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livreto 1


Copyright © 2013 Oriana Duarte Todos os direitos reservados e protegidos pela lei 9.610 de 19/02/1988. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da autora. Organização: Oriana Duarte Capa: Oriana Duarte Projeto Gráfico: Oriana Duarte Revisão: Mariano Morgado Editoração: Danielle Barros Impressão e acabamento: Editora Universitária/ UFPE Este projeto foi contemplado pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Nacional de Arte - FUNARTE no Edital Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais www.noserrantes.com

Catalogação na fonte: Bibliotecária Kalina Ligia França da Silva, CRB4-1408

D812t

Duarte, Oriana, 1966-. As travessias plus ultra de uma artista atleta, parte I : os preparativos / Oriana Duarte. 1. ed. – Recife : Ed. Universitária da UFPE, 2013. 57 59 p. : il. (algumas color.). – (Coleção Nós, errantes - livretos de artista, 1). Projeto Nós, errantes. Escritos de existências + Falas de uma artista. ISBN 978-85-415-0348-8 (broch) (broch.) 1. Arte brasileira – Séc. XXI. 2. Artistas – Brasil – Descrições e viagens. 3. Arte conceitual – Pesquisa – Obras ilustradas. 4. Remo (Esporte). 5. Esportes na arte. 6. Comunicação e as artes. 7. Subjetividade. 8. Corpomídia. I. Título. 709.810904

CDD (23.ed.)

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS

UFPE (BC2013-214)


projeto Nós, errantes: escritos de existência + falas de uma artista

∼∼∼∼∼ As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta ∼∼∼∼∼ parte I: OS PREPARATIVOS

Oriana Duarte

1ª. edição Recife, 2013


N贸s, errantes1

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

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N贸s, errantes1

Invento isso para ficar aqui, nesse i

A C O R D A R. ~8~


As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

ir e voltar e ir e voltar e ir ... E assim muitos outros inventam,

e o tempo inteiro - acaso exista tal inteiro. ~9~


Nós, errantes1

Também, para muitos outros, as coisas são como essa flecha a cruzar o espaço sempre apontando prá lá, e sempre na metade de um eminente fim.

Mas, vez

ou outra, ao voltar atravesso um marco zero onde [SIM]

vejo a flecha em seu vôo

circular.

Noite passada, sonhei o pesadelo de tantos anos. E ainda que ocorra em um corpo sem a mesma força para espremer espumas (travesseiros impregnados por cheiros bordados em dobras de cabelos que caem e crescem e caem), nele tudo aparenta O MESMO. Na sua inexorável

passagem, um crivo sempre se insere: Uma brisa fria penetra o meu joelho direito, se estende até a altura da cintura e percebo tudo acontecer - é quando acordo em meio de palavras, deixadas pela flecha, como riscos no céu: seguir mais além da gravidade que atua sobre a humana estrutura ~10~


Treinar.

Corpo moído; sinto uma forte e uniforme dor e, também, certa exaustão prazerosa. Hoje nada mais consigo fazer. Esse foi um longo dia, talvez por efeito da lenta hora vivida no barco-escola - um simulador dos movimentos de remar. E neste barco, que é mesmo um buraco no chão rodeado por espelhos, conheço as forças postas em jogo numa máquina de adestrar corpos. Elegantes corpos moldados para superação de si.


Nós, errantes1

Que lugar! Remar entre horizontes inversos; entre um horizonte que sou eu e o meu reflexo. Observo-me através da tecnicidade do corpo. Os espelhos são enormes e intimidam. Busco me concentrar nos braços (cabos de força) e logo, em meio a euforia dos esforços físicos, o que em mim há de tímido desaparece. Já o repetir de movimentos, provoca hipnótica experiência da verticalidade, quase anulando o mergulho na extensão horizontal - locus do risco e das múltiplas possibilidades. Estranho pensar que num barco aprendo objetivar. Por instantes, até esqueço estar em pleno treino e numa escola. Estranho barco, onde aprendi meu corpo ao escutar suas extensões entre águas. Aqui, jogar é atravessar uma simulação.

