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1ª parte: EXPOSIÇÃO 1. HISTÓRICO A Renovação Carismática Católica tem como marco inicial o fato ocorrido com um grupo de estudantes e professores da Universidade de Duquesne, nos Estados Unidos, em 1967. Eles reuniram-se num final de semana para um retiro com a finalidade de renovar os votos dos sacramentos do Batismo e Crisma. Sem dúvida por grande influência do ambiente, carregado, da igreja Pentecostal, protestante, vivenciaram uma experiência singular que consideraram ser o Batismo no Espírito Santo que derramava sobre eles dons carismáticos. Tal experiência foi realizada por outros grupos e, rapidamente, se espalhou pelo mundo todo, chegando ao Brasil a partir de 1971 por meio de dois padres Jesuítas1 norte-americanos que vieram trabalhar em nosso país. A experiência vivida pelos professores e alunos universitários de Duquesne, Pettisburgh, em 1967 e por eles considerada uma “efusão” ou “plenitude” do Espírito Santo, passou a ser chamada também de “Batismo no Espírito”, e tornou-se conhecida como Renovação Carismática. Surgiu assim uma espiritualidade pentecostal na Igreja Católica cujos adeptos alegam saciar sua sede espiritual em suas reuniões e retiros. Tais encontros são geralmente acompanhados pelas manifestações dos dons carismáticos, tais como: cura (interior, física, mental, moral e espiritual), milagres, profecias e falar em línguas. Os membros do movimento passaram a considerar o fenômeno como um novo pentecostes e a contar com a adesão de alguns bispos e padres. Começaram a acontecer congressos internacionais, sendo que no 3º desses Congressos que aconteceu em Roma, entre 16 e 19 de maio de 1975, estavam presentes 10.000 pessoas, entre as quais o Cardeal Suenens, Arcebispo de Malines, Bélgica, além de 11 bispos e 1.000 sacerdotes. O Cardeal Suenens, que é considerado desde então um


dos mais importantes membros da Renovação Carismática, é autor do livro publicado no Brasil com o título “o Espírito Santo, nossa Esperança” que no original é “Um Novo Pentecostes”. O jesuíta Pe. Eduardo Dougherty explicava na época os termos “Renovação Carismática” como uma nova via de abertura e melhor compreensão do que seja realmente o Senhor Jesus Ressuscitado e Glorioso e apresentava a finalidade da Renovação como: Despertar primeiramente em seus membros, e por eles em toda Igreja, a vivência integral no Espírito Santo de Deus em nós, e o exercício livre, alegre, feliz de todos os dons que o Senhor quer nos conceder.2 Além do retiro de Duquesne, outro referencial importante para o desencadeamento de uma onda de manifestações espirituais, no final da década de 60 nos Estados Unidos, foi o livro do pastor protestante David Wilkerson, “A Cruz e o punhal” e, do mesmo autor, traduzido para o português sob o título: ‘O Espírito é uma Brasa’, muito vendido no Brasil na época.3 Essa nova forma de espiritualidade cristã ficou conhecida como pentecostalização ou pentecostalismo católico. A pentecostalização que teve origem nas igrejas históricas, sobretudo na Igreja Batista, perpassou todas as igrejas cristãs. A R.C.C. desde o início manifestou diferenças com o pentecostalismo protestante, como por exemplo: a concepção de autoridade, de obediência e de pertença à Igreja Católica.4 A R.C.C. nasce num contexto sócio econômico cultural e político internacional onde se destacam uma transnacionalização do capital; acentuação do anticomunismo; guerra fria; endividamento do terceiro mundo; grandes movimentações políticas e sociais nos Estados Unidos, como por exemplo: movimentos contra a guerra do Vietnã e da contra cultura; e na Europa: “barricada do desejo” em Paris; Primavera de Praga, na ex -Tchecoslováquia; no México a revolta dos estudantes de Xochicalco e na China a Revolução Cultural. 5 Na Igreja Católica ocorria grande transformação devido ao Concílio Vaticano II que provocou efeitos imediatos em toda a

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Igreja e nas Igrejas particulares (as dioceses). A partir do Vaticano ganhou ênfase a renovação litúrgica e bíblica, a revisão da função do leigo no mundo e na Igreja, a procura de novas relações entre a Igreja e sociedade moderna e outras religiões. Surgem na Igreja Católica diferentes modalidades de associações e agrupamentos de leigos como: Equipes de Nossa Senhora; Encontro de Casais com Cristo; Comunhão e libertação; Cursilhos de Cristandade; Opus Dei; Focolares; Schönstatt; Neocatecumenais ... e Renovação Carismática Católica. Tais movimentos agregavam as pessoas a partir de traços comuns entre os seus membros, dentro da Igreja, e tiveram sucesso nas grandes cidades porque ofereceram um espaço de solidariedade contra a solidão e o anonimato. 6 Em 1973, o Papa Paulo VI fez um discurso aos representantes internacionais da R.C.C. aprovando os meios e propósitos do Movimento. O que começou a conferir legitimidade. Em dezembro de 1979, em audiência privada com membros do Conselho Internacional da R.C.C. o Papa João Paulo II ratifica a aprovação de Paulo VI. Na esfera da Cúria Romana passaram a contar com assessoria de teólogos com renome, como Ives Congar e o Cardeal Suenens. “Assim, com a benção papal, com a leitura da Bíblia, o zelo missionário, a valorização dos dons e carismas, o incentivo à glossolalia (falar em línguas), o culto ao Espírito Santo, à Virgem Maria e tendo como fundamentação a oração, o pentecostalismo católico espalhou-se pelos cinco continentes”.7 No Brasil, hoje, segundo membro do Conselho Nacional da R.C.C., são cerca de 8 milhões de membros cadastrados e 61 mil grupos de oração.8 “É com o dinamismo do Pe. Haroldo que em 1969, na Vila Brandina, Campinas/SP, se origina um movimento que posteriormente seria identificado como R.C.C. Nas palavras do Pe. Haroldo esse movimento era: ‘Como uma salada na qual tentei juntar elementos da espiritualidade Jesuíta, da Juventude Estudantil Católica (JEC), da Juventude Operária Católica (JOC), da Legião de Maria; com tudo isso pretendia formar lideranças

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cristãs, durante a ditadura militar. Dos grupos formados a partir desses cursos, alguns passaram logo a ser grupos de oração no Espírito Santo’”.9 A primeira raiz da R.C.C. no Brasil está nos T.L.Cs. (Cursos de Lideranças Cristãs), fundados pelo Pe. Haroldo. A segunda raiz - remota - está nos Cursilhos de Cristandade (fundados na Espanha em 1949 pelo Mons. Juan Hervás). Floresceram na década de 60, trazendo a proposta de uma penetração Cristã no mundo do trabalho e, sobretudo, na estrutura social, formando lideranças leigas da Igreja Católica.10 Uma das preocupações do Pe. Haroldo era manter contato com grupos pentecostais da região, visando concretizar no Brasil a característica ecumênica que a R.C.C. mostrava no estrangeiro. Desses grupos recebia literatura sobre a experiência do Batismo no Espírito. O também jesuíta norte-americano, Pe. Eduardo Dougherty, teve sua primeira experiência de Batismo no Espírito em Michigan, USA, aderindo então à R.C.C. Retornando ao Brasil (onde já havia estado em 1966) em 1969, passa a colaborar com o Pe. Haroldo nas atividades que realizava no centro Kennedy, Campinas, SP. De espírito empreendedor funda a “Comunidade de Aliança Jesus Te Ama”, a “Associação do Senhor Jesus” e o “Centro de Produção Televisiva Século XXI”. Formado em administração e Marketing, destacou-se no expansão dos Meios de Comunicação Social da R.C.C. A revista VEJA de abril de 1998 referiu-se a ele dizendo: “com disciplina de um Monge e a obsessão de um executivo, Daugherty fundou a Renovação e vai pavimentando o seu caminho.” 11 O livro “Sereis Batizados no Espírito” prefaciado pelo então Arcebispo de Campinas, D. Antonio Maria Alves de Siqueira, e aprovado pela CNBB, representou uma alavanca para a difusão do movimento no Brasil, a exemplo do livro “A Cruz e o Punhal”, nos EUA. Segundo o Pe. Haroldo, o prefácio do livro foi o ponto chave para a expansão da R.C.C. no Brasil, pois a partir daí muitos setores da Igreja, que consideravam o movimento muito protestante, passaram a não colocar obstáculos a seu desenvolvimento.12

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“... a RCC teve seu embrião em Campinas, através dos “grupos de oração no Espírito” fundados pelo Pe. Haroldo Rahm, mas seu enraizamento e expansão dependeu do esforço de articulação dos membros disseminados em todo o Brasil e o esforço do Pe. Eduardo junto a um grupo de leigos e religiosos. E, como já foi dito, esse embrião deu origem a dois movimentos diferentes na sua proposta e expansão, por um lado, “Amor, Oração e Trabalho” (APOT), a “Fazenda do Senhor Jesus” e “Amor Exigente” e, por outro lado, a Renovação Carismática Católica”. 13 A RCC está hoje organizada em torno dos Grupos de Oração e “Seminários de Vida no Espírito”, além das grandes concentrações denominadas Cenáculos, rebanhões, encontrões, etc. Nos grupos de oração, a atividade central são as orações de louvor, de ação de graças, em línguas, contemplativa, de libertação e de cura. Acontecem normalmente marcadas por um clima emotivo e festivo.14 Os Grupos se organizam sem respeitar fronteiras geográficas nem divisões pastorais, como paróquias.15 O movimento continua a ser formado basicamente por pessoas de classe média. Com base em pesquisas realizadas pela CNBB, em 1993 concluía-se que os integrantes dessa natureza eram cerca de 60%.16 Em 1994, uma pesquisa do Data Folha mostrou que 40,6 estão nas cidades grandes e médias; 37,5% nas cidades pequenas; 65,5% são brancos; 22,2% são de renda familiar mensal acima de 10 salários, embora 40,7% se encontre fora do mercado de trabalho, e 24,3% são mulheres que não trabalham fora.17 Embora os grupos de oração continuem a ser formados basicamente pela classe média, têm tido grande penetração no segmento mais popular, devido a suas atividades massivas.18 Os Seminários de Vida no Espírito garantem a unidade e continuidade ideológica do movimento. É nos seminários que acontece a formação das lideranças, o treinamento para o desenvolvimento dos dons e carismas, por exemplo, oração em línguas e cura.19

