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Prefácio

Autor de inúmeros livros e opúsculos pedagógicos, o jornalista Padre Augusto César tem uma característica encantadora: ele sabe dizer as coisas de maneira acessível. Ao escrever sobre a homilia e suas consequências, ele visa não somente os pregadores, mas também os ouvintes. Seu livro não ensina apenas a pregar; ensina, também, os fiéis a ouvirem e a exigirem melhores homilias. Homilia com conteúdo é um direito do povo de Deus e é um dever do pregador. Ao abordar o contexto, os porquês e o depois, ele gentilmente questiona, na linha do Padre Antônio Vieira, aqueles que sobem ao púlpito. Leciono “Prática e Crítica de Comunicação” há 29 anos, escrevi quatro livros sobre o tema e afirmo ver preciosidade neste pequeno livro. Eu certamente o recomendo como leitura para todo aquele que é chamado a falar ao povo de Deus. Não responde a tudo, mas tem preciosos e precisos questionamentos.

Pe. Zezinho scj

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INTRODUÇÃO

Aprendi, nestes mais de 50 anos de homiliasta, que a homilia é uma reflexão dentro do contexto litúrgico bíblico-teológico e eminentemente pastoral, com o olho e o coração na Palavra e na vida cotidiana do povo de Deus, porque tem apelo para a transformação da vida em todo o significado do termo. E, por que não, uma oração?! Sinto, por dever e amizade, que posso oferecer aos homiliastas a experiência adquirida, com a intenção de reparti-la, na esperança de prestar-lhes um serviço útil, que lhes sirva de base para uma proveitosa revisão do próprio Ministério da Palavra. Cabe aqui o provérbio latino dos antigos romanos: “O poeta nasce feito, o orador se faz”. O homiliasta precisa estar consciente da comunidade/ povo de Deus, uma vez que o povo é o destinatário privilegiado da Palavra. Não é um povo abstrato, amorfo, sem vida e sem aspirações. Se o povo vive a vida concreta de cada dia, o homiliasta precisa ter conhecimento e vivência da vida do povo para poder iluminá-la com a luz da Palavra. O povo/comunidade é o destinatário privilegiado da Palavra, porque o povo

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de Deus é o parceiro insubstituível da Aliança entre Deus e o mesmo povo. Daí que a Assembleia Litúrgica/ povo de Deus deve ser levada muito a sério! Esta reflexão tem alguns tópicos fundamentais. A MESA DA PALAVRA na qual a Comunidade faz o discernimento da Palavra da Aliança; A MESA DO VINHO E DO PÃO em que, depois do discernimento na Mesa da Palavra, a Comunidade ratifica a Aliança no sangue de Jesus; A MESA DA CARIDADE quando, depois do discernimento da Palavra e da ratificação da Aliança, a Comunidade continua a celebração fora do templo, no serviço à Mesa da Caridade; a HOMILIA faz a ligação das três Mesas entre si; com a vida cotidiana do povo de Deus depois da Missa fora da igreja; enfoca as virtudes e os cuidados que o homiliasta precisa cultivar; e traz também duas sugestões de homilias. Recordo que o serviço da Palavra é o primeiro dos conhecidos “três serviços da Igreja” e o mais importante serviço do sacerdote (cf. PO 4). Os outros dois são o serviço da Liturgia e o serviço da Caridade – os tradicionais “tria múnera Ecclesiae”: a Palavra profética, as celebrações sacramentais e a prática caritativa. Creio que a ajuda desse meu trabalho tornará o serviço da pregação da Palavra tanto do agrado para a Assembleia Litúrgica prestar a devida atenção, como um prazer gratificante para o homiliasta nas pegadas do artesão que se alegra quando expõe com sucesso sua obra de arte ao povo. Pe. Augusto César Pereira SCJ Dehoniano

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Dedicatória Dedico este trabalho aos que se preparam para pregar com dignidade a Palavra de Deus; aos que se dedicam à formação dos futuros homiliastas; e às pessoas e equipes que se empenham na reciclagem dos padres para este serviço importantíssimo no ministério sacerdotal. Dedico também aos sacerdotes que se esforçam para aprimorar-se, com zelo pastoral, atualizando-se permanentemente para melhor servir à Palavra e à sua Comunidade de Fé reunida como Assembleia Litúrgica. PAZ!

Abreviações As abreviações mais usadas neste trabalho são as seguintes: MND (Mane Nobiscum Dómine) – DCE (Deus Caritas Est) - SC (Sacrosanctum Concilium) – SCar (Sacramentum Caritatis) – LG (Lumen Gentium) – GS (Gaudium et Spes) – EE (Ecclesia de Eucharistia) – EN (Evangelii Nuntiandi) – DV (Dei Verbum) - IGMR (Instrução Geral do Missal Romano) – AG (Ad Gentes) – DAp (Documento de Aparecida); NMI (Novum Milenium Ineunte); DI (Discurso Inaugural de Bento XVI em Aparecida) – VD (A Palavra do Senhor) – (Cáritas in Veritate) – CIC (Catecismo da Igreja Católica) – ICM (Isto é o meu corpo) Raniero Cantalamessa.