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~13~

Para minha surpresa, ao longo das travessias, o barco-escola se torna importante ferramenta no processo de captar imagens. Nos clubes mais equipados por onde passo, nele regulo as câmeras. Este é o único momento de certeza sobre o funcionamento dos equipamentos. Ao lançar o barco na água já nada sei; solto de mim, o olhar se torna um dispositivo mecânico. Assim, o barco-escola também é um simulador do que busco registrar: a relação corpo-ambiente num instante de movimento do mundo. Apenas me dou conta disso, ao encarar o grande espelho a frente. As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta


Nós, errantes1

Comoépossívelfazerisso? As costas ardem, as pernas tremem e, ainda por cima, essa incontrolável vontade de gargalhar alto. Meus braços latejam, estão mais fortes força que ainda surpreende.

(Esqueço de relatar o abandono sentido no barco-escola. Essa fala é possível?)

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Em qual criatura me faรงo! Esquartejada, de unhas vermelhas.

... ALGUร‰M NOTA QUE SOU UM BARCO?

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Nรณs, errantes1

Lรก vem o corpo. Lรก vem o barco. Lรก vem o corpobarco.

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

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Hoje treinei sem inter valo de descanso e agora, minhas carnes fer vem como que dentro de um caldeirão. Por instantes, as mãos se tornam esquisitas, latejantes, inchadas e sujas. Sequer as unhas escapam, pois as extremidades tocadas na pá de remo, sendo revestidas de uma grossa borracha, tudo grava em preto. Estimo haver permanecido cinqüenta minutos no barco-escola. Contudo, preciso de mais tempo para ajustar a virada da pá no retorno, pois o lado esquerdo ainda não acompanha o direito de modo a aumentar o peso da água na pá. O pior é o efeito causado por essa falta de sincronia na fotografia: a desorganização da imagem, ou melhor, o registro de um corpo torto.

Agora, retomo a pele limpa, ainda que já não mais tão fina, pois o remo é um calejador de mãos. Mãos-espelhos à me deslocar por vertiginosas velocidades. Por isso preciso saber aonde colocar as mãos? ~18~


As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

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HOJE ESTOU assustadoramente descabelada. Ando receosa com o processar da pesquisa, pois várias questões precisam de outro lugar, bem como, de mais tempo para perder bordas e sair de compartimentos e desfazer fronteiras e, e, e... Voltei a ler por desmesurados atravessamentos, e a pouco, alguém me encaminhou o trecho de um livro já lido há muito tempo.

Logo entendi haver incubado tais palavras e ao consultar meu volume, lá estavam páginas cheias de riscos e anotações. Traços feitos quando já não sei, ainda que possa ser agora, acerca de uma hora atrás, amanhã ou até quando for possível o ajuste cuidadoso de travesseiros, antes de acessar uma máquina de afetação.

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

“Como tornar um momento do mundo durável ou fazê-lo existir por si? Virginia Wolf dá uma resposta que vale para a pintura ou a música tanto quanto para a escrita: “saturar cada átomo”, “eliminar tudo que é resto,morte e superficialidade”, tudo o que gruda em nossas percepções correntes e vividas, tudo o que alimenta o romancista medíocre, só guardar a saturação que nos dá um percepto, “incluir no momento o absurdo, os fatos, o sórdido, mas tratados em transparência”, “colocar aí tudo e, contudo saturar”. Por ter atingido o percepto como “a fonte sagrada”, por ter visto a vida no vivente ou o vivente no vivido, o romancista ou o pintor voltam com os olhos vermelhos e fôlego curto. São atletas: não atletas que teriam formado bem seus corpos e cultivado o vivido, embora muitos escritores não tenham resistido a ver nos esportes um meio de aumentar a arte e a vida, mas antes atletas bizarros, do tipo “campeão de jejum” ou “grande nadador” que não sabia nadar. Um atletismo que não é orgânico ou muscular, mas “um atletismo afetivo”, que seria o duplo inorgânico do outro, um atletismo do devir que revela somente forças que não são as suas, “espectro plástico”. Desse ponto de vista, os artistas são como os filósofos, tem frequentemente uma saudadezinha frágil, mas não por causa de suas doenças nem de suas neuroses, é porque eles viram na vida algo de grande demais para qualquer um, de grande demais para eles, e que pôs neles a marca discreta da morte.” (Deleuze, Guattari, 1992) ~21~


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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Fora do barco e na busca de superar a falta de esforço, simulo um rio em mim. Nesse rio atravesso múltiplos cursos: homens, crianças, mulheres. Nesse rio atravesso o que convivo: desejosas, sonhadoras e conf lituosas imagens. Será, mesmo assim, esse rio simulação em mim?