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Outra prática da R.C.C. são os cenáculos, e estes garantem a inserção das camadas populares sem que venham a se incorporar, necessariamente, no movimento. Em grandes concentrações que geram a sensação de um catolicismo vigoroso, com a participação dos pregadores oficiais da R.C.C. e as principais bandas de músicas religiosas, há o lançamento de produtos religiosos, curas físicas e espirituais, milagres, orações em línguas e celebrações eucarísticas. Tais eventos garantem grande visibilidade pública e ganham repercussão na mídia. Existem programações voltadas especificamente para os jovens, como barzinhos de Jesus, que são espaços onde se reúnem para comer, beber, cantar e dançar com Jesus. Durante a programação há espaço para doutrinação e catequese proferida, em geral, por alguma pessoa famosa na R.C.C. que dá seu testemunho de conversão e faz sua pregação. A juventude é prioridade para a R.C.C. Internacional e esta prioridade é levada a sério no Brasil. Para atrair os jovens, um dos recursos muito utilizados é a formação das bandas musicais, envolvendo-os na proposta de serem os evangelizadores da juventude. 20 Atualmente a R.C.C. incorporou um sistema de propaganda montado a partir dos megaeventos, no estilo das igrejas eletrônicas. Contam com um organismo internacional, o ICCRO (International Catholic Charismatic Office) que coordena os diferentes comitês de serviços internacionais; a publicação de boletins; a promoção de retiros para dirigentes com a participação de dezenas de países; oferece recursos a países menos favorecidos e fomenta a unidade da R.C.C. O ICCRO está sediado em Roma e é composto por 14 membros representativos de toda Geografia Carismática. No Brasil, há um Conselho Nacional que conta entre os seus membros com os padres Jonas Abib e Eduardo Dougherty. Uma comissão nacional sediada em Itajubá, MG, cujo presidente é Tácito Coutinho (Tatá), que executa e acompanha os projetos discernidos no Conselho Nacional. E conta com 15 secretarias ou projetos que se responsabilizam pela motivação e formação dos membros da R.C.C..

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“Todos os programas e atividades da R.C.C. são articulados por um projeto mais amplo denominado OFENSIVA NACIONAL...” 21 Permanece como identidade o ser um novo Pentecostes onde o Espírito Santo se manifesta derramando em profusão seus dons e se tornam conhecidos, sobretudo, por causa da incidência freqüente do dom, por eles chamado, das línguas; pela prática das curas e milagres isto tudo passa a ser uma característica e, ao mesmo tempo, um dos principais fatores atrativos. Passaram a ser comparados aos pentecostais protestantes, dos quais se originaram. À semelhança dos pentecostais não católicos, valorizam o exorcismo e atribuem normalmente a causa dos males que afligem a humanidade ao demônio, ao qual combatem com orações, jejuns, penitências e, muitas vezes, enfrentam com a prática ora explícita, ora velada, do exorcismo. Tornaram-se objeto de preocupação por parte da hierarquia da Igreja. Bispos se reuniram em suas províncias para analisar e definir normas que viessem disciplinar os grupos de oração e Seminários de Vida no Espírito. A CNBB tratou do tema em suas conferências em Itaici e, em 1994, produziu um documento com o título: “Orientações Pastorais sobre Renovação Carismática Católica”, documentos da CNBB, 53. Padres resistem à formação de grupos nas suas paróquias. Agentes de Pastoral leigos contestam seus métodos de vida e oração. São freqüentemente tratados de alienados, ingênuos, fanáticos, fundamentalistas, grupos fechados... Por outro lado, há bispos que apoiam e são padres as maiores lideranças da Renovação Carismática Católica. Os meios de comunicação social destacam sempre o seu crescimento vertiginoso, sua imersão, principalmente na classe média, a valorização dos milagres, curas, falar em línguas e exorcismos. Outros enfoques típicos dos meios de comunicação são: contrapor a RCC às Comunidades Eclesiais de Base e à Teologia da Libertação a quem, por vezes, alguns chamam de Igreja engajada; compará-la aos pentecostais evangélicos e considerá-la uma arma da Igreja Católica para deter o crescimento das seitas.

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A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA NA IMPRENSA (de 1975 a 2000) Retomando alguns dos grandes jornais e principais revistas que circulam no Brasil, veremos nos seus artigos, entre 1975 e 2000, registrados o crescimento impressionante do fenômeno que teve início num pequeno grupo e que hoje envolve milhões no mundo inteiro. Fenômeno que os membros da Renovação Carismática consideram um novo Pentecostes ou, mais definidamente, afirmam ser a resposta de Deus à súplica do Papa João XXIII no início do Concílio Vaticano II pedindo um novo Pentecostes 22 . 1975

“Um dos fenômenos espirituais mais importantes para o mundo atual é a Renovação Carismática. Movimento que teve início numa Universidade Norte Americana, há apenas 8 anos, com um pequeno grupo de professores e estudantes de Teologia” Em termos de números o Pe. Eduardo fala em 600.000 membros no mundo23 . 1983 Opondo a R.C.C. à Teologia da Libertação, o jornalista da Folha de São Paulo, Antenor Braido diz poder resumir a orientação teológica da R.C.C. nas frases: “Tudo pode ser mudado pela oração” e a “adoração tem mais frutos e valor que a mais intensa atividade.” Informando que acreditam ter de 60 a 80 milhões de Carismáticos no mundo fala da prática dos membros da Renovação: “... se sentem inundados pelo Espírito Santo. Por causa disso, muitos afirmam já ter curado doentes ou realizado milagres de falar em línguas sem jamais tê-las estudado, a exemplo dos apóstolos nos primeiros dias do cristianismo.” Citando o Pe. John Jack Vessels, na época membro do Conselho Nacional da R.C.C., expressa a preocupação da Igreja com a inserção dos Carismáticos nas pastorais: “... é gran-

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de o crescimento dessa espécie de movimento e acreditamos que esses cristãos devem ser integrados à pastoral da Igreja.” 24 Continua citando outro padre do qual dá apenas o nome, Edson, que expressa o conflito dizendo: “fazemos as denúncias com a força de Deus enquanto a Igreja engajada as faz apenas no plano ideológico.” Também a prática das grandes concentrações vai se tornando comum. O jornal lembra que, no ano anterior,1982, reuniram no sexto cenáculo 25.000 pessoas no Ginásio do Ibirapuera. Já aparece também o empenho de ocupar espaço na TV e rádios, tendo iniciado naquele ano programas na TV Gazeta, intitulado “Jesus te Ama” e outro programa na rádio São Paulo. As programações para televisão já chegam ao norte do país e o Pe. Eduardo Dougherty manifesta intenção de montar uma cadeia nacional, a exemplo dos protestantes dos Estados Unidos 25 .

1990 A Folha de São Paulo traz matéria falando do crescimento em todo país e considera como objetivo de tal expansão a recuperação de terreno perdido pela Igreja para as seitas. Considera a R.C.C. a versão católica do pentecostalismo e afirma existir, segundo líderes do movimento, cerca de um milhão de adeptos no país. “Na ofensiva para ‘recuperar’ a Igreja, os carismáticos começam a utilizar em várias partes do país os mesmos recursos dos pentecostais evangélicos, como as pregações em praças públicas, visitas nas casas da periferia, grandes celebrações em estádios de futebol e intensa utilização dos meios de comunicação”. Cita a crença de “... experimentar diretamente a ação do Espírito Santo manifestada em vários dons como cura, profecia e até de falar em línguas estranhas...” A Renovação Carismática tem instalado escolas em 60 Dioceses e os grupos de oração acontecem em 100 Dioceses do país.

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A Associação do Senhor Jesus “...é responsável pela veiculação, em todo país, do programa ‘Anunciamos Jesus’. A Associação é mantida por 54 mil sócios em todo Brasil e ...pretende produzir, em um estúdio de Campinas, novelas em miniséries para serem apresentadas na TV brasileira”. O número de participantes previstos no Cenáculo a ser realizado no Morumbi é de 150.000.26 1991 O sociólogo Paulo Freston, doutor pela Unicamp com tese sobre “Protestantes e Política na Nova República”, assina um artigo na Folha de São Paulo com título: “Carismáticos: Vacina contra as seitas”. Onde diz: “À Globo interessa malhar a Universal, que é dona da TV Record, e promover o movimento de renovação, que concorre dentro do âmbito Católico com a teologia da Libertação”. 27

“A Igreja Católica está empenhada em reunir pelo menos dois milhões de soldados para enfrentar uma guerra contra a disseminação de seitas pentecostais no Brasil. Esse Exército vem das fileiras do movimento de Renovação Carismática Católica, o grupo leigo que mais cresce no país e que, curiosamente, tenta resgatar dogmas do catolicismo tradicional usando as mesmas armas dos seus oponentes... cultuam o misticismo das curas milagrosas e, em alguns casos, do exorcismo, que misturam a uma espécie de catolicismo de resultado, em que vale lotar estádios, disputar espaço na rede de rádio e televisão e mesmo eleger seus representantes para postos políticos”. Referindo-se ao programa da Rede Globo no dia 05 de maio de 1991 quando “O Fantástico” entrevistou um senhora conhecida como Tia Laura, que ganhou fama de ter o dom da cura, apresenta-a como uma das características mais notórias da R.C.C.: “uma das faces mais visíveis do Movimento Carismático: ela atende pessoas doentes, promove reuniões de oração e, ao final, muitas garantem ter sido totalmente curadas de seus males...”

