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Quaresma – Um Tempo de Reconciliação

Quaresma, do vocábulo latino quadraginta e de seu adjetivo quadragésima, são 40 dias de preparação para a Páscoa. É um tempo rico de muitos simbolismos e de profundas experiências na vida da Igreja. Os autores deste livro procuram ressaltar a Quaresma como tempo de reconciliação. Contextualizam esse tempo de preparação para a Páscoa dentro das diversas etapas do ano litúrgico. O ano civil não acompanha, cronologicamente, o ano litúrgico que se situa no Mistério da Encarnação de Jesus. Jesus de Nazaré é o centro do ano litúrgico, iniciandose pela sua experiência histórica até à fé da comunidade, a partir de sua Ressurreição. Esse processo é acompanhado pela experiência batismal das comunidades cristãs. A Quaresma, um Tempo de Reconciliação, é estudada na sua evolução, fundamentando-se nas experiências judaicas de jejum, expiação e penitências. Analisam a experiência judaica através do jejum místico, das purificações dos tempos bíblicos e dos rituais do Yom Kippur. Na Liturgia do Oriente, a preparação para a Páscoa exigia uma espiritualidade marcada pela conversão e o mistério da Cruz.

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A Liturgia do Ocidente focaliza a preparação para a Páscoa nos 40 dias de reconciliação, marcada pelo jejum, penitência e oração. O Catecumenato cristão dos primeiros séculos do cristianismo se fundamenta na reconciliação que exigia conversão para as práticas cristãs. A celebração das Cinzas se caracteriza pelos símbolos do jejum e mortificações como expressões da reconciliação. Iniciava-se assim a grande marcha para a Semana Santa, cujo ápice é o Tríduo Pascal. Os rituais da Quaresma ajudam a renovar a profissão de fé, centralizada na Cruz e nos dias da conversão e mudanças de mentalidades. As cores da penitência, as orações, os cânticos e os ritos devocionais auxiliam a viver a espiritualidade quaresmal. O livro ajuda a entender a caminhada da Quarta Feira de Cinzas até o seu ápice, no Tríduo Pascal. As origens, os fundamentos bíblicos, as tradições e sua evolução são analisados e vistos dentro de sua simbologia. O livro, assim, é um guia que ajuda a entender e atualizar a Quaresma como Tempo de Reconciliação. Que os leitores se sirvam deste estudo e se alimentem na vida, procurando viver o mundo novo onde o egoísmo é vencido pelo amor-doação, onde a morte é vencida pela Ressurreição de Jesus Cristo. Auguro que seja uma luz para um Mundo Novo!

Pe. Dr. Antônio Carlos Oliveira Souza CSsR Professor de Teologia Dogmático-Sacramentária

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Introdução

Um tempo de Reconciliação Entramos em nossas igrejas e sentimos uma sensação diferente nos dias quaresmais. A cor dos elementos de decoração dos rituais litúrgicos foi vestida de roxo. Talvez encontremos menos flores e, em algumas igrejas, como nos velhos tempos, os santos estão cobertos com mantos. Quando participamos das ações litúrgicas, este espírito quaresmal é mais evidente ainda: canções mais sóbrias, gestos e refrões de exultação menos evidentes, as leituras e os sermões apontam para o recolhimento, o arrependimento e a conversão. O Tempo quaresmal vai tomando conta da vida litúrgica da Igreja, e cada fiel é convocado a buscar a renovação de sua opção batismal, a aproximar-se mais da ceia eucarística e viver mais profundamente sua fé. Este é o tempo por excelência da mudança de vida, pois os quarenta dias apontados pela Igreja para preparar a comunidade a viver mais intensamente o grande acontecimento da paixão, morte e ressurreição do Senhor, devem ser assumidos com seriedade, na construção da própria santidade. Algumas vezes, ouvimos críticas a este tempo, por sua característica, digamos, niquilista e centralizada na mística do pecado e da culpa. Ficamos atentos, certamente, pois não deve ser intenção da espiritualidade cristã fomentar o sentimento de culpa e medo divino nos seus fiéis. Mesmo porque esta didática de nossa espiritualidade assusta os fiéis mais humildes e bondosos, que vivem em constante busca de santidade, e não desperta os afastados e corrompidos que urgem de uma conversão radical. Todos nós compreendemos bem que uma religião verdadeira não deve incitar sentimentos de culpa ou dramas no coração dos fiéis para fazer deste medo a força de sua coerção e sua coação. Esta mentalidade não responde à bondade e à misericórdia de Jesus Cristo. No entanto, o convite

