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OUTUBRO2009

31 DE OUTUBRO, DIA MUNDIAL DA POUPANÇA

Poupar é a melhor prevenção Há pessoas e famílias que se encontram num buraco financeiro de que não conseguem sair. Por dívidas contraídas, têm prestações mensais a pagar que ultrapassam em muito o que recebem por mês. Por vezes os encargos mensais chegam ao dobro da receita mensal. Neste desespero, não encontram nenhuma solução. Para percebermos o que se pode fazer, o JA foi ouvir um conselheiro financeiro. António Santos, da Centre Finance, começou por explicar-nos como se chega a uma situação destas. “Em primeiro lugar, a origem do problema está no sobre-endividamento. A pessoa tem um crédito à habitação, outro para o automóvel... e às tantas não consegue satisfazer as prestações. Algumas ainda recorrem a novos empréstimos para satisfazer

as prestações que já não conseguem pagar. Há pessoas que nos chegam aqui com seis ou sete créditos”. A origem do problema não está só na pessoa. “Muitas vezes está sobretudo no facilitismo com que certa banca, sobretudo a encoberta que opera tipo Cofidis e outros, empurra as pessoas para empréstimos na ilusão de que é tudo muito fácil. E, depois, as pessoas não podem pagar.” Vimos de um país pobre, em que a generalidade da população não tem uma cultura financeira mínima. Por outro lado, a onda de consumismo leva a querer mais e a sentir direito a ter mais do que se pode pagar. E cai-se no tal buraco. Em casos destes, o que se pode fazer? “Começamos por apreciar a situação financeira da pessoa e do agregado familiar. Depois, como estamos a uma plataforma in-

• António Santos, da Centre Finance. ternacional, de que somos franshizados, recomendamos a melhor solução para o problema. A solução passa por consolidar a dívida, isto é, reunir todas as dívidas numa só e fazer um plano de pagamentos que o agregado familiar possa suportar.” Parece fácil. “É fácil, embora exija sacrifícios das pessoas, desde que haja bens que as pessoas possam dar como garantia, mesmo que hipotecados. O pior é que nestes

casos costuma haver incidentes registados no Banco de Portugal, como passagem de cheques sem cobertura ou não pagamento de prestações de crédito... Aí há um trabalho prévio de limpar esses incidentes. O que por vezes é complicado, pois essa banca facilitadora é muito rápida a fazer queixa ao Banco de Portugal e muito lenta, por vezes demora meses, a comunicar a regularização das situações.” É na banca que

parece estar um nó importante do problema. “Uma parte significativa da banca não dá boa informação às pessoas. O que quer é ganhar dinheiro. Eu tinha um gabinete de contabilidade e dei-me conta de que alguns dos meus clientes estavam a ser mal aconselhados pela banca, que empurrava dinheiro a qualquer custo. Por exemplo, em vez de recorrerem ao crédito a médio e longo prazo, eram empurrados para o curto prazo. E as pessoas engasgavam financeiramente. Ao fim de um ano, ano e meio, estavam com um problema. Por isso, há cerca de dois anos, decidi dedicarme também a esta actividade.” Portanto, quem tem problemas o melhor é procurar um conselheiro financeiro para encontrar uma boa solução. E quem ainda não tem um problema, que deve fazer? “Na situação de

ter capacidade para aforro, para poupar algum dinheiro, deve fazer depósito a prazo de retorno garantido. Porque o PPR e outros produtos, isso é um engano. Se tem dinheiro disponível, aplique. Se não tem e pensa poder vir a ter algum problema, nada melhor do que – antes – pedir um conselho a uma sociedade como a nossa. Porque nós estudamos o caso e aconselhamos o melhor tipo de financiamento. Há produtos financeiros, ou até de seguros, que permitem às pessoas possam suavizar a despesa do agregado familiar. E as pessoas não recorrem a eles porque os desconhecem.” A melhor solução é, sempre, pedir conselho. “Seguramente. Nós estamos abertos a todo o tipo de ajuda. À pessoa que já tem problemas ou à que pensa poder vir a tê-los. Nada melhor do que pedir ajuda.”

NO FUNDO DO POÇO

“Queria dar de comer à minha filha e não tinha” Isaura é doente e tem uma pequena reforma, de pouco mais de 200 euros. O marido estava empregado, efectivo, mas prometeram-lhe trabalho no estrangeiro e deixou o emprego. Mas o trabalho prometido não aconteceu. Ficaram com o mês dependente da minúscula reforma. Para piorar as coisas, “já estávamos com alguns problemas, porque tínhamos sido fiadores de uma pessoa que não pagou e andámos três anos a pagar essa dívida”. Além disso,

tinha vários créditos, quatro da casa, para aquisição e obras, o do carro, e um cartão de crédito a que recorria para pagar o que já não podia pagar. “Uma pessoa vê-se apertada, vai pedindo, vai pedindo, e cheguei a um ponto em que já não estava a ser capaz.” Já estava a pagar mais de 700 euros. Que não tinha. A situação era insustentável, apesar de o marido ter começado de novo a trabalhar. Nessa altura, “está a fazer agora um ano, já não tinha

dinheiro para comprar os livros à minha filha. Quando chegava aí ao dia doze, já não tinha dinheiro, para nada. Queria um euro ou euro e meio para a minha filha levar para a escola, e não tinha. Eu quase mendigava às pessoas que me levassem roupa para eu passar a ferro, para conseguir algum dinheiro para dar à minha filha.” Em situações destas, tudo desaba. “Já andava a ficar doente. Não tinha vontade de nada. Não dormia, só a toque de comprimidos,

porque assim que me deitava, pensava logo tenho isto para pagar, tenho aquilo para pagar.” Ia na rua e sentia as pessoas a olhar para ela. “Não sabiam o que se passava, mas na minha ideia as pessoas olhavam para mim porque eu devia dinheiro. Não era no supermercado ou em cafés, era de coisas que eu comprei pensando que podia pagar e depois aconteceu aquilo e as pessoas ficaram à espera.” Então, através de amigos, soube da Centre Finance. “Não acre-

ditei. Pensei que ninguém dá nada a ninguém. Mas não tinha outra saída, acabei por ir.” Juntaram-lhe os créditos todos num só e ficou a pagar “não chega a 300 euros por mês.” Bem menos de metade. Foi há cerca de cinco meses. “Felizmente não tinha problemas com o Banco de Portugal”, explica. “Passei muito, queria comer e não tinha, mas nunca tive problemas com o Banco de Portugal”. Hoje tem a situação equilibrada. Resta-lhe apenas o crédito da compra da

casa, “mas isso toda a gente tem”. Entretanto, abriu um pequeno negócio e já respira fundo. Apenas quando conta estes episódios, e sobretudo quando recorda os momentos em que nem tinha como dar de comer à filha, é que os olhos se lhe enchem de lágrimas. “Por isso é que o senhor António é como se fosse da família. Mas especial, porque nem sempre os da família são de confiança.” E resume tudo numa expressão: “Tiraram-me do fundo do poço.”

edição Outubro 2009  
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Jornal de Abrantes

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