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JUSTIFICATIVA Utilitarista e pragmática, nossa sociedade julga ter conceitos e teorias para tudo e – como afirma Saint Exupéry – “...tenta comprar tudo pronto em lojas”, mas, como não vendem amigos (famílias, maridos, esposas, filhos) nos shoppings da vida, surgem pessoas frustradas e solitárias. E pior: desestruturadas psicologicamente. Uma família se estrutura a partir da consolidação de uma vivência afetiva capaz de dar segurança aos seus membros. E isso, perdoem-nos os técnicos em sociedade e em comportamento, as ciências não têm condições de dar integralmente. Estruturados no amor de Deus, que se torna a rocha sobre a qual deve assentar o projeto de construção familiar, homem e mulher têm condições de organizar sua vida a partir dos valores mais elevados, como doação, fidelidade, solidariedade, respeito, carinho e perdão. A vida de uma família não é fácil. Não é fácil por causa de tantas circunstâncias que relativizam valores reais e tentam provar a eficácia de novas teorias, propostas modernas e, sobretudo, uma nova forma, mais existencialista de viver, comandada por uma nova moral. O casamento, e nele as pessoas que compõem a família, não consegue manter-se imune a tantas pressões, agressões e estímulos negativos e deletérios. Quando se verifica a destruição de um lar, há que se afirmar, com tristeza, que ele não foi erguido sobre a rocha do amor que vem de Deus, mas irresponsavelmente fundado sobre o terreno falso do egoísmo, da individualidade, da busca do prazer pelo prazer, do materialismo. Construída assim, sobre lençóis de areia, a ruína dessa casa é previsível e dramática. Nestas páginas, uma coletânea de textos sobre matrimônio, os leitores estão convidados a conosco caminharem, navegarem nas reflexões a respeito do amor de Deus que, querendo exprimir uma comunhão irrevogável, instituiu a união de um homem e de uma mulher, num sacramento, legítimo sinal de Deus, chamado matrimônio. O Autor

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1 - O PROJETO DE DEUS PARA A FAMÍLIA O ser humano é a razão-finalidade de toda a criação. Deus não criou o mundo, a natureza, as riquezas e os animais para si. Criou-os para o homem. O homem é o centro de toda a criação, criado para amar, ser amado e assim tornar-se feliz. Essa é a finalidade da existência da pessoa: a felicidade. Junto com essas características, o homem também recebeu a liberdade, que é a capacidade de escolher. O homem tem tanta liberdade que pode até escolher a perdição e a infelicidade. No interior do Rio Grande do Sul há um ditado que diz: “Queres ser feliz um dia? Compra uma roupa nova! Uma semana? Mata um porco! Um mês? Acerta na loteria! Um ano? Casa-te! Toda a vida (e na outra)? Une-te a Deus! A sabedoria popular ensina que só unindo-se a Deus o ser humano pode ser feliz por toda a sua vida (e também na futura). Unindo-se a Deus, construindo uma casa sobre a rocha, a duração é eterna. É curioso observar os jovens jurando-se amor eterno, fidelidade e apoio mútuo. Aquilo é sinceramente o que eles desejam naquele momento. É como alguém querer ir à lua de fusca. O desejo é válido; as ferramentas é que são insuficientes. Quando é perguntado aos futuros casais o que vai garantir o casamento deles, invariavelmente se escuta: o amor! Quando se aprofunda a questão: – E o que vai garantir o amor de vocês? A resposta já não vem tão rápida e fluente. Se Deus é amor, só por ele, como rocha, presença e arrimo, é possível enraizar uma comunidade de amor, uma família. A família, pelo desejo de seus componentes e projeto amoroso de Deus, torna-se uma comunidade, comum-unidade, que salva salvando-se, instrumento de libertação, pelo amor. Cada pessoa traz, dentro de si, o germe do amor e da vida sobrenatural, como a minúscula semente da laranja traz a frondosa laranjeira dentro de si. Assim o ser humano traz em seu interior uma árvore de afeto, bondade e fraternidade, justamente porque é o invólucro daquele potencial de amor com que seu Criador o projetou. Criado para o amor e para a felicidade, o ser humano é a única criatura da natureza que às vezes contradiz a finalidade para a qual foi criada. No ar, ao redor de nós, há sons e imagens. Se ligarmos um rádio ou um

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aparelho de televisão, ouviremos música, veremos imagens. O que falta, então? Falta sintonizar! Assim é a graça de Deus. Ela está aí, gratuita e generosa; basta a gente sintonizar. No tocante à família, sucede a mesma coisa. O amor está ao nosso lado, vivo, disponível. Basta a gente sintonizar-se nele. Jesus Cristo ensinou: Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, eu estarei no meio delas (Mt 18, 20). Essa advertência inflete sobre o poder da oração e da invocação do nome de Deus, mas também se refere à família que, vivendo no amor de Deus, tem Jesus em seu meio. Se marido e mulher, tendo a coragem de dizer sim à oferta generosa da amizade de Deus, forem capazes de vencer o egoísmo, e trouxerem Cristo para dentro de sua casa, ela tornar-se-á uma Igreja doméstica, e como tal, um núcleo de amor e salvação. Reunidos em meu nome não significa uma simples reunião humana ou uma eventual invocação. Vai mais além. Reunidos em nome de Cristo quer dizer viver o amor, a solidariedade, o serviço desinteressado, a doação espontânea, a facilidade de perdoar e a prodigalidade de ajudar, de se fazer presença. A família destinada por Deus à salvação, através de um plano de amor infinito, torna-se eleita do Pai para a santidade das pessoas e do mundo. Sobre isso há um magistral ensinamento de São Paulo:

Como escolhidos de Deus, santos e amados, vistam-se de sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e se perdoem mutuamente, sempre que tiverem queixa contra alguém. Cada um perdoe o outro, do mesmo modo que o Senhor perdoou vocês. E acima de tudo, vistam-se com o amor, que é o vínculo da perfeição (Cl 3,12s). Como Igreja Doméstica , a família é chamada, à semelhança da “Grande Igreja”, a ser sinal de unidade, amor e salvação. Deus não predestina ninguém à perdição. Para que isso suceda é necessária uma rejeição voluntária a Deus e persistir nela até o fim da vida. Deus não quer que ninguém se perca, mas que cheguem todos à conversão (cf. 2Pd 3, 9). Este