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constante à conversão, a busca do caminho do bem e a vida na luz da verdade são propulsoras de uma vida mais coerente com os valores cristãos. Nesta busca, os rituais quaresmais encontram seu sentido mais elevado. Eles servem ao propósito de renovar e fazer luzir nossa profissão de fé e, mais ainda, nossos sentimentos penitenciais. Não somos tão somente pecadores, mas somos todos pecadores. Por esta razão, o sentido do luto, o recolhimento no arrependimento e a confiança na conversão, são valores espirituais do tempo quaresmal. Neste trabalho sobre a quaresma, abordaremos as dimensões de sua impressionante riqueza litúrgica. A partir das orações, cânticos, práticas penitenciais e ritos devocionais, traçaremos três áreas de formação litúrgica: a teologia, para compreender as forças matrizes que fundamentam nossa espiritualidade quaresmal; a evolução, para entender os passos de estruturação do tempo, leituras e ritos deste tempo litúrgico; e os símbolos, para compreendermos suas origens e sua linguagem, pois eles nos adentram no mistério pascal que nos unifica em Deus e entre nós. Todos os passos da liturgia quaresmal deverão ser iluminados, desde sua abertura na celebração da Quarta Feira de Cinzas até seu epílogo, no início do Tríduo Pascal. Queremos conhecer as origens, os fundamentos bíblicos, a evolução ritual, a inculturação e a espiritualidade do tempo quaresmal, tocando sua teologia, história e simbologia. Todas estas páginas se completam na obra de Irmão Nery, Páscoa: teologia, tradição e símbolos, que nos leva ao ápice do mistério de nossa fé: Jesus Cristo crucificado, morto e ressuscitado. Pela quaresma trilhamos o sofrimento de Deus, paradigma das dores humanas, construindo um tempo de esperança e luta, inspirada na vida e na vitória pascal de Jesus Cristo.

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PAR TE I ARTE

Tempo para Deus Para a Igreja, a Páscoa é o momento mais importante da vida litúrgica. A Morte e a Ressurreição serão sempre os eventos máximos da cristandade, capazes de restaurar o homem e o universo, levando às celebrações mais importantes do calendário cristão. Apesar de cada domingo se transformar na páscoa semanal, a celebração oficial da Páscoa nos três primeiros séculos não existia, não havia um período de preparação para o grande evento, uma vez que este acontecimento era celebrado em todos os domingos. Na época, limitava-se a um jejum realizado nos dois dias anteriores à celebração. Era um período em que a comunidade cristã vivia de forma tão intensa com seus problemas, testemunha do martírio, que, talvez, não sentisse necessidade de uma única data, uma vez que o batismo em si já era um evento especial para a introdução dos cristãos na Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A evolução progressiva da Páscoa iniciou-se com a preparação de orações e jejuns, o que se pode chamar de preparação pré-pascal, provavelmente no século III, fazendo com que, no século IV, a Igreja começasse a se organizar de uma maneira mais profunda em relação ao grande evento, colocando os quarenta dias como característica do período. Definiu-se que o tempo da Quaresma inicia na Quarta-feira de Cinzas e termina, na 5ª Feira Santa, com a celebração da Missa do Lava-pés e da Ceia do Senhor, exclusive. A Quaresma está baseada no simbolismo do número quarenta na Bíblia. O número quatro expressa um simbolismo teológico, não cronológico, significando algo mais profundo do que o tempo. Deve-se isto à antiguidade que acreditava que o mundo e o homem eram formados por quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Simboliza, portanto, o universo material e a humanidade. Quando este número quatro vem seguido de zeros, o significado do tempo é equiparado à nossa vida na terra e aos anos que se leva, então, para formar uma nova

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geração. A simbologia do número quarenta acompanha o período de renovação e purificação necessária para um indivíduo ou um povo: podemos lembrar dos quarenta dias do dilúvio, do êxodo do povo judeu, após a fuga do Egito, perdido no deserto durante quarenta anos, procurando a terra prometida, dos quarenta dias de Moisés na montanha, dos quatrocentos anos que durou o exílio dos judeus no Egito e, entrando no Novo Testamento, dos quarenta dias que Jesus passou no deserto em suas provações. A celebração hodierna da Quaresma se apresenta, portanto, muito mais rica, espiritual e profunda com as alterações introduzidas ao longo dos séculos. A renovação do catecumenato, que pretendia ensinar os cristãos – catecúmenos – a celebrar a noite de Páscoa através da iniciação cristã, acabou trazendo, após a ordenação das leituras do ciclo, uma necessidade maior de celebrá-las nos domingos da Quaresma, uma vez que nelas se encontravam, de certa forma, os direcionamentos fundamentais e doutrinais para os que estavam começando a iniciar sua vida cristã. A Quaresma se divide, portanto, em duas partes no que respeita a Liturgia. A primeira refere-se à preocupação em conscientizar nos seus filhos cristãos o espírito de austeridade e penitência. A Quaresma é o período em que o cristão procura o caminho que um dia o levará ao Portal do Céu. Na Quaresma o fiel estará mais em função de suas orações, jejuns, e conscientização dos valores cristãos para não esquecer que, como católico, ele precisará servir ao Senhor, amá-Lo e entender o sacrifício do Filho de Deus, sua morte e ressurreição, para conduzi-lo no caminho da Verdade. A Quaresma se torna o período da salvação, porque nos faz ver a futilidade da vida, toda feita de diversões e prazeres, que faz com que os homens se isolem da espiritualidade de Deus. Seu único Filho foi enviado para ser o mestre da humanidade. Na segunda parte da Quaresma, a Igreja procura fazer o homem entender o mistério da Paixão com que Jesus nos remiu do pecado, e desta forma conduziu o homem ao seu Reino. A Igreja mostra aos cristãos o amor sem limites com que Jesus amou seus filhos, o remorso dos pecados cometidos contra

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Ele e o desejo sincero e terno de reparar o mal através de uma vida mais em função dos ensinamentos que nos legou. A Quaresma torna-se o caminho que nos concede a Paz oferecida por Cristo, e a meditação neste período nos faz enxergar a nossa vida, os nossos erros e a possibilidade da salvação de nossas almas, acolhendo os ensinamentos e colhendo as flores do nosso amanhã.