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“Para os Carismáticos, a ocorrência de curas pela fé e até o exorcismo não são acontecimentos misteriosos. Ao disciplinar sua espiritualidade, alguns fiéis poderiam desenvolver a capacidade de intermediar, com sucesso, pleitos junto a Deus”. 28 “A Igreja Reconhece a Necessidade de Restituir o Ministério da Cura.” Este é o título de um artigo do jornal “O Estado de São Paulo”, em abril de 1991, anunciando que os bispos do Brasil, reunidos na sua 29ª Assembléia Geral em Itaici, tratarão do tema. Citando D. Aloísio Sinésio Bohn como encarregado do estudo das seitas e do setor do ecumenismo na CNBB, o jornal afirma que, segundo o bispo, “... ‘esse ministério precisa ser promovido com seriedade, sem encenações que lembrem o curandeirismo’. O bispo afirma que a Igreja não deve discriminar pessoas pelas quais se manifestam o Dom do Espírito Santo. ‘Muitas vezes são pessoas simples que operam as intervenções do Senhor’. Explicou, numa referência às benzedeiras...” “... Segundo ele, Deus promove curas em todos os ambientes, inclusive nos templos das ‘seitas pentecostais’. ‘A Igreja reconhece que Deus pode estar presente também em outras organizações religiosas’ ”. disse. É a primeira vez que a C.N.B.B. reconhece publicamente a necessidade de incluir o ministério da cura em seus projetos pastorais. 29 O jornal fala também da repercussão junto às seitas: “... ‘Estão começando a entender a Bíblia’, afirmou o pastor da Assembléia de Deus. ‘Os Católicos criaram coragem e estão no caminho certo’, reiterou o procurador geral da “Deus é Amor”, Toshio Ashikwa. ‘É a única maneira de não perder mais fiéis’, conclui Reinaldo Brandão, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus.” 30 1992 O Estado de São Paulo noticia a morte de Tia Laura e informa que o movimento conta então com dois milhões de seguidores no país e o considera uma versão católica do

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pentecostalismo. Fala também da expectativa de algumas pessoas de que Deus iria suscitar alguém para continuar as atividades de Tia Laura.31 A revista “Terceiro Mundo” dedica um artigo aos Católicos Carismáticos contando que mais de 20 mil pessoas passaram pelo ginásio do Maracanãzinho dos dias 29 de fevereiro a 03 de março para ouvir pregações, confessar-se, rezar, cantar e meditar. Tratava-se de um retiro promovido pela R.C.C. durante o carnaval. Outras informações da revista são sob a predominância das mulheres e da classe média. Mas, há também a participação de militares das forças armadas. Dentro da Vila Militar, no Rio, e da Academia de Agulhas Negras, em Resende, funcionam Grupos de Oração. Até aí tudo bem, mas um dos pontos altos das reuniões acontece “... quando alguns carismáticos começam a balbuciar sons incompreensíveis que, no entanto, são considerados, em alguns casos, sinal certo de que o Espírito Santo está se manifestando.” “... Quando os orantes impõem as mãos sobre os outros é também quando costumam acontecer curas, que os carismáticos dividem em físicas e interiores...” “... O relato de curas físicas que a ciência não explica, também não é raro... cegos que passam a ver, surdos de nascença que começam a ouvir, coxos que se põem a caminhar, pessoas que sofrem de enxaqueca, artrose, úlcera, reumatismo, coronárias entupidas, câncer declarado e até de AIDS, além de alcoólatras, viciados em tóxicos, homossexuais, adúlteros e vítimas de todos os males de que só Deus sabe como foram libertados.” 32 “Padres pregam Cura pela Renovação”. É o titulo do Diário Catarinense em outubro de 1992, relatando uma concentração de Membros da R.C.C. em Florianópolis/SC, com a presença dos padres Jonas Abib e Leo Tarcísio Pereira. “Perto de 17 mil pessoas, do interior e da capital, se concentraram no Estádio Orlando Scapelli, no Estreito, em busca de curas para doenças e problemas psicológicos através da

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pregação de dois padres da R.C.C... Garantiram que a renovação que propõem pode livrar pessoas da AIDS e alcoolismo e ainda acabar com problemas como paralisia, surdez e mudez.” Pe. Jonas Abib: “Aquele problema de estômago que incomoda você, agora você está sentindo ele, queimando. Você alcançou uma graça, pois essa ardência era o Senhor curando você.” 33 1995

“Quatro horas da tarde na Igreja da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Moema, bairro de classe média, na zona sul de São Paulo... quase mil mulheres agitam as mãos para o alto e repetem, arrebatadas, o refrão: “Rei, Rei, Jesus é nosso Rei”. “Elas participam de uma cerimônia religiosa... que irá atingir o clímax com a bênção do Santíssimo Sacramento, a exorcização da água e do sal e testemunhos de curas físicas e psicológicas ocorridas lá mesmo durante a celebração...” “O padre, moço alto e de faces rosadas, parece transfigurado quando desce do altar e caminha entre os bancos de madeira, exibindo o Ostensório... Minutos atrás, ao invocar a presença do Espírito Santo sobre aquelas mulheres,... o jovem padre pediu que soltassem a língua. E, de repente, ele mesmo começou a exprimir-se num idioma estranho, a língua estalando no céu da boca, os sons compassados e esticados como numa cantilena árabe.” “... Após a peregrinação o padre, que se chama Marcelo Rossi, retorna ao altar e explica aos fiéis a razão do seu afogueamento: ‘É o sinal da presença de Deus entre nós.’ Em seguida pergunta às pessoas sobre outros sinais. ‘Quem de vocês chegou aqui com dor de garganta e agora não sente mais nada? Levante a mão.’ Várias pessoas atenderam ao chamado. Depois ele e seus ajudantes fazem a mesma proposta em relação a outros problemas físicos: dor de cabeça, artrite, opressão no peito, complicação nos rins e na bexiga, dores na coluna, reumatismo. Para cada pergunta há grupos que se manifestam. ‘Deus está operando entre nós,’ esclarece

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o padre. Ele também indaga sobre as mulheres que entraram na igreja com medo do futuro, medo de serem abandonadas e que agora sentem-se melhor. Metade delas levantou a mão.” “... O padre Rossi inicia o último ritual da celebração: exorciza as garrafas de água mineral e pacotes de sal refinado que as mulheres trouxeram consigo. Em casa, aspergir nos cômodos e na comida, a água e o sal exorcizadas espantam o mal.” “A CNBB estima em cinco milhões o número de Católicos Carismáticos existentes no país.” “... Na Catedral da Sé, o Pe. Roberto Rosalino fez longa oração exorcizando. No final dizia: ‘Eu ordeno, em nome do Senhor, que as doenças, os espíritos do candomblé, da umbanda e do Seicho-no-Ie, o homossexualismo e o lesbianismo, deixem o corpo das pessoas.” 34 A Revista Veja dedicou em setembro deste ano cinco páginas à Renovação Carismática Católica e traçou o seguinte perfil do movimento: “ - Seus rituais são semelhantes aos das Igrejas Evangélicas; - Congrega cinco milhões de fiéis no Brasil, a maioria da classe média; - Os Carismáticos defendem a moral tradicional e são opositores da Teologia da Libertação; - Acreditam que as orações podem produzir milagres, como cura do câncer e da AIDS. - São devotos do Espírito Santo e de Nossa Senhora de Medjugorje, não reconhecida oficialmente pelo Vaticano.” Comenta a participação de milhares de pessoas às segundas-feiras na Catedral da Sé, onde, ao longo de duas horas, cantam e gritam para expulsar “espíritos imundos” e rezam para curar doenças. Interpretada pela revista como uma arma da Igreja Católica contra os Evangélicos Pentecostais, é considerada também uma preocupação para bispos e padres que temem a criação de uma turba de curandeiros e fanáticos.35

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“A R.C.C. , hoje o maior segmento da Igreja Católica no Brasil, com quatro milhões de membros, já comanda a estrutura Católica da comunicação, em televisão e rádio.” Estes são dados contidos num artigo do jornal “A Folha de São Paulo” em outubro deste ano. A reportagem continua dizendo: “São Carismáticos os programas católicos apresentados nos canais privados, como Bandeirantes, CNT, Rede Mulher, bem como os principais programas da Rede Vida, a cadeia de TV apoiada pela Igreja. No rádio crescem os programas feitos por Carismáticos...” “O número de quatro milhões foi levantado pelo sociólogo Reginaldo Prandi, para 94. À época, as Comunidades Eclesiais de Base, segundo maior grupo Católico do país, contavam 1.8 milhões de membros...” “Reginaldo Prandi, que lança mês que vem o livro ‘Um sopro do Espírito’ (EDUSP), sobre a Renovação, diz que os Carismáticos seguem em tudo o modelo evangélico, por exemplo, da Igreja Universal, que tem a Record”. 36 1997 Em julho, “O Estado de São Paulo” publica artigo contrapondo CEBs e RCC. O fato que gerou a reportagem foi o encontro de CEBs em São Luiz do Maranhão. Segundo as análises feitas na ocasião, as celebrações dos cristãos pentescostais, católicos ou protestantes, têm mais espontaneidade, envolvimento, gesticulação e alegria. Conforme o articulista, o teólogo Jesuíta João Batista Libânio considerou que: “coisas deixadas de lado no passado, como abraço e manifestações de alegria, estão sendo recuperadas”. E o mesmo teólogo avalia que julgar alienação o simples toque físico tenha sido “herdado de militantes de esquerda do passado.” O jornal imprime num quadro as práticas das CEBs. Confrontando-as com as dos Carismáticos, conclui que revelam faces diferentes da mesma Igreja.

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R.C.C. 01 02 soa; 03 04 05 06 07 08 09 10 -

Oração em voz alta - pouca introspecção ; Volta-se para o indivíduo - tenta-se transformar a pesA música é parte fundamental da celebração; Os cânticos têm tons positivos, inspirados na Ressurreição de Cristo; A emoção predomina sobre a razão; Há valorização das curas e dos milagres; Os testemunhos individuais são indispensáveis; Nos cultos, fiéis inspirados oram com palavras ininteligíveis; Todos levam a Bíblia para a igreja e acompanham a leitura; Estímulo à devoção à Nossa Senhora.

CEBs 01 - A injustiça social é o grande pecado, o mal; 02 - Está voltada para o social, quer transformar o mundo; 03 - Faz opção pelos mais pobres, os excluídos da sociedade; 04 - Os cânticos dão ênfase aos sofrimentos do povo; 05 - A razão predomina sobre a emoção; 06 - Não estimula a crença em milagres. A ação coletiva é que transforma; 07 - O testemunho social, o coletivo, vale mais do que o individual; 08 - Cultiva a memória dos que morrem em conflitos sociais; 09 - A Bíblia é um instrumento para compreender o mundo e mudá-lo; 10 - Incentiva a participação em associações de bairros e partidos políticos.