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tópico, que se refere à conversão pessoal, se adapta também à espiritualidade familiar. Deus destinou todas as famílias à unidade e à concórdia. Se existem lares em crise ou destruídos, isso ocorre por causa das pessoas, que buscam outras bases fora de Cristo. No campo de sua edificação, a família é como um santuário da vida, e como santuário, fiel ao projeto divino, tem alguns pontos a cultivar: a) catequese no lar Consiste em habilitar os pais a serem os primeiros educadores na fé; b) liturgia doméstica É o ressoar do coração eclesial no seio da família; c) formação de espírito missionário É onde a família, fiel ao “escutar e pôr em prática” capacita-se a multiplicar a Boa-Notícia da salvação. Dando-nos a noite para valorizarmos o dia, o calor para termos saudade do frio, a seca para sentirmos falta da chuva, Deus nos mostra, na alternância da natureza, a insatisfação do ser humano. Giovanni Papini, o célebre escritor italiano, disse que “a vida do homem é um permanente desejo ”. Nisso vemos que a nostalgia de um paraíso perdido nos remete às utopias do futuro. Ao contrário do que afirmam muitos, só Deus pode saciar todo esse desejo de infinito do ser humano. Só Deus pode nos colocar no caminho do verdadeiro amor. Nosso encontro, como casal, como família, não foi casual. Embora se rejeite qualquer ideia de destino ou fatalismo, na verdade devese reconhecer, por trás de tudo, um projeto de Deus, um plano carinhoso e individualmente traçado, para nos fazer felizes, nesta e na outra vida. Nesse particular, pelo amor, marido e mulher são constituídos, reciprocamente, agentes da felicidade e do amor, um do outro. O filósofo alemão Max Scheler disse que “... damos valor às coisas que consideramos úteis e de importância ”. Sob essa premissa, por que alguns não dão valor à família, se ela representa ninho de amor, projeção à felicidade e sinal da salvação? Por que nossos governos, que desperdiçam recursos em projetos eleitoreiros, excesso de funcionários apadrinhados,

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nepotismo e corrupção, não investem mais na pessoa, não se preocupam mais com a estabilidade das famílias? Uma família estável ou desestruturada, assistida ou abandonada, torna-se berço de políticos, santos ou criminosos. A escolha é da sociedade. Se nossa sociedade cultivasse mais a ideia da família como origem de tudo, e desprezasse o consumo, a competição e a alienação, se poderia ver mais claro em nosso meio o demonstrativo das três vitórias de Cristo: sobre os valores mundanos, sobre o pecado e sobre a morte. Em todo o casal em crise, em toda a família problematizada, se podem notar, com clareza, traços de um afastamento de Deus. De certo preferiram erguer a casa sobre a areia, a terra solta, ao invés de fundá-la sobre a rocha, distanciando-se dos valores cristãos, do crer e pôr em prática, enfim, de dizer com os lábios e proclamar com a vida.

E foi grande a ruína dessa casa! (Lc 6, 49). O plano de Deus visa salvar o homem para a outra vida, mas idealiza a felicidade a partir deste mundo. Ensinando o ser humano a amar, Deus mostrou-lhe o caminho do paraíso, dandolhe a companhia do outro, marido ou mulher, de geração em geração.

2 - O AMOR O ser humano foi feito – trata-se de um axioma psicossocial – por amor e, sobretudo, para o amor. Analisando o homem e a mulher, desde a criação, veremos que o amor é a tônica que conduz e impulsiona a vida humana. Fomos criados à imagem e semelhança de um Deus-amor, numa legítima prova de amor. Depois o homem errou, ficou vaidoso e soberbo e, seduzido pelo mal, quis ser igual a Deus. Foi expulso, castigado, tornou-se mortal, necessitando trabalhar, para, com o suor de seu rosto, obter o alimento. Diante dessa ruptura, verdadeira desgraça na vida humana, o amor de Deus mandou seu filho Jesus Cristo para a nova aliança, para a reconciliação definitiva, de novo abrir as portas da eternidade, que foram fechadas pelo pecado. Os humanos, além de não reconhecerem esse gesto de amor, crucificaram o mensageiro. Deus nos mandou Cristo

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que estaria no meio dos homens, e assim nos acompanharia até a consumação dos séculos. “Ninguém tem mais amor que aquele que dá sua vida pelos seus...” O amor humano é frágil. Mais que isso: inconstante e vulnerável aos mais variados e contraditórios estímulos. O fracasso reside, muitas vezes, em relação às famílias, quando os casais ignoram essa fragilidade, e contra ela não buscam o remédio adequado. A vida humana só se realiza se for vivida com amor. O homem só vive se souber amar. Quem demonstra, em sua vida, práticas autossuficientes, terá deixado de amar, porque a autossuficiência nos afasta do contato com o outro. O amor, portanto, norteia nossa vida. Ele aproximou nossos pais e, como fruto desse amor, nós fomos constituídos para, numa sequência natural, também através desse grande sentimento, perpetuar nossa espécie, transmitindo a vida a nossos filhos, enriquecendo-os com a capacidade de amar e sentir os efeitos do amor. A maior tragédia de uma união ocorre quando duas pessoas, cheias de qualidades, não são capazes de dar algo para enriquecer e fazer feliz o outro, pois só pensam em si próprias. Esse egoísmo mata uma relação e, pior, gera o maior veneno, que é o egoísmo vivido a dois. O egoísta não ama; quer ser amado. Não dá, quer receber. Não se entrega; quer ser dono. Busca mais competir e vencer do que harmonizar. Quando se pergunta a jovens candidatos ao casamento por que resolveram casar, a resposta mais frequente é: “Quero casar para ser feliz, ora!” Notem quanto egoísmo vai nessa afirmação: casar para ser feliz! Pelo contrário, seria interessante, nobre, construtivo, casar para fazer o outro feliz, e depois, com base nessa felicidade proporcionada, tornar-se feliz. Mas não. Muita gente de nosso tempo, de nossa sociedade de consumo, vê no matrimônio uma possibilidade a mais de consumir, nem que seja o outro, a felicidade teórica. O sociólogo alemão Hermann Oeser, em seu livro Ich Liebe, ensina: “Quem deseja ser feliz não deve se casar. O importante é tornar a outra pessoa feliz. Aqueles que desejam ser compreendidos não devem se casar. O importante é compreender o outro. Quem busca a realização num casamento, não deve se casar. O fundamental é que o outro se realize ”.