Os tempos bíblicos Desde os tempos bíblicos, o povo da Aliança, num ciclo anual, dedica tempo para Deus. Unindo os eventos históricos e as manifestações da natureza, os fiéis celebram suas festas diante de Deus, o que conhecemos como o ciclo anual da Liturgia. São celebrações sobre as manifestações da natureza, como o início da primavera, as colheitas, as chuvas, as fases da lua, entre tantas. Os acontecimentos históricos, como a libertação do Egito, a restauração do templo, a recepção da Tora, e muitos outros eventos da história do povo são celebrados para lembrar que marcaram e mudaram o itinerário do povo. O templo sagrado é o lugar da epifania de Deus, onde seus ministros ofertam orações, preces e culto para agradar a Deus. O coração do povo é o lugar predileto do culto divino, pois é justamente no coração que Deus poderá entendê-lo melhor. As estações do ano, cada uma com suas peculiaridades, particularmente a primavera que renova a vida, a produção agrícola para saciar a necessidade do povo, de modo especial as semeaduras e as colheitas, bem como o ciclo lunar, mormente a lua cheia, compõem a consagração do tempo a Deus. Neste caminho iniciado pelos judeus surgiram os cristãos, consagrando ao Pai, em nome de Jesus Cristo, os acontecimentos principais da missão do Filho. O Filho divino de Maria na história da humanidade continua a trilha inicial do povo judeu, onde Cristo se torna o tempo e o templo, onde se pode adorar Deus e onde os fiéis, especialmente os pobres, encontram o conforto e a ternura do Pai.

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Diferença entre o ano civil e o ano litúrgico O ano civil começa no dia primeiro de janeiro, no mundo ligado ao Ocidente. O Ano Litúrgico, por sua vez, começa bem antes, com o Advento, por volta de 30 de novembro, que é a preparação para o Natal, o nascimento de Jesus Cristo. Durante o ano inteiro, os cristãos celebram a vida de Cristo, desde a sua Encarnação no seio da Virgem Maria, passando pelo Nascimento, Paixão, Morte, Ressurreição, até a sua Ascensão e a vinda do Espírito Santo. Enquanto civilmente se comemoram fatos passados que influenciaram a nossa vida no sentido histórico, político ou social, como dia de Independência, no Ano Litúrgico, além da comemoração, vivemos na atualidade, no dia-a-dia de nossas vidas, todos os aspectos da vida de Jesus Cristo. A celebração dos acontecimentos da Salvação é atualizada, tornada presente na vida atual dos crentes. No Ano Litúrgico, os fatos são vividos como se acontecessem no mesmo dia; assim, a cada Natal, é Cristo que nasce no meio das famílias humanas, é Cristo que sofre e morre na cruz na Semana Santa, é Cristo que ressuscita na Páscoa, é Cristo que derrama o Espírito Santo sobre a Igreja no dia de Pentecostes. Quando relembramos os fatos ocorridos com Jesus no passado, essas mesmas atitudes se tornam presentes e atuantes, como um acontecimento do momento presente.

Organização do ano litúrgico Para organizar essas comemorações, a Igreja criou o seu Ano Litúrgico, também chamado de Calendário Litúrgico, ao longo de séculos, estabelecendo um calendário de datas a serem seguidas. O Ano Civil, como todos sabemos, começa em 1º de Janeiro e termina em 31 de Dezembro. Já o Ano Litúrgico começa no 1º Domingo do Advento (aproximadamente quatro semanas

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antes do Natal) e vai terminar no sábado anterior a ele. O Ano Litúrgico é composto de dias que são santificados pelas celebrações litúrgicas do povo de Deus, principalmente pelo Sacrifício Eucarístico e pela Liturgia das Horas. Como estes dias são santificados, eles passam a ser denominados dias litúrgicos. A celebração do Domingo e das Solenidades começa na Véspera, no período da tarde, do dia anterior. Dentre os Dias Litúrgicos da semana, temos, no primeiro dia, o Domingo (Dia do Senhor), em que a Igreja celebra o Mistério Pascal de Jesus, obedecendo à tradição dos Apóstolos. O Domingo é sempre tido como o principal dia de festa. Cada rito litúrgico da Igreja Católica tem o seu Calendário Litúrgico próprio, seguindo de uma certa forma o Calendário Litúrgico do Rito Romano, que é o mais conhecido de todos. A Igreja resolveu estabelecer, para o Rito Romano, uma sequência de leituras bíblicas que deverão se repetir a cada três anos, nos domingos e nas solenidades. As leituras desses dias foram divididas em ano A, B e C. No ano A lêem-se as leituras do Evangelho de São Mateus; no ano B, o de São Marcos e no ano C, o de São Lucas. O Evangelho de São João no entanto, é reservado para as ocasiões especiais, principalmente as que compreendem as grandes Festas e Solenidades da Igreja. Necessário entender que, nos dias da semana do Tempo Comum, há leituras diferentes para os anos pares e para os anos ímpares, com exceção do Evangelho, que se repete de ano a ano. Deste modo, os fiéis, de três em três anos, terão lido grande parte da Bíblia, se acompanharem a liturgia diária. O Ano Litúrgico da Igreja é desta maneira dividido: Ciclo da Páscoa, Ciclo do Natal, Tempo Comum e Ciclo Santoral.

