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I Conferência Virtual Global sobre Produção Orgânica de Bovinos de Corte 02 de setembro à 15 de outubro de 2002 — — Via Internet

USO POTENCIAL DO BOVINO PANTANEIRO NA PRODUÇÃO DE CARNE ORGÂNICA DO PANTANAL José Robson Bezerra Sereno Pesquisador Embrapa Pantanal sereno@cpap.embrapa.br

Resumo Esta palestra tem como objetivo revisar as principais atividades desenvolvidas com o bovino Pantaneiro nas áreas de conservação e produção animal realizadas no Pantanal. Neste caso, considera-se principalmente seu uso potencial para a produção de carne orgânica, assim como promover a troca de experiências e debates sobre a conservação e expansão desta raça no seu próprio hábitat. Acredita-se que a inclusão dos bovinos Pantaneiros na cadeia produtiva do boi verde/orgânico seja uma excelente estratégia auxiliar na manutenção e multiplicação deste recurso genético animal de fundamental importância para a região, ofertando carne de excelentes qualidades organolépticas para o sistema de produção orgânico brasileiro.

Palavras chave : Pecuária orgânica, recursos genéticos animais, produção animal. Editored by: University of Contestado - UnC - Concordia Unit - Concordia - SC - Brazil Embrapa Pantanal - Corumba - MS - Brazil c UnC – Concordia – Brazil – 8 de outubro de 2002

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Introdução

O bovino Pantaneiro (Bos taurus taurus), também conhecido como tucura ou cuiabano, é um recurso genético animal do Pantanal brasileiro. Estes animais tiveram origem na Península Ibérica e entraram em terrotório brasileiro durante a colonização das Américas. Estão no Pantanal brasileiro há quase três séculos, onde se adaptaram plenamente às condições edafo-climáticas da região, reproduzindo-se e multiplicando-se naturalmente nesta vasta região alagável (Mazza et al., 1992). Com a chegada dos zebuínos na região na década de 30 os criadores começaram a realizar cruzamentos indiscriminados e absorventes entre estas duas raças, atribuindo os ganhos genéticos obtidos com a heterose somente a participação dos zebuínos (Bos taurus indicus) esquecendo de computar os 50% pertencentes aos Pantaneiros nestes cruzamentos. Com a freqüência deste tipo de cruzamentos logo se estabeleceu um processo de deriva genética da raça Pantaneira, o qual recentemente vem sendo acelerado através de descartes e castrações indiscriminadas dos touros. Atualmente, esta população encontra-se ameaçada de extinção com efetivo populacional estimado em torno de 10 mil cabeças. Enquanto que a região do Pantnal apresenta efetico populacional bovino de aproximadamente, 3 milhões de cabeças, constituidas em 95% de zebuinos com predominio da raça Nelore.. A Figura 1 mostra uma vaca Pantaneira se alimentando em uma lagoa, comumente conhecida na região como bahía, no Pantanal. Estes animais apresentam características únicas por pastarem debaixo d´agua e utilizarem assim todos os recursos vegetais disponíveis na região. São animais dóceis e de fácil manejo e, até o momento, não foi observado comportamento alimentar similar com os zebuínos nas mesmas condições de manejo.

Figura 1 — Vaca Pantaneira pastando na lagoa. Existem poucas populações remanescentes dos bovinos Pantaneiros e estima-se que cerca de 90% destas encontram-se no Pantanal de Mato Grosso, onde por razões culturais o processo de erozão genética não foi bem estabelecido quanto ao observado em Mato Grosso do Sul (Ver mapa abaixo). Em entrevistas realizadas com os produtores desta região do Pantanal de Mato Grosso observou-se a existência de identidade cultural desta população de fazendeiros com a criação dos bovinos Pantaneiros. Os produtores desta região se lembravam destes animais com um certo carinho e nostalgia, pois estas lembranças os levavam a recordar parte de suas respectivas infâncias, onde a presença do leite e dos derivados lácteos, principalmente queijo e doce de leite estavam fortemente associados às vacas Pantaneiras, podendo-se afirmar que a maioría destes pecuaristas das sub-regiões do norte do Pantanal são simpatizantes da raça Pantanaeira. A tabela 1 mostra informações da caracterização fenotípica dos bovinos Pantaneiros, realizada por Mazza et al., (1992b ). A figura 2 ilustra as informações da tabela 1.

