto... Você não vai poder ver, mas após aquela ponte há um homem que ensina na universidade, toma um café saudável todos os dias e escreve coisas que as pessoas leem atentamente. Ali, então, um pai divorciado que trabalha numa loja de conveniências e coleciona aviões. Aquela, ali do fundo, é um artista em decadência que odeia seu único sucesso, uma canção qualquer. De alguma forma, olhei e estive triste por este homem triste. Em seu rosto eu vi certa agonia complacente, um tanto calma, mas desiludida, denunciada por seus olhos baços. Seus 42


braços se apoiavam em suas pernas abertas, com seus calcanhares pensos naquele abismo. E suas mãos, de aspecto gentil, mas macilentas, apertavam as coxas de maneira mole, frouxa. — Por que você não anda? — perguntei. — Você não vê? Eu andei, andei... Mas não era eu, você vê? Não, não... Você não vê. Não era eu: era ali, após aquela ponte, um professor de universidade... Ali, um pai... Ali... Eu andei, andei! — Você pode tentar qualquer caminho, pois todos levarão ao outro lado. E lá, se pode andar... — Mas eu não quero. — Então por que não volta? Há caminhos! — Eu queimei as pontes por onde vim. Eu precisava, então queimei, eu queimei, e você não vê, não vai ver, pois eu queimei. Sim. Cale-se. Cale-se. Em todo esse diálogo, o semblante do homem não mudou nem mesmo um pouco. A sua voz, rouquenha, mas exata, manteve-se constante, sempre calma. — Você pode escolher alguma ponte — eu disse após instantes de silêncio. — Eu preciso descansar. Siga a sua ponte, siga. Eu jamais te apontaria qual é, apesar de também saber. Eu vejo o seu futuro também... Mas não te apontaria. Você jamais o seguiria. Vá. Eu preciso descansar. — Mas você não... — Eu sei, eu também quero. Me deixe descansar. Preciso de alguns anos, então, quem sabe... Eu conheço todos os meus futuros, você não vê? Eu conheço todos, todos... Todos, menos o certo. Fitei seus olhos baços, mas impávidos, sem entender jamais o que ele via. Então, por mais que o sono me invadisse, por mais que a sinfonia de um instante tragasse os meus desejos e vontades, por mais que aquele homem, de algum jeito, pairasse como névoa no caminho, por mais que tantas partes 43


de meu ser quisessem se manter naquele limbo, por mais que nรฃo quisesse, levantei. E atravessei, calado, uma das pontes, atravessei sem nunca duvidar de que seria a certa. Mas chorava. Um choro doce, fluido, lento e grosso, um choro jovial e quente e calmo. E o tempo, que permeia tudo e todos, que nรณs atravessamos sem dobrar, que torna pรณ o que jรก foi estrela, o tempo se mostrou e eu tive medo. Mas sigo sempre em frente, sempre em frente...

44


o o

olho mรกgico

45


Quando Tertuliano, ao sair do apartamento, olhou, por costume, pelo olho mágico da porta, teve uma visão de si próprio tropeçando na escada. Não deu atenção à visão e seguiu para o trabalho. O elevador estava em manutenção, decidiu ir pelas escadas e tropeçou exatamente como viu acontecer pelo olho mágico. Achou graça da coincidência e seguiu. À noite, ao voltar do trabalho, assim que entrou no apartamento, curioso, olhou pelo olho mágico da porta outra vez. E teve outra visão: um acidente entre dois veículos no Largo Dois de Julho, em frente ao prédio onde morava. Balançou a cabeça e foi deitar. Às três da manhã acordou com o barulho da colisão. Uma multidão logo se reuniu na frente do prédio. Levantou-se para perscrutar pela janela e viu o acidente tal qual o olho mágico o havia antecipado. E entendeu tratar-se de um olho realmente mágico. Com o passar dos dias, as visões foram tomando corpo. O olho mágico, estava claro, mostrava acontecimentos futuros com enorme precisão. Quando se olhava do lado oposto da porta, ou seja, de fora para dentro do apartamento, era o contrário, o olho mágico mostrava algum evento passado. Tertuliano passou, então, a sair de casa já sabendo de ao menos um dos tantos eventos que lhe acometeriam ao longo do dia. A descoberta o interessava muito, pois já cogitava uma maneira de controlar o que era previsto. Imaginava, por exemplo, como seria se o olho lhe revelasse os próximos números premiados da loteria esportiva, mas não tinha meios de antecipar as previsões, muito menos de sugeri-las; ademais, todas eram banais no fim das contas, pois tratavam apenas de pequenos acidentes corriqueiros, quase sempre domésticos. De todo modo, a situação não deixava de ser interessante. 46


Com o tempo, Tertuliano percebeu também que não era possível, de posse da previsão, evitar o que era previsto. Foi assim, por exemplo, na feira do sábado. O olho mágico previu que a sacola de compras romperia e um abacaxi cairia em seu pé. Então, durante as compras, procurou evitar a seção de abacaxis, passou longe deles, desistiu até de comprar o dito cujo. Mas, voltando para casa, um misterioso abacaxi despencou do céu direto sobre o seu pé. Veio não se sabe de onde. Deve ter caído de algum apartamento... Em casa, analisou com mais calma a situação. O evento se consumou, mas não como previsto pelo olho mágico, graças à sua atitude preventiva. Logo deduziu que era possível intervir nas previsões, ainda que não fosse possível evitá-las. Continuando a análise, percebeu que, no caso do abacaxi, o evento resultou em consequências mais trágicas, uma vez que o olho não previu que um abacaxi vindo do céu o faria enfaixar o pé inteiro. Com o passar das semanas, o olho mágico parecia entender que seu observador tentava interferir nos eventos e, com isso, já incorporava às previsões tais interferências. Tertuliano, dando-se conta de que o olho era perspicaz, passou a contradizer as previsões de suas possíveis intervenções. E o diálogo foi ficando irritante. Se o olho previa que Tertuliano, ao saber de uma possível queda, tomaria cuidados extras a ponto de, algumas vezes, nem mesmo levantar da cama, o olho simplesmente indicava outro evento consequente da alteração do primeiro, muitas vezes eventos sem o menor cabimento: uma chuva inesperada dentro do apartamento, um cheiro estranho de cigarro no banheiro, abelhas cor de rosa saindo do travesseiro, uma capivara escondida no guarda-roupa, formigas amarelas flutuando pela casa... Eventos das mais diversas naturezas. Em pouco tempo o apartamento se transformou num labirinto de coisas irreais. O olho mágico e Tertuliano pareciam 47


disputar as previsões, um ignorando a intervenção do outro, ou simplesmente tentando mudar o rumo dos eventos conforme o outro insistisse em alguma ideia. Com o tempo, o interesse pelo olho mágico esmoreceu. Tertuliano estava cansado de ser advertido sobre os seus pequenos acidentes domésticos, bem como de suas briguinhas infantis e interferências birrentas com o tal buraco. Foi nesse clima de desleixo que os dias transcorreram. E percebeu que sem as constantes consultas ao olho mágico, deixava de se envolver nos pequenos acidentes, voltando a levar uma vida rotineira e a encerrar dias sempre iguais. Neste sentido, o olho mágico não parecia apenas um vidente excêntrico, estava mais para algum tipo de... mau-olhado. Entretanto, algo novo perturbava Tertuliano. Uma estranha sensação de estar sendo observado. Era como se houvesse alguém mais no apartamento, analisando-o a todo instante. Passou a dormir inteiramente coberto, mesmo nos dias quentes. Ao tomar banho, tinha vergonha de tirar a roupa. Jantava virado para a parede. Tentava viajar sempre que possível só para evitar o apartamento. Passou a tomar remédios para dormir. Estava sempre naquele clima de silêncio desconfiado, de quem não quer chamar atenção, sempre com medo. Jurava sentir alguém respirando à sua espreita. Um dia, ao sair para o trabalho, passou pela porta e se deteve um pouco mais. A pressa rotineira não o impediu de parar um instante e olhar pelo olho mágico como já não fazia havia meses. E qual não foi sua surpresa quando se deu conta de que um olho o olhava de lá. Não sabia quem era, pois estava muito próximo, era apenas um olho, às vezes piscando, que não parava de observá-lo. Assustado, e agora muito constrangido, deu dois passos para trás e pôs as mãos na boca. Ali mesmo decidiu: em vez de ir ao trabalho, foi direto à imobiliária. Nem pensou em trocar a porta, pôs logo o apartamento inteiro à venda. 48