Faltam sete dias para reiniciar plus ultra. Preciso, a partir de agora, não relaxar o abdome, implantar uma substanciosa alimentação e ajustar as horas de sono. Somente assim, conseguirei adestrar o metabolismo da situação por vir.

Apreendo a imagem que até a pouco fora suposição: Meu cor po responde riscando outros ângulos na paisagem. ~23~


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Fecho os olhos e busco reconstituir meus gestos ao remar. Aparentemente isso parece impossível, apesar de sentir o remar em meus músculos. Como acontece tal sensação? Será o corpo treinado executando algo que me sacode para outro lugar que não é o do treino, mas sim do prazer contínuo pelo exercitar mecânico? Sendo isso, o corpo treinado é mesmo capaz de levar o corpo não treinado a absor ver outra apreensão dele próprio. Sendo assim, tudo isso não passa de outra estratégia para produzir novas ignições da propriocepção.

Certo dia, enquanto treino, faço essas anotações: ~24~


As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

1º. Distingo cada milímetro dos meus membros superiores, e parto dessa sensação para emendar braços e pás.

2º. Atento ao meu peso para garantir que o barco não vire. E já que a percepção do peso do corpo demora à ocorrer, pois não produz imagem, faço das forças atuantes no equilíbrio do corpo uma via de acesso ao quanto peso.

3º. Os membros inferiores, que são os agenciadores da força do remar, facilmente são esquecidos na mecânica repetitiva do exercício. No entanto, ao me observar através do espelho frontal do barco-escola, entendo ser minha parte inferior, a que assegura a elegância do que faço. Já não a esqueço.

4º. O desejo de elegância tanto engata a memória do corpo, quanto adestra movimentos. Isso, também, é uma experiência estética. ~25~


Como FALAR DO CORPO?

?

ComoCORPO

ComoFALA?

Um CORPOESCUTA. Eco entre


e montanhas. Zumbido. Uivo oco do alto-mar...

Como sigo?

CorpoVagante


O

DO

CORPO MEU

REMAR


As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Desde o início d as mi n ha s e mp re i t a d a s a r t í st i c o atléticas, adqu iri o háb i to d e re a l i z a r ch e ck- u p anualme nte . Já po s s u o um p e qu e n o b a n c o d e d a d o s sobre m e u c o r po f is iol ó g i co , i n te r n a me n te fotogr afa d o , e s qu ad rin ha d o p o r l í qui d o s contr ast ante s e te c nol o g i a s d e ul t i ma g e r a çã o . Ao f inal das c ons u lt as , m e s a t i s fa ço co m o to m g r ave d os médi cos, qu e par a m inha s o r te , s e mp re re ci t a m um abrac ada b ra: “ E stá tu do b e m, p o d e s e g u i r t r a n q üi l a ” . Bem sei qu e e st a e s c u t a c r ava o r i s o cí n i c o , co m o qual me de s pe ç o c omp ro met i d a e m reto r n a r. Pululante , s aio abr aç ad a a o s e nve l o p e s e s a co l a s contendo t ax as e g ráf ic o s , p o i s c o l e ci o n o co m z e l o t ai s ex am es. Co ntu do, ape s a r d e s s e a p e g o , n ã o realizo o habitu al ch e ck- u p a n te s d a s t r ave s s i a s p l u s u ltra nas c inc o re g iõ e s d o p a í s .

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Nós, errantes1

O check-up fora previsto para o mês de janeiro, logo ao iniciar do ano, de modo a compensar outro, também não ocorrido em julho do ano anterior. Pois bem, não o fiz e conseqüentemente, não desfrutei da paz de espírito ofertada por um diagnóstico satisfatório.