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Figura 2 — Caracterização fenotípica do Bovino Pantaneiro. A Embrapa Pantanal vem trabalhando com estes animais há mais de 15 anos. Em 1984, criou o primeiro Núcleo de Conservação "in situ" do bovino Pantaneiro, localizado na fazenda Nhumirim, propriedade da Embrapa, sub-região da Nhecolândia, Corumbá, MS, Brasil. Os trabalhos e atividades realizadas inicialmente neste núcleo tinham como objetivo caracterizar estes animais sob o ponto de vista genético, produtivo e zootécnico. Os resultados oriundos destes estudos foram publicados em revistas especializadas e, neste momento, a equipe estuda a possibilidade de aumentar o efetivo populacional para brevemente iniciar um projeto de pesquisa na área de melhoramento genético com a finalidade de proporcionar aos produtores pantaneiros um animal adaptado, resistente e produtivo para uso em monta natural à campo. Atualmente já existem seis núcleos de conservação "in situ" do bovino Pantaneiro na região e pretende-se expandir ainda mais essas atividades/criações para viabilizar nossos estudos. O Pantanal é eminentemente uma região de produção de carne bovina, onde os produtores mantem apenas algumas vacas, geralmente mestiças, para a produção de leite diária destinada ao consumo interno da propriedade. Como a maioria destas vacas apresentam baixa produção leiteira há necessidade de se manter um maior número de vacas leiteiras para suprir as necessidades diárias de leite da fazenda. Por esta razão, em alguns meses do ano há escassez do produto, dificultando

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Tabela 1 — Caracterização fenotípica dos bovinos Pantaneiros Características Cabeça

Perfil Focinho Olhos Orelhas Chifres Corpo

Pelagem

Cauda Temperamento Fonte:

Descrição As fêmeas apresentam-na leve e pequena; normalmente tem coloração amarelada a vermelha. Nos machos, são pesadas e pequenas, frequentemente pretas com tufos de pêlo na marrafa. Predominância do subconvexo (79%), com alguns casos de retilíneo Cor negra, com alta frequência (73%) de anel branco ao seu rdor Em alguns animais (44%), são escuros, com presença de anel claro em seu entorno Pequenas, arredondadas, com saída horizontal; presença de pêlos claros na parte interna Marron-esverdeado na base, claro no meio e negro na ponta; forma arredondada, saindo lateralmente para cima e para frente Pequeno a médio, com linha dorso-lombar geralmente reta Predominância da cor amarelo-avermelhada (79%), com presença de tonalidade mais escura nas extremidades, principalmente nos machos; pêlos brancos na porção ventral. O pêlo é curto e sedoso Fina, com inserção alta Dócil e calmo, com manejo constante, tornando-se bravio quando mantido isolado

Mazza et al., (1992b ).

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I Conferência Virtual Global sobre Produção Orgânica de Bovinos de Corte 02 de setembro à 15 de outubro de 2002 — — Via Internet a oferta de leite in natura para a alimentação infantil, bem como a fabricação de derivados lácteos, principalmente queijos e doces de leite. De acordo com o trabalho realizado por Lara et al., (2002) o bovino Pantaneiro poderia ser considerado uma raça de dupla aptidão já que as análises da b caseina apontam uma alta variabilidade genética atestada através de análises de DNA. As frequências alélicas encontradas para os Pantaneiros encontram-se em posição intermediária entre as frequências observadas para as raças de origem européia e indianas, respectivamente. Vale ressaltar que estes animais não participaram de nenhum programa de melhoramento genético animal, sendo potanto um excelente material para estudos desta natureza. Vários estudos tem sido realizado na tentativa de caracterizar e futuramente melhorar algumas características de produção deste animais na região. Sereno et al. (2001a,b ) não encontraram diferenças significativas entre o peso (233 kg, 213 kg e 241 kg) e a idade (3,5, 3,4 e 3,2 anos) a primeira monta de novilhas das raças Pantaneiras, Nelore e mestiças Pantaneira x Nelore, respectivamnete. Entretanto, Abreu et al., (1998) estimaram a idade ao primeiro parto de novilhas Pantaneiras e Nelores em 24,95 e 47,76 meses, respectivamente. A diferênça observada nestes dois estudos foi devido ao extrato da população utilizado, pois Sereno et al., (2001) trabalharam com animais da mesma fazenda/condições, além de utilizarem uma população de bovinos da raça Nelore considerada melhorada geneticamente, animais da fazenda Nhumirim. Enquanto que Abreu et al. (1998) utilizaram dados de bovinos Nelore de regiões vizinhas que não apresentavam o mesmo padrão genético. Provavelmente, por esta razão a idade ao primeiro parto estimatimada é quase o dobro. Entretanto, estes dados são representativos da região que apresentam baixos índices reprodutivos, devido fundamentalmente ao sistema de criação extensivo e baixa oferta de alimentos. Estes resultados manifestam o grande potencial de precocidade sexual que apresentam os animais da raça Pantaneira. Entretanto, nota-se que esse potencial ainda não foi utilizado em sua totalidade, devendo o mesmo ser melhor explorado e transformado em beneficios gerais para a região. Segundo Abreu et al., (2002) essa superioridade na performance reprodutiva observada nos bovinos Pantaneiros, provavelemente, estaria relacionada ao processo de seleção natural por que passaram estes animais no Pantanal. A figura 3 ilustra o cortejo sexual destes animais a nível de campo. A nossa equipe é consciente destas distintas características genéticas do bovino Pantaneiro e da real necessidade de proporcionar aos criadores pantaneiros alternativas de produção, principalmente com o objetivo de diminuir a idade ao abate dos animais produzidos no Pantanal visando fortalecer o programa do novilho precoce regional e elevar consequentemente a competitividade da carne produzida na região.