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Tempos litúrgicos Há algumas diferenças entre os vários ritos em relação à duração de cada um, a data e a importância de determinadas festividades. Vejamos: Tempo do Advento O Tempo do Advento possui dois sentidos muito especiais: o primeiro é o da preparação do Natal, em que comemoramos a vinda de Jesus Cristo, entre os homens, e o segundo sentido é a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Por esses dois sentidos o tempo do Advento representa a expectativa da vinda do Salvador, além de se apresentar como um tempo de purificação de vida. É um tempo de festa, de alegria sincera nos corações humanos, sem no entanto ser algo exagerado; a comemoração tem o caráter espiritual e não físico. É Cristo que vem para alegrar os corações e enternecer os cristãos com sua bondade e humanidade. Tempo do Natal Após a celebração máxima da cristandade que é a Páscoa, a comemoração mais venerável para a Igreja é o Natal do Senhor Jesus Cristo. O Natal é um tempo de fé, alegria e acolhimento do Filho divino de Maria. O tempo do Natal é contado da véspera do Natal do Menino Jesus até o domingo depois da festa da Epifania. O Natal é celebrado por três Missas, para que a data seja vivida de forma congênere ao Tríduo Pascal. Assim, os cristãos celebram a Missa da Vigília de Natal, a Missa da Alvorada e aquela do dia. As mensagens aprofundam o mistério da encarnação, narrando o nascimento, a visita dos pastores e o sentido teológico destes eventos de nossa fé. No ciclo de Natal são celebradas as festas da Sagrada Família, Maria Mãe de Deus e o Batismo de Jesus. O nascimento do Menino Deus é uma nova etapa na história do mundo. Este

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tempo é precioso, pois em cada ser humano do universo a esperança de vida nova renasce. Em seguida vem o Tempo da Quaresma, que é um tempo forte de conversão e penitência, jejum, esmola e oração, como já vimos na introdução. Neste período não se diz o Aleluia, não se colocam flores na Igreja, procura-se não utilizar muitos instrumentos nas celebrações, e também não se canta o Glória a Deus nas alturas, para que as manifestações de alegria possam ser expressas de forma bem intensa no tempo que se segue, a Páscoa. Tríduo Pascal O Tríduo Pascal inicia com a Missa da Santa Ceia do Senhor, na Quinta-Feira Santa. Neste dia, a Igreja celebra a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, e comemora o gesto de humildade de Jesus quando lavou os pés dos seus discípulos. Na Sexta-Feira Santa celebra-se a Paixão e Morte de Jesus Cristo. Durante o ano inteiro, é o único dia em que não temos Missa: acontece apenas uma Celebração da Palavra que é chamada de “Ação ou Ato Litúrgico”. Durante o Sábado Santo, a Igreja não exerce qualquer ato litúrgico, permanecendo em contemplação de Jesus morto e sepultado. Na noite de Sábado Santo, que já pertence ao Domingo de Páscoa, acontece a solene Vigília Pascal. Com isso, conclui-se o Tríduo Pascal, que compreende a Quinta-Feira, Sexta-Feira e o Sábado Santo, para a preparação do momento mais sublime da Igreja, a Páscoa, o Domingo da Ressurreição. Tempo Pascal A Festa da Ressurreição do Senhor, a Páscoa, se alonga por cinquenta dias, entre o domingo de Páscoa e o domingo de Pentecostes. Comemora-se a volta de Cristo ao Pai na Ascensão, e o envio do Espírito Santo. Estas semanas são celebradas com alegria e exultação, como se fizessem parte de um só dia de festa, ou um inacabável domingo, onde a Igreja

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vive uma espiritualidade imensa de alegria no Cristo Ressuscitado, e os santos fiéis entendem e participam acreditando na vida eterna. Tempo Comum Além destes tempos mencionados, que têm características próprias, restam no ciclo anual mais trinta e três ou trinta e quatro semanas, nas quais são celebrados os Mistérios de Cristo. Para celebrar os Mistérios de Cristo em sua plenitude, principalmente aos domingos, o Tempo Comum mostra aos cristãos que Deus se faz presente, também, nas coisas mais simples. Trata-se de um tempo de esperança e acolhimento da Palavra de Deus. É chamado de Tempo Comum, mas não tem nada de comum e muito menos de vazio. É o tempo em que a Igreja continua a obra de Cristo nas lutas pelo Reino, indo de encontro aos homens. O Tempo Comum se divide em duas partes: a primeira fica compreendida entre os tempos do Natal e da Quaresma, a segunda parte fica entre os tempos da Páscoa e do Advento, e é o momento do cristão continuar a semear as palavras do Senhor. No Tempo Comum temos os momentos privilegiados para celebrar Nossa Senhora e os Santos. Domingo, Dia do Senhor Originário da celebração semanal do Sabath hebraico, o coração do Ano Litúrgico é um dia da semana dedicado ao Senhor. Este dia é consagrado como Dies Domini (Dia do Senhor), para todos os cristãos. O domingo é o centro da vida dos cristãos. Neste dia, os cristãos são convidados a viver em família, aprofundar os laços afetivos, a repousar, para restabelecer as energias, dar-se ao lazer, mas, particularmente, ao encontro com o Senhor na celebração da missa e na participação da Eucaristia. O domingo é dia de Cristo, da comunidade e da pessoa, para valorização, santificação e reflexão da sua fé no Salvador.

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Na tradição dos séculos, este dia é devotado ao Senhor, por isto é um dia de participar da vida espiritual, sentir a necessidade de repartir com a família, amigos e comunidade o sentido de viver para Deus.