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Viver é estar em comunhão. A vida a dois é uma união de duas pessoas diferentes. O casamento, não é um dia só; dura uma vida inteira. Estamos nos casando todos os dias. As pessoas, por diferentes, têm seu próprio caráter, sua personalidade e junto, também, suas limitações, seus defeitos. O ajustamento, se não houver um amor de verdade, mesmo na riqueza e com outros atributos humanos, jamais acontecerá, justamente porque faltará aquela adaptação das individualidades, que só se consegue com aquela entrega que brota do amor. Os atributos essenciais, constitutivos até, diríamos, do amor, e mais precisamente do amor conjugal, são a entrega, a confiança, a fidelidade, a renúncia, o perdão, o carinho, a solidariedade com os problemas do outro, a gentileza. Tudo isso, empacotado por uma ponderável maturidade psicológica, dá ao casal as ferramentas para iniciar a grande construção de uma casa, não de qualquer material humano, mas a casa afetiva do casal, o lar, a casasentimento, sonhada por todos. Nessa perspectiva, vamos descobrir que o casamento é a perfeita realização do amor de um homem e de uma mulher, e assim, esse amor torna-se, em contrapartida, origem, força e finalidade do matrimônio. O ser humano só se realiza através do amor; só vive se souber amar, dizem os peritos em comportamento. Quando encontramos pessoas tristes, amarguradas, frustradas, veremos, facilmente, que perderam o referencial do amor ou nunca souberam, de fato, amar. O forte apelo da sensualidade gera, em muitos casos, a ilusão. A atração física, a carência afetiva, o desejo de conhecer o amor, os carinhos mais liberais, tudo isso pode dar a impressão de um grande amor. E às vezes não é. Na busca de uma união entre homem e mulher, deve funcionar a maturidade. Se os dois conseguirem distinguir a diferença entre paixão e amor, o casal está realmente maduro para ir em frente. Paixão vem do pathos, que no grego serve de raiz para enfermidade, ou seja, uma ilusão, quase doença, que cega e tira a capacidade de decisão. Tanto assim, e os mais velhos podem testemunhar isso, que, grandes e calorosas paixões, daquelas ditas definitivas e irrevogáveis, depois que passaram, embora com algum sofrimento, deixaram clara a ideia de ilusão, e a consciência de que, se fossem levadas adiante,

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teriam gerado um enorme fracasso. E o pior: paixão dá em qualquer idade. Não se pense que é só coisa de gente jovem. Cuidado, portanto! A imaturidade com que alguns se atiram ao casamento gera feridas em si, no outro, nos filhos e na família, difíceis de sanar. O grande problema é o engano que certos casais cometem, casando quando deveriam aguardar mais, e quando vão se dar conta do engano, a coisa já está feita e não dá mais para retroceder. Aí só resta viver brigando, abaixo de traição, ou separando-se, com todos os problemas decorrentes dessa atitude. O tempo também investe cruelmente contra o amor. A rotina decorrente dos anos que passam, serve, em muitos casos, para anestesiar os sentimentos. O que era amor converte-se em simples amizade, respeito e conformismo. Com o tempo, o casal perde o romantismo, esquecem-se as datas importantes, como o dia em que se conheceram, o primeiro beijo, o noivado, a data do casamento, etc. É raro, depois de certo tempo, um casal continuar romântico. O pior inimigo do amor é a rotina. Ela gera acomodação, cria pó e teias de aranha sobre os sentimentos. Algumas pessoas acham que a operação conquista só é válida no período de namoro. Depois, cria-se aquela perniciosa estabilidade , capaz de, numa hora imprevista, botar tudo a perder. Além disso, aliam-se outros problemas: o tempo faz aparecer, nos dois, as rugas, o cabelo branco (ou a queda dele), a gordura, a flacidez, etc. Ao contrário da esposa vaidosa, agora ela o recebe de qualquer jeito. Ele, por sua vez, chega tarde a casa, esqueceu o endereço do florista, sua aparência já não é esmerada. Esses são sérios inimigos de um casamento, e porta aberta para a entrada de perigosos agentes externos, plantados com muita propriedade por uma mídia hedonista e de moral duvidosa. Quando um casal traz consigo um verdadeiro amor, o tempo passa, mas ao invés de corroer o sentimento e fazer despontar coisas menos nobres, como o egoísmo e a intolerância, ele mais enraíza o amor, sedimenta a confiança, reforça a fidelidade, fortalece o convívio. Um casal que consegue estruturar seu lar desse modo, vive em uma casa formada sobre rochas. A rocha, sabemos, é melhor alicerce que a areia.

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O amor familiar e conjugal sofre atentados todos os dias. Primeiro são os meios de comunicação de nossa época que, fiéis a uma nova moral, situacional, eminentemente pragmática e funcionalista, pregam um amor livre, descompromissado, existencialista. Depois, nossa condição econômica de país de Terceiro Mundo, gera nas pessoas uma necessidade de sobrevivência que chega a obscurecer a vida sentimental e afetiva numa família. De consequências tão marcantes para a vida humana, casar-se, viver numa comunidade de amor, é um mistério de unidade que não pode ser comentado em poucas linhas. O amor justifica quaisquer sacrifícios, pois só ele traz, ao ser humano, a felicidade completa e duradoura. Quem não buscar, com afinco, essa vivência, infelizmente vai engrossar o número de desestruturados, frustrados, descasados, vazios e solitários. Amor é um assunto que não se esgota.