Agradecimento A Therezinha Cruz – catequista testemunha da Palavra – pela crítica fraterna; pelo incentivo motivador

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A aborgagem dos temas

O CONTEXTO, plagiando S. Paulo, é onde vivemos, nos movemos e somos. É o nosso “habitat”. É necessário tê-lo em mente para que o homiliasta esteja sempre situado. Porque os elementos do contexto se interligam. Coloco a homilia no mesmo contexto da ALIANÇA, em que coloco também a celebração da Missa. A homilia está entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística do vinho e do pão. A Missa na ótica da ALIANÇA eu reflito em meu livro jubilar intitulado “As três mesas da Missa”: as mesas com o serviço da Palavra, o serviço da Eucaristia e o serviço da Caridade (O Recado Editora, São Paulo, 2011). Os elementos do contexto da homilia compõem um rico conjunto: a mística do Domingo Dia do Senhor; a vida prática cotidiana na Comunidade de Fé; a Missa Dominical com as mesas da Palavra, da Eucaristia e da Caridade; a espiritualidade da Aliança de Deus com o povo de Deus; a comunhão eclesial com a “Dei Verbum” e a “Verbum Dómini”; o documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica”; a comunhão latino-americana favorecida pelo “Documento de Aparecida”; o Ano Litúrgico; o carisma dehoniano e a experiência acumulada do homiliasta e da comunidade.

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Pretendemos a unidade na fé e no amor; e a esperança de uma comunhão na unidade da missão. Não é possível uma homilia sem este pano de fundo. Por isso, a homilia não pode ser tratada como algo isolado da Liturgia da Palavra e do sangue derramado (SC 7, 33, 52). O contexto tem ainda dois aspectos próprios: o da origem da Palavra de Deus com a questão da fidelidade ao que os hagiógrafos queriam dizer. E o aspecto do destino onde a Palavra vai ser recebida e depois vivida. O povo de Deus que vive num contexto é o destinatário natural da Palavra. Fora desses dois aspectos, a Palavra pode ser alienada e/ou manipulada. Proponho-me alertar os homiliastas para levarem em consideração que não trato em profundidade de temas como a Aliança, a fé e outros. A abordagem que faço me parece suficiente para a atenção do homiliasta a esses temas considerados importantes no conjunto desta proposta sobre a homilia. Porque entendo que a homilia deva ter em conta a celebração litúrgica do conjunto da História da Salvação e o papel da Palavra. E, como a homilia é parte integrante da Missa, é necessário que se trate também da confirmação da Aliança na celebração do pão entregue e do vinho derramado. Faça bom uso deste serviço que lhe quero prestar com alegria.

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DESTAQUE PARA O DOMINGO - o dia que o Senhor escolheu para nós -

No Ano Litúrgico, o Domingo é a mística profunda do Mistério Pascal de Cristo e da Igreja e das comunidades cristãs. A ressurreição e a comunicação do Espírito Santo são os dois grandes acontecimentos que o próprio Jesus escolheu para distinguir o Domingo dos outros dias. Nos primeiros tempos, os cristãos frequentavam as sinagogas judaicas. Logo perceberam que o sábado nada mais significava para eles. A ressurreição e a comunicação do Espírito acontecendo no primeiro dia da semana significavam o suficiente para justificar a troca do dia de sábado para Domingo (cf. Jo 20,19-23). Na prática do descanso dominical a Igreja assume a primeira narração bíblica da obra da criação. O descanso é, pois, a conclusão da obra criadora e da sua contemplação por Deus. Da mesma forma os trabalhadores, no descanso, contemplam agradecidos tanto o magnífico trabalho de Deus na criação, como também o seu próprio trabalho executado durante a semana que passou. Não se trata de simples fim de semana nem de feriado prolongado nem pode ser diferenciado dos “demais dias úteis” como se fosse um dia inútil. Nós nos deveríamos saudar mutuamente com BOM DOMINGO! Fé não é o que eu acredito. Fé é o que eu vivo porque acredito.

A MINHA PROPOSTA: o contexto litúrgico A homilia não se isola em si mesma, é essencialmente conjunto. É preciso que a homilia seja encarada como parte integrante da Liturgia da Palavra e a Liturgia da Palavra como parte integrante do conjunto das três mesas da Missa. Com destaque para a Liturgia da Palavra.

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Por isso, apresento um sumário definindo bem o que entendo nos capítulos em que divido este trabalho. Outra observação é que eu faço um resumo do que desenvolvo no meu livro “As três Mesas da Missa”. Isso é para facilitar o entendimento do conjunto em que coloco a homilia. Parece-me que isso facilita a compreensão deste trabalho no seu conjunto. Nesta minha reflexão pessoal, desenvolvo o esquema da “Mane Nobiscum Dómine” (MND) (“Fica conosco, Senhor” – (Lc 24,1335). Esta reflexão levou-me a considerar a existência de três mesas na celebração da Missa. Apresento aqui uma reduzida visão do que tratei no livro AS TRÊS MESAS DA MISSA, livro básico para se assimilar a proposta de HOMILIA. Ao mesmo tempo, este livro A HOMILIA completa o que traz bem mais desenvolvido aquele livro. Quero deixar clara a minha tese de que a homilia é o elo de ligação entre as três mesas da Palavra, do Vinho/Pão e da Caridade. Estas três mesas se desenvolvem num ritmo harmonioso, em continuidade uma com as outras. Nelas, a Comunidade de Fé celebra o Mistério Pascal de Jesus Cristo que institui a nova e eterna Aliança com o povo de Deus. Eis o resumo da minha proposta.