Ciclo de Ressurreição A origem do Ano Litúrgico está na celebração de Ciclo Pascal, onde revivemos o grande mistério da Ressurreição do Senhor. Este período também é dividido em três momentos: a Quaresma, como preparação para o grande mistério da Paixão e Morte do Senhor, o Tríduo Pascal, para celebrar especificamente a morte e a ressurreição e, para completar, o Tempo Pascal, onde se realizam as manifestações do Senhor Ressuscitado. Como a ceifa e a colheita vão da tristeza para a alegria, este ciclo caminha da dor para a glorificação do Senhor.

Preparação batismal no tempo quaresmal A importância da água em nossas vidas é fundamental para a existência da humanidade. O ser humano sempre precisou cultivar, caçar, mas a água nos foi sempre apresentada como um dom gratuito e sem limites, com a beleza das fontes e dos rios. Por sua vez, as religiões encontram nas águas a simbologia de seus rituais, para expressar a imensidão do universo e o poder divino. Na expressão evangélica de Jesus “Vinde à fonte das águas, pois quem bebe desta água viva, nunca mais terá sede”, entendemos a mensagem. Pelo sentido da purificação, a cultura do povo de Jesus servia-se com frequência das fontes cristalinas e dos rios. Basta lembrarmos o batismo de João, que se realizava nas águas do Rio Jordão. Os fiéis se aproximavam das margens do rio corrente e eram batizados em suas águas. A purificação pode ser facil-

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mente compreendida pela simbologia das águas que purificam os corpos, saciam a sede e, no caso do batismo, complementam o homem introduzindo-o numa nova vida. O batismo purifica os pecados e elimina as culpas, a água o faz renascer para uma nova existência, fortalecendo-o para enfrentar uma nova jornada, renovando-o em corporeidade e espiritualmente. Jesus Cristo, quando se encontra com a mulher samaritana à beira de um poço de água, inicia a conversa, e serve-se deste momento para explicar o significado da purificação espiritual e da aceitação da graça divina em sua vida. A passagem bíblica revela, ainda, que o sangue e a água jorraram de seu peito aberto. A maior história da humanidade começa justamente neste sentido; a água não vem somente do coração do Senhor, mas da nova vida que se anuncia no batismo, dos pecados que são lavados para que o homem possa escolher outro caminho que o levará ao encontro de Deus.

Fontes batismais na comunidade primitiva Após a organização das comunidades, o ritual da iniciação cristã é sistematizado nos primeiros anos. Os cristãos que acabaram de se converter, assumem uma nova postura de vida, com um comportamento compatível com os ensinamentos recebidos durante seu aprendizado neste processo de conversão. Após participar do processo “batismal” que significa a imersão nas águas e simboliza a imersão do fiel na vida divina e a sua aceitação na vida da comunidade, ele se entrega a esta nova vida na dedicação a Deus. As comunidades, desde o início, construíam na entrada das Igrejas pequenas piscinas para introduzir, através do batismo, este ritual de iniciação. Os primeiros livros de instrução sobre o batismo no início da cristandade de que se tem conhecimento, mostram a preferência por um ritual de imersão em águas correntes, mas não como regra, de modo que o ritual poderia ser realizado de outras formas, desde que a água representasse, como até hoje, o batismo.

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O ritual do Batismo se realiza ao longo do período da quaresma, anterior às Festas Pascais anuais, oferecendo a dimensão penitencial, por meio de jejum, abstinência e rituais de exorcismos. A água torna-se o elemento simbólico fundamental à iniciação cristã; água representa justamente a purificação. Os séculos se passaram, mas a simbologia da água sempre representou a força transformadora da graça divina naqueles que se converteram à nossa fé.

Analogia das águas A Terra possui setenta por cento de água, em seus mares, oceanos, lagos e rios, uma vez que a alimentação dos seres vivos vem das águas. A água nasce nas fontes, numa dádiva da natureza que Deus nos proporciona, numa oferta gratuita e permanente. A água é mais do que um presente que a natureza nos proporciona, como um bem divino preparado para servir, sem operações, sem necessidade de engenhos mecânicos. Vem da bondade de Deus e de sua misericórdia servindo simbolicamente para expressar Sua presença na vida do mundo.

Batismo e água Pode-se comparar a Quaresma a uma espécie de retiro espiritual de todos os cristãos, que terminará com a cerimônia de renovação durante a vigília pascal. Por uma questão tradicional, a Páscoa acabou sendo o período mais propício para o batismo. Os neocristãos do século V e VI, adultos, submetiam-se a um ritual de preparação que consistia, particularmente, em orações, estudos para compreender o que estas orações significavam, bênçãos, e para entender, de fato, o comprometimento com a religião que se propunham aceitar. Receber o batismo era, de certa forma, comprometedor, principalmente nos primeiros séculos do cristianismo. O início

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deste compromisso com Jesus Cristo não era visto com bons olhos pela sociedade pagã. O ato do batismo era mergulhar a cabeça na água, como purificação, e o início de uma vida totalmente diferente que, ao abraçar o cristianismo, o novo ente da comunidade procuraria confirmar através das promessas feitas.