3 - A QUESTÃO DA IDENTIDADE Há tempos eu programei uma viagem a Buenos Aires, Argentina. Ao chegar ao balcão da Polícia Federal, no Aeroporto de Porto Alegre, fui barrado pelo agente, sob a informação que a minha Carteira de Identidade (o popular RG) era falsa. Na verdade, não se tratava de um documento “falso”, mas de uma cópia xerográfica que tirei da cédula original, para preservá-la. Mas na hora da conferência a carteira não passou na análise do fiscal. Resultado: tive que voltar a casa, numa disparada, para buscar a “verdadeira”, ou seja, o documento original. Ainda bem que minha casa ficava próxima ao aeroporto, senão teria perdido o voo. Às vezes, por problemas de identidade, a gente acaba se perdendo, ou perdendo o bonde da história... Tempos depois, fui convidado a assessorar um grupo de pessoas, agrupado em um tipo de “movimento” ou “conselho” cujo papel era dar uma assistência leiga à hierarquia religiosa da Igreja. Esta relação, por uma questão de identidade, estava desgastada por conflitos e desencontros e não logrando atingir a eficácia desejada pelos participantes. Recordo que, durante a maior parte do tempo da conferência, falei com as minhas duas carteiras de identidade na mão: a original e a cópia, para me reportar à identidade

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social verdadeira e à indevida, no trato da questão da assistência que o grupo desejava prestar à Igreja e aos padres. A tônica da minha alocução esteve focada na necessidade da descoberta da finalidade do grupo, descoberta essa que deveria passar invariavelmente pela busca de uma identidade, do tipo “quem somos?” e mais precisamente “o que queremos?”. Na prática, tentei deixar claro que identidade é um valor ímpar que não admite meios termos: ou vale ou não vale. Ou é verdadeiro ou é falso. No “princípio da identidade” da filosofia aprendemos, a partir do que preconizou a lógica de Aristóteles que “o que é, é; o que não é, não é ”. Embora pareça um jogo de palavras, a coisa, no que tange à identidade, a partir do postulado do estagirita, é tão simples que chega a parecer simplório. Ou é, ou não é. Dentro desse princípio, identidade – e os dicionários de filosofia no-lo revelam – aponta para o caráter do que é idêntico, ou seja único, embora percebido ou designado de várias maneiras. Sob esse aspecto, conceitualmente falando, identidade é o conjunto de caracteres próprios e exclusivos com os quais se podem diferenciar pessoas, animais, plantas e objetos inanimados uns dos outros, quer diante do conjunto das diversidades, quer ante seus semelhantes, ou conjunto de características e circunstâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa, e graças às quais é possível individualizá-la. Sua conceituação interessa a vários ramos do conhecimento (filosofia, história, sociologia, antropologia, direito, etc.), e tem portanto diversas definições, conforme o enfoque que se lhe dê, podendo ainda haver uma identidade individual ou coletiva, falsa ou verdadeira, presumida ou ideal, perdida ou resgatada. Identidade ainda pode ser uma construção legal, e portanto traduzida em sinais, papéis e documentos formais, que acompanham o indivíduo. É nesse campo que ela se torna o diferencial da personalidade de cada um. O verbete identidade surge na psicologia como um juízo que designa a unidade do indivíduo que tem o sentimento de permanecer parecido consigo, não obstante a diversidade de estados por que passa em sua existência. No terreno da filosofia, a identidade constitui objeto de cogitações por variados pensadores e correntes filosóficas, e seu conceito varia, portanto, de acordo com os mesmos, e com cada época e cultura

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da sociedade humana. Os filósofos, antigos e modernos, sempre tiveram (e têm) enfatizado a necessidade (e a importância) de que as relações humanas sejam pautadas por uma definição do papel de cada grupo ou escola de pensamento. A identidade sempre pressupõe um objetivo, uma práxis definida.

Quem não ouve, mal fala, mal vê (Parmênides). Para a sociologia, possuir identidade é compartilhar das várias ideias e ideais de um determinado grupo social. Alguns autores da matéria em questão, como o sociólogo húngarojudeu Carl Mannhein († 1947), elaboraram um conceito em que o indivíduo forma sua personalidade, mas também recebe influências do meio, onde realiza sua interação social. Nesse contexto vemos a identidade social como aquela sensação de descobrimento do que é e o que faz cada indivíduo, quando se realiza a partir do momento em que é dotado de cultura. Esta afirmação de identidade social sempre parte da memória de cada indivíduo onde e quando faz uma análise sobre si. Quais as implicações políticas de conceitos como diferença, identidade, diversidade, alteridade? O que está em jogo em um processo de identidade? Como se configuraria uma pedagogia e um currículo que estivessem centrados, não na diversidade, mas na diferença, concebida como processo, uma pedagogia e um currículo que não se limitassem a celebrar a identidade e a diferença, mas que buscassem problematizálas? Quando o ser humano, homem ou mulher, nasce, passa a interagir com diferentes grupos sociais e instituições que lhe exprimem valores e padrões de comportamento. A este processo, damos o nome de socialização, onde cada ser humano realiza de uma forma diferente e assimila as informações à sua maneira. A identidade social (coletiva) se associa com a identificação pessoal do indivíduo a um grupo particular e a diferenciação dos demais. No caso específico que hoje nos propomos a tratar, podemos perquirir a qualidade da identidade de nossa vocação pessoal, social, familiar ou religiosa. Como nos identificamos com os ideais que norteiam nossas opções de vida? É a partir desse questionamento que vamos colher argumentos para avaliar nossa caminhada e rever etapas do nosso agir.