1) A MESA DA PALAVRA A Palavra que era Deus se fez carne (Jo 1,1-14) É a celebração da Páscoa de Jesus Cristo com enfoque na Palavra do Evangelho dominical. Este apresenta os termos da Nova Aliança. A comunidade faz seu discernimento sobre eles e se compromete e se decide a ser parceira da Aliança. A celebração litúrgica da Missa é o lugar privilegiado para a proclamação e a escuta da Palavra de Deus, para o discernimento do compromisso da Comunidade com a Aliança. A celebração litúrgica da Missa não se faz para a Assembleia Litúrgica; mas é a própria Assembleia Litúrgica que realiza a celebração litúrgica. A Liturgia é a ação de Deus para o povo e, por consequência, é a ação do povo, exclusiva do povo de Deus.

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O povo participa com pleno direito, porque é ele o sujeito da celebração litúrgica (SC 27). A Comunidade de Fé convive e testemunha a “mesma” fé haurida na mesma fonte e professada por todos (cf. Ef 4,5). Cada pessoa alimenta sua fé na Comunidade de Fé. A fé é comunitária, porque a Igreja recebeu dos apóstolos “o depósito da fé” (2Tm 1,12); a comunidade/Igreja garante a integridade da minha e nossa fé; depois, porque, se temos a mesma fé, nós cremos juntos. A Comunidade de Fé forma a Assembleia Litúrgica: esta é a única parceira qualificada e idônea para ratificar e celebrar a Aliança. A Aliança com Deus sempre teve o povo como parceiro insubstituível. O livro do Êxodo é o livro da primeira parceria (Ex 24,1-8 a 25,1-9). É o “Livro das Alianças”. É o “esboço da nossa redenção”. A Bíblia ressalta que só o povo é idôneo, capaz, credenciado e competente para estabelecer Aliança de parceria com Deus. O próprio Deus respeita o povo como parceiro com direitos e deveres. Assim também só o povo de Deus pode aprovar e ratificar as cláusulas (os termos) da Aliança. Também na Nova Aliança o povo/comunidade é elemento essencial para se estabelecer a segunda Aliança com Deus, no Novo Testamento (cf. Lv 1,5; Mt 26,28; Hb 9,12-26; SC 42). Deus não nos salvou como pessoas isoladas, mas como um Povo, o Povo de Deus (LG 9). Como desdobramento da Aliança, a Assembleia Litúrgica compromete-se com a missão da Igreja ratificada na celebração litúrgica (cf. AG 10). A Assembleia Litúrgica é o lugar privilegiado de a Palavra ser proclamada, ouvida e conservada. É lugar privilegiado, porque reúne os parceiros da Aliança. É onde se ouve a Palavra, se faz o discernimento e se ratifica a Aliança. A Comunidade de Fé é a celebrante primeira, indispensável e insubstituível da ação litúrgica.

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A Palavra de Deus pertence ao Povo de Deus Deus escolhe um povo para iniciar a História da Salvação. Chegado o tempo propício, Deus chamou Abraão para formar o povo com o qual faria Aliança (cf. Gn 11,26-25,9; Mt 3,9; Jo 8,39; 8,58; Rm 4,3; 4,13; Gl 3,7; Hb 11,8; Mt 13, 34-35). Deus libertou o povo da escravidão do Egito. E fez a Aliança tendo o povo como parceiro. Sob a coordenação, agora, de Moisés (Ex 19 e 20). Para os cristãos, a 1ª Aliança preparou a execução da 2ª Aliança. Na 1ª estão as bases irrevogáveis da 2ª, como: o único Deus verdadeiro se revela a si próprio e a sua natureza criadora do universo e da pessoa humana. Os profetas exortavam o povo para que se preparasse para a vinda do Messias/Salvador como cumprimento das promessas do Pai.

JESUS CRISTO Palavra da Vida encarnada em nossa humanidade

“Eu vim para que todos tenham vida em abundância” (Jo 10,10). Não só abundância da vida terrena, mas enriquecida com a participação perpétua na vida divina. Para comunicar o projeto do Pai e se comunicar conosco, o Pai revestiu-o de um corpo humano; ao nosso nível; em tudo como nós menos no pecado. Em Jesus, a Palavra chega em forma de pessoa. Porque desde outrora, Deus falou com a humanidade de muitas maneiras. Agora, manifestou-se na pessoa de Jesus Cristo. “Nele Deus se expressou tal como ele é em si mesmo” (Hb 1,1-4). A constituição dogmática “Dei Verbum”, sobre a revelação de Deus, retoma e reforça a antiga importância e a perene veneração pela Palavra de Deus. Com isso, voltou-se a considerar a Palavra tão importante quanto o pão e o vinho, na Missa Católica. A exortação apostólica pós-sinodal “Verbum Dómini” além de atribuir à Palavra o lugar privilegiado na Liturgia, reafirma com toda a clareza a “Dei Verbum” (cf. DV 21; VD 52-7; SC 24).