A P E R G U N TA Q U E m e f a ç o , i n c a n s ave l m e n t e , d e s d e o i n í c i o d o p r o j e t o p l u s u l t ra é : C o m qu a l c o r p o re m o ? E s s e r i t o r n e l o i n d a g a d o r d o m i n a m e u s p e n s a m e n t o s , s o b re t u d o , qu a n d o u m a m o m e n t â n e a t a qu i c a rd i a m e f a z e s c u t a r o t a m b o r qu e c a r re g o d e n t ro d e m i m : ch a m a d o t r i b a l p a r a o fe r ve r d o s ossos, esticar da pele, até af lorar no esbugalhar dos olhos, no arfar das narinas e alargar da boca. Mas, de súbito, assim como começa o barulho, também tudo re t o m a a r í t m i c a qu a s e s i l e n c i o s a d e u m r i t u a l d e s a c r i f í c i o , e d a qu e l e s qu e a n t e c e d e u m a g u e r r a . ~32~


As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

As martelas da intuição entoam: corpo de resistência. E o que posso falar sobre ele, por enquanto, se limita ao relato da forma física apreendida em vestuários de clubes, sempre ao trocar de pele diante de inevitáveis espelhos. Descubro meu corpo sempre por três vezes a cada vez que remo: Ao despir a roupa do dia a dia e me vestir de ar tista-atleta, ao despir-me de artista-atleta e retomar a roupa do dia a dia, e por fim, a me ver nas imagens dos registros em vídeos enquanto gravo arquivos d e b a ck- u p s n o c o mp u t a d o r. Ne s s e f l u xo d e imagens, a nudez expõe acontecimentos, seja através de riscos e cores, na pele decorrentes de pequenos acidentes, seja nos diluídos contornos das formas do cor po – diluição como efeito de uma insaciável fome. ~33~


Nós, errantes1

As poucas horas de sono e a tensão em não falhar, fatalmente, aguçam meu paladar. Chamam isso de compensação – estranha metáfora para as estratégias do corpo em permanecer. Escuto meus apelos de moderação por todo projeto: Por que você não implementa o prescrito pela nutricionista? Mas, com o passar do tempo, admito – desta vez – não haver volta. Os quilos somados ao check-up não feito, por outro lado, me inflam de uma certeza: Seguir mais além sem regras para comer.

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Assim passo a ser perseguida por espelhos, frente aos quais nomeio protuberâncias que pesam no flutuar do barco. Facilmente escolho nomes: Acarajé, Picanha, Feijoada, Tacacá, etc. Muito me distrai imaginar devorar os lugares atravessados. Somente em Brasília não vivo a experiência gastronômica de uma cozinha regional.

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O mais importante são os quilos a mais adquiridos. Eles provocam um efeito devastador, pois potenciam a assimetria que carrego. E o meu grande desafio, na verdade, se dá ao me equilibrar num barco cuja forma idealiza corpos simétricos, ou mesmo maquínicos. Nessa situação, a destacada assimetria do meu corpo, de fato, se torna comprometedora.

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Conseqüente de acidente vivido há bastante tempo, a minha assimetria é mesmo um desses acontecimentos que vão se acumulando ao longo da v i d a , s e g u e n o s t r a n s fo r m a n d o a t é q u e , s e m q u e p e r c e b a m o s , a fo r m a q u e n o s c o n fo r m a n o s s u r p r e e n d e p o r n ã o s e r a s u p o s t a fo r m a q u e n o s i n fo r m a . O m e u a c o n t e c i m e n t o é u m a p r o t u b e r â n c i a , sem pudor fincada, ao lado externo da minha coxa direita.

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Ao remar, o eixo em retidão é fundamental. Passo a entender sobre isso, nas distancias do rio, onde apenas timbre alto se escuta. Nessas distancias, o meu treinador incansavelmente entoa à quem rema: “A elegância!” Ao que já sei: estou pendendo para o lado esquerdo... Franzo a testa, fixo o olhar à frente e dou “puxãozinho” no meu ombro direito. Pronto, está feito – ainda que por instantes. Disto, fato é, recupero o eixo = truque de artista-atleta.

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Comumente, entre as investidas de busca da perfeição, bem se recebe a idéia de beleza associada à simetria. Também, é comum recusar as assimetrias destacadas, dessas que emergem mudando a silhueta, fazendo o corpo pender para um lado, mais do que para o outro. E assim passamos a temer o desalinhar do corpo, seu desmantelo e, conseqüentemente, a deselegância – uma convenção de desleixo e do evidenciado passar do tempo (sinônimo de perda da graça). Igualmente, a recusa ao assimétrico, bem pode estar vinculada ao temor de não se compor ao lado de outros corpos, pois para ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, cada qual no seu lugar, é preciso compactuar de um mesmo eixo. É assim mesmo? Uma não pergunta ao espelho meu: Veja no que deu a nobre elegância!