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Com o que nos identificamos? Com alguma vocação específica? Com um desejo de superação? Com necessidades de sobrevivência? Identidade para nós é uma ocasião de crescimento ou apenas uma rotina massificante? Quais as ferramentas que empregamos para alicerçar a idenificação com os nossos objetivos? O saber? O carisma? A doação? Ou, quem sabe, a persistência? É interessante observar que, na mecânica das relizações humanas, todos estes fatores são importantes e, agrupados, podem nos conduzir ao projeto inicialmente sonhado. É salutar lembrar que arrogância, prepotência e vaidade não constroem identidade. Como pastores, professores, evangelizadores e multiplicadores da moral do Reino, precisamos estar identificados com o profetismo que organiza nosso ser e nosso agir. Nessa conjuntura, porém, é salutar que cada um de nós busque uma identificação com a tarefa missionária para a qual fomos vocacionados. É impossível seguir uma vocação se não houver uma identidade com o objetivo pastoral de cada um. Essa identificação, como meta de cada um, serve como o elemento que caracteriza e explicita o sentido que cada indivíduo confere à sua vida, à sua missão e ao modo de se conduzir. Nós sabemos, pela filosofia, que a identidade e a diferença são o resultado de um processo de produção simbólica e discursiva. O processo de adiamento e diferenciação linguísticos por meio do qual elas são produzidas está longe, entretanto, de ser simétrico. A identidade, tal como a diferença, é uma relação social. Isso significa que sua definição – discursiva e linguística – está sujeita a vetores de força, a relações de poder e a outros esquemas das estruturas sociais. Essas características não são simplesmente definidas; elas são impostas. Elas não convivem harmoniosamente, lado a lado, em um campo sem hierarquias; elas são disputadas. Mais que um símbolo – que não se explica – a identidade aponta para uma realidade integrada ao que é próprio do ser. Sêneca, um filósofo romano do século I de nossa era, afirmou que “ não existe vento favorável para o barco que desconhece seu porto de destino”. Isto equivale a dizer que, quem não sabe para onde quer ir, que ignora seus objetivos de vida, quem não se identifica com seus propósitos, dificilmente irá a lugar algum. Sob esse enfoque ressalta-se a necessidade

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de estipular nossas metas e fortificar o planejamento para que o previsto se realize. Ora, se eu tenho um objetivo de vida, mas não aloco recursos para atingi-lo, ou não me identifico com suas exigências, eu sou candidato a não ir a lugar nenhum. Moisés e Pedro são dois expoentes do projeto de Deus, cada um ao seu tempo. O primeiro, na função de libertador do povo, na operação de resgate da escravidão do Egito, quando arrancou os hebreus das garras do imperialismo do faraó. O segundo, como alguém a quem ficou afeta a missão de coordenar a Igreja de Cristo que se iniciava, de forma ainda vacilante, após Pentecostes. Há nestes dois chamamentos o vigor das vocações de Deus, de onde se destacam algumas atitudes e tipos bíblicos comuns a ambos os casos, indispensáveis ao discipulado e à caminhada: a) colocar-se de pé; b) rins cingidos; c) sandálias aos pés; d) vestir o manto; e) cajado na mão. As mesmas coisas que o Senhor ordenou ao povo escolhido, antes da saída do Egito, são praticamente os mesmos fatores recomendados pelo anjo a Pedro. O ato de colocar-se de pé , requerido aos dois, denota uma posição de disponibilidade, de em marcha. Igualmente, ter os rins cingidos, revela uma atitude de prontidão. O povo do Oriente Médio tinha o cinto como um adereço estratégico. Ali pendurava uma bolsa com as moedas, um sabre ou punhal para a defesa e outras utilidades. Ninguém saía sem um cinto com essas utilidades. A sandália aos pés era igualmente um indicativo de prontidão, bem como uma proteção para a jornada. A sandália era o calçado básico do povo, empregado para resguardar os pés em qualquer atividade. O cajado na mão funcionava às vezes como uma arma, e era o distintivo do caminhante, especialmente quem, como o povo, ia para o deserto em busca da liberdade. Tudo concorria para a consolidação da imagem do homem de Deus. Nada ali era simbólico ou pictórico, mas absolutamente real. Enquanto o povo do êxodo tinha o cajado, Pedro usava um manto. Ambos significam proteção para quem vai dar início a uma caminhada: o povo pelo deserto, em direção à Terra Prometida;

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Pedro ia começar uma caminhada – que culminaria numa cruz em Roma – pelas trilhas do evangelho, que precisava ser anunciado a qualquer preço. Quem se identifica com a missão para a qual foi chamado, se torna alguém que pode ser considerado, como os grandes homens (e mulheres) da Bíblia, alguém acima da média. Dentro desse raciocínio, a Bíblia fala (cf. Ez 14,13s) em três homens que se destacaram por estarem identificados com o desígnio de Deus: Noé, Jó e Daniel. O profeta Daniel dá a receita para viver acima da média. - ser um homem justo; - ter retidão (integridade) de caráter; - demonstrar fidelidade ao projeto de Deus; - construir relacionamentos; - conviver com os opositores. Aquele que é identificado com a vocação e a missão que Deus lhe confiou, não se deixa vencer pela preguiça, pelo desânimo, pela corrupção, pelo desespero e pela falta de fé. O homem justo, fiel aos princípios de sua missão, é quem obedece e se submete a Deus. Ele cumpre aquilo a que se comprometeu. Nas atividades mais simples da vida humana, vemos a importância dessa identificação. No esporte, por exemplo, o time busca uma identificação com a torcida; o padrão de jogo ainda não possui uma identidade que possa entusiasmar a direção e a torcida. Um cronista perguntou: -“depois de um ano de experiências, onde está a identidade da nossa seleção?”. No campo do drama pessoal, vi uma mulher que chorava porque considerava que a cirurgia que realizou para a retirada de uma mama prejudicou a identidade de sua feminilidade. Em tudo aparece a identidade emblematicamente como um fator de equilíbrio e de segurança. Repito: Quem não ouve, mal fala, mal vê (Parmênides). Já sabemos que a identidade e a diferença estão estreitamente ligadas a sistemas de significação. A identidade possui um significado cultural, pragmático e socialmente atribuído. A teoria cultural recente expressa essa mesma ideia por meio do conceito de representação. Para a cultura contemporânea, a identidade e a diferença estão estreitamente associadas a sistemas de representação. A identidade, como a teoria dos símbolos, contemplada pelos postulados da semiótica, sempre tende a representar alguma coisa, no

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indivíduo ou na sociedade humana. Por conta dessa representação no campo social, sempre cabem algumas questões, como, por exemplo: - Quem é você? Você está identificado com a sua missão? Onde seus sonhos e ideais são capazes de conduzi-lo? Sabendo-se que a identificação produz alguém que partilha necessidades, expectativas, ideais, lutas e vitórias, é de se perguntar no que é possível enxergar algum tipo de compromisso em nosso modo de desenvolver uma vocação? As outras pessoas são capazes de enxergar esse diferencial em nós? Nossa vocação é convincente e comunicante? É capaz de motivar e entusiasmar alguém? O chamado de Jesus aos apóstolos de todos os tempos requer a observação de algumas exigências, pois sempre há certos cuidados que não podem ser esquecidos para o sucesso e a eficácia da missão. Um desses cuidados se refere ao compromisso. Para partir em missão a pessoa deve estar comprometida com a causa do Reino. Uma caminhada, baseada em vocação e identidade sempre começa com um primeiro passo; um vigoroso e discernido primeiro passo.