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O DISCURSO DE JESUS NA SINAGOGA DE NAZARÉ E OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DA BOA NOTÍCIA Na sinagoga de Nazaré, Jesus proclamou o seu discurso programático, ouso afirmar que é o discurso missionário. É o programa que Jesus executará na qualidade de Messias enviado pelo Pai. Com base em sua autoridade e na autoridade de quem o enviou, ele define os elementos que constituem a Boa Notícia (Lc 4,14-21): “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para que dê a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para anunciar a liberdade aos cativos e a visão aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, para proclamar o ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19; cf. Is 61,1-3). O Espírito credencia Jesus como o intérprete da Escritura. Com a autoridade deste credenciamento, Jesus define os elementos constitutivos da Boa Notícia (cf. Is 61,1-3; Lc 4,16-19; 7,22). O Espírito ungiu Jesus aludindo ao significado bíblico messiânico, missionário e libertador da unção (cf. Sl 2,7). A unção credencia o Messias como enviado e lhe confere a missão de executar o projeto de novas relações de vida e de liberdade. O Espírito chancela a unção para a missão. A Boa Notícia é o mistério mantido em sigilo e, agora, manifestado (cf. Rm 16,26 ; Ef 3,1-13). Todos os elementos relacionados à Boa Notícia têm como base a libertação de qualquer espécie de opressão, seja física = os cegos; econômica = os pobres; política = os cativos. É sintomática a preferência de Jesus para que o seu discurso inaugural fosse em Nazaré, a pobre e desprezada região da Galileia (Jo 1,46). As palavras e a prática libertadoras de Jesus manifestam indisfarçável preferência pelos sociologicamente pobres, abandonados pela sociedade; e os teologicamente pobres, abandonados pela religião do Templo. O texto lido por Jesus é do profeta Isaías (Is 61,1-3). O autor usa o pronome EU para indicar quem falava o texto profético. Mas, quando Jesus leu o texto, estava lhe dando autenticidade, isto é, indicava quem era realmente aquele EU. É Jesus quem dá sentido ao texto e indica que o tempo da profecia messiânica começa a ser cumprido.

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Jesus dirige a si estas palavras: por causa dele a Escritura que vocês escutaram se cumpre na pessoa dele: “Hoje, se cumpriu esta passagem da Escritura que vocês acabam de escutar”(Lc 4,21). A Boa Notícia é o processo de mudança de mentalidade (metanoia) para implantar novas estruturas sociais com a devolução dos direitos aos pobres. É o envolvimento radical do Ungido. A Boa Notícia de Cristo tem continuidade nas palavras e ações libertadoras das comunidades de Jerusalém. Os discípulos identificavam-se como portadores da Boa Notícia e com ela se comprometeram pelo testemunho que davam pela sua vida comunitária. Porque eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos, na comunhão, na fração do pão, na oração, na partilha dos bens e na prática de sinais e prodígios. (cf. At 2,4247; 4,32-37; 5,12-16). Em nossos dias, para manter a continuidade das comunidades de Jerusalém e atender aos sinais dos nossos tempos, daremos o mesmo testemunho que eles deram à época, atentos ao Documento de Aparecida que acrescenta os novos rostos dos pobres (DAp 402; 407-430; 257; 529-533). Palavras e obras são tão importantes para a Comunicação de hoje como o foram no tempo de Jesus. O HOJE da missão atual da Igreja – pelo compromisso com a unção do Batismo e da Crisma – é evangelizar transformando o inferno da vida dos pobres em “um verdadeiro paraíso na terra”.

A PALAVRA NA LITURGIA DA MISSA Algumas funções da Palavra A constituição dogmática “Dei Verbum” proclama com sua autoridade a primazia da Palavra (cf. SC 18). A Liturgia é chamada de morada da Palavra. É a casa onde a Palavra mora, onde acontece o encontro, a escuta, a meditação e a assimilação. O conjunto da Palavra proclamada recorda ao povo da Assembleia Litúrgica a Aliança com Deus. A Palavra na Missa provoca novo discernimento para obter do povo a

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confirmação de sua adesão à proposta de Aliança feita pelo Pai. As principais funções da Palavra na Liturgia da Missa, entre outras também importantes, são: a) Convocar o povo de Deus: Moisés, por exemplo, convoca o povo para a reunião em que seriam discutidos os termos da proposta de Deus para estabelecer Aliança com o povo (Ex 19,79). b) Provocar a adesão do povo de Deus: isto é, como projeto do Pai, a Palavra é para conseguir a adesão da comunidade que se compromete com o projeto. Como foi com o povo judeu (cf. Ex 24,3). c) Enviar o povo de Deus: a Palavra envia o discípulo e a comunidade de fé em missão (Mt 28,18; Mc 16,15-18 ). d) Provocar o testemunho da comunidade que a ela aderiu: então o testemunho questiona as pessoas: “Se fulano vive assim, por que não eu?”. e) O testemunho dos discípulos dá credibilidade ao Mestre. Os gurus sabiam disso e preparavam com cuidado os seus seguidores. Jesus também: (cf. Mt 13,10-16.36.51-52; Lc 8,9-11; Mc 4,10-12.6,30-32).