pico do jaraguá a primeira vez que fui ao pico do jaraguá foi com meus pais se hoje tenho 25 isso com certeza tem mais de quinze anos lembro que estava na moda aquele brinquedinho com duas bolinhas que se batiam na ponta de um barbante acho até que era bate-bate o nome e eu estava feliz porque tinha um bate-bate azul-claro e estava no pico do jaraguá azul é minha cor preferida eu era muito menino e não lembro bem desse dia mas lembro de ter ficado muito impressionado lá em cima não pela vista nem nada mas por não ter proteção nenhuma no topo era alto demais e a queda parecia muito próxima um desequilíbrio ou um empurrãozinho e não tinha volta fiquei com medo como contraponto à minha insegurança uma imagem permanece clara um casal que estava bem no limite do morro para além de todos os outros visitantes dali havia um planalto onde todos ficavam depois um declive íngreme mais um pequeno pedaço plano e então o abismo definitivo o casal estava justamente no último pedaço antes da queda sentados de mãos dadas nesse pequeno espaço não pareciam sentir medo nenhum

49


talvez hoje eles já tenham se separado e sintam medo pelas estatísticas eles já se separaram mas pelas estatísticas eu também já teria esquecido deles apesar das estatísticas é curioso pensar que é possível que já tenham [se separado mesmo e que talvez aquele pequeno pedaço de terra tenha sido suficiente por um [tempo e eles mal se lembrem daquela tarde nublada de um fim de semana ou talvez tenha durado muito e depois acabado e eles em vão façam força pra esquecer daquele pedaço mas o mais bonito é pensar que o momento mais marcante desse casal pode não estar na memória nem do rapaz nem da moça mas na minha significa muito ter tão forte a imagem desse casal que nunca conheci que sequer vi os rostos já que estavam de costas espero pelo menos poder conhecer o que os unia e fazia com que não [sentissem medo pois sabiam que dali o passo seguinte seria pra voar minha memória resiste involuntariamente eu resisto voluntariamente nunca mais voltei ao cume de são paulo não sei se agora lá tem proteção talvez seja hora de voltar e ver se aquele pequeno pedaço de terra ainda [é suficiente

50


quiem pa

ra ela

Ré-

Réquiem para ela a l e é a r a R quiem p

Réquie

m para

Nota do editor: o texto faz referência à missa fúne-

ela

bre Requiém em Ré Menor (K.626) do compositor

DIES IRAE

Wolfgang Amadeus Mozart.

Réquie

m

Ela estava no ponto mais alto da torre, olhando para fora com os ombros rigidamente eretos, as mãos atrás das costas entrelaçando-se de maneira quase régia e severa. Observava o tempo horrível com total inexpressividade, como se aquele monte de raios e gotas afiadas como agulhas, além do vento incessante que vinha uivar em seus ouvidos, não fosse nada além de um espetáculo tedioso – ou algo que, no mínimo, ela não queria ver. Mas ela via e continuava vendo mesmo com a chuva insistindo em cuspir-lhe um pouco no rosto. Sem nenhum aviso, mãos vieram apoiar-se em seus ombros. Ela sentiu os dedos entrelaçados tremerem e apertou-os mais uns nos outros, esforçando-se para não sair da postura de jeito algum. As mãos em seus ombros subiram até a nuca, deslizando com a unha e por fim desceram até a cintura apenas para voltar a subir, agora percorrendo os braços. “Calma, está tudo bem.” disse-lhe ao pé do ouvido, a respiração quente batendo em suas bochechas.

quiem

para e

r

la e a

la

Ré-

51


Réquiem

a l e a r a p nada.

Réq para ela

Então lhe arremessou brutalmente em direção ao

O vento agora urrava, coisa que ela precisava fazer, mas não conseguia tamanho o pavor. Sua queda era veloz, desesperadamente veloz, e igualmente infindável, e mesmo assim, de sua garganta não saía um grito. Estava caindo em direção à morte completamente muda – e completamente nua também. Suas roupas se destroçavam ao passo que sua queda prosseguia, atingida pela tempestade e por abutres odiosos que vinham lhe picar a pele, ignorando a natureza enfurecida. Ela sabia que estava sendo minuciosamente observada lá de cima e por isso chorou de vergonha, tentando cobrir os seios com as mãos sem nenhum sucesso. Os abutres continuaram a bicar-lhe o corpo sem trégua, quando seu coração saiu pela garganta numa confusão visceral de veias e sangue. Ela sentiu o gosto do órgão preenchendo o céu da boca, passeando pela língua, atravessando os dentes, manchando tudo pelo caminho, impregnando-lhe inteira com seu sabor pavoroso. Estendeu os braços, tentando alcançá-lo antes que voasse para longe de si, e o apanhou com a mão, segurando-o tão forte, mas tão forte, que o fez estourar ali, bem entre seus dedos. Ela deixou de cerrar o punho, sentindo-se aterrorizada e com frio, mas já não havia mais o que podia ser feito. Seu coração havia explodido, os abutres continuavam a atormentar-lhe sem dó, e a chuva se recusava a lavar suas mãos sujas de si mesma. Os animais a deixaram quando o fim se aproximou, voando para longe enquanto ela caía com ainda mais rapidez. Manteve os olhos arregalados, encarando o solo que estava prestes a dar seu sórdido abraço, e uma dor dilacerante atravessou-lhe por inteira. Ela não queria morrer com as mãos imundas.

quie

m para e

la

para e

la

ar

Réquiem par

a ela

m e i qu

é

a a l e l a r e a p m a ar Réquie 52

mp

R

ui

a p em

a l e ra


quiem p

ara ela

em para

ela p m e i u q é

REX TREMENDAE

la e a

Estatelou-se no chão, decerto, mas percebeu que respirava. Ela ainda possuía uma força mínima que lhe permitia ao menos olhar para cima com os olhos úmidos de súplica. Olhou; lá estava ela, vendo do alto da torre seu próprio corpo destruído no chão.