O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos, e os enviou dois a dois, na sua frente, para toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. E lhes dizia: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso peçam ao dono da colheita que mande trabalhadores para a colheita. Vão! Estou enviando vocês como cordeiros para o meio de lobos. Não levem bolsa, nem sacola...” (Lc 10,14). No aspecto pastoral, no que se refere ao vocacionado, o processo de produç��o da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os processos que tendem a subvertê-Ia e a desgastá-Ia. O grande inimigo de nossa caminhada está na perda dos referenciais da identidade. Sem eles nos tornamos presas fáceis de todas as ameaças e perigosamente tendentes a quaisquer descaminhos. Hoje urge, mais do que nunca, que as famílias se conscientizem do seu papel de construtoras da “civilização do amor”

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que sonhou Paulo VI, e descubram sua verdadeira identidade de formadora de pessoas.

4 - OS PARADOXOS DA FAMÍLIA Por paradoxo, se entende sentido existencial, presente em autores como Pascal (†1662) ou Kierkegaard (†1855), um argumento chocante e inusitado por refletir o absurdo em que está imersa a existência humana. Paradoxo, na filosofia antiga, proposição ou argumento contraditório que costuma orientar o pensamento humano, ou desafia a opinião consabida, a crença ordinária e compartilhada pela maioria. Os paradoxos humanos que cercam as nossas famílias são, entre tantos, o bem e o mal, o amor e a indiferença, a fé e a descrença, a esperança e o desespero, o devotamento e a infidelidade, enfim, aquilo que se convencionou chamar de luzes e sombras. A família vive imersa na ambiguidade das coisas materiais e das obras do espírito. Como “pequena Igreja”, a família cristã, à semelhança da “grande Igreja”, é chamada a ser sinal de unidade para o mundo e a exercer, deste modo, seu papel profético, testemunhando o Reino e a paz de Cristo. Assim, o lar da família, seja uma choupana, uma casa modesta ou um luxuoso apartamento, torna-se Igreja Doméstica na medida em que seus membros se amam e transformam esse amor em um sacramento-sinal, para o mundo. A expressão lar deriva, no latim, de lare que quer dizer fogão, lugar de calor, daí lareira. O lar da família é o lugar onde o calor dos corações que se amam serve de lareira para todos. Nesse aspecto, as características da família são a união, a unidade e a harmonia. “Todo reino dividido vai à ruína” (Mc 3). As divisões, mesmo pequenas, começam a minar a estabilidade da família. Os desacertos dos problemas pessoais infletem diretamente no âmbito familiar. Não dá para viver na duplicidade, expressa pela fé em Cristo e pautada pelo desregramento moral. As desordens individuais se estendem à família. Muitas vezes o casal se promete amor e fidelidade recíprocos, os pais de receber com amor os filhos, e estes de honrar seus pais, e nada disto é atingido. O ser humano não

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constitui apenas uma individualidade; ele é necessariamente família. Deste modo, deve, pois, zelar por ela, mantê-la unidade. Cristo, que quer que todos sejam um, deseja que as famílias sejam unidas como a sua. Uma família onde Cristo seja o modelo de entrega, é capaz de afirmar, com sua unidade, que infidelidades, separações, divórcio e as desordens daí decorrentes, têm nos verdadeiros lares um terreno árido onde dificilmente se expandirão, porque sua construção é sólida e, se de um lado há a limitação e a fragilidade humana, de outro, compondo o vértice superior do triângulo, está aquele terceiro coração, Cristo, que ensina aos casais, aos filhos e às famílias, o caminho para se tornarem modelo e testemunho, como a Sagrada Família de Nazaré. No campo dos paradoxos, das incoerências humanas, a família encontra, como alertam alguns especialistas, certos desafios capazes de comprometer sua estabilidade: a) o desafio das más companhias; b) o desafio da divisão; c) o desafio da acomodação. A moral cristã insiste nas lições contra tantas incon-gruências que rejeitam a verdade, a defesa da vida e a sinceridade. Essas falhas destroem o convívio e comprometem a fraternidade, ignorando que a essência das relações humanas é a fraternidade, o amor e o perdão. Essas relações devem ser preservadas contra a falsidade, a mentira, as máscaras, a fofoca e a calúnia. Na família, como vimos, nem tudo são luzes. Há também sombras; bastantes sombras. A situação histórica em que vive a família, neste terceiro milênio, apresenta-se, não raro, como um conjunto de luzes e sombras, bem e mal, coerência e compromisso. “Não raramente, ao homem e à mulher de hoje, em sincera e profunda procura de uma resposta aos graves e diários problemas de sua vida matrimonial e familiar, são oferecidas visões e propostas mesmo sedutoras, mas que comprometem, em medida diversa, a verdade e a dignidade da pessoa humana. É uma oferta frequen-temente sustentada pela potente e capilar organização dos meios de comunicação social, que põem sutilmente em perigo a liberdade e a capacidade de julgar com objetividade” (FC 4).