Teologia e espiritualidade da Quaresma A Quaresma é o tempo de experiência mais viva da participação no mistério pascal de Cristo: “participamos dos seus sofrimentos para participarmos também da sua glória” (Rm 8,17). Esta é a diretriz da Quaresma. A ação purificadora e santificadora do Senhor para todos os participantes da Igreja, é o período em que os cristãos se envolvem em suas penitências que vão levá-los a participar do mistério de Cristo que, por nossa causa, se faz penitente jejuando no deserto. Ao começar o caminho quaresmal, a Igreja está consciente de que o próprio Jesus Cristo acompanha a penitência dos seus fiéis, de modo que esta penitência adquire o valor de ação litúrgica, uma compreensão mais profunda de Cristo e de sua Igreja. Podemos recordar, neste período quaresmal, que nossa preparação nos faz compreender, também, a preparação que Cristo faz aos apóstolos: “disse-lhes, pois, Jesus: O Meu tempo ainda não chegou, mas o vosso sempre está presente.” (João 7:6). Não foi apenas uma vez que se referiu ao seu tempo, mas diversas vezes: “Subi vós outros à festa, Eu, por enquanto, não subo, porque o Meu tempo ainda não está cumprido.” (João 7:8). Ao aproximar-se o tempo de seu sofrimento, Jesus assim se expressou: “É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem.” “Agora está angustiada a minha alma, e que direi Eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora” (João 12:23 e 27). Havia um prazo para Cristo ascender ao Céu, assim podemos compreender como este período nos traz uma reflexão, uma necessidade de entender a profundidade de seus ensinamentos, o nosso envolvimento no sentido da Quaresma:

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“Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.” (João 13:1). Por fim, na noite da Última Ceia, ao dirigir-se ao monte das Oliveiras, no qual deveria passar pelas tenebrosas horas do Getsêmani, Jesus “levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a Teu Filho, para que o Filho Te glorifique a Ti” (João 17:1). O caráter essencialmente batismal da Quaresma, faz com que o sentido penitencial seja mais profundo para que o cristão fique mais próximo do Senhor. O que se apreende é que a Igreja é a comunidade pascal porque é batismal. Isso pode ser afirmado porque nela entramos mediante o batismo, mas há que se entender, também, que a Igreja é chamada a exprimir com vida de contínua conversão o sacramento que a gera. O caráter eclesial da Quaresma é o tempo da grande convocação de todo o povo de Deus, que se prepara para que o seu Salvador e Senhor possa purificá-lo e santificá-lo. A teologia quaresmal introduz a espiritualidade mais complexa do ano litúrgico que envolve o aspecto pascalbatismal-penitencial-eclesial. Levando-se em consideração estes aspectos que envolvem a prática quaresmal, a penitência, que não deve ser somente interior e individual mas também externa e comunitária, pode ser caracterizada pelos seguintes aspectos: - abominar o pecado como ofensa a Deus; - consequências sociais do pecado; - ação penitencial; - oração pelos pecadores. Na prática quaresmal, pode-se solicitar que os fiéis possam: - entender e escutar com maior intensidade a Palavra de Deus; - a oração poderá ser prolongada; - o jejum; - investir os sentimentos em obras de caridade.

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PAR TE II ARTE

Evolução quaresmal Em nossos dias, quando participamos das celebrações quaresmais, ficamos maravilhados com a riqueza da espiritualidade. Existe uma contagem correta dos dias que completam a “quarentena” de purificação. Parece que todos os dias vão se elevando num crescendo, levando os fiéis a se aproximarem dos dias pascais com o coração mais suave e o espírito purificado. Todas as leituras, os salmos e os cânticos exprimem a mística deste tempo tão especial da nossa vida cristã, colocando-se como o período mais excelente do Ano Litúrgico. Deste modo, as comunidades se unem mais fervorosamente para viver na fé os momentos mais profundos da vida de Jesus Cristo. Como que um véu de serenidade e humildade parece envolver o povo, não como algo definitivo na espiritualidade, mas como forma pedagógica de clamar todos os fiéis à conversão e ao perdão. Não estão muito distante os dias em que a quaresma tinha conotações muito particulares de recolhimento e instrospeção. Não se festejavam, não se celebravam matrimônios, não se dançava e, em tantos lugares mais tradicionais, evitava-se uma porção de hábitos, como caçadas, roupas luxuosas e fartos banquetes. Este tempo passou, de certo modo, mas muitos destes hábitos ainda nos tocam o coração. Não que tenham valor em si mesmos, mas serviam como estímulo para a transformação de nossa vida. Estes gestos de jejum e abstinência eram propiciadores da meditação, do silêncio e da revisão de vida. Para além da validade destes exercícios quaresmais, ficou seu espírito precioso, que não pode ser pedido: um tempo de fraternidade e de oração por excelência. A estrutura deste tempo nem sempre foi assim. Foi se elaborando com os séculos. Neste capítulo vamos reconhecer os passos históricos desta caminhada, para reconhecer cada

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vez mais e melhor a grandeza espiritual e a beleza ritual deste tempo quaresmal, um tempo que nos imerge mais plenamente nos mistérios pascais de nossa fé.

A tradição judaica da expiação A quaresma cristã encontra seus antecedentes na tradição judaica. Não se trata de imitação ou reelaboração dos rituais do povo de Jesus, mas assimilação de seus valores fundamentais, relacionados com a prática de reconciliação do povo, diante de seus pecados. O povo hebreu procura sempre reavivar seu relacionamento de fé e fidelidade a Javé por meio de celebrações rituais específicas, de revisão de vida e reatamento da Aliança e seus pactos. Existe no coração do povo de Jesus uma série de rituais que são paradigmáticos para as práticas cristãs de penitência e reconciliação. No cristianismo, estas celebrações penitenciais são nucleadas no tempo quaresmal, embora se espalhem por todo ano litúrgico. Todas as celebrações judaicas, sejam o sábado, a páscoa e as várias outras festas têm origens muito antigas. Também as práticas religiosas do jejum e abstinência estão presentes desde os tempos mais remotos da constituição do povo. Estes rituais são fundamentais para a compreensão dos ritos de expiação da quaresma cristã.