m e i qu

é ra R ela

m

Réqui

CONFUTATIS

Réqui

em par

Afastou-se da janela rapidamente, correndo em direção às escadas. Desceu os degraus todos aos tropeços, caindo e escorregando aqui e ali, sem pensar em momento algum na chuva que lhe atingiria tão violentamente. Ao vislumbrar, porém, um raio escandaloso rasgando os céus, tão perto de si, sentiu medo. Os olhos se misturaram ao aguaceiro que caía e, avistando ao longe a silhueta de abutres voando sobre o corpo que repousava imóvel sobre o chão, balançou a cabeça decididamente e resolveu que atravessaria, mesmo com os membros todos trêmulos. Voltou a correr com mais fúria e mais pressa, sedenta de chegar logo onde tivera seu fim. As meias sob os sapatos estavam horrivelmente encharcadas, o cabelo grudara pesadamente nas faces, e ela prosseguiu assim, espantando os abutres com gritos e golpes no ar. Os animais se afastaram, e ela pôde, finalmente, se ajoelhar ao lado do corpo, as roupas destroçadas caídas ao seu lado. Agarrou-se, agora com as mãos firmes. Ela ainda estava acordada, a respiração fraqueando cada vez

la e a

r a p

R

r a p

R

équ

a l e a r a p m e i u Réq

iem

par

a

53


m e i u éq

la R e a

iem

r a p

m e i équ

R

p m e i u Réq

mais. “Eu precisei”, sussurrou para a moribunda, que com muito esforço meneou a cabeça. Envolveu-se com os braços e chorou, mas chorou de olhos fechados, calada e também surda – o tempo feio já não assustava nem castigava tanto. Abriu os olhos ao sentir uma garoa tranquila contornar suas costas e em seus braços já não havia mais nada; em compensação, nas palmas das mãos encontrou punhados de cinzas. Ergueu-se, sem desviar o olhar da torre alta, majestosa, uma mancha no céu pálido. E, sem pressa, pôs-se a caminhar em sua direção, batendo as palmas uma na outra para limpá-las.

em para

a r a p

Réquiem

a l e a r a p m e i u Réq ela

Réqu

iem p

a l e ara

p m e i équ

R a l e a r a p em

ui

54

a l e a r pa

R

é

e i qu

a p m


para ela

SOBRE OS

sombras

m para e

la

O sombra é o sujeito das beiradas e das esquinas. Difícil encontrar o sombra e encará-lo. Ele se esquiva e evapora. O sombra é o sujeito que te espreita enquanto você come. Ele não é o pervertido nem o malicioso, nem o inconveniente, nem o secador-de-sucessos-alheios. Ele só é curioso. Ter um amigo sombra é ter sempre que se preocupar com um bebê por aí. Quase tão ruim quanto carregar um guarda-chuva nos dias de sol. O sombra tem o hábito de praticar o voyeurismo da vida, mas ao invés de ter prazer em assistir, provavelmente ele tem é muito medo de participar. Por isso é que ele te segue. Você parece entender e tomar parte nas coisas, parece não ter medo de escorregar e tropeçar e logo você o inspira. É difícil até de se espantar um sombra, se lhe tacar luz, o sombra se afasta e te acompanhará de longe e com binóculos. O pior é quando o seu sombra é você. Cansado de si mesmo e buscando umas férias, certa vez Atílio decidiu não se escutar mais. Atílio era daqueles sujeitos

para e

la

ar

la e a

55


sombra, esquecido nos cantos e que não jogava bola nas aulas de educação física. Na infância, não corria atrás do sorveteiro quando este distribuía amostras grátis. Atílio-criança já estava cansado só de pensar na corrida e na disputa com outras crianças, contentava-se de assisti-las enquanto se lambuzavam. Todos temos um Atílio dentro de nós. Atílio é o piloto-automático. Se a vida só vai, Atílio assume a janelinha, dá as caras e se sente confortável na vida puramente monocromática. Os psicólogos não irão gostar do que vou dizer, mas gosto de pensar que na escotilha do meu sujeito se instala uma assembleia deliberativa com pautas estabelecidas, tempo de fala e teto para acabar. Às vezes, essa assembleia é uma roda de conversa e outras, quando todos estão cansados, instala-se um sorteio. Atílio costuma ficar no canto, olhando e assustado, tentando ter certeza de que quem tem certeza são os outros. De vez em quando Atílio dá sorte, a situação evoluiu para um escarcéu e enquanto todos se desesperam, Atílio se escorrega para o manche e define sozinho os próximos destinos da minha máquina espacial. Atílio no comando te transforma naqueles sujeitos convencionais: os protocolos de “bom dia”, de “tudo bem e você?” e a obediência terrenha às normas e convenções. E como Atílio consegue assumir por tanto tempo o manche? Bem, enquanto ele se diverte com seu sorriso de canto, os outros sujeitos estão desesperados. Até que alguém levanta a cabeça, reconhece Atílio pilotando, afasta-se do escarcéu e simpaticamente retira Atílio do manche. O escarcéu acaba e uma comissão vai apurar os danos. Atílio tem um hábito especial, um fetiche particular por letreiros de postos de gasolina. E lá está você, frente a frente com um anúncio qualquer, com os olhos esbugalhados e o sorriso de canto dos homens sombra. Não há nada de especial nesses placares, justamente esse tom monótono e repetitivo dos anúncios que atrai a mente linear de Atílio. 56


A comissão formada abre o microfone e as falas subsequentes vão desde diagnósticos a axiomas: “Atílio, tome coragem e não faça isso”, “Atílio, sua função é ficar na ribeira e calado” e “A natureza de Atílio o atrai para esses hábitos pequenos, a nossa natureza nos leva ao escarcéu, e enquanto a nossa natureza permitir, a natureza de Atílio se manifestará e assumirá o manche. Vamos recobrar a atenção e conduzir nosso caos interno ao caos externo e ao manche dessa embarcação”. Aplausos. As coisas se reestabelecem, os espaços decisórios se reorganizam e colocam próximo ao palco uma grande placa anunciando: “Estamos há 0 dias sem Atílio no manche”.

57


SONETO PARA

Aline Aline olhou pro rio e viu um destino estranho No vaivém da água corrente, havia um tipo de reflexo Não eram só seus olhos a tremelicar castanhos Lá estava o seu espírito a se revelar, perplexo O céu estava tão azul que pareceu-lhe fevereiro Sentiu a terra tremer como em dia de carnaval Da bondade que lhe enchia, perdoou o mundo inteiro Mas sem se dar essa empatia, mergulhou pro seu final A Terra girou estridente Em volta tão lenta e sublime Que o coração dessa gente Reconhecendo seu crime Chegou a bater diferente Ao sentir partir Aline. 58


Termino em O chão ainda está coberto de rosas Por mais que estejamos entorpecidos Mesmo que a visão esteja turva Por trás de cada pétala, uma memória Tenta achar em qualquer uma delas O sentido que havia no princípio de tudo Quando você declarou, incerta, minha existência Das poucas lembranças que eu tenho Há uma em que o “eu" consciente não estava [presente E agora é um dos laços que nos restam Um buquê de pétalas caídas – se é que vale alguma coisa – Não vale mais Que a lembrança da roseira de origem

terceira pessoa 59


14 Você achou por um segundo que se se decepcionasse muito uma hora se decepcionar seria impossível? Só porque a casca em volta de você era tão grossa não queria dizer que não fosse esburacada e na noite enquanto você ria desse amor de gente ele entrava sempre em você. Você achou por um segundo que era possível estar tão perto do fogo e sentir só o calor te abraçando? Não as chamas derretendo sua pele de aço, não suas lágrimas de álcool tentando apagar o incêndio? Você achou por um segundo que se preparasse um quarto no seu coração ela não buscaria lar em outro que chegou depois? Que ela aceitaria abrigo numa fortaleza que entrou sem saber? E talvez nunca saberá, porque de lá seus sentimentos nunca saíram. 60


Você achou que preparar uma cama sem avisar pra quem ela fora feita resultaria em algo além de uma cama vazia e um coração partido Você achou que a escuridão da sua alma encontraria luz nos olhos de alguém que nunca esperou nada além de suporte num momento em que você a queria pra se sentir útil? Você achou que estar sozinho passava de primeira? Você, que há tanto tempo foi a vela, a solidão em volta dos seus amigos, que não moverão um dedo pra sanar [sua agonia. Achou que alguém seguraria sua mão? A terra gira mesmo quando parte de ti morre. A terra gira mesmo quando seus olhos vermelhos fecham. A terra gira com seu travesseiro banhado a ranho. E ela gira com ela beijando outro. Você achou que a dor que sente agora te fez mais forte? Mais invencível ou mais capaz de suportar as decepções que ainda virão? O chão estará sempre sob seus joelhos cansados. Ninguém estará rindo de ti, nenhum deus estará te vigiando, ninguém estará pronto pra responder seus por quês. Então por quê? Seus poemas de consolo não estarão na história depois que você se for Sua raiva, ela não vai ficar gravada. Mas seu coração nunca esteve quebrado, só porque você achou que ele estaria, e agora o quarto bagunçado com a cama revirada será seu sono sem sonhos enrolado na coberta.

