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CULTURA

OUTUBRO2009

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RETRATO TIPO PASSE

Carlos Gueifão Nasci em 1937, em Mação, tenho portanto 72 anos. O meu pai tinha uma barbearia onde tive a minha primeira universidade, nas conversas que ouvia, por exemplo sobre a Guerra. Depois da escola primária, estudei no Colégio de Mação, do professor Lalanda, e a seguir fui fazer o secundário a Lisboa, no Liceu Camões. Entretanto fui também conhecendo as malandrices da cidade, com um “mestre” de alta categoria no assunto. Concluído o liceu, tentei a aviação, mas não tinha perfil, tentei a vida militar através da Escola do Exército, mas não tinha vida para aquilo. Acabei por concorrer

a bancário e entrei para o BPA. Foi uma actividade de que gostei muito. Mais tarde, em 1966, com 29 anos, fui incumbido de abrir a agência do Borges & Irmão em Abrantes. Tinha casado no ano anterior. Depois disso fui trabalhar para a zona de Lisboa. A seguir ao 25 de Abril, fui saneado, não por razões políticas ou porque tratasse mal os trabalhadores, antes pelo contrário, mas porque era exigente, queria as coisas como deviam ser. Como não tinham nada contra mim, acabei promovido, a trabalhar como director nos serviços centrais. Mas com um horário fixo, que acabava cedo, decidi aproveitar e fui estudar em regime pós-

laboral. Formei-me em Sociologia em 1980, no ISCTE. Entretanto e curiosamente, durante a minha carreira de bancário, acabei por ser chamado várias vezes para a tropa, para dar instrução militar. E estava no banco em Abrantes há pouco tempo, fui mesmo chamado para a guerra em Angola durante 27 meses, de 67 a 69. Marcou-me profundamente, porque estive como capitão miliciano a comandar uma companhia numa zona de alto risco e muita luta, em Zemba. Isso daria muita história. Algumas estão no livro que publiquei em 98, Mata-Couros ou as ‘Guerras’ do Capitão Agostinho, hoje esgotado. Em 69 regressei ao banco, em

Abrantes, mas depressa fui deslocado para a zona de Lisboa. Em 1998 morreu a minha mulher e no final do ano reformei-me como bancário e passei a ter mais tempo para viver entre Almada e Mação. Em 1993 tinha começado a colaborar no jornal Voz da Minha Terra, de Mação, onde tenho procurado escrever sobre a vida das pessoas. Em 1997 descobri o Pe. António Pereira de Figueiredo através da sua música executada em Mação no segundo centenário da sua morte. Impressionou-me muito. Foi pela música e pelo que então se disse que encontrei “uma das mais fortes inteligências que Portugal tem

gerado” segundo as palavras de Alexandre Herculano. Como nada sabia dele, tive de começar a procurar, a ler e a estudar e descobri o teólogo, o tradutor da Bíblia, o gramático, o polemista, o grande latinista, o filólogo, o historiador, o ensaísta, o compositor musical, o homem da corte, enfim, um grande homem.

Hoje, o que quero é falar do Pe. António Pereira de Figueiredo. Sobre ele tenho escrito para o Voz da Minha Terra e na revista Zahara. Acabo de ter uma das grandes alegrias da minha vida na inauguração do monumento ao Pe. António Pereira de Figueiredo, em Mação, no passado dia 12 de Setembro.

edição Outubro 2009  
edição Outubro 2009  

Jornal de Abrantes

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