Antonio Kater, consultor e especialista em marketing religioso e ligado à R.C.C., considera que as celebrações da CEBs “... são amargas e pesadas por darem mais ênfase à denúncia dos problemas sociais do que ao anúncio de Deus”. Acredita que as celebrações Carismáticas são mais envolventes: integram as

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pessoas no grupo e aumentam a sua confiança em Deus, o que faz sentir-se melhor. Para ele isso explica em parte a importância das curas nos cultos da Renovação. “Sabe-se hoje que quase 70% das doenças tem origem psicossomática, estão ligadas a traumas, ansiedades, temores... O que se vê com freqüência nas igrejas são pessoas paralisadas por medos de todos os tipos, como o de ficar sozinha, perder o emprego, sofrer com alguma doença grave.” “Para o consultor, ao restituir equilíbrio e confiança às pessoas, a R.C.C. também as ajuda a se livrar de males de origem psicossomático...” 37

1998 Um ostensório dourado contendo a Hóstia Consagrada sendo tocado por muitas mãos é a capa da revista Veja do dia 08 de abril. O título é: “A Ressurreição da Fé, como os Católicos Carismáticos reagem ao avanço dos evangélicos.” Em sete páginas que iniciam com o título “Católicos em transe. Ricos e pobres, elegantes e desvalidos lotam as missas da Renovação Carismática e mudam a cara da Igreja”, fala do crescimento numérico chamando-o de explosão Carismática, do perfil dos membros e suas práticas religiosas. O gráfico apresentado pela revista dá os seguintes números de seguidores no país: 1979 - Trezentos mil 1984 - Um milhão 1989 - Dois milhões 1994 - Quatro milhões 1998 - Oito milhões Comparando-o a um culto evangélico da “Igreja Universal do Reino de Deus”, descreve um encontro na Igreja Nossa Senhora do Brasil, em S. Paulo, onde “... 300 pessoas rezam alto, choram, batem palmas e cantam a plenos pulmões, en-

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quanto um jovem religioso esconjura o demônio, invoca os poderes do Espírito Santo e pede a Deus a quebra de todo encantamento, amarração e maldição que possa estar prejudicando a vida dos presentes...” O artigo chama a atenção para o perfil social daquele grupo específico. São pessoas famosas e da classe alta que aderem a um movimento que pretende “reenergizar” a fé católica por meio do exercício de dons carismáticos como da cura, do milagre, da profecia e do culto ao Espírito Santo e à Virgem Maria. Citando nomes de famílias ricas e famosas, a revista menciona os terços de pérola, as medalhas de ouro com imagem de Nossa Senhora, etc., falando do Kit da carismática elegante e informando que até na capela da residência do Presidente Fernando Henrique Cardoso, o palácio da Alvorada, funcionários carismáticos se reúnem todas as terças-feiras para rezar. Em tom irônico destaca a presença de mulheres riquíssimas que preferem os encontros de oração aos divãs dos psicanalistas, embora expressem nos seus pedidos um profundo materialismo e individualismo. Cita um exemplo: “ Um dia eu estava com minha nora grávida, no farol, e surgiram dois ladrões. Rezei para o Espírito Santo e não levaram nem o meu Breitling ( relógio avaliado em até 30.000 dólares), conta a carismática Cristina Simonsen.” Outra atitude citada como exemplo é a de Carmem Mairink Veiga que, após ter consultado os melhores médicos para descobrir a causa de uma doença na perna, declara: “Depois de distribuir um milheiro de santinhos consegui levantar-me de meu leito. Foi aí que vi que não basta ter dinheiro, é preciso ter fé”. Comentando a satisfação do movimento que julga um verdadeiro milagre a adesão dos ricos, a revista não poupa críticas nas entrelinhas, evidenciando com exemplos a contradição em relação à opção preferencial pelos pobres assumida pela Igreja e a prática religiosa que visa manter os próprios privilégios. Ilustrando cita a fala de Zilda Couto, casada com o proprietário da Construtora EMIG, em Belo Horizonte: “Há um ano muitos dos meus imóveis estavam desalugados. Orei para que a situação melhorasse, e foi incrível: dois meses depois,

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eles estavam todos ocupados”. “Na Igreja Nossa Senhora do Brasil, enquanto muitos motoristas aguardavam nas BMW e Mercedes, cerca de 300 fiéis eram convidados pelo Padre Jorge Hermes a levantar os braços pedindo a Jesus para quebrar as ‘Maldições lançadas’ contra eles e curar ‘todos os câncer’, AIDS, falências, problemas hormonais e digestivos”. O artigo compara: “entre periferia e bairros ricos o estilo é o mesmo. O que muda são os objetos de referência. Lá o povo levanta carteira de trabalho e aqui carteiras de couro recheadas de notas graúdas.” A Veja faz uma verdadeira denúncia ao falar que nos bairros ricos cada grupo de oração tem seu padre preferido e que é comum religiosos aceitarem fazer missas ‘priveés’, celebradas nas mansões ou boutiques das carismáticas, transformando em altar balcões de salas onde normalmente se reúnem as mais abonadas consumidoras da cidade. Os participantes são convidados por cartões apergaminhados com a recomendação RSVP (respondez s’il vous plaît). Nas celebrações pedem curas e agradecem graças, como por exemplo a recebida pela empresária e carismática Angela Guerra, mulher do ex-ministro: “Estava num vôo turbulento e meu filho não conseguia dormir , rezei com as mãos sobre a cabeça dele e ele só acordou quando o avião aterrissou”. 38 “O Ovo da Serpente” é o título de um artigo crítico e contundente onde José Arbex responsabiliza principalmente a Igreja Católica pelo crescimento dos Evangélicos considerando-os um jogo perigoso conduzido por “ aprendizes de Hitler”. Citando a R.C.C. como uma das alternativas da Igreja Católica, faz as seguintes afirmações : “A Igreja Católica reage com a agilidade de um paquiderme reumático. Atada ao fundamentalismo conservador de João Paulo II, a Igreja se vê impotente quando se trata de dar algum conforto aos fiéis pobres, a uma classe média perplexa e aos jovens cada vez mais sem perspectivas. Uma das alternativas é proposta pela Renovação Carismática Católica, movimento conservador, surgido no interior da Igreja, nos Estados Unidos, há três déca-

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das e que é seguido por quatro por cento da população brasileira. Avessos à Teologia da Libertação e às denominações Evangélicas, os Carismáticos adotam práticas que se assemelham às dos grupos Pentecostais que pretendem combater. Acreditam que os carismas (nove ao todo) são dádivas de Deus que devem ser usadas pelos bem- aventurados: os dons da glossolalia, das interpretações e das profecias; dons do poder (fé, cura, milagre); dons das revelações (sabedoria, ciência e discernimento). Ao contrário de se interessar por problemas sociais e políticos, preocupam-se com a vida íntima, com o controle moral da família, dos costumes e da sexualidade.” 39 “Defensores da moral e cheios de fé, 2 milhões de jovens brasileiros trocam a rebeldia da idade pelos milagres da Renovação Carismática”. Com estas palavras a revista “Época” inicia uma reportagem de 6 páginas em setembro. Em termos numéricos traz os seguintes dados: os católicos são 72% da população brasileira. A R.C.C. conta hoje em seus quadros com uma expressiva participação de jovens. Sendo em linhas gerais 40%; em São Paulo e Rio de Janeiro 30%; nos estados do nordeste 50%; no Espírito Santo, Estado do Norte, Centro Oeste e Sul 20%. Somando um total de 2 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, nestes tempos de incertezas - quando as competições se tornaram acirradas e o drama do desemprego se amplia assustadoramente; as drogas rondam por toda parte e a violência se agrava cada vez mais - esta multidão de jovens se coloca um objetivo central: ser santo. Muitos “... renunciam aos prazeres mundanos para depositar seu destino em mãos divinas... E resumem sua mística apaixonada num breve bordão: Deus é dez”. “Nos últimos cinco anos duplicou o número de jovens carismáticos em todo país, um dos mais significativos fenômenos religiosos deste final de século...” A “Época” expressa em algumas frases a concepção destes jovens sobre Deus, a vida e sobre si mesmo: - “Estamos no mundo mas não fazemos parte dele. Somos de Deus”;

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- “Elas se assustam quando conto que sou virgem. Até minha ginecologista se espantou”; - “Deus não colocou o homem e a mulher nessa vida para uma vida desregrada”; - “Estava cansada da falsidade do mundo”; - “ Quando posso fico até as 3 da madrugada rezando”; - “Sou completamente seduzida pelas coisas Dele.” - Irmã Jocy era engenheira de uma multinacional e hoje é noviça da ordem das Dominicanas do Santíssimo Sacramento. Para ela a vocação foi entendida durante uma missa da R.C.C. : “Depois de uma missa do Pe. Marcelo entendi o que Deus queria de mim.” L.F., 21 anos, diz ter se libertado da maconha e sentir seu corpo tremer durante as missas, de onde sai “chapado”. Embora sua mãe se preocupe com a conversão súbita, ele declara: “Tinha uma angústia desesperada, agora sinto paz em minha família.” A revista cita parecer do sociólogo Reginaldo Prandi que “Desconfia de milagres como esse. Supõe que os convertidos apenas trocam um transe por outro.” O artigo questiona: “Declarações de louvor como essa, repetidas com insistência, podem ser apenas manifestação verbal de fé. Mas não deixam de sugerir certo fanatismo”. “Ao entrar para o movimento, jovens... participam de catarses coletivas e transes místicos deflagradas nos cultos. Choram muito, curvam-se no chão, erguem as mãos para os céus. Alguns chegam a participar de sessões de exorcismos, como acontece nas concorridas missas do Padre Marcelo Rossi, no santuário do Terço Bizantino, Zona Sul de São Paulo.” “Trafegando numa zona cinzenta, que mistura crença e psiquismo, a Renovação propõe experiências profundas demais para um período de estruturação da personalidade... Dons inexplicados pela ciência, como a glossolalia - fenômeno no qual as pessoas em transe se manifestam com línguas indecifráveis - são comuns.” “Marcelo Rossi, responsável pela conversão de milhares de jovens de todo o país, anuncia cura em suas missas, ‘uma pessoa está se libertando agora de um mal crônico nas cos-