61


Se deixar as portas abertas não é o suficiente, se fechá-las não é o suficiente, de que serve amar? Ou melhor, quem disse que dava pra um só amar e ser amor? Quando a histeria passar, quando o ódio cessar, quando esse fogo apagar, Só restará você e uma cama desarrumada, pronto pra recomeçar.

62


escolha dos editores

63


A Repartição Certa vez, vindo do teto de um escritório, caiu sobre o chão um pacote estranho. Eis que a embalagem ali caída, revelando todo seu conteúdo, isto é, dez comprimidos contendo cada qual o elixir da imortalidade, fez com que todos os dez homens ali presentes se pusessem a confabular sobre qual seria a divisão dos comprimidos entre eles. Certo era que, ainda fossem comprimidos, não poderiam ser divididos, pois não se pode ser meio imortal; uma vida eterna é eterna e ponto. O chefe, cuja sala era de seu uso exclusivo, ordenou que todos se sentassem em seus lugares, Sem organização não chegaremos a lugar algum. Os gerentes, que eram dois, se dirigiram para as mesas coladas onde faziam seu serviço; o mesmo se passou com os encarregados, três, para o cubículo que habitavam, e com os secretários, quatro, para a mesa que dividiam. Mesmo dividindo esses espaços, havia uma hierarquia, isto é, o quarto secretário era subordinado ao terceiro; este, ao segundo e assim por diante; da mesma forma ocorria com os demais, encarregados e gerentes. O último secretário logo protestou, Ora, são dez comprimidos e somos dez, portanto, um para cada. Ocorre que cada qual dos nove restantes pretendia sair com pelo menos dois comprimidos, porque já que se viverá para a eternidade, que se viva com alguém de seu agrado. O primeiro encarregado disse com voz firme, Como fomos promovidos antes de o serem os secretários, o certo é que fiquem de fora e façamos a distribuição entre nós, os gerentes e o chefe. É claro que tais sinalizações provocaram os mesmos 64


efeitos nos demais trabalhadores. Os gerentes achavam injusta a distribuição para os encarregados e secretários, afinal eles eram parte menor de uma cadeia que só seria impossível sem os altos patamares. Mas fato é que estamos nos esquecendo daquele que primeiro achou o pacote e, não de menos importância, supervisiona todo o trabalho feito pelos nove. O chefe não tinha dúvidas de que deveria ficar com os dez comprimidos, afinal, imagine uma sociedade afortunada até o fim dos tempos por tê-lo ali, contribuindo com seu esforço diário e, além disso, ao lado de sua família, pois era esse o destino dos outros nove comprimidos, é claro. No entanto, sabia que isso não se concretizaria e decidiu fazer o possível para, ao menos, levar vantagem na separação. Tomados na mão, o chefe, com os dez comprimidos, começou, Farei uma proposta de divisão. O primeiro gerente se inquietou, Votaremos e vencerá caso a maioria concorde, ou seja, cinco de nós; no entanto, caso você perca a votação, caberá a mim a distribuição dos comprimidos e asseguro-lhe que ficará de fora da divisão. O restante pareceu concordar com a sugestão, uma vez que, com o chefe excluído da repartição, sobrariam mais comprimidos. Não houve demora para que o segundo gerente, segundo porque era subordinado ao primeiro, se pronunciasse, Pois o mesmo ocorre contigo; se sua proposta for rejeitada pela maioria, a divisão passará a ser de minha responsabilidade. E o pensamento seguiu em efeito dominó, de modo que a cada rejeição de proposta, os dez comprimidos ficariam sob guarda do próximo na hierarquia e caberia a ele distribuí-los entre os demais. O chefe voltou para sua sala pensando em como faria a melhor distribuição, de modo que pudesse sair beneficiado e que a maioria concordasse. Essa proposta deveria ser irrecusável, ao menos para quatro deles. Se a divisão ficasse a cargo do próximo na hierarquia certamente ficaria sem nada. Enquanto isso, gerentes, encarregados e secretários ocupavam seus lu65


gares e discorriam sobre a possível repartição dos comprimidos. Todos eram igualmente gananciosos e qualquer um que assumisse tal responsabilidade, procuraria sair ganhando. Atravessando a porta era possível ver os pertences do chefe: mesa ampla e cadeira confortável, obras de arte herdadas do antigo chefe e um porta-retrato com a esposa, os três filhos e um cachorro. Teria efeito o comprimido da imortalidade no cão? Talvez provocasse uma reação indesejada e isso significaria um desperdício. Mas todos vivendo eternamente, juntos, na mesma casa, possivelmente acabariam se matando e, como teriam se tornado imortais, não poderiam se matar e aí acabamos em uma desgraça sem fim. Talvez fosse melhor mesmo vender os comprimidos. Por um bom preço, teria uma vida confortável e finita ao lado de sua família. Mas a promessa de uma vida eterna era tentadora demais. De todo modo, imortal ou rico, deveria pensar em uma proposta, e em uma boa, caso contrário acabaria morto, eventualmente, e pobre. Pensou, Se distribuo um para cada gerente e um para cada encarregado, fico com cinco. Mas, além de não gostar muito de números primos, o chefe pensou um pouco mais e logo viu que não obteria votos da maioria, já que, apesar de dar um comprimido a pelo menos quatro deles, caso todos recusassem, sobrariam mais e uma nova divisão beneficiaria mais deles. E decerto recusariam. Como tornar a proposta irrecusável era essa a questão. De volta à sala comum, os secretários pareciam se unir contra sua possível exclusão da repartição e não diferentemente ocorria com os encarregados. Permaneceremos unidos, temos direito aos comprimidos da imortalidade, merecemos ser imortais tanto quanto o chefe ou qualquer gerente. Com o embrulho no colo, o chefe parecia obstinado a resolver o problema, que não existiria se todos pudessem ver claramente que deveria ser ele o proprietário do achado, afinal, era ele quem comandava o escritório no qual caíra o pacote. Por cima da mesa, seu olhar batia na parede à sua frente e voltava 66