2) A MESA DO VINHO E DO PÃO

O serviço da Liturgia: “Isto é o meu corpo... meu sangue” (Lc 22,19) É a celebração memorial da Páscoa do Senhor na refeição onde a Comunidade de Fé faz memória do sacrifício redentor e ratifica os termos da Nova Aliança com o sangue de Jesus derramado e o corpo dele entregue. Depois do discernimento na Mesa da Palavra, a Comunidade ratifica a Aliança no sangue de Jesus. A Ceia Judaica e a Ceia Cristã Uma rápida passagem pelos fatos da Páscoa Cristã mostra a “coincidência” dos fatos com a Páscoa Judaica. Eis algumas: a

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situação do povo oprimido pelo pecado e sua libertação; Deus libertador intervindo diretamente para criar um povo livre e soberano; o novo projeto da Aliança entre Deus e o povo; o novo mandamento constitui o novo Povo de Deus; o novo sacrifício celebrativo. Elementos básicos da Páscoa judaica – “Mãe da Páscoa Cristã” – estão presentes na celebração da Páscoa Cristã. São estes os principais: a ceia é ritual, religiosa; o início de nova ordem das coisas pela libertação da escravidão do Egito e da libertação do pecado e da morte em Cristo; a Palavra da revelação e das promessas de Deus; a dignidade da pessoa humana; a partilha; a preservação da vida; o memorial das intervenções diretas de Deus em fatos concretos a favor do povo hebreu e cristão; a renovação do pacto da Aliança tanto dos judeus como dos cristãos. Para compreender Jesus Cristo e o mistério de sua Páscoa, é necessário mergulhar na cultura, na religião e na história judaicas (Ex 12,1-28.43-51; Dt 16, 1-8). A Bíblia Judaica é a raiz do Novo Testamento. Sem o Antigo Testamento, o Novo Testamento se tornaria indecifrável! A ceia de Jesus no cenáculo é a última como despedida de sua cidadania judaica; mas é a primeira ceia cristã como instituição da identidade e da celebração da nova e eterna Aliança dos cristãos. O vinho/sangue vida de Cristo

Foi necessário o sangue derramado de um só para que todos tivessem vida (cf. Jo 11,50) O coração humano bombeia sangue continuamente e alcança todas as células até o extremo de nosso corpo. Nas pegadas das mais santas tradições culturais e religiosas da humanidade, em Jesus Cristo o derramamento do sangue conseguiu a remissão dos pecados (cf. Lv 17,11; Lc 11,51; At 2028; Rm 3,25; 5,9; Ef 1,7; Cl 1,14.20; Hb 9,22; 1Jo 1,7; AP 1,5). E o clássico texto no qual São Paulo afirma que a aspersão do sangue fala mais alto que o sangue de Abel (cf. Hb 12,24). Volta aqui a lembrança de Moisés, quando da Primeira Aliança:

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“Este é o sangue da Aliança que Javé fez com vocês através de todas estas cláusulas” (Ex 24,8). O povo viu e sentiu o símbolo na aspersão justamente por ser sangue. Da mesma maneira, a fé explica o conteúdo do Mistério Pascal de Jesus Cristo por meio dos símbolos. Comungando só no pão, omitimos a força do símbolo do vinho que é o sangue derramado. A Eucaristia é necessariamente sangue derramado e corpo entregue. A frequente comunhão nas duas espécies ajudaria muito a aprofundar o sentido da Missa. Creio que lhe seja fácil compreender o motivo pelo qual uso vinho/ sangue antes de pão/corpo.

A Nova Aliança O sangue de Jesus Cristo derramado sobre a cruz dá continuidade à Aliança do Sinai. A continuidade é a característica fundamental da nova Aliança. Em Jesus Cristo, a renovação da Primeira Aliança tem sua continuidade no sentido de haver chegado à sua maneira definitiva de ser. Em Jesus Cristo, a Aliança está completa. A promessa está realizada. É eterna (cf. Rm 9-11)! Os cristãos mantêm a consciência dessa Aliança desde o início do Cristianismo (cf. Hb 1,1-2; Pontifícia Comissão Bíblica: O povo judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã, Edições Paulinas).