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tas’, diz o padre, no santuário lotado. Em seguida alguém se levanta e confirma: ‘Graças a Deus’. A cena é tão convincente que muitos mudam de vida após presenciá-la.” 40 Em novembro de 98, a “Manchete” fez uma reportagem sobre a RCC abordando a sua história e destacando os padres que lideram o movimento; cita como fundador o Pe. Eduardo Dougherty (que por sua vez atribui o feito ao Pe. Haroldo Hahm), como principal expressão o Pe. Marcelo Rossi, e outros nomes importantes como o Pe. Zeca, Pe. Jonas Abib, Pe. Jorjão, Pe. Jair. A reportagem considera importante o fato de celebrarem de forma a atrair grandes públicos e em especial jovens.41 “Uma estrela do altar” são palavras que iniciam um artigo da “Veja” também em novembro de 1998. A reportagem é ilustrada com muitas fotos do Pe. Marcelo Rossi paramentado, cantando, celebrando e jogando água benta nos fiéis. Enfatiza a busca de lenitivos por parte dos fiéis que são muitos milhares conforme os números citados pela revista: “... suas missas, no Santuário do Terço Bizantino, um galpão de 20.000 metros quadrados, antiga fábrica da Zona Sul de São Paulo, reúnem até 60.000 católicos por mês, os fiéis em frente ao altar somam meio milhões de almas. É gente em busca de curas para todos os males: câncer, depressão, desemprego...” Matéria de Eduardo Junqueira fala ainda do sucesso na vendagem do disco do Pe. Marcelo que já atingia o total de 450 mil vendidos em pouco mais de um mês. Algumas considerações da reportagem se referem ao Pe. Marcelo como algo novo, tendo em vista que descobriu sua vocação numa série de TV (Sobre a vida do Papa João Paulo II); entrou para o seminário após a queda do muro de Berlim e num tempo em que o Papa já havia imprimido “sua marca pessoal no comando da Igreja e os defensores da Teologia da Libertação já haviam sido quase silenciados...” 42 Em dezembro de 98, Rodrigo Cardoso assina um artigo também da “Veja” intitulado: “Bafafá da fé” contrapondo as fotos de Edir Macedo empunhando uma Bíblia, e Pe. Marcelo Rossi

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ostentando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Às imagens dos líderes sobrepõe um quadro com as seguintes informações: Igreja Universal: principal representante Bispo Edir Macedo; número de fiéis 1,5 milhões; número de países 53. Renovação Carismática: principal representante Pe. Marcelo Rossi; número de fiéis 8 milhões; número de países 130. (É importante porém distinguir que no caso da RCC 8 milhões é a estimativa do número de seguidores só no Brasil e não nos 130 países). A revista acentua o caráter polêmico da Universal do Edir Macedo lembrando seus ataques a personalidades como Lula quando foi candidato à presidência em 94. Tendo sido então tratado pelos pastores da Universal como encarnação do demônio. Recorda ainda a agressão feita à Igreja Católica quando o “bispo” Sérgio Von Helde chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida e passa a analisar os ataques que, através do jornal “Folha Universal”, foram feitos ao Pe. Marcelo Rossi. Cita textos daquela publicação da Igreja Universal: “Movimento Católico tenta recuperar o tempo perdido, imitando evangélicos... Ele clona os cultos evangélicos e usa chavões que soam religiosos..” O artigo cita também frase de Reginaldo Prandi, da USP: “É a primeira manifestação contra o padre feita por uma doutrina oposta ao catolicismo, sinal de que os cultos barulhentos dos carismáticos começam a incomodar os evangélicos”. A revista conclui que Edir Macedo declarou guerra à Renovação Carismática porque “a turma do Pe. Marcelo está ciscando em seu terreno. Inicialmente apadrinhados pela classe média alta os carismáticos arrebanham cada vez mais pobres, o público alvo histórico dos evangélicos”. 43 “Um elefantinho incomoda muita gente” é o título da reportagem da Época, no último mês de 1998, afirmando que: “Polêmica em torno de Pe. Marcelo leva a Conferência dos Bispos do Brasil a pensar em limitar a atuação dos padres ligados à Renovação Carismática.” O título do artigo se refere a uma das coreografias do Pe.

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Marcelo mas considera que ele passou a incomodar os dirigentes da CNBB após certas declarações polêmicas que incomodaram pastores protestantes, teólogos e homossexuais, e por ter se tornado atração de programas dominicais de TV. Cita também como um referencial da popularidade alcançada pelo padre o fato de seu CD “Músicas para louvar ao Senhor” já ter vendido 3 milhões de cópias. A revista avalia que a preocupação da ala progressista da Igreja, é com o tipo de religião-show, que vem sendo propagada e que: “não traz qualidade à fé, embora, possa trazer quantidade.” A reportagem cita a posição de vários bispos e menciona Dom Fernando Figueiredo, bispo de Santo Amaro, como amigo e responsável pela formação do Pe. Marcelo: “Além de amigo, o padre é sua cria...” A matéria informa ainda que apesar de ter sido orientado a, se afastar da mídia, ele já “gravou sua participação nos programas de Natal da Xuxa, na Globo, e do Gugu Liberato na SBT.” A revista encerra afirmando que: “Em abril as asas do padre Rossi deverão ser ao menos aparadas. Mas é bem possível que sua legião de seguidores permaneça fiel a ele.” Fazendo referência à próxima reunião dos bispos em Itaici.44

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“O carnaval tradicional e o do padre Marcelo mais se igualam nas motivações, do que se diferenciam” é a conclusão de Roberto Pompeu de Toledo em publicação da Veja em fevereiro de 1999. Com o título “Deus e o diabo atrás do trio elétrico” analisando a ação do padre Marcelo que reuniu milhares de pessoas numa celebração que chamou de “Folia do Senhor”.45 “Carismáticos estimulam vocações sacerdotais” é um artigo do “O Estado de São Paulo”, assinado por Roldão Arruda que fala do crescimento de vocações sacerdotais. Comenta o crescimento de modo geral e acredita haver muito da influência do padre Marcelo no fenômeno. No seminário de Santo Amaro, só neste ano ingressaram 13 jovens, o que levou para

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62 o número de seminaristas. “É um aumento notável, considerando-se que, apenas há 4 anos o total de seminaristas em Santo Amaro não passava de 12...” Outro fator na opinião do articulista é a influência da RCC: “Pelo menos 3 de cada 10 novos seminaristas, segundo observações feitas em Santo Amaro, passaram pelos chamados Grupos de Oração - as células da RCC.” 46 “Novas forças da Igreja” é uma matéria especial da publicação “Mundo e Missão” sobre a Renovação Carismá-tica Católica em março/abril de 99. “O ‘show’ religioso, que durou das 15 às 22 h, reuniu 50 mil pessoas no Anhembi, no dia 25/01, data do aniversário de São Paulo. Houve missa, muita música e todos ficaram de pé, agüentando forte calor do dia. Na terça-feira de carnaval, 100 mil pessoas foram atrás do trio elétrico do padre Marcelo, para festejar o carnaval de Cristo: muito mais que os espectadores do Sambódromo do Rio de Janeiro. A cada domingo 60 mil pessoas provenientes de todos os cantos do estado e de fora, vêm de ônibus participar da missa no Santuário do Terço Bizantino, em Santo Amaro, São Paulo; outras 40 mil, em Campinas, rezam com o padre Eduardo; na famosa praia de Ipanema 10 mil jovens se entusiasmam na missa do padre Zeca, que também é surfista, e mais outros milhares em Cachoeira Paulista, São Paulo, na missa do padre Jonas. Isto acontece com outros padres chamados de carismáticos que reúnem dezenas de milhares de pessoas para participar da missa. Esses padres já superaram no Ibope os maiores astros do rock, vendem mais CDs que Roberto Carlos, falam em rádios com centenas de ouvintes, em canais de televisão e vendem montanhas de livros, revistas e outros materiais religiosos.” O autor da reportagem, Ernesto Arolo, continua enfatizando aspectos que denotam grandiosidade, concluindo que a RCC reverteu um quadro que antes era favorável aos evangélicos, em favor dos católicos: “O que antes era monopólio das igrejas evangélicas, tanto que alguns quase preconizavam o fim da Igreja Católica, agora se reverteu em favor do catolicismo,

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reunindo milhares de pessoas que estavam à margem da religião.” Fundamenta o movimento carismático no capítulo 2 dos Atos, citando que o dom das línguas e das curas são alguns carismas que sempre acompanharam os evangelizadores: “A Renovação Carismática Católica quer, hoje, de certa forma, repetir o que aconteceu naquele dia, por obra do Espírito Santo...” Citando o padre Eduardo Daugherty define: “A RCC é o batismo no Espírito Santo...” e o padre Jonas Abib: “... experiência de amor que leva a Deus e aos irmãos... Experiência que provém do Espírito Santo ... dos que nasceram de novo no Espírito.” A Renovação, segundo “Mundo e Missão” fez voltar a ter importância as devoções que no passado foram deixadas de lado, como: Eucaristia, adoração ao Santíssimo, devoção a Nossa Senhora, oração e louvor. Tem também ajudado no surgimento de movimentos laicais “com um revigoramento inesperado de vocações masculinas e femininas... A preparação desses aspirantes vocacionados diverge dos modelos recentes de formação, à vezes polêmicos por causa da Teologia da Libertação...” A reportagem informa também que: “no final de 1998, em Brasília, realizou-se o I Fórum Nacional da Renovação Carismática Católica de Direitos Sociais, onde se discutiram os novos caminhos que a RCC deve tomar em relação aos direitos humanos. O objetivo é ‘promover a consciência social e ocupar os espaços que são de direito e de dever dos leigos na tarefa de conduzir toda a humanidade a Deus’ (Brasil Cristão, fevereiro - 99 )”. Um subtítulo “Carismas Polêmicos” abre uma coluna sobre os dons das línguas e curas: “Na reforma evangélica pentecostal e no movimento carismático católico fala-se muito desse dom que suscita perplexidade em alguns e entusiasmo em outros.” A coluna termina citando palavras do padre Eduardo Daugherty sobre o assunto: O dom das línguas é “... uma bênção de Deus... uma experiência linda e fantástica. A nossa língua, mente, nosso coração e corpo são purificados, por isso temos que exercitar mais e mais esses dons preciosos que