Práticas de jejum místico Consideramos jejum místico toda prática de abstinência, seja parcial, seja total, de alimentos, específicos em cada religião, em dias e horários determinados, conforme os oráculos daquela confissão religiosa. Sua motivação é religiosa, o que difere das práticas de jejum medicinais ou políticas, que seguem outras motivações e orientações conforme seus objetivos. Mesmo quando sustenta uma motivação política, com objetivos claramente reivindicatórios, o jejum é sustentado por uma motivação religiosa, que lhe dá um suporte mais espiritual,

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pois sempre coloca em jogo a integridade física e a vida dos seus praticantes. Recordamos o jejum de Gandhi, contra a dominação dos ingleses na Índia, e mais recentemente o jejum do Bispo Luiz di Cappio, que a partir de sua missão episcopal assumiu o jejum como forma de protestar contra o projeto do desvio do Rio São Francisco, defendendo assim muitas vidas em nome de sua fé e de sua profissão religiosa, seguindo o caminho doloroso dos mártires cristãos. A prática do jejum místico teve várias orientações e variações ao longo dos séculos, com elementos comuns e específicos em cada grupo religioso ou cultura. Encontramos o jejum como penitência ou controle sobre as paixões e desejos, tanto carnais quanto espirituais. Lançando um olhar na história dos povos e dos grupos humanos, notamos que os povos romanos, celtas, assírios e babilônios praticaram o jejum. Grupos de estudiosos, entre eles particularmente os pitagóricos e os neoplatônicos, na Grécia Antiga, tinham a prática do jejum como mecanismo de elevação espiritual e concentração do espírito. Entre os povos indígenas, o jejum é notado como forma de unificação com a divindade, em vistas de bens para a coletividade, como chuvas nas semeaduras, tempo bom nas colheitas, vitórias em tempos de conflitos tribais e cura nas epidemias e nas doenças. O jejum serve ainda antes de nascimentos e nas vigílias funerárias. A prática do jejum nas religiões unifica diversas intenções, como protestos políticos, autocontrole e integração com Deus. Entre os seguidores do Budismo, do Hinduísmo, do Confucionismo, entre tantas confissões, especialmente de origem asiática, o jejum serve para o controle dos instintos e dos próprios sentidos. Trata-se da privação de alimentos escolhidos pelos próprios líderes na formação dos seus códigos éticoreligiosos. Estas práticas devem purificar a alma e elevar o sentimento de luta na busca das virtudes próprias de cada religião. Notamos a proximidade destas práticas com nossas práticas rituais quaresmais de jejum. No universo religioso islâmico, notamos a prática do jejum, como uma das cinco obrigações dos seus fiéis. Falamos do “Ramadã”. Este título deriva do nome do novo mês do

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calendário islâmico. Seguido com rigor, os fiéis abstêm-se totalmente de alimentos durante todo o dia, definido não horariamente, mas da alvorada ao crepúsculo. Como este é o mês da revelação do Corão aos fiéis, todos devem ler e meditar sobre suas palavras.

Jejum nos tempos bíblicos O conhecimento do jejum no judaísmo deverá nos adentrar na mística do jejum cristão, que tem sua base nas práticas antigas do povo de Jesus, apreendendo sua mística e dando seguimento a sua prática. A prática do jejum no Antigo Testamento tem várias prescrições. A mais importante é o Dia da Expiação, conhecida ainda em nossos tempos, com diferentes características, como Yom Kippur, Dia da Expiação. Segundo os estudiosos, esta prática penitencial e outras práticas são observadas após o retorno do cativeiro persa (aproximadamente no ano 520 a.C.). Conhecemos assim quatro momentos de jejum durante o ano. Seguindo as leis do Talmude1 estes rituais de jejum fazem parte das tradições religiosas judaicas. No livro de Ester (9, 31) aprendemos que o jejum é uma força que motiva a luta do povo que está ameaçado de ser destruído2. Muitas vezes, a prática do jejum é pessoal (2 Sam 12, 22) e outras vezes toda a comunidade celebra o jejum, dito “jejum grupal” (Jz 20, 26). Disto entendemos que algumas vezes o jejum que praticamos em nossas comunidades é uma opção pessoal, como busca de superação de pecados individuais e outras vezes toda a comunidade se empenha em práticas de jejum em vistas de uma conversão coletiva. Em outros momentos, o jejum manifesta a tristeza, advinda de acontecimentos trágicos do passado do povo, reavivando sua memória (1Sam 31, 13; Ne 1, 4; Esd 10, 6). Encontramos a prática do jejum também como reflexão e método de interiorização para a acolhida espiritual da orientação de Deus, em momentos de decisão, como guerras, migrações e plantações (Ex 34, 28; 2Cr 20, 3-4).