sem a resposta que procurava. Tratou de se ajeitar no assento e se pôs novamente a raciocinar, Se tenho dez comprimidos... O maior dos ponteiros deu algumas voltas no relógio e trouxe consigo solução nenhuma para o pobre homem. Não arriscaria a promessa da vida eterna em uma oferta ruim, Tem que ser boa, muito boa. Mas já cansado inclinou-se sobre a mesa desgastada e entrelaçou os dedos, apoiando a cabeça sobre as mãos unidas. E aí temos o desfecho que buscávamos. Ao cabo de algumas horas, à porta de sua sala, com vistas para a comum, a postura do chefe logo atraiu os olhares dos nove trabalhadores. Farei minha proposta. Conversas baixas e feições desconfiadas borbulhavam na sala tal qual água na chaleira. Ficarei com seis comprimidos. Os demais protestaram não sem razão, a exceção dos gerentes, ora, eram gerentes, certamente não ficariam de fora da divisão. Um comprimido vai para o segundo gerente, ao passo que o primeiro não ficará com nenhum. Vistas espantadas se cruzaram no escritório. Tanto o primeiro quanto o terceiro encarregado ficarão sem nada, darei apenas um comprimido ao segundo encarregado. Para os secretários, darei dois comprimidos: um para o primeiro e outro para o terceiro; nada para os demais. E calou-se. As promessas de união entre os trabalhadores foram desfeitas depressa. O primeiro gerente, vendo que nada levaria, lembrou-se da votação e foram eles a votar. Disse para os demais que, caso todos votassem contra, ele mesmo faria uma distribuição bem mais justa, um absurdo era uma pessoa só ficar com seis. Mas ninguém se iludiu. A proposta do chefe era excelente e seria reproduzida na mão de quem quer que fosse. Se a repartição ficasse a cargo do primeiro gerente, ele daria apenas um comprimido para o primeiro encarregado e para o terceiro; quanto aos secretários, daria um para o segundo e para o quarto. De forma que os beneficiados na repartição do chefe ficariam aqui excluídos, dado como certo que o primeiro gerente ficaria com os tais seis comprimidos e faria a divisão 67


dos demais à maneira do chefe. O mesmo se sucederia se, em vez do primeiro gerente, os comprimidos ficassem a cargo do segundo, e assim por diante. Ocorreu que os quatro beneficiados pelo chefe votaram sim e ali esqueceram que eram semelhantes e que eram diferentes. O importante mesmo era levar, ao menos, um comprimido e assim o fizeram. Antes de reparti-los, na frente de todos, pois consideremos justiça, o chefe guardou os dez comprimidos da imortalidade na gaveta e trancou-a. Deu a chave a um dos gerentes, que deixou sob a responsabilidade de um dos encarregados, que pediu para um secretário guardar. A chave foi perdida e maneira não houve de abrir a dita gaveta. Mas isso faz muito tempo, hoje ninguém mais fala sobre o assunto.

68


– Querido! Querido! A esposa assustada o acordou. – Tá ouvindo? Tem um barulho na sala... Levantou-se ainda sonolento e foi tateando as paredes até a porta. De lá, observou a pequena sala. Havia um menino rezando de cócoras no chão. Cinco velas alinhadas em círculo trepidavam o escuro do apartamento. Percebendo a presença, o menino virou-se para ele. Não tinha rosto. Nem olhos, nem nariz, nem boca. Com o susto, o menino correu e saltou pela janela do décimo quarto andar. As velas continuaram acesas no chão da sala. Calmamente, fechou a janela e recolheu as velas. Voltou para o quarto, acendeu a luz e caiu para trás amedrontado. A esposa também estava sem rosto.

69


outro dia se apaga sob as melancólicas cinzas do cotidiano. repetição sintomática de hábitos enfileirados sem qualquer subjacência ou poesia que os circundem. o dia encerra-se em si mesmo como se, cíclico, retornasse ao ponto de origem, enclausurando-me os graus de liberdade. afoito me encontro, me perco, me espero, receio. as horas compridas dissociam-me em partes como preço a ser pago por existir. um tique-taque e já morri. espero, um dia, renascer.

70


Corpo Este tronco Extensão deste tempo Despedaçado Me restou o tão extremo Reescrevo meu corpo Em segredo

71


depois da guerra os rostos 72


Depois da guerra, a gente para e pensa Em cada quadro inerte na parede. E busca um lume, mesmo que pequeno, Num fósforo mirrado que restou, A gente risca — calma, mão, não trema — Querendo iluminar pra ver de novo — Naquele clarãozinho cinco dedos — Um rosto antigo e quente, talvez dois, Dos quadros que sobraram da parede. Quem liga pro zumbido ininterrupto? Quem liga pra hematomas e feridas? A noite é bela e boa — eu tenho um fósforo E os rostos destes quadros da parede. No papelão socado na janela O vento bate úmido, insistente E escuso e torpe!, entra pelas frestas, Mas eu não vou deixar que ele atrapalhe O lume do meu fósforo mirrado: Ainda tenho um velho cobertor Que ponho na janela, e pronto: posso Olhar em paz os quadros da parede. Agora que sentia a sala quente Sorria, pois enfim veria os quadros. Mas num piscar dos olhos marejados Com lágrimas sem água, sal apenas, Me descobri parado em meio aos cálices De lama entremeados em meu cérebro 73


E os olhos observando-me no escuro, E as sombras me tragando ao seu relento, E as portas se expandindo e todo o ritmo Da sala se entreabrindo em meio ao pântano, E as folhas esparzindo na cozinha, E os sapos conversando à luz da lua, E as páginas dos livros remofando, E as xícaras e pratos retinindo, E valsas verberando em Calicute — Consigo quase ouvir as notas trêmulas — E os risos e os segredos — descobertas De cada estrato efêmero da infância De novos nobres (cegos do castelo) Que têm direito ao doce mais-que-cálido Das fábricas dos anjos mal nascidos Que atravessando os campos trazem, lépidos Dos rostos de crianças malferidas (De mais maçãs e covas que bochechas E mãos acostumadas a ser conchas), Açúcares sagrados e os polvilham E os servem. E estes nobres cegos comem, Pois digerir é o ato que faz puro Quem nunca necessita de consolo E nem de claridade. Assim pensava, Mas me lembrei dos quadros da parede. Lá fora a luz da lua trespassava Buracos na parede da antessala E aqui eu respirava, semi-asmático, O pó que o chão me dava de oferenda. Em cada novo escuro há uma lição, Mas é preciso alguma luz pra vê-la, Pensei; e após mentar mais um segundo 74


— Pois isso era bem mais que o necessário — Tirei do paletó meu murcho fósforo E já me preparava pra riscar, Mas meus ouvidos zumbem todo o tempo, Mas não importa!, eu quero ver os rostos!, Mas os meus dedos tremem todo o tempo, Mas quem se importa?, os rostos!, eu preciso!, Mas minha boca guarda um gosto cinza, Mas do que importa?, os rostos!, veja os rostos!, Mas meu olhar é tóxico, — vá logo!, Os rostos!, na parede!, acenda o fósforo! Os rostos!, veja os rostos!, veja os rostos! Então entrei num transe, e quase via Meu corpo como alguém que está de fora, Agindo em modo como que automático, (Banhados meus ouvidos de silêncio, Meus dedos firmes, sólidos, constantes, E a minha boca limpa, e os meus olhos Tão claros como os olhos de um falcão) E, ouvindo um risco seco na destrina, Olhei a luz efêmera e pulsante Que o fósforo mirrado me trazia: E os quadros da parede, iluminados, Traziam rostos, caras tão alegres, Que, num primeiro instante, meu sorriso Correu por toda face, até as covas, Congratulando a mim por essa sorte De ver a minha história, assim, tão vívida, Assim, tão verdadeira, e bela, e jovem, Em festas, zitanias, cerimônias, Em taças, uniformes, tênis Nike, E velas, veias, vidas vespertinas, E tinta, copos plásticos e brincos, Mas logo as sobrancelhas se encostavam 75


Nas pálpebras que davam quase um ósculo, E o meu jazigo-lábio contraía, Pois vendo, assim, sorrisos, caralegres, Examinando os rostos um por um — Como um cirurgião que busca abcessos — Notei, nessa canção de Vaudeville, Que as notas dissonavam entre si. E, nas horas seguintes, eu, sozinho, No breu de quando o lume se extinguiu, Pensei não em cavalos (os marinhos), Mas em serpentes, pois dos rostos todos, Dos quadros, não reconheci nenhum.