O Cordeiro Pascal Na Ceia Pascal Judaica, o cordeiro era sacrificado (imolado) no Templo de Jerusalém; depois, comido nas casas durante a Ceia Pascal, para o perdão (remissão, expiação) dos pecados do povo. É forte o simbolismo destas três palavras: imolado, comido, remissão. Esta Ceia Pascal Judaica era em lembrança da libertação da escravidão do Egito para estar em condições de, como povo livre,

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realizar a fundação do povo judeu livre e soberano, por uma ação direta de Deus (Javé). A ceia pascal, portanto, marca a identidade do povo judeu! É interessante ler todo o livro do Êxodo, principalmente o capítulo 12. Na Ceia Pascal Cristã, Cristo é o Cordeiro Pascal imolado e comido pela remissão dos pecados do povo (cf. 1Pd 1,18-20). Também ela celebra a libertação da escravidão do pecado e da morte e a fundação do novo Povo de Deus, livre e soberano pela nova e eterna Aliança, no novo mandamento do Amor, com ação direta de Deus! Existe uma coincidência profética: a matança dos cordeiros para a ceia pascal era feita no Templo, pelas 15 horas. Os Evangelhos colocam a morte de Jesus Cristo nesta hora, para indicar que o verdadeiro cordeiro pascal estava sendo imolado fora do Templo, com caráter explícito de novo sacrifício (Mt 26,17; Mc 14,12; Lc 22,7; Jo 19,31). Então, ratificada a Aliança no vinho (sangue derramado) e no pão (corpo entregue) a Comunidade de Fé parte para a missão que brota da Aliança: a mesa do serviço da Caridade no Amor (Terceira Mesa).

3) A MESA DA CARIDADE O serviço da Caridade: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19); “Deus é Amor” (1Jo 4,8). Em decorrência da Aliança, a comunidade celebra a renovação do compromisso da Igreja com a missão de continuar a comunicar a Boa Notícia de Jesus Cristo para viver o novo relacionamento humano, fraterno, por Amor. Depois do discernimento da Palavra e da ratificação da Aliança, a Comunidade continua a celebração fora do templo, no serviço à Mesa da Caridade. O Papa Bento XVI afirma que “a novidade da fé bíblica é a nova imagem de Deus e a nova imagem do homem” (DCE 9-11). O empenho da Igreja com a libertação dos pobres é perfeitamente

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eucarístico, porque tem sua fonte na Eucaristia/Missa (DCE 1939). A injustiça produz a pobreza, a miséria e a riqueza. Logo, só as estruturas sociais justas podem promover a transformação social exigida pela Eucaristia (DI 4; DAp 384; 501; 537). Conforme escreve o Papa João Paulo II, na “Mane Nobiscum Domine” (Fica conosco, Senhor) o serviço aos últimos é o critério para a digna celebração da Eucaristia sob três aspectos: a) É o critério para se comprovar a autêntica participação da Eucaristia na comunidade. b) “Paulo reafirma vigorosamente que não é lícita a Missa onde não resplandecer a caridade testemunhada pela partilha concreta com os mais pobres” (cf. 1Cor 11,17-22;27-34; MND 28). c) O serviço aos últimos é o sentido/sinal inequívoco da Eucaristia (cf. NMI 49; 25; DAp 257). Inequívoco significa que não dá margem a dúvida quanto à sua fidelidade; não corre o risco de interpretação equivocada (cf. NMI 49.25; DAp 257). O Catecismo da Igreja Católica (1397) declara: “A Eucaristia compromete com os pobres”. Para receber “o corpo e o sangue de Cristo, entregues por nós, devemos reconhecer Cristo nos mais pobres, meus irmãos”. Estas três mesas se desenvolvem num ritmo harmonioso, em continuidade uma com as outras. Nelas, a Comunidade de Fé celebra o Mistério Pascal de Jesus Cristo que institui a nova e eterna Aliança com o povo de Deus.

A HOMILIA A homilia faz a ligação das três Mesas entre si e com a vida cotidiana do povo de Deus depois da Missa, fora da igreja. Recomendação do Papa Bento XVI na “Verbum Dómini”: “Pensando na importância da Palavra de Deus, surge a necessidade de melhorar a qualidade da homilia; de fato, ‘esta constitui parte integrante da ação litúrgica’, cuja função é favorecer uma compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fiéis” (VD 59-60).

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A homilia é uma conversa familiar em torno de acontecimentos que mexem com a vida das pessoas. O acontecimento tratado na homilia é o Mistério Pascal de Cristo que atua na vida das pessoas para transformá-las. A conversa familiar gira em torno da Aliança. O Evangelho do dia apresenta algum aspecto dos termos da Aliança para consideração especial do povo de Deus naquele Domingo. Em torno desta proposta o povo precisa discernir para saber o que lhe está sendo proposto, para poder assumir seu compromisso com a Aliança de maneira consciente. E, então, estar em condições de ratificar os termos da Aliança. O decreto conciliar “Presbyterorum Ordinis” afirma sobre o ministério dos presbíteros: 1) a Palavra é o primeiro passo para a salvação; 2) o povo de Deus tem direito a ela; 3) o sacerdote tem como sua primeira tarefa a pregação da Palavra (cf. PO 4). O mesmo decreto (PO 16) exorta para a formação teológica íntegra, harmoniosa e vital. O homiliasta deve estar atualizado com o texto da Palavra e com a vida do povo. Porque a homilia não é apenas uma recordação da Palavra. Lembro uma expressão: o pregador precisa estar com o coração na Palavra, a mão com o jornal, os ouvidos no rádio, os olhos TV e a outra mão na massa, misturada à vida concreta do povo. Assim, a homilia se torna também conversação e convivência. É necessária a atualização da Palavra para hoje, porque é a Comunidade de Fé de hoje que será provocada ao discernimento sobre os termos da Aliança na situação de hoje! O homiliasta é colocado por Deus entre o divino da Palavra e o humano da vida real da Assembleia Litúrgica. São as duas fontes da homilia: a Palavra de Deus e a vida real do povo. Assim, ele tem a incumbência de esclarecer o projeto de Deus e torná-lo mais conhecido da Comunidade de Fé e vivido em melhor testemunho. A homilia recorda os termos da Aliança para a Comunidade de Fé/Assembleia Litúrgica fazer o discernimento. A homilia é