Figura 3 — Cortejo sexual do Bovino Pantaneiro Vale ressaltar que a oferta de pasto na região depende das chuvas/enchentes periódicas e que a introdução de raças especializadas e melhoradas, também, exigirá consideráveis melhorias na produção de alimentos a fim de dar-lhes maiores condições de se desenvolverem. Do contrario, não poderão demostrar todo seu potencial genético e produtivo. Sabe-se da existência de vários fracassos de introdução de raças exóticas no Pantanal, as quais deixaram poucos descendentes, sendo que algumas até morreram por ausencia de adaptação às condições de ambiente do Pantanal. Portanto, a adaptabilidade a estas condições de meio é fundamental para o êxito de qualquer introdução de raças exóticas ao Pantanal. Infelizmente, algumas tentativas de implantação da inseminação artificial (IA) na região não deram certo por uma série de razões, principalmente, mão-de-obra não especializada e longas distancias entre

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I Conferência Virtual Global sobre Produção Orgânica de Bovinos de Corte 02 de setembro à 15 de outubro de 2002 — — Via Internet as propriedades e os grandes centros, que dificultam sobremaneira o fornecimento/abastecimento de nitrogênio líquido. As propriedades de vanguarda do Pantanal utilizam a IA com sucesso, entretanto, não são representativas da região. Espera-se em futuro próximo mudar este perfil e assim melhorar o potencial genético dos animais do Pantanal. Existem tres grandes necessidades para o aumento da produção animal da região: a) Criar ou adaptar raças leiteiras de dupla aptidão para suprir o consumo interno das fazendas, b) Facilitar a introdução de raças produtivas para cruzamentos industrias através de IA ou monta natural à campo e c) Criaçao do bovino composto para o Pantanal. Das tres alternativas as duas primeiras estão relativamente mais próximas de serem realizadas, principalmente, por questões econômicas e grande interesse/pressão dos produtores em realizar algo novo e assim preencher novos nichos de mercado. Espera-se que a raça Pantaneira esteja presente nas tres ações de pesquisa citadas anteriormente, pois ela representa a única raça de origem européia que se adaptou bem as condições do Pantanal, reproduzindo-se e multiplicando-se na região sem maiores problemas, além de apresentar bons índices de reprodução e sobretudo por sua adaptabilidade ao meio. O gráfico 1 ilustra as várias estimativas de peso realizadas para os bovinos Pantaneiros. Utilizaram-se várias informações citadas nos trabalhos realizados por Mazza et al., (1994), Abreu et al., (1998) e Sereno et al., (2001a,b ) dos diversos pesos desde o nascimento até a idade adulta. Este gráfico ilustra as principais carcterísticas de produção dos Pantaneiros de forma espacial. Entretanto, Abreu et al., (2002) estudaram a curva de crescimento de machos e fêmeas Pantaneiras utilizando dados de crescimento de 1992 a 2000, totalizando 1.748 registros de peso e idades. Foram utilizados quatro tipos de modelos lineares (Brody, Gompertz, Logística e Von Bertalanffy) para esse estudo. Os autores concluiram que todos os modelos utilizados proporcionaram boa qualidade de ajuste de pesos para ambos os sexos, indicando que as fêmeas alcançam a maturidade em idades mais precoces, enquanto que os machos apresentam peso adulto mais elevado.

Figura 4 — Gráfico 1 - Estimativa dos pesos em diversas idades para os bovinos Pantaneiros. PD (ajustada para 205 días), PM (peso a 1a monta ajustado para18 meses), P1parto (ajustado para 25 meses) e Padulto (ajustado para 38 meses). Na intenção de melhor aproveitar esta oportinidade virtual, gostaríamos de promover maior intercambio de opiniões e experências com os profissionais e produtores aquí inscritos através do debate e envio de sugestões em prol da conservação e expansão da criação destes animais no Pantanal. Todas e quaiquer contribuições serão bem-vindas, ademais de analisadas e postas em

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I Conferência Virtual Global sobre Produção Orgânica de Bovinos de Corte 02 de setembro à 15 de outubro de 2002 — — Via Internet prática por nossa equipe posteriormente. Estamos completamente abertos as novas propostas de trabalho e motivados a estabelecer novas parcerias com instituições de pesquisa nacionais e internacionais..

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Conclusões

Os bovinos Pantaneiros apresentam grande adaptabilidade as condições ambientais do Pantanal, demonstrando potencial de aproveitamento para a criação do mercado da carne orgânica do Pantanal. Recomenda-se uma avaliação mais profunda deste potencial em grau de pureza racial ou através de cruzamentos com o objetivo de explorar mais e melhor essa alternativa de produção para a região.

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Referências Bibliográficas

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Bovino pantaneiro organico