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Inesperadamente, outra protuberância surge no meu corpo, além desta que me desalinha, e sobre a qual, esclareço tratar-se de trauma adquirido em uma queda. Mas diferente dessa que possuo há tantos anos, a nova protuberância, como mágica, emerge no processar das remadas de plus ultra. Somente lhe dei atenção ao expor minha travessia pela Baía de Vitória. Confesso o constrangimento vivido na ocasião, pois diversas pessoas assistiam ao vídeo e a mim pareceu, falaram em uníssono: “Que caroço é esse?”

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Diante da indignação de todos, fiquei surpresa dissimular o fato, tal como quem ignora o próprio corpo. Na verdade, já havia sentido o tal caroço e, confesso, achei por bem nada fazer, pois temi a necessidade de uma intervenção cirúrgica e, conseqüentemente, não poder realizar os esforços exigidos ao remar. Segui em frente com ele. Logo aonde! Assim pensei alto ao lhe tocar pela primeira vez enquanto me enxugava após um banho. E agora ele está ali, por todas as águas que atravessei e, não raro, chega a brilhar quando a luz ideal para a fotografia em vídeo, a luz crepuscular, ilumina e doura as minhas costas. ~45~


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Meu corpo de superação, afora os elementos acoplados à sua forma, bem consegue ir mais além. Exemplo disto são os membros superiores, que até chegam a surpreender quando, por vezes, os remadores que remam comigo impõem suas velocidades ao barco. Nesses momentos, ponho à prova todas as máquinas nas quais exercitei meus finos e longos braços. Hoje reconheço, foi uma vontade de desfrutar força inexistente em mim, a causa desse plus ultra. Também essa vontade, preciso admitir, produz a necessária paciência pelo arrastar de horas vividas em equipadas salas de musculação.

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

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Passado certo tempo, indago sobre a possibilidade de o corpo antever acontecimentos.

corpo sobre

corpo Corpo-adivinhação: Processo que trama o hermetismo e, por vezes, a inteligibilidade. Talvez, apenas um teste de limite à paciência e à fadiga muscular.

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As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

Remando. Finalmente acontece Plus Ultra... E, por todas as travessias, processos se repetem e se reinventam...

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Lisérgica recepção da cidade: lançar de poeira nos olhos, enterrar de cheiros nas narinas, riscar de porosidades na pele, soprar de diferentes temperaturas.

Ida ao clube e a mais estranha conversa. Espero, com o passar do tempo, melhorar essa performance de apresentação.

O dia segue com meu ritornelo de auto-indução: Difícil-foi-aprimeira-vez-onde-as-águas-fedem... E onde passei meses remando sem remar. Repenso o meu pulso torcido e a braçada torta. Não sei se eliminarei tais desvios, o que me importa é saber que eles existem, eu os vejo. Não remo. Busco controlar a ansiedade, concentrar no acontecimento e repito a mim mesma, diversas vezes: Estou em uma operação artístico-atlética.

Durmo com músculos em chamas e sonho sem sono:

Remo.


O cheiro da cidade impregna as roupas.

+ A temperatura do cor po se est abiliza.

Ao remar me concentro na paisagem e no peso das águas.

Po r n ã o m e i m b r i c a r a o b a rc o , r e m o m a l e f i c o d o l o r i d a .

Expectativa de uma melhor performance amanhã = Esperança de suavizar a DOR .

DOR que não é dor de fundo mas sim, DOR de superfície, DOR ardida, pela qual adormeço sentindo uma musculatura furta-cor e fibrosa.


Nós, errantes1

A pele absor ve o cheiro da cidade.

Desconfio de mim, pois me adapto com facilidade e bem se posso sofrer por isso. Precisarei do Deus-salvador, ou será que remando isso passa?

Admito não estar preparada para fazer o que faço: re m a r, p o r m u i t o t e mp o , c o n t r a o ve n t o .