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Deus Pai nos concede através do Espírito Santo... Não existem palavras suficientes para louvar a Deus. Deixe, portanto, que o Espírito Santo reze em você, aos poucos sentirá toda a purificação dentro do seu ser...” A publicação traz também a “História do Movimento Pentecostal”. O texto é assinado por Jorge Paleari e conta que tal movimento nasceu no seio do Metodismo, nos EUA, em 1866: “Quando alguns fiéis se encontraram para numa grande concentração ‘renovadora’ (de revival, em inglês, isto é, renovação)”. Eram grandes concentrações que chegavam a reunir até 20 mil pessoas. “Havia sempre explosões emocionais intensas que contagiavam a todos. Os ‘revivals’ se multiplicaram. Em janeiro de 1901, Charles F. Parham começou a pregar sobre os dons do espírito; em 1906, Willian J. Seymons, um ministro negro, insiste nas experiências emocionais e introduz o dom das línguas. Los Angeles é tida como o lugar do surgimento da primeira experiência pentecostal. Em 1906, em Los Angeles ( Azuza Street), uma enorme quantidade de pessoas ‘continuou a gritar por três dias e três noites, durante o tempo pascal. As pessoas vinham de todos os lugares. Ninguém podia se aproximar da casa por causa da enorme massa de gente que a circundava. Cada um que entrava na casa era violentamente envolvido pelo poder de Deus. Eles gritaram até que a casa caiu. Mas ninguém ficou ferido.’ O jornal: ‘The New York American’ do dia 03 de dezembro de 1906 falou que algo de estranho estava acontecendo. A tradição metodista estava sendo misturada à religiosidade popular dos negros’”. Continuando o relato, o autor comenta que, apesar das dissensões e divisões que marcaram “a epopéia pente-costal”, o pentecostalismo se multiplicava. Chegou ao Brasil em 1910, quando começa a “Congregação Cristã” através de Luigi Francescon; em 1911 Daniel Berg e Gunnor Vingren iniciam a “Assembléia de Deus”. Apresenta ainda como marcos da difusão do Pentecostalismo o fato de : “Em 1960, na Califórnia, o pastor Dennis Bennet, reitor da Igreja Episcopal” aceita o Pentecostalismo em sua própria organização; e: “Em 1967, a Igreja Católica começa o movimento carismático entre os es-

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tudantes e professores da Universidade de Duquesne”. Posteriormente, o uso dos meios de comunicação propagaram mais velozmente o fenômeno. É feito também pela publicação um destaque sobre a “Associação do Senhor Jesus”, citando vários programas que já foram produzidos para TVs e falando sobre as pretensões do padre Eduardo de criar uma rede para transmitir durante todo o dia, e um sonho de que haja um plano mundial de televisão, interligando as televisões católicas do mundo inteiro.47 “CNBB critica ênfase a ‘padres cantores” é o título dado pela “Folha de São Paulo” a artigo publicado no dia 29 de outubro de 1999, falando da preocupação da entidade com a ênfase que os meios de comunicação vem dando aos ‘padres cantores’ e ‘o desprezo’ da ‘política’ e do ‘pensamento hegemônico veiculado constantemente pela mídia’ por ‘toda e qualquer iniciativa de mobilização popular’. A entidade cita a “Marcha dos Sem Terra do Rio a Brasília, no início do mês...” Em outro trecho a reportagem cita o pensamento dos bispos com as seguintes palavras: “Nos anos 90, dizem os bispos, a mídia estaria ‘exaltando o que lhe convém’ para a ‘manutenção do pensamento hegemônico’.” 48 Outra reportagem da Folha, uma entrevista com Dom Mauro Morelli, menciona o crescimento da Renovação Carismática, contrapondo-o à Teologia da Libertação. A Folha pergunta: “Da mesma maneira que o país vem mudando muito ao longo desta década, a Igreja Católica também mudou. Nós assistimos nesse período, por exemplo, ao enfraquecimento da Teologia da Libertação e ao crescimento da Renovação Carismática. O que mudou na Igreja? Ela está hoje mais ou menos sensível às questões sociais?” Na sua resposta, o bispo manifesta discordância da tendência atual da Igreja, considerando que ela parece estar procurando oferecer mais consolação do que cidadania, e está mais preocupada em reagir com a invasão das seitas, transformando, portanto, a Renovação num instrumento de conquista.49 As primeiras semanas de novembro viram estampadas nos

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jornais fotos e grandes manchetes chamando a atenção para o grande evento que no dia de Finados reuniu 600.000 pessoas. A “Folha de São Paulo” estampou em suas páginas: “SHOWMISSA de Finados reúne 600.000 pessoas em São Paulo”. As matérias vão de reportagens que descrevem e comentam o fato. Há artigos críticos e colunas satíricas. O fato: “Uma missa comandada pelo padre Marcelo Rossi reuniu ontem cerca de 600.000 pessoas em Interlagos (Zona Sul de São Paulo), segundo estimativa da polícia militar. Além do padre Marcelo participaram do evento os cantores Roberto Carlos, Sérgio Reis e Agnaldo Rayol, as duplas sertanejas Sandy e Júnior e Chitãozinho e Xororó e o bispo Fernando Figueiredo, da diocese de Santo Amaro. Foi a segunda maior missa da história de São Paulo e a terceira maior do Brasil. O encontro católico perdeu apenas para duas missas celebradas pelo papa João Paulo II...”. “A Igreja Católica se prepara para um evento maior ainda este ano. A intenção é atrair mais de um milhão de fiéis.” “Padres querem agora reunir um milhão.” “ ‘Aguardem a nossa próxima surpresa, nossa comunidade já mostrou sua força. Em breve, faremos uma missa maior, em um lugar com mais estrutura’, declarou o padre Marcelo em entrevista após a missa. ‘Podemos utilizar o autódromo de Interlagos, que é um excelente lugar para um evento de grande porte’ completou dom Fernando Figueiredo, arcebispo da diocese de Santo Amaro”. A opinião do jornal: “Renovação e reação aos evangélicos. Missas com muitos fiéis, danças, padres, cantores, preocupação com a religiosidade e a exibição explícita da fé. É tudo isso que um católico pode encontrar hoje em parte dos grupos da Renovação Carismática Católica, movimento conservador surgido dentro da Igreja Católica nos Estados Unidos, em 1967”. “Como nas igrejas pentecostais, os carismáticos crêem em curas divinas, transes e na possibilidade de falar línguas desconhecidas a partir de um dom divino. Devido à semelhança dos métodos dos carismáticos com os das igrejas pentecostais (Assembléia de Deus, por exemplo), o movimento é apontado como uma reação à fuga dos

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fiéis católicos. Essa avaliação foi feita quando, dos pequenos grupos dos carismáticos, surgiram os padres cantores e líderes como Marcelo Rossi: Essa é a chamada segunda etapa da Renovação Carismática Católica. Antes dos Carismáticos, quem chegasse a uma Igreja Católica encontraria fiéis circunspectos, ouvindo pregação sobre a comunidade e seus aspectos sociais e políticos, baseados na Teologia da Libertação.” Outras opiniões publicadas pelo jornal a partir de entrevistas com participantes do evento do dia de Finados: “Ex-evangélica diz que igrejas estão parecidas. Há oito meses, a dona de casa Maria Augusta Muniz, 50, ... freqüentava a Igreja Universal do Reino de Deus. Ontem, chegou às 5h45m para ver a Missa do Terço Bizantino e agradecer aquilo que define como milagre, ocorrido cinco meses depois de retornar à Igreja Católica. Em agosto, fiz uma cirurgia na mama. Deu tudo certo. Era para eu ter que retirá-la mas não foi necessário... Aprendi a conhecer Jesus na Universal. Mas a Igreja Católica está mudando, ficando parecida com a Universal. Com a vantagem de que não pede tanto dinheiro”. Outra opinião publicada é da desempregada Eliana de Camargo, 42, católica e freqüentadora das missas do padre Marcelo: “A organização só se preocupou com a quantidade, para que se juntasse mais gente do que o bispo Edir Macedo juntou no Rio de Janeiro. Essa é a estratégia. Ficaram anunciando, convocando o povo, mas falta qualidade.” Concorda, porém, com o método: “O padre Marcelo está certo. O bispo Macedo não usa a mídia? Por que o padre Marcelo não pode usar?” 50 No dia 07 de novembro, a “Folha de São Paulo” anunciava: “A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil... irá convocar os padres cantores para uma reunião em Brasília, ainda, sem data definida. O encontro deverá ocorrer no próximo ano e terá pelo menos duas tarefas: 1) Estimular os sacerdotes a adotarem, em seus discursos,

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mensagens que questionem as injustiças sociais; 2) Alertar os padres para que não desrespeitem a liturgia católica durante as chamadas ‘Missas Espetáculos’. E para que não deixem o sentido do espetáculo superar o da missa.” “A posição da CNBB reflete o pensamento da ala mais progressista da Igreja Católica. Tal setor defende que a evangelização... se dá nas atitudes quotidianas, nas relações entre os membros de uma mesma comunidade, empenhados em denunciar e combater as injustiças...” “A maioria dos padres cantores, por outro lado, espelha o segmento da Igreja que acredita menos na ação social e mais no cultivo da espiritualidade. A evangelização, aqui, decorre das orações, das cerimônias que exprimem euforicamente a fé, e do assistencialismo.” 51 Críticas e Sátiras: Bárbara Gancia, colunista da “Folha de São Paulo”, satiriza o evento do dia 02 de novembro intitulando sua coluna: “Só falta Padre Marcelo atuar Em ‘Terra Nostra.” Ironizando, pergunta: “No evento de ontem, organizado pela Globo em parceria com o padre Marcelo, no Santuário do Terço Bizantino, na Zona Sul da cidade, a maioria dos fiéis compareceu para: a) ver ao vivo Roberto Carlos, a dupla Chitãozinho e Xororó, os fofinhos Sandy e Júnior, Sérgio Reis e Agnaldo Rayol; b) fazer exercícios ao ar livre; c) assistir missa?” Conclui propondo um teste com várias alternativas para averiguar se o leitor é ou não um bom católico:

“1) a última missa que você assistiu foi : a) na TV, durante o programa do Gugu Liberato; b) ao vivo; c) na época da sua primeira comunhão. 2) para você a expressão ‘ajoelhou tem que rezar’ é : a) gíria utilizada pelos internos da Febem; b) fisioterapia indicada para problemas no menisco; c) uma chamada para a introspecção e a reza. 3) você acha que o padre Marcelo Rossi é o novo queridinho da Rede Globo; a) por que a dona Marluce Dias é carismática; b) para atender aos anseios do público devoto; c) para aporri-