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A angústia do mundo moderno, a nova moral pregada pela mídia e a falta de vigilância de algumas pessoas, tem levado alguns cônjuges a esquecer seus deveres de amor e respeito um pelo outro, rompendo, por diversos modos e feitos, a aliança matrimonial. Todas essas situações configuram uma ruptura com o plano amoroso de Deus, um descumprimento aos compromissos matrimoniais quando, não raro, um mau comportamento, cujas consequências e maus exemplos, trágicos e imprevisíveis, podem acarretar a ruína social e moral das pessoas e da família. Esse mau comportamento, em geral de fundo egoísta, ou fruto de um desajuste psicológico, pode conduzir a pessoa aos vícios, como bebida, drogas, jogo; para o adultério, para a duplicidade de vida, geradores de alienação, indiferença e divórcio. A pessoa altruísta, que pensa mais no outro do que em si, é como uma ponte. Qual a missão da ponte? Unir! O indivíduo egoísta é como uma barreira, que só serve para bloquear e tornar obscuras as coisas. Há gente que não sabe se livrar do egoísmo. Como ensina Leo Buscáglia, “Saia do eu e entre no nós. É o modo mais belo de se ver e ajudar os outros a se verem. O verdadeiro poder deriva disso. Assim, o homem, ao invés de barreira, deve converter-se em ponte. Primeiro ponte para si mesmo, e depois ponte para os outros ” (in: Vivendo, amando e aprendendo, Ed. Record, 1982). A aliança matrimonial é o símbolo humano da grande aliança que Deus fez com os homens. Eterna e infalível. Que bom se fossem assim todos os casamentos... Hoje, por conta do egoísmo e da falta de compromisso, dizendo-se livres e modernos, homens e mulheres não usam mais aquela aliança de ouro, símbolo da riqueza do contrato indissolúvel que assumiram em nome do amor. Falando às famílias, o Novo Testamento nos brinda com magníficos textos: Aquele que não honra a dignidade matrimonial, suas orações ficam sem resposta (cf. 1Pd 3, 7c). Maridos, amem suas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5, 25)... Ajam com sabedoria na vida conjugal, tributando às esposas a honra devida (1Pd 3, 7a).

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Mulheres, que os enfeites de vocês não sejam vestidos, brincos e penteados, mas uma alma doce e calma, como agrada a Deus (1Pd 3, 6). A vida de uma família hoje não é fácil. Não é fácil por causa de tantos paradoxos e circunstâncias que relativizam valores reais e tentam provar a eficácia de novas teorias, propostas modernas e, sobretudo, uma nova forma, mais existencialista de viver, comandada por uma nova moral. O casamento, e nele as pessoas que compõem a família, não consegue se manter imune a tantas pressões, agressões e estímulos negativos e, assim, deletérios. A pressa do mundo moderno, as tendências permissivas de uma moral de situação, o consumismo, a competição social, o egoísmo, gerador da falta de solidariedade entre as pessoas, tudo isso prejudica o relacionamento na família, dificulta o entendimento, bloqueia o diálogo e inviabiliza as tentativas de convivência. Utilitarista e pragmática, nossa sociedade julga ter conceitos e teorias para tudo e, como afirma Saint Exupéry “... tenta comprar tudo pronto em lojas”, mas, como não vendem amigos (famílias, maridos, esposas, filhos) em lojas, gera pessoas frustradas e solitárias. Uma família se estrutura a partir da consolidação de uma vivência afetiva capaz de dar segurança a todos os seus membros. E isso, perdoem-me os técnicos em sociedade e em comportamento, as ciências não têm condições de dar integralmente. Estruturados no amor de Deus, que se torna a rocha sobre a qual deve assentar o projeto de construção familiar, homem e mulher têm condições de organizar sua vida a partir dos valores mais elevados, como doação, fidelidade, solidariedade, respeito, carinho e perdão. Quando se verifica a destruição de um lar, há que se afirmar, com tristeza, que ele não foi erguido sobre a rocha do amor que vem de Deus, mas irresponsavelmente fundado sobre o terreno falso do egoísmo, da individualidade, da busca do prazer pelo prazer e do materialismo consumista. Construída assim, sobre lençóis de areia, a ruína dessa casa é previsível e dramática. De outro lado, vemos, por fim, que a família que é capaz de lançar luz sobre as trevas, superar suas crises e contornar suas limitações, é capaz de vencer todas as ambiguidades e

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paradoxos, e assim obter aquela vitória que faz parte do plano de Deus para o grupo familiar.

5 - VIVÊNCIA E CONVIVÊNCIA Numa dissecação, rápida e acadêmica, podemos dividir o ser humano em inclinações, tendências, reações a estímulos, sensibilidade, carga genética e biótipo. Tudo isto, somado a outros caracteres e alguma ampliação intelectual, cria a individualidade da pessoa. Por causa dessa individualidade, a pessoa humana torna-se irrepetível. Para entendermos bem este assunto, devemos partir do princípio de que não existem, em termos de atitudes e reações, duas pessoas iguais: Joãozinho gosta de cinema e Maria Luíza de teatro; Pedro vai muito ao futebol, Neusa detesta; Jader é tímido, Marluce extrovertida. E assim por diante. Deste modo, não é difícil constatar que, numa união de duas pessoas, a primeira barreira que se verifica são as individualidades: cada um tem a sua. Não se pode, no entanto, confundir individualidade, que é o caráter distintivo da personalidade de cada um, com individualismo, que é uma distorção no comportamento, quando a pessoa entroniza sua individualidade, em torno da qual as demais devem curvar-se, amoldar-se. Sem renunciar às individualidades, as pessoas que se propõem a uma vida a dois precisam, pelo diálogo e esforço, procurar integrar anseios e buscas, para que as características de cada um, ao invés de desencadear conflito, gerem convivência. Os grupos sociais, as famílias e os casais são formados por pessoas, semelhantes em sua condição de humanidade e diferentes nos aspectos físicos e principalmente psicológicos. Importante salientar essa diversificação, que é fundamental para o grupo, pois o torna vivo e criativo, e a soma dos aspectos positivos de cada elemento ajuda a dissipar os inevitáveis pontos negativos. A individualidade de uma pessoa é a formadora de sua personalidade. Se alguém é tímido ou extrovertido, por exemplo, é praticamente impossível que alguém consiga modificá-lo, pois isto faz parte de sua própria natureza e é marco da personalidade. Algumas terapias atuam como