F i c o i r r i t a d a e m e r e f a ç o . C h e g a d e d o r, d e a r d o r. Não lament arei mais a veste impermeável que possuo.

Escrevo em guardanapos: Plus ultra .

Prazer extremo = Reinvento-me paisagem-barco . ~52~


As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta

i,

. ~53~


corpo


ponte plus ultra


UMA FALA SOBRE O PROJETO

Nós, errantes. Escritos de Existência + Falas de uma artista abarca três ações: implementação do website www.noserrantes.com; apresentações de performances-palestras e a publicação de uma coleção de cinco livretos de artista. A articulação entre essas ações se faz através do processo artístico plus ultra, pelo qual venho atravessando paisagens de cidades do Brasil em um barco a remo (doublé-skiff). Isso porque, o exposto no projeto são fragmentos escolhidos em meio à produção surgida no correr dos sete anos da execução de plus ultra (2006-13). Nesse sentido, o projeto se realiza nas cinco regiões do país, tal como antes, entre 2008 -09, quando plus ultra foi agraciado na primeira seleção deste Edital.

Já o material presente nos livretos (escritos e imagens), quase na sua totalidade, surge da tese de doutorado Plus Ultra: o corpo no limite da comunicação, desenvolvida entre os anos de 2008 e 2012 no Programa de Pós-graduado em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Por essa tese tenho a oportunidade, com a preciosa orientação da Profa. Christine Greiner, de investigar o processso plus ultra através do campo transdisciplinar dos estudos do corpo. Não a toa, ao longo dos cinco livretos,

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deslizam variadas narrativas e contextos dos quais emergem expressões e referencias de diversos áreas de conhecimento, ou melhor, de tantas formas de pensar e agir. Mas aqui, o proliferar de idéias é tão somente um meio de afirmar a arte como potencia de reinvenção de mundos e modos de viver, no caso, viver a vida de artista. Ao explorar através do projeto Nós, Errantes as resultantes da experiência alargada e contínua do processo plus ultra, busco também, o desdobrar de outras possibilidades artísticas, agora pela justaposição de ações voltadas à por em relação a metáfora do [meu] remar. Assim, por essa escrita, proponho que o deslizar fluído do barco seja uma outra via de pensar a nossa atual condição de vida de artista. E que por essa via, os bons ventos da errancia faça da arte também exercício do que poderíamos chamar de força alocutária: força capaz de estreitar, ou mesmo anular as distancias entre o dito e o vivido. Oriana Duarte Recife, setembro de 2013

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Realização: Ministério da Cultura Fundação Nacional de Arte – Funarte Presidente: Gotschalk da Silva Fraga – Guti Fraga Apoio Institucional: Universidade Federal de Pernambuco Reitor: Prof. Anísio Brasileiro de Freitas Dourado Pró-reitoria para Assuntos de Pesquisa e Pós Graduação Pró-reitor: Prof.Francisco de Sousa Ramos Editora Universitária – UFPE Diretora: Profa. Maria José de Matos Luna Agradecimentos: Atletas com os quais remei, treinadores dos clubes que me receberam e amigos que acolheram, sob diversas formas, as minhas remadas ao longo desse processo. Dedico os risos que atravessam essa errancia, as belas memórias que impulsionam meu barco: minha mãe Evanilde Duarte e o mestre Prof. Ivan Assumpção de Macedo. Informações Gráficas: Formato: 10,5cm x 14,8cm Tipologia: Trebuchet MS Courier New Goudy Old Style Papel: Miolo: Off-set 75gr Capa: Off-set 240gr Tiragem: 1000 Exemplares Montado e Impresso na oficina gráfica da

Av. Acadêmico Hélio Ramos, 20 Cidade Universitária, Recife – PE. CEP.: 50740-530 Fax: (0xx81) 2126.8395 Fones: (0xx81) 2126.8397 | 2126.8930 www.ufpe.br/edufpe - livraria@edufpe.com.br

Distribuição Gratuita, Proibida a Venda.


Nós Errantes - As Travessias plus ultra de uma Artista Atleta. Parte I : Os Preparativos  

Os escritos dos livretos 1 e 2 são realizados na fornalha do acontecimento, quando em 2009 remo nas cinco regiões do Brasil. Na primeira par...

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