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colocada entre os dois parceiros da Aliança: a Palavra proposta pelo Evangelho e a Comunidade de Fé que aceita ou não ratificar a Aliança. Para viver a sua fé na sociedade humana, o povo de Deus precisa saber “dar as razões de sua fé” como recomenda São Pedro (1Pd 3,15). Nós homiliastas precisamos urgentemente dar à homilia a importância que ela tem na Liturgia e na vida concreta (cf. VD 59-60).

O OBJETIVO DA HOMILIA De maneira ampla podemos afirmar que o objetivo/finalidade da homilia é evangelizar. Entendendo que evangelizar é levar a Boa Notícia aos pobres. Para acontecer a chegada da Boa Notícia aos pobres é preciso ligar a Palavra proclamada com a vida do povo. A homilia é a intermediária entre a Palavra e a vida do povo. Ela provoca a Assembleia Litúrgica a dar sua resposta ao questionamento da Palavra de Deus. Para ratificar a Aliança. Foi alcançado o objetivo da homilia. A homilia não pode ser considerada sob o aspecto jurídico da Aliança com Deus. A Assembleia Litúrgica precisa ser orientada para “pensar teologicamente” a Aliança. A referência principal é a fé que procura entender o mistério da Aliança com Deus realizada no Mistério Pascal de Jesus Cristo. De acordo com a “Verbum Dómini”, a homilia precisa ser sempre o anúncio eficaz da “Palavra da Esperança” e do compromisso com o mundo pela justiça, pela reconciliação e a paz, com a caridade ativa, com os jovens, os migrantes e os pobres, e em defesa da criação (cf. VD 91- 108); também o compromisso com as culturas (cf. VD 109-116); e o diálogo interreligioso (cf. VD117120). Cada Domingo a homilia abre nova perspectiva para a comunidade poder aperfeiçoar a qualidade de sua vida cristã fraterna. O Papa trata da homilia como atualização da mensagem da Escritura (cf. VD 59).

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A homilia e a continuidade das três Mesas O homiliasta/pregador atualiza fazendo a ligação entre a Palavra e a comunidade; entre a Palavra e a Eucaristia; ele aponta a união das três mesas em perfeita continuidade uma com a outra e harmoniosa no conjunto. Para viver na sociedade a sua fé, o povo de Deus precisa saber “dar as razões de sua fé” como recomenda São Pedro (1Pd 3,15). A homilia não interrompe a continuidade. Pelo contrário, ela cria o ambiente e a disposição da Assembleia Litúrgica exatamente para estabelecer a continuidade da Palavra revelada e aceita em espírito de fé e vivida na caridade do cotidiano. Decidida a ratificação da Aliança pelo povo, se faz necessário selar a Aliança. É essencial mantermo-nos atentos à questão da continuidade que garante a unidade entre as três mesas da Missa! “... a própria Escritura leva a descobrir seu nexo indissolúvel com a Eucaristia” (cf. VD 53-56). A selagem ou confirmação ou ratificação é consumada no derramamento do sangue. A Bíblia confirma (cf. Ne 8,2-10; Ex 24,3-8; Hb 9,22). O papa João Paulo II coloca a solidariedade e o serviço aos últimos como integrantes de um “projeto de missão” e “o critério que comprova a autenticidade das nossas celebrações eucarísticas” (cf. MND 24-28).

A ESTRUTURA MÍNIMA DA HOMILIA começo, meio e fim A homilia está a serviço da Palavra de Deus, da Tradição e da vida atual do povo de Deus. Sempre otimista e esperançosa. O homiliasta/pregador faz a ligação entre a Palavra e a Comunidade; entre a Comunidade, a Palavra e a Eucaristia; entre a Comunidade, a Palavra, a Eucaristia/pão e vinho e o serviço da Caridade. É essencial que o homiliasta se mantenha atento à questão da continuidade que garanta a unidade entre as três mesas da Missa (Mesa da Palavra, Mesa da Eucaristia e a Mesa da Caridade).

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A estrutura proposta a seguir, já testada, comprova que é útil tanto para o homiliasta preparar sua incursão pela Palavra e pela vida do povo, como para manter-se seguro na caminhada com a certeza de estar no caminho para conseguir alcançar seu objetivo. A homilia se serve de esquema ou estrutura ou organização firmada no tripé tradicional, ou seja, ela se fixa em três pés, ou caminha em cima de três trilhos: o começo, o meio e o fim, para que ela tenha pé e cabeça.