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nhar a vida do bispo Edir Macedo.” A coluna é ilustrada por imagens de Jesus Cristo e a Virgem Maria ensaiando passos de dança no estilo “pop star”.52 “Em embalagem, mais atrativa, até a religião troca a liturgia pela dança aeróbica...” Esta é a frase destacada pelo “Estado de São Paulo” de um artigo de frei Beto do dia 03/11. O título do artigo é: “Ao gosto do mercado”. Frei Beto começa definindo: “A globalização nada mais é do que a redução do mundo a um mercado, onde investem o dono do capital e no qual a condição de cidadão importa menos do que a de consumidor”. Continua a sua reflexão comentando que tudo é transformado em mercadoria e a pessoa vale pelo que consome: “O importante é mercantilizar e reificar tudo: do emblema revolucionário às nádegas da dançarina. Tornar o supérfluo necessário. Só assim se dilata o consumo. Para isso há uma poderosa engrenagem publicitária. Vendem-se sabão em pó e propostas políticas... anjinhos de gesso e bordéis telefônicos.” “Os novos paradigmas desta sociedade de abastança virtual são os modelos publicitários a quem, para efeito de propaganda, nada falta: beleza, saúde, fortuna e fama... No outro lado da linha de observação, o consumidor é induzido à carência não do que lhe falta, mas do que o paradigma consumista lhe impõe como indispensável.” Continuando sua análise frei Beto considera que nem a religião tem escapado dessa mercantilização, visto que vai perdendo sua dimensão profética de anúncio e denúncia, despindo-se de seu caráter ético de combater o que desumaniza para “se adequar à embalagem que a torna no mercado um produto atrativo.” “... Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-se de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: A inserção dos fiéis em comunidade, a reflexão bíblico-teológico e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências. Faz bem a CNBB em alertar para a manipulação comercial

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dos ‘padres cantores’, que, com exceção do padre Zezinho, não pregam sobre a Campanha da Fraternidade, não convocam para O Grito dos Excluídos, não promovem Semanas Sociais, alheios à pauta da Igreja católica no Brasil. É preocupante ver seminaristas mais interessados em aprender a dançar do que estudar teologia, servir aos enfermos, à população de rua, aos encarcerados e aos que lutam por justiça.” Finalizando, frei Beto considera que se Jesus tivesse adotado estilo semelhante, não teria sofrido perseguição e morte e, ao invés de burrinho, teria montado um cavalo branco de imperador para entrar em Jerusalém. E conclui: “Um Jesus travestido de pop star convém melhor às exigências do mercado, ainda que essas não correspondam às do evangelho.” 53 “Diz uma das máximas da cartilha liberal que a concorrência diversifica a oferta e aumenta o leque de escolhas por parte do consumidor...” Com este enunciado, Fernando de Barros e Silva inicia um texto crítico publicado pela Folha de São Paulo no dia 07/11/1999. Considera que a realidade muitas vezes tem contrariado tal máxima e aponta como um exemplo o “mercado da fé” onde a concorrência entre a “Globo” e a “Record”, ao invés de diversificar, está igualando os produtos: “- Aparentemente há tantas diferenças entre neo-pentecostais (A Igreja Universal de Edir Macedo) e carismáticos (O Terço Bizantino de Marcelo Rossi) quanto entre Brahma e Antártica que aliás se fundiram. Os dois fenômenos, o da fé e o da TV, estão por sua vez imbricados, uma aprendendo a usar os recursos da outra para alavancar sua própria audiência ( de fiéis ou no IBOPE).” Aponta como um dos maiores fenômenos sociais do Brasil contemporâneo o que ele chama de mercantilização da fé e de secularização da mídia. Fenômeno este de conseqüências imprevisíveis mas que “parece estar atuando como veículo de desmodernização do país ...” Comenta sobre o Show Missa que reuniu 600.000 considerando que nem o padre Marcelo, nem a fama de Roberto Carlos e nem o poder de fogo da Globo explicam por si sós o fenôme-

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no. Avalia que na massa de 600.000 “cada um parecia ser o representante do seu próprio desespero e de sua própria miséria...” E que a ala mais conservadora da Igreja Católica, que é a vitoriosa, está percebendo e mimetizando agora aquilo que Edir Macedo percebeu há mais tempo: “a religião vai deixando de representar um caminho para a salvação eterna para se transformar em veículo de ascensão social ou em promessa de felicidade terrena; a culpabilização cede espaço para a gratificação imediata; o sentimento de solidariedade dissolve-se na busca de salvação individual.” Segundo a análise do autor, tal fenômeno só pode vingar por contar com um terreno previamente preparado. Tal terreno no caso é “- uma imensa massa desgarrada, uma sociedade despedaçada por todos os lados, sem esperanças comuns ou vínculos sociais sólidos, que apenas em transe é capaz de se sentir fazendo parte de alguma coletividade. Ou de algo que dê sentido às suas vidas...” Conclui que é por isso que “a Globo que sempre se gabou de estar a serviço e à frente da modernização do país” ... contrata “de forma semi clandestina e não assumida oficialmente” o padre Marcelo Rossi e assim se curva à desmodernização do país, engatando sua locomotiva ao “trem da regressão social em curso” acelerando tal processo devido à sua estrutura bem superior à dos adversários. Para Fernando de Barros e Silva o fato de a Globo e a Igreja Católica representarem o ‘mainstream’, Edir Macedo e a Record seguem sendo, apesar de tudo, marginais arrivistas.” Enquanto o “Padre Marcelo Rossi é uma versão light, acéptica, socialmente aceitável e esteticamente palatável da Igreja Universal; o transe coletivo que ele mobiliza é por assim dizer epidérmico, se resolve com musiquinhas infantis e coreografias de auditório; não há, como no caso da Universal, demônio para ser enfrentado, não há necessidade de provação nem praticamente introspecção por parte dos fiéis engajadas na sua fé aeróbica. As freirinhas que pulavam histéricas no Terço Bizantino, são algo como a versão disneylândia dos pastores com ar de capangas da fé da Igreja Universal. Em sua variante global-carismática, a desmodernização

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brasileira parece até simpática, não apavora o povão, não assusta a classe média e até diverte a elite - se faz como convém ao país cordial, sem conflitos, seguindo à risca o figurino do ‘entertainment’. Roberto Carlos, Sandy e Júnior, Agnaldo Rayol, Marcelo Rossi e a nova Globo ... falar nesse caso em regressão estética ou em mau gosto tem algo de perfumaria perto da tragédia histórica de que eles são mensageiros (às vezes até) involuntários”. 54 “Deus é dez, Yes! ” “O bispo auxiliar da arquidiocese do Rio de Janeiro, dom Rafael Cifuentes, também subiu ao palco e aderiu aos gritos de ‘Deus é dez’. ‘Deus é dez, yes’ gritava ele. ‘Alguém pode dizer que estamos querendo fazer da missa um mero show. Mas não é verdade. Queremos fazer do show um lugar de louvor a Deus. Essa alegria vai produzir ações no quotidiano’, declarou dom Rafael, depois.” Este é o trecho de uma reportagem da folha de São Paulo sobre ‘Show Missa’ na praia de Ipanema “Zona Sul do Rio” promovido pelos padres cantores Zeca, Jorjão e Fábio.55 O Caderno TVF da “Folha de São Paulo” do dia 28 de novembro, traz na capa o padre Marcelo cantando e o título: “ 24 horas no ar” e comenta : “gravadoras impõem seus artistas aos programas de TV e saturam o espectador; padre Marcelo Rossi, por exemplo, fez 92 aparições nos últimos dois meses”. Apresenta nas páginas 12 -13 um quadro comparativo com o título: “Os campeões da TV”, onde o padre Marcelo aparece com 92 aparições contra 56 de “É o Tchan”; 48 de Paulo Ricardo; 27 de Daniel; 21 de Rick e Renner e 16 de Maurício Mattar.56 “Padre, uma pessoa pode ser batizada duas vezes?” Essa pergunta me foi feita por uma pessoa simples da paróquia, que na verdade já sabia a resposta, mas estava atônita com o que vira. Confirmei que não, o batismo é um sacramento que se recebe uma única vez e a questionei sobre a causa da dúvida sem sentido. Esclarecendo disse: “É que o padre Marcelo batizou de novo o Gugu”.

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Aquela senhora me trouxe a revista com a reportagem. Trata-se da revista “CARAS”. Uma publicação que contempla a elite e expõe do começo ao fim, ao longo de mais de 300 páginas confeccionadas com alto padrão de qualidade, várias centenas de fotos de pessoas bonitas, sorridentes que se destacam socialmente pelo sucesso e pela riqueza. Entre as fotos, além da da capa, estavam 15 do padre Marcelo na Terra Santa, sendo que 5 são do padre “batizando” o apresentador de TV Gugu Liberato, no Rio Jordão. A reportagem ocupa 11 páginas, a maior parte tomada pelas imagens. Dos textos destacamos o seguinte: “A emoção do apresentador e o religioso nas águas do Rio Jordão. Gugu Liberato é batizado por padre Marcelo na Terra Santa ( capa ).” “Vestindo as tradicionais batas brancas... nas geladas águas do Rio Jordão em Yadernit, no mesmo lugar em que Jesus Cristo foi batizado por João Batista, há quase 2.000 anos, o apresentador confirmou o sagrado sacramento sob as bênçãos do padre Marcelo. ‘Não senti frio, apenas uma paz profunda e uma emoção indescritível... Estou uma felicidade plena’, relata Gugu sobre a confirmação do batismo.” “... No dia da confirmação do sacramento do Gugu... um grupo de cerca de 40 freiras brasileiras, que com sua fé e sua devoção foram fundamentais para realçar ainda mais o clima de emoção e espiritualidade... entoaram o suave hino Batizame, Senhor, com o teu Espírito. Foi ao som dessa trilha musical que padre Marcelo pôs as mãos na cabeça de Gugu e a mergulhou nas águas geladas do Jordão... ‘Foi muito forte, foi muito forte’, repetia o padre a todos depois do sacramento. ‘Até sentimos calor’.” “O simples e rápido mergulho no rio Jordão durou poucos segundos. O suficiente, no entanto, para promover um efeito em Gugu... O apresentador não escondeu que sua fé saiu fortalecida com a experiência. Católico não praticante, como se define, ele acredita que confirmar o seu batismo foi fundamental para reforçar a sua fé na mensagem de Cristo. ‘O meu comportamento religioso permanecerá o mesmo. Não passarei, por exemplo, a freqüentar a missa com mais assiduidade...