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Uma concepção também presente na prática do jejum se refere ao fato de que, muitas vezes, o jejum é assumido como meio de conquistar os cuidados divinos. Um texto do livro de Isaías (58, 5-8) critica esta visão, afirmando que não é a “cabeça sobre o junco, os panos de sacos e as cinzas” que toca o coração de Deus, mas a prática da justiça e a conversão do coração. Como nos tempos antigos, no judaísmo e em todas as práticas religiosas, bem como no cristianismo, o jejum merece críticas quando se torna fim em si mesmo e deixa de ser sinal e caminho de transformação da própria vida. Nossas práticas religiosas cristãs, desde suas origens, apresentam o jejum como meio de santificação, dado pelo apelo à conversão e, mais tardiamente, como solidariedade com os empobrecidos3. Pela compreensão da tradição judaica, o jejum significa “aflição na alma”, pois leva à busca por Deus. O encontro com Deus apaga esta aflição. Jesus assume o jejum não como prática exibicionista e muito menos como ritual com fim em si mesmo, mas como caminho de santificação e elevação espiritual. Uma vez que Ele mesmo jejuou (Mt 6, 16), compreendemos que o jejum serve salutarmente para a superação da aflição espiritual que não vem pela fome ou restrição de bens do corpo, mas pela transformação da própria vida e o encontro alegre com Deus. Um dia de jejum muito particular no judaísmo é o “décimo jejum”, intitulado Tanakh (Zac 8, 19), onde os fiéis se abstêm de alimentação desde a alvorada até o aparecimento das estrelas. Este jejum recorda a tragédia do cerco de Jerusalém pelo exército da Babilônia (2 Rs 25, 1-3). Este dia de jejum visa recordar e lamentar a entrada do exército de Nabucodonosor na “Cidade Celeste” e a destruição do simbólico templo de Salomão. Estes fatos ocorreram aproximadamente cinco séculos antes de Cristo. Com a invasão, instaurou-se uma verdadeira “babilônia”, que designa confusão e má inclinação. Nesta confusão, confunde-se o sagrado e o profano e os sacerdotes instituem um dia especial de orações e jejuns na sinagoga, para manter o povo purificado destes males. Esta data é

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inserida no calendário litúrgico para combater as idolatrias e as más inclinações espirituais do povo, que se deixava facilmente corromper pelos seus dominadores, em troca de favores e de proteção. O jejum foi instituído particularmente na destruição do templo, considerado um evento muito mais trágico que a ocupação do império babilônico. Este mesmo jejum, com seus rituais particulares de lamentação e memória histórica, foi direcionado para recordar e reviver o holocausto dos judeus na perseguição nazista durante a Segunda Grande Guerra. Este jejum, reavivado pelo rabinato de Israel, relembra a memória dos milhões de judeus chacinados no Holocausto. As velas são acesas e o jejum é praticado em memória de seus sofrimentos e sua morte. As vítimas do Shoá4 são homenageadas pela oração do Kadish5 e a meditação do Mishnaiot6. É importante destacar que o jejum é obrigatório para os que seguem fielmente as tradições. Mas é importante sobretudo sabermos que se os fiéis não refletirem sobre seus atos e sua conversão, nenhuma abstinência atingirá seu objetivo fundamental: a conversão da própria vida. O jejum na tradição judaica, que ingressa na tradição cristã, nos ensina que as tragédias do passado, como a destruição do templo ou o holocausto dos inocentes, perdura em nossa geração para sempre. Somente o seguimento da Tora pode evitar novas tragédias. Igualmente, no cristianismo, o jejum, tão defendido como ritual de valor quaresmal, deve acompanhar a transformação da própria vida do povo, seguindo os mandamentos de Jesus Cristo. No judaísmo, como no cristianismo e em todas as confissões religiosas, o jejum deve levar à transformação de nossas ações e à conversão de nossos corações.

Ritual do Yom Kippur na tradição O ritual no templo é baseado na tradição do judaísmo antigo, descrito no Mishnah, no livro litúrgico do Yom Kippur. No templo de Jerusalém, até sua destruição, realizava-se um complexo

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de serviços e sacrifícios para esta solenidade. Os serviços eram a principal parte deste dia de expiação, e os sacerdotes entravam no Santo dos Santos para realizar o ritual com muito rigor. Os passos do ritual são bem marcados e o grupo dos fariseus cuidava para que não houvesse falhas na sua execução. Para perceber a grandeza deste ritual, descrevemos seus principais passos, pois o sumo sacerdote, protagonista de todo ritual, deve seguir uma ordem muito precisa de serviços, sacrifícios e purificações: 1-

Oferenda da manhã, feita pelos sacerdotes, em vestes douradas, com as primeiras abluções;

2-

Troca de vestimentas, lavando os pés e as mãos pela segunda vez;

3-

Oferenda de um touro pelos pecados pessoais do sacerdote;

4-

Oferenda matinal: o sumo sacerdote apresentava as oferendas de ouro, depois fazia seu banho ritual (mirkvah), lavando mais uma vez as mãos e os pés;

5-

Troca de vestes, trajando roupas de linho e novamente procedendo às abluções. Mais uma vez veste as roupas douradas e as tira para trajar-se novamente em roupas de linho;

6-

O sacerdote oferta um touro pelos próprios pecados, pronunciando orações de reconciliação. O povo ouvia as orações e se prostrava por terra. O touro era sacrificado e ele recebia o seu sangue;

7-

Escolha dos dois bodes: um era escolhido para ofertar ao Senhor e o outro para ser ofertado a Azazel. Este segundo bode era atado em corda vermelha para a oferenda a Azazel;

8-

O Sumo Sacerdote subia ao Altar para a preparação do

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Quaresma - teologia, tradição, símbolos