O começo O começo não é só iniciar. É a apresentação do tema que estará presente na homilia, sempre ligado ao contexto do momento. O começo é marcado pela introdução, isto é, o orador introduz; quer dizer, põe o ouvinte por dentro do tema que será tratado. O tema estará presente em todas as partes do discurso e sempre ligado ao contexto do momento na vida do povo. Note que, no início, o orador apresenta uma frase sugestiva fácil de o ouvinte guardar na memória. Também é conveniente elogiar seu público, sem bajulação, mas um elogio elegante e discreto e sincero para captar a simpatia do público, seu agrado e sua atenção. Cícero e Padre Vieira eram mestres nisso que se chamava de “captatio benevolentiae” (captar, conquistar a benevolência ou o bem querer, ou conquistar as graças, a simpatia dos ouvintes). Procure explicar o que vai falar de modo a criar expectativas no público. No começo do seu discurso, é essencial – não pode faltar nunca – a presença clara de seu objetivo e do seu foco. O que é um e o que é outro? O objetivo é aonde você quer chegar; é o que você quer atingir. Sua atenção está presa ao ponto aonde você quer chegar. É o seu cuidado para que todos os seus argumentos ajudem a caminhada do ouvinte – e a sua – do começo até o fim. Seus ouvintes inteligentes perceberão que você foi extremamente claro em seu assunto, porque nunca se desviou dele e todas as suas ideias encaixavam umas nas outras até desembocar onde você queria.

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É importante levar em conta que o tema seja tratado como algo familiar aos ouvintes – ou para se tornar familiar a eles. Portanto, trata-se de assunto do interesse da comunidade. Daí que a vida da comunidade é o foco principal da oratória. Por isso, a insistência para que o orador conheça a vida da comunidade para estar em condições de fazer a ligação entre o assunto abordado e a vida vivida pela comunidade. A objetividade leva à clareza. Que trágica será a homilia quando o homiliasta não tiver clareza e perder a objetividade e passar a vagar sem direção! Ainda; para ser objetivo, deve ir direto ao assunto sem dar muitas voltas “rodeando o toco” como se diz. Indo direto, você mostra que tem completo domínio quer do tema e quer de seus próprios nervos; esta atitude revela que você sabe mais do que está falando sobre o tema. Mas, se você não tiver objetivo como ponto de chegada, os ouvintes irão dizer que você falou e falou, rodeou o toco e não disse nada. Dirão que discurso foi uma enrolação. Vamos ao foco. O foco é delimitar bem a dimensão ou o aspecto do assunto que você vai abordar. Delimitar é pôr os limites. É como se você falasse consigo mesmo: “Das muitas árvores do mato, eu vou escolher uma: e vou mostrar tudo o que só ela tem de especial”. É como um foco de luz que clareia a escuridão. O orador procure no meio de tantos acontecimentos da vida da comunidade o foco não abordado ou ainda não suficientemente abordado. Seja original! “O FOCO” é diferente da visão que se tem ou se faz de alguma paisagem, coisas etc. A visão mostra muita coisa, mas o foco é um aspecto da paisagem, porém completo. O foco é o responsável pelo aspecto original de sua homilia. O foco ajuda a ser original, diferente do uso comum. O orador bem focado vê o que os outros não veem. O foco prende a atenção. Deve-se focar o que for típico da mensagem e saborear o suco do assunto da homilia. O foco é a chave para se integrar o discurso com a vida da comunidade. O foco está intimamente ligado ao seu objetivo.

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É como focar uma cena para fotografia. A cena que desejo fotografar é muito vasta, ela tem vários focos. Eu vou selecionar um, os outros podem ficar para outras ocasiões. Portanto, o foco não está no homiliasta, mas na vida do povo de Deus reunido como Assembleia Litúrgica. O meio O meio não é só a metade do tempo ou do tamanho da homilia. É o espaço destinado a desenvolver os argumentos favoráveis ao assunto abordado. É o espaço destinado a desenvolver os argumentos com que você quer esclarecer o assunto abordado; aqui entram os argumentos que ajudam no discernimento do público para se convencer da proposta do seu discurso. Argumentos são as ideias e afirmações com que você tenta provar que o tema tratado no seu discurso é importante e útil para as pessoas e a comunidade. E que, por isso, vale a pena a comunidade refletir sobre seus argumentos e decidir-se em favor de sua proposta. Falando em proposta, é bom lembrar que imposição não convence. Para você impor é preciso usar a força; para você propor é preciso usar os argumentos. Existe até um trocadilho: a força do argumento e o argumento da força. Fique sempre com o primeiro. A força intimida as pessoas; os argumentos fazem pensar e respeitam a liberdade da pessoa para escolher o que achar melhor. A sequência dos argumentos poderá iniciar pelos menos importantes para chegar aos mais importantes. Porém o mais indicado é iniciar com os mais fortes até os mais fracos. Não é necessário expor todos os argumentos mais fracos. É preciso trabalhar com muito carinho o meio da homilia para seu bom desempenho. A tempestade de ideias acontece também agora. Tudo o que vier à sua cabeça sobre o assunto, você anota. Depois, selecione os aspectos e os melhores argumentos para convencer o público. Se julgar conveniente, o orador poderá também expor os argumentos contrários à sua proposta e refutá-los um a um.

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Homilia - começo meio e fim  

a homilia explicada pelo começo meio e fim

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