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O sentido da transformação é muito pessoal e simbólico. E já notei que estou diferente. Me sinto mais tranqüilo, com mais paz de espírito. Também rezo mais em meus momentos de intimidade’...” Outro expoente da RCC que aparece na “CARAS”, em uma outra reportagem é o padre Jorjão, entregando uma medalha para o nadador Fernando Scherer, o Xuxa. “Trouxe uma medalha de Nossa Senhora para lhe dar sorte”, disse o religioso”. Ainda outro destaque da RCC em outra reportagem da revista é o padre Antônio Maria. Aparece ostentando a imagem da Mãe Três Vezes Admirável e tocando violão. A reportagem é sobre a presença do padre levando a comunhão para Maria Rita, esposa do cantor Roberto Carlos. 57 No dia 26 de dezembro de 1999, a “Folha de São Paulo” publica um caderno especial com o título: “BUSCA PELA FÉ”. “Às vésperas do Ano 2000, o Homem Procura Novas Alternativas de Fé para Resolver Seus problemas cotidianos; As Religiões Atentas A Essa Crescente Demanda, Empregam o Marketing Para Atrair Mais Fiéis”. “A religião é cada vez mais uma escolha, uma opção que pode ser alterada durante a vida de cada um... Transformado em uma espécie de consumidor, o fiel é disputado por religiões que aprenderam a lidar com estratégias de Marketing para alcançar seguidores antes longe do alcance de sua mensagem.” “Este caderno enfoca os caminhos da Igreja Católica para adaptar seus ritos às culturas orientais e reconquistar fiéis perdidos para cultos e seitas ocidentais...” “Enquanto as religiões se reorganizam, o vale-tudo da salvação ganha força com a proximidade do novo milênio...” “Os quatro maiores conflitos que marcaram o mundo em 1999 são, pelos menos em parte, conflitos religiosos: Kosovo, Caxemira, Timor Leste e Tchetchênia. O mesmo se aplica a outros conflitos endêmicos neste final de milênio: Oriente Médio (judeus/muçulmanos), Balcãs (ortodoxos/católicos/muçulmanos), Irlanda do Norte ( católicos/ protestantes), Afeganistão (extremistas/ muçulmanos moderados), Sudão (muçulmanos/ cristãos), Argélia (extremistas/ muçulmanos moderados), Chipre (muçulmanos/ortodoxos),

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Najorno-Karabalch ( cristãos/muçulmanos) e Tibet (ateus /budistas). A Globalização com seu projeto de homogeneizar culturalmente as sociedades, produz, em várias partes do mundo, tentativas de retorno à própria identidade, e esses processos se alicerçam sobretudo nas doutrinas religiosas.” Essa análise é de Ignácio Ramonet do “Le Monde Diplomatique” traduzido por Clara Allain, e continua dizendo que “o fim do confronto ideológico entre liberalismo e comunismo em 1989/1991 criou uma crise de identidade política, que favoreceu o ressurgimento das identidades religiosas e étnicas em todo mundo. Com sua experiência milenar, as grandes religiões constituem arquiteturas intelectuais poderosas, capazes de proporcionar toda uma filosofia de vida a cada indivíduo.” “Elas ... traçam para cada pessoa um quadro de referência que a ajuda interpretar o mundo.” Ignácio Ramonet avalia também que dentro das grandes religiões tem surgido por parte de fiéis uma busca de retorno aos valores originais e assim vêm se difundido pelo mundo “diversos fundamentalismo: o islamismo na Arábia Saudita; o extremismo hindu na Índia; o movimento carismático no meio católico; o pentecostalismo nos Estados Unidos e em todo o universo protestante; a ascensão dos judeus ultra-ortodoxos em Israel.” “ Preocupados com a globalização da economia muitas pessoas fogem para um discurso religioso, do mesmo modo que outras se voltam para as drogas, o álcool, as superstições e práticas ocultistas...” O caderno especial da “Folha”, composto de 16 páginas, faz abordagens amplas sobre Marketing Religioso; Religião como opção e não como herança; sincretismo religioso no Brasil; a oferta de religiões decorrente do fim da união estado-igreja; o Neopentecostalismo; Judaísmo; Islamimismo; Nova-Era e sobre o Catolicismo, dedicando para este duas páginas, dando para uma delas o título de : “Novas Cruzadas” e a outra é intitulada: “Movimento Carismático - a Igreja confia a leigos missão de conter seitas.”

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“Ameaçada em sua supremacia, a Igreja Católica vem encontrando nos leigos sua principal arma para tentar conter o avanço de seitas e de grupos evangélicos. Estimulados pelo papa João Paulo II, os leigos fortaleceram movimentos como o da Renovação Carismática, que colocaram no catolicismo o ardor, a informalidade e a emoção dos rituais dos evangélicos pentecostais. Em sua prática, a Renovação Carismática se aproxima mais dos pentecostais do que dos católicos tradicionais. Em comum existe a crença na manifestação contemporânea dos dons do Espírito Santo, entre os quais a cura, o exorcismo e a fala em línguas estranhas ( glossolalia ). Para os católicos e protestantes tradicionais, a manifestação destes dons faz parte dos primórdios do cristianismo e não encontra espaço nos tempos de hoje. O fato é que o apelo a esse aspecto mágico tem funcionado como instrumento de atração de fiéis. ‘Esses movimentos leigos é que estão trazendo de volta a grande maioria dos católicos afastados’, afirma o arcebispo de São Paulo, Dom Cláudio Hummes.” O jornal continua sua explanação considerando que os anos de 1998 e 1999 marcaram a entrada dos católicos nos mega eventos religiosos, copiando a prática dos evangélicos, tendo o padre Marcelo Rossi como a principal estrela. Afirmam ainda que: “A cúpula da Igreja Católica reconhece que a inspiração para os carismáticos veio das igrejas evangélicas pentecostais e neo-pentecostais, que incluem a Assembléia de Deus e a Universal do Reino de Deus”. Citam, para fundamentar tais afirmações, Dom Jayme Chemello, presidente da CNBB: “A Renovação Carismática começou com os pentecostais e depois passou para a Igreja Católica”; e o sociólogo Ricardo Mariano: “Os carismáticos são uma vertente pentecostal dentro da Igreja Católica.” A reportagem afirma ainda que o movimento, no início olhado com desconfiança pelos dirigentes, hoje conta com o apoio de 80% do episcopado brasileiro, segundo o bispo de Jundiaí, Dom Amauri Castanho.

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Cita outras opiniões que denotam haver entre os bispos aqueles que fazem restrições à RCC: “ ‘Acho que deveriam acentuar o que Cristo disse, que a essência do cristianismo é o amor. E o amor que não é prático, que não ajuda, que não socorre, não é autêntico. Hoje, se eles estão fazendo isso não é aparente’, diz Dom Paulo Evaristo Arns...” “Que os carismáticos se integrem sempre mais nas comunidades da Igreja e incluam nas suas atividades também o apostolado social”. Frase atribuída a Dom Ivo Lorscheiter. Informando que os carismáticos são hoje cerca de 70 milhões no mundo e estimados entre 8 a 12 milhões no Brasil, a reportagem afirma que, embora o movimento carismático seja o maior, há dentro da Igreja cerca de 50 movimentos do gênero, e cita como exemplo: “Comunhão e Libertação, Focolares e Comunidade de Santo Egídio.” Conclui ser este o motivo pelo qual o Conselho Pontifício para os Leigos do Vaticano apoiou em 98 um encontro dos representantes desses movimentos com o Papa. Encontro que reuniu no Vaticano cerca de 200 mil pessoas. Citando o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, professor da Universidade Católica de Brasília, analisa: “A Renovação Carismática tem um caráter individualista, em contra posição à pregação social das Comunidades Eclesiais de Base, que marcaram a atuação da Igreja até o início da década de 80, quando houve a redemocratização do país.” A reportagem termina contrapondo as gravações vendidas entre Universal do Reino de Deus e padre Marcelo Rossi: considerando que a Universal de Edir Macedo estaria investindo no “bispo-cantor” e sobrinho de Edir, Marcello Crivella, que vinha percorrendo o país com shows e que seu 11º CD, da gravadora da própria Universal, teria vendido 400 mil cópias, enquanto padre Marcelo Rossi que classificam de “Estrela Pop da Renovação Carismática” já estava na marca de 1,3 milhões de cópias vendidas do seu segundo CD lançado há apenas 3 meses e que o primeiro já vendeu 3,2 milhões de cópias. Continuando a destacar o aspecto competitivo, apresenta os números alcançados no Maracanã pela RCC no dia 12 de

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outubro que foi de 161.722 pessoas, considerado até então, o maior público nesta década. O recorde, porém, foi quebrado 15 dias depois quando a Universal, representada pelo próprio Edir Macedo e Crivella, colocou no mesmo local 184.276 pessoas, utilizando para tanto, também o Maracanãzinho ao lado, e intitulando o evento de: “A vigília da resposta”. A “Folha” termina dizendo: “As duas Igrejas prometem agora bater seus próprios recordes, convocando seus seguidores para celebrações com 1 milhão de fiéis.” 58 No penúltimo dia de 1999 a “Folha de São Paulo” apresenta uma foto do padre Marcelo com uma maquete de Interlagos avisando que o autódromo em São Paulo poderá receber até 2 milhões de pessoas no próximo domingo, ou seja: 02 de janeiro de 2000. 59 2000 O mesmo jornal citado acima estampa na página 5 do 1º caderno: “Showmissa leva 1 milhão a Interlagos”. Trechos da reportagem: “ ‘Showmissa’ comandada pelo padre cantor Marcelo Rossi reuniu aproximadamente 1 milhão de pessoas no autódromo de Interlagos...” “Estrela da Renovação Carismática, Rossi foi acompanhado no evento por seu superior, o bispo de Santo Amaro, dom Fernando Figueiredo, pelos cantores Chitãozinho e Xororó, Daniel, Roberta Miranda, Sandy e Júnior e pelo grupo Fat Family. “ Transmitido ao vivo pela rede Globo, organizadora do evento, a cerimônia teve audiência média de 29 pontos, o equivalente a 2,32 milhões de telespectadores na grande São Paulo; de acordo com a emissora, a média de audiência do horário é de 15 pontos. Às 13h45, quando todas as atrações do show estiveram reunidas no palco cantando a música “Nossa Senhora”, de Roberto Carlos, a transmissão alcançou pico de 37 pontos de audiência. Armando Antenore assina um trecho da reportagem intitulando-a: “Padre Marcelo apenas resvala no social”. E

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Renovação Carismática Católica  

exposição e análise

Renovação Carismática Católica  

exposição e análise

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