76


excesso de

I

Alumínio coisas todas nunca vi em matéria de destruição a boca do verso me engoliu, os efeitos do contrário, o mundo em curva visto pelas costas dos olhos. flagrado com.

coisas todas nunca vi. dou o não penso em poetas loucos, penso na luz da geladeira, penso. a bordo do meu quarto. prestes a morar. meu quarto tem o azul esparso do útero da minha mãe.

77


a realidade se veste à frente dos meus olhos capas velhas com a dança de chuva panos pelas coxas molhadas dos apartamentos. pouco sei. e sei que o que vejo pode parecer um corpo. forma de corpo. metade do meu corpo talvez. sem exatidão adoecesse nessa praia.

II

III 78

maio nunca chegou em cavalo branco, mas maio, sempre maio, desde sempre, anuncia a estiagem do outono em dias de sono: livros, encontros e outros. para se esquecer. deixar para depois o quarto galope dessas ideias.


linha poema A flor vermelha é um ponto, o primeiro Qual é o último? E o nó da linha, quem deu? Mas quem disse que o nó já estava lá? Será? Acho que o nó é o último ponto Mas a nossa linha está torta Ela tem sulcos profundos Tem cortes, estourou nuns pontos, quase arrebentou E outros pontos estão sobrepostos, curvos Só o começo é reto Todo começo é reto? Todo final é torto? Mas quem disse que é o final? Acho que o final é o nó e o nó é o último ponto Na bem meia verdade, acho que o primeiro ponto é o último Ou, pelo menos, alguns pontos se encontram no mesmo ponto [e fecham a linha, onde a linha recomeça E todo recomeço é torcido Eu sou reta, você é torto Mas a gente é tão igual Por que você tem que ser tão desfigurado? Tão plurifacial? Teu [rosto é tão disforme, poliforme, amorfo e mudo... 79


Por que essa linha ainda junta a gente? Estamos juntos ou estamos ligados? Acho que só estamos ligados - talvez você tenha cortado a linha e eu ainda não percebi Eu queria que estivéssemos juntos Não que isso signifique de mãos dadas, só juntos E você? Você ainda pensa em mim? Na flor, no nó, nos pontos? Quais os outros pontos? Os pontos são começos ou são fins? Ou são outra coisa? E os pontos que ainda não demos? Vão ficar na agulha? Tantos pontos na linha para tão pouco tempo E o relâmpago preto foi minha despedida Foi uma despedida? Acho que ele não tocou o chão Mas acho que nunca vai tocar Acho que nunca vai ter o último, o nó, o final Nossa linha vai ser incessante Um infinito traço fino sem batida e sem desenho, sem costura Essa linha já se transformou no traço do poema

80


ME DO 81


Do quanto não estamos acostumados. Do quanto talvez nos falte. Eu comecei a ter medo das pessoas ao meu redor. De tudo que elas vestem, falam. De como olham. Nossos ouvidos não são aguçados o suficiente. Tudo é dolorido. Não conseguimos ter amor ao discordar. Violência é a palavra-chave. Viola-se o tempo todo. Corpos. Casas. Discursos. Condutas. A morte se torna menos misteriosa. Valham-se da cafonice de um enterro. Dos nossos filtros. Das pessoas que são cruéis conosco através de suas próprias feridas. Nutrimos ódio por nada. Eu realmente estou cansado do estranhamento. Estamos condicionados a não surtar. Embora não haja receita para o mundo, qualquer um pode ser bom ou mau. Flores de plástico. Pessoas de plástico. De vidro. De ferro. De borracha. De madeira. De concreto. De merda. As luzes são de LED. As linhas de ônibus que dão nostalgia às dez horas da noite. Barueri. Um celular, dois celulares... A volta para casa. O trabalho. A catraca. O culto e a missa, a boate e a praça. O bar, o mercado. A casa de ração e o cachorro. A faculdade longe. O trem da linha 8 – diamante. A sensação de estar existindo e enlouquecendo. Ódio generalizado. Pai todo poderoso, dê-me saúde. Ninguém está imune. A hipocondria 82


é o medo da vida. Das gentes. Das doenças e da ciência. Mastigar só aquilo que faz bem ao paladar: é para onde que eu tenho que ir? Não há espelhos “surrealísticos” em todo lugar. O choro entalado que não desce. A tristeza da literatura que não chega a todos. A cara torta que a gente tenta disfarçar. A arrogância que tentamos esconder. O ranço. O quanto as pessoas querem nos entender tendo a gente que explicar. Entenda, por ora, o que você conseguir, amigo. Não é falar difícil. É decifrar um sentimento. Um sentimento às vezes se perde em vias de ser didático. O amor. O entalado. A língua mordida. O mijo de Carnaval. A obsessão mal resolvida. Uma ninharia de coisas. O disse-me-disse e nossas pavorosas e superficiais impressões. Calafrios. Nojo. Suas piadas sujas são a podridão da sua alma cheia de cigarro no pulmão. Ratos podres e cheiro de carniça. Pode ser de você que eu esteja falando. VOCÊ. Ou mesmo de mim. Vamos nos limpar. É um processo de desintoxicação. É dois mil e dezoito. O caldo está engrossando e aqui é o mar de enxofre. Nós somos o enxofre. Estupidez. Por que acreditamos tanto na nossa sensatez? É melhor a gente ter medo mesmo. Ninguém se mete com o medo.

83


Memória O acaso faz-me abrir a porta o álbum a página quem deixa álbuns de fotografia antigas memórias sob a cama numa tarde de calor o retrato nós dois o instante não te reconheço o seu corpo as peripécias a fala as poucas palavras as ladainhas que não sei cantar tudo aquilo que aprendi por você no silêncio mudo as orquídeas no jardim a água ebulindo ervas em infusão tomávamos o mesmo chá sentados unidos no abraço no olhar. 84


o

dom

da

palavra

Eu quero uma palavra cantada, escrita, dita, sussurrada — indiferente. Eu quero uma palavra que me soe como adeus ou descreva a infinitude do universo. Sílabas que se formem coerentemente e enfileirem-se em prol de um significado, seja este qual for. Que seja leve e me faça rir. Que seja maligna e adentre minhas entranhas. Quero repeti-la por dias, dando vida às possibilidades tantas de um verso perfeito. Estampará meu âmago como um sentimento irredutível e, ao mesmo tempo, impronunciável. Quero — depressa! — uma palavra sólida, que não se esfarele no processo de se fazer compreendida. Eu quero uma palavra urgente que me socorra irrompendo de vez este silêncio assassino da semântica de minha vida.

