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CASOS de Sucesso

Cachaça orgânica: aprecie sem preconceito J

A C I R A

C

O L L A Ç O

JORNALISTA DA SNA

No mercado de bebidas destiladas, aparentemente pouco afeito a novidades, a empresa Bela Conserva se destaca com um produto bem brasileiro, mas com uma visão inovadora: a cachaça orgânica, produzida para alcançar um alto padrão de qualidade.

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oi necessário um longo caminho até que os 72 hectares da Fazenda da Conserva, localizada no distrito de Bemposta, Três Rios, RJ, chegassem às mãos do técnico agrícola João Esteves. Dividida em 22 sítios por volta de 1964, ela foi um centro de pecuária leiteira sob o comando de Jayme Esteves, avô de João, que com o sucesso da atividade conseguiu satisfazer um desejo de infância: readquirir a extensão original da Fazenda para preservar sua mata. Chegando a produzir açúcar mascavo e finalmente cachaça, a Fazenda hoje alia a produção comercial ao cuidado com a terra. Conversando com A Lavoura sobre a empresa, Esteves revelou que um de seus objetivos para o ano de 2007 é alcançar a marca dos 80 mil litros produzidos apenas de cachaça, ao mesmo tempo em que aprimora os testes com açúcar mascavo. A aposta nos orgânicos foi consciente, pois em sua opinião é um mercado que só tende a crescer, com um diferencial a ser aproveitado. “Isto também consolida a postura que vem desde o tem-

Alambique totalmente em cobre

Retirada das folhas da cana-de-açúcar

po do meu avô: de produzir o mais naturalmente possível, sem agredir a terra e o meio ambiente”, afirmou ele. Como outros produtores de orgânicos entrevistados por A Lavoura, ele se pronunciou a favor da certificação, para que o consumidor tenha certeza de que está consumindo um produto nobre. Ao mesmo tempo, ele pondera que ainda há pouca informação disponível para o comprador/ consumidor sobre os produtos orgânicos em geral. Para chegar ao atual nível de produção, João Esteves também se aprimorou, buscando formação em “Qualidade Total” pela UCP - Universidade Católica de Petrópolis e Produção de Cachaça de Qualidade, pela Fundação Bio-Rio. Contudo, as instalações da Fazenda não tiveram que passar por muitas adaptações para se adequar à produção da cachaça orgânica, o que se mostrou uma vantagem econômica. Por seguir tradicionalmente uma forma de produção mais natural, buscar a certificação orgânica não apresentou tantos obstáculos. Isto não significou

A Lavoura SETEMBRO/2007

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CASOS de Sucesso estagnar-se, pelo contrário: Esteves observou que os produtores devem investir sempre em novas tecnologias de trabalho e produção. “Quanto mais se conhece da produção de orgânicos, mais tecnologias surgem a todo instante”, revelou.

Produtividade em jogo O entrevistado também argumentou sobre esta questão econômica, importante não só para os produtores convencionais. Apesar de observar que a produtividade do manejo orgânico é ligeiramente menor, isto pode ser compensado pela manutenção do equilíbrio do ecossistema e maior longevidade no aproveitamento do solo, dando retorno apropriado ao inTonéis para envelhecimento feitos com madeiras da Mata Atlântica, que conferem sabores vestimento. especiais e diferenciados à cachaça artesanal brasileira Na parte de instalações, a Fazenda da Conserva possui sua unidade de beneficiamento no mesmo local que produtos – a conseqüência é que a Organização Mundial de Coa de produção de cana, dentro da propriedade, baixando os cusmércio (OMC) encarava a cachaça como rum. Esteves aproveita tos de transporte. O controle de qualidade é rígido, feito através para mostrar algumas características de ambos: “o rum tem uma de diversas entidades como o MAPA - Ministério da Agricultufamília de bactérias e leveduras próprias; sua gradução alcoólira, Pecuária e Abastecimento, Fundação Bio-Rio (que prestou ca na destilação varia de 40% a 75% vol. e toda a produção é enconsultoria quando a Fazenda começou a produzir), o INT - Insvelhecida em barris de 200 litros e exclusivamente de carvalho. tituto Nacional de Tecnologia, a Agrossuisse e a Ecocert. Quanto Já a cachaça brasileira tem uma variação alcoólica entre 38% e às embalagens de vidro, apesar de adquiridas de terceiros, elas 58% vol. e boa parte da produção é envelhecida em tonéis de 10 são 100% recicláveis, bem de acordo com a filosofia orgânica. mil litros, confeccionados em madeiras da mata atlântica, danA comercialização da Bela Conserva é feita no varejo e no do a ela sabores inéditos no mercado mundial de bebidas”. atacado através da vendas diretas, representantes e distribuiDentro deste mercado, que considera crescente, o proprietádores. Esteves acredita que este trabalho de diversificação é rio da Fazenda da Conserva procura situar seu produto como necessário para atingir o consumidor, e também estabeleceu uma uma cachaça de qualidade. “Os apreciadores de uma boa bebida parceria com uma transportadora para ganhar eficiência na estão percebendo o que é uma boa cachaça, atentando para seu distribuição. sabor e qualidade. Quanto mais se conhece dela, mais aprecia-

Diferença bem-vinda Embora com tradições bem diferentes, a cachaça guarda algumas semelhanças com o rum. O último é considerado um destilado do caldo do açúcar cozido, ou seja, do melaço, enquanto a cachaça é um destilado de suco de cana fermentado cru. João Esteves tem uma opinião firme, acreditando que exista uma polêmica protecionista na discussão mais devida a diferenças culturais do que técnicas. Até 2002, isto causou problemas sérios aos exportadores de cachaça, já que o Ministério da Agricultura ainda não havia estabelecido a classificação fiscal nem as diferenças técnicas entre estes

O produto engarrafado em três versões

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SETEMBRO/2007

A Lavoura

dores ela ganha”, comemora. Pelo lado negativo, Esteves afirma que as chamadas aguardentes industriais oferecem uma concorrência muito acirrada e desequilibrada quando a comparação é feita apenas pelo preço. “Seu poder financeiro é muito grande, inclusive chegando ao exterior. Tendo a vantagem adicional de um custo de produção e venda muito menor que uma cachaça artesanal de qualidade, os grandes esforços de marketing e propaganda dessas companhias dificultam até a entrada da cachaça artesanal nos mercados”, lamentou ele. Além da concorrência, natural até com outros destilados, há um obstáculo a mais para ser enfrentado: o preconceito contra o produto. Durante anos foi massificada uma visão negativa da bebida e dos consumidores que não condiz com o público-alvo das cachaças artesanais. Segundo Esteves, o público, não só da cachaça orgânica, mas de toda cachaça de qualidade, é diferenciado e bem informado, e que aos poucos tais barreiras vão sendo quebradas. As duas têm preços semelhantes, é possível apreciar os sabores peculiares de cada marca devido aos já citados métodos de envelhecimento e preparação, dentre outros fatores. Seguindo seu trabalho, a Fazenda da Conserva já possui projetos de expansão, como o já citado açúcar mascavo, mas sempre apoiada no planejamento. No mercado interno, um dos cuidados é lidar com a sazonalidade da produção. Na opinião de Esteves, a resposta é ter uma capacidade de produção, durante a safra, que possa suprir a comercialização durante os doze meses do ano. Outro dos caminhos que o empresário aponta é a exportação, que pode recompensar produtos de maior valor agregado como a cachaça orgânica. n


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