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reeducação de determinados comportamentos. Sua eficácia, no entanto, é, em muitos casos, discutível, pois, se de um lado induz a um comportamento, de outro pode acarretar outras distorções mais graves. É comum escutar alguém (equivocadamente) dizer: “Carlos agora é assim, mas quando nos casarmos, eu mudo ele”, ou “Deixea, por enquanto. Depois eu a coloco “nos eixos”, direitinho, como eu quero!”. Uma pessoa, com intenções de se casar, ao fazer uma declaração dessas, está dando uma cabal demonstração de que escolheu a pessoa errada. Falar assim é deixar claro que tem em mente um modelo de pessoa ideal e que pretende, depois que casar, transformar “essa coisinha amorfa” na viva semelhança daquele modelo, utopicamente imaginado. Este é, sem dúvida, um casamento com poucas chances de sobrevivência, pois haverá choque de personalidades e competição para ver quem vence o processo de domínio. Quem vencer será “o senhor”, e o perdedor “a coisa”. Nesse processo de despersonalização, ao vencido caberá renunciar à sua individualidade para assumir aquele papel previamente desenhado pelo outro. Uma dominação assim, porém, nunca é definitiva. Ela dura, normalmente, a fase do encanto, que alguns especialistas situam entre quatro e sete anos de casados. Quando surge a rotina, os defeitos começam a aflorar, o conflito latente explode, há a revolta e, não raro, a separação. As formas de explosão são as mais diversas: retraimento, desinteresse, frigidez, violência e traição. Não se quer dizer aqui que ninguém deva ceder em favor do outro. Amor é entrega e sacrifício, mas tudo dentro do razoável, com carinho, diálogo e reconhecimento de falhas e erros que devam, efetivamente, ser mudados. Existe um ceder que se processa por amor, através de um recíproco entendimento. Se existem igualdades entre homem e mulher, é igualmente claro que também existem diferenças biológicas, físicas e psicológicas. É exatamente esse conjunto de diferenças que faz surgir a grande atração de um pelo outro. Só Narciso queria amar uma pessoa igual a ele. Narciso é uma figura mitológica de um ser que se apaixonou por si mesmo. A psicologia contempla, sob a síndrome de Narciso, aquela pessoa individualista que só enxerga as suas virtudes e nenhuma nos outros.

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Fisicamente, o homem é mais forte, embora haja quem afirme que alguns temam a dor mais que a mulher; o homem, entretanto, aguenta a dor moral e a pressão psicológica melhor que mulher. No trabalho, o homem prefere tarefas mais planejadas e de volume, enquanto a mulher, em geral, gosta do improviso e tende à especialização e às minúcias. Ela é mais afeto e ternura... Isso dá a ambos conotações comportamentais diversas e respostas distintas aos mesmos estímulos. É um erro esperar – como muitos hoje querem – respostas idênticas de constituições psicológicas diferentes. O ajustamento do masculino e do feminino exigirá sempre, de ambos, atenção, dedicação e boa vontade constantes. Cada um espere encontrar-se no outro, e que o outro encontre em nós aquilo que espera. Assim, os dois encontrarão o verdadeiro sentido de uma vida a dois. O amoldar-se não significa despojar-se de sua personalidade. É de bom alvitre a pessoa, para o bem da relação a dois, reconhecer sempre seus defeitos e os méritos do outro. Essa descoberta ajuda muito na hora das decisões. A adaptação e a con-vivência só acontecerá se for embasada no amor, no ceder para tomar, na boa vontade, no diálogo e na compreensão. Nesse particular, para o casal, não basta uma abordagem momentânea de seus problemas. É necessária uma análise mais profunda, que possibilite a pesquisa dos fatos desde onde eles nasceram. Mais importante do que julgar os efeitos é buscar as causas. Numa casa, dentro de uma família, de um lar, as pessoas não podem apenas viver, é preciso, mais que tudo, conviver. Para uma boa convivência, dentro de um nível ótimo, é necessária a maturidade. Com esse atributo é possível encarar e resolver, responsavelmente, os problemas, as enxurradas que embatem contra o lar. Ser maduro é saber identificar e julgar alternativas. No entanto, o cuidado necessário é que maturidade não ocorre nessa ou naquela idade, nem, tampouco, existem cursos ou postos de venda de maturidade. Só a vivência do verdadeiro amor é capaz de dar maturidade ao casal. O verdadeiro amor, em cuja fonte encontramos Deus, é aquele amor-aprendizado onde, pela observação dos méritos do outro e dos defeitos próprios, pelo diálogo e através do desejo de agradar, a pessoa vai conformando sua vida à do outro,

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sem perder seu referencial nem degradar sua individualidade. É assim que se molda a convivência. A maturidade física impele os jovens ao encontro. Alguns casais jovens, quando sentem despertar em si a maturidade da natureza, predispondo-os à sexualidade, julgam-se inteiramente aptos ao casamento. Que engano! Amor, sexo e segurança psicológica são fatores que têm que seguir uma relação harmônica, sob pena de total fracasso. A lucidez, a liberdade, a responsabilidade e o senso crítico, tão indispensáveis para a estruturação de um matrimônio, têm na maturidade psíquica, afetiva e social, seu fator de desenvolvimento. Nessa contextualização, podemos notar que a pessoa madura dialoga e supera crises, enquanto que o indivíduo imaturo permanece embrutecido, discute, agride. É a maturidade psicológica que favorece a convivência de duas pessoas de culturas, padrões sociais e individualidades, às vezes tão distintas. O diálogo e o carinho formam a base para a convivência e comunicação entre as pessoas que, de fato, se amam. O diálogo mostra a pessoa por dentro, favorece a confiança e aplaina os caminhos de uma família, às vezes tão desnivelados por problemas, externos e internos.

6 - NO PRINCÍPIO ESTÁ O AMOR Deus, a cada etapa da criação do mundo, contemplava sua obra e exclamava: “Está muito bom!” (cf. Gn 1, 10). Estava muito boa a criação da terra, a fixação dos astros no espaço, descrevendo contínuas e intermináveis trajetórias, a separação da terra e das águas, os animais, as plantas, praias e florestas. Após criar o homem, à sua imagem e semelhança, Deus viu, pela primeira vez, que algo não estava bom e precisava ser modificado: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma companheira” (Gn 2, 18). Ora, sabemos que o Antigo Testamento é composto de muitas perícopes, como retalhos escritos em muitos séculos, por diversos autores e que esse monólogo, imaginado pelo escritor sagrado, é uma ficção literária, mas que por trás revela a preocupação de Deus com o bem-estar e a felicidade do ser humano.

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Vivência e Convivência