85


o urubu

Essa coisa preta não sai da minha janela. Ele fica me olhando às vezes. Mas na maior parte do tempo finge que não é com ele. Aparece todos os dias lá pelas nove. Eu nunca acordava mais cedo que isso, agora faço questão. Vai saber o que um bicho desses pode fazer? Dá a hora e ele chega com essas asas enormes e pousa na laje suja de lodo, cheia de embalagens de porcarias que os moradores daqui jogam pela janela. E fica lá tirando as pulgas com o bico, rodando no eixo, sob esse sol desgraçado; porque aqui no interior sempre é verão. À noite ele vai embora não sei pra onde. Deve ir caçar o que comer porque passa sem nada o dia todo. Minha mulher chega depois que ele já foi. Esses dias comentei a pontualidade do bicho, ela disse que esses animais carnicentos comem ratos e lixos, mas quando ninguém está olhando. Deve ser a nojeira desse prédio que atraiu o bicho. Agora ele é parte daqui, como se tivesse sido contratado para me infernizar a cabeça. Logo agora que estou desempregado e preciso de tempo pra pensar. Estes dias estão ruins. A Geise não vai conseguir pagar tudo este mês. Aquela mulher é heroína; aguenta de tudo. Até esses chefes que chamam as meninas pra sair ela aguenta. Ele já chamou ela mais de uma vez, mas a mulher é boa,

86


tem que dar valor, dizia minha mãe. Por isso nem encasqueto com essas coisas. Às vezes toco no assunto, mas, se ela destoca, destoco também. Tudo pra não ver ela perder a paciência, ela não merece. Uma hora esse bicho tem que faltar, desatinar, partir pra outra. Vive assim no meio da sujeira, não muda nunca, mas é como dizem sobre as listras dos tigres, não mudam. Ou eu mesmo mato esse animal. Outro dia, olhando pra ele, lembrei do meu último emprego. Esse animal se parece com os animais com que trabalhei. Desse povo que aceita fazer de tudo pra agradar a chefia mas nega ajuda para os iguais. Trabalhei com muitos assim, e ver esse animal zanzando pra lá e pra cá, sem me olhar muito, mas existindo ali, me fez lembrar isso. O Pedrão era exemplo. Sujeito torto, quase mendigo, cheio de filhos e sem ter onde cair duro, mesmo assim sorria até as orelhas quando o chefe passava, mas descontava na gente a frustração do pagamento que ia rápido, da pinga que não dava, da mulher papagaiando que não devia ter casado. Depois, quando ele precisava de algum favor, algum emprestado, ou coisa do similar, jogava aquela resenha na gente, vinha rodando no eixo feito o bicho. O Vanildo caía; nunca eu. Esse bicho também é assim. Se precisar de alguma coisa vai bicar o vidro da janela e me fazer jogar alguma carniça. Do jeito que estou magro pode ser que ele esteja aqui por mim, por isso. A comida do prato já está pela metade; o feijão-pura-água; o arroz-vagabundo: esse bicho que nem venha. Quando ele apareceu me fez lembrar também a mim mesmo. Não é fácil admitir. Mas eu também estou assim, sozinho no meio-dia, caçando algum lugar e alguma coisa pra agarrar, à noite tem a Geise, Deus que sabe como ela tem segurado as pontas. Nesse começo me afeiçoei a ele. Até pensei que era bicho bonito. Mas precisava me lembrar disso toda vez que acordo? No almoço 87


o bicho está lá. Volto da correria das entregas dos currículos e o bicho não saiu. Nisso somos diferentes, eu não aguentaria ficar ali um mês suspenso naquelas pernas finas e tortas. Escuto o não, a porta fecha, parto pra outra. Noite passada Geise disse que esse bicho é a sociedade. Geise tem dessas coisas; enxerga tudo mais amplo, e tudo na boca dela parece até axioma. Disse pra ela que esse bicho quando chegou era da mesma desgraça que eu, era torto. Ela insistiu que o bicho era todo mundo. Depois me explicou que ele também tinha a alma escura, que trazia no corpo a morte dos outros. Ela continuou: O que esse bicho come? Coisas podres, eu acho. Em putrefação, como se diz. É isso, então. Morre e depois ele come toda sua existência, sua história. Se tinha alguma cicatriz. Se tinha algum hematoma. A pele também conta uma história, querido. Fiquei de cair o queixo. Não tinha enxergado isso. Geise ainda me falou de um deus asteca chamado Xinotauro, Xinozelol... não... Xipe-Totec, isso! Ele consumia outros seres, mas, quando maiores que ele, o corpo consumido extravasava os limites do corpo do deus. Nem liguei que ela me chamou de querido: não gosto. É absurdo de se pensar. Esse bicho come e assume um pouco da forma daquilo que comeu. Carrega no corpo as histórias dos outros, deve ser por isso que se coça, é a pele querendo esticar. Essa história tinha que acabar. Fiquei pensando nessa noite sem dormir e decidi depois de limpar uma antiga arma do meu pai que ia matar o bicho. Era só um tiro. Ia aproveitar essa hora do movimento nas ruas. Chegaria da rua, esperaria um pouco, checaria telefonemas, e-mails e, se não tivesse nada, seria a hora. Quase não dormi de excitação. No caminho para casa já me preparava. Tentei não ter pena do animal, mas trazer uma raiva que me faria só pensar no 88


que fiz depois de feito. Quase não consegui entrar. Geise deve ter esquecido e chutou as caixas que agora atrapalham a passagem da porta. Eu ia beber um pouco de água do filtro, mas não tinha copos limpos e a pia estava uma nojeira, não quis mexer naquilo. Algumas roupas sujas jaziam na minha cama, joguei o casaco por cima delas. Era agora. Tirei as meias e cheirei. Eu ia usar à tarde de novo porque não tinha outras limpas. Fiz o que tinha de ser feito: nada na secretária eletrônica, sem e-mails, cartas de contas, só. Abri a cortina e nada. O bicho sumiu. Procurei, procurei. Nada. Tinha sumido mesmo. Olhei no teto dos outros prédios, nada. Deve ter sentido o perigo. E logo agora que eu ia dar fim nisso tudo. Senti uma indisposição tremenda. Deitei no sofá e comecei a olhar em volta. Não tinha quase nada no lugar. Os papéis empilhados de qualquer jeito. Geise também não era muito da organização. Suas roupas recobriam os espaldares das cadeiras, os sapatos sob a mesa, alguns pares dessas meias beges se destacavam no chão de tacos. Como tínhamos feito aquilo tudo? Devo ter copiado a bagunça do bicho. Geise estava errada, eu me pareço mesmo com o bicho, só faltava mesmo era eu sair voando por aí. Fui até o quarto. Ia me vestir de novo para sair, já que o trabalho com o bicho já nem precisava mais ser feito. Peguei rápido as roupas que acabei de tirar. Olhei para o espelho e fiquei um tempo ali com elas na mão. Minhas olheiras estavam feito bolsas. Uma dor de estômago veio não sei de onde. Senti um incômodo na boca, uma coisa dura rasgava minha língua e a ponta de agulha rasgava tudo. Tentei engolir, mas perdi o fôlego. O bicho se debatia para a luz. Era ele, a coisa preta que saía de dentro de mim.

89


Por entre mil folhas Por entre mil folhas À beira da estrada Se esconde tranquila Sem dizer palavra Seu tronco robusto No qual com razão Nunca repousou De um homem a mão Sua raiz forte Com sede temida Do solo a beber O suco da vida Suas belas folhas O outono tingiu Balançam faceiras Na brisa gentil E se por ventura Um passante com sorte Vislumbra a beleza Que zomba da morte Na Luz Flavescente Do sol a se pôr Se esquece de tudo E se lembra do amor

90


saudações

oi olá oba opa olha salve e aí hey ow bom certo oh ah hum tranquilo viu é você sim prazer

nenhuma me serve porque te amo

91


Era um agradável fim de tarde na minha casa. O Sol, já cansado de mais um dia de trabalho, ia se pondo aos poucos, de uma maneira bem calma e discreta lá no final do meu horizonte visível, no fim da minha rua. Seus raios pincelavam toda a minha sala com cores que variavam de um laranja escuro a um vermelho pouco claro, levando, assim, toda aquela minha pequena salinha de quatro paredes brancas e indiferentes a se tornar, pelo menos nesses poucos minutos de pôr do Sol, algo realmente bonito, vivo aos olhos de qualquer um que tenha uma sensibilidade visual um pouco maior que a de um cachorro velho. No momento, estava a tirar uma das minhas muitas sonecas diárias sobre o colo de João, meu dono, que, habituado a ver aquela mesma série tosca todo santo domingo, nem tirara os olhos da pequena tela ao perceber que eu estava começando a acordar. 92


“Bom dia, dorminhoco”, falou ele quando eu comecei a sair de seu colo. “Boa tarde, João. Ai. Me lembre da próxima vez de não tirar uma soneca no seu colo, acho que estraguei minhas costas com essas suas pernas desconfortáveis”, respondi em um miado enquanto ia pousando no chão. “Por isso que você é o bichinho mais fofo que eu já tive, Bichano, sempre me respondendo quando falo com você.” “E por que eu não responderia?” “Ai de novo! Haha. O Clarêncio nunca conseguiu fazer isso.” “Nem se atreva a me comparar com aquele cachorro gordo! Eu sou um gato, e como...” “Haha. Ok, Bichano, já deu pra entender que você quer conversar, mas eu quero ver essa série. Então vai brincar lá fora, vai.” “Eu? Você que começou a conversar comigo, João...” “Para de miar, Bichano, não tá dando pra eu me concentrar no programa. Sai daqui, vai.” “Ora, agora que eu não vou parar de falar mesmo e...” “Ok, já chega.”, falou João se levantando do sofá. “Você tem que ter obediência a mim, Bichano, senão como a gente vai seguir com essa relação?” “Está bem longe de uma relação o que nós dois temos, João. E o que você quis dizer com obediência a vo...” “Tá, tá. Relaxa, eu já sei o que você quer.” “Sabe mesmo? Por que você está indo pra cozinha então?!” João então volta com uma pequena tigela. “Toma...”, falou ele, jogando a tigela com ração de gato na minha frente “...feliz agora?”, perguntou ele em seguida. “Você tá de brincadeira comigo, né?”, falei prestes a atacar aquele desgraçado ignorante.

93


UM MINUTO Acordo. Olho no relógio. São 13:43. É um domingo chuvoso. A janela está aberta e posso sentir o ar úmido entrando. Espreguiço-me, acho que preciso levantar... Mas não levanto. Viro para o outro lado. O barulho da chuva é relaxante. Faz-me lembrar daquela vez em que... Que barulho é esse? Não é a chuva. Alguém passou pela porta. Sinto cheiro de café. Do que estava lembrando, mesmo? Ah é. Aquela vez... Acho que tinha café, também. Eu poderia tomar um café, agora. Mas continuo deitado. Preciso levantar. Mas não levanto. Parece aqueles domingos, quando somos crianças e não queremos levantar. Como era bom ser criança...

94


Já faz tanto tempo. O cheiro do café fica mais forte. Ela entra no quarto. Em silêncio. Deve achar que ainda estou dormindo. Não me movo. Olho com o olho entreaberto. Ela pega algo que está no criado mudo, ao meu lado. Que cheiro bom... Seu braço encosta em mim, bem de leve. Tão de leve, que normalmente não sentiria. Mas sinto. Ela não deve ter percebido. Eu percebi. Um leve toque e uma sensação... Estamos juntos. Saiu no mesmo silêncio em que entrou. Lembro-me do dia em que a conheci. Sinto-me bem. Como dei tanta sorte? Sinto-me feliz. Uma sensação incomum de paz me acerta. Será o domingo chuvoso? O cheiro do café? Será ela? Não sei. Sinto-me em paz. Fito, novamente, o relógio. Posso ouvir um tic-tac. Muito baixo. São 13:44. Preciso me levantar. Mas não levanto. Sinto-me em paz. Sinto-me feliz.

95


Universalia medo deus é um conforto maravilhoso o problema é que às vezes ele dura pouco se deus fosse só segurança e a gente não pedisse as coisas deus seria pra sempre o escuro foi meu primeiro medo olhar tão forte pra escuridão e não enxergar nada é um desespero mesmo dentro do próprio quarto sem luz os móveis mudam e os monstros surgem na imaginação de achar que algum demônio se importaria em [me matar ficar vivo, com o tempo, é o maior castigo de madruga as luzes tinham de acompanhar meus passos a ausência presente no escuro de dissipava enquanto eu corria pela casa às duas da manhã pra ir ao banheiro

96


ao

meu segundo medo foi a rejeição é o que aparece quando você percebe o resto do mundo quando você percebe que o resto do mundo talvez não perceba [você mas aquilo que esperam ou desprezam em alguém isso fica no holofote dos seus olhos e o amor fica dentro do cobertor porque preferimos passar vontade a vergonha enquanto ela beija outro que disse oi eu achava errado ser rejeitado mas no fim não vale a pena que pelo menos nisso as pessoas sejam sinceras? meu segundo medo e meio, seguindo essa linha, foi o amor meu terceiro medo foi crescer e é estranho porque não se evita é ter medo de algo que ocorre invariavelmente me peguei tendo medo da adolescência sendo adolescente e do mundo adulto sendo adulto me assustava fazer tanta merda e decidir guardar o dinheiro dos jogos pra comprar o almoço essas coisas vão passando de medo pra rotina e no conforto da rotina nossos medos viram nossa vida até estarmos fissurados na emoção do dia a dia meu último medo foi o vazio se olhar no espelho torna-se mais leve depois de se olhar na alma e só enxergar espaço em branco passei a trabalhar em recheios pro meu vazio fui do cigarro pra bebida da bebida pro sexo e do sexo pra decepção que nem um monte de gente eu sabia que ia dar tudo errado 97


todos os recheios são prazeres efêmeros e é sabendo que não vai dar certo que vale a pena tentar por amor às causas perdidas não são as risadas ou os amigos ou a namorada que te completam o universo se expande sempre e fica cada vez mais vazio tal nossa alma não se passa a vida querendo completar o infinito passa-se tentando aceitá-lo os medos que antes passaram de um em um agora ficam aqui dentro, todos juntos e é por ter passado por eles e tê-los ainda que percebo que viver é acumular as coisas pra senti-las todas juntas

98


a equipe Coordenação Geral Giovanna Romera Rossi Heloísa Fernandes Muriano Editorial e Revisão Heloísa Fernandes Muriano (coordenação) Larissa Prada (coordenação) Amanda Tiemi Nakazato Giovanna Romera Rossi Iana Maciel Igor Souza Ingrid Dias Isabella Silva Teixeira Júlia Gretz Letícia Shine Luisa Marcelino Mariana Gomes Pereira Mariana Lari Canina Nathália Caixeta Francisco Thais Moreno Ferreira 99


Arte Giovanna Romera Rossi (coordenação) Amanda Tiemi Nakazato Beatriz Alves de Oliveira Heloísa Fernandes Muriano Isabella Silva Teixeira Letícia Shine Luisa Marcelino Mariana Gomes Pereira Mariana Lari Canina Nathália Caixeta Francisco Thais Moreno Ferreira Capa Giovanna Romera Rossi Divulgação e Redes Giovanna Romera Rossi (coordenação) Stéphanie Roque (coordenação) Amanda Tiemi Nakazato Daniela Orlandi Fernanda Damaceno Heloísa Fernandes Muriano Iana Maciel Igor Souza Isabella Silva Teixeira Letícia Shine Mariana Gomes Pereira Thais Moreno Ferreira Orientação Prof. Dr. Thiago Mio Salla

100

Apoio Com-Arte Jr.


101


102

Profile for Originais Reprovados

Originais Reprovados #13  

Chegando em sua 13º edição, a Originais Reprovados é uma revista literária que publica textos de alunas/os de toda a USP! Além dos 18 textos...

Originais Reprovados #13  

Chegando em sua 13º edição, a Originais Reprovados é uma revista literária que publica textos de alunas/os de toda a USP! Além dos 18 textos...

